11 de março de 2026
Análises
Crise de plausibilidade
Os limites da esquerda chilena
O Chile tomou um rumo sombrio nas eleições de 2025. José Antonio Kast, o candidato de extrema direita à presidência, derrotou sua rival comunista Jeannette Jara por uma margem significativa ao conquistar 58% dos votos no segundo turno. Sua aliança eleitoral, Cambio Por Chile, também garantiu um aumento da representação na Câmara dos Deputados. Num pleito marcado por uma das maiores taxas de participação das últimas décadas, graças a um novo sistema de voto obrigatório, mais de 7 milhões de pessoas optaram pelo confiante programa de Kast a favor da “lei e da ordem”, que defende o combate ao crime, aos sindicatos e à migração, o retorno aos princípios do livre mercado e a revogação de políticas sociais progressistas. Sua posse encerrou um breve período de abertura política para a esquerda do país, marcado pela ascensão de Gabriel Boric ao poder em 2022 após uma onda de protestos generalizados que desafiaram a ordem constitucional chilena. Com o novo governo, a esperança de que as estruturas neoliberais herdadas da ditadura de Pinochet pudessem ser derrubadas num futuro próximo esmoreceu.
Essa reviravolta tem sido explicada de diversas maneiras. Alguns analistas viram o resultado das eleições como uma reafirmação do conservadorismo inato do povo chileno, outros o consideraram a expressão de um sentimento antigoverno, um sintoma da crescente preocupação com a criminalidade ou um reflexo de tendências regionais mais amplas. No entanto, muitas destas interpretações ignoram um aspecto distintivo na conjuntura chilena. Não houve uma súbita conversão em massa à direita. Na verdade, o modelo econômico existente no país, fundado após a ditadura, foi assolado por uma “crise de plausibilidade”.
Esse modelo baseava-se numa promessa não apenas de crescimento, mas também de integração nacional, e assumia que a estabilidade macroeconômica se traduziria em melhores condições de vida para a maioria da população. Por meio dele, o Chile pôde combinar expansão econômica acelerada com redução significativa da pobreza e aumento dos salários reais. Tendo sido suficientemente eficaz e duradouro, ele formou uma espécie de consenso sobre o significado do progresso.
Ainda assim, mesmo em sua fase mais bem-sucedida, o pacto de integração do pós-1990 carregava uma tensão interna. A promessa de mobilidade social baseava-se em uma combinação de gasto social focalizado, disciplina macroeconômica e ampliação do acesso a serviços organizados de forma privada ou semiprivada. Essa integração baseada no acesso tornou-se um substituto para direitos, financiada pelos orçamentos familiares, pelos mercados de crédito e por um sistema misto de provisão público-privada. O conflito distributivo foi, assim, empurrado para um horizonte de longo prazo. Os governos podem pedir paciência, porque a recompensa é sempre apresentada como algo que virá mais adiante.
Embora essa noção pudesse ser convincente nos anos 1990, desde a virada do milênio ela passou a soar cada vez mais improvável. O sistema educacional não cumpriu suas promessas como ferramenta de ascensão social. Processos de reformulação da Constituição de 1991 conseguiram fazer com que reformas graduais fossem temporariamente vistas como passos em direção a um acordo mais amplo, mas esse horizonte se fechou com as derrotas nos plebiscitos de 2022 e 2023, e o reformismo lento começou a parecer mais uma forma de deriva do que de progresso.
A mudança decisiva não foi a perda de importância da redistribuição, mas o fato de que a política deixou de ser vista como uma via de construção do futuro. Nesse contexto, a experiência de governo de Gabriel Boric pode ser lida como um problema de timing em um contexto de fortes restrições econômicas e políticas. Em meio à estagnação, ao endividamento e à fadiga institucional, uma política de direita baseada na “segurança” conseguiu ganhar terreno. Para compreender como esse processo se desenrolou e como a esquerda pode se reorientar sob o governo de Kast, é preciso voltar à trajetória do Chile pós-Pinochet.
O acordo
O Chile saiu da ditadura, em 1990, com uma economia significativamente liberalizada e muito influenciada pela Escola de Chicago. A transição democrática do país combinou disciplina macroeconômica contínua com a ampliação dos gastos sociais. Isso deu origem a um acordo de desenvolvimento peculiar. Em vez do retorno à substituição de importações ou a uma estratégia industrial liderada pelo Estado, as elites optaram pela preservação de partes essenciais da ordem econômica de Pinochet, acompanhadas de uma maior inclusão social por meio de programas sociais e políticas focalizadas de redistribuição, como forma de garantir “estabilidade”.
Com a melhora nos indicadores econômicos, esse acordo passou a ser amplamente aceito pela população. Entre 1990 e 1998, o crescimento real do PIB do Chile atingiu, em média, 7,3% ao ano, enquanto o PIB real per capita teve um aumento anual médio de 5,6% e os salários reais subiram cerca de 4% a cada ano ao longo da década. A pobreza diminuiu drasticamente, de 38,6% para 21,7%; e a pobreza extrema caiu de 12,9% para 5,6%. Embora esses ganhos não tenham eliminado a desigualdade nem criado uma economia de altos salários para a maioria dos chilenos, eles fizeram com que a meta de integração parecesse alcançável. Dava-se a impressão de que o crescimento, a estabilidade e a redistribuição gradual poderiam ocorrer simultaneamente. Isso teve implicações políticas significativas, pois legitimou o exercício do poder por parte das instituições do país e fez com que as famílias considerassem que suas dificuldades eram um sintoma temporário, e não o efeito de condições estruturais.
O acordo pós-1990, no entanto, deslocou a promessa de mobilidade para um canal institucional específico. O desencontro entre aumento da produtividade e valorização salarial levou as famílias a atribuírem a possibilidade de ascensão social não ao mercado de trabalho, mas à educação formal. Para que a perspectiva de progresso se concretizasse, era preciso conquistar credenciais. O período registrou uma rápida massificação do ensino superior. Análises oficiais mostram que o percentual de pessoas de 18 a 24 anos matriculadas aumentou de 13% em 1990 para 27,5% em 2006 e, em seguida, para 30,8% em 2009.
Esse aumento teve uma dupla função. Simbolicamente, representou inclusão, dignidade e a promessa de uma identidade profissional para a nova geração de chilenos. Institucionalmente, funcionou como um mecanismo substitutivo de integração em uma sociedade onde os direitos universais à saúde, aposentadoria, moradia e assistência ainda eram limitados ou segmentados. Havia uma sensação crescente de que o esforço educacional poderia compensar as desigualdades estruturais. O acordo político passou, assim, a se sustentar sobre os retornos garantidos pela educação.
Esse era um ponto de grande vulnerabilidade. Quando a mobilidade social depende de credenciais deste tipo, elas naturalmente se tornam alvo de intenso escrutínio. Se a qualidade da oferta for desigual, se a absorção pelo mercado de trabalho for segmentada ou se o preço da formação implicar dívidas excessivas, a situação pode se tornar politicamente explosiva. Em outras palavras, a educação só consegue exercer um papel estabilizador se seus custos não forem vistos como punitivos.
O regime chileno de crédito foi a faísca que incendiou esse barril de pólvora. Criado em 2005, o Crédito con Aval del Estado (CAE) institucionalizou a via do endividamento como um dos principais pilares da expansão do ensino superior. Ele integrou a expansão universitária aos circuitos financeiros e redefiniu o significado social do acesso, que deixou de ser apenas uma questão de admissão e pagamento de mensalidades para se tornar uma obrigação de longo prazo. Estabeleceu-se, assim, um vínculo direto entre condições macroeconômicas, o orçamento das famílias e a legitimidade política. Ao final de 2021, uma caracterização oficial da população de devedores do CAE indicava que mais de um milhão de estudantes haviam aderido ao sistema de crédito e que a inadimplência vinha crescendo de forma persistente desde 2015, atingindo 48% no fim de 2021. O mesmo relatório mostra que a inadimplência era particularmente elevada entre aqueles que não concluíram seus estudos, chegando a cerca de 77%.
A abertura do ensino superior chileno, portanto, não foi apenas uma história de ampliação de oportunidades, mas uma complexa trama de provisão mercantilizada e de arranjos financeiros que transferiam o risco do exercício do direito à educação para as famílias. Isso criou as condições para uma política de decepção: expectativas não atendidas deram origem a ressentimento popular. Embora tenha sido possível evitá-lo enquanto a economia crescia, esse ressentimento veio à tona assim que o ciclo expansionista desacelerou e o sonho de integração começou a se desfazer.
A revolta dos estudantes
Essa desaceleração produziu uma série de convulsões políticas, em 2006, 2011 e 2019, cada uma delas expressando a mesma tensão subjacente: o acesso à educação se expandia mais rapidamente do que a capacidade de garantir qualidade e assegurar os resultados sociais desejados. Em uma sociedade ainda organizada em torno do crédito e da oferta privatizada de serviços, o sistema se mostrou incapaz de cumprir suas promessas. Conforme as mensalidades e a dívida estudantil passaram a mediar a experiência cotidiana da mobilidade social, o conflito distributivo se concentrou no setor educacional.
Em 2006, estudantes secundaristas lançaram a chamada “Revolução dos Pinguins”. O que começou como uma série de demandas concretas sobre questões como o custo do transporte e as taxas dos exames admissionais logo se transformou em uma crítica abrangente à desigualdade educacional. O movimento colocou o debate sobre a educação de volta na agenda nacional e expôs as disparidades do sistema. Em 2011, o foco mudou para o ensino superior. Nos dois anos seguintes, federações estudantis universitárias e outros atores sociais se envolveram em mobilizações que tinham como alvo direto os interesses de mercado na educação, como a oferta de ensino com fins lucrativos e o financiamento da dívida. O movimento conseguiu vincular o orçamento das famílias a questões mais amplas de legitimidade política.
Essas duas ondas reconfiguraram as bases da política da década seguinte, legitimando um vocabulário de defesa dos direitos sociais e aumentando as expectativas sobre a capacidade da política institucional de proporcionar melhorias materiais. Essa nova perspectiva assertiva alimentou a onda de manifestações sociais de 2019, que foi inicialmente desencadeada por um aumento nas tarifas do transporte público e logo se transformou em uma luta contra a desigualdade, a dívida e o alto custo de vida. Enquanto manifestantes reivindicavam reformas na educação, na saúde e na previdência e exigiam que esses setores servissem ao público e não aos especuladores, o Estado se afundava em crise.
A única maneira de apaziguar a situação foi abrir um processo constituinte, negociado com o Congresso. O momento político decisivo foi o Acordo pela Paz Social e uma Nova Constituição, de 15 de novembro de 2019, no qual os partidos se comprometeram com uma saída institucional por meio de um plebiscito de duas perguntas. Os eleitores seriam questionados se desejavam uma nova constituição e qual órgão deveria redigir o texto. Em dezembro de 2019, esse roteiro foi formalizado por meio de uma emenda constitucional, a Lei 21.200, que estabeleceu as regras de funcionamento do órgão constituinte e definiu a sequência das etapas. O plebiscito, que teve de ser adiado devido à pandemia, foi finalmente realizado em 25 de outubro de 2020. A participação foi elevada para os padrões da época, quando o voto era voluntário, atingindo 50,9%. Naquele dia, 78,27% dos votos foram favoráveis à nova constituição, e o mecanismo da Convenção Constitucional prevaleceu de forma decisiva, com 78,99%.
Do ponto de vista político, o plebiscito instaurou um mandato de substituição respaldado por uma legitimidade eleitoral esmagadora. Não se tratava simplesmente de alterar um texto. Abriu-se uma via capaz de reordenar o pacto social sob condições democráticas num horizonte explicitamente igualitário. Essa expectativa foi reforçada pelo próprio desenho institucional do órgão constituinte. Em 15 e 16 de maio de 2021, foram escolhidos 155 representantes para a convenção, numa eleição em que a paridade de gênero foi respeitada. Listas independentes tiveram uma participação excepcionalmente significativa e dezessete cadeiras foram reservadas para os povos indígenas. O mecanismo transmitia uma mensagem dupla. Por um lado, visava ampliar a base sociopolítica do processo constituinte. Por outro, sinalizava que o novo pacto não seria um arranjo entre as elites, mas o resultado de um acordo institucional capaz de absorver as pressões e demandas da base.
No dia 4 de julho de 2021, a Convenção foi instaurada e deu-se início a uma intensa etapa de organização e elaboração. Uma diretoria foi escolhida, comissões e métodos de trabalho foram definidos, regras processuais foram aprovadas e um calendário deliberativo foi estabelecido. Desde o início, sua arquitetura combinou aspirações participativas com rígidas exigências processuais.1Entre os elementos mais notáveis estava a Lei 21.200, que estabeleceu que as normas constitucionais e as regras de votação deveriam ser aprovadas por um quórum de dois terços dos membros em exercício. A Convenção também não poderia alterar esses quóruns nem os procedimentos para a adoção de acordos. Esse limiar elevado foi concebido como uma garantia de amplitude transversal entre forças políticas. Ao mesmo tempo, introduziu uma tensão persistente entre o impulso transformador e a capacidade prática de fechar acordos. Paralelamente, o processo buscou sustentar sua legitimidade por meio de mecanismos de participação destinados a tornar a contribuição cidadã consequente. As regras de participação pública, aprovadas pelo Plenário em outubro de 2021, criaram uma estrutura interna composta por uma comissão política e uma secretaria técnica. Também foram implementados uma plataforma digital e um registro público para canalizar propostas. Um dos instrumentos mais visíveis foi a Iniciativa Popular de Norma. Qualquer pessoa ou grupo podia propor disposições de nível constitucional. Se uma proposta alcançasse 15 mil assinaturas provenientes de pelo menos quatro regiões, passava a ter um status comparável ao de uma proposta apresentada por convencionais e precisava ser discutida e votada. Também foram previstas reuniões autoconvocadas, espaços deliberativos organizados pela própria sociedade. A ideia de um plebiscito dirimente também foi incluída, como forma de destravar normas que não alcançassem dois terços, mas que obtivessem três quintos em uma segunda votação, embora sua viabilidade dependesse de ajustes institucionais adicionais. A promessa era combinar representação eleitoral com participação efetiva, contribuições rastreáveis e alcance territorial. Dessa forma, o texto final poderia ser apresentado como a síntese de um processo ampliado de deliberação pública.
A política chilena se reorganizou em torno do movimento constituinte e abriu caminho para uma nova geração de lideranças. Gabriel Boric chegou à La Moneda após as eleições presidenciais de 2021, que tiveram a maior participação da história do país. Sua aposta era canalizar o descontentamento através das instituições, reconectar a democracia com a proteção social e fornecer um direcionamento político para o prometido ciclo de transformações. Para muitos dos membros da coalizão e do eleitorado de Boric, o governo e a Convenção eram dois lados da mesma moeda. A esperança era de que os protestos poderiam se converter numa arquitetura institucional capaz de proporcionar mudanças materiais sustentáveis.
Boric sob as amarras da estabilização
Boric enfrentou dificuldades desde o começo. Seu governo tomou posse enquanto o ciclo constitucional ainda estava aberto, com a esperança de que esse processo poderia fornecer uma fonte renovada de legitimidade. Essa expectativa se dissipou rapidamente. No dia 4 de setembro de 2022, a minuta da Convenção Constitucional foi rejeitada por ampla margem no plebiscito de saída, no qual o voto foi obrigatório.
A derrota de 2022 removeu o veículo institucional que poderia ter ampliado o espaço para reformas. A queda se aprofundou ainda mais quando a segunda tentativa também fracassou. Um novo processo, mais rigidamente controlado, foi lançado com bases pré-definidas, uma Comissão de Especialistas e uma revisão técnica de admissibilidade e culminou em outro plebiscito. Em 17 de dezembro de 2023, o segundo texto proposto foi igualmente rejeitado. O voto contrário foi escolhido por 55,76% do eleitorado, o favorável, por 44,24%. Duas derrotas consecutivas consolidaram um efeito de fadiga e reforçaram a lição de que alternativas percebidas como muito distantes do eleitor mediano provavelmente seriam punidas. O resultado prático foi uma lógica mais forte de gradualismo, cautela e governabilidade. O espaço para uma redistribuição ambiciosa se estreitou ainda mais, não apenas por causa das restrições macroeconômicas, mas porque o mandato simbólico para uma rápida refundação do pacto social havia sido negado duas vezes nas urnas.
Esse fechamento político se desenrolou sobre restrições econômicas já existentes. O ciclo da pandemia elevou, aos olhos das famílias, a percepção da capacidade do Estado, ao mesmo tempo em que criou condições macroeconômicas que exigiam estabilização. No próprio planejamento fiscal do governo, a estratégia foi organizada em torno da convergência para metas estruturais mais rigorosas, com o objetivo de reduzir um déficit estrutural que havia se ampliado durante o período de emergência. Em 2022, a consolidação fiscal foi dramática. As contas e relatórios orçamentários oficiais demonstram que o ano se encerrou com um superávit primário de cerca de 1,1% do PIB e uma redução real nos gastos públicos de aproximadamente 23,1% em relação a 2021, uma contração excepcional para os padrões das últimas décadas.
A redução da incerteza e a queda das expectativas de inflação são valiosas, mas não se traduzem em melhorias visíveis na vida cotidiana na velocidade que coalizões reformistas precisam. As restrições também não desapareceram após o ajuste inicial. Em 2024, relatórios fiscais oficiais registraram um déficit primário de cerca de 2,9% do PIB e um déficit estrutural de aproximadamente 3,2% do PIB, confirmando que a tensão fiscal havia sido reconfigurada e não resolvida.
A inflação introduziu um segundo fator, ainda mais corrosivo. A inflação anual encerrou 2022 em 12,8%, atingindo o pico de 14,1% em agosto daquele ano. A política monetária tornou-se contracionista. A taxa básica de juros no Chile alcançou 11,25% antes de começar a recuar gradualmente, chegando a 5% em dezembro de 2024. A desinflação protege os salários reais no médio prazo, mas o faz por meio de instrumentos que desaceleram o crédito e o investimento, com efeitos desiguais sobre o emprego e a precariedade. Isso é particularmente danoso quando os domicílios carregam níveis elevados de endividamento de consumo e educacional e comparam a austeridade atual com a memória das transferências massivas durante a pandemia.
A política social passou, assim, a operar dentro de um paradoxo. Esperava-se que o Estado atuasse em grande escala justamente porque havia feito isso recentemente. A melhor ilustração é o Ingreso Familiar de Emergencia (IFE). O IFE foi criado como uma transferência extraordinária durante a pandemia e expandido ao longo do tempo, culminando na fase do IFE Universal. Em julho de 2021, comunicações oficiais do governo informaram que o IFE Universal havia alcançado 15.805.563 pessoas e 7.676.627 domicílios. O relatório oficial de julho de 2021 também indicava que 95,8% dos inscritos no Registro Social de Hogares recebiam o benefício. Do ponto de vista fiscal, um balanço oficial da Dirección de Presupuestos registrou que o IFE custou US$ 24,6 bilhões entre 2020 e 2021.
O retorno a instrumentos focalizados representou, assim, um colapso de expectativas. O governo de Gabriel Boric implementou, de fato, medidas importantes. O Copago Cero foi ativado em setembro de 2022 para usuários do Fondo Nacional de Salud na rede pública, eliminando copagamentos na atenção institucional. Relatórios oficiais do Ministério da Saúde indicam que, entre setembro de 2022 e maio de 2024, 1.510.227 pessoas foram beneficiadas e que a economia total chegou a CLP 202 bilhões. Em setembro de 2025, o governo informou que 1.919.190 pessoas haviam sido beneficiadas diretamente desde a implementação. A política salarial também mudou, com o salário mínimo mensal alcançando CLP 539 mil para trabalhadores com idade entre 18 e 65 anos.
Essas políticas reduziram gastos diretos com saúde, apoiaram salários formais e protegeram grupos específicos. Mas, no contexto de inflação recente, mercado de trabalho frágil, endividamento disseminado e um cenário político marcado pelo fechamento do processo constitucional, muitas famílias passaram a experimentar essas medidas mais como contenção do que como uma promessa crível de melhora sustentada. Em outras palavras, sob as restrições da estabilização macroeconômica—e nas condições políticas criadas por duas derrotas constitucionais—, essas políticas não conseguiram reconstruir, com rapidez suficiente, a integração social das maiorias.
O fracasso da reforma tributária do governo em março de 2023 dificultou ainda mais a capacidade de financiar uma agenda universal mais ampla. Sem novas receitas permanentes, a ambição redistributiva ficou confinada a corredores estreitos. Embora a agenda de reforma previdenciária tenha sido aprovada em janeiro de 2025, seus efeitos não foram imediatamente perceptíveis. Uma política que se implementa gradualmente ao longo de anos pode ser fiscalmente responsável e socialmente significativa, mas ainda assim fracassar em oferecer alívio imediato no período que importa eleitoralmente.
Por que Kast venceu
A vitória de José Antonio Kast em dezembro de 2025 marcou o desfecho de uma longa sequência histórica na qual a promessa de integração deixou de convencer, enquanto a experiência cotidiana de insegurança e perda de controle se impôs como o fato político mais visível. No segundo turno, Kast obteve 58,16% dos votos, contra 41,84% de Jeannette Jara, com 11.367.113 votos registrados. A magnitude da margem é importante, mas o ponto mais profundo é o que essa margem condensou. Kast não venceu porque o Chile de repente se tornou ideologicamente homogêneo. Ele venceu porque uma grande parte do eleitorado passou a tratar ordem, disciplina e capacidade de fazer cumprir as regras como as únicas promessas que ainda pareciam executáveis em uma economia constrangida e em um cenário institucional marcado pela fadiga.
Kast não é um recém-chegado que apareceu repentinamente na política do país. Trata-se de uma figura de longa trajetória na direita chilena que profissionalizou sua candidatura por meio da repetição eleitoral, da construção partidária e da disciplina programática. Formado em direito, iniciou sua carreira política no nível local e depois atuou por vários mandatos como deputado. Candidatou-se pela primeira vez à presidência em 2017, como um outsider em relação às coalizões tradicionais da direita; voltou a disputar em 2021 e, novamente, em 2025. Essa trajetória construiu uma marca política capaz de sobreviver a derrotas, absorver ressentimentos e normalizar um vocabulário mais duro da direita no interior da competição democrática. Em 2021, Kast já foi capaz de liderar o primeiro turno e forçar um segundo turno, no qual obteve 44,13% dos votos. Mesmo na derrota, esse resultado o estabeleceu como algo mais do que um candidato de protesto. Sinalizou que uma oferta de direita linha dura poderia se tornar um polo estável de representação, especialmente quando a centro-direita parecia fragmentada e quando a esquerda governante era empurrada para uma política de contenção.
O veículo organizacional dessa proposta é o Partido Republicano de Chile. Kast o fundou e passou a liderá-lo após romper com a antiga direita conservadora, construindo um partido que se apresenta como mais intransigente em matéria de ordem pública, controle migratório e conservadorismo cultural do que a direita tradicional surgida no período da transição democrática. Historicamente, a direita tradicional chilena combinou simpatia pelo empresariado e ortodoxia macroeconômica com uma disposição pragmática para governar dentro do acordo estabelecido após 1990. O partido de Kast foi concebido para explorar a percepção de que esse pragmatismo havia se tornado indistinguível de inércia gerencial. Sua vantagem comparativa foi prometer clareza, hierarquia e rapidez, tratando a linguagem dos direitos não como horizonte político, mas como fonte de desordem e indisciplina fiscal.
Kast também deve ser interpretado como produto de uma infraestrutura transnacional da direita, que hoje funciona como uma espécie de atalho geopolítico dentro da competição doméstica. Muito antes do segundo turno de 2025, ele já havia se inserido em redes que conectam movimentos conservadores próximos à Conservative Political Action Conference (CPAC) a atores europeus e latino-americanos. Sua participação na CPAC Brasil, ao lado de Javier Milei e Jair Bolsonaro, e seu encontro com Milei após a vitória tornaram esse alinhamento publicamente visível. Sua posterior turnê europeia como presidente eleito encenou uma agenda compartilhada com Santiago Abascal em Bruxelas, um encontro com Viktor Orbán em Budapeste e uma parada em Roma com Giorgia Meloni, todos articulados em torno de um repertório familiar de segurança, migração e ordem.
A vitória de Kast apoiou-se em vários mecanismos. O primeiro foi o esgotamento da promessa de mobilidade social. Quando a expansão educacional se torna um substituto para direitos universais, pode até estabilizar uma sociedade altamente desigual por algum tempo, mas apenas enquanto seus retornos permanecem críveis. Se as melhorias são lentas, parciais ou administrativamente complexas, muitos eleitores interpretam a demora não como a paciência exigida pela democracia, mas como evidência de que o sistema não é capaz de entregar resultados.
O segundo mecanismo foi a fadiga institucional após o ciclo constitucional. A abertura constitucional iniciada após a revolta de 2019 criou um período em que o gradualismo podia ser narrado como movimento em direção a um destino coletivo. O fracasso desse processo corroeu a crença de que a política é capaz de traduzir conflitos em acordos vinculantes. A consequência relevante é psicológica e estratégica: mais do que simplesmente uma rejeição à esquerda, os eleitores tornam-se mais dispostos a trocar horizontes ambiciosos por instrumentos imediatos de controle, premiando aquilo que parece executável. O discurso de Kast é construído precisamente para esse ambiente.
Um terceiro mecanismo foi a reorganização do medo cotidiano em torno da segurança e da migração. Não é necessário que um país apresente níveis catastróficos de homicídios para que a insegurança se torne um sentimento dominante. Os números oficiais de homicídios no Chile ainda são baixos em comparação regional, mas o debate público tem sido moldado pela percepção de uma mudança qualitativa—dinâmicas de crime organizado e controle territorial em bairros específicos—que amplifica o medo mesmo quando as médias nacionais evoluem lentamente. Nesse contexto, uma política de lei e ordem consegue converter ansiedades dispersas em uma demanda unificada. A migração acabou sendo fundida a essa demanda.2A autoridade estatal de migração do Chile registrou que as entradas irregulares atingiram um pico em 2021, com 56.585 casos, e depois diminuíram nos anos seguintes, incluindo 44.235 em 2023, com novas reduções registradas em 2024. Na narrativa de Kast, o problema é a perda de controle; a solução é a reafirmação do controle.
Um quarto elemento é a forma como a experiência política se transforma em um ativo em contextos de frustração. As repetidas candidaturas presidenciais de Kast, combinadas com vitórias eleitorais intermediárias de seu partido, sinalizaram impulso político e normalizaram sua presença. Na eleição de 2023 para o Conselho Constitucional, o Partido Republicano de Chile obteve 35,41% dos votos e vinte e três cadeiras, tornando-se a maior lista individual naquela disputa. Esse resultado funcionou como prova de que o partido não era uma reação momentânea, mas uma organização duradoura, capaz de vencer eleições.
Em conjunto, esses mecanismos ajudam a explicar por que a vitória de Kast foi, ao mesmo tempo, uma guinada à direita e um voto de punição. Ela expressou uma demanda por ordem que emergiu da estagnação, do endividamento e da fadiga institucional, ao mesmo tempo em que premiou um ator que passou quase uma década construindo um veículo organizacional coerente para canalizar essa demanda. Em uma economia aberta onde as restrições de estabilização são reais, em um ambiente pós-constitucional em que os horizontes coletivos são frágeis e em um cenário social no qual medo e controle dominam a percepção cotidiana, a proposta vencedora tende a ser aquela que converte frustrações difusas em uma promessa única e executável. Foi isso que Kast ofereceu, e é por isso que sua vitória deve ser entendida como a culminação de um ciclo mais longo, e não como uma conversão repentina.
Estratégia socialista em uma economia aberta
Como seria um programa econômico socialista crível em uma pequena economia aberta como a chilena, onde a taxa de câmbio, o equilíbrio externo e as expectativas financeiras restringem a margem para redistribuição, e onde a reprodução social vem sendo organizada há décadas por meio de serviços privatizados, direitos segmentados e crédito barato? Uma resposta viável precisa ser, ao mesmo tempo, macroeconomicamente compatível e materialmente inteligível.
Daí decorrem duas lições políticas. A primeira é que a estabilidade precisa ser reivindicada como parte de uma estratégia de classe, em vez de ser cedida à tecnocracia conservadora. Inflação e desvalorização cambial atingem primeiro os grupos de baixa e média renda, porque elevam o custo dos bens essenciais e corroem os salários mais rapidamente do que os contratos conseguem se ajustar. O pico inflacionário de 14,1% em 2022 e o pico da taxa básica de juros em 11,25% não são apenas fatos macroeconômicos. São eventos distributivos com consequências políticas. Uma estratégia socialista que trate a estabilidade macroeconômica apenas como uma restrição externa será percebida como resignada. Uma estratégia que ignore a estabilidade será punida pelos canais da inflação e da desvalorização, que rapidamente destroem a legitimidade popular.
A segunda lição é que, para a esquerda chilena, o modelo de “integração” baseado no acesso tem um limite estrutural que se torna fatal em contextos de volatilidade e crise. Quando a inclusão é mediada pelos orçamentos das famílias , pelas condições de crédito e pelos preços de mercado, qualquer choque macroeconômico se traduz imediatamente em tensão no cotidiano, e a legitimidade se corrói mais rapidamente do que as reformas conseguem repará-la. O problema se agrava quando a expansão da política social funciona sobretudo como canal indireto de financiamento da provisão privada, porque o aumento do gasto público pode ser percebido menos como alívio universal do que como uma transferência para o grande capital privado, que captura rendas em setores essenciais. Nesse contexto, a promessa de integração perde credibilidade não apenas por ser vulnerável a crises, mas também porque seu sentido distributivo se torna ambíguo.
Portanto, uma agenda de desmercantilização da política social no Chile deve ser entendida como uma transformação do custo de vida, e não como uma retórica doutrinária antimercado. Os cidadãos avaliam projetos a partir de reduções concretas nos gastos obrigatórios. Aluguel, transporte, copagamentos em saúde, energia e cuidados são os verdadeiros campos de disputa. O Copago Cero é analiticamente importante porque sinaliza o tipo de plataforma universal capaz de reduzir diretamente os gastos do próprio bolso em larga escala. A economia estimada de CLP 202 bilhões para os beneficiários entre setembro de 2022 e maio de 2024 mostra a magnitude do alívio que um desenho universal pode gerar quando implementado por meio de uma rede pública dominante. A mesma lógica se aplica à habitação e ao cuidado. O Estado precisa expandir plataformas universais que funcionem seja como opção padrão, seja como referência regulatória que discipline os preços privados, de modo que o gasto público se traduza em alívio verificável, e não em um fluxo mediado de pagamentos a prestadores com poder de mercado.
Um programa de esquerda crível no Chile dificilmente se parecerá com uma substituição total do setor privado. Ele deve assumir a forma de uma reconfiguração gradual, mas irreversível, do papel público. Isso implica bancos de desenvolvimento, compras públicas e orientação do investimento para transformar a estrutura de oferta que determina o custo de vida. Implica também plataformas públicas de saúde, cuidado, transporte e energia, capazes de reduzir a volatilidade de preços e a exposição das famílias a gastos diretos. Significa endurecer a regulação em mercados cativos e aprimorar regras trabalhistas que fortaleçam a redistribuição. E exige uma base tributária capaz de financiar essas políticas de forma permanente. O fracasso da reforma tributária de 2023 ilustra o quanto a redistribuição é frágil sem uma arquitetura estável de receitas.
Por fim, a esquerda precisa reconstruir uma narrativa de integração que vá além do acesso e que não dependa de momentos excepcionais. As transferências da pandemia criaram um parâmetro que não pode ser replicado de forma permanente. Um projeto sustentável precisa, portanto, traduzir a memória dessa escala em outro tipo de permanência: não cheques emergenciais, mas reduções permanentes no custo de vida e garantias duradouras de provisão.
Esse é o verdadeiro significado da crise chilena para a esquerda após a vitória de Kast. O eleitorado não votou apenas pela direita. Votou contra a implausibilidade. Reconstruir credibilidade exige um programa capaz de produzir melhorias visíveis na segurança material sem romper a estabilidade de uma economia aberta. Sem isso, o reformismo voltará a ser punido e a demanda por ordem continuará a deslocar a demanda por direitos.
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