25 de setembro de 2026

Análises

Meridional

Uma campeã nacional?

O que a ascensão meteórica da JBS nos ensina sobre a política de desenvolvimento no Brasil

Um pecuarista conduzindo o gado, Cotriguaçu, Mato Grosso, Brasil, 2014

Após a posse de Trump no ano passado, o debate se concentrou na presença dos executivos das “Big Techs” e no que isso implicava sobre a relação entre o capital e o projeto MAGA. No entanto, como a senadora Elizabeth Warren observou, o maior doador individual do comitê de posse foi a Pilgrim’s Pride, uma empresa estadunidense de propriedade da JBS, a gigante do setor alimentício originária do Brasil. A doação de US$ 5 milhões da Pilgrim’s Pride não foi apenas a maior, mas chegou a “superar as contribuições do CEO da Apple somadas às da Amazon, Meta e Google”.

Há suspeitas de que a contrapartida dessa doação tenha sido a autorização para que a JBS listasse suas ações na Bolsa de Valores de Nova York (NYSE), uma antiga aspiração dos irmãos Batista—Joesley e Wesley—, que detêm o controle acionário da empresa. Como Warren afirmou, a aprovação do pedido da JBS pela Comissão de Títulos e Câmbio dos EUA, “concedida poucos meses após a doação da Pilgrim’s Pride, levanta questões quanto a uma influência indevida”.  Além disso, de acordo com um artigo publicado pelo The New York Times, uma empresa de propriedade dos Batistas recebeu, em julho deste ano, a “bênção do novo governo [venezuelano] apoiado por Trump” para adquirir uma participação significativa na produção de petróleo do país. Muitas colunas poderiam ser escritas sobre a JBS, abordando uma infinidade de casos de ganância corporativa, corrupção e abusos. Para quem entende português, a nova série de podcasts O berro do boi oferece uma excelente análise da história da empresa, com base em muitos anos de jornalismo investigativo realizado por Consuelo Dieguez para a Revista Piauí. Aqui, porém, o objetivo será outro: examinar as difíceis questões que o caso da JBS levanta para o pensamento desenvolvimentista. 

Dada a estreita relação entre a JBS e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)—que detém cerca de um quinto da empresa—, uma reação comum às controvérsias da JBS é alegar que elas são a consequência necessária da intervenção do governo na economia. A implicação parece ser bem-vinda pelos defensores do livre mercado: a única maneira de evitar a corrupção é reduzir o papel do Estado e, assim, impor a disciplina de mercado aos agentes econômicos. Isso é, na melhor das hipóteses, ingênuo, já que mercados não regulamentados costumam ser propícios a abusos e tendem à concentração corporativa, terminando muito distantes da imagem idealizada de concorrência leal entre uma multidão inocente de tomadores de preços. Além disso, é difícil encontrar nos registros históricos exemplos de países periféricos que tenham alcançado altos níveis de renda sem recorrer à intervenção estatal nos mercados—em outras palavras, sem “errar” os preços relativos, como disse Alice Amsden em sua famosa frase.

Mas é útil levar a sério o desafio que a história da JBS representa para a prática do desenvolvimento e os riscos que a intervenção estatal implica. Esse caso nos leva a ir além da economia do desenvolvimento, focando também em suas dimensões políticas. O apoio concedido pelo BNDES à JBS não apenas criou um colosso corporativo com contribuições muito duvidosas para o desenvolvimento brasileiro, mas também ajudou a enfraquecer as bases sociais e políticas de um projeto de desenvolvimento inclusivo, sendo um fator-chave para o surgimento do agri-bolsonarismo—a força eleitoral que pode ser decisiva para o retorno da extrema direita ao poder no Brasil nas próximas eleições. Se isso for evitado e Luiz Inácio Lula da Silva permanecer no cargo por mais quatro anos, será crucial canalizar a capacidade institucional representada pelo BNDES para direções mais frutíferas, bem como conceber maneiras de limitar o imenso poder acumulado pelos irmãos Batista.  

A ascensão, queda e nova ascensão da JBS

A empresa que viria a se tornar a JBS foi fundada há muitas décadas, quando um açougue no interior do Brasil, de propriedade do pai de Joesley e Wesley, adquiriu um pequeno frigorífico e aproveitou as oportunidades do mercado criado pela fundação de Brasília, a nova capital do país, construída na década de 1950. No final da década de 1990, quando a JBS (na época chamada Friboi) transferiu sua sede para o estado de São Paulo, já havia adquirido uma série de outros frigoríficos, participando da consolidação corporativa do setor que se seguiu à liberalização comercial e ao fim da hiperinflação. O ponto de inflexão em sua história, no entanto, ocorreria em 2005, quando comprou a Swift-Armour na Argentina com um empréstimo do BNDES que cobriu 85% do preço pago. Nos primeiros anos do boom das commodities, quando as exportações de produtos primários da América do Sul dispararam devido à reordenação da divisão internacional do trabalho pela China, a JBS começou a diversificar suas operações para além do Brasil.

Dois anos depois, a empresa começou a vender ações na Bolsa de Valores de São Paulo, transformou sua relação com o BNDES e caminhou para o domínio global. Em 2007, o BNDESPar—o braço do BNDES que financia empresas por meio da compra de suas ações, em vez da concessão de crédito—injetou 1,1 bilhão de reais na empresa para permitir que ela adquirisse as operações da Swift nos Estados Unidos e se tornasse a maior produtora de carne bovina do mundo.

Nos dois anos seguintes, mais uma vez com o apoio do BNDES—desta vez ao lado da Petros e da Funcef, os fundos de pensão da Petrobras e de um dos maiores bancos públicos do país—, a JBS comprou mais empresas estadunidenses e brasileiras (Smithfield, National Beef, Five Rivers, Pilgrim’s Pride, Bertin), expandiu-se para o setor avícola e tornou-se a maior produtora de proteína animal do mundo.

Na década de 2010, ela continuaria a se expandir, adquirindo subsidiárias de grandes transnacionais como a Cargill e a Tyson para fortalecer sua posição nos mercados europeu e asiático. Simultaneamente, no Brasil, ela diversificou operações para além da proteína animal, passando a atuar nos setores de celulose e papel, construção civil e finanças. Na década que se seguiu à primeira aquisição no exterior, a receita líquida da JBS aumentou em 40 vezes. Em seguida, em meados da década de 2010, ela se estabilizou, antes de crescer novamente, dobrando de tamanho entre 2015 e 2021. No Brasil, ela não estava entre as 400 maiores empresas em 2002, mas subiu para a posição de quinta maior em 2010. Globalmente, entrou para a lista das empresas da Fortune Global 500 em 2010, ocupando a 496ª posição. Três anos depois, subiu para a 275ª posição.

No entanto, essa ascensão não foi isenta de controvérsias. Em 2017, sob pressão das autoridades brasileiras em várias frentes (desde acusação de evasão fiscal e desmatamento até suborno de fiscais sanitários), os irmãos Batista decidiram fechar um acordo de delação premiada com o Ministério Público, oferecendo gravações comprometedoras que fizeram de uma série de políticos, incluindo o então presidente Michel Temer. Essa medida ousada foi impulsionada por acontecimentos políticos da época: o Brasil havia sido abalado por protestos em massa em 2013, que levaram o governo a aprovar uma nova legislação anticorrupção, conferindo ao Ministério Público o poder de oferecer acordos de delação e leniência a pessoas e empresas sob investigação, como forma de obter informações sobre atividades criminosas. Os novos poderes foram amplamente utilizados em uma série de escândalos de corrupção que envolveram a petrolífera estatal e grandes empresas de construção civil (posteriormente, foi revelado que a campanha anticorrupção resultou de uma articulação politicamente tendenciosa entre um juiz federal e um grupo de promotores públicos que tinham como objetivo derrubar Lula. O então ex-presidente foi preso em 2018, abrindo caminho para a vitória eleitoral do candidato de extrema direita Jair Bolsonaro, que nomeou o juiz federal em questão como seu ministro da Justiça. As condenações de Lula foram anuladas em 2021).

Preocupados com a possibilidade de as investigações de corrupção chegarem até eles, os irmãos Batista decidiram agir, gravando autoridades e oferecendo um acordo judicial de longo alcance que prometia implicar uma série de políticos de alto escalão. Ao detalhar esquemas significativos de suborno, isso levou ao maior acordo da história do Brasil: a holding da JBS comprometeu-se a pagar 3,2 bilhões de dólares em indenização em troca da isenção de processo criminal. O acordo foi parcialmente revogado, e ambos acabaram enviados para a prisão por quase um ano. O dia em que as gravações feitas com o presidente foram divulgadas—conhecido como “Joesley Day”—foi marcado por uma venda massiva de ações na bolsa de valores brasileira e pela suspensão automática das negociações (circuit breaker). Sempre em busca de uma maneira de enriquecer, os irmãos teriam usado a informação privilegiada de que as gravações seriam tornadas públicas para lucrar no mercado de ações.

Um dos principais enigmas que O berro do boi deixa sem resposta é como eles conseguiram voltar ao topo após a prisão. Reintegrados ao comando da JBS, os irmãos Batista retomaram a onda de aquisições, foram recebidos de braços abertos pela classe política brasileira e conquistaram influência na Casa Branca de Trump.

Desde 2023, eles retomaram a posição central nas missões oficiais brasileiras no exterior. Joesley aparentemente atuou como mediador-chave entre Lula e Trump quando este desencadeou os ataques tarifários contra o Brasil. A listagem das ações da JBS na NYSE no ano passado culmina esse renascimento. Este ano, a empresa comprou uma fabricante brasileira de equipamentos de defesa em uma operação que alimentou especulações sobre possíveis motivações geopolíticas.

Tal ressurgimento não significa que os problemas legais dos Batistas tenham acabado—longe disso. Em casos que alegam violações ambientais, trabalhistas e concorrenciais, as evidências de irregularidades continuam se acumulando. A empresa tem sido repetidamente associada a operações de lavagem de gado que visam contornar compromissos contra o desmatamento, bem como a pecuaristas acusados de abusos trabalhistas, grilagem de territórios indígenas e outras atividades ilegais. E isso não se restringe ao Brasil. Em 2021, por exemplo, a Pilgrim’s Pride se declarou culpada de acusações criminais relacionadas à manipulação de preços nos EUA. Três anos depois, a JBS concordou em pagar aproximadamente US$ 140 milhões em uma ação coletiva que alegava a supressão dos salários dos trabalhadores em frigoríficos nos Estados Unidos.

Campeões nacionais

Por mais notável que seja, a ascensão da JBS ao domínio global pode ser vista como parte de uma tendência mais ampla de empresas transnacionais originárias do Sul Global assumindo relevância crescente. O boom do comércio internacional ocorrido nas décadas de 1990 e 2000, impulsionado pela consolidação de cadeias de suprimentos globais com operações espalhadas além das fronteiras nacionais, permitiu a ascensão de empresas globais de países periféricos, desafiando o domínio das empresas já estabelecidas do núcleo capitalista. Na década de 2000, alguns viram nisso uma redefinição do mapa corporativo global: como escreveu o economista e investidor Javier Santiso, “grupos multinacionais estão surgindo na China, na Índia, na República da Coreia, na Turquia e na África do Sul e, um após o outro, conquistando posições importantes não apenas nos mercados domésticos, mas também nos mercados externos”. 

A proeminência das corporações latino-americanas nesse período levou Santiso a batizar a década de 2000 de “década das multilatinas”, ou seja, das empresas transnacionais da América Latina. Visto sob um ângulo diferente, à medida que as economias periféricas se integravam mais profundamente à economia mundial, os capitalistas locais passaram a operar em maior escala e o processo de centralização do capital ganhou velocidade—um fenômeno conhecido como “centralização descentralizada”, ou seja, a centralização do capital sem um único centro geográfico. O aprofundamento da especialização do Brasil como fornecedor de commodities primárias para a economia mundial permitiu que algumas de suas empresas (não apenas a JBS, mas também a Amaggi, a Vale e a Petrobras, entre outras) encontrassem lugar no cenário global. 

Os economistas desenvolvimentistas brasileiros viram nisso uma oportunidade. O fortalecimento dos chamados “campeões nacionais”—ou seja, empresas transnacionais controladas por capitalistas brasileiros—foi considerado uma política fundamental para estimular as exportações e, dessa forma, atenuar a vulnerabilidade externa do país. Os superávits em conta corrente foram considerados uma “meta macroeconômica estratégica”, pois ampliavam o espaço de manobra política e criavam as condições para taxas de juros mais baixas (desde que o Brasil adotou o atual regime macroeconômico—que combina metas de inflação com taxas de câmbio flutuantes—, o país tem enfrentado taxas de juros extraordinariamente altas, que alguns consideram ser impulsionadas por vulnerabilidade externa.

Luciano Coutinho argumentou em 2002 que apoiar “campeões nacionais competitivos” poderia levar à concentração no país de “atividades de alto valor agregado nas áreas de gestão, finanças, inovação organizacional e desenvolvimento de marcas e tecnologia”, o que ajudaria a manter “os melhores empregos e as melhores oportunidades de desenvolvimento profissional” no Brasil. Em um contexto de liberalização comercial, a internacionalização das empresas nacionais era uma condição para sua sobrevivência. Caso contrário, alertou Coutinho, o mercado interno seria dominado por empresas estrangeiras, “que tendem a concentrar a inovação e as atividades de alto valor agregado em seus países de origem”, impedindo o estabelecimento no país de “centros endógenos de progresso técnico”.

O BNDES, presidido por Coutinho entre 2007 e 2016, foi a principal instituição encarregada de fomentar os campeões nacionais. Em 2002, seu estatuto foi alterado para permitir o financiamento de investimentos de empresas brasileiras no exterior—uma prática anteriormente proibida, pois era vista como um incentivo à exportação de empregos e ao uso de divisas escassas sem benefícios claros. Um ano depois, com o Partido dos Trabalhadores no poder pela primeira vez e economistas desenvolvimentistas ocupando um lugar mais destacado no aparato estatal, foi criado um grupo de trabalho dentro do BNDES para avaliar a possibilidade de apoiar a internacionalização de empresas brasileiras. A primeira operação desse tipo, dois anos depois, foi a aquisição da Swift-Armour na Argentina pela JBS. Isso abriu caminho para um esforço muito mais amplo: entre 2005 e 2013, o valor dos empréstimos líquidos em aberto do BNDES quase triplicou em termos reais, tornando sua carteira semelhante em tamanho à do Banco Mundial. As 20 empresas brasileiras classificadas como as mais internacionalizadas (em termos de ativos, receita e empregos) em 2018 haviam todas recebido apoio do BNDES. Uma parte significativa desse apoio foi concedida por meio da aquisição de ações: 14 das 20 maiores multinacionais brasileiras de 2014 eram parcialmente de propriedade do Estado.

Reforçando a subordinação produtiva

Dessa forma, a estratégia de criar campeões nacionais foi um sucesso? Muitas empresas brasileiras se tornaram substancialmente mais internacionalizadas e algumas delas—sobretudo a JBS—ocupam posições de poder em seus setores. Mas qual foi o impacto dessa estratégia para o restante da economia brasileira? Se nos concentrarmos na questão da vulnerabilidade externa, seria difícil afirmar que a estratégia teve resultados inequivocamente positivos. É verdade que, desde 2005, o governo brasileiro conseguiu acumular reservas internacionais em uma escala sem precedentes, construindo defesas contra os choques externos. Em 2013, havia multiplicado suas reservas em cerca de sete vezes e, desde então, as mantém em um nível em torno de US$ 360 bilhões. A internacionalização das empresas brasileiras pode ter contribuído para as condições que tornaram possível essa política de acumulação de reservas, aproveitando os extraordinários booms das commodities e da liquidez da década de 2000. No entanto, se o governo federal se tornou menos vulnerável às flutuações cambiais, o mesmo não pode ser dito sobre entidades subnacionais e o setor privado. O problema de uma taxa de câmbio extraordinariamente volátil assombra o Brasil, cuja economia está intimamente ligada ao ciclo financeiro global.

Um defensor da estratégia poderia argumentar, com razão, que tal vulnerabilidade persistente foi resultado do fracasso da política macroeconômica, e não da estratégia dos campeões nacionais. Mas os fracassos também são evidentes, mesmo quando se analisa o desempenho exportador da economia, o alvo direto da estratégia. Como mostram as duas figuras abaixo, em termos da participação do Brasil nas exportações globais, a situação claramente piorou. Desde 2005, a economia brasileira aumentou sua participação no mercado global apenas nos setores de agricultura e minerais, registrando quedas nos setores que tendem a ser mais intensivos em tecnologia ou a ter mais vínculos com outros setores (produtos químicos, eletrônicos, maquinário, veículos). Os aumentos na participação da agricultura e dos minerais não devem ser desconsiderados, mas é difícil conceber uma estratégia de desenvolvimento inclusivo construída quase inteiramente com base nesses dois pontos fortes.

A crescente dependência da economia brasileira em relação a essas commodities primárias também se reflete nas atividades das empresas brasileiras internacionalizadas. Como observaram Judit Ricz e Michael Schedelik, “ao analisar a composição dos ativos no exterior das 20 maiores BMNEs [empresas multinacionais brasileiras] por principais setores em 2016, petróleo e gás, mineração, processamento de alimentos, metalurgia e celulose e papel representavam mais de 90%”. É difícil discordar da conclusão que eles tiraram disso: “as novas políticas industriais em geral e a estratégia dos campeões nacionais em particular não conseguiram promover nenhuma mudança estrutural razoável no Brasil.”

De certa forma, isso era de se esperar. O BNDES concentrou-se deliberadamente nos pontos fortes existentes da economia para promover a internacionalização das empresas brasileiras. Reforçou, assim, as características estruturais existentes da economia, em vez de transformá-las. Tem-se argumentado que as pressões da política eleitoral impulsionaram ainda mais o governo nessa direção, já que a necessidade de estimular o crescimento e mostrar algum sucesso no curto prazo levou o banco a se concentrar em setores que já eram competitivos. É necessária uma estratégia de longo prazo—politicamente difícil de se sustentar—para desafiar a vantagem comparativa em vez de se conformar a ela, superando, em vez de aprofundar, a subordinação produtiva.

A política do desenvolvimento

O caso da JBS não é uma exceção, mas sim representativo de uma estratégia que fortaleceu os setores exportadores de commodities. E a dinâmica política que isso desencadeou revela, de forma particularmente clara, os riscos de tal estratégia. Considerando que o BNDES detém, desde 2007, pelo menos 20% das ações da JBS, seria de se esperar que ele buscasse exercer influência sobre a trajetória da empresa. No entanto, teve pouco sucesso nesse sentido. Em 2016, com o Partido dos Trabalhadores afastado do governo federal e o BNDES enfraquecido pelo novo governo neoliberal, a JBS anunciou um plano para transferir sua sede do Brasil para a Irlanda.

O banco de desenvolvimento vetou a medida, que efetivamente desnacionalizaria uma campeã nacional. No entanto, um acordo entre os irmãos Batista e o BNDES levou praticamente ao mesmo resultado: a empresa foi dividida em duas—uma brasileira, responsável pelo negócio de carne bovina no país, e outra na Holanda, responsável por todas as atividades no exterior e pelo negócio  avícola. Como resultado, 85% das vendas totais da JBS foram transferidas para o exterior. O BNDES também tentou, sem sucesso, usar seu poder acionário para alterar a política da empresa em relação à remuneração dos executivos, já que os salários dos altos executivos eram considerados excessivos em comparação com os padrões de mercado. Ele registrou formalmente sua desaprovação em 2018, sem nenhum impacto perceptível na trajetória da remuneração dos executivos.

Renato Gaspi e Pedro Perfeito da Silva sugeriram que essas falhas são inerentes ao arranjo público-privado, já que as ações detidas pelo BNDES limitavam seu interesse em disciplinar a empresa por temor de sofrer perdas financeiras. Ao discutirem os casos tanto da JBS quanto da Marfrig, outra campeã nacional do setor de proteínas animais, eles argumentaram que “quaisquer medidas mais ousadas nesse sentido poderiam desencadear uma reação dos mercados financeiros… o que, por sua vez, poderia levar a prejuízos para o Banco e para os contribuintes. À medida que o envolvimento do governo crescia, crescia também o poder do setor [de proteínas animais] de pressionar por benefícios com condicionalidades fracas”. Esse era um problema particularmente grave nesse setor, devido à fraqueza das forças setoriais, como sindicatos ou movimentos sociais, capazes de pressionar o governo em direções alternativas. O resultado, dizem eles, foi um regime neoliberal desarticulado. 

Mas o que estava em jogo não era apenas o fracasso do governo em disciplinar o capital. As mudanças políticas provocadas pela consolidação da JBS e de outros campeões nacionais no setor de proteínas animais se fizeram sentir além da indústria, acabando por engolir o país inteiro. A consolidação do setor de processamento de carne, que precedeu a estratégia dos campeões nacionais, mas foi intensificada por ela, resultou em uma cadeia de abastecimento oligopsônica que exerceu pressão sobre a multidão de pecuaristas que abasteciam as empresas a jusante. Entre 2011 e 2023 (período para o qual há dados disponíveis), apenas a JBS controlava mais de um terço de todas as exportações de carne bovina. Se somarmos as participações das duas maiores empresas seguintes (Marfrig e Minerva), a participação total ultrapassa dois terços. Uma estrutura oligopsônica semelhante também pode ser observada na cadeia de abastecimento da soja. Politicamente, essas reorganizações setoriais promoveram a formação de um bloco social unido em oposição a esses oligopsonhos, liderado por pequenos e médios pecuaristas e produtores de soja, que se tornou uma das principais bases eleitorais da extrema direita no Brasil. O antropólogo Caio Pompeia chamou isso de “agri-bolsonarismo”. 

As origens desse bloco remontam a 2012, anos antes de Bolsonaro ganhar destaque, quando organizações agrárias participaram do “Movimento Nacional contra o Monopólio das Frigoríficas” Os líderes desse movimento, como Luiz Nabhan Garcia, da UDR (União Democrática Ruralista), foram gradualmente ganhando influência em organizações locais e regionais, unindo diversos grupos que compartilhavam um antagonismo não apenas em relação aos “campeões nacionais”, mas também ao Partido dos Trabalhadores—em parte pelo apoio deste às grandes corporações. Sua antipatia pelo projeto liderado por Lula também era motivada pelas políticas ambientais. Desde 2018, eles canalizaram esse poder acumulado em apoio a Bolsonaro, contribuindo decisivamente para seu desempenho eleitoral. A sobreposição entre as regiões onde ocorreram crescimento do setor da soja e da pecuária e as áreas que votaram na extrema direita tanto em 2018 quanto em 2022 é clara. Em 2023, esses pecuaristas e agricultores formaram a maior parte das fileiras da tentativa de golpe da extrema direita, invadindo o Palácio Presidencial e o Supremo Tribunal Federal.

A estratégia dos “campeões nacionais” fazia parte de um projeto mais amplo que conseguiu, por um tempo, acelerar o crescimento econômico e reduzir as desigualdades salariais no Brasil, construindo um apoio leal ao Partido dos Trabalhadores entre a metade mais pobre da população, especialmente no Nordeste, a região mais pobre do país. Esse apoio fortaleceu o poder eleitoral do partido—o Partido dos Trabalhadores venceu cinco das seis eleições presidenciais realizadas desde 2002. Desde 2018, porém, sua supremacia eleitoral vem sendo desafiada pela extrema direita.

O “agri-bolsonarismo” proporcionou à extrema direita uma base territorial semelhante à do Nordeste. Dessa forma, a estratégia dos campeões nacionais contribuiu para a formação de uma força política que arrisca provocar sua própria ruína e ameaça as instituições democráticas brasileiras. Quando o governo federal virou para a direita, primeiro com Temer e depois com Bolsonaro, o próprio banco de desenvolvimento foi submetido a profundas mudanças que reduziram seu financiamento e restringiram suas ações. É uma ironia particular que a medida que deu origem a esta nova ordem—o impeachment de Dilma Rousseff, sucessora de Lula—tenha contado com o apoio dos irmãos Batista. Uma das confissões de Joesley, em seu acordo de delação, foi que ele pagou a membros do Congresso para votarem a favor do impeachment. 

Isso não deve ser interpretado como uma acusação ao BNDES. Muito pelo contrário: o banco e sua equipe técnica representam uma conquista fundamental do país em termos de construção da capacidade do Estado e são essenciais para a implementação de qualquer plano de desenvolvimento futuro. Além disso, o histórico do BNDES nas últimas duas décadas não se restringe à estratégia dos campeões nacionais, envolvendo uma série de políticas e linhas de crédito que devem ocupar um lugar de destaque em uma estratégia de desenvolvimento inclusivo. A lição a ser tirada de uma análise crítica da história da JBS é que qualquer programa de desenvolvimento precisa considerar cuidadosamente suas implicações políticas, já que um dos principais desafios é manter o apoio político para que possa ser sustentado pelo tempo necessário para dar frutos. Especialmente durante processos de transformação estrutural—que vêm acompanhados de mudanças profundas nas estruturas econômicas e sociais—, a formação de coalizões políticas em apoio às estratégias de desenvolvimento é particularmente desafiadora. Em retrospectiva, fomentar campeões nacionais na agricultura industrial causou muito mais danos do que benefícios, contribuindo para consolidar uma estrutura produtiva dependente de exportações de commodities e, ao mesmo tempo, alimentando um antagonismo crescente em relação à democracia. 

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