12 de março de 2026

Análises

A ilusão da Venezuela

Limites da estratégia de “gerenciamento de regime” no Irã

À primeira vista, a lógica estratégica da ofensiva Estados Unidos–Israel contra o Irã parece difícil de identificar. Enquanto o presidente Trump enquadra a campanha no discurso da “libertação democrática”, prometendo derrubar a República Islâmica, o secretário de Estado Marco Rubio a descreve como um ataque preventivo. O chefe do Pentágono, Pete Hegseth, juntou-se a Rubio ao afirmar que os objetivos centrais são a destruição dos programas nuclear e de mísseis do Irã e a degradação de suas capacidades navais: não exatamente uma mudança de regime, mas uma estratégia de coerção voltada a reduzir as capacidades militares do país.

Os objetivos de guerra dos Estados Unidos, no entanto, não devem ser buscados nas declarações oficiais do governo Trump, mas nas transformações de longo prazo da estratégia estatal americana. Desde o início da década de 2010, Washington tem se afastado cada vez mais de ocupações militares em larga escala, privilegiando o uso de poder aéreo, instrumentos financeiros, pressão diplomática e assassinatos ou remoções de adversários-chave. A meta tem sido impor sua vontade a outros Estados enquanto limita os custos domésticos e geopolíticos associados a uma presença militar prolongada—uma espécie de engenharia política à distância.

O episódio da Venezuela marcou o ápice dessa abordagem, demonstrando como um ataque direcionado contra um líder específico, combinado com intensa pressão externa, pode produzir mudança política sem os custos do controle territorial. Ao que tudo indica, é esse mesmo roteiro que Washington gostaria de seguir no Irã. Trump invocou explicitamente o precedente venezuelano quando, após ordenar o assassinato de Ali Khamenei, declarou que o filho do aiatolá, Mojtaba Khamenei, seria um sucessor “inaceitável”: “Preciso ter voz na escolha, como aconteceu no caso de Delcy.”

Mas Washington tem, de fato, capacidade de impor seu líder preferido ao Irã, como anuncia ter feito após a captura de Maduro? As evidências sugerem que não. A República Islâmica possui uma arquitetura de poder complexa e uma coalizão governante relativamente coesa. Ao longo de mais de três décadas, Ali Khamenei transformou o Gabinete do Líder Supremo em um vasto aparato burocrático e de segurança, inserido em uma densa rede de instituições militares, clericais e econômicas. Esse “complexo militar-bonyad”, como o defini anteriormente, não pode ser derrotado por uma estratégia de simples decapitação. O resultado mais provável da campanha Estados Unidos–Israel será reforçar a coesão do aparato de segurança do Estado iraniano, ao mesmo tempo em que desencadeia um conflito mais amplo na região.

Gerenciamento de regime

A atual abordagem dos Estados Unidos em relação ao Irã tem raízes profundas. A instabilidade financeira provocada pela crise de 2008, somada ao crescente cansaço doméstico com as ocupações do Iraque e do Afeganistão e à intensificação da competição com a China, levou a uma reorientação da estratégia imperial. Em vez de custosas tentativas de mudança de regime e engenharia estatal, Washington passou a buscar maior influência sobre instituições já existentes em outros países, ao mesmo tempo em que preservava margem de manobra para um confronto entre grandes potências de longo prazo na Eurásia e no Indo-Pacífico.

O bombardeio da OTAN contra a Líbia em 2011, que buscava remover Muammar Gaddafi do poder e resultou na morte de cerca de 50 mil líbios, sinalizou essa nova orientação. Mesmo enquanto estadistas americanos continuavam a mobilizar o discurso da democracia e do humanitarismo, seus projetos de transformação política abrangente deram lugar a um repertório mais restrito de política externa: estabilização, contraterrorismo, gestão de alianças e proteção de corredores energéticos. Trump deu continuidade a essa herança, embora tenha, em grande medida, abandonado a linguagem da democracia e da ordem internacional baseada em regras que constituía a gramática moral do poder americano.

Um dos pilares dessa virada pós-2008 foi a expansão da guerra financeira e comercial como substituto para intervenções militares terrestres. As sanções deixaram de ser um instrumento marginal de política externa para se tornar um mecanismo central de reorganização da inserção internacional de um Estado-alvo e de compressão de sua economia política doméstica. Seu objetivo é sistêmico, e não tático: restringir o acesso a financiamento, redes de abastecimento, serviços de seguro, rotas de transporte e sistemas de liquidação financeira, forçando terceiros a escolher entre participar da ordem centrada nos Estados Unidos e manter vínculos comerciais com o país sancionado.

As sanções econômicas foram uma das principais armas do governo Obama, posteriormente reforçadas pelas tarifas de Trump: um instrumento contundente para generalizar fricções econômicas, elevar custos de transação e disciplinar cadeias de suprimento, frequentemente operando em conjunto com controles de exportação, mecanismos de triagem de investimentos e restrições financeiras. Essa combinação de sanções e tarifas fortaleceu a infraestrutura da coerção econômica, não necessariamente por permitir a Washington produzir resultados políticos específicos, mas por ampliar o leque de instrumentos à sua disposição para punir, dissuadir ou compelir determinados comportamentos.

Um segundo pilar consiste em transferir parte da responsabilidade pela coerção externa para Estados aliados, incentivando-os a absorver maiores custos na linha de frente, enquanto os Estados Unidos fornecem o guarda-chuva de escalada, inteligência, logística e capacidades militares de alto nível. A OTAN é o exemplo mais claro. A virada estratégica pós-2008 foi acompanhada por uma pressão americana constante sobre os parceiros europeus para elevar os gastos com defesa como proporção do PIB. Trata-se menos de uma exigência pontual do que de um sinal estrutural de que os compromissos americanos se tornaram cada vez mais condicionais à partilha do fardo por parte dos aliados. Também aqui há mais continuidade do que ruptura entre Obama e Trump, ainda que Trump costume expressar a mesma lógica em termos mais ásperos.

Essa reorientação vai além da Europa. Washington busca preservar sua primazia estratégica ao mesmo tempo em que redistribui responsabilidades operacionais para fora e para baixo, o que lhe permite exercer coerção com maior liberdade sem se envolver em campanhas abertas e prolongadas de estabilização. Nesse sentido, a ideia de “liderar nos bastidores” deixa de ser apenas um recurso retórico e passa a funcionar como uma necessidade operacional. No Oriente Médio, os Estados Unidos passaram a última década incentivando aliados regionais a policiar seu próprio entorno de maneira alinhada aos interesses americanos. Isso ficou particularmente evidente após a Primavera Árabe, quando o bloco do Golfo liderado pela Arábia Saudita ajudou a suprimir ou neutralizar levantes populares e a consolidar uma ordem regional compatível tanto com as prioridades do Golfo quanto com as de Washington. Essa redistribuição de responsabilidades também ampliou a margem de manobra de Israel, já que o respaldo americano às ações israelenses, especialmente desde o 7 de outubro, se manteve amplamente consistente tanto no governo Biden quanto no de Trump.

Nesse contexto, a estratégia de “gerenciamento de regime” se apresenta como uma solução atraente para um dilema estratégico recorrente: Washington já não consegue garantir os resultados desejados—conformidade, realinhamento ou neutralização de regimes hostis—por meio de guerras em grande escala voltadas à mudança de regime. Esse modelo foi aplicado, na Venezuela e em outros casos, para tentar produzir uma configuração política mais favorável dentro do Estado-alvo, preservando ao mesmo tempo sua máquina administrativa existente: remove-se o vértice do poder, mantém-se intacta a burocracia e, em seguida, mobilizam-se alívio de sanções, maior acesso a ativos e mercados e reconhecimento diplomático para disciplinar a nova elite governante rumo a um acordo.

O Estado dentro do Estado

As características específicas da economia política iraniana representam um problema fundamental para essa estratégia. Desde que assumiu o cargo em 1989, Ali Khamenei institucionalizou de forma sistemática o Gabinete do Líder Supremo. Khamenei nunca teve o carisma de seu predecessor, o aiatolá Khomeini, e sua posição clerical era mais contestada. Sua resposta foi transformar o Gabinete no verdadeiro centro de comando do regime: um denso complexo burocrático com capacidades paralelas nas esferas da administração, da política, das finanças, das comunicações, da segurança, da cultura e dos seminários religiosos. O que antes era um modesto secretariado de coordenação, com cerca de vinte funcionários, evoluiu, sob Khamenei, para um Estado dentro do Estado: um aparato paralelo composto por milhares de pessoas, dotado de vasto alcance extralegal e capaz de frequentemente sobrepor-se ou marginalizar os poderes eleitos. O objetivo dessa institucionalização era garantir que o sistema pudesse funcionar sem depender da autoridade pessoal do Líder Supremo como um único homem forte.

Consequentemente, o Gabinete do Líder Supremo não é um órgão que se situa para além da política, como um árbitro neutro. Sua expansão institucional ocorreu em paralelo a uma reconfiguração mais profunda do bloco governante a partir do início dos anos 1990, culminando na ascensão do chamado complexo militar-bonyad. Por meio de suas nomeações em instituições não eleitas e de sua supervisão do aparato coercitivo, de fundações-chave e de setores econômicos estratégicos, o Gabinete passou a funcionar cada vez mais como a expressão institucional dos interesses dessa coalizão. Em outras palavras, o vértice do regime não é apenas uma pessoa, mas um nexo de poder que reproduz uma configuração específica de autoridade.

O surgimento desse bloco não foi automático nem incontestado. Ele tomou forma por meio de disputas intra-elites que se seguiram à virada neoliberal do início dos anos 1990. Durante as presidências de Rafsanjani e Khatami (1989–2005), ganhou destaque no Irã uma corrente tecnocrática orientada para o Ocidente, que defendia privatização, desregulamentação e reintegração aos mercados globais como caminho para a reconstrução pós-guerra. Na prática, essas políticas criaram um universo de empresas semiprivadas: poder e riqueza crescentes passaram a fluir para entidades como afiliadas de bancos, fundos de pensão e organizações paraestatais que eram formalmente privadas, mas mantinham fortes vínculos com ministérios e elites políticas. Nesse contexto, uma nova camada de burocratas de perfil comercial e de gestores politicamente conectados ganhou maior influência. Eles promoviam uma política externa baseada na distensão com a Europa e, eventualmente, com os Estados Unidos, na esperança de garantir fluxos de capital, transferência de tecnologia e acesso aos mercados globais.

Esse projeto, porém, mostrou-se frágil. A eleição de Mahmoud Ahmadinejad como presidente em 2005 marcou a ascensão de um modo diferente de formação neoliberal do Estado. Ahmadinejad promoveu uma ampla transferência de ativos estatais para redes ligadas à Guarda Revolucionária Islâmica e grandes fundações revolucionárias, como a Fundação Mostazafan, a Execução da Ordem do Imame Khomeini (Setad) e a Fundação do Santuário do Imame Reza. Essas instituições foram transformadas em conglomerados extensos que combinavam atividades orientadas ao lucro com a retórica do desenvolvimento nacional e de missões caritativas. Embora a privatização tenha continuado em ritmo acelerado, seus beneficiários passaram a estar cada vez mais inseridos no aparato de segurança do Estado.

No final dos anos 2000, essa reestruturação havia produzido uma nova fração dominante da classe dirigente. Politicamente representado pelo movimento principialista, o complexo militar-bonyad ancorava-se na lealdade absoluta ao Líder Supremo, em uma nova orientação estratégica voltada para China e Rússia e na resistência à integração com o capital ocidental. Essa coalizão passou a operar não apenas como um bloco econômico, mas como uma verdadeira arquitetura de governo. Suas instituições constitutivas—o Gabinete do Líder Supremo, a Guarda Revolucionária Islâmica e órgãos de segurança a ela associados, as principais fundações revolucionárias, o Judiciário e o Conselho dos Guardiões—estão protegidas de qualquer forma de responsabilização eleitoral. Suas lideranças são reproduzidas por cadeias de nomeações sob a autoridade final do Líder Supremo, enquanto o poder de supervisão do Conselho dos Guardiões abrange tanto a legislação quanto a elegibilidade de candidatos para instituições cujo comando é definido pelo voto, como a Presidência e o Parlamento. O poder dentro desse sistema repousa na fusão entre capacidade coercitiva e controle econômico, incluindo acesso privilegiado a recursos estatais, mecanismos opacos de transferência, monopólios de contratação e canais de evasão de sanções que convertem a crise em fonte de rendas políticas. Nessas circunstâncias, a pressão externa e as sanções impostas pelo Ocidente frequentemente produzem efeitos paradoxais, reforçando, em vez de enfraquecer, as estruturas que pretendem atingir.

Exércitos paralelos

Em vez de um único exército cujos membros poderiam eventualmente desertar, o Irã possui uma arquitetura coercitiva muito mais complexa: um sistema em camadas de forças paralelas, órgãos de inteligência sobrepostos e estruturas de comando diferenciadas, concebido para proteger o regime tanto contra ataques externos quanto contra tentativas internas de golpe. A estratégia americana de remover o vértice do poder e reorientar a burocracia, portanto, torna-se inaplicável. O Irã opera forças armadas paralelas com missões distintas. Ao lado do exército regular (artesh), a Guarda Revolucionária Islâmica não se dedica apenas à defesa territorial, mas também à salvaguarda da própria ordem política. A Guarda controla ainda as principais capacidades de dissuasão do regime—mísseis, drones e elementos centrais da defesa estratégica do espaço aéreo—situando-se no centro dos cálculos de sobrevivência do Estado. Esse arranjo de dupla estrutura militar não é um acidente histórico, mas uma tentativa deliberada de tornar o Estado à prova de golpes. O paralelismo institucional pode gerar redundâncias, mas também produz constrangimentos mútuos: nenhuma estrutura de comando isolada dispõe da autoridade necessária para converter o aparato coercitivo da lealdade à deserção.

Nem mesmo a Guarda, contudo, é um ator unificado. Trata-se antes de uma federação de centros de poder semiautônomos, que incluem a Força Aeroespacial, as Forças Terrestres, a Marinha, a Força Quds, a Basij, além de diversas unidades de inteligência e segurança, cada uma com seu próprio mandato operacional, hierarquia interna e interesses institucionais. Essa fragmentação eleva os custos de coordenação de qualquer tentativa de deserção coletiva. Quando conflitos intra-elite ocorrem, é mais provável que assumam a forma de negociações de alto nível, barganhas, redistribuição de poderes institucionais e reordenação de prioridades internas em vez de rupturas organizacionais. A Guarda possui complexos vínculos de lealdade vertical e mecanismos de coordenação horizontal que tornam extremamente arriscado para qualquer uma de suas facções internas desafiar a estrutura de poder ou agir de maneira unilateral.

O aparato de segurança iraniano também opera por meio de duplicação institucional e sobreposição de jurisdições. A Organização de Inteligência da Guarda atua paralelamente ao Ministério da Inteligência, enquanto outros órgãos ligados à Guarda, como a Organização de Proteção da Inteligência, a Unidade de Proteção Ansar-al-Mahdi, a Organização de Proteção da Aviação e o Comando de Defesa Cibernética, supervisionam atividades de monitoramento interno e contrainteligência. Crucialmente, a nomeação e supervisão das lideranças passam pelo Gabinete do Líder Supremo. O que à primeira vista poderia parecer uma burocracia caótica é, na verdade, uma técnica deliberada de governo. A sobreposição institucional pode produzir rivalidades políticas, mas também garante a vigilância dos vigilantes: uma estrutura que dificulta a coordenação conspiratória, eleva a probabilidade de detecção e desestimula ações coletivas fora dos canais autorizados.

No plano operacional, os arranjos de comando e controle do Irã constituem outro obstáculo aos objetivos de Washington. Os métodos de coordenação entre as diferentes forças são concebidos para garantir continuidade mesmo quando a estrutura é alvo de ataques, por meio de centros de comando dispersos e da preservação da capacidade de retaliação. Mesmo que o adversário consiga decapitar ou degradar partes do aparato, isso de modo algum garante um colapso organizacional. O sistema é construído de tal forma que nenhum de seus componentes isoladamente tem autoridade para render o conjunto, o que o torna particularmente resiliente a choques.

Essas características estruturais moldam os incentivos das elites em contextos de conflito. Quando as pressões externas se intensificam, os atores políticos iranianos tendem naturalmente a proteger a coalizão governante—e o sistema que garante sua autoridade, riqueza e segurança—em vez de desertar dela. Desentendimentos internos costumam se manifestar por meio de negociações sucessórias e acordos entre facções, e não pela capitulação de qualquer bloco específico diante dos Estados Unidos. O paradoxo, portanto, é que quanto mais o governo Trump tenta remodelar a estrutura de poder iraniana, mais coesa ela tende a se tornar. A sobrevivência passa a ser o princípio organizador do sistema. Seu aparato coercitivo—não uma hierarquia militar convencional, mas uma arquitetura concebida para proteger o regime e precisamente para resistir a esse tipo de ameaça—torna qualquer repetição do cenário venezuelano extremamente improvável.

Custos de exportação

O Irã difere da Venezuela em outro aspecto decisivo. Há muito, a doutrina de dissuasão do país se baseia na premissa de que qualquer grande confronto não ficará restrito ao território iraniano. Isso não significa que Teerã seja poderosa o suficiente para ditar o curso da escalada. Ainda assim, as capacidades estratégicas da República Islâmica lhe conferem a habilidade de impor custos amplos e prolongados em todo o Golfo e o Levante.

Essa capacidade é o resultado cumulativo de mais de duas décadas de projeção de poder regional, que remontam a 2003. A invasão americana do Iraque rompeu o equilíbrio regional e abriu oportunidades para que o Irã ampliasse sua influência por meio de partidos aliados, milícias e redes armadas. Com o tempo, essas relações se consolidaram no que passou a ser conhecido como Eixo da Resistência: uma coalizão relativamente flexível de atores estatais e não estatais capaz de ativar múltiplas frentes e complicar o planejamento operacional de seus adversários. 

Desde 2023, essa rede vem sofrendo pressão constante. Operações israelenses contra forças alinhadas ao Irã em diferentes partes da região, combinadas com o colapso do governo Assad na Síria, degradaram partes do Eixo e reduziram sua capacidade logística. Ainda assim, ele não foi completamente eliminado. Sua infraestrutura de parcerias, grupos armados e vínculos políticos permanece parcialmente intacta, o que significa que as perspectivas estratégicas do Irã não dependem de um único confronto decisivo. Em vez disso, Teerã mantém a capacidade de exercer pressão simultaneamente em múltiplas frentes.

O arsenal de mísseis e drones constitui o segundo pilar dessa estratégia. A postura de dissuasão iraniana foi construída em torno de habilidades de ataque à distância (stand-off): a capacidade de atingir bases americanas em todo o Golfo e na região mais ampla, ameaçar Israel e colocar infraestruturas de aliados em risco sem precisar igualar o poder aéreo ocidental equipamento por equipamento. Na doutrina iraniana, esses sistemas não são ativos auxiliares, mas instrumentos compensatórios, concebidos para compensar a inferioridade convencional e impor custos a qualquer adversário que considere conduzir operações aéreas prolongadas. Isso tem implicações diretas para o modelo de intervenção utilizado na Venezuela, pois enfraquece a suposição de que a escalada pode ser contida de forma controlada. Uma campanha destinada a decapitar a liderança e degradar o aparato coercitivo por meio de ataques aéreos pode, ao contrário, ativar a lógica de retaliação que pretende evitar: ataques regionais calibrados, mobilização de redes parceiras e um teatro de conflito em expansão, no qual a capacidade política do coercidor de dirigir os acontecimentos se deteriora mais rapidamente do que sua capacidade de destruir alvos.

Um terceiro instrumento é geoeconômico, centrado na capacidade histórica de Teerã de ameaçar o mercado global de energia por meio de gargalos marítimos. O Estreito de Ormuz ocupa aqui uma posição crucial. Como passagem estreita que conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Oceano Índico, ele funciona como a principal via marítima de exportação para os produtores de petróleo do Golfo e como corredor para uma parcela significativa dos fluxos energéticos globais. Segundo a Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA), cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia atravessaram o estreito em 2024, o equivalente a aproximadamente um quinto do consumo mundial de líquidos de petróleo. Isso faz de Ormuz o gargalo petrolífero mais importante do mundo. Mesmo uma interrupção parcial pode elevar os preços, pressionar os mercados de seguros e transporte marítimo e transmitir pressões inflacionárias para a Ásia e a Europa. Essas externalidades econômicas mais amplas conferem ao Irã um tipo de alavancagem sistêmica que a Venezuela não possuía.

Disputa prolongada

Embora esses instrumentos não garantam um resultado estratégico favorável ao Irã, eles lhe oferecem múltiplos caminhos para elevar o custo de uma coerção prolongada e ampliar o círculo de atores que experimentam suas consequências. A República Islâmica, em suma, não é a Venezuela. Trata-se de um sistema institucionalizado, construído para absorver choques, administrar sucessões e resistir à pressão externa. A decapitação não dissolve essa arquitetura, mas a ativa.

Para Washington, a vantagem da estratégia de “gerenciamento de regime” é evidente: ela promete transformação política sem os custos da reconstrução estatal. No entanto, as mesmas condições que explicam seu apelo também revelam sua fragilidade. A coalizão governante do Irã, sua estrutura de segurança e sua capacidade de exportar custos garantem que os Estados Unidos terão dificuldade tanto para conter a escalada quanto para determinar seus desdobramentos políticos. A tentativa de Washington de produzir uma transição controlada pode, assim, transformar-se em algo completamente diferente: uma disputa prolongada que gera instabilidade crescente em vez de rápida submissão. A escolha de Mojtaba Khamenei como novo Líder Supremo ilustra esse ponto: o sistema ainda não foi rompido. Ao contrário, ele se reproduziu.


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