19 de agosto de 2026
Análises
A teimosia do cimento
Concorrência acirrada e crises de excesso de capacidade dificultam a descarbonização da produção de cimento
A produção de cimento é responsável por cerca de um quarto das emissões industriais de carbono do mundo. O setor lança na atmosfera aproximadamente um bilhão de toneladas a mais de dióxido de carbono por ano do que toda a indústria do continente africano. Esses números colossais se devem, em grande medida, à intensidade de carbono do cimento: para cada tonelada de cimento produzida, quase uma tonelada de carbono é emitida. O concreto—composto de cimento e agregados como areia e brita—é a substância mais consumida no planeta depois da água. Base material de edifícios, rodovias, pontes e barragens, ele é o elemento físico do desenvolvimento econômico.
Descarbonizar um processo produtivo que já foi comparado a “passar uma montanha por uma peneira” é extremamente difícil. Combustíveis fósseis são usados na extração e britagem de matérias-primas como o calcário; no aquecimento desses materiais para transformá-los em clínquer, os nódulos cinzentos que constituem o principal componente do cimento; e na moagem e no transporte da mistura de cimento. E isso responde por apenas metade das emissões de carbono da indústria: o restante resulta da calcinação, uma reação química que libera dióxido de carbono e ocorre durante a produção do clínquer. O barateamento da eletricidade renovável, principal arma do arsenal da descarbonização, é inócuo diante desse problema.
Ainda assim, há várias frentes pelas quais a indústria do cimento pode reduzir suas emissões, como o aumento da eficiência energética, a substituição de combustíveis, a substituição parcial do clínquer por materiais cimentícios suplementares (SCMs, na sigla em inglês) de baixo carbono e a criação de novos ligantes que não contenham clínquer.1Outra frente de descarbonização é transformar as práticas de construção de modo a reduzir o consumo de cimento. Isso é extremamente importante, mas não pode ser implementado diretamente pelo próprio setor cimenteiro. Mas, ainda que cada uma dessas estratégias seja importante, todas elas têm limitações. Muitas fábricas, por exemplo, já operam com alta eficiência, o que restringe o espaço para novos ganhos. Além disso, alguns SCMs, como a escória de alto-forno, se tornarão escassos à medida que a descarbonização da indústria siderúrgica eliminar gradualmente os altos-fornos. Esses obstáculos alimentam o consenso de que a captura de carbono será a principal estratégia de descarbonização do setor: ela deverá eliminar cerca de 40% das emissões remanescentes depois de esgotadas as demais alternativas.2A (<)a href='https://gccassociation.org/concretefuture/carbon-capture-utilisation-and-storage/'(>)Global Cement and Concrete Association(<)/a(>) estima que 36% da redução das emissões virá da captura de carbono. O (<)a href='https://www.cementeurope.eu/media/t0qh4vti/cembureau-position-paper-sustainable-carbon-cycles-2021-09-27.pdf'(>)lobby europeu do cimento(<)/a(>) trabalha com uma estimativa ainda maior, de 42%. A própria tecnologia de captura de carbono, porém, é profundamente problemática, não apenas pelos desafios tecnológicos, mas também pelas enormes exigências de infraestrutura para sua implementação em larga escala.
Mas, por mais sérios que sejam esses desafios técnicos, eles, por si só, não explicam o ritmo exasperantemente lento da descarbonização do cimento. Se é verdade que as estratégias existentes são imperfeitas, elas ainda assim poderiam reduzir significativamente as emissões. Desde a Conferência do Clima de Paris, apesar da profusão de relatórios de sustentabilidade e planos para atingir emissões líquidas zero, o setor se tornou ainda mais intensivo em carbono: tanto as emissões absolutas quanto a intensidade de carbono estão hoje mais altas do que em 2015.
O que impede o avanço da transição verde na indústria do cimento não é simplesmente a química do setor, mas sua economia política particularmente sujeita a crises. A forte concorrência e as recorrentes crises de excesso de capacidade há muito comprimem a rentabilidade da indústria e, agora, comprometem a capacidade das empresas de financiar os enormes investimentos necessários à descarbonização. A China, onde se fabrica a maior parte do cimento do mundo—e onde os problemas de excesso de capacidade são mais graves—evidencia isso particularmente. Mas versões desse mesmo dilema aparecem em diversos mercados regionais de cimento.
Historicamente, os entraves à rentabilidade do setor foram superados por processos de reestruturação que reduziam o excesso de capacidade às custas de cortes na força de trabalho, abrindo espaço para novos investimentos. Hoje, começa a surgir um processo de reestruturação “verde”, facilitado por medidas estatais de derisking (para usar o termo de Daniela Gabor), que direcionam o capital privado para objetivos de desenvolvimento ou de política industrial ao transferir riscos do setor privado para o público. Em alguns lugares, essas medidas têm estimulado investimentos modestos na descarbonização do cimento, mas esses investimentos têm ocorrido paralelamente ao fechamento de fábricas (e demissões) justificado por razões financeiras e ambientais. Diversos setores industriais pesados registram o surgimento de um padrão semelhante. O perigo é que uma descarbonização “des-riscada”, que mantenha nas mãos das empresas as decisões sobre investimentos, acabe se tornando um eufemismo para desindustrialização, com consequências negativas para a política climática.
Conter a concorrência ou quebrar
Cimento Portland é o nome da mistura que hoje está presente em 98% do concreto produzido no mundo. Inventado pelo pedreiro inglês Joseph Aspdin na década de 1820, o cimento era, em seus primeiros anos, produzido de forma rudimentar. Trabalhadores retiravam manualmente lama e giz dos rios Tâmisa e Medway, na Inglaterra, que depois eram processados e queimados em pequenos fornos em forma de garrafa. O clínquer resultante era então moído entre pedras de moinho, como nos tradicionais moinhos de farinha. Esse processo foi transformado pela invenção do forno rotativo no final do século XIX. O enorme cilindro—Thomas Edison patenteou, em 1909, um forno de 45 metros de comprimento—era instalado com uma leve inclinação, como o eixo de um veículo gigantesco colocado na diagonal. As matérias-primas entravam pela extremidade superior e, quando chegavam à parte inferior, eram transformadas em clínquer pelo calor intenso da queima de carvão pulverizado. Isso revolucionou a produtividade: a produção de uma fábrica de cimento passou de cerca de cinquenta para mil ou duas mil barricas por dia. A mecanização acelerou a extração e o processamento de um volume cada vez maior de matérias-primas. Conforme a produção aumentava e os preços caíam, o cimento Portland se tornava cada vez mais indispensável ao ambiente construído, dos edifícios monumentais às favelas de concreto armado que surgiam nos interstícios e nas margens das cidades.
A produção de cimento ganhou ritmo e escala, mas a um alto custo humano. No início do século XX, o setor já estava entre os mais propensos a acidentes. Uma das mais sangrentas tragédias industriais dos Estados Unidos ocorreu em 1942, nas instalações da Lehigh Portland Cement Company, na Pensilvânia, quando 31 trabalhadores foram “despedaçados” por uma explosão em uma pedreira que, segundo o New York Times, deixou seus restos “espalhados pela paisagem”. Crianças da escola local foram arremessadas de suas cadeiras e atingidas por estilhaços de vidro. Incidentes semelhantes se espalham pelos registros históricos. A poeira tomava comunidades no entorno das fábricas, comprometendo a função pulmonar dos moradores e contaminando o solo e a vegetação locais. Em 1962, o Parlamento britânico ouviu o depoimento de duas mulheres de Kent, na Inglaterra: “A poeira do cimento chega em enormes nuvens cinzentas, desce como uma neblina, cobre calçadas e carros e sufoca jardins e campos.” Moradores do Vale do Lehigh, nos Estados Unidos, chegaram a apelidar o fenômeno de “a brisa”.3Esses relatos históricos encontram ecos na China de hoje. Moradores de vilarejos na província de Jiangsu (<)a href='http://www.china.org.cn/environment/2013-04/27/content_28677632_2.htm'(>)reclamam(<)/a(>) que “não se atrevem a abrir as janelas nem a secar roupas ao ar livre” por causa das fábricas de cimento da região. A poeira chega a atrapalhar até os relacionamentos amorosos: “As moças de outros vilarejos sempre relutam em se casar com um rapaz que mora aqui.”
A produção de cimento em massa trouxe consigo outro problema: o risco de graves desequilíbrios entre oferta e demanda. A produção de cimento exige enormes investimentos fixos, e as empresas precisam operar com altos níveis de utilização da capacidade para serem rentáveis. Essa característica é comum em indústrias pesadas, mas o cimento tem uma particularidade: sua demanda depende quase exclusivamente da construção civil, um setor sujeito a fortes ciclos de expansão e retração. Outra particularidade é que o cimento tem baixo valor em relação ao seu peso e volume, além de ser perecível, o que torna inviável transportá-lo por longas distâncias—em geral, não mais que 300 ou 400 quilômetros. Por isso, os oligopólios regionais dependem fortemente da demanda da construção civil local.
O setor cimenteiro combina, portanto, uma enorme capacidade produtiva com uma demanda volátil e geograficamente desigual. À medida que a concorrência leva a capacidade e a produção de cimento a superar o que os mercados locais da construção conseguem absorver, as fronteiras entre os mercados regionais começam a se desfazer. Sem demanda suficiente, as empresas avançam sobre os mercados de seus concorrentes, muitas vezes reduzindo os preços para aumentar as vendas. O resultado é uma espiral de retaliação destrutiva, que se manifesta em excesso de produção, baixa utilização da capacidade, queda dos preços e perda de rentabilidade. “A concorrência gera uma tempestade”, nas palavras de um executivo do setor. “E então, aos poucos, ela se transforma em um furacão de categoria 5.”4Ver Truman Bewley, (<)em(>)Price Setting(<)/em(>) (Polity, 2025).
Mesmo nessas condições, as empresas costumam relutar em fechar fábricas e abandonar investimentos já realizados. Afinal, quem permanece no mercado se beneficia da alta dos preços provocada pela saída de outros produtores. Às vezes, porém, a situação se deteriora a tal ponto que se torna necessário eliminar uma parcela significativa da capacidade produtiva. Durante a crise de rentabilidade que se estendeu do final dos anos 1960 até os anos 1980, muitas cimenteiras estadunidenses fecharam suas operações e abandonaram o setor, migrando para a fabricação de carpetes, construção de resorts de esqui e até a produção de vinho. Como afirmou a Lehigh Cement Company em 1968, antecipando a lógica do período neoliberal: “não somos fabricantes de cimento . . . somos gestores de ativos.” Os trabalhadores arcaram com a maior parte dos custos: o efeito combinado da reestruturação e da modernização tecnológica da indústria cimenteira estadunidense nesse período foi uma queda de 37% no emprego do setor entre 1980 e 1988.
Há muito tempo, os empresários do setor cimenteiro procuram conter essas dinâmicas, muitas vezes recorrendo a acordos para restringir a concorrência. Em 1934, o presidente da estadunidense Riverside Cement observou: “A nossa é uma indústria que . . . precisa restringir sistematicamente a concorrência ou sucumbirá.” As estratégias de conluio vão desde expedientes relativamente corriqueiros, como o hoje proibido “sistema de preços por ponto-base” nos Estados Unidos e no Reino Unido, em que os produtores fixavam os preços do cimento segundo uma fórmula acordada entre si, até práticas de extraordinária ousadia. No auge da Guerra Civil Síria, a gigante francesa Lafarge pagou milhões de dólares ao ISIS e à Frente al-Nusra para proteger as operações de uma de suas fábricas na Síria e firmou um acordo de divisão de receitas com o ISIS. Em troca, o grupo ajudava a Lafarge a eliminar a concorrência do cimento turco importado, cobrando taxas dos vendedores locais ou simplesmente impedindo-os de operar.5Os motoristas da Lafarge portavam documentos de circulação com a bandeira negra do ISIS, nos quais se lia: “Em nome de Alá, o Misericordioso, pede-se aos mujahedin que permitam a passagem deste veículo, que transporta cimento da fábrica da Lafarge, pelos postos de controle, conforme acordo firmado com a empresa.” (Em 2026, um tribunal francês fez história ao condenar o ex-CEO da Lafarge a seis anos de prisão por financiamento do terrorismo.) Não surpreende, portanto, que o setor tenha sido repetidamente alvo das autoridades de defesa da concorrência, de modo que as pressões competitivas nunca chegaram a ser completamente neutralizadas.
Pequenos lucros, grandes emissões
No século XXI, o cimento continua sendo um negócio marcado por altos custos de capital, demanda instável e uma concorrência que tende a expandir a capacidade produtiva para além do que os mercados conseguem absorver. As crises recorrentes geradas por essa dinâmica de acumulação estão agora colocando em risco a transição verde do setor.
A China, responsável por metade da produção mundial de cimento, é o exemplo mais claro desse dilema. Entre as décadas de 1990 e 2010, enquanto cidades colossais e vilas urbanas brotavam do chão, interligadas por megaprojetos de infraestrutura, o país consumiu cimento em escala sem precedentes. Entre 2011 e 2013, a China utilizou mais concreto do que os Estados Unidos ao longo de todo o século XX. Foi o ápice das ondas de urbanização e industrialização, quando a demanda por cimento atingiu seu auge, logo antes de entrar em declínio. Desde então, o Partido Comunista vem tentando fechar linhas de produção excedentes, enquanto grandes empresas como a Anhui Conch procuram conter a “concorrência predatória” por meio da consolidação do setor. Até agora, nenhuma dessas estratégias teve sucesso: em uma indústria composta por cerca de 3 mil empresas, a utilização da capacidade gira em torno de 50%, pressionando os preços e as taxas de lucro para baixo. “O atual preço de mercado do cimento mal cobre os custos de produção”, afirma um estudo recente sobre o setor cimenteiro chinês. Diante dessa pressão sobre os lucros, “alguns produtores relutam em adotar até mesmo medidas de descarbonização prontamente disponíveis”, como a redução do teor de clínquer—quem dirá arcar com os enormes custos da captura de carbono. Os vultosos investimentos que as empresas já fizeram em ativos mais antigos são outra complicação. As fábricas de cimento têm vida útil de cerca de quarenta anos, e aproximadamente 90% das unidades do país foram construídas nos últimos vinte anos. As empresas relutam em transformar essas instalações (e mais ainda em descartá-las) enquanto esses ativos ainda puderem gerar retorno.
Os problemas de excesso de capacidade da China são notórios, mas estão longe de serem exclusividade do país. No Vietnã, terceiro maior produtor mundial de cimento, assim como na Tailândia, em Bangladesh, na Indonésia e em partes do Oriente Médio e da América Latina, a expansão da capacidade produtiva também esbarrou na estagnação da demanda. Dinâmicas semelhantes vêm afetando produtores em economias maduras. “A realidade é que há mais de um bilhão de toneladas de capacidade de produção de cimento excedente no mundo”, afirmou, em 2024, o fundador da World Cement Association. A situação varia de país para país, mas, globalmente, a utilização da capacidade produtiva está em torno de 65%—patamar incompatível com uma rentabilidade sustentada.
Na Europa, equipar uma fábrica de cimento com tecnologia de captura de carbono pode custar entre € 200 milhões e € 500 milhões—em alguns casos, mais do que o investimento originalmente necessário para construir a própria fábrica. Outros gastos serão necessários para medidas como a substituição de combustíveis. É pouco provável que preços suficientemente altos compensem esse salto nos custos. Pesquisas indicam que os compradores estão dispostos a pagar um adicional de apenas 10% pelo cimento verde, enquanto o custo adicional efetivo para produzi-lo supera os 100%. A descarbonização torna-se economicamente injustificável e, sem viabilidade econômica, nada acontece. “Se você quer que a indústria do cimento se descarbonize, as empresas precisam ganhar dinheiro com isso”, disse um diretor de uma importante associação do setor. “As pessoas não gostam de ouvir isso, mas essa é a realidade.” A baixa rentabilidade da indústria representa um “enorme problema” para a descarbonização, afirmou outro alto representante do setor com quem conversei. “Afinal, como convencer alguém a emprestar o dinheiro necessário para esses investimentos se você não consegue ganhar dinheiro com sua atividade principal?”
A necessidade de acesso a financiamento há muito orienta as prioridades do setor. Antes da crise financeira de 2008, multinacionais ocidentais promoveram uma onda de aquisições para tirar proveito da forte demanda por cimento. Essa demanda evaporou quando a crise eclodiu e a construção civil entrou em retração. A gigante mexicana Cemex, por exemplo, havia anunciado em 2006 a aquisição da australiana Rinker, inteiramente financiada por dívida, e passou a correr o risco de quebrar. Diante do excesso estrutural de capacidade, da baixa rentabilidade e do elevado endividamento em relação aos lucros, as multinacionais do cimento embarcaram em um longo processo de venda de ativos e redução de suas dívidas. A Cemex levou mais de quinze anos para finalmente recuperar o grau de investimento junto às agências de classificação de risco.
Justamente no momento em que a pressão global por medidas de combate às mudanças climáticas aumentava, as grandes cimenteiras passavam a submeter cada vez mais suas decisões de investimento ao escrutínio dos mercados financeiros. Segundo um estudo de 2014, “a alavancagem, a redução da dívida e a classificação de crédito são prioridades absolutas” para as multinacionais. Com “uma avaliação financeira de tão curto prazo aplicada até mesmo a investimentos em ativos de longa duração”, outros objetivos, como a redução das emissões, “desempenham um papel secundário nas decisões de investimento”. Esse princípio de gestão persiste até hoje. Para remunerar seus investidores, a gigante alemã Heidelberg Materials anunciou, em 2024, um programa de recompra de ações de € 1,2 bilhão—três vezes o custo de sua única unidade de captura de carbono em operação. Na China, as condições de crédito também são difíceis: as fábricas de cimento verde têm rentabilidade ainda menor que suas concorrentes mais intensivas em carbono e levam de oito a dez anos para quitar seus empréstimos.
Por isso, a maior parte dos avanços na descarbonização resulta da intervenção estatal, sobretudo dos esforços europeus para derisk investimentos em cimento verde. Políticas da União Europeia, como o Horizonte Europa e o Fundo de Inovação, além de subsídios concedidos pelos governos nacionais, incentivaram algumas empresas a investir significativamente em descarbonização. Esses investimentos verdes também foram viabilizados pelas condições particulares do setor na Europa. Assim como em outras regiões, as empresas europeias enfrentam um enorme excesso de capacidade desde 2008; ainda assim, nos últimos anos têm mantido níveis elevados de rentabilidade. Isso ocorre porque os produtores aproveitaram a inflação do período pós-pandemia para elevar seus preços, que permaneceram altos mesmo depois da queda dos custos de energia em 2023.
O Sistema de Comércio de Emissões da União Europeia também contribuiu para sustentar esses preços ao funcionar como uma espécie de cota informal de produção: se as empresas mantêm sua produção dentro dos limites cobertos pelas licenças de emissão que recebem gratuitamente—embora essa gratuidade esteja sendo gradualmente eliminada—, evitam arcar com o custo integral de suas emissões de carbono. Isso tem contido os volumes de produção na Europa e contrabalançado a tendência do excesso de capacidade de corroer a rentabilidade. A combinação de apoio público e lucros estáveis fez da Europa o destino de mais da metade dos projetos de captura de carbono previstos para a indústria cimenteira em todo o mundo.
No entanto, mesmo na Europa, onde os efeitos do excesso de capacidade foram atenuados, os enormes custos da descarbonização do cimento e a ausência de um diferencial de preço para o produto verde continuam impondo limites aos avanços climáticos: apenas uma fábrica de cimento verde está em operação, e poucas outras chegaram à decisão final de investimento. Com a Lei de Redução da Inflação (IRA) de Biden, os Estados Unidos pareciam prestes a ultrapassar a Europa em sua estratégia de redução de riscos. Trump pôs fim a essa perspectiva: em 2025, US$ 3,7 bilhões em subsídios para captura de carbono foram cancelados, inviabilizando uma série de projetos de cimento verde. Com boa parte da construção civil desestabilizada pelas tarifas e pelas incessantes operações contra imigrantes, que aterrorizam e fazem desaparecer sua força de trabalho, as esperanças agora estariam depositadas na demanda gerada pela inteligência artificial. Gigantes da computação em nuvem como Amazon, Meta e Microsoft firmaram contratos com produtores de cimento de baixo carbono, revestindo de verde a expansão ecocida dos data centers.
Na China, o apoio governamental à descarbonização do cimento tem sido mais limitado. O Estado chinês estabeleceu diversas metas e exigências para a produção e a eficiência do setor, e o cimento foi recentemente incorporado ao sistema nacional de comércio de emissões, mas houve pouco financiamento estatal direto para sua descarbonização. Os resultados falam por si: segundo o Global CCS Institute, existem três fábricas de cimento com captura de carbono na China que, juntas, sequestram apenas 0,03% das gigantescas emissões nacionais do setor. Segundo algumas fontes, o dióxido de carbono capturado pelo maior desses projetos é utilizado na chamada “recuperação avançada de petróleo”: o gás é injetado em grandes profundidades nos reservatórios para extrair o petróleo remanescente.
Em muitos países, os esforços de descarbonização têm precisado lidar com a forte propensão do setor a crises, com diferentes graus de sucesso. A situação é diferente na Índia e em partes da África. Nesses lugares, essa tendência foi sobrepujada—ou talvez apenas temporariamente adiada—pelo ritmo vertiginoso da urbanização e da expansão da infraestrutura. Os produtores encontram-se na mesma posição de seus equivalentes chineses duas décadas atrás, correndo para construir novas fábricas e conquistar uma parcela de uma demanda em plena expansão. Com ampla disponibilidade de recursos, os oligopólios cimenteiros indianos estão fazendo investimentos significativos em descarbonização, entre eles melhorias na eficiência energética, o uso crescente de energia renovável e o lançamento de diversos projetos-piloto de captura de carbono.
Ainda assim, qualquer redução da intensidade de carbono terá de compensar o aumento da produção de cimento: uma disputa entre ritmo e escala. Isso revela um dilema mais amplo. Em muitos países onde a demanda por cimento perdeu força, o excesso de capacidade dificulta a descarbonização ao comprimir a rentabilidade. Já em partes do mundo em desenvolvimento, onde as margens de lucro são elevadas e a capacidade produtiva cresce rapidamente para acompanhar a demanda, a expansão da produção pode simplesmente superar o ritmo da descarbonização. Com a expansão da produção prevista para as próximas décadas, os produtores indianos não esperam atingir emissões líquidas zero antes de 2070, enquanto seus equivalentes europeus têm 2050 como meta. Até lá, segundo um estudo recente, mais de 600 milhões de indianos poderão estar expostos a “níveis de calor sem precedentes”.
Visões da transição
Mesmo o maior caso de sucesso da Europa, a fábrica de Brevik da Heidelberg Materials, inaugurada no ano passado na Noruega, revela as complexidades da descarbonização. Considerada a maior fábrica de cimento verde do mundo, a unidade captura cerca de 400 mil toneladas de dióxido de carbono por ano, o que corresponde, atualmente, a 50% de suas emissões totais. O projeto só foi possível graças a subsídios estatais que cobriram mais de 80% do investimento necessário. O carbono capturado na fábrica é injetado em uma formação geológica a milhares de metros de profundidade sob o Mar da Noruega pela Northern Lights, uma joint venture das petrolíferas Shell, Total e Equinor. Recursos públicos também cobriram 80% dos custos desse projeto. Seus defensores argumentam que, se o apoio estatal for suficientemente ambicioso, é possível despertar o ímpeto para o investimento verde até mesmo em setores particularmente sujeitos a crises.
Mas, em 2024, quando as obras em Brevik já estavam quase concluídas, a Heidelberg fez outro anúncio, bem mais discreto: encerraria a produção em fábricas na Alemanha, na França e na Espanha, alegando, além das metas climáticas, a fraqueza da demanda. É provável que muitos outros fechamentos ocorram nos próximos anos, tanto na Europa quanto no restante do mundo. Especialistas preveem uma queda de 22% na demanda global por cimento até 2050, puxada pelo declínio da China e pela estagnação dos mercados maduros. Ao lado da alta dos preços do carbono e do crescimento da produção de cimento verde—que ampliará ainda mais a oferta—, essa queda exercerá forte pressão para que as empresas eliminem a capacidade excedente. A Comissão Europeia vê esse processo com bons olhos: a redução da capacidade diminuiria as emissões e aliviaria o excesso de oferta no mercado de cimento. A World Cement Association concorda: “Para continuar sendo ao mesmo tempo rentável e ambientalmente responsável, a indústria do cimento deve procurar reduzir sua capacidade em 50% . . . ao longo da próxima década.” Para cada Brevik construída, muitas outras fábricas terão de fechar as portas.
Por si só, uma onda de fechamentos de fábricas de cimento não teria efeitos desastrosos sobre o emprego, embora provocasse impactos severos nas comunidades afetadas. O problema é que as mesmas tendências à crise estão presentes em outras indústrias pesadas, como a siderurgia, o alumínio, a petroquímica e a produção de amônia, que emitem volumes catastróficos de dióxido de carbono e empregam milhões de pessoas em todo o mundo. Empresas da indústria automobilística também parecem recorrer à agenda climática para justificar a eliminação da capacidade excedente. A siderúrgica alemã Thyssenkrupp, por exemplo, recebeu bilhões de euros em subsídios para construir uma única usina de aço verde—projeto do qual mais tarde recuou parcialmente—enquanto fechava linhas de produção em outras unidades e cortava 11 mil postos de trabalho. A Tata Steel segue a mesma cartilha no Reino Unido: recebeu £ 500 milhões em subsídios, construiu um forno verde, desativou quatro fornos intensivos em carbono e demitiu 2.800 trabalhadores. A gigante química Ineos segue o mesmo caminho.
A questão, portanto, não é se a redução de riscos pode destravar investimentos verdes nessas indústrias. Do ponto de vista financeiro, isso é perfeitamente possível, ao menos em muitos países ricos. Politicamente, porém, será extremamente difícil sustentar uma estratégia que destine enormes volumes de recursos públicos a corporações multinacionais enquanto elas eliminam empregos e aceleram a desindustrialização. Se as decisões de investimento permanecerem nas mãos dos capitalistas, a transferência dos riscos para o Estado pode apenas perpetuar os danos causados por décadas de reestruturação industrial. Como argumenta Rebekah Diski, a extrema direita já vem se aproveitando dessa situação para promover sua “guerra cultural contra a ação climática”, apresentando-se como defensora dos trabalhadores que estariam sendo “sacrificados no altar das emissões líquidas zero”.
Alguns trabalhadores, porém, recusam-se a ver sua situação instrumentalizada dessa maneira. Quando a Heidelberg anunciou o fechamento de sua fábrica de clínquer, os trabalhadores da Cementos Rezola, no País Basco, iniciaram uma greve por tempo indeterminado e uma campanha para conquistar apoio público à sua luta. Eles eram filiados à ELA e à LAB, dois sindicatos combativos que começaram a formular sua própria visão de estratégia climática—uma que não dependa do empobrecimento de seus filiados.
Mais do que uma “transição justa”, a LAB defende um “programa de transição ecossocialista”, baseado no “controle público dos setores estratégicos, no planejamento democrático da economia e na desmercantilização de esferas essenciais da vida cotidiana”. Embora reconheça que a retórica climática muitas vezes serve de pretexto para reestruturações empresariais, o sindicato alerta para o risco de, por isso, menosprezar a urgência da descarbonização. Diante de ameaças de fechamento, defende a redução da jornada de trabalho sem redução salarial para os trabalhadores afetados e a reconversão de instalações intensivas em carbono para atender às necessidades sociais e ambientais. No caso do cimento, isso poderia significar adaptar as fábricas para a produção de materiais de menor impacto ambiental. A argila calcinada—um ligante de baixo carbono—, por exemplo, pode ser produzida mediante a adaptação dos fornos rotativos existentes. O objetivo, argumenta a LAB, é “repolitizar a esfera produtiva” e “travar uma disputa em torno da própria propriedade”.
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