edição 1, junho de 2026

Análises

Poder Americano

Geometrias da dissuasão

A resiliência iraniana diante da ofensiva israelo-americana

Thuraya Al-Baqsami, The Last Shot, 1981.

A guerra dos EUA e de Israel contra o Irã reabriu uma questão incontornável desde o início do genocídio em Gaza: como compreender a atual reconfiguração do poder imperial na Ásia Ocidental? Analogias com a diplomacia das canhoneiras do século XIX podem capturar o aspecto teatral da agressão, mas obscurecem seu caráter histórico e institucional. Os ataques incessantes ao território iraniano—que atingiram instalações militares, depósitos de combustível, refinarias de petróleo, uma usina de dessalinização de água e outras infraestruturas civis—revelam um modelo de guerra que não visa atacar apenas as forças armadas, mas o funcionamento básico do Estado. Hoje, os próprios alicerces da vida econômica e social estão na mira do império.

Há décadas, os EUA vêm expandindo intensamente sua presença militar na região: um arquipélago de bases, instalações de radar, grupos de ataque de porta-aviões e redes de vigilância que se estende do Golfo Pérsico ao Mediterrâneo Oriental. Embora possa parecer uma ruptura repentina, a guerra iniciada por Trump e Netanyahu em 28 de fevereiro é, na verdade, o desfecho natural dessa longa campanha contra o Estado e a sociedade iranianos. Sanções, sabotagens, ataques cibernéticos e operações secretas nunca foram alternativas à intervenção militar direta, mas sua preparação. A mesma sequência de eventos foi registrada no  Iraque e na Líbia,  onde  períodos de pressão constante também culminaram em ataques armados de grande escala. Primeiro o sufocamento, depois a destruição.

No ensaio “Decolonizing Decolonization”, o historiador Frederick Cooper alertou que o discurso da descolonização induz à falsa impressão de que o poder imperial está recuando linearmente, quando o que vemos no mundo todo atualmente é sua persistência, reconstrução e adaptação. Para Cooper, o conceito de “reimperialização” seria mais adequado para representar essa nova realidade.1Cooper, Frederick. 2025. “Decolonizing Decolonization”, (<)em(>)Comparative Studies in Society and History(<)/em(>) 67, n.º 4 (2025): 891. Essa tese, que parece cada vez mais plausível à luz dos desdobramentos na Ásia Ocidental desde outubro de 2023, reflete-se na recente trajetória do Irã: um estudo de caso revelador tanto dos contornos do poder americano atual quanto dos mecanismos que o sustentam.

O que se segue é um relato sobre o aparato imperial construído para minar a República Islâmica, como ele deu origem à doutrina de dissuasão única do país e como lançou as bases para o conflito atual. O exame dessa trajetória permite compreender até que ponto a subversão econômica e o poderio militar, longe de serem descontínuos, fazem parte de uma estratégia integrada que a potência hegemônica utiliza para frustrar as aspirações de soberania e desenvolvimento em Estados que estão fora do núcleo capitalista. Os EUA transformaram sua posição privilegiada nas redes financeiras e informacionais globais em um instrumento de poder coercitivo bruto, regulando o acesso do Irã às condições materiais necessárias para sua própria existência econômica. O Irã, no entanto, também se valeu das interdependências da economia mundial contemporânea para reagir contra seus oponentes e frustrar aspirações de mudança de regime.

Regimes de coerção

A República Islâmica foi forjada no calor da revolução e de uma guerra prolongada com o Iraque. A Revolução de 1979 ocorreu num momento em que os processos formais de descolonização já estavam, em grande parte, concluídos, e os Estados recém-independentes precisavam lidar com uma série de restrições neocoloniais. Para muitos movimentos revolucionários da época, a Guerra Fria não foi uma disputa ideológica entre dois sistemas, mas uma reorganização geopolítica na qual padrões históricos de competição imperial persistiram.2Ver Westad, Odd Arne. 2007. (<)em(>)The Global Cold War: Third World Interventions and the Making of Our Times(<)/em(>).Cambridge University Press. Chamberlin, Paul Thomas. 2018. (<)em(>)The Cold War’s Killing Fields: Rethinking the Long Peace.(<)/em(>) Haper Collins. O paradigma do confronto bipolar não foi capaz de expressar o quanto o conflito global ainda era moldado por projetos rivais de dominação, tanto capitalistas quanto comunistas, que sufocavam e distorciam as ambições mais radicais das sociedades recém-libertadas do domínio colonial. À medida que o debate sobre os limites e as contradições do desenvolvimento pós-colonial se intensificava no Norte e no Sul global, crescia o ceticismo em relação às promessas emancipatórias de libertação nacional.

Nesse contexto geopolítico conturbado, a recuperação da independência política era um elemento central do ethos governamental do Irã revolucionário. O slogan “Nem Oriente nem Ocidente” sintetizava a busca por autodeterminação e soberania em meio à rivalidade entre superpotências e às hierarquias duradouras do mundo pós-colonial. As décadas seguintes, no entanto, evidenciaram os limites dessa abordagem. A autonomia era uma meta difícil de se alcançar em um sistema internacional pautado por assimetrias financeiras e técnico-militares. A forma de poder imperial que emergiu nesse período—suplantando modelos anteriores de governança colonial direta—, baseada na articulação entre poder militar e coerção econômica, passou a determinar as condições de participação, comércio e acumulação em países como o Irã.

Ao designar o Golfo Pérsico como uma zona de interesse estratégico vital, a Doutrina Carter foi decisiva para a instauração dessa nova forma de poder imperial, preparando o terreno para que a administração de Reagan promovesse uma ampla expansão naval, operações de troca de bandeiras durante a Guerra dos Petroleiros e a normalização da presença militar permanente dos EUA na região.3Ver Jones, Toby Craig. 2012.“America, Oil, and War in the Middle East”. (<)em(>)The Journal of American History(<)/em(>) 99, n.º 1: 208–18. Keshavarzian, Arang. 2024 (<)em(>)Making Space for the Gulf: Histories of Regionalism and the Middle East.(<)/em(>) Stanford University Press. Cap. 2. Esses desenvolvimentos culminaram na criação do Comando Central dos Estados Unidos, que transformou o que antes era um conjunto de intervenções discretas e contingentes em uma infraestrutura burocrática e operacional de projeção de força permanente em toda a região.4Khalili, Laleh. 2021. (<)em(>)Sinews of War and Trade: Shipping and Capitalism in the Arabian Peninsula(<)/em(>). Verso. p. 258. A militarização foi, em parte, financiada pela própria reciclagem dos petrodólares árabes pelo sistema financeiro estadunidense, processo que ajudou a consolidar a arquitetura financeira por meio da qual os EUA viriam posteriormente a exercer poder coercitivo sobre países como o Irã.5Hanieh, Adam. 2011. (<)em(>)Capitalism and Class in the Gulf Arab States(<)/em(>). Palgrave Macmillan. Cap. 2.

Outros instrumentos coercitivos, como sanções financeiras, jurisdição extraterritorial, operações de inteligência e restrições tecnológicas, passaram a compor um repertório de poder que permitia exercer pressão sem recorrer exclusivamente à intervenção militar direta. Após o colapso da União Soviética, esses instrumentos assumiram uma centralidade estratégica ainda maior. O efeito dessa abordagem, mais do que a simples degradação das capacidades estatais de países periféricos, foi a sua reconfiguração. Quando um Estado sofre ameaças externas, é comum que seus aparatos de segurança se expandam enquanto suas funções de desenvolvimento, bem-estar e regulamentação se deterioram.6Heydemann, Steven e Lynch, Marc (eds.). 2024. (<)em(>)Making Sense of the Arab State(<)/em(>).(<)em(>) (<)/em(>)University of Michigan Press. A campanha contra o Irã provocou justamente esse desequilíbrio, reforçando instituições de controle e sobrevivência e restringindo aquelas associadas à coordenação econômica e à prestação de serviços sociais. O país não sucumbiu à pressão imperial, tampouco simplesmente resistiu a ela, mas passou por um processo de transformação seletiva.

No linguajar convencional das relações internacionais, o Irã é frequentemente descrito como uma potência média, dada a sua capacidade de exercer influência na região imediata. Mas isso capta apenas um aspecto de sua complexa posição geopolítica. O Irã ocupa, na verdade, um lugar semiperiférico no capitalismo global, combinando capacidade estatal e alcance regional relativamente fortes com uma dependência persistente de infraestruturas financeiras, circuitos comerciais e sistemas tecnológicos controlados por países do Norte global. Nas últimas décadas, a tradicional dicotomia centro-periferia foi reconfigurada. Agora, Estados semiperiféricos se encontram em uma situação de autonomia desigual e condicionada: conseguem moldar desdobramentos regionais apesar de permanecerem extremamente vulneráveis à coerção externa, particularmente no âmbito do comércio e das finanças globais.7Panitch, Leo e Gindin, Sam. 2012. (<)em(>)The Making of Global Capitalism: The Political Economy of American Empire(<)/em(>). Verso; Oatley, Thomas. 2015. (<)em(>)The Political Economy of American Hegemony: Buildups, Booms, and Busts(<)/em(>). Cambridge University Press.

A arma econômica

Aqui, as sanções econômicas têm um papel crucial. Embora sejam tipicamente apresentadas como um instrumento de diplomacia ou um meio-termo entre a negociação e o uso das forças armadas, Nicholas Mulder nos lembra de suas verdadeiras origens históricas. No entreguerras, as sanções representavam uma intensificação do conflito bélico, estendendo sua violência à própria vida econômica. “A arma econômica”, escreve Mulder, “era a essência da guerra total”.8Mulder, Nicholas. 2022. (<)em(>)The Economic Weapon: The Rise of Sanctions as a Tool of Modern War(<)/em(>). Yale University Press. p. 17. Ver também: Mulder, Nicholas. 2022. (<)em(>)The Economic Weapon: The Rise of Sanctions as a Tool of Modern War(<)/em(>). Yale University Press. p. 17; Davis, Stuart e Ness, Immanuel (orgs.). 2022. (<)em(>)Sanctions as War: Anti-Imperialist Perspectives on American Geo-Economic Strategy. (<)/em(>)Brill. As sanções impostas ao Irã mostram como esse método de coerção faz com que o conflito se espalhe por toda a sociedade e se torne uma condição endêmica, gerando instabilidade constante nas esferas monetária, produtiva e política do país.

Sanções contra a República Islâmica emergiram praticamente em paralelo à consolidação da própria ordem revolucionária. Em novembro de 1979, após a crise dos reféns, o governo Carter congelou aproximadamente US$ 12 bilhões em ativos iranianos mantidos em instituições financeiras americanas e impôs um embargo comercial ao país. Mais do que mera reação à crise, essa foi a primeira etapa de uma estratégia mais ampla adotada por sucessivos governos americanos para salvaguardar interesses de atores financeiros e corporativos dos Estados Unidos.9Fayazmanesh, Sasan. 2008. (<)em(>)The United States and Iran: Sanctions, Wars and the Policy of Dual Containment(<)/em(>). Routledge. p. 15. Nas décadas seguintes, as sanções foram intensificadas, evoluindo de um conjunto de medidas relativamente direcionadas para uma estratégia de restrição econômica completa, como evidenciou a política de “contenção dupla” dirigida tanto ao Irã quanto ao Iraque.

As consequências devastadoras da “contenção dupla” tornaram-se particularmente evidentes no Iraque, onde sanções abrangentes, respaldadas pela ONU após a expulsão das forças iraquianas do Kuwait em 1991, provocaram escassez generalizada, colapso da infraestrutura e um sofrimento massivo da população civil. Embora o Programa Petróleo por Alimentos de 1995 tenha possibilitado a canalização de receitas petrolíferas limitadas para fins humanitários, também submeteu a sociedade iraquiana a novas formas de vigilância e controle. Isso, por sua vez, favoreceu a formação de economias informais e circuitos ocultos de poder, fortalecendo a  corrupção, os esquemas de propina e as redes de contrabando: criando, em suma, uma disfunção sistêmica generalizada. Posteriormente, o governo Clinton  adotou uma versão refinada dessa abordagem contra o  Irã por meio de uma série de decretos que proibiam o comércio e o investimento e da promulgação, em 2016, da Lei de Sanções contra o Irã e a Líbia, que ampliou o alcance das sanções para além das fronteiras iranianas, visando empresas estrangeiras que investissem no setor energético do país.10Narges Bajoghli et al.. 2024. (<)em(>)How Sanctions Work: Iran and the Impact of Economic Warfare(<)/em(>). Stanford University Press, 58.

Embora uma análise abrangente da política de sanções dos EUA esteja além do escopo deste ensaio,11Existe uma literatura robusta e crescente sobre o tema das sanções e da guerra econômica no Irã pós-revolucionário. Fayazmanesh op. cit.; Bajoghli, Narges et al.. 2024. (<)em(>)How Sanctions Work: Iran and the Impact of Economic Warfare(<)/em(>). Stanford University Press. Farzanegan, Mohammad Reza e Batmanghelidj, Esfandyar. 2023. “Understanding Economic Sanctions on Iran: A Survey”. (<)em(>)The Economists’ Voice(<)/em(>) vol. 20, n.º 2: 197–226. é possível apontar um ponto de inflexão crucial para a criação das condições que levaram à guerra atual. A adoção das chamadas “sanções paralisantes” pelo governo Obama representou uma mudança qualitativa em termos de lógica e escala: o Comprehensive Iran Sanctions, Accountability, and Divestment Act (CISADA) de 2010 intensificou e ampliou o alcance das restrições. Por meio da ameaça de exclusão de instituições financeiras estrangeiras do mercado norte-americano, a legislação estendeu as pressões coercitivas para muito além das relações bilaterais. Essa mudança tornou-se plenamente evidente entre 2011 e 2012, quando os EUA passaram a classificar todo o sistema financeiro iraniano como um domínio de atividades ilícitas, ameaçando aplicar medidas punitivas a qualquer instituição que se envolvesse com ele. Bancos estrangeiros enfrentaram penalidades severas—o BNP Paribas, por exemplo, recebeu uma multa bilionária—e a legislação americana passou a visar qualquer instituição financeira que realizasse transações com o Banco Central do Irã a não ser que as importações de petróleo fossem reduzidas sob supervisão dos Estados Unidos. A União Europeia, por sua vez, impôs um embargo ao petróleo, proibiu o seguro de cargas iranianas e congelou ativos do Banco Central. O isolamento do Irã se aprofundou ainda mais com a exclusão dos bancos iranianos do sistema de mensagens financeiras SWIFT em 2012, provocando um aumento acentuado nos custos e na complexidade das transações internacionais.12Harris, Kevan. 2020. “Of Eggs and Stones: Foreign Sanctions and Domestic Political Economy in the Islamic Republic of Iran”. Em Shih, Victor C. (ed.). 2020. (<)em(>)Economic Shocks and Authoritarian Stability: Duration, Financial Control, and Institutions(<)/em(>), 86. University of Michigan Press.

O endurecimento dessas restrições financeiras não suprimiu a capacidade do Irã de conduzir algum comércio exterior, mas reconfigurou os canais por meio dos quais ele passou a ocorrer. Em vez de interromper as trocas, as sanções as deslocaram para circuitos alternativos, mais fragmentados, indiretos e difíceis de monitorar. Um exemplo ilustrativo dessa dinâmica surgiu logo após a exclusão do Irã do SWIFT. Privados do acesso aos canais financeiros convencionais, agentes iranianos passaram a recorrer a mecanismos de compensação baseados em commodities. No comércio energético com a Turquia, os pagamentos pelo gás natural eram feitos em liras turcas e depositados em contas locais, posteriormente utilizadas para a compra de barras de ouro. As exportações turcas de ouro para o Irã dispararam, alcançando US$ 1,8 bilhão apenas em julho de 2012. À medida que o escrutínio aumentava, essas transações passaram a ser redirecionadas via Dubai, um tradicional centro de evasão de sanções. As exportações turcas de ouro para os Emirados Árabes Unidos saltaram de US$ 7 milhões em julho para US$ 1,9 bilhão em agosto de 2012, com cerca de 36 toneladas transferidas em um único mês. Grande parte desse ouro foi movimentada por meio de redes fragmentadas de transporte, explorando brechas legais nas regulamentações alfandegárias, antes de ser reexportada para o Irã por meio de complexos circuitos comerciais e marítimos. Como observa Bryan Early, episódios como este revelam tanto a capacidade adaptativa dos Estados sancionados quanto o papel crucial de agentes intermediários externos—inclusive de aliados formais da potência sancionadora—na erosão da eficácia dessas restrições financeiras.13Early, Bryan R. 2015. (<)em(>)Busted Sanctions: Explaining Why Economic Sanctions Fail.(<)/em(>) Stanford University Press. p. 1.

Em seu conjunto, as sanções levaram a uma reestruturação da posição do Irã no sistema financeiro global. Além de impor limites a transações ou setores específicos, elas alteraram toda a infraestrutura de pagamentos transfronteiriços, liquidações e intercâmbios financeiros. O controle exercido por Washington sobre a arquitetura financeira global—redes centradas na compensação em dólares, no sistema de bancos correspondentes e em mecanismos regulatórios amplamente controlados por instituições estadunidenses—permitiu a imposição de restrições de liquidez, a criação de instabilidade cambial, a elevação dos custos de transação e a disrupção dos mecanismos de pagamento essenciais para o comércio internacional. Os EUA alavancaram sua autoridade jurisdicional sobre os nós centrais do sistema financeiro global, fenômeno que Farrell e Newman caracterizam como uma estratégia de “interdependência armada”.14Farrell, Henry e Newman, Abraham L. 2019.  “Weaponized Interdependence: How Global Economic Networks Shape State Coercion”. (<)em(>)International Security(<)/em(>) 44, n.º 1: 42–79. As sanções passaram a funcionar menos como um instrumento diplomático e mais como uma técnica de governança, uma forma de “imperialismo em rede”.15Farrell e Newman, (<)em(>)Underground Empire(<)/em(>), p. 15.

Esse tipo de poder em rede opera tanto por meio da visibilidade quanto da exclusão. Farrell e Newman definem como “efeito panóptico” a forma como as infraestruturas de vigilância e monitoramento, incorporadas aos sistemas financeiros globais, conferem aos EUA uma capacidade excepcional de monitorar transações, relações institucionais e fluxos monetários de todo o mundo. A atividade financeira conduzida por meio de sistemas globalmente integrados de mensagens, compensação e liquidação está sujeita a uma rigorosa supervisão regulatória, permitindo a identificação de contrapartes, intermediários e padrões de troca. Isso dá aos EUA condições informacionais que possibilitam a interrupção seletiva.16Farrell e Newman 2019, p.46. As transações iranianas denominadas em dólares, que dependem de redes de bancos correspondentes ou são mediadas por plataformas financeiras reguladas internacionalmente, permanecem dependentes de infraestruturas efetivamente controladas pelos Estados Unidos, o que as torna vulneráveis a políticas como o congelamento de ativos ou a imposição de sanções secundárias.

Para entidades iranianas e suas contrapartes estrangeiras, a participação nos circuitos financeiros globais torna-se, assim, uma questão de conformidade antecipada: elas precisam adaptar seu comportamento para evitar os riscos associados à desconexão dos mecanismos centrais de compensação e liquidação. A vigilância e a exclusão operam em conjunto, possibilitando o exercício de disciplinamento econômico sem a necessidade de intervenção direta.17Farrell e Newman 2019, p.65. “Mesmo quando isentas por razões humanitárias”, escreve Vira Ameli, “empresas públicas e privadas frequentemente optam por uma ‘sobrerregulação’ em relação às sanções primárias e secundárias dos Estados Unidos, a fim de evitar o risco de punição por violar as normas do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros [Office of Foreign Assets Control, ou OFAC] e preservar suas relações econômicas com empresas americanas.”18Ameli, Vira. 2023. “Unilateral Sanctions as Sustainable Development Decelerators”. Em Kirkham, Ksenia (ed.). (<)em(>)The Routledge Handbook of the Political Economy of Sanctions(<)/em(>), 137. Routledge.

Richard Nephew, um dos principais arquitetos da política de sanções dos EUA, que atuou no Conselho de Segurança Nacional do governo Obama como Diretor para Assuntos Iranianos antes de se tornar Coordenador Adjunto Principal para a Política de Sanções no Departamento de Estado, fornece um relato revelador da estratégia subjacente à guerra econômica contra o Irã. Suas reflexões sobre o CISADA merecem ser citadas em detalhe:

Através dessa disposição—que foi  arduamente negociada por representantes dos poderes Executivo e Legislativo desde 2009—, os Estados Unidos ganharam o poder de bloquear o acesso de bancos estrangeiros ao sistema financeiro americano caso se constatasse que esses bancos processavam transações para instituições financeiras iranianas sancionadas pelos EUA ou para a Guarda Revolucionária Islâmica. Com a expansão da lista americana de bancos iranianos sancionados, o sistema financeiro internacional passou a operar sob o risco de que qualquer transação com o Irã pudesse implicar a perda de acesso aos Estados Unidos. Ainda que algumas instituições financeiras sem vínculos com os EUA pudessem sobreviver a isso sem grandes dificuldades, bancos multinacionais preocuparam-se com essa disposição e aderiram à corrida de entidades que abandonaram negócios com o Irã. A verdade nua e crua era que o Irã representava um mercado lucrativo, mas os EUA ainda mais. Simplesmente não fazia sentido econômico arriscar o acesso aos EUA pelas oportunidades existentes no Irã.”19Nephew, Richard. 2018. Nephew, (<)em(>)The Art of Sanctions: A View from the Field(<)/em(>).(<)em(>) (<)/em(>)(Columbia University Press., 2018), pp. 77–78. Realce do autor. (grifo nosso)

Indicadores agregados são incapazes de captar integralmente o impacto dessas políticas. As sanções afetam os horizontes temporais do país-alvo, fazendo com que as decisões de investimento se tornem arriscadas, a aquisição de tecnologia incerta e o planejamento de longo prazo estruturalmente prejudicado. A volatilidade cambial, as pressões inflacionárias e a fuga de capitais são características intrínsecas de um regime de sanções no qual a atividade econômica se torna cada vez mais subordinada à gestão de crises, enquanto estratégias produtivas dão lugar a comportamentos especulativos e de sobrevivência. Nessas condições, todo o ambiente no qual atores econômicos e forças sociais mais amplas operam é definido pela instabilidade.

Essas rupturas macroeconômicas impulsionaram profundas reconfigurações sociais no Irã. Como demonstra a análise de Ameli dos dados nacionais e do Banco Mundial, as  sanções foram intensificadas num momento em que o país havia alcançado reduções substanciais nas taxas de pobreza, que caíram de mais de 20% em 2000 para menos de 10% em 2010. Esse avanço foi revertido em menos de uma década, e cerca de 30% da população voltou a viver abaixo da linha de pobreza definida nacionalmente.20Ameli 2023. “Unilateral Sanctions as Sustainable Development Decelerators”. p. 140. A corrosão dos avanços desenvolvimentistas não deve ser compreendida simplesmente como uma desaceleração cíclica, mas como consequência de uma prolongada instabilidade cambial, de choques de preços e da deterioração da renda real. Outro relato de Nephew, de 2012, explica como as pressões sistêmicas se traduziram em impactos de grande repercussão política e social:

Naquele ano, apesar de os Estados Unidos não terem obstruído a importação de frango pelo Irã, os preços deste produto triplicaram devido à inflação provocada pelas sanções, que foi agravada pela má gestão da economia iraniana. É possível que esse aumento tenha provocado, de uma só vez, mais frustração do que anos de restrições financeiras. Isso porque a interferência das sanções no abastecimento de frango coincidiu com importantes períodos festivos iranianos, nos quais a carne de frango é um componente central. 21Nephew 2018. (<)em(>)The Art of Sanctions.(<)/em(>) p. 112.

As sanções nunca foram capazes de provocar um colapso repentino e total. Seus efeitos sempre foram irregulares, cumulativos e sujeitos à mediação setorial e institucional. O Estado, por sua vez, continuou desempenhando um papel ativo na gestão de crises. Mesmo sob restrições abrangentes, partes da economia iraniana demonstraram um alto grau de resiliência. Entre 2011 e 2015, auxiliado em parte pelas exportações não petrolíferas e pelos efeitos residuais de receitas petrolíferas anteriores, o Irã conseguiu manter uma balança de pagamentos positiva.22Harris 2020, p. 73. O programa de reformas nos subsídios implementado pelo governo Ahmadinejad em 2010, após anos de debate interno, substituiu as extensas subvenções ao setor energético por transferências de renda quase universais, entregues diretamente às famílias. Esse sistema funcionou como um importante amortecedor no período  subsequente de intensificação das sanções, ajudando a proteger os grupos de baixa renda e contribuindo para um declínio mensurável da desigualdade: o índice de Gini caiu de cerca de 0,45 na década de 2000 para aproximadamente 0,37 no início da década de 2010.23Harris 2020, p. 90.

Políticas de expansão do crédito e programas habitacionais apoiados pelo Estado também injetaram liquidez substancial na economia, tensionando a suposição de que sanções inevitavelmente geram austeridade. Mas o efeito amortecedor revelou-se efêmero. Embora as intervenções redistributivas tenham mitigado o choque imediato e reduzido a desigualdade, não conseguiram compensar as consequências de longo prazo das sanções, que, com o tempo, começaram a exercer séria pressão sobre a capacidade produtiva e o sistema político do Irã.

Ascensão e queda do JCPOA

Foi nesse contexto de resiliência parcial, em que pressões sistêmicas coincidiram com uma capacidade de adaptação limitada, que o Plano de Ação Conjunto Global [Joint Comprehensive Plan of Action, ou JCPOA] passou a dominar a agenda. As negociações do acordo foram conduzidas pelo governo de centro-direita de Hassan Rouhani, eleito em 2013 com a promessa de aliviar as pressões econômicas por meio da diplomacia e garantir o alívio das sanções pela reabertura dos canais de diálogo com os EUA e a restauração das relações com a União Europeia. O mote de sua campanha eleitoral, de que “as centrífugas [dos reatores nucleares] devem girar, mas a vida do povo e a economia também”, capturou uma convergência mais ampla entre diferentes facções de poder do sistema político iraniano que reconheciam que a estabilização econômica havia se tornado uma necessidade política.

A implementação do acordo proporcionou ao Irã um alívio macroeconômico genuíno, ainda que breve. Impulsionado principalmente pela rápida recuperação das exportações de petróleo, o crescimento do PIB acelerou fortemente em 2016, ano seguinte à assinatura do acordo, enquanto a inflação recuou para um patamar de um dígito pela primeira vez em anos. As pressões cambiais diminuíram temporariamente, as receitas externas melhoraram e as expectativas de reintegração parcial nos mercados globais alteraram o comportamento dos investidores e o sentimento econômico.24England, Andrew. 2026. “How Iran’s Economic Pain Sparked Explosion of Unrest”. (<)em(>)Financial Times(<)/em(>), 12 de janeiro. Embora essa recuperação tenha sido limitada e fortemente dependente dos hidrocarbonetos, ela ainda assim produziu importantes efeitos estabilizadores. O JCPOA criou condições nas quais a ampliação do investimento estrangeiro, das trocas tecnológicas e dos fluxos comerciais e turísticos parecia possível—e talvez efetivamente avançasse, caso o regime de alívio das sanções tivesse sido preservado.

A sobrevivência do JCPOA, no entanto, dependia dos caprichos da Casa Branca, que se reservava o direito de revogá-lo por meio de decisões executivas. Enquanto o alívio era concedido sob condições muito restritas, as sanções podiam ser reestabelecidas unilateralmente a um custo insignificante para os EUA. Isso continuou a afetar o panorama de investimentos no Irã, tornando quaisquer compromissos de longo prazo de empresas multinacionais profundamente incertos. E, como os comentaristas mais céticos já suspeitavam, as capacidades coercitivas que nunca haviam sido verdadeiramente abandonadas sob o JCPOA foram reativadas quando Trump assumiu a Casa Branca em 2017. Sua política de “pressão máxima”, iniciada com a saída dos EUA do JCPOA no início de 2018, expandiu as sanções da era Obama a um grau sem precedentes, voltando a atingir exportações de petróleo, transações financeiras e um conjunto cada vez mais amplo de entidades privadas. 25Demarais, Agathe. 2022. (<)em(>)Backfire: How Sanctions Reshape the World Against U.S. Interests(<)/em(>). Columbia University Press, 2.

Tratava-se de uma diferença de grau, não de natureza. O retorno do Partido Republicano ao Executivo agravou problemas criados por administrações americanas anteriores: contração das receitas petrolíferas, desvalorização cambial e alta dos preços. Após o desmonte do JCPOA, em maio de 2018, as exportações iranianas de petróleo despencaram de aproximadamente 2,8 milhões de barris diários para algo em torno de 300 mil em 2019, provocando uma queda dramática das receitas em moeda estrangeira. O rial sofreu uma forte desvalorização, enquanto a inflação se aproximou dos 40%, corroendo o poder de compra e intensificando as pressões distributivas sobre os setores dependentes de salários. O congelamento de dezenas de bilhões de dólares em receitas petrolíferas iranianas mantidas em instituições financeiras no exterior restringiu ainda mais o acesso à liquidez externa, ampliando a instabilidade cambial e reforçando a dinâmica de crise.26England 2026. O Estado iraniano responderia repetidamente a essas pressões por meio de medidas adaptativas destinadas a estabilizar a economia e sustentar os fluxos de receita. A resiliência não assumiu a forma de retração, mas de reconfiguração. Agentes econômicos iranianos redirecionaram o comércio para novos parceiros e produtos, aprofundando, em vez de abandonar, sua integração à economia global.27Batmanghelidj, Esfandyar. 2024. “Resistance Is Simple, Resilience Is Complex: Sanctions and the Composition of Iranian Trade”. (<)em(>)Middle East Development Journal(<)/em(>) 16, n.º 2: 220–38. Nesse sentido, adaptação e desgaste avançaram lado a lado: tais respostas mitigaram colapsos imediatos, ao mesmo tempo em que consolidaram formas mais difusas e cumulativas de distorção tanto nas instituições estatais quanto na vida social.

Estatalidade assimétrica

As sanções não enfraqueceram o Estado de forma uniforme ou mecanicista. Como o próprio Nephew reconheceu implicitamente, a desorganização econômica interage com estruturas já existentes de privilégio, poder e vulnerabilidade. O prolongado isolamento financeiro do Irã acelerou a expansão de redes econômicas paraestatais e vinculadas aos aparatos de segurança, mais bem posicionadas para operar em canais restritos do comércio internacional. Práticas de informalização, arbitragem e intermediação rentista passaram a proliferar, redistribuindo riscos econômicos enquanto consolidavam formas de governança cada vez mais opacas e intrincadas. O regime de sanções produziu, de um lado, a erosão da capacidade produtiva de base ampla; de outro, o fortalecimento de determinados grupos capazes de transformar escassez e volatilidade em fontes de lucro.

O caso de Ali Ansari e do Banco Ayandeh ilustra bem essa dinâmica. Ansari, um proeminente empresário iraniano cuja família fundou o banco, foi sancionado pelo Reino Unido em outubro de 2025, em meio a alegações de que redes financeiras associadas ao Ayandeh teriam facilitado transações ligadas à Guarda Revolucionária. Ao mesmo tempo, reportagens investigativas sugeriam que Ansari possuía um extenso portfólio imobiliário na Europa, supostamente avaliado em centenas de milhões de euros.28Healy, Euan e Dubois, Laura. 2026. “Sanctioned Iranian Banker Amassed €400mn European Property Empire”. (<)em(>)Financial Times(<)/em(>), 26 de janeiro. Bozorgmehr, Najmeh. 2025. “Iran Takes over Major Private Bank to Prevent Collapse”. (<)em(>)Financial Times(<)/em(>), 28 de outubro. A justaposição é reveladora: à medida que o balanço do Banco Ayandeh se deteriorava e milhares de correntistas iranianos enfrentavam a perspectiva de perder suas economias, a riqueza permanecia concentrada em redes financeiras politicamente conectadas, que continuavam a operar através das fronteiras e para além das restrições impostas pelas sanções.

Isso ajuda a explicar por que as sanções raramente conseguem converter pressão econômica agregada em capitulação política: as elites estatais podem transferir os custos da desorganização econômica para o restante da sociedade enquanto protegem a si próprias e seus aliados.29Pape, Robert A. 1997. “Why Economic Sanctions Do Not Work”. (<)em(>)International Security(<)/em(>) 22, n.º 2: 107; Pape, Robert A. 1998 “Why Economic Sanctions Still Do Not Work”. (<)em(>)International Security(<)/em(>) 23, n.º 1: 66–77. No caso iraniano, observa-se precisamente essa dinâmica de estatalidade assimétrica: atores inseridos em redes paraestatais e vinculadas aos aparatos de segurança dispõem de acesso diferenciado a divisas, circuitos informais de comércio e proteção política. O resultado é uma distribuição estruturalmente desigual tanto dos riscos quanto das oportunidades. A instabilidade financeira é socializada por meio da inflação, da desvalorização cambial e das perdas dos correntistas, enquanto agentes inseridos nessas redes opacas preservam a capacidade de manter e até de ampliar sua riqueza.

O caso Ayandeh mostra como a volatilidade induzida pelas sanções não simplesmente enfraquece o Estado, mas reorganiza a economia política da crise de maneiras que fortalecem intermediários operando na interseção entre finanças e segurança. Ao fazê-lo, reforça formas de governança menos transparentes e menos sujeitas ao escrutínio público. As sanções tendem, assim, a consolidar próprias as estruturas elitistas que supostamente pretendem constranger.

Pesquisas empíricas realizadas demonstram a magnitude dessa reestruturação no Irã. Segundo a análise de Mohammad Reza Farzanegan e Nader Habibi , as sanções “levaram a uma redução média anual de 17 pontos percentuais no tamanho da classe média iraniana entre 2012 e 2019”.30Farzanegan, Mohammad Reza e Habibi, Nader. 2025. “The Effect of International Sanctions on the Size of the Middle Class in Iran”. (<)em(>)European Journal of Political Economy(<)/em(>), 90, dezembro. Evidências complementares indicam que, desde 2011, cerca de oito milhões de pessoas deixaram a classe média e passaram a integrar estratos de baixa renda, enquanto a população vivendo abaixo da linha da pobreza cresceu em mais de quatro milhões.31Salehi-Isfahani, Djavad. 2022. “Impact of Sanctions on Household Welfare and Employment”. Em (<)em(>)Rethinking Iran: School of Advanced and International Studies(<)/em(>); Bajoghli et al. 2024. (<)em(>)How Sanctions Work: Iran and the Impact of Economic Warfare(<)/em(>), p.11. Esse quadro é reforçado por análises mais recentes do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, segundo as quais o PIB per capita do Irã despencou de US$ 8 mil para US$ 5 mil entre 2012 e 2024.32Ameli 2023. “Unilateral Sanctions as Sustainable Development Decelerators”. p.137. Abdi afirma que o Irã registrou um declínio de 400% no PIB entre 2011 e 2020. Abdi, Asma. 2026., “Economic Warfare, War Economy, and Gendered Circuits of Violence in Iran”. Em Hozić, Aida A. e True, Jacqui. (<)em(>)War Economy: Gendered Circuits of Violence and Capital(<)/em(>).  Routledge. p.62. A instabilidade produzida pelas sanções converteu-se em um mecanismo de reestratificação social, comprimindo parcelas das camadas médias e intensificando as pressões sobre famílias assalariadas.

Esse é o contexto fundamental das ondas de protesto que começaram a eclodir a partir de 2017–18. Grandes manifestações nacionais irromperam no Irã em dezembro de 2017, novembro de 2019 e novamente durante o outono e o inverno de 2022–23, quando o movimento “Mulher, Vida, Liberdade” foi formado. Novos levantes voltariam a ocorrer em janeiro de 2026 e seriam recebidos com uma repressão estatal excepcionalmente violenta, na qual acredita-se que vários milhares de manifestantes tenham sido mortos—a Human Rights Activists News Agency estima cerca de 7 mil vítimas—, configurando um dos episódios mais sangrentos da história da República Islâmica. Isso não significa que as mobilizações possam ser reduzidas apenas a queixas econômicas, mas a prolongada estagnação e a condição precária da economia política iraniana, aliadas ao aprofundamento da desigualdade e à deterioração da renda real, constituíram o pano de fundo para a recorrência cíclica dessas revoltas e a expansão de sua base social.

Mais uma vez, as palavras de Richard Nephew revelam que esse não foi um resultado acidental, mas parte do próprio desenho da política de sanções. “Moeda forte”, recorda ele, “saía do país enquanto bens de luxo entravam, e começaram a surgir relatos no Irã sobre o agravamento da desigualdade de renda e da inflação. Isso foi uma escolha, uma decisão tomada com base na ideia de aumentar a pressão interna sobre o governo iraniano.”33Nephew 2018. (<)em(>)The Art of Sanctions(<)/em(>). p. 111. O impacto das sanções assume, assim, a forma de uma redistribuição sistemática da insegurança e das vantagens adaptativas no conjunto da sociedade. A ausência de confronto militar aberto não significou a suspensão do conflito, mas sua reorganização por meio de mecanismos econômicos e financeiros cuja violência é mais lenta, embora não menos consequente, e cujos efeitos são mais difusos, porém mais duradouros: a reconfiguração das relações de classe, o fortalecimento das instituições de segurança, a degradação da capacidade produtiva e a normalização de condições permanentes de crise.

Apesar das mudanças retóricas e de limitadas iniciativas diplomáticas, o governo Biden manteve o núcleo do regime de sanções intacto, deixando de enquadrá-lo como um conjunto de medidas emergenciais e passando a tratá-lo como instrumento convencional da política externa americana, processo que Trump voltou a fortalecer em 2025. Isso corresponde a uma transformação mais ampla no exercício do poder imperial, em que a coerção foi gradualmente rotinizada, desvinculada de crises específicas e incorporada ao funcionamento cotidiano da ordem econômica global. Cada nova administração estadunidense herda não apenas as políticas de suas antecessoras, mas também um conjunto de capacidades infraestruturais cada vez mais isoladas da influência democrática e responsáveis por impor sofrimento agudo a nações periféricas e semiperiféricas.

Dissuasão, militarização e sobrevivência

Ainda que as sanções tenham sido o principal componente econômico da campanha contra a República Islâmica, a intenção nunca foi utilizá-las isoladamente. A pressão financeira sempre esteve acompanhada da ameaça—e da aplicação periódica—da força militar, com as fronteiras entre coerção econômica e intervenção armada tornando-se cada vez mais difusas nos últimos anos. Desde o início da “Guerra ao Terror”, o Irã viu-se cercado pela expansão da infraestrutura do império estadunidense. As invasões e ocupações do Afeganistão em 2001 e do Iraque em 2003 posicionaram forças dos EUA nas fronteiras oriental e ocidental do Irã, enquanto os EUA consolidavam uma densa presença militar no Golfo Pérsico por meio de bases no Catar, Bahrein, Kuwait e nos Emirados Árabes Unidos. Grupos de ataque de porta-aviões passaram a circular continuamente pelo Golfo e pelo Mar Arábico, enquanto sistemas de vigilância e instalações de defesa antimísseis se multiplicavam, transformando a região em uma das zonas mais militarizadas do planeta.

Operações israelenses também constituíram um componente central dessa estratégia híbrida. Ao longo das últimas duas décadas, cientistas e outros quadros ligados ao programa nuclear iraniano foram repetidamente alvo de campanhas de assassinato. As restrições econômicas foram complementadas com sabotagens industriais, operações cibernéticas—como o ataque do vírus Stuxnet a instalações nucleares—e constante infiltração de serviços de inteligência, submetendo o Estado iraniano a uma pressão estratégica contínua. Foi sob essas condições que a doutrina contemporânea de dissuasão do Irã começou a tomar forma.

A Guerra Irã–Iraque expôs a vulnerabilidade aguda do Estado revolucionário diante de um ataque convencional conduzido por um adversário materialmente superior e mais bem armado, revelando tanto os limites das capacidades militares do Irã quanto as restrições impostas por seu relativo isolamento no sistema internacional. Os estrategistas iranianos, porém, não buscaram apenas compensar essas fragilidades elevando os custos de uma intervenção externa em um sentido estritamente reativo. Desenvolveram também uma doutrina de “defesa avançada”, baseada no deslocamento do conflito para além das fronteiras iranianas. Isso envolveu cultivar relações com atores armados aliados não estatais, expandir sua influência sobre os conflitos e espaços estratégicos da região e inserir a dissuasão em redes transnacionais capazes de operar abaixo do limiar da guerra convencional.34Sadeghi-Boroujerdi, Eskandar. 2017. “Strategic Depth, Counterinsurgency, and the Logic of Sectarianization: The Islamic Republic of Iran’s Security Doctrine and Its Regional Implications”. Em Hashemi, Nader e Postel, Danny. (<)em(>)Sectarianization: Mapping the New Politics of the Middle East(<)/em(>).Oxford University Press. Sadeghi-Boroujerdi, Eskandar. 2025.  “Iran and the ‘Axis of Resistance’: A Brief History”. (<)em(>)Jadaliyya(<)/em(>), 19 de maio. (<)a href='https://www.jadaliyya.com/Details/46685'(>)https://www.jadaliyya.com/Details/46685(<)/a(>). Nasr, Vali. 2025. (<)em(>)Iran’s Grand Strategy: A Political History(<)/em(>). Princeton University Press.

A guerra assimétrica não era apenas um substituto de segunda ordem para a força convencional, mas uma reconfiguração estratégica de como e onde o conflito seria travado, manobra que buscava externalizar o risco, fragmentar os ambientes operacionais dos adversários e tornar a escalada difusa, prolongada e difícil de conter. As invasões do Afeganistão e do Iraque reforçaram a necessidade dessa virada estratégica. Embora o colapso do regime de Saddam Hussein tenha removido o principal rival regional do Irã, também reconfigurou profundamente seu ambiente de segurança ao posicionar forças dos EUA diretamente em seus flancos oriental e ocidental. Isso conferiu nova urgência à doutrina de defesa avançada, entendida como uma forma de moldar preventivamente o equilíbrio regional de poder e forçar qualquer confronto a se desenrolar simultaneamente em múltiplos âmbitos operacionais.

Foi nesse contexto que o Irã buscou constituir, em coordenação com seus aliados, aquilo que posteriormente seria chamado de “Eixo da Resistência”: uma rede relativamente flexível de movimentos políticos e organizações armadas aliadas espalhadas pelo Iraque, Síria, Líbano, Iêmen e Palestina. O objetivo não era alcançar paridade militar com os EUA ou Israel, mas criar um ambiente dissuasório no qual os custos de um ataque direto se tornassem proibitivamente altos. A estratégia refletia a condição de um Estado semiperiférico e potência média aspirante diante de uma correlação de forças militares profundamente desfavorável, além de severas restrições fiscais. A dissuasão não prometia vitória, mas era cuidadosamente calibrada para garantir a sobrevivência do sistema islâmico.

Paralelamente a essa arquitetura regional, Teerã investiu fortemente no desenvolvimento de mísseis, drones e estratégias de dissuasão em camadas. As origens do programa iraniano de mísseis também remontam à experiência da Guerra Irã–Iraque, quando ataques iraquianos com mísseis provocaram grandes danos a cidades iranianas, levando os planejadores militares do país à conclusão de que a dependência de fornecedores estrangeiros para sistemas avançados de armamentos era insustentável. Figuras como o comandante da Guarda Revolucionária Hassan Tehrani Moghaddam começaram, então, a lançar as bases do que se tornaria a principal capacidade dissuasória do Irã, supervisionando a produção de mísseis balísticos—incluindo os sistemas Shahab, Ghadr e Sejjil—capazes de atingir alvos em toda a região ampliada.35Bahgat, Gawdat e Ehteshami, Anoushiravan. 2021. (<)em(>)Defending Iran: From Revolutionary Guards to Ballistic Missiles(<)/em(>). Cambridge University Press. Cap. 6. A estratégia era simples: se o Irã não poderia igualar o poder militar convencional de seus adversários, ainda assim seria capaz de ameaçar infraestruturas críticas e instalações militares ao longo do Golfo e do Mediterrâneo Oriental, elevando drasticamente os custos de um ataque para Israel e os EUA.

Por quase duas décadas, essa estratégia obteve algum sucesso. Apesar das repetidas crises, dos ataques encobertos e da intensificação das sanções, a República Islâmica evitou o destino do Iraque e da Líbia. Sua rede de dissuasão—que combinava alianças regionais, capacidade balística e potencial nuclear—impôs restrições reais ao processo decisório dos Estados Unidos e de Israel. Ainda assim, tratava-se de um equilíbrio frágil e dependente de uma correlação regional de forças permanentemente instável e contestada. Esse equilíbrio finalmente começou a se desfazer após o 7 de outubro, quando a escalada da ofensiva israelense e o ataque sistemático a aliados iranianos enfraqueceram decisivamente o “Eixo” que sustentava a posição do Irã na Ásia Ocidental. O Hezbollah, há muito considerado o mais importante aliado regional do Irã, sofreu perdas severas em sua liderança e infraestrutura, enquanto a queda do regime de Bashar al-Assad na Síria enfraqueceu ainda mais o corredor logístico e político que ligava o Irã ao Líbano. O que antes funcionava como uma rede distribuída de dissuasão encontrava-se agora em processo de fragmentação.

Em resposta a esse horizonte cada vez mais sombrio, o Irã adotou uma postura deliberadamente ambígua em relação à sua estratégia nuclear: preservou capacidades de enriquecimento e continuou avançando em seu programa, mas sem embarcar na produção efetiva de armas atômicas. O objetivo era ocupar a precária posição de um Estado no limite, mantendo certo grau de capacidade dissuasória e recusando-se a abrir mão do que considerava um direito soberano ao enriquecimento nuclear para fins pacíficos, ao mesmo tempo em que insistia em sua disposição para negociar uma solução diplomática. Para evitar uma guerra em grande escala, o país estava disposto a aceitar termos comparáveis ou talvez até mais rigorosos do que os do JCPOA.36“Peace “within Reach” as Iran Agrees No Nuclear Material Stockpile: Oman FM”. 2026. (<)em(>)Al Jazeera(<)/em(>), 28 de fevereiro. https://www.aljazeera.com/news/2026/2/28/peace-within-reach-as-iran-agrees-no-nuclear-material-stockpile-oman-fm. Para Israel e muitos de seus aliados em Washington, no entanto, mesmo essa postura cuidadosamente calibrada era inaceitável. A mera possibilidade de que o Irã, um dia, convertesse suas capacidades latentes em uma dissuasão operacional era percebida por Israel como uma limitação—ainda que modesta—a seu suposto direito de dominar uma região tratada, há muito, como sua reserva estratégica exclusiva. A liderança iraniana parece ter subestimado a ferocidade do ataque que sua estratégia ambígua acabaria por provocar.

Da Rising Lion à Epic Fury

A inflexão decisiva ocorreu com a Operação Rising Lion, um ataque surpresa israelense lançado em junho de 2025 que matou altos integrantes da liderança da Guarda Revolucionária e das Forças Armadas iranianas, além de uma dúzia de cientistas nucleares. Em seguida, os EUA lançaram a Operação Midnight Hammer, ofensiva coordenada destinada a destruir as três principais instalações nucleares do Irã. Mas, apesar da destruição provocada pela Guerra dos Doze Dias, a campanha americano-israelense parecia estranhamente inconclusa. Em meio ao precário cessar-fogo que se seguiu, tudo indicava que os agressores haviam lançado a primeira fase de um confronto mais amplo e, agora, se reorganizavam para um conflito prolongado.

A fase seguinte começou quando os EUA enviaram reforços navais adicionais para a região, incluindo o USS Abraham Lincoln e, posteriormente, o USS Gerald R. Ford. A escalada militar ocorreu paralelamente a um processo diplomático ativo: após meses de impasses, negociações indiretas entre autoridades americanas e iranianas, mediadas pelo Omã e apoiadas pelo Catar e por interlocutores europeus, foram retomadas no início de 2026. Nas últimas semanas de fevereiro, as conversas já haviam produzido o que mediadores e participantes descreveram como “avanços concretos”, incluindo discussões sobre limites ao enriquecimento de urânio, mecanismos ampliados de verificação e um alívio gradual das sanções, com novas negociações técnicas em Viena já previstas.

Porém, no último dia de fevereiro de 2026, o governo Trump interrompeu abruptamente as negociações diplomáticas e mergulhou os EUA em mais uma guerra imperial na Ásia Ocidental. A ofensiva, batizada de Operação Epic Fury, foi acompanhada por declarações abertas de altas autoridades americanas em defesa de uma “mudança de regime”, além de apelos para que a população iraniana se levantasse contra o Estado. Forças israelenses e americanas lançaram uma onda coordenada de ataques contra centenas de alvos militares, industriais e governamentais. A escala dos bombardeios foi sem precedentes: mais de mil alvos foram atingidos apenas nas primeiras vinte e quatro horas. Ataques orientados por informações de inteligência buscaram decapitar a liderança iraniana, na expectativa de que isso levasse ao rápido colapso ou à rendição humilhante do regime, o que culminou na morte do Líder Supremo, o Aiatolá Ali Khamenei, então com 86 anos.

A dimensão tecnológica da operação revelou as transformações no caráter da guerra contemporânea. No centro disso, está o uso cada vez mais amplo, pelos EUA, de sistemas algorítmicos de inteligência, incluindo o Maven Smart System da Palantir, que integra processamento massivo de dados, identificação automatizada de alvos e análise do campo de batalha.37Copp, Tara et al.. 2026. “Anthropic’s AI Tool Claude Central to U.S. Campaign in Iran, amid a Bitter Feud”. (<)em(>)The Washington Post(<)/em(>), 4 de março. https://www.washingtonpost.com/technology/2026/03/04/anthropic-ai-iran-campaign/#selection-237.0-1028.0. Ao combinar dados de vigilância, fluxos de inteligência e análises preditivas, esses sistemas permitem a rápida identificação e priorização de alvos em um teatro operacional de enorme escala, capacidade com a qual uma potência semiperiférica fortemente sancionada como o Irã dificilmente poderia competir.

A intensidade dos bombardeios também evidenciou que a campanha se expandia muito além de objetivos estritamente militares. A guerra começou em 28 de fevereiro com um ataque à escola primária Shajareh Tayyebeh, em Minab, que matou ao menos 170 pessoas—a maioria meninas entre sete e doze anos—, ofensiva que múltiplas investigações independentes atribuíram a um míssil Tomahawk fabricado nos EUA. As principais siderúrgicas do país foram amplamente atingidas, com Benjamin Netanyahu vangloriando-se de ter destruído 70% da capacidade iraniana de produção de aço, enquanto grandes empresas farmacêuticas, incluindo a Tofigh Darou, nas proximidades de Teerã, também foram bombardeadas. A Universidade de Tecnologia Sharif—principal instituição científica e de engenharia do país—, assim como centros de pesquisa da Universidade Shahid Beheshti, da Universidade de Ciência e Tecnologia do Irã e de pelo menos outras trinta instituições de ensino superior foram atingidos. A ponte suspensa B1, próxima a Teerã, foi bombardeada enquanto famílias civis se reuniam nas proximidades para celebrar o Sizdah Bedar—tradicional festival que marca o décimo terceiro dia do ano novo persa, no início da primavera, quando as famílias saem de casa para passar o dia ao ar livre—, matando ao menos oito pessoas. Em Teerã, o Palácio Golestan, o Grande Bazar, o Hospital Gandhi e diversos bairros residenciais também foram atingidos. Tomados em conjunto, esses ataques revelam uma campanha sistemática contra as bases materiais da vida econômica, social e científica iraniana.

Durante muitos anos, o Irã buscou justamente evitar esse tipo de confronto. Por algum tempo, conseguiu fazê-lo. Mas o enfraquecimento do Eixo da Resistência, a crescente assimetria tecnológica entre o Irã e o bloco de poder EUA-Israel e a vulnerabilidade estrutural de uma postura de limiar nuclear sem uma capacidade dissuasória plenamente operacional acabaram deixando a República Islâmica exposta. O país não foi capaz de neutralizar as imensas capacidades militares, financeiras e tecnológicas de um sistema imperial determinado a impor sua vontade. Ainda assim, o confronto expôs tanto os limites da estratégia de dissuasão iraniana quanto os limites da própria campanha imperial dirigida contra o país. Diante do que a liderança iraniana corretamente interpretou como um ataque existencial—cujos objetivos declarados incluíam a mudança de regime e a eliminação de seu alto comando—o Irã abandonou a contenção calculada que havia marcado sua postura durante décadas e passou a apostar na escalada horizontal, atacando bases americanas ao longo do Golfo, mirando infraestruturas energéticas regionais e fechando o Estreito de Ormuz. O que se seguiu não foi a rápida capitulação esperada por Washington e Tel Aviv, mas um embate mais prolongado, custoso e consideravelmente mais difícil de resolver.

Apesar de toda a bravata e retórica belicosa, a República Islâmica não colapsou. Após décadas de dificuldades induzidas por sanções e de pressão externa contínua, não houve um levante das massas em resposta aos ataques. Em vez disso, o Estado iraniano demonstrou um notável grau de resiliência institucional, com a Guarda Revolucionária e seus aliados recusando-se a ceder às exigências americanas e aparentemente transferindo o poder, após a morte do aiatolá Ali Khamenei, para uma geração mais jovem, em alguns casos mais militante, em outros mais criativa, de dirigentes.38Sadeghi-Boroujerdi, Eskandar. 2026. “War and Succession”. Phenomenal World, 18 de março. O “modelo venezuelano” de decapitação da liderança seguido pela instalação de um sucessor complacente simplesmente não se materializou no Irã, cujo aparato de segurança passou anos se preparando precisamente para esse tipo de ofensiva e dispõe de estruturas capilarizadas de comando e mecanismos de proteção contra golpes capazes de assegurar sua reprodução institucional.39Valadbaygi, Kayhan. 2026. “A ilusão da Venezuela” (<)em(>)Phenomenal World(<)/em(>), 12 de março.

Mesmo nessas circunstâncias profundamente desfavoráveis, Teerã continuou empregando sua estratégia de dissuasão assimétrica. Os mísseis e os drones continuam sendo os principais meios pelos quais o país é capaz de impor custos aos seus agressores e calibrar o nível de escalada em toda a região, ameaçando a infraestrutura energética, as instalações militares e as redes logísticas de  Estados do Golfo Pérsico que servem como bases avançadas do poder americano. Forças iranianas passaram a atingir não apenas alvos militares, mas também embaixadas, instalações energéticas e infraestrutura digital, utilizando a desorganização econômica como instrumento de dissuasão.

Mais decisivamente, o Irã passou a exercer seu controle de facto sobre o Estreito de Ormuz, uma artéria crítica de circulação não apenas para o abastecimento energético global, mas também para o transporte de diversas commodities industriais. Enquanto países do Golfo reduziram a produção ou buscaram rotas alternativas, as exportações iranianas foram mantidas, em alguns casos até mesmo excedendo os níveis pré-guerra, ao passo que o tráfego de petroleiros de países não alinhados a Teerã passou a ser bloqueado pela ameaça de ataques com mísseis e drones. O resultado é uma forma altamente seletiva de disrupção, na qual os fluxos não são interrompidos totalmente, mas filtrados de acordo com alinhamentos políticos.

Os efeitos se estendem muito além do petróleo e do gás. Como destacam análises recentes, o Estreito constitui um corredor vital para produtos químicos, metais e fertilizantes, produzindo efeitos em cascata sobre setores que vão da indústria de semicondutores e da manufatura avançada até a agricultura e a produção de alimentos. Interrupções nas exportações de hélio do Catar, por exemplo, ameaçam a fabricação de semicondutores e equipamentos de diagnóstico por imagem, enquanto restrições ao transporte de enxofre e de seus derivados afetam tanto a produção de chips quanto a extração de minerais críticos utilizados em baterias. De forma ainda mais significativa, interrupções no fluxo de ureia e amônia, insumos essenciais para fertilizantes nitrogenados, podem reduzir a produtividade agrícola e elevar os preços dos alimentos por todo o planeta.40Conselho Editorial. 2026. “The Other Strait of Hormuz Shock”.  (<)em(>)Financial Times(<)/em(>), 25 de março.

Isso representa uma notável inversão da lógica que orientou a política dos EUA nas últimas quatro décadas. Enquanto os Estados Unidos utilizaram seu controle sobre redes financeiras, jurisdições legais e gargalos infraestruturais para regular o acesso iraniano aos mercados globais, o Irã agora explora sua posição em um ponto de estrangulamento físico da economia mundial para impor custos a seus adversários. O que antes constituía uma arquitetura de constrangimento assimétrico adquiriu, em condições de conflito aberto, um caráter mais recíproco, ainda que profundamente desigual. As mesmas redes de interdependência  que possibilitaram a projeção do poder econômico americano estão agora expostas a disrupções em seus nós materiais: rotas marítimas, fluxos de commodities e corredores logísticos. A “interdependência armada” já não se restringe ao domínio das finanças e da informação, mas se estende também à circulação de energia, matérias-primas e insumos industriais. Os instrumentos do império não foram neutralizados, mas parcialmente invertidos, revelando que até mesmo sistemas altamente assimétricos de integração global podem gerar formas compensatórias de alavancagem coercitiva. Essas dinâmicas também apontam para uma tensão estrutural na própria arquitetura da interdependência armada. O uso excessivo da coerção financeira baseada no dólar passou a produzir exatamente as reações que buscava impedir, levando Estados-alvo—e, cada vez mais, aliados dos próprios EUA—a buscar sistemas alternativos de pagamento, novos arranjos monetários e circuitos logísticos paralelos.41Daniel Davies and Henry Farrell, “The US Dollar System as a Source of International Disorder,” (<)em(>)Global (Dis)Order International Policy Programme(<)/em(>), janeiro de 2026. A erosão da centralidade do dólar ainda não atingiu um limiar crítico, mas o ciclo de retroalimentação entre escalada coercitiva e evasão sistêmica já está em movimento, e a exploração iraniana do Estreito de Ormuz constitui, até aqui, sua expressão física mais dramática.

Império híbrido

A trajetória do Irã sob pressão dos EUA não pode ser compreendida através das dicotomias habituais entre resiliência e colapso, vitória e derrota. A República Islâmica nem foi incorporada a uma ordem regional liderada pelos EUA, nem acabou derrubada. Como, então, avaliar os resultados do conflito neste momento? Agora que o Irã foi finalmente empurrado para a luta existencial que passou décadas tentando evitar, tudo indica que o longo processo de fortalecimento conduzido contra a campanha EUA-Israel ofereceu ao país resiliência suficiente para sobreviver à decapitação de sua liderança política e militar. Seja qual for o desfecho, a guerra não cumpriu a promessa fundamental de que a combinação entre desgaste econômico e bombardeio aéreo produziria um rápido colapso do regime. A Epic Fury ficou aquém de seus objetivos.

Ainda assim, a sobrevivência de Teerã diante da ofensiva EUA-Israel está longe de representar um sucesso estratégico. Embora o Irã seja capaz de projetar poder considerável e impor danos reais a seus adversários, não dispõe da força material e institucional necessária para disputar qualquer forma de hegemonia regional, limitação agravada pela ausência do elemento de dissuasão nuclear e pela intensidade da ingerência imperial. Sua condição atual é a de resistência sitiada. O Irã pode continuar resistindo à ordem dominada pelos EUA, tanto no plano global quanto regional, mas essa resistência impõe custos imensos à própria população e à região como um todo.

O Irã oferece hoje um retrato claro da versão contemporânea do poder imperial americano. Ele já não depende necessariamente de ocupação territorial ou tutela política formal. Em vez de uma estratégia única e uniforme, recorre a um amplo repertório de métodos—da exclusão financeira ao ataque militar em larga escala—concebidos para se reforçar mutuamente na degradação, fragmentação e disciplinamento de Estados que se recusam à subordinação. Se um país não pode ser plenamente assimilado à esfera imperial, ao menos pode ser transformado em um espaço de instabilidade e regressão do desenvolvimento crônicas. A destruição da infraestrutura nacional iraniana, de grandes siderúrgicas e complexos petroquímicos à indústria farmacêutica, passando por importantes centros de pesquisa do país, aponta para uma lógica mais ampla de acumulação destrutiva e subdesenvolvimento induzido que é cada vez mais central ao exercício contemporâneo do poder imperial, sustentado por uma economia de guerra permanente e, em certos momentos, articulado em termos explicitamente coloniais.42Esse ponto é inspirado no trabalho seminal de Sara Roy sobre “desdesenvolvimento”, que, por sua vez, dialoga e se apoia na longa e influente tradição da teoria da dependência, particularmente no que diz respeito à relação colonial de Israel com Gaza Strip. Ver Sara Roy, “The Gaza Strip: A Case of Economic De-Development”, (<)em(>)Journal of Palestine Studies(<)/em(>) 17, nº 1 (1987): 56–88. O argumento mais amplo acerca da destruição como função sistêmica da acumulação imperial inspira-se, em parte, na análise de Paul Baran sobre militarismo e desperdício no capitalismo monopolista, especialmente em sua interpretação de como os gastos militares e a economia de guerra permanente servem para absorver excedentes ao mesmo tempo em que sustentam as condições coercitivas da extração imperial. Ver The Political Economy of Growth (Monthly Review Press, 1957) e Monopoly Capital (Monthly Review Press, 1966). A ameaça de Donald Trump de bombardear o Irã “de volta à Idade da Pedra, onde eles pertencem” não é uma aberração, mas uma expressão brutal dessa lógica mais profunda. Híbrida em sua forma, cumulativa em seus efeitos e totalizante em seu alcance, a guerra imperial contemporânea não se limita ao campo de batalha: ela se estende ao banco, ao porto, à refinaria, ao hospital, ao lar e ao sistema de pagamentos. O processo em duas etapas permanece notavelmente consistente: primeiro sufocar, depois destruir.

Ainda assim, os efeitos dessa estratégia estão longe de ser lineares ou plenamente controláveis. A campanha EUA-Israel impôs danos imensos à base industrial iraniana e custos severos às classes médias e populares do país, degradando as perspectivas de longo prazo para o desenvolvimento nacional, mas não produziu a rápida capitulação política que esse tipo de pressão supostamente deveria provocar. Em vez disso, expôs os limites da escalada coercitiva em um contexto estruturado pela interdependência. Mesmo continuando a operar através da destruição e da dominação, o poder imperial encontrou dificuldades para converter força esmagadora em resultados políticos decisivos, produzindo um equilíbrio muito mais instável e contestado do que seus formuladores pareciam antecipar. A arquitetura mais ampla da coerção baseada no dólar enfrenta um conjunto distinto, embora relacionado, de limites. O controle exercido pelo Irã sobre o Estreito de Ormuz oferece uma ilustração particularmente condensada dessa dinâmica: a mesma interdependência que tornou o isolamento financeiro tão eficaz também criou vulnerabilidades físicas e econômicas que um adversário suficientemente determinado é capaz de explorar. A reimperialização, ao que tudo indica, carrega suas próprias contradições.

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