5 de junho de 2026

Análises

A Bolívia depois do MAS

Crise de legitimidade em meio ao colapso institucional

Há quase dois meses, a Bolívia tem sido palco de bloqueios de estradas em oito de seus nove departamentos, interrompendo fluxos logísticos, atividades comerciais e a circulação cotidiana em grande parte do país. Os protestos exigem a renúncia do presidente Rodrigo Paz, que assumiu o cargo há apenas sete meses, após vencer o segundo turno das eleições de outubro de 2025. Lideradas por sindicatos e organizações camponesas—algumas ligadas a setores próximos ao ex-presidente Evo Morales—, as mobilizações refletem o crescente descontentamento social diante de uma profunda crise econômica. A escassez de combustíveis, o elevado endividamento público, a falta de dólares e a aceleração da inflação têm pressionado o custo de vida. As medidas de austeridade propostas pelo governo Paz, como cortes de gastos sociais e reduções dos subsídios aos combustíveis, foram o estopim da onda de protestos que se espalhou pelo país.

Após vinte anos de governo do Movimento ao Socialismo (MAS), a nova administração de Paz propôs uma transformação do Estado boliviano. Sua plataforma, apresentada em conjunto com o candidato à vice-presidência Edman Lara, surgiu como resposta ao esgotamento do modelo neodesenvolvimentista e extrativista adotado pelo MAS. A perda de prestígio do partido pode ser atribuída, em parte, às divisões entre suas principais correntes internas, mas também aponta para uma crise de legitimidade mais ampla, alimentada por sucessivos fracassos políticos e econômicos. A desconfiança popular em relação ao MAS e a figuras tradicionais da oposição—como o ex-presidente Jorge Quiroga e Samuel Doria Medina, líder da Frente de Unidade Nacional (UN)—contribuiu para que o eleitorado rejeitasse os partidos políticos tradicionais.

Nesse momento de inflexão política, o historicamente elevado nível de participação política e capacidade de organização da sociedade boliviana entrou em declínio, deixando um vazio de representação política institucionalizada. As relações entre Estado e sociedade passaram a ser cada vez mais mediadas por negociações clientelistas e arranjos corporativos. O próprio MAS reforçou essa tendência por meio de suas alianças com sindicatos camponeses e outras organizações alinhadas ao governo, o que acabou limitando o espaço político das forças de oposição.

Mais do que a ascensão de uma alternativa política robusta, as eleições de 2025 refletiram o colapso da força do MAS. Os candidatos vitoriosos não contavam com uma estrutura partidária consolidada, uma ideologia claramente definida ou sequer um programa de governo coerente. Essa indefinição ajuda a explicar a fragilidade do governo Paz diante das mobilizações sem precedentes que hoje atravessam a sociedade boliviana. A desinstitucionalização da política, a crise econômica e a rearticulação de setores sociais organizados já produziram uma nova crise de legitimidade. Em poucos meses, o novo governo foi colocado na defensiva, obrigado a reagir à capacidade de mobilização dos poderosos remanescentes do MAS na política boliviana.

Ascensão e queda do MAS

Em 2005, o MAS chegou ao poder com uma vitória eleitoral sem precedentes, prometendo transformar a sociedade boliviana e conquistando a presidência com maioria absoluta dos votos. A ascensão de Evo Morales foi resultado das crises sociais produzidas por décadas de políticas neoliberais. Primeiro presidente indígena da história do país, Morales substituiu as antigas elites governantes por um sistema corporativo de mediação entre Estado e movimentos sociais, especialmente organizações indígenas e camponesas. Esse processo de transformação teve início com a convocação de uma Assembleia Constituinte e culminou na promulgação da Constituição de 2009. A antiga República da Bolívia chegava ao fim, dando lugar a um Estado Plurinacional Comunitário.

O novo governo implementou um ambicioso modelo econômico desenvolvimentista, que obteve resultados expressivos em seus primeiros anos graças aos elevados preços internacionais do gás natural e dos hidrocarbonetos. Em 2006, o MAS lançou o chamado Modelo Econômico Social Comunitário Produtivo (MESCP), que prometia promover uma economia plural e sustentável. O modelo identificava quatro setores estratégicos para a geração de excedentes econômicos—hidrocarbonetos, mineração, eletricidade e recursos ambientais—, além de outros setores voltados à geração de emprego e renda. Inicialmente, os excedentes econômicos vieram sobretudo das receitas provenientes dos hidrocarbonetos, mas a criação de empregos ficou aquém do esperado. Ainda assim, o aumento das receitas estatais permitiu a implementação de políticas redistributivas voltadas aos setores mais vulneráveis da população, por meio de subsídios, redução dos custos de serviços públicos e investimentos em infraestrutura para comunidades rurais de baixa renda. Essas medidas contribuíram para a redução da pobreza e fortaleceram a legitimidade do governo em todo o país.

Embora esse projeto redistributivo liderado pelo Estado tenha fortalecido a governabilidade no curto prazo, ele limitou investimentos estruturais capazes de transformar a economia no médio e longo prazo. A fragilidade do modelo tornou-se evidente quando os preços internacionais do gás e dos hidrocarbonetos começaram a cair, a partir de 2013. A desaceleração expôs a forte dependência do Estado em relação às receitas extrativas e provocou uma significativa redução do ritmo de crescimento econômico.

De modo geral, o crescimento do PIB vem desacelerando desde 2014, apesar de oscilações e recuperações pontuais ao longo do período. A queda das receitas provenientes dos hidrocarbonetos comprimiu a capacidade de gasto do Estado, resultando em déficits fiscais persistentes. Ao longo da última década, as pressões inflacionárias e as restrições externas de divisas têm limitado o dinamismo da economia boliviana. Segundo um estudo da UMSS, em meados de 2025, a inflação acumulada em doze meses havia alcançado cerca de 25%, enquanto as reservas internacionais seguiam em trajetória de queda.1Faculdade de Economia, UMSS (<)em(>)“Posición Académica de la Facultad de Ciencias Económicas de la Universidad Mayor de San Simón sobre la Coyuntura Actual de la Economía Boliviana”.(<)/em(>) (Cochabamba: Documento de trabalho, 2025). Esse cenário aumentou a pressão sobre a taxa de câmbio e alimentou preocupações quanto à disponibilidade de moeda estrangeira no país. Diante dessas tensões, o governo recorreu a diferentes fontes de financiamento, incluindo endividamento e o uso das reservas internacionais, para atender às necessidades fiscais mais imediatas.

Em muitos aspectos, o declínio econômico da Bolívia reflete os limites do modelo neodesenvolvimentista e extrativista adotado pelo MAS. Como consequência das crescentes pressões sobre a economia doméstica, os direitos dos povos indígenas foram sistematicamente subordinados à continuidade dos projetos extrativistas,2Isso inclui a implementação de megaprojetos sem a realização da consulta prévia exigida pela Constituição Política do Estado (CPE) e pela Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). O exemplo mais emblemático foi o projeto de construção de uma rodovia atravessando o Território Indígena e Parque Nacional Isiboro-Sécure (TIPNIS), em 2011. Essas violações foram amplamente documentadas pela Defensoria do Povo, que identificou 46 projetos realizados entre 2013 e 2023 sem o devido processo de consulta, bem como por organizações da sociedade civil, como o (<)a href='https://cedib.org/wp-content/uploads/2020/01/InformeAndino-LibroBOL.pdf' type='link' id='https://cedib.org/wp-content/uploads/2020/01/InformeAndino-LibroBOL.pdf'(>)CEDIB(<)/a(>), o (<)a href='https://www.cejis.org/' type='link' id='https://www.cejis.org/'(>)CEJIS(<)/a(>) e a (<)a href='https://www.ftierra.org/index.php' type='link' id='https://www.ftierra.org/index.php'(>)Fundación Tierra(<)/a(>), além da cobertura da imprensa em geral. Também foram registrados incêndios florestais de grandes proporções em áreas protegidas, associados às atividades do agronegócio e à expansão da fronteira agrícola promovida por pequenos produtores rurais sindicalizados. Por fim, a atividade mineradora na Amazônia tem provocado graves impactos ambientais, especialmente por meio da contaminação de rios e ecossistemas locais. o que provocou uma ruptura com a base indígena do MAS, sem mencionar a flagrante contradição com os princípios consagrados na Constituição de 2009. Ao mesmo tempo, o agravamento da crise econômica, com a alta do custo de vida, a escassez de combustíveis e a falta de dólares para sustentar o comércio e a produção, alimentou um crescente descontentamento social. Só em 2025, a Defensoria do Povo registrou 841 episódios de conflito social, a maior parte relacionada a questões econômicas e trabalhistas. Nesse contexto, diferentes setores da sociedade passaram a convergir nas mobilizações: sindicatos, comerciantes varejistas e atacadistas, associações de bairro, cooperativas de mineração, comitês cívicos, transportadores de carga, profissionais da saúde, professores, entidades empresariais, além de trabalhadores e camponeses que anteriormente integravam a base de apoio do MAS.

A eleição dos sem-partido

A renúncia de Evo Morales, em novembro de 2019, desencadeou uma série de conflitos no interior do partido governista. O MAS insistiu em lançar Morales como seu único candidato à presidência pela quarta vez, em afronta direta ao resultado do referendo de 2016 sobre limites de mandato. Quando Morales saiu vitorioso das eleições de outubro de 2019, diversos partidos contestaram o resultado, e os protestos contra sua reeleição se estenderam por vinte e um dias. Um governo interino foi então instalado, sob a liderança de Jeanine Áñez, do Movimento Social Democrata. A experiência, contudo, durou menos de um ano: nas eleições gerais de 2020, o candidato do MAS, Luis Arce, venceu com 55% dos votos. Ex-ministro da Economia durante os governos de Morales, Arce permitiu que o ex-presidente retornasse ao país e voltasse a exercer influência política a partir de sua base sindical nos vales de Cochabamba. Não demorou, porém, para que divergências entre ambos provocassem uma ruptura dentro do partido governista, dando origem a duas facções rivais no interior do MAS.

À medida que as eleições de 2025 se aproximavam, essas facções travaram uma intensa disputa pelo controle da candidatura presidencial, até que Arce se consolidou como o nome oficial do partido.3Em resposta, Morales tentou lançar uma nova força política, (<)em(>)Evo es Pueblo(<)/em(>), mas a iniciativa não obteve registro perante a autoridade eleitoral por não atender às exigências legais. Também procurou concorrer por outra legenda, sem sucesso, após uma decisão do Tribunal Constitucional Plurinacional, em dezembro de 2023, torná-lo inelegível para a Presidência. Os conflitos extrapolaram as estruturas partidárias e passaram a se manifestar no Legislativo, no movimento sindical e nos meios de comunicação tradicionais e digitais.4Entre os casos de maior repercussão esteve a (<)a href='https://www.opinion.com.bo/articulo/pais/exdiputado-arce-caso-enriquecimiento-ilicito-rafael-arce-entrara-reserva/20260129000058987783.html' type='link' id='https://www.opinion.com.bo/articulo/pais/exdiputado-arce-caso-enriquecimiento-ilicito-rafael-arce-entrara-reserva/20260129000058987783.html'(>)denúncia(<)/a(>) apresentada pelo então deputado do MAS Héctor Arce contra o filho do presidente Luis Arce, sob acusação de enriquecimento ilícito. Por fim, uma série de escândalos de corrupção envolvendo dirigentes sindicais, a estatal petrolífera Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB) e até acusações de tráfico de pessoas comprometeu de vez a possibilidade de um retorno político de Morales. O governo Arce, contudo, também foi alvo de denúncias de corrupção, e o MAS acabou retirando seu apoio ao presidente e expulsando-o de suas fileiras. Arce permanece preso preventivamente enquanto responde a acusações de corrupção e má gestão econômica. O resultado dessas controvérsias foi uma queda vertiginosa do MAS. Nas eleições mais recentes, o partido obteve apenas 3% dos votos. Sua situação atual sugere não apenas um profundo desencanto com o projeto estatista que marcou as últimas duas décadas, mas também o colapso da esquerda boliviana tal como ela havia se estruturado sob a hegemonia do MAS.

Em 2005, o desejo do eleitorado por uma alternativa aos partidos políticos tradicionais culminou na primeira e surpreendente vitória de Evo Morales, que expressava um pacto político entre uma ampla base nacional-popular e organizações camponesas e indígenas.5Sobre o conceito de nacional-popular em formações sociais heterogêneas, ver a obra clássica de René Zavaleta Mercado, (<)em(>)Hacia una historia de lo nacional-popular en Bolivia(<)/em(>). Duas décadas depois, esse pacto se desintegrou. Hoje, o MAS encontra-se fragmentado em três correntes distintas: a Alianza Popular, encabeçada pela chapa de Andrónico Rodríguez e Mariana Prado; o próprio MAS, representado por Eduardo del Castillo e Milán Berna; e o MORENA, liderado por Eva Copa e Jorge Richter. O MORENA retirou sua candidatura na reta final da campanha, enquanto Evo Morales orientou seus apoiadores a votar nulo em vez de apoiar a Alianza Popular. Paz e Lara foram apenas uma entre várias candidaturas de oposição, representando os Democratas Cristãos mais no nome do que na prática. No primeiro turno, obtiveram 32% dos votos, seguidos pela Alianza Libre, com 26%, e pela Alianza Unidad, outra força de oposição, com 19%. Os nulos, por sua vez, alcançaram a expressiva marca de 20% do total de votos, cerca de 1,3 milhão. Tudo indica que uma parcela significativa do eleitorado atendeu ao chamado de Morales e optou por invalidar seu voto.

Paz venceu o segundo turno com uma vantagem expressiva de dez pontos percentuais. Sua coalizão concentrou seu apoio sobretudo nas regiões andina e central do país, áreas que historicamente constituíam redutos eleitorais do MAS, enquanto a Alianza Libre obteve melhores resultados no leste boliviano, onde predominam os grupos empresariais.6Referimo-nos, sobretudo, ao agronegócio voltado para a produção de soja, cana-de-açúcar e pecuária, liderado por poderosos grupos econômicos organizados em torno da Câmara de Indústria, Comércio, Serviços e Turismo de Santa Cruz (CAINCO). A vitória da chapa Paz-Lara surpreendeu muitos observadores. Sem o respaldo efetivo de um partido estruturado e sem uma plataforma programática claramente definida, os dois lançaram sua candidatura apenas alguns meses antes do primeiro turno, e seus nomes passaram a aparecer nas pesquisas de intenção de voto poucas semanas antes da eleição. A campanha apoiou-se fortemente nas redes sociais e em um trabalho de mobilização territorial porta a porta.

Desde os anos 1980, a democracia boliviana carece de um sistema partidário estável e consolidado. Durante o período de hegemonia do MAS, as demais legendas não conseguiram se afirmar como alternativas eleitorais viáveis. Em vez disso, a fragmentação do sistema partidário estimulou a formação de alianças e acordos de ocasião em torno de candidaturas específicas. Sem estruturas institucionais sólidas, lideranças políticas passaram a “alugar” siglas partidárias, enquanto as disputas eleitorais se tornaram cada vez mais desprovidas de conteúdo ideológico. Os Democratas Cristãos, hoje partido governista sob a liderança de Paz e Lara, tinham inicialmente pouca relação com os candidatos vencedores. A legenda estabeleceu acordos com diferentes grupos cidadãos e organizações sociais para disputar as eleições. De modo semelhante, a Alianza Libre, que terminou em segundo lugar, reúne pelo menos quatro partidos políticos, enquanto a Alianza Popular, dissidência do MAS, formou uma coalizão com outras três legendas.

Institucionalidade em crise

Paralelamente à fragmentação do sistema partidário, os demais poderes do Estado também passaram por uma profunda crise de legitimidade. O Poder Legislativo encerrou seu mandato em 2025 dividido e com poucos resultados concretos a apresentar. Entre 2005 e 2020, o MAS deteve maioria absoluta no parlamento, o que permitiu ao Executivo impor sua agenda legislativa e reduziu significativamente a capacidade de fiscalização do Legislativo. A partir de 2020, com a divisão do partido governista, a ala “evista” passou a bloquear projetos de lei, contribuindo para um quadro generalizado de ingovernabilidade. A legislatura mais recente da Assembleia Legislativa Plurinacional (ALP) registrou a menor produção legislativa da última década. Entre 2010 e 2015, foram aprovadas 653 leis; entre 2015 e 2020, 691; já entre 2020 e 2025, apenas 284, a maior parte delas de caráter administrativo ou dedicada a homenagens e reconhecimentos simbólicos.

O Judiciário é atualmente a instituição submetida ao escrutínio mais intenso. Há décadas marcado por acusações de ineficiência, corrupção e interferência política, o sistema judicial passou progressivamente a servir aos interesses políticos do partido governista. Na Bolívia, as mais altas autoridades judiciais são eleitas por voto popular, o que as torna particularmente vulneráveis a pressões políticas. As baixas taxas de participação e apoio registradas nas eleições judiciais de 2011, 2017 e 2023 aprofundaram ainda mais os questionamentos sobre a legitimidade do Judiciário. Na eleição mais recente, realizada em 2023, magistrados do Tribunal Constitucional Plurinacional, instância máxima responsável por julgar a constitucionalidade dos atos normativos e das decisões do Estado, permaneceram em seus cargos de forma irregular, com o respaldo do governo Arce. Ao mesmo tempo, durante seu mandato, o governo utilizou o sistema judicial para perseguir lideranças da oposição e integrantes da ala evista do MAS.

O Órgão Eleitoral Plurinacional (OEP), responsável pela organização e supervisão das eleições gerais, também foi alvo de diversas formas de pressão política exercidas pelo MAS sob a liderança de Arce. Após a anulação dos resultados das eleições de 2019, a direção do OEP foi substituída pelo novo governo, que convocou novas eleições para o ano seguinte. Durante o governo Arce, o OEP impediu que a ala evista mantivesse o controle da sigla partidária e também bloqueou a participação de Evo Morales nas eleições de 2020. Em resposta, o setor ligado a Morales passou a travar uma batalha jurídica contra as principais instituições políticas do país, acusando o governo Arce de promover um “golpe eleitoral”.

Apesar de sua fragilidade institucional, o OEP conseguiu assegurar a legitimidade do processo eleitoral de 2025. Ainda assim, a crise mais ampla de legitimidade institucional permanece sem solução. O novo governo representa apenas uma mudança de lideranças e de elite política ou sinaliza a formação de um novo regime político? Estaria em curso um novo padrão de acumulação e de hegemonia na Bolívia? Estaríamos, como diria René Zavaleta Mercado, diante de uma nova equação social?7Segundo a definição de Zavaleta Mercado, “por sistema ou equação social entendemos o modo de articulação entre a sociedade civil, suas mediações e a esfera político-estatal”. Ver René Zavaleta Mercado, (<)em(>)El Estado en América Latina(<)/em(>) (La Paz: Los Amigos del Libro, 1990).

O retorno da mobilização social

Um mês após assumir o poder, o governo Paz reuniu-se com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a Corporação Andina de Fomento (CAF) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) para solicitar empréstimos diante do agravamento da crise econômica. Ao mesmo tempo, iniciou procedimentos judiciais contra integrantes do antigo governo do MAS, acusando-os de má gestão e desvio de recursos públicos, enquanto autorizava o retorno da Drug Enforcement Administration (DEA) dos Estados Unidos ao país para atuar no combate ao narcotráfico. A Bolívia deixava, assim, de se apresentar como uma voz da esquerda latino-americana. O governo Paz restabeleceu relações com governos liberais e de extrema direita da região e se distanciou de Venezuela, Nicarágua e Cuba em meio à crescente pressão exercida pelos Estados Unidos sobre esses países.

Já no final daquele ano, o governo apresentou uma ampla reformulação da política econômica estatal, buscando reabrir a economia ao capital nacional e estrangeiro e flexibilizar as regulações estabelecidas durante os governos do MAS. Entre as medidas propostas estava a criação de um mecanismo de tramitação acelerada para contratos de investimento, permitindo que fossem aprovados sem passar pelo Legislativo, dispensando processos obrigatórios de consulta às comunidades indígenas e contornando normas de proteção ambiental. Para os críticos, o decreto representava uma tentativa de promover uma “privatização silenciosa dos recursos naturais”.

A Central Operária Boliviana (COB), que havia praticamente desaparecido da cena política nos últimos anos do MAS, em parte devido ao rompimento com Evo Morales, foi revitalizada em resposta à medida. Seus setores mais combativos passaram a exigir a renúncia de Paz. Após vários dias de mobilização no final de dezembro, a direção da COB iniciou negociações com o governo, que culminaram na revogação do decreto. A central também passou a exigir participação formal na elaboração de futuras medidas econômicas. Embora tenha cedido às reivindicações da COB, o governo aprovou simultaneamente outro decreto eliminando os subsídios estatais aos hidrocarbonetos. Em um contexto já marcado pela escassez de combustíveis, a medida levou à quase duplicação dos preços da gasolina e ao triplo do preço do diesel. Para amenizar seus efeitos, o governo anunciou um aumento salarial de aproximadamente 20%—com exceção dos servidores públicos—e criou um Programa Extraordinário de Proteção e Equidade (Bono PEPE) voltado aos setores mais vulneráveis da população.

Essas concessões, contudo, não alteraram de forma significativa a estrutura econômica do país e acabaram provocando uma forte reação política de trabalhadores urbanos e camponeses. Esse primeiro grande confronto revelou as fragilidades internas do governo Paz, que carecia da legitimidade necessária para enfrentar simultaneamente a crise econômica e a crescente agitação social. A situação tornou-se ainda mais delicada quando o próprio vice-presidente, Edman Lara, passou a divergir publicamente do presidente, posicionando-se em defesa das reivindicações dos trabalhadores e aprofundando as tensões no interior do governo.

Paz tentou redefinir a relação do Estado com os movimentos sociais. Declarou que governaria para as organizações sociais, e não com elas, estabelecendo uma ruptura explícita com a lógica de concertação que havia caracterizado as alianças construídas pelo MAS. A decisão, porém, acabou ampliando a oposição ao governo e aprofundando a insatisfação social. Agora, apenas oito meses após assumir a presidência, Paz enfrenta uma crise social sem precedentes, mesmo sem ter conseguido implementar reformas estruturais de grande alcance. A Central Operária Boliviana (COB), a Federação Camponesa Tupac Katari da região andina e outras organizações rurais—em especial os sindicatos de produtores de coca dos trópicos de Cochabamba—organizam, desde o início de maio de 2026, bloqueios de estradas que paralisam boa parte do país. Diante da alta dos preços e do agravamento das condições econômicas, esses setores ampliaram gradualmente suas reivindicações. O que começou como uma mobilização por reajustes salariais e contra as reformas estruturais propostas pelo governo transformou-se em uma campanha aberta pela renúncia de Paz. Os custos econômicos e sociais dos protestos têm sido elevados, afetando produtores, consumidores e o funcionamento da economia boliviana como um todo.

Na esteira dessa onda de mobilizações, o governo Paz projeta uma imagem de fragilidade, enquanto os setores populares demonstram uma renovada capacidade de organização e pressão política. O próprio Evo Morales passou a apoiar publicamente os protestos, utilizando suas redes sociais para criticar o governo e incentivar as mobilizações. Sindicatos e federações camponesas, por sua vez, recusaram-se a participar das negociações propostas pelo Executivo. Ao mesmo tempo, cresce o risco de confrontos entre diferentes segmentos da própria sociedade, à medida que parte da população manifesta crescente irritação com os transtornos provocados pelos bloqueios.

A Bolívia atravessa hoje um momento crítico de transformação, marcado pela ausência de lideranças capazes de conferir direção política tanto ao governo quanto às demais instituições do país. Embora organizações camponesas e trabalhistas tenham conseguido se reorganizar como principal força de oposição, seu principal fator mobilizatório é a rejeição aos governantes: não há clareza sobre o que poderia ocorrer no dia seguinte a uma possível destituição do presidente. Em suma, em meio ao caos, ainda não há projeto claro para a Bolívia do pós-Paz—e nem para a Bolívia do pós-MAS.

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