24 de junho de 2026

Análises

Elos perdidos

Como o USMCA poderia efetivamente integrar a América do Norte?

Desde 2024, a América do Norte registra uma corrida de investimentos industrais. México, Estados Unidos e Canadá, os três países signatários do USMCA, acordo de livre-comércio que substituiu o NAFTA, anunciaram dezenas de bilhões de dólares para a construção de gigafábricas de baterias, plantas de semicondutores e novas linhas de montagem automotiva. A movimentação ocorreu em antecipação à revisão conjunta do acordo, com início previsto para 1º de julho deste ano. Os números são impressionantes e os anúncios se multiplicam. O real impacto dessa onda de investimentos, no entanto, não será medido pelo número de fábricas inauguradas, mas por algo menos visível e mais decisivo: a capacidade de formar, ao redor dessas plantas, um ecossistema capaz de abastecê-las. 

Esse ecossistema é o que determina se uma região apenas monta os produtos ou efetivamente os produz. A questão, portanto, não é se há investimento, mas onde são adquiridos os componentes dos quais esse investimento depende. Em resposta a isso, se espera que a primeira revisão conjunta do acordo traga um endurecimento das regras destinadas a excluir componentes importados de países fora do bloco. Jamieson Greer, representante comercial dos Estados Unidos, argumenta que a revisão deve avaliar se as chamadas “regras de origem” estão de fato promovendo a integração regional. Marcelo Ebrard, secretário de Economia do México, aceitou a possibilidade de requisitos mais rigorosos, mas condicionou seu apoio a uma implementação gradual e à adoção de mecanismos de verificação compartilhados entre os países. Na ausência de cadeias produtivas regionais já consolidadas, porém, mudanças desse tipo não resolvem o problema. 

Hoje, os bens finais produzidos pela indústria mexicana entram no mercado americano beneficiados pelas preferências do USMCA, mas grande parte dos insumos utilizados em sua fabricação continua vindo de fora da região. A brecha do USMCA que os países signatários buscam resolver não decorre da falta de ambição do acordo, mas da distância entre suas exigências e a capacidade produtiva da região: a revisão busca fortalecer a comprovação de origem regional de insumos que a América do Norte ainda não consegue oferecer em escala e nem certificar a custos razoáveis. 

Entre março de 2025 e março de 2026, a parcela das exportações mexicanas que reivindicavam tratamento preferencial sob o USMCA saltou de 44,8% para 88,7%. 1Cálculos do autor com base em dados do Serviço de Administração Tributária do México (SAT) e da Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos (CBP, na sigla em inglês), referentes ao período 2024–2025. Todos os dados de comércio utilizados provêm do Observatório de Complexidade Econômica (OEC, na sigla em inglês), compilados a partir de fontes oficiais do Ministério da Economia do México, do U.S. Census Bureau e do Statistics Canada. Os dados seguem a classificação HS6 e referem-se ao ano de 2024. Os índices de Vantagem Comparativa Revelada (RCA) foram calculados em nível subnacional. Esse aumento, porém, não reflete uma transformação produtiva, mas uma mudança nos incentivos. Em 6 de março de 2025, o presidente Donald Trump isentou da tarifa de 25% os produtos mexicanos certificados pelo USMCA. Em tese, isso tornaria economicamente irracional exportar sem sem certificação de origem. A papelada mudou; a cadeia produtiva, não. A estrutura subjacente permaneceu essencialmente a mesma.

Isso fica particularmente evidente no setor automotivo, para o qual existem dados mais detalhados. O México abriga mais de 2 mil fabricantes de autopeças. Delas, 60% são fornecedoras do Tier 1 do USMCA, ou seja, abastecem diretamente as montadoras, enquanto apenas 39% produzem os componentes que incorporam aos produtos finais. A pirâmide está invertida: há mais empresas próximas da montagem final do que nos estágios anteriores da cadeia produtiva. Quando a base de fornecedores regionais de componentes é relativamente estreita, comprovar o cumprimento das regras de origem torna-se mais complexo e custoso. Segundo estimativas do Federal Reserve, o cumprimento das regras de origem acrescenta custos equivalentes a uma tarifa de 1,4% a 2,5%.2Board of Governors of the Federal Reserve System, “Trade Compliance at What Cost? Lessons from USMCA Automotive Trade”, (<)em(>)FEDS Notes(<)/em(>), 18 de julho de 2025. Embora o acordo não imponha um imposto de fronteira propriamente dito, as empresas arcam com o custo de manter documentação, certificações e sistemas de rastreabilidade por pelo menos cinco anos. De acordo com depoimentos recolhidos pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, alguns fornecedores preferem declarar suas peças como “não originárias” em vez de enfrentar o processo de verificação, mesmo quando poderiam se qualificar para o tratamento preferencial.3Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), (<)em(>)2022 USMCA Autos Report to Congress(<)/em(>) e (<)em(>)2024 USMCA Autos Report to Congress(<)/em(>). Inclui depoimentos da Associação dos Fabricantes de Motores e Equipamentos ((<)em(>)Motor & Equipment Manufacturers Association(<)/em(>), ou MEMA) sobre os custos administrativos e os encargos burocráticos associados à certificação de origem.

Os projetos anunciados por México, Canadá e Estados Unidos nos últimos dois anos têm localização, valor de investimento e nome. Os elos que os abastecem, não. Contratos de fornecimento, processos de qualificação técnica e sistemas de rastreabilidade entre fornecedores raramente aparecem nos anúncios de investimento. O que está em jogo não é a capacidade da América do Norte de construir gigafábricas, mas de produzir o que falta entre elas. 

A brecha

Para medir com precisão a lacuna existente entre as exportações mexicanas e os insumos utilizados para produzi-las, é preciso abandonar os agregados e examinar os elos individuais da cadeia. A análise a seguir concentra-se em dois bens transversais—bombas hidráulicas e válvulas industriais—empregados nos setores de energia, saneamento e em diversos processos industriais. Suas cadeias de fornecimento incluem motores elétricos, conversores estáticos, circuitos de controle, vedações de borracha, sistemas de cabeamento e componentes estruturais. Cada um desses subsistemas possui sua própria geografia produtiva e suas próprias vulnerabilidades. 

Grande parte das análises existentes trata o uso de insumos estrangeiros nas exportações mexicanas como um único problema: a dependência de componentes produzidos fora da região. Na prática, porém, existem três problemas distintos: falhas de coordenação, concentração geográfica da produção e desenvolvimento tecnológico insuficiente. Cada um deles exige instrumentos específicos para ser enfrentado. Uma solução única e indiferenciada não resolve nenhum desses desafios e pode, inclusive, agravar os outros dois.

O descompasso entre a integração no topo da cadeia e nos elos de fornecimento fica evidente nos fluxos comerciais de 2024. Naquele ano, o México exportou US$ 1,16 bilhão em bombas hidráulicas e US$ 3,13 bilhões em válvulas industriais, dos quais 94% tiveram como destino os Estados Unidos ou o Canadá, mas apenas 24% dos insumos utilizados em sua produção tiveram origem dentro do bloco. Para fabricar essas bombas e válvulas, os três países importam seis subsistemas críticos: motores elétricos, conversores estáticos, circuitos integrados de controle, vedações de borracha vulcanizada, chicotes elétricos e componentes para equipamentos de processamento. Em todos os seis casos, a maior parte das importações vem de fora do bloco de livre-comércio. Isso não descreve uma cadeia produtiva em processo de consolidação. Descreve, antes, uma integração assimétrica: o produto final foi regionalizado, mas os elos intermediários da cadeia permaneceram externos.4Nos Estados Unidos, esse descompasso era igualmente pronunciado nos componentes eletrônicos industriais: 99% das importações de circuitos processadores e 84% das de conversores vieram de fora da região. As diferenças entre os países são de grau, não de natureza.

Os seis subsistemas, contudo, não enfrentam o mesmo tipo de obstáculo, e tratá-los como se fossem um único problema conduz a políticas ineficazes. No caso dos motores elétricos, a capacidade produtiva já existe na América do Norte, mas permanece desconectada. O problema está nos custos de coordenação. Qualificar um fornecedor regional exige auditorias específicas para cada cliente, rastreabilidade lote a lote e certificações que não podem ser transferidas de um comprador para outro. Cada novo contrato obriga a repetir praticamente todo o processo de qualificação. Enquanto esse custo superar a vantagem tarifária oferecida pelas regras de origem, montadoras e fabricantes continuarão recorrendo aos fornecedores extrarregionais que já possuem certificação e histórico de fornecimento.

O México importa US$ 1,66 bilhão em motores elétricos, dos quais 87% têm origem fora da região, embora pelo menos cinco estados do bloco—Michigan, Indiana, Illinois, Tamaulipas e Chihuahua—registrem forte especialização exportadora nesse subsistema. Jalisco é um dos principais exportadores mexicanos de componentes para equipamentos de processamento e conversores estáticos, mas os fluxos dessas mercadorias para os estados do nordeste do México, onde bombas e válvulas são montadas, permanecem pequenos em comparação com a capacidade instalada do estado. A distância física entre essas regiões mexicanas é inferior a 1.200 quilômetros. O que separa o fornecedor do montador não é a geografia, mas os custos de verificação e certificação que ainda não foram diluídos ao longo de múltiplas transações.

No caso dos conversores estáticos, a região dispõe de capacidade produtiva, mas a oferta é concentrada em poucos polos. O México importa US$ 4,06 bilhões desses componentes, sendo 83% provenientes de fora da região. A produção está concentrada em alguns núcleos industriais: Jalisco, Tamaulipas e Nuevo León, no México; Indiana, Illinois e Ohio, nos Estados Unidos. Fora desses seis estados, a capacidade exportadora de conversores é bastante limitada. Quando qualquer um desses polos sofre interrupções ou gargalos, os fabricantes recorrem a fornecedores extrarregionais previamente homologados como alternativa. Essa concentração geográfica transforma um problema de redundância produtiva em dependência estrutural.

A produção regional de circuitos processadores, por sua vez, enfrenta limitações tecnológicas. O México importa US$ 18,76 bilhões desses componentes, dos quais 96% vêm de fora da América do Norte; os Estados Unidos importam US$ 28,25 bilhões, sendo 99% provenientes de fora da região. Nenhum estado do bloco apresenta especialização exportadora significativa nesse subsistema. Os investimentos mobilizados pelo CHIPS Act tampouco deverão gerar volumes expressivos de comércio em polos maduros de semicondutores industriais antes de 2027 ou 2028. Endurecer as regras de origem para esse segmento já em julho de 2026 significa, portanto, penalizar as importações sem oferecer uma alternativa produtiva viável dentro da região.

As declarações públicas dos principais fabricantes de bombas, válvulas e equipamentos de controle corroboram o padrão estrutural revelado pelos dados comerciais. A Pentair, uma das maiores fabricantes norte-americanas de bombas e sistemas de tratamento de água, informa em seu relatório anual de 2024 (10-K) que entre seus principais insumos estão “componentes eletrônicos (incluindo acionamentos e motores)” adquiridos em mercados globais, além de reconhecer as dificuldades associadas ao fornecimento proveniente de países e regiões com infraestrutura limitada ou fora dos Estados Unidos.5Pentair plc, (<)em(>)Form 10-K(<)/em(>), 25 de fevereiro de 2025, exercício fiscal de 2024. Item 1 ((<)em(>)Business(<)/em(>)): principais insumos e matérias-primas; Item 1A ((<)em(>)Risk Factors(<)/em(>)): riscos associados às cadeias globais de fornecimento e ao abastecimento externo. Arquivo disponível no sistema EDGAR da Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC), CIK 0000077360. A Parker Hannifin, maior fabricante do bloco de sistemas de movimento e controle, estima uma exposição anual de aproximadamente US$ 375 milhões a tarifas comerciais—cerca de 3% de seu custo de venda—e identifica explicitamente as restrições comerciais envolvendo a China como um risco material para seus negócios.6Parker Hannifin Corporation, (<)em(>)Form 10-K(<)/em(>), 22 de agosto de 2024, referente ao exercício fiscal encerrado em 30 de junho de 2024. Item 1A ((<)em(>)Risk Factors(<)/em(>)): exposição a tarifas comerciais e riscos associados às restrições comerciais envolvendo a China. Arquivo disponível no sistema EDGAR da Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC), CIK 0000076334. Já a Illinois Tool Works opera com cerca de 40 mil fornecedores ativos distribuídos por cinquenta e cinco países e seus dez maiores fornecedores respondem por apenas 22% dos gastos totais com compras.7Illinois Tool Works Inc., (<)em(>)Form 10-K(<)/em(>), fevereiro de 2025, referente ao exercício fiscal de 2024. Item 1 ((<)em(>)Business(<)/em(>)): estrutura da base de fornecedores e grau de concentração das compras. Arquivo disponível no sistema EDGAR da Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC), CIK 0000049826. Essa dispersão geográfica deliberada constitui, por si só, uma evidência de que a indústria não conta com escala suficiente dentro da América do Norte para suprir sua demanda por componentes eletrônicos e sistemas de controle.

Os fluxos comerciais e as informações divulgadas pelas próprias empresas apontam para o mesmo diagnóstico: a dependência de componentes eletrônicos e de controle produzidos fora da região não é um fenômeno acidental nem uma característica específica de algumas firmas. Trata-se de uma condição estrutural que atravessa todo o setor.

A geografia do desacoplamento

Será possível para o México reduzir sua dependência de insumos produzidos fora da região diante do aumento das tarifas? Também aqui é possível examinar os principais nós da produção e das exportações: de um lado, bens-âncora exportados como produtos finais, como bombas e válvulas; de outro, insumos eletrônicos críticos, como motores, conversores e circuitos integrados.

Esses produtos podem ser analisados a partir de dois indicadores. O primeiro é o conteúdo regional de valor (Regional Value Content, ou RVC, na sigla em inglês), que permite identificar a parcela dos insumos originária da América do Norte. O segundo é o Índice de Vantagem Comparativa Revelada (RCA, na sigla em inglês). Esse indicador mede a participação de um determinado estado ou província nas exportações nacionais de um produto em relação à participação desse mesmo produto no conjunto das exportações do país. Um RCA superior a 1 indica especialização relativa naquele produto, enquanto valores acima de 10 sinalizam uma concentração particularmente elevada. Diferentemente do índice convencional de Balassa, que compara países com o restante do mundo, o cálculo utilizado aqui compara unidades subnacionais com seus próprios países. Por isso, os valores do RCA podem atingir níveis bastante elevados: um estado altamente especializado em determinado produto pode registrar índices de 30, 50 ou mais. Os dados utilizados referem-se a 2024 e foram compilados pelo Observatório de Complexidade Econômica a partir de fontes oficiais de cada país.

Indiana registrou um RCA de 45,4 para bombas, 48,7 para motores, 51,0 para conversores e 44,9 para chicotes elétricos. Trata-se do único estado dos EUA com uma vantagem comparativa revelada competitiva em todos os principais subsistemas elétricos analisados. Tamaulipas e Michigan apresentam perfis semelhantes, ainda que com níveis menores de especialização. Nesses polos já integrados, um endurecimento das regras de origem para motores e conversores não geraria custos imediatos de substituição, já que a produção dos diferentes elos da cadeia encontra-se relativamente articulada.

Ohio, por outro lado, exemplifica um polo de montagem dependente de componentes eletrônicos produzidos em outros lugares. O estado exportou US$ 124 milhões em bombas (RCA de 31,0) e US$ 524 milhões em válvulas (RCA de 35,3), apoiando-se sobretudo em uma base metalmecânica. Já os circuitos integrados registraram um RCA de apenas 0,6. Coahuila, Nuevo León e Illinois apresentam variações desse mesmo perfil: forte especialização na montagem, mas pouca ou nenhuma capacidade relevante na produção de componentes eletrônicos. Nesses casos, um endurecimento das regras de origem para eletrônicos industriais elevaria os custos de produção sem oferecer uma fonte alternativa imediata de abastecimento.

Jalisco constitui o exemplo mais claro da desconexão entre os elos iniciais da cadeia produtiva e a montagem final. O estado registra RCA de 42,7 para componentes de equipamentos de processamento de dados, 32,0 para conversores e 22,0 para circuitos integrados, mas apenas 0,2 para bombas e 1,1 para válvulas. Em outras palavras, a capacidade produtiva para insumos críticos existe, mas os contratos de fornecimento qualificados com os montadores do nordeste mexicano não. O gargalo é transacional, não produtivo, gerando um quadro de capacidade instalada subutilizada. Já Ontário, no Canadá, representa um polo emergente. A província exportou US$ 880 milhões em válvulas, com um RCA de 2,4. O corredor industrial Windsor–Toronto encontra-se fortemente integrado à manufatura dos Estados Unidos, mas a taxa de utilização das preferências do USMCA pelo Canadá alcançou apenas 53% em 2025, indicando que ainda há espaço considerável para aprofundar a integração produtiva regional.

Se as negociações do USMCA em julho resultarem em um endurecimento uniforme das regras de origem para componentes eletrônicos industriais, os efeitos serão bastante distintos entre os diferentes polos produtivos da região. Em Ohio e Coahuila, os custos de produção tenderiam a aumentar; em Jalisco e Nuevo León, dificilmente surgiriam novos contratos de fornecimento; e, em Ontário, o conteúdo regional de valor (RVC) permaneceria praticamente inalterado. Cada uma dessas situações exige instrumentos de política específicos, compatíveis com o estágio de desenvolvimento e o grau de integração das atividades produtivas locais. Mais importante ainda, essas diferenças atravessam as fronteiras nacionais. Os impactos de uma renegociação do USMCA não se distribuiriam de forma homogênea entre México, Canadá e Estados Unidos, mas seriam sentidos de maneira desigual entre estados e províncias dentro de cada país. Em outras palavras, os efeitos da revisão do acordo seriam definidos menos pela nacionalidade dos atores econômicos do que pela posição específica que cada território ocupa nas cadeias produtivas norte-americanas.

Quem captura o quê?

Até aqui, a análise concentrou-se na produção. A questão seguinte é distributiva: quem se beneficia da manutenção das estruturas atuais do USMCA? Na prática, as preferências tarifárias do acordo se traduzem em margens mais elevadas e volumes de venda mais estáveis para os grandes fornecedores, privilegiando aqueles que já possuem acesso consolidado aos contratos. Para se qualificar, é necessário cumprir uma série de exigências documentais: rastreabilidade dos insumos, auditorias de processo e registros de conformidade. Trata-se de um custo em grande medida fixo. Documentar uma exportação de US$ 500 mil pode custar praticamente o mesmo que documentar uma operação de US$ 50 milhões. Quem consegue diluir esse custo em grandes volumes captura os benefícios do acordo, quem não consegue acaba exportando sem as preferências tarifárias ou simplesmente fica de fora.

A esses custos fixos somam-se os custos de substituição de fornecedores. Uma vez que um fabricante de equipamentos originais (OEM, na sigla em inglês) investe na auditoria e homologação de um fornecedor, substituí-lo exige repetir todo o processo: novas auditorias, nova documentação e um novo período de qualificação. O resultado é uma barreira relacional que protege os fornecedores já estabelecidos e desestimula a avaliação de alternativas, mesmo quando estas são competitivas em termos de preço e qualidade. Os mecanismos de verificação não apenas elevam o custo de entrada; eles criam formas de dependência contratual. Para um novo fornecedor—uma pequena ou média empresa de Jalisco especializada em vedações mecânicas, ou uma oficina de Querétaro que fabrica componentes para motores—, o principal obstáculo não é a capacidade produtiva. O desafio está em demonstrar, para cada cliente em potencial, que seus produtos atendem a padrões que não são automaticamente reconhecidos em toda a região. Esse custo surge antes mesmo de qualquer ganho de escala e precisa ser incorrido novamente a cada novo comprador.

As consequências políticas dessa estrutura são diretas. Os atores mais bem posicionados para influenciar a renegociação das regras do USMCA não são os fornecedores que tentam ingressar no mercado, mas as empresas que já internalizaram seus custos e procedimentos. Benefícios concentrados, custos dispersos: uma combinação politicamente estável, que favorece ajustes no valor das preferências existentes sem necessariamente ampliar o universo de empresas capazes de acessá-las. 

Mas o custo dessa estrutura não é apenas distributivo. Ele é cumulativo. Capacidades industriais são construídas por meio da repetição: ciclos de produção, aperfeiçoamentos de qualidade e processos contínuos de aprendizado entre fornecedores e montadores. Cada contrato de fornecimento qualificado que deixa de ser firmado representa um ciclo de aprendizagem interrompido. O fabricante de conversores em Jalisco que nunca consegue fechar um contrato com uma montadora ou integradora em Nuevo León não perde apenas uma venda. Ele deixa de acumular experiência produtiva, de realizar sucessivos lotes de fabricação, de aperfeiçoar tolerâncias técnicas e de desenvolver os processos que, ao longo do tempo, o tornariam um fornecedor mais competitivo.

A não portabilidade dos mecanismos de verificação não bloqueia apenas o comércio; ela bloqueia também o aprendizado pela prática (learning by doing), principal mecanismo de acumulação de capacidades na manufatura de bens intermediários. O resultado é um ciclo de retroalimentação: a persistência de lacunas produtivas serve como justificativa para continuar adquirindo insumos fora do bloco, enquanto essa própria dependência impede que as capacidades necessárias sejam desenvolvidas internamente. A revisão do USMCA prevista para julho de 2026 constitui precisamente a encruzilhada institucional em que esse ciclo poderá ser rompido ou consolidado.

Agenda para 2026

A primeira revisão do USMCA tem mandato limitado: confirmar ou modificar as regras de origem aplicáveis a determinadas categorias de bens industriais. Ela não pode, por si só, criar capacidade produtiva nem financiar uma nova base territorial de produção. Ainda assim, o acordo oferece três caminhos institucionais distintos para enfrentar os três problemas identificados nesta análise.

O primeiro diz respeito à portabilidade dos processos de verificação, um instrumento voltado a reduzir as falhas de coordenação. No caso dos motores elétricos, a capacidade produtiva já existe dos dois lados da fronteira. O instrumento mais adequado seria um sistema de certificação de fornecedores válido em todo o bloco: um cadastro administrado conjuntamente pelo Serviço de Administração Tributária do México (SAT), pela Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos (CBP, na sigla em inglês) e pela Agência de Serviços de Fronteira do Canadá (CBSA), no qual a elegibilidade de um fornecedor regional, uma vez auditada por um comprador, fosse automaticamente reconhecida pelos compradores subsequentes, sem a necessidade de repetir todo o processo de qualificação. 

Um mecanismo desse tipo reduziria o custo marginal da substituição de fornecedores extrarregionais por fornecedores do bloco sem exigir novos investimentos produtivos. O corredor Jalisco–Nuevo León seria um candidato natural para um projeto-piloto: concentra atividades a montante com RCA superior a 20 em três subsistemas distintos, localiza-se a menos de 1.200 quilômetros dos polos de montagem e, apesar disso, não apresenta vínculos de fornecimento claramente identificáveis nos dados de comércio. O instrumento poderia ser implementado como um procedimento harmonizado no âmbito do Comitê de Facilitação do Comércio do USMCA, sem necessidade de reabrir o texto do tratado.

O segundo caminho busca enfrentar o problema da concentração geográfica da produção, que cria dependências estruturais dentro do próprio bloco. No caso dos conversores estáticos, elevar os requisitos de conteúdo regional tende a agravar o problema, forçando os montadores a depender de uma base produtiva territorial já excessivamente estreita. O instrumento apropriado seria um mecanismo de qualificação preferencial para investimentos em capacidade produtiva de conversores em estados e províncias atualmente ausentes desse mapa industrial, como Coahuila, Ohio e Ontário, ampliando a base produtiva antes que os novos requisitos de origem se tornem obrigatórios. Esse mecanismo poderia ser estruturado como um plano de ação setorial no âmbito do Artigo 32.10 do acordo, incorporando a implementação gradual que o secretário de Economia do México, Marcelo Ebrard, definiu como condição para a revisão do tratado em janeiro de 2026.

O terceiro caminho seria voltado para enfrentar as dependências tecnológicas e os gargalos estratégicos. No caso dos circuitos processadores industriais, nenhum polo produtivo do bloco dispõe hoje de capacidade em escala suficiente. Aplicar requisitos mais rigorosos de conteúdo regional já em 2026 significaria penalizar importações para as quais não existe uma alternativa viável dentro da América do Norte. A abordagem mais adequada seria excluir explicitamente os circuitos processadores industriais de qualquer endurecimento das regras de origem até que exista produção regional comprovada, vinculando uma futura revisão a metas de capacidade produtiva efetivamente alcançadas, e não a uma data no calendário. Isso exigiria uma nota interpretativa ao Anexo 4-B do acordo, negociada bilateralmente entre Estados Unidos e México.

Quais são as perspectivas de adoção dessas mudanças nas negociações de julho? A certificação portátil é o instrumento que enfrenta menor resistência política, justamente porque não impõe custos significativos a nenhuma das partes. Já a estratégia gradual para os conversores exigiria um novo entendimento bilateral entre México e Estados Unidos. Por sua vez, o enfrentamento do déficit tecnológico por meio da exclusão dos semicondutores das regras de origem provavelmente encontraria pouca oposição substantiva, uma vez que os três governos compartilham o mesmo problema estrutural.

Em última instância, um bloco comercial que integra a montagem final, mas não os elos intermediários da cadeia produtiva, incorre em custos que vão muito além do comércio. O que está em jogo é a própria capacidade produtiva e tecnológica da região. Na cadeia de bombas e válvulas, os subsistemas eletrônicos de controle—conversores de potência, módulos de controle e circuitos integrados—são projetados, aperfeiçoados e mantidos em centros industriais localizados em Shenzhen, Penang e Hsinchu. Os trabalhadores das plantas de montagem em Monterrey ou Ciudad Juárez interagem apenas com o subsistema pronto, sem contato com seus processos de desenvolvimento, seus ciclos de aperfeiçoamento ou os problemas técnicos que surgem ao longo da produção. O aprendizado tecnológico que impulsiona os ganhos de produtividade permanece onde o componente é concebido e fabricado, não onde o produto final é montado.

Uma nova onda de subsídios industriais, apoiada pelos governos dos Estados Unidos, México e Canadá, pode estimular a criação de ativos produtivos de grande escala. Mas, se uma fábrica de semicondutores financiada pelo CHIPS Act operar no Arizona enquanto as fabricantes de bombas industriais em Ohio continuarem importando seus circuitos de controle de Taiwan, o efeito multiplicador desses investimentos será limitado. Empregos diretos serão criados, mas os encadeamentos produtivos a montante permanecerão ausentes. Isso torna os subsídios politicamente frágeis. Sem elos intermediários regionais, os incentivos públicos financiam capacidade instalada, mas não constroem um ecossistema industrial.

A dependência norte-americana de circuitos processadores e conversores não é apenas um dado comercial. Trata-se de uma variável estratégica que condiciona a capacidade da região de sustentar seu modelo de integração diante de pressões externas e tensões geopolíticas. Um bloco que exporta produtos finais, mas depende de terceiros para os subsistemas que lhes dão suporte, encontra-se em posição de vulnerabilidade em qualquer negociação econômica ou política.

A revisão do USMCA em 2026, portanto, está longe de ser uma mera formalidade. Ela ocorre em um momento em que os subsídios já foram concedidos, os investimentos já foram realizados e os gargalos nos insumos críticos permanecem sem solução. Os mecanismos capazes de enfrentar parte desse problema já existem no próprio acordo, assim como existem os atores com mandato para negociá-los. A janela de oportunidade para fazê-lo se fecha em julho.

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