edição 1, junho de 2026

Análises

Poder Americano

China Global

Cooperação Sul-Sul entre desenvolvimento e dependência

Hong Hao, The World Map, 2000.

À medida que os EUA parecem recuar de sua posição hegemônica global, distanciando-se das instituições multilaterais que ajudaram a criar, travando guerras militares mal planejadas contra adversários e guerras econômicas mutuamente destrutivas contra aliados, a questão do poder da China no cenário mundial ganhou destaque. Internamente, a economia chinesa—que já responde por 20% do PIB global—continua em expansão e está prestes a ingressar no grupo dos países de alta renda. A China é a superpotência industrial mundial e ostenta um superávit comercial de US$ 1 trilhão. Em 2025, respondeu por quase 30% do valor agregado da indústria global. No plano internacional, emergiu como uma competidora de peso, e o “espectro da China” é frequentemente invocado conforme as preocupações com o declínio estadunidense aumentam. Grande parte dessa proeza se deve à crescente estratégia de infraestrutura e desenvolvimento econômico internacional adotada por Pequim. Lançada oficialmente em 2013, a Iniciativa Cinturão e Rota já mobilizou um total acumulado de US$ 1,4 trilhão em 150 países, por meio de empréstimos e investimentos voltados principalmente à infraestrutura física na Ásia, África e América Latina.

Nos últimos anos, a China passou a impulsionar uma nova fase da Iniciativa, focada em tecnologias verdes e energias renováveis. Em 2024, o país investiu US$ 340 bilhões em manufatura verde doméstica e, ao longo dos últimos três anos, o investimento estrangeiro direto em tecnologias limpas alcançou uma escala sem precedentes. Como observa Mathias Larsen, em valores corrigidos pela inflação, os investimentos estrangeiros superam com ampla margem os US$ 200 bilhões do Plano Marshall. Tim Sahay relata que “desde 2011, empresas chinesas comprometeram mais de US$ 227 bilhões em 461 projetos de manufatura verde em 54 países, com 88% do investimento ocorrendo apenas desde 2022”. Esse novo movimento tem sido descrito como a Cinturão e Rota 2.0.

Ao analisar a ascensão da China no cenário internacional, o alcance e a escala de seus investimentos externos costumam atrair a maior parte da atenção. Mas o projeto global chinês não se limita à esfera político-econômica. A liderança do país na transição verde do mundo em desenvolvimento constitui apenas uma das dimensões de uma agenda desenvolvimentista muito mais ampla e multifacetada. A China global é um projeto de poder estatal que vai muito além da transformação econômica, envolvendo também mudanças normativas e epistemológicas. Como veremos, a China inaugurou novos padrões de governança global e regimes de produção de conhecimento. Em todas essas frentes, ela não atua sozinha, mas em parceria com países que recebem seus investimentos. Essa perspectiva contrasta com as leituras que retratam a China como um monólito autossuficiente, capaz de impor sua vontade ao restante do mundo e operar acima das cabeças dos países do Sul global submetidos à sua influência, ao mesmo tempo em que apagam o papel desempenhado pelo próprio Sul na ascensão chinesa.

Em vez de recorrer a juízos retóricos que ora glorificam, ora demonizam a relação da China com o Sul global, este ensaio destaca arenas de disputa-chave que demandam uma investigação empírica aprofundada. Examinar as engrenagens e consequências dessas disputas é essencial para compreender a natureza da relação entre a China e o Sul. Determinar se essa relação é um caso de “desenvolvimento descolonial”—capaz de produzir resultados mais justos, equitativos e emancipatórios do que aqueles associados à influência ocidental—ou uma nova forma de colonialismo, baseada em uma hegemonia renovável que, ainda assim, forja novas cadeias de dependência, exige um estudo concreto das dinâmicas que articulam a China global e o Sul global.

Transição verde, geopolítica e reindustrialização

A China emergiu como líder incontestável da transição energética em escala global. Sua própria economia é cada vez mais impulsionada pela energia limpa, tornando-a o primeiro grande “eletroestado” do mundo. O país também se tornou o principal produtor e exportador de tecnologias limpas para a África, Ásia e América Latina, regiões em que as elites políticas vêm reimaginando projetos nacionais de desenvolvimento baseados em redes elétricas, painéis solares, baterias e veículos elétricos fabricados pelos chineses. Grande parte das análises sobre esse processo enfatiza os imperativos chineses e ignora as demandas e aspirações desenvolvimentistas dos governos do Sul global, que vêm elaborando suas próprias visões de reindustrialização, mobilidade verde e fortalecimento do conteúdo nacional nas cadeias produtivas de energias renováveis. Países como Quênia e Bangladesh, que já utilizam tecnologias limpas importadas da China, estão anos-luz à frente do Ocidente na transição energética verde. Coletivamente, o Sul global demonstra grande ambição nesse campo: não apenas para alcançar o Ocidente, mas para saltar para outro regime energético. Se forem bem-sucedidos, a atual ordem político-econômica global, baseada em petroquímicos e combustíveis fósseis, poderá ser profundamente transformada—o que representaria mais um impulso estratégico para a China.

O que agora se descreve como transição verde é uma oportunidade histórica para os países do Sul atingirem suas próprias metas climáticas e ambientais. E, mais do que isso, é uma base para oferecer energia acessível a setores industriais há muito prejudicados por déficits energéticos e possibilitar mobilidade e consumo a cidadãos que aspiram a padrões mais elevados de bem-estar. A reindustrialização baseada na agregação de valor às cadeias produtivas ocupa posição central nas agendas nacionais de desenvolvimento. Décadas de neoliberalismo, privatização de minas e terras, além da atrofia das capacidades e funções do Estado, levaram à “primarização” de muitas economias. Agora, muitos desses países buscam aproveitar suas vantagens naturais em minerais críticos não tanto para integrar suas economias às cadeias globais de valor organizadas por multinacionais ocidentais, mas para construir suas próprias cadeias produtivas nacionais. Isso envolve desde a extração e o beneficiamento mineral até a manufatura de componentes e a montagem final de produtos verdes.

Se o crescimento das cadeias globais de commodities na década de 1990 foi impulsionado pelo capital transnacional e pela ideologia dominante do neoliberalismo, o desenvolvimentismo de hoje é um projeto liderado pelo Estado e influenciado por transformações geopolíticas e pelo nacionalismo de recursos. E, em vez de cadeias produtivas dispersas globalmente, os governos buscam internalizar essas estruturas em seus próprios territórios nacionais. Desde antes da Covid-19, isso já vinha favorecendo estratégias corporativas de produção verticalmente integrada tanto nos Estados Unidos quanto na China.

No contexto dessa produção verticalmente integrada, o capital estrangeiro ainda é muito procurado, mas alguns Estados do Sul global vêm reafirmando seu mandato desenvolvimentista. É o caso da Indonésia, onde o presidente Joko Widodo proibiu, em 2020, a exportação de produtos de níquel não processados. Da mesma forma, no Brasil, o Partido dos Trabalhadores lançou a Nova Indústria Brasil em 2024, que inclui uma política para a industrialização doméstica do lítio. O presidente da Zâmbia, Hakainde Hichilema, impulsionado pela corrida global por minerais críticos, aposta em uma posição muito mais forte para os governos africanos nas negociações com investidores. A forma como os governos do Sul global continuarão explorando essa nova vantagem será decisiva. Se esses países se limitarem a competir por investimento por meio de políticas de concessão como isenções fiscais, cessão gratuita de terras e legislações trabalhistas permissivas, sem exigir compromissos de localização produtiva e transferência de tecnologia, os ganhos desenvolvimentistas da transição verde serão bastante limitados.

Nesse processo, a China ocupa uma posição contraditória. Ao longo da última década, encontrei muitos funcionários públicos e formuladores de políticas na Zâmbia, no Brasil e na Indonésia que admiram profundamente a trajetória chinesa: seus avanços extraordinários em crescimento econômico, geração de riqueza, redução da pobreza, capacidade de governança e desenvolvimento tecnológico. Tornando essa experiência ainda mais atraente, a China oferece a esses países soluções completas, desde a concepção e o financiamento até a construção de projetos de infraestrutura, acompanhadas de uma sedutora ideologia de parceria de desenvolvimento “Sul-Sul”, em contraste com a relação condescendente de “doadores-beneficiários” inerente à ajuda ao desenvolvimento ocidental. Não se deve esquecer, contudo, que a China também possui seu próprio projeto de integração vertical na produção de tecnologias renováveis, tanto dentro quanto fora de suas fronteiras. Assim como ocorreu na primeira fase da Iniciativa Cinturão e Rota, a exportação de capacidade excedente, a garantia de acesso a minerais críticos e a mercados locais e regionais constituem motores centrais dessa estratégia. Nesse sentido, o risco de que a China acabe se tornando uma concorrente predatória para os países do Sul global que buscam consolidar suas próprias cadeias nacionais de suprimento verde não pode ser subestimado. Resta saber se esses países estarão dispostos—e serão capazes—de impor políticas de conteúdo nacional que obriguem investidores chineses a estabelecer operações produtivas locais, ou se ficarão restritos à montagem local de componentes importados da China.

O histórico chinês de obtenção de transferência de tecnologia em troca de acesso ao mercado, especialmente na indústria automobilística, pode oferecer um modelo adaptável. Há pesquisas que demonstram que o investimento estrangeiro chinês apoiado pelo Estado é bastante sensível a demandas locais. Minha própria pesquisa na Zâmbia mostra que a definição abrangente de “lucro” adotada pelo capital estatal chinês—que envolve não apenas retornos financeiros, mas acesso a minerais e influência política—torna suas empresas menos voláteis e menos propensas à fuga de capitais do que outros investidores e, portanto, mais abertas a negociar com o Estado anfitrião. Agora, os países em desenvolvimento com grandes mercados internos e controle sobre minerais críticos serão capazes de aproveitar este momento de disputa geopolítica em torno das cadeias produtivas para reequilibrar sua relação com a China? Essa não é apenas uma questão de capacidade burocrática. O realinhamento de poder e de interesses entre classes dominantes já consolidadas terá impacto decisivo na forma como os países do Sul se relacionarão com Pequim. Na Indonésia, por exemplo, pesquisadores relatam que “interesses oligárquicos, enriquecidos e fortalecidos pelo boom do níquel dominado pela China e, consequentemente, pouco interessados em endurecer salvaguardas ambientais, sociais e de governança (ESG, na sigla em inglês), encontraram aliados no aparato estatal mais amplo.” As formas pelas quais elites político-econômicas de outros países vêm concebendo o papel de suas economias na transição verde permanecem pouco compreendidas.

Em tudo isso, também é necessário compreender melhor o papel do trabalho. Os trabalhadores devem esperar maior ou menor poder de barganha nessa nova economia política da reindustrialização descarbonizada? Relatos do Parque Industrial de Morowali, na Indonésia—um dos principais polos do projeto de verticalização da cadeia do níquel do país, fortemente financiado por capital chinês—apontam para uma história demasiadamente familiar de degradação das condições de trabalho, acidentes fatais e conflitos tanto na mineração quanto no processamento industrial. Ainda não está claro se as novas fábricas de veículos elétricos da BYD na Bahia, no Nordeste brasileiro e em Subang, em Java Ocidental, inaugurarão um novo regime produtivo baseado em diferentes qualificações de trabalho, com possíveis consequências para o poder de barganha sindical. Durante a construção da planta na Bahia, a BYD foi autuada por submeter trabalhadores chineses a condições análogas à escravidão. Com a planta agora em operação, como será moldada a política no chão de fábrica? Diante da precarização global do trabalho, os trabalhadores do Sul global precisarão do apoio de seus próprios governos para alcançar um equilíbrio mais favorável nas relações de classe durante a transição verde. Diversos estudos apontam a falta de fiscalização das leis trabalhistas pelos países anfitriões como principal fator de degradação das condições de trabalho. Será importante observar se países do Sul global serão pressionados eleitoralmente a se alinhar aos interesses de suas próprias classes trabalhadoras ou não. O discurso chinês de solidariedade Sul-Sul e desenvolvimento mutuamente benéfico pode se revelar bastante superficial caso o poder de barganha dos trabalhadores não avance.

Reconfigurando as regras da governança global

Existe uma dimensão menos material, mas não menos fundamental, do desenvolvimento que também é central para o estreitamento dos vínculos entre a China e o Sul global: a transformação dos padrões e normas da governança global. Foi na Conferência Afro-Asiática de Bandung, em 1955, que a China assumiu pela primeira vez um papel de liderança, articulando uma visão anti-imperialista e anti-hegemônica de uma ordem mundial mais justa e igualitária. A ascensão da China como uma potência econômica de primeira grandeza ao longo das últimas três décadas finalmente lhe conferiu peso suficiente nas instituições internacionais para alterar as regras do jogo. Da regulação monetária internacional e do financiamento ao desenvolvimento à definição de direitos humanos e padrões de cibersegurança, a China tem atuado em aliança com países do Sul “com ideais semelhantes” para alterar as normas globais—ainda que de forma desigual e incompleta. Há aqui um paradoxo difícil de ignorar: apesar de suas tendências autocráticas e repressivas no plano doméstico, a China tem desempenhado um papel cooperativo no cenário internacional, defendendo mudanças que muitos considerariam progressistas em áreas-chave da governança global. Alguns exemplos ajudam a iluminar tanto o alcance quanto as ambiguidades desse processo.

Desde os anos 1980, a República Popular da China lidera os esforços de países de renda média e em desenvolvimento por uma ordem econômica mundial mais equilibrada no Banco Mundial e no Fundo Monetário Internacional. A China evoluiu de mera “tomadora de regras” nas instituições de Bretton Woods para uma espécie de “contestadora de regras” e, mais recentemente, de “formuladora de regras”, inclusive por meio da construção de instituições alternativas àquelas lideradas pelo Ocidente. Como demonstram Kevan Gallagher e Gregory Chin, os esforços chineses em defesa da antiga reivindicação dos países do Sul global por maior representação no FMI foram, em grande medida, bem-sucedidos. Diversas mudanças institucionais ocorreram nesse processo. Os direitos de voto dos membros do Sul foram ampliados e a cesta de moedas que compõe os Direitos Especiais de Saque (DES) tornou-se mais diversificada. Além disso, o pagamento de empréstimos passou, em alguns casos, a poder ser realizado por meio de commodities, recursos naturais ou fornecimento de energia do país mutuário, em vez de apenas em dinheiro.

No Banco Mundial, a concorrência exercida pelas próprias instituições financeiras chinesas forçou a instituição a encurtar os prazos de aprovação de projetos e a voltar a priorizar investimentos em infraestrutura. A China também criou e ajudou a criar bancos multilaterais de desenvolvimento paralelos, fora das instituições de Bretton Woods. O Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB, na sigla em inglês) e o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB, na sigla em inglês) são dois exemplos em que os padrões ambientais, sociais e de governança não são impostos externamente, mas definidos de acordo com as especificidades de cada país. Em contraste com o modelo hierárquico de Bretton Woods, os países do BRICS concordaram em conceder poder de voto igualitário a cada membro-fundador do NDB. Além disso, essas instituições buscam reduzir a centralidade do dólar como moeda de referência contábil. Em um plano mais conceitual, os bancos multilaterais de desenvolvimento liderados pela China vêm promovendo uma mudança de enfoque: de uma agenda centrada na redução da pobreza para um modelo de desenvolvimento internacional orientado pelo crescimento econômico.

Na governança cibernética, a China emergiu como uma formuladora de normas incipiente, buscando ativamente desafiar um modelo de governança fortemente dominado por interesses ocidentais. Também nesse campo, sua atuação tem sido recebida com entusiasmo por diversos governos do Sul global, atentos ao risco de que o colonialismo de dados se consolide como uma nova forma de extrativismo. Um conjunto de princípios define a posição chinesa. O primeiro é o da “soberania cibernética”, entendida como extensão da soberania territorial: cada Estado soberano teria o direito de decidir seus próprios caminhos de desenvolvimento digital, bem como os modelos de regulação da internet e políticas públicas para o ciberespaço, livres de interferência estrangeira. Em segundo lugar, a China defende uma abordagem multilateral, centrada nos Estados e nas Nações Unidas, para a governança do ciberespaço. Essa visão contrasta com o modelo transnacional e multissetorial promovido por muitos países ocidentais—baseado na atuação conjunta de empresas, sociedade civil e atores privados—, que Pequim enxerga como uma ameaça à soberania cibernética. Uma terceira posição normativa enfatiza a necessidade de equilibrar segurança nacional, de um lado, e desenvolvimento de uma economia digital competitiva e de mercados de dados, de outro. Trata-se de uma reação à securitização liderada pelos Estados Unidos e à politização da governança digital chinesa no contexto ocidental. Na prática, a China ampliou a presença estratégica em organismos internacionais de padronização já estabelecidos, como a União Internacional de Telecomunicações (UIT), a Organização Internacional de Padronização (ISO, na sigla em inglês) e a Comissão Eletrotécnica Internacional (IEC, na sigla em inglês). Ao mesmo tempo, desde 2014, o país organiza sua própria plataforma multilateral, a Conferência Mundial da Internet, realizada em Wuzhen, numa tentativa de articular e difundir normas preferenciais entre os países do BRICS e outros países em desenvolvimento. O financiamento estatal também permitiu que empresas chinesas apresentassem propostas robustas de padronização em diversas organizações internacionais, incluindo a própria UIT da ONU. Já o projeto da Rota da Seda Digital, liderado pela China e atualmente envolvendo cerca de 80 países, oferece a Pequim um canal para promover normas cibernéticas e padrões técnicos preferenciais, como o protocolo IPv6 de nova geração para serviços de internet.

No interior das Nações Unidas, a China vem tentando reformular a lógica, o conteúdo e a própria dinâmica de poder do multilateralismo. Em contraste com a maior parte dos países ocidentais, Pequim enxerga o sistema ONU como uma plataforma intergovernamental, com menor autonomia para a burocracia das Nações Unidas e um papel mais marginal para organizações não governamentais. A China e seus aliados ideologicamente próximos têm liderado, cada vez mais, as críticas ao conteúdo normativo liberal da concepção de ordem global da ONU, estruturada em torno de três pilares interligados: segurança, direitos humanos e desenvolvimento. Nesse contexto, Pequim tem defendido a primazia do Estado—isto é, a ideia de que cabe aos Estados nacionais a responsabilidade principal pela proteção de seus cidadãos—em oposição à noção de que a ONU deva exercer esse papel por meio da doutrina da “Responsabilidade de Proteger” (R2P). Em 2023, a China assinou uma carta ao lado do chamado “Grupo de Amigos em Defesa da Carta das Nações Unidas”, na qual a R2P foi descrita como uma doutrina “controversa e divisiva”. No campo dos direitos humanos, a China também conseguiu articular, mais uma vez com o apoio de um “Grupo de Países Afins” formado por cerca de cinquenta membros, em sua maioria do Sul global, a aprovação de uma resolução que sustenta que os padrões de direitos humanos devem ser plurais e relativos. Na prática, a nova definição passa a incluir o direito coletivo ao desenvolvimento econômico, e não apenas os direitos políticos, civis e sociais individuais tradicionalmente enfatizados pelo Ocidente. Quanto à dinâmica geral de poder dentro da ONU, diversos estudiosos observam que os países do Sul tendem a apoiar a ampliação do papel da China—ou, ao menos, evitam expressar críticas abertas—, ao mesmo tempo em que buscam participar ativamente de iniciativas patrocinadas por Pequim. Entre elas, destaca-se a Iniciativa para o Desenvolvimento Global (GDI), cujo “Grupo de Amigos” já reúne oitenta Estados-membros das Nações Unidas. Uma ONU reformulada, marcada pelo progressivo afastamento de Washington e pelo fortalecimento da participação dos países em desenvolvimento sob liderança chinesa, representaria uma transformação profunda do multilateralismo contemporâneo.

Em suma, a China caminha para se tornar uma potência revisionista na ordem mundial. O país promove a soberania estatal em oposição à hegemonia dos Estados Unidos; a primazia do Estado em vez do multilateralismo baseado em “stakeholders”; um modelo de desenvolvimento orientado pelo crescimento econômico, e não pela redução da pobreza e pelo empoderamento; alternativas do Sul global em contraste com normas ocidentais; e o pluralismo em lugar do universalismo. Em meio a tudo isso, permanece a questão de saber se as “alternativas” oferecidas pela China efetivamente produzirão resultados melhores para os países envolvidos. E aqui não se trata de uma resposta simples, de sim ou não. Um exemplo ilustrativo é a Iniciativa de Segurança Global anunciada por Xi Jinping em 2022. Uma das “Três Grandes Iniciativas”—ao lado da Iniciativa para o Desenvolvimento Global e da Iniciativa para a Civilização Global—, ela prevê a ampliação da atuação internacional das agências chinesas de segurança interna junto a parceiros do Sul global, além da criação de uma arquitetura bilateral e multilateral de treinamento e cooperação policial e de aplicação da lei. Como parte de uma ofensiva diplomática coordenada no campo da segurança não militar, a iniciativa busca difundir normas, padrões e práticas preferenciais da China como “uma alternativa à ordem de segurança liderada pelo Ocidente”—em parte justamente porque evita confrontá-la diretamente. Muitos, no entanto, duvidam que esse modelo chinês de segurança represente uma melhora em relação ao status quo.

Disputa epistêmica

Além das agendas político-econômicas e normativas, também é possível identificar a emergência de um novo regime de produção de conhecimento impulsionado pela China, mas construído com participação ativa de pesquisadores do Sul global. Dentro e fora da China, um grande número de centros de pesquisa regionais, redes internacionais e conferências vem produzindo novas narrativas sobre o desenvolvimento global, supostamente ancoradas em uma perspectiva descolonial fundada em uma aliança Sul-Sul. Trata-se de um desafio implícito à colonialidade do Ocidente e à hierarquia epistêmica vigente, que privilegia o conhecimento produzido nos países ocidentais.

Desde sua criação, em 2011, o projeto chinês de “escrever o mundo” (world writing) impulsionou a criação de 450 programas de estudos regionais e de área em quase duzentas universidades, mobilizando cerca de 20 mil docentes com o objetivo de desenvolver e difundir uma compreensão chinesa do mundo. Em paralelo a grandes eventos diplomáticos—como o Fórum de Cooperação China-África e a Cúpula dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU—, Pequim também lançou institutos de pesquisa dedicados aos estudos internacionais. Disciplinas como geografia, relações internacionais e estudos do desenvolvimento estão na linha de frente desse esforço de projetar a produção de conhecimento chinesa no cenário global. Historicamente, os estudos do desenvolvimento foram um campo característico das instituições ocidentais no contexto da pós-descolonização e da Guerra Fria. Foi esse campo que formulou os próprios conceitos, técnicas e práticas do “desenvolvimento” e do “mundo em desenvolvimento”. Agora, pesquisadores chineses enxergam a Iniciativa Cinturão e Rota como uma oportunidade histórica para a China construir sua própria narrativa e seu próprio corpo de conhecimento sobre desenvolvimento.

Entre as instituições emblemáticas dessa nova fase estão o Instituto de Cooperação e Desenvolvimento Sul-Sul da Escola Nacional de Desenvolvimento da Universidade de Pequim, fundado por Justin Yifu Lin, ex-economista-chefe do Banco Mundial, e o Centro Internacional de Conhecimento para o Desenvolvimento, ligado ao Centro de Pesquisa para o Desenvolvimento do Conselho de Estado chinês. Abaixo dessas instituições de alcance nacional, existem ainda centros de segundo e terceiro nível, vinculados a ministérios, universidades e áreas específicas de formulação de políticas públicas. A maior parte dessas instituições, orientadas de cima para baixo e fortemente voltadas à formulação de políticas, foi criada ao longo da última década. Um pesquisador descreveu seu objetivo como “traduzir a experiência chinesa em produtos concretos de conhecimento e contribuir com a sabedoria chinesa e soluções chinesas para os desafios do desenvolvimento global”.

A transmissão desse conhecimento para o mundo em desenvolvimento assume diversas formas. Em primeiro lugar, à semelhança do Banco Mundial, que utiliza seminários e workshops para difundir sua própria visão de desenvolvimento, a China promove programas de capacitação voltados à adaptação de práticas inspiradas na sua experiência. Segundo uma investigação, entre 1981 e 2009, Pequim recebeu 120 mil participantes do Sul global, distribuídos em 4 mil programas que abrangiam cerca de 20 áreas distintas. Com o sucesso inicial, essas iniciativas se expandiram ao longo da década seguinte, aumentando tanto o número de programas quanto de participantes: entre 2013 e 2018, mais de 200 mil pessoas participaram de aproximadamente 7 mil iniciativas. Com duração variando de um a 60 dias e frequentemente incluindo visitas técnicas e viagens à China com todas as despesas pagas, esses programas abordaram um amplo espectro de práticas de governança chinesas: gestão portuária, aplicação internacional do BeiDou (o sistema chinês de navegação por satélite), tecnologias de blockchain e segurança da informação, o papel dos think tanks na implementação da Iniciativa Cinturão e Rota, políticas para minorias étnicas, gestão de novas mídias, administração populacional, gestão universitária, bem-estar social e cidades inteligentes. Independentemente do tema, a ideologia do Partido Comunista Chinês e seu modelo de governança autoritária são apresentados como elementos centrais de sua eficácia.

A produção de conhecimento também se dá por outros meios. A China copatrocina grandes conferências acadêmicas internacionais anuais e semestrais em parceria com instituições da Ásia Central, da Índia e da América Latina. Além disso, surgiram diversas coleções de livros publicadas por editoras acadêmicas de língua inglesa que enfatizam explicitamente perspectivas ligadas à China, à cooperação Sul-Sul, à Iniciativa Cinturão e Rota e até mesmo ao pensamento de Xi Jinping. Um exemplo é a parceria entre a Rede Acadêmica da América Latina e do Caribe sobre a China (Red ALC-China) e a Universidade Renmin, que oferecem conjuntamente um curso online de dez horas sobre as “Implicações Globais do Socialismo com Características Chinesas na Nova Era”, com o objetivo declarado de aprofundar a compreensão do pensamento de Xi Jinping.

Enquanto não houver uma análise sistemática do conteúdo desse novo corpo de conhecimento, ainda não será possível avaliar sua novidade teórica e validade. Isso, porém, não impediu que alguns celebrassem prematuramente a contribuição chinesa. Em estreita sintonia com a ideologia oficial chinesa—embora publicados em veículos acadêmicos respeitáveis em língua inglesa—, alguns pesquisadores sustentam que a Iniciativa Cinturão e Rota constitui uma forma de “globalização inclusiva”. A chamada “diplomacia da harmonia” é apresentada como o núcleo de uma teoria chinesa das relações internacionais, na qual o conceito político tradicional de tianxia (“tudo sob o céu”) apontaria para “o mundo descolonizado e pós-racial imaginado pelos pensadores descoloniais do Sul global”. As perguntas que devemos dirigir a essas formulações são as mesmas que deveriam orientar toda pesquisa científica: suas afirmações se baseiam em conceitos válidos, evidências empíricas consistentes e metodologias rigorosas?

Hegemonia descolonial?

Esses três elementos centrais do projeto de poder chinês—material, normativo e epistêmico—correspondem precisamente ao conceito gramsciano de hegemonia: uma forma de dominação baseada não apenas na concessão de interesses materiais, mas também na liderança moral e intelectual. O fato de a China desenvolver essas três dimensões de seu projeto não por cima dos países do Sul global, mas com sua participação ativa, talvez diga muito sobre a força dessa hegemonia. Ainda assim, há muito trabalho a ser feito para avaliar o caráter da China contemporânea. Como representante do Sul global, Pequim procura apresentar seu projeto como descolonial, mas permanece em aberto se essa caracterização de fato se sustenta. Afinal, pertencer ao Sul não constitui garantia contra novas formas de colonialidade, como deixam claro os exemplos da Índia na Caxemira, da Rússia na Ucrânia e da própria China em Xinjiang e Hong Kong. Adotar a linguagem da descolonialidade, invocar um passado de vitimização sob o imperialismo ocidental ou reivindicar formas alternativas de epistemologia e pertencimento indígena não significa, necessariamente, que novas formas de dependência não possam ser produzidas. Na verdade, a própria identidade “sulista” pode acabar funcionando como uma cobertura conveniente para um novo modelo de colonialidade.

Ao avaliar o caráter da China global contemporânea, é essencial olhar não apenas para os fluxos de investimento, nem para as declarações de políticos, comentaristas e elites. Até agora, houve uma notável escassez de atenção acadêmica voltada a documentar e avaliar os impactos concretos da Iniciativa Cinturão e Rota sobre os povos e comunidades ao redor do mundo afetados por ela desde 2013. Mesmo no campo dos Estudos sobre a China Global—do qual participo como observador e pesquisador desde seu surgimento, há cerca de duas décadas—, esse trabalho tem sido profundamente insuficiente. Talvez essa ausência revele algo do próprio poder discursivo de Pequim, capaz de difundir uma perspectiva centrada na “primazia do Estado”, princípio que a China também promove em suas práticas de cooperação para o desenvolvimento e nas propostas de governança global.

A tarefa daqui em diante será dedicar mais pesquisa empírica e análises minuciosas aos impactos da China global tal como são vividos pelas comunidades diretamente afetadas por ela. Os resultados do desenvolvimento não podem ser medidos apenas em termos de PIB ou das agendas das elites estatais, mas também a partir do que efetivamente melhora—ou não—a vida daqueles que atravessam essas transformações. Somente então será possível avaliar que tipo de hegemonia a nova China global vem construindo: se ela é capaz de mitigar as diversas desigualdades que persistem tanto no interior dos países do Sul global quanto entre o Sul e o Norte, ou se sua nova hegemonia em torno das energias renováveis acabará reproduzindo dinâmicas de dependência já muito familiares.

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