15 de agosto de 2026

Análises

O chamado paradoxo peruano

A eleição de Keiko Fujimori fortalece um modelo de crescimento extrativista

Em 28 de julho, Keiko Fujimori, filha do ex-ditador peruano Alberto Fujimori, tomou posse como presidente do Peru. Depois de três tentativas fracassadas de chegar ao cargo, Fujimori venceu a eleição deste ano prometendo encerrar um período de crescente instabilidade política: ela será a décima presidente a governar o Peru nos últimos dez anos, em meio a uma sucessão de impeachments, renúncias motivadas por escândalos de corrupção e coalizões partidárias frágeis. A eleição foi decidida no segundo turno, com Fujimori recebendo 50,13% dos votos válidos, a menor margem já registrada em uma eleição presidencial no país.

Essa década de instabilidade política conviveu com uma surpreendente estabilidade macroeconômica: inflação persistentemente baixa e moeda relativamente estável. O contraste entre política e economia é amplamente conhecido como o “paradoxo” da economia política peruana. Tanto no debate doméstico quanto no internacional, ele costuma ser atribuído à eficiência da tecnocracia do país, sobretudo à atuação de longa data de Julio Velarde à frente do Banco Central e sua rigorosa gestão da política monetária. Com a promessa de estabilizar a vida política do país e garantir a segurança macroeconômica por meio da recondução de Velarde ao cargo, Fujimori se apresentou como uma figura capaz de finalmente pôr fim ao paradoxo peruano.

A hipocrisia dessa narrativa é evidente. Desde 2016, Fujimori e seu partido, o direitista Fuerza Popular, foram responsáveis por uma parcela significativa do caos político, atuando sistematicamente para obstruir o governo. Em 2022, o Fuerza Popular conspirou com o Congresso para destituir o presidente de esquerda Pedro Castillo e substituí-lo por Dina Boluarte, sua vice. Boluarte reprimiu violentamente os grandes protestos que se seguiram ao impeachment e à prisão de Castillo. Dezenas de mortes foram registradas.1Pedro Castillo anunciou a dissolução inconstitucional do Congresso, o que levou ao seu rápido impeachment e à sua prisão imediata. No entanto, o Congresso e setores das elites já haviam lançado uma ofensiva contra seu governo antes mesmo de sua posse, que incluiu tentativas de reverter o resultado das eleições, o bloqueio sistemático de reformas, ameaças constantes e um processo de impeachment. Em 2026, o braço direito e vice-presidente eleito de Fujimori, Miguel Torres, admitiu que seu objetivo era encerrar (de forma irregular) o governo de Castillo por meio de pressão constante. Em 2024, o governo de Boluarte, ilegítimo e impopular, agradeceu a aliança com o Fuerza Popular ao decretar três dias de luto nacional pela morte de Alberto Fujimori, condenado em 2009 a 25 anos de prisão por violações de direitos humanos e corrupção, mas indultado por razões humanitárias em 2017.

Além disso, a própria ideia do “paradoxo” peruano distorce a relação entre as esferas política e econômica do país. O declínio político e democrático do Peru está, na verdade, intimamente ligado ao seu status quo macroeconômico. Desde a promulgação da Constituição de 1993, um modelo de crescimento baseado na exportação de bens primários de origem extrativa, sobretudo minerais, tem produzido conflitos sociais e ambientais recorrentes, sem contribuir de forma significativa para reduzir as profundas desigualdades territoriais e urbanas, superar a informalidade ou eliminar de maneira duradoura a pobreza. Esse modelo depende da entrada constante de investimento estrangeiro direto (IED) e da acumulação de grandes reservas internacionais, o que, por sua vez, fortalece as indústrias extrativas e enfraquece outras possíveis fontes de investimento.

A economia peruana do século XXI conseguiu evitar de forma consistente o tipo de crise econômica que atingiu vizinhos como Venezuela, Bolívia e Argentina, países que, por diferentes razões, passaram por ajustes no balanço de pagamentos que resultaram em aceleração da inflação e recessões. Mas estabilizar a inflação não é o mesmo que promover uma estratégia de desenvolvimento. O isolamento do Banco Central de Reserva do Peru (BCRP) do escrutínio público, somado à reverência em torno de seu presidente, reduz o espaço para o debate democrático sobre os caminhos para um desenvolvimento mais inclusivo. Na ausência desse debate, o Estado acaba recorrendo à força para responder à crescente instabilidade social.

Um milagre econômico?

A industrialização do Peru foi tardia. Até a década de 1960, uma poderosa e longeva oligarquia fundiária ainda constituía um obstáculo às reformas estruturais. Então, em 1968, o governo militar liderado por Juan Velasco Alvarado chegou ao poder com o objetivo de redistribuir terras e industrializar o país. O governo implementou uma série de reformas agrárias e nacionalizações setoriais, como a expropriação dos ativos da International Petroleum Company, subsidiária da Standard Oil of New Jersey. Durante alguns anos, as autoridades peruanas tentaram reestruturar a produção agrícola e industrial de modo a transferir o poder para cooperativas participativas que incorporassem as populações rurais e indígenas, historicamente marginalizadas e violentadas.2Ver Carlos Aguirre e Paulo Drinot, eds., (<)em(>)The Peculiar Revolution: Rethinking the Peruvian Experiment Under Military Rule(<)/em(>) (Austin: University of Texas Press, 2017). Essa forma peculiar de capitalismo de Estado rapidamente chegou ao limite. O esforço de industrialização não conseguiu superar formas arraigadas de dependência econômica, entre elas a dependência da importação de bens de capital e da disponibilidade de dólares. Além disso, o Estado peruano não tinha capacidade nem respaldo político para alterar estruturalmente a dinâmica de acumulação. Uma forte pressão política, tanto dentro do governo quanto das Forças Armadas, acabou por encerrar essas ambições desenvolvimentistas.

A partir do final dos anos 1970, e especialmente após o Choque Volcker de 1979, o Peru foi atingido por sucessivas crises de balanço de pagamentos, intervenções do FMI e uma série de experimentações de política econômica feitas por governos democráticos de direita e de esquerda. Programas de choque ortodoxos e heterodoxos, assim como alternativas gradualistas, falharam em conduzir a economia do país a uma trajetória de crescimento sustentável e desenvolvimento industrial. As crises foram agravadas pela intensa migração interna do campo para as cidades, que ampliou a força de trabalho informal e subempregada nos centros urbanos. Durante os anos 1980, a ofensiva do grupo guerrilheiro maoísta Sendero Luminoso e a guerra suja promovida pelo Estado peruano em resposta resultaram em quase 70 mil mortes, sobretudo em comunidades camponesas. A “década perdida” da dívida e da hiperinflação assumiu, no Peru, uma forma especialmente violenta.

Alberto Fujimori foi eleito em 1990 com uma plataforma que rejeitava as políticas neoliberais, mas mudou de rumo antes mesmo de tomar posse. O chamado “Fujishock”—uma retirada abrupta dos subsídios e dos controles de preços, acompanhada da adoção de um regime de câmbio flutuante que fez os preços de produtos essenciais dobrarem ou triplicarem da noite para o dia—foi seguido por profundas reformas estruturais, privatizações e pelo desmonte generalizado das estruturas do Estado desenvolvimentista, incluindo a extinção do banco nacional de desenvolvimento e dos órgãos de planejamento. Sob o pretexto de combater a hiperinflação, Fujimori dissolveu o Congresso, destituiu o Judiciário e, com o apoio das Forças Armadas, concentrou poderes ditatoriais. Seguiu-se uma campanha brutal de prisões e demissões que substituiu jornalistas, juízes e funcionários públicos por representantes do regime.

Em 1993, Fujimori propôs uma nova Constituição, aprovada em consulta popular por 52% dos votos. Além de concentrar poderes políticos no Executivo, a Constituição consagrou um programa econômico inspirado no modelo de Pinochet, proibindo políticas discriminatórias contra o investimento estrangeiro e a adoção de controles cambiais. As atribuições do Banco Central do Peru foram limitadas à manutenção da estabilidade de preços e o financiamento monetário do governo foi proibido.

Como uma economia pequena e subitamente aberta em um mundo globalizado, o Peru aprofundou sua posição de exportador de commodities. Um novo código de mineração, respaldado pela Constituição de 1993, privatizou integralmente o setor e garantiu aos investidores estrangeiros as mesmas condições de acesso à atividade que os investidores nacionais.3Ver S. Gruber e J. C. Orihuela, “Deeply Rooted Grievance, Varying Meaning: The Institution of the Mining Canon,” em (<)em(>)Resource Booms and Institutional Pathways: The Case of the Extractive Industry in Peru(<)/em(>), ed. E. Dargent et al. (London: Palgrave Macmillan, 2017), 41–67. Um grande número de concessões constitucionalmente garantidas ofereceu a mineradoras nacionais e estrangeiras proteção contra mudanças tributárias. Cobre e outros metais passaram a representar mais da metade das exportações, enquanto um mercado emergente de exportações agrícolas chegou a responder por cerca de 15% do total. 

As interpretações mais convencionais da economia política peruana atribuem às reformas constitucionais o mérito pelo chamado milagre econômico que se seguiu. De fato, entre 1990 e 1996, a inflação peruana caiu para a casa de um dígito, enquanto as receitas das privatizações e as reformas tributárias recompuseram as contas públicas do país. A realidade macroeconômica, porém, era mais complexa. O crescimento melhorou modestamente, mas permaneceu volátil e ficou, em média, em apenas 1% ao ano. Em 1998, o Banco Central enfrentou um grave desafio quando a Rússia deu calote em sua dívida externa. O Peru estava particularmente exposto em razão da abertura aos fluxos de capital estrangeiro e do avanço da dolarização promovido pelas reformas dos anos 1990. Além disso, o Banco Central não conseguiu impedir o início de uma crise bancária provocada pelos desalinhamentos cambiais nos bancos peruanos. Os efeitos recessivos, agravados por desastres naturais como o El Niño e pelo colapso político do fujimorismo, prolongaram-se até 2001.

A crise de 1998 foi decisiva para definir a forma como o Banco Central do Peru operaria nas décadas seguintes, levando a uma moderação de algumas das reformas mais radicais de 1993. Depois da crise, os dirigentes do BCRP, entre eles economistas de orientação à esquerda, introduziram um novo regime baseado em políticas anticíclicas para conter tendências deflacionárias, na acumulação de reservas internacionais e na gestão tácita do câmbio flutuante. Na base de tudo isso estava um esforço contínuo de desdolarização—uma iniciativa que foi muito além do Banco Central e que, como explicou em entrevista o ex-presidente interino do BCRP, Oscar Dancourt, exigiu primeiro derrotar aqueles que defendiam a adoção do dólar como moeda oficial, a exemplo do que fez o Equador em 2000. Nenhuma dessas características, tampouco a ideia fundamental de administrar a taxa de câmbio em conjunto com a estabilidade de preços, estava prevista na lei orgânica do Banco Central ou na Constituição de 1993. Elas foram, antes, resultado de um processo criativo de aprendizado conduzido por um grupo plural de autoridades, que reconheceram os riscos de uma financeirização subordinada. Mas, embora essa moderação do neoliberalismo tenha contribuído para preservar a estabilidade, ela não alterou fundamentalmente a posição dependente do país na economia global.

O verdadeiro “milagre” de crescimento viria no início do século XXI, depois da renúncia de Fujimori em 2000, em meio a protestos em massa provocados por um escândalo de corrupção e por uma eleição amplamente considerada fraudulenta. Entre 2002 e 2013, o PIB peruano cresceu, em média, 6% ao ano. A inflação permaneceu baixa e a moeda doméstica se valorizou, impulsionada pela entrada de capitais decorrente do boom de exportações do país. Notavelmente, esse período também foi marcado por uma queda expressiva da desigualdade e da pobreza: a taxa de pobreza caiu de 50% no fim do governo Fujimori para 20% em 2018, graças tanto a políticas sociais focalizadas quanto ao aumento do emprego e do acesso ao crédito.4O emprego não era necessariamente de boa qualidade, e as altas taxas de juros limitavam os benefícios para os pequenos tomadores de crédito. Assim, embora muitas pessoas tenham saído da pobreza extrema, isso não significou necessariamente que tenham alcançado condições de vida dignas.

Mas, acima de tudo, essas tendências positivas foram sustentadas pelo boom das commodities dos anos 2000, impulsionado pela demanda de mercados emergentes,  sobretudo da China, e responsável por beneficiar economias de toda a América Latina.5Para uma comparação com a América Latina, ver José Antonio Ocampo e Luis Bértola, (<)em(>)The Economic Development of Latin America since Independence(<)/em(>) (Oxford: Oxford University Press, 2013). Com o fim desse superciclo, o crescimento do Peru desacelerou junto com o restante do continente: da média de 6% registrada nos anos 2000, caiu para 3,5% em 2014 e, depois da pandemia de Covid-19, para um modesto 1,8%. Nos anos pós-pandemia, também houve uma reversão profunda dos avanços na redução da pobreza. A Covid-19 expôs a precariedade dos avanços econômicos do Peru, dada a rapidez com que milhões de pessoas que trabalhavam na economia informal perderam suas condições de subsistência. Embora a melhora nos termos de troca—ainda mais favoráveis do que durante o superciclo—esteja agora levando a uma previsão de crescimento de 3,2%, as consequências duradouras da guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, somadas à turbulência doméstica e à ameaça do pior El Niño já registrado, colocam essa recuperação em risco.

Os riscos por trás do sucesso exportador

As mesmas políticas macroeconômicas que impulsionam o crescimento no Peru também produzem desigualdade e precariedade. Economistas como Germán Alarco Tosoni e Félix Jiménez argumentam que o sucesso das exportações de produtos primários provavelmente provocou um quadro de doença holandesa, com os fluxos financeiros gerados pela mineração valorizando a moeda, deslocando outras atividades de maior valor agregado e enfraquecendo os motores internos da demanda agregada.6Uma versão desse argumento, enfatizando a relação entre política monetária e desenvolvimento industrial, foi recentemente retomada por Germán Alarco, Patricia del Hierro e Luis Rodrigo Díaz em (<)em(>)Banca Central y Política Monetaria en Latinoamérica(<)/em(>) (Lima: Otra Mirada, 2026). A valorização cambial aumenta a demanda por importações, à medida que os produtos domésticos que poderiam substituí-las são prejudicados pelo processo de reprimarização, pressionando a balança comercial. Esses efeitos são mais evidentes na indústria. O crescimento registrado nos anos 1990 reverteu de forma ativa a industrialização ainda incipiente das décadas anteriores, levando ao que Jiménez classificou como “desindustrialização prematura”: a contribuição da indústria para o crescimento econômico caiu de 17,7% em 2003 para apenas 6,4% em 2015.

A agricultura tradicional também foi gravemente impactada. A abertura comercial do país tornou os alimentos importados cada vez mais competitivos em relação aos produtos básicos produzidos internamente. Essa tendência é reforçada pela preferência dos setores de restaurantes e hotelaria por insumos padronizados e de menor custo, como batatas importadas (apesar do Peru ser historicamente o berço da batata cultivada e ainda manter uma produção significativa do tubérculo). Sem uma intervenção ativa de políticas públicas, a agricultura tradicional tende ao declínio, ameaçando tanto a segurança alimentar do país quanto o sustento de uma parcela significativa da população.

O modelo de crescimento do Peru também fez do emprego informal uma característica estrutural. A mineração emprega poucos trabalhadores: o setor representa atualmente cerca de 9% do PIB e mais de 60% das exportações, mas responde diretamente por menos de 2% da força de trabalho. Já o setor informal de serviços concentra cerca de 70% da população economicamente ativa, embora responda por apenas 17% do PIB. A informalidade também está presente no setor formal, que depende de mão de obra mais barata e sem proteção regulatória: aproximadamente um quinto dos trabalhadores informais está empregado em empresas formalmente registradas. Esse modelo preserva hierarquias e desigualdades regionais e gera poucas conexões produtivas não extrativistas entre as diferentes atividades econômicas espalhadas pelo território.7Efraín Gonzales de Olarte apresentou análises sobre a articulação setorial e espacial da economia peruana em diversos trabalhos. Em um artigo recente, ele mede os diferenciais de produtividade entre os setores formal e informal com o auxílio de uma matriz de insumo-produto: “Informalidad, productividades e ingresos en el Perú: Análisis sectorial”, Working Paper nº 546, Departamento de Economía, Pontificia Universidad Católica del Perú (PUCP), 2025.

Além disso, o superciclo das commodities que impulsionou a economia também fortaleceu atores informais e ilegais que continuam a disputar o poder regulatório do Estado. Dos que atuam na mineração informal aos envolvidos com o tráfico de drogas, esses atores se beneficiam das possibilidades de lavagem de dinheiro oferecidas pela extensa economia de serviços de Lima.8Ver Juan Pablo Luna, Andreas E. Feldmann e Eduardo Dargent, “Greater State Capacity, Lesser Stateness: Lessons from the Peruvian Commodity Boom”, (<)em(>)Politics & Society(<)/em(>) 45, nº 1 (2017): 3–34; e Zaraí Toledo Orozco, “Informal Gold Miners, State Fragmentation, and Resource Governance in Bolivia and Peru”, (<)em(>)Latin American Politics and Society(<)/em(>) 64, nº 2 (2022): 45–66. Um Estado fraco e limitado governa esses agentes por meio da “não aplicação das leis”, da “tolerância deliberada” ou da cumplicidade aberta, admitindo sua atuação em razão de sua utilidade na geração de empregos, como argumentam estudiosos como Alisha Holland.9Ver Alisha C. Holland, (<)em(>)Forbearance as Redistribution: The Politics of Informal Welfare in Latin America(<)/em(>) (Nova York: Cambridge University Press, 2017); e Matías Dewey, Cornelia Woll e Lucas Ronconi, “The Political Economy of Law Enforcement”, MaxPo Discussion Paper nº 21/1, Max Planck Sciences Po Center on Coping with Instability in Market Societies, Paris, 2021.

A política de abertura comercial peruana também cria vulnerabilidades externas, não apenas na balança comercial, mas em todo o balanço de pagamentos. O país depende do investimento estrangeiro direto (IED) para evitar crises no balanço de pagamentos. No entanto, essas entradas de capital são acompanhadas por saídas financeiras súbitas e sistemáticas, uma vez que as condições favoráveis à obtenção de altos retornos pelo investimento estrangeiro—como padrões regulatórios mais baixos, mecanismos de arbitragem internacional e garantias de saída fácil de capitais, respaldadas pelo elevado volume de reservas internacionais—facilitam a repatriação dos lucros. Os fluxos financeiros de curto prazo, em particular, estão sujeitos a fortes oscilações repentinas. Os fluxos de IED de longo prazo e a dependência das exportações também geram riscos para a conta corrente, marcada por um déficit estrutural em serviços e rendas primárias. Tanto as exportações de bens quanto os investimentos estrangeiros dependem de serviços profissionais estrangeiros, como transporte de cargas, expertise científica e consultoria jurídica e financeira. Assim, os rendimentos gerados pelo IED acabam, em última instância, financiando um endividamento externo crescente, tanto privado quanto público.

Essa circulação de capitais não seria um problema se os fluxos de investimento fossem direcionados para promover mudanças tecnológicas e estruturais e ampliar a complexidade da produção e das exportações peruanas.10Para uma discussão mais aprofundada sobre a importância da mudança estrutural nas economias em desenvolvimento, ver Gabriel Porcile e Giuliano Toshiro Yajima, “New Structuralism and the Balance-of-Payments Constraint”, (<)em(>)Review of Keynesian Economics(<)/em(>) 7, nº 4 (2019): 517–36. Em vez disso, esses fluxos estão aprofundando ainda mais a reprimarização da economia. Em termos minskyanos, como colocam Samuele Bibi e Sebastian Valdecantos, o perfil das contas externas do Peru, quando os ventos das exportações perdem força, assume a forma de um esquema de pirâmide insustentável.

Essa fragilidade estrutural é compensada pelo baixo nível de gasto público do país, por uma grande força de trabalho informal e de baixos salários, pelo elevado volume de remessas enviadas por peruanos que vivem no exterior e pelos termos de troca favoráveis da pauta de exportações. As crises de balanço de pagamentos são evitadas por meio de aumentos das taxas de juros, que atraem capital estrangeiro; de exigências de reservas de natureza macroprudencial, que ajudam a conter os fluxos financeiros de curto prazo; e da acumulação e gestão de reservas internacionais, utilizadas tanto para intervir no mercado de câmbio quanto para desestimular ataques especulativos contra a moeda peruana.11Ver Renzo Rossini, “La política monetaria del Banco Central de Reserva del Perú,” em (<)em(>)Política y estabilidad monetaria en el Perú,(<)/em(>) ed. Gustavo Yamada e Diego Winkelried (Lima: Universidad del Pacífico, 2016).

As grandes reservas internacionais do BCRP se tornaram um pilar da estabilidade macroeconômica do Peru. A acumulação de reservas funciona como uma espécie de seguro contra a volatilidade dos mercados financeiros, que pode penalizar desproporcionalmente as economias cujas moedas ocupam posições inferiores na hierarquia monetária. Trata-se de uma estratégia adotada por diversas economias periféricas desde as instabilidades dos anos 1990. Ainda assim, mesmo em comparação com outros países latino-americanos, a acumulação de reservas do Peru é particularmente elevada. Na última década, o país não apenas liderou a América Latina em reservas internacionais como proporção do PIB, como também acumulou um volume equivalente ao dobro da média regional.

As grandes reservas internacionais conferem ao Peru algum grau de autonomia na condução da política monetária, apesar da abertura da conta de capitais. Elas permitem ao Banco Central reduzir a volatilidade da taxa de câmbio e sinalizar aos mercados que há liquidez em moeda estrangeira disponível, acalmando investidores mais apreensivos. Seus custos de oportunidade, porém, recebem muito menos atenção.12 Por exemplo, a acumulação de reservas implica intervenções esterilizadas do Banco Central, destinadas a reduzir a oferta de moeda e manter a inflação sob controle. Há um debate aberto, inclusive dentro da economia heterodoxa, sobre as vantagens e desvantagens dessas operações. Em uma perspectiva crítica, Eduardo Torijo-Zane argumenta que essas compras esterilizadas de divisas—comuns em países periféricos, mas particularmente expressivas no caso peruano—carregam os balanços dos bancos com títulos do Banco Central de alto rendimento e sem risco. Os bancos que atuam como (<)em(>)primary dealers(<)/em(>) têm um incentivo permanente a manter instrumentos do BCRP em vez de ampliar a oferta de crédito produtivo ao setor privado, reduzindo o apetite por risco justamente das instituições com maior capacidade de intermediação financeira. Ver “Bancos Centrales ‘Periféricos’: El Caso de América Latina”, em (<)em(>)Estructura Productiva y Política Macroeconómica. Enfoques Heterodoxos Desde América Latina(<)/em(>) (CEPAL, 2015). Ao desviar capital de investimentos produtivos domésticos, a acumulação de reservas mantém o país preso a uma posição de subordinação financeira dominada pelo dólar. Em vez de serem direcionados para projetos de desenvolvimento local, esses recursos são, em geral, reciclados para o núcleo do sistema financeiro global: as reservas internacionais são predominantemente aplicadas em ativos altamente líquidos e considerados seguros, como títulos do Tesouro dos Estados Unidos. O “medo de perder reservas” não apenas restringe a autonomia da política econômica, como também estimula uma acumulação cíclica de reservas para preservar continuamente a confiança dos mercados.

Democracia esvaziada

Em um retrocesso em relação à promessa democrática de transformação social que levou à queda de Alberto Fujimori no início do milênio, a economia política peruana passou a ser marcada por vínculos cada vez mais estreitos entre as elites governantes, investidores estrangeiros e interesses empresariais domésticos, todos com interesses convergentes nos setores de mineração, serviços e agronegócio. Em contraste com a narrativa corrente de que a instabilidade política do Peru seria fruto de incompetência (da qual sua política macroeconômica estaria protegida), esses vínculos sugerem que, como argumentava o falecido sociólogo peruano Francisco Durand, o fracasso das instituições políticas do país está diretamente relacionado à sua captura por interesses empresariais.13Ver Francisco Durand, “El problema del fortalecimiento institucional empresarial,” em (<)em(>)Construir instituciones: Democracia, desarrollo y desigualdad en el Perú desde 1980(<)/em(>), ed. John Crabtree (Lima: Instituto de Estudios Peruanos, 2006); e John Crabtree e Francisco Durand, (<)em(>)Perú: Élites del poder y captura política(<)/em(>) (Lima: Red para el Desarrollo de las Ciencias Sociales en el Perú, 2017).

A expansão da mineração, do setor de serviços essenciais e do agronegócio tanto provocou resistência popular quanto fortaleceu a capacidade repressiva do Estado. Em 2009, o governo peruano publicou decretos que permitiam a exploração de recursos naturais em terras indígenas na Amazônia por empresas privadas. Depois que indígenas Awajun e Wampis bloquearam estradas na cidade de Bagua em protesto, o governo enviou a polícia, resultando, segundo dados oficiais, na morte de pelo menos dez indígenas e 23 policiais, além de mais de 150 feridos. Testemunhas afirmam que o número de mortes entre civis foi subestimado. O uso excessivo da força pelo governo, somado à concentração do poder político e econômico, ameaça deteriorar ainda mais as condições para a participação política popular.

A natureza predominantemente extrativista da macroeconomia peruana produziu o que Roger Merino chamou de Estado cínico: um Estado que se apresenta como empenhado em responder às preocupações sociais e ambientais da população, ao mesmo tempo em que flexibiliza regulações para atrair investimento estrangeiro direto. A presidência de Ollanta Humala é um exemplo emblemático. Humala chegou ao poder em 2011 com uma agenda progressista, prometendo responder às reivindicações indígenas, mas, sob pressão constante de setores das elites e da mídia, nomeou figuras conservadoras para comandar o Ministério da Economia e Finanças e o Banco Central. Depois de seis meses, a maioria dos ministros de orientação mais à esquerda já havia deixado o cargo, e o governo traiu suas promessas de não impor atividades extrativas às comunidades, reprimindo violentamente os protestos contra a instalação de uma gigantesca mina de ouro em Cajamarca—protestos que acabaram sendo bem-sucedidos.

Também ficou cada vez mais evidente que o Banco Central possui menos autonomia tecnocrática do que normalmente se supõe. Em 2021, a eleição de Castillo, um professor rural de esquerda, provocou uma enorme saída de capitais no curto prazo, pressionando a taxa de câmbio, que chegou a quatro soles por dólar—o nível mais alto desde a introdução da moeda, em 1990. Como argumentaram observadores críticos na época, o Banco Central tinha condições de estabilizar o câmbio utilizando suas grandes reservas, mas optou por não fazê-lo. O episódio poderia ser interpretado, como apontaram setores da esquerda, como uma tentativa de pressionar o novo governo a mudar de rumo político; ou, ao contrário, como evidência dos limites da autonomia de política econômica que o acúmulo de reservas deveria proporcionar, diante do medo disseminado de perdê-las. De todo modo, a turbulência desestabilizou ainda mais a já frágil coalizão de esquerda em torno de Castillo.

Em geral, líderes de esquerda têm dificuldade para avançar contra a proteção que as elites conferem às políticas do Banco Central. Quando o então pré-candidato à Presidência e ex-diretor do Banco Central Alfonso López Chau propôs, neste ano, a criação de um fundo soberano, a ideia foi rejeitada como uma violação quase sacrílega das reservas internacionais acumuladas a duras penas pelo Banco Central.14Ironicamente, uma proposta muito semelhante foi apresentada em 2025 por Jorge Baca-Campodonico, ex-ministro de Alberto Fujimori e atual assessor de Keiko Fujimori. A reação que se seguiu obrigou López Chau a se comprometer a reconduzir Velarde ao cargo caso fosse eleito presidente e a buscar a aprovação de Velarde para sua política econômica.

O recém-inaugurado governo de Fujimori deve aprofundar as forças que sustentam o chamado paradoxo peruano, seu modelo de crescimento baseado no extrativismo e no investimento estrangeiro direto, bem como o enfraquecimento democrático que ele produz. Ainda assim, o prometido forte controle sobre os mecanismos de poder do Estado deverá trazer mudanças significativas. Sob o pretexto de combater a insegurança e a criminalidade, o partido da presidente vem defendendo a ampliação dos poderes repressivos do Estado. Seus aliados aprovaram leis que garantem impunidade às forças policiais e militares responsáveis pela repressão de manifestações, abrindo caminho para novos projetos extrativistas. O sistema internacional de direitos humanos, que no passado funcionava como um mecanismo de contenção, encontra-se hoje comprometido diante da guinada extrema à direita no hemisfério, liderada pelos Estados Unidos.

Rejeitar a separação entre política e economia é essencial para romper com esse padrão. É somente abrindo espaço para a deliberação democrática sobre a economia que será possível construir uma nova agenda desenvolvimentista e democrática.

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