edição 1, junho de 2026
Análises
Doutrinas Monroe
Imperialismo e anti-imperialismo em Nuestra América
Em março, Donald Trump reuniu líderes da América Latina e do Caribe em seu resort de golfe em Doral, Miami, para realizar a cúpula inaugural “Escudo das Américas”. O encontro buscava estabelecer uma nova coalizão para combater o “narco-terrorismo” e desmantelar os cartéis de drogas que se tornaram um bicho-papão constantemente evocado pelo mandatário estadunidense. Em meio à renovada agressão militar dos EUA, o evento atraiu 12 chefes de Estado reacionários, ansiosos por se alinharem à agenda regional de Washington. Estiveram presentes Javier Milei, da Argentina; Daniel Noboa, do Equador; Nayib Bukele, de El Salvador; e José Antonio Kast, do Chile, bem como os presidentes de direita da Bolívia, Paraguai, Panamá, Honduras, Costa Rica, Guiana e República Dominicana, e o primeiro-ministro de Trinidad e Tobago.
O grupo reafirmou os princípios de segurança continental estabelecidos pelo chamado Corolário Trump, a mais recente Estratégia de Segurança Nacional e a nova Coalizão Anticartel das Américas. A “Doutrina Donroe” apresentada nessas declarações não passa da mais recente manifestação das reivindicações de longa data dos EUA de domínio regional na ausência de hegemonia—uma reformulação exagerada da Doutrina Monroe e do Destino Manifesto.
Examinamos essa nova doutrina à luz de seus antecessores históricos: o monroismo, a Política de Boa Vizinhança, a contra-insurgência da Guerra Fria e o pan-americanismo neoliberal. Argumentamos que cada uma dessas manifestações do imperialismo dos EUA encontrou antagonismo contínuo, enraizado em um padrão de longa data de resistência latino-americana, desde o integracionismo de Simón Bolívar até o anti-imperialismo revolucionário de José Martí.
Essa comparação histórica revela uma série de continuidades substantivas na natureza do imperialismo dos EUA na América Latina: tomada de decisão unilateral, uma lógica de segurança nacional, militarização e coerção econômica têm se manifestado de diversas formas desde o início do século XX. Mas também revela um importante conjunto de rupturas: acima de tudo, uma disposição de desmantelar a própria estrutura das instituições regionais que os EUA manipularam por tanto tempo. Isso, por sua vez, reflete uma novidade na composição da resistência latino-americana—ou seja, os limites de uma visão contra-hegemônica coerente apresentada pelos atores regionais.
Juntos, esses ângulos ajudam a esclarecer a supremacia contemporânea dos EUA sob a Doutrina Donroe, que marca um novo período do imperialismo hemisférico dos EUA. A visão de Trump de uma geografia realinhada por meio de uma “Grande América do Norte” revive e redireciona ideologias centenárias fundamentais para o próprio pan-americanismo. A tarefa que temos, então, é propor como as agendas anti-imperialistas poderiam reivindicar um novo horizonte para a “Nuestra América”.
Legados contraditórios
Em seu discurso de 1904 perante o Congresso, Theodore Roosevelt falou como herdeiro de um novo império. Com o fim da Guerra Hispano-Americana, os Estados Unidos consolidaram-se como uma potência caribenha. O discurso de Roosevelt articulou a fusão de duas ideologias imperiais: a Doutrina Monroe e a Doutrina do Destino Manifesto (1845). A primeira, proferida pelo presidente Monroe em 1823, rejeitou o controle imperial europeu sobre o Hemisfério Ocidental e, ao fazê-lo, reivindicou-o para a esfera de influência dos EUA. A segunda legitimou a expansão territorial dos Estados Unidos como um mandato histórico. A convergência doutrinária articulada por Roosevelt lançou as bases para uma projeção continental que combinava princípios de defesa hemisférica com práticas de dominação.
Depois que a Espanha perdeu o controle de Cuba em meio à luta pela independência, os EUA colocaram a ilha sob ocupação militar. Logo em seguida, tomaram Porto Rico, que estabeleceram como dependência colonial, bem como as Filipinas e Guam, mantidas como territórios não incorporados. Esse período de imperialismo foi caracterizado pelo exercício aberto e unilateral da agressão dos EUA.
Essa forma de imperialismo levou a décadas de intensa resistência. Em sua Carta da Jamaica, de 1815, Simón Bolívar propôs uma união das nações latino-americanas recém-independentes. Em 1826, o Congresso do Panamá, organizado por Bolívar, clamava por uma união hispano-americana para resistir à política pan-americanista de Washington. Quando a primeira Cúpula Pan-Americana no estilo Monroe ocorreu em Washington em 1890, José Martí ganhou destaque em todas as Américas. Seu ensaio seminal de 1891, “Nuestra América”, foi amplamente lido em todo o continente, tornando-se a base para movimentos anticolonialistas e de soberania popular que buscavam construir a unidade regional contra o novo agressor imperial do Norte.
O vínculo co-constitutivo entre imperialismo e resistência é essencial para a história das Américas,1Casanova, Pablo González. 1985. (<)em(>)Imperialismo y liberación: Una introducción a la historia contemporánea de América Latina(<)/em(>). México, D.F.: Siglo XXI Editores. Preciado, Jaime. 2023. “El panamericanismo: instrumento geopolítico para la implementación de la Doctrina Monroe”. Em: (<)em(>)La Doctrina Monroe contra América Latina y el Caribe (1823–2023): dos siglos de agresiones, intervenciones e injerencia(<)/em(>). ed. Carlos Oliva Campos. Caracas: Monte Ávila Editores Latinoamericana. Morgenfeld, Leandro. 2023. (<)em(>)Nuestra América frente a la doctrina Monroe: 200 años de disputas(<)/em(>). Buenos Aires: CLACSO. definida por cinco períodos históricos.
| Período histórico | Orientação do pan-americanismo | Princípios doutrinários do imperialismo | Resistência latino-americana |
| Primeiro Período (1776–1933) | Pan-americanismo fundacional (1776–1880) | Destino Manifesto Doutrina Monroe | Projeto Bolivariano: Carta da Jamaica Congresso do Panamá |
| Pan-americanismo imperial (1881–1933) | Primeira Conferência Pan-Americana Corolário Roosevelt à Doutrina Monroe | Legado de José Martí Pensamento anti-imperialista Nuestra América | |
| Segundo Período (1934–1953) | Pan-americanismo da “boa vizinhança” | Política de “boa vizinhança” e “solidariedade hemisférica” Domínio político e militar: TIAR — esfera militar; OEA: relações interamericanas; BID: desenvolvimentismo e endividamento | Formação da aliança desenvolvimentista dos regimes populistas contra a burguesia imperialista |
| Terceiro Período (1954–1980) | Pan-americanismo da segurança nacional | Doutrina de Segurança Nacional Política de contrainsurgência e antirrevolucionária: Escola das Américas e Operação Condor Contenção anticomunista Aliança para o Progresso | Triunfo da Revolução Cubana e surgimento dos movimentos de libertação nacional Anti-imperialismo revolucionário e popular Teologia da Libertação Triunfo da Revolução Sandinista na Nicarágua Levantes revolucionários e contra-insurgência na América Central |
| Quarto Período (1981–2020) | Pan-americanismo neoliberal | Neoliberalização das relações internacionais Consenso de Washington Cúpula das Américas A ALCA como pan-americanismo multilateral Acordos de livre comércio (ALCs) e ALCs sub-regionais como estratégia de pan-americanismo unilateral Criação do Comando Norte | Ciclo de agitação social de 1989 (Caracazo) a 2001 (Que se vayan todos) Revolução Bolivariana Levante Zapatista Fórum Social Mundial e Aliança Social Continental Ciclo de governos progressistas |
| Quinto Período (2021–2026…) | A crise do pan-americanismo liberal e a supremacia unilateral trumpista | Tornar a América Grande Novamente A América em Primeiro Lugar Corolário Trump-Rubio Doutrina Donroe Intervenção militar na Venezuela “Escudo das Américas” Grande América do Norte | Eixo Brasil-Colômbia-México contra o unilateralismo dos EUA Frente Mundial Antifascista Movimentos da ALBA |
O imperialismo estadunidense, portanto, não é simplesmente uma atividade unilateral de dominação. Ele é sempre contestado e remodelado pelos movimentos de resistência.2Correa, J.. 2020. Panamericanismo versus latinoamericanismo: tensión geopolítica y civilizacional. (<)em(>)Analecta Política(<)/em(>), 10(19), 56-76. O pan-americanismo manifesta-se, por vezes, pela diplomacia das canhoneiras—expressa em processos intervencionistas violentos que incluíram invasões, derrubadas de governos, e anexações territoriais—e, por vezes, pela diplomacia da cenoura—que se baseia na negociação, em tratados e num sistema de endividamento. Essas duas facetas do imperialismo estadunidense constituem arsenais distintos que podem ser direcionados a diferentes atores, muitas vezes durante o mesmo período.
Uma nova fase do imperialismo dos Estados Unidos seria lançada por Franklin D. Roosevelt em 1933. Com a Política de “Boa Vizinhança”, Washington buscou relações mais amigáveis, recuou das intervenções militares e iniciou a cooperação hemisférica, incluindo os primeiros órgãos multilaterais que viriam a formar a base do nascente sistema interamericano. O período ampliou uma plataforma de controle militar por meio do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR, 1947) e das dez Conferências Pan-Americanas realizadas antes de 1954. A criação de espaços diplomáticos que alegavam apoiar a governança democrática, como a Organização dos Estados Americanos em 1948, funcionou efetivamente como um meio de contenção anticomunista e de isolamento de países e movimentos que se opunham à hegemonia dos EUA.
Essa fase do imperialismo estadunidense também refletiu uma nova geração de movimentos de resistência. Foi durante esse período que surgiram movimentos nacionais-populares em toda a América Latina e no Caribe, em oposição a burguesias nacionais e oligarquias apoiadas pelos Estados Unidos e pela Europa. Ao mesmo tempo, desenvolveu-se um processo de integração social que buscava proteger e fortalecer os mercados sociais,3Dussel, Enrique. 2006.(<)em(>) 20 tesis de política(<)/em(>). Mexico: Siglo XXI / Centro de Cooperación Regional para la Educación de Adultos en América Latina y el Caribe, 93. ou o que Cardoso e Faletto denominaram “aliança desenvolvimentista” entre os industriais e os setores operários e populares. A força avassaladora desses movimentos impôs a necessidade de uma cooperação multilateral, por receio de provocar uma revolta ainda maior.4Cardoso, Fernando Henrique; Faletto, Enzo. 2007 Dependência e desenvolvimento na América Latina: ensaio de interpretação sociológica. Rio de Janeiro: Zahar
No entanto, o apelo à cooperação acabou mais uma vez levando à violência unilateral. Com a intensificação da Guerra Fria, as autoridades governamentais dos EUA não podiam mais correr o risco de dar a impressão de soberania regional. O Golpe de Estado de 1954 na Guatemala foi logo seguido pela tentativa de invasão de Cuba em 1961; a recuperação do Canal do Panamá após a revolta pela soberania em 1964; o golpe de Estado contra o governo de João Goulart no Brasil naquele mesmo ano; a intervenção militar na República Dominicana em 1965; o assassinato de Ernesto “Che” Guevara na Bolívia em 1967; o golpe contra Salvador Allende no Chile em 1973; e a Operação Condor na Argentina em 1975.
O estabelecimento de uma infraestrutura militar pan-continental logo se tornou um mecanismo-chave de controle. A criação do Comando de Defesa do Caribe durante a Segunda Guerra Mundial foi fundamental para isso. O objetivo era controlar o Canal do Panamá, monitorar o Caribe e coordenar missões militares na América Latina. Além disso, foi criada a Escola das Américas, um centro de treinamento que lançou as bases para o imperialismo de contra-insurgência. Em 1963, surgiu o Comando Sul (SOUTHCOM) com o objetivo de conter o comunismo e a revolta popular, e expandir os compromissos de contra-insurgência consagrados na Doutrina de Segurança Nacional.
O legado dessas agências continua a moldar as alianças militares continentais de hoje. É importante ressaltar que a resistência eficaz da Revolução Cubana se tornou uma inspiração para vários movimentos de libertação nacional e lutas guerrilheiras. E foi nesse cenário insurgente que os princípios anti-imperialistas mais significativos do século—o internacionalismo e a promoção de um humanismo revolucionário—amadureceram em amplas esferas intelectuais, jornalísticas e artísticas por toda a América Latina.
Foi em resposta a esses movimentos que surgiu mais um período imperialista. Com Ronald Reagan como presidente dos Estados Unidos, iniciou-se uma nova fase do pan-americanismo neoliberal, sintetizando um Estado “mínimo” com ênfase na “segurança nacional”.5Gonzalez Casanova, Pablo. 1990. “La teoría del Estado y la crisis mundial”. Em Casanova, Pablo González (coord.). (<)em(>)El Estado en América Latina. Teoría y práctica(<)/em(>). México, D.F.: Siglo XXI Editores / Universidad de las Naciones Unidas, 19. O Estado de segurança mínima justificou intervenções em várias partes do mundo, particularmente no Caribe e na América Central. Com o objetivo de reforçar seu domínio nas Américas, o governo de George H. W. Bush propôs a Iniciativa das Américas em 1990 e uma série de cúpulas bianuais a partir de 1992, como parte das novas agendas pós-Guerra Fria. O governo Clinton deu continuidade a essa virada neoliberal ao promover o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA) e a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), que George W. Bush havia adotado como prioridades hemisféricas. Somaram-se a isso as nove Cúpulas das Américas realizadas entre 1994 e 2022.
Apesar da ênfase no comércio e nos mercados, o pan-americanismo neoliberal foi acompanhado por uma agenda de segurança cada vez mais unilateral. Em 2002, foi criado o Comando Norte dos EUA (NORTHCOM) em resposta aos ataques de 11 de setembro de 2001,6Sob essa estrutura, as duas esferas de controle geoestratégico definidas pelo SOUTHCOM e pelo NORTHCOM integraram o continente à estratégia global de combate ao terrorismo e à conceituação dos Estados Unidos como uma potência unilateral que assume o papel de “polícia global”. incorporando o México7É importante ressaltar que, em 2025, o deputado republicano Ken Calver apresentou um projeto de lei para excluir o México do Comando Norte e transferir sua jurisdição para o Comando Sul, embora a proposta não tenha ganhado força. como parte da zona de segurança prioritária diante das ameaças transnacionais, bem como o lançamento da guerra global contra o terrorismo e a reorganização da luta contra o tráfico de drogas em escala regional.
Diante desse cenário, um novo ciclo de protestos sociais foi iniciado. Ele teve início em 1989 com o “Caracazo” na Venezuela, a Campanha Continental pelos 500 Anos de Resistência Indígena, Negra e Popular em 1990 e uma enxurrada de movimentos sociais antiglobalização, como os zapatistas em Chiapas e o Fórum Social Mundial de 2001 em Porto Alegre.8Bringel, Breno e Cabezas, Almudena. 2014. “Geopolítica de los movimientos sociales latinoamericanos: espacialidades, ciclos de contestación y horizonte de posibilidades”. Em Coronado. J. (coord.). (<)em(>)Anuario de la integración latinoamericana y caribeña(<)/em(>), 323-342. Guadalajara: Universidad de Guadalajara / University Press of the South New Orleans / Ediciones de la Noche. Por mais de uma década, foi construída uma rede regional de dissidência, uma fonte de multilateralismo social que marcou a resistência ao pan-americanismo em geral e ao neoliberalismo em particular.9A revolta zapatista de 1994 tornou-se um marco global para a resistência antiglobalização ao se opor ao Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), enquanto a Aliança Social Continental (ASC), que surgiu no final da década de 1990, ampliou uma coalizão social transnacional contra o neoliberalismo e em defesa da justiça social. Além disso, as Cúpulas dos Povos floresceram, juntamente com poderosos movimentos indígenas, afrodescendentes e de mulheres em todo o continente.
A Venezuela bolivariana, epicentro estratégico de uma geopolítica contra-hegemônica voltada para a integração regional, conquistou um apoio popular significativo em vários países da América Latina. A implosão da ALCA em 2005 foi contrabalançada pela criação de importantes instituições regionais autônomas em relação ao sistema pan-americano, como a União das Nações Sul-Americanas e a Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América – Tratado de Comércio dos Povos (ALBA-TCP), que reuniram governos e movimentos populares em uma nova fase regional anti-imperialista e de autonomia “sul-latino-americana” que “enfraqueceu” substancialmente o alcance da Doutrina Monroe.
Essa onda de resistência suscitou uma resposta do agressor do Norte. Em 2013, o então secretário de Estado John Kerry declarou o fim da Doutrina Monroe, anunciando o início de uma nova era de cooperação. Ecoando as declarações de Roosevelt na década de 1930, Kerry apresentou uma visão de igualdade regional na qual os países adeririam “não a uma doutrina, mas às decisões que tomamos como parceiros”.
A projeção geopolítica bolivariana, a crescente influência do Brasil e a força ascendente da autodeterminação regional contra a perspectiva de uma multipolaridade liderada pelos EUA deram início a um novo ciclo da Nuestra América. Em 2010, foi criada a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), incluindo notavelmente Cuba. Sob esse consenso político, a região foi declarada zona de paz.
Porém, na década de 2010, a crise da esquerda política e a ascensão da extrema direita na América Latina levaram ao colapso da integração proposta pela Nuestra América. Hoje, assistimos a um renascimento vigoroso do imperialismo do século XX: uma fusão da Doutrina Monroe e do Destino Manifesto que lembra o mandato de Theodore Roosevelt. Essa versão do imperialismo representa um poder hegemônico em crise, agarrando-se a uma unipolaridade sob a supremacia militarista. Diferentemente de qualquer uma de suas versões anteriores, o domínio explícito dos EUA sobre o hemisfério ocidental hoje mina a própria estrutura institucional pan-americana que eles construíram ao longo dos últimos dois séculos.
A quinta fase do imperialismo estadunidense
Em 2016, Donald Trump começou a delinear seu projeto político-ideológico sob o lema “Make America Great Again” (Tornar a América Grande Novamente). Com posições anti-imigração e nacionalistas, o primeiro governo de Trump rejeitou o multilateralismo comercial—nomeadamente o Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA) e a Parceria Transpacífica (TPP)—, ao qual atribuiu a culpa pela perda de empregos na indústria nos Estados Unidos.10Tovar Ruiz, Juan. 2018. “La doctrina Trump en política exterior: fundamentos, rupturas y continuidades”. (<)em(>)Revista CIDOB d’Afers Internacionals(<)/em(>). 120, 264. A virada para uma doutrina ortodoxa de segurança nacional e o crescente nacionalismo levaram o governo a adotar gradualmente os princípios fundamentais da Doutrina Monroe para definir sua relação com a América Latina e o Caribe.
Na Estratégia de Segurança Nacional de 2017, o Hemisfério Ocidental apareceu como uma prioridade relativamente secundária na hierarquia geográfica da política externa, mas a estratégia apontou o tráfico de drogas como uma prioridade central. O documento destacou o papel crescente da China na região por meio de investimentos e empréstimos impulsionados pelo Estado. Enquanto isso, considerou a política da Rússia de apoiar seus aliados radicais—Cuba e Venezuela—como fracassada e anacrônica.
Embora a projeção geopolítica pan-americana durante o governo de Joe Biden tenha representado uma breve pausa nessa estratégia, o retorno de Donald Trump à Casa Branca marcou o início de uma fase que aprofundou os princípios ideológicos da doutrina “America First”. Essa turbulência interna está ligada a um retorno explícito aos princípios da Doutrina Monroe e a uma projeção imperialista supremacista. A Estratégia de Segurança Nacional dos EUA para 2025, ao contrário da de 2017, posicionou o Hemisfério Ocidental como a região prioritária dentro da projeção estratégica dos EUA:
Após anos de negligência, os Estados Unidos reafirmarão e aplicarão a Doutrina Monroe para restaurar a supremacia dos EUA no Hemisfério Ocidental e proteger nosso território nacional e o acesso a áreas geográficas estratégicas em toda a região. Impediremos que concorrentes de fora do hemisfério posicionem forças ou outros meios de ameaça, possuam ou controlem ativos estrategicamente vitais em nosso hemisfério. Este “Corolário Trump” à Doutrina Monroe é uma restauração sensata e poderosa do poder e das prioridades dos EUA, em consonância com os interesses de segurança do país.
O chamado “Corolário Trump” visa restabelecer princípios históricos no âmbito do ambicioso quadro da “Doutrina Monroe”, que tem um duplo objetivo: “recrutar” aliados já estabelecidos no hemisfério para controlar a migração, conter o fluxo de drogas e fortalecer a estabilidade e a segurança tanto em terra quanto no mar; e “expandir” por meio do cultivo e fortalecimento de novas alianças, ao mesmo tempo em que reforça o apelo dos Estados Unidos como parceiro preferencial em economia e segurança no hemisfério.
Isso marca o início da quinta etapa de um imperialismo norte-americano que, ao mesmo tempo em que exacerba o legado histórico das fases mais agressivas do expansionismo e do intervencionismo dos EUA, também delas se desloca ao minar as instituições pan-americanas existentes e suplantá-las por novos órgãos orientados por personalidades e alinhados com a estrutura ideológica da extrema direita. Essa fase tem buscado o unilateralismo imperial em vez do consenso ou da coordenação regional.
A nova fase do imperialismo inaugurou uma era pós-pan-americana, em consonância com o declínio dos dogmas da hegemonia neoliberal e dos princípios do Consenso de Washington. Sua abordagem estratégica é coercitiva, manifestando-se na completa externalização da migração e na perseguição e expulsão das comunidades de imigrantes nos EUA. Essas políticas internas ameaçam minar os fundamentos básicos da cidadania americana, mantendo-se leais a um nacionalismo fascista defendido pelo MAGA. Nesta quinta fase, os EUA são uma superpotência iliberal que acelerou uma crise de hegemonia global ao desmantelar suas alianças estratégicas, como a OTAN, subordinar a política externa à política de guerra de Israel e suplantar a estrutura institucional multilateral da ONU por meio de entidades como o Conselho da Paz. Por exemplo, o plano de reconstrução da Faixa de Gaza, após os horrores do genocídio, tem sido promovido por figuras do mundo dos negócios com laços pessoais estreitos com o próprio Trump.
Na América Latina e no Caribe, o caminho imperial tem sido caracterizado por um cerco político, econômico e militar com aspirações expansionistas. A premissa da doutrina agora está clara: quem dominar o Grande Caribe dominará o coração do Hemisfério Ocidental. O presidente venezuelano Nicolás Maduro tornou-se o bode expiatório usado pelo Pentágono para justificar uma militarização abrangente do Grande Caribe. Campanhas de bombardeio no Caribe e no Pacífico colombiano destruíram mais de 45 embarcações não identificadas entre setembro de 2025 e março de 2026, resultando na morte extrajudicial de pelo menos 150 pessoas. Somou-se a isso uma campanha de assalto militar focada na apreensão de petroleiros, com o objetivo de estabelecer controle de fato sobre as águas do Caribe e outras áreas internacionais ao longo do Atlântico para interromper os fluxos de energia entre a Venezuela e seus principais parceiros energéticos.
A intervenção militar de 3 de janeiro na Venezuela ocorreu nesse contexto, com o objetivo central de assumir o controle do setor energético no Grande Caribe, redirecionar o capital petrolífero das principais reservas mundiais por meio de reformas estruturais, conter uma revolta social em grande escala no país, reestruturar as cadeias de comando do regime governamental (sem uma transição democrática) e reverter as relações com a Rússia, a China e o Irã. O isolamento e o colapso planejado do regime cubano—culminando com a suspensão abrupta do Petrocaribe—fazem parte de uma estratégia brutal de sufocamento energético.
A mudança doutrinária hemisférica ficou evidente nas ações do governo neste ano. Durante a Conferência de Chefes de Defesa do Hemisfério Ocidental em fevereiro, o Secretário de Guerra dos EUA, Pete Hegseth, exortou os chefes de defesa e altos líderes militares de 34 países do hemisfério a se unirem para deter “atores mal-intencionados”. ” Na primeira “Conferência das Américas contra os Cartéis”, Hegseth referiu-se a adversários que ameaçam a segurança e a geografia compartilhada do continente ao tentarem deslocar “a relação histórica ‘Norte-Sul’”, o que “exclui os Estados Unidos e outras nações ocidentais, mas inclui potências não ocidentais e outros adversários”.
Hegseth delineou um mapa estratégico que rejeita a noção do Sul global em favor de uma Grande América do Norte. Ele afirmou ainda: “Todas as nações e territórios soberanos ao norte do Equador, da Groenlândia ao Equador e do Alasca à Guiana, não fazem parte do ‘Sul global’. Eles formam nosso perímetro de segurança imediato nesta grande vizinhança em que todos vivemos. Cada um desses países faz fronteira com o Atlântico Norte ou o Pacífico Norte.”
Nessa linha, o secretário de Guerra de Trump reafirmou sua perspectiva fundamentalista sobre a geografia e a cultura ocidentais ao definir a Grande América do Norte como “nações cristãs sob a proteção de Deus”, reivindicando uma “herança compartilhada”. Esta quinta fase do imperialismo está, portanto, enraizada em uma ideologia de segurança nacional continental e determinismo geográfico expansionista. Nesta fase, a América Latina e o Caribe são subordinados e submetidos a um realinhamento global.

O mapa geopolítico da “Grande América do Norte”
Nessa redefinição do hemisfério como a Grande América do Norte, o nacionalismo autoritário do governo Trump passou a se orientar para o exercício de uma diplomacia transacional baseada em ameaças e negociações. Essas ameaças se concretizaram por meio de políticas fiscais agressivas e incentivos ao endividamento, com o objetivo de coagir a cooperação militar, influenciar processos eleitorais e incentivar políticas de segurança e anti-imigração. Como resultado, existe agora um potencial maior para a intervenção dos EUA na América Latina, justificada pela ameaça do narcoterrorismo.
Nesta nova etapa do imperialismo, podemos identificar um novo mapa geopolítico que se desdobra em quatro dimensões. A primeira descreve como a tecnologia e a mídia têm sido utilizadas para naturalizar uma visão de expansão territorial que se baseia no legado da Doutrina Monroe. Aqui, o nacionalismo econômico se fundiu com o aumento do poder detido por oligopólios tecnológicos e corporativos que controlam dados, plataformas, redes e algoritmos. As principais infraestruturas de mídia e seus proprietários, muitas vezes grandes doadores de Trump, impulsionam um aparato ideológico que tem sustentado um discurso de cerco anexionista. Imaginários geopolíticos imperiais, como a renovação do “Tio Sam”, refletem os princípios históricos de expansão e intervenção enraizados na política do “grande bastão” e na diplomacia das canhoneiras.
A segunda dimensão dessa manobra geopolítica se manifesta na busca pelo controle dos recursos naturais. A Reunião Ministerial sobre Minerais Críticos, convocada em fevereiro de 2026 pelo Departamento de Estado dos EUA, é um exemplo disso. O encontro teve por objetivo redefinir os termos de acesso aos recursos naturais e aumentar o controle sobre o mercado global. Com o Panamá como um istmo estratégico que liga a Europa ao Pacífico e a região apresentando um “potencial relativo de autossuficiência”, segundo Ceceña, o controle sobre a América Latina poderia garantir à potência hegemônica uma posição de relativa invulnerabilidade. A região abriga quase 20% das reservas mundiais de petróleo, 25% dos metais estratégicos e mais de 30% das florestas primárias do mundo.11No que diz respeito aos minerais críticos, detém quase 47% das reservas mundiais de lítio, 36,6% das reservas de cobre, 34,5% das reservas de prata, 23,8% das reservas de grafite natural, 20,6% das reservas de estanho, 18,8% das reservas de ferro, 16,7% das reservas de terras raras e 15,7% das reservas de níquel. Produz mais de 50% da prata mundial, 37% do cobre, 36% do molibdênio, 37% do lítio, 20% do estanho e do zinco e 16% do ferro. Além disso, a própria Venezuela detém 17,5% das reservas mundiais de petróleo. O “Triângulo do Lítio”, formado por Argentina, Bolívia e Chile, possui a maior concentração de recursos de lítio do mundo.
Com o Chile e a Bolívia se inclinando para a direita em 2025, mais países latino-americanos aderiram a um eixo alinhado a Washington, o que pode representar um revés para a China na região.12O Chile e o Peru mantêm uma posição de destaque como líderes mundiais na produção de cobre, enquanto o Brasil, a Jamaica e a Guiana ocupam um lugar significativo na produção e nas reservas de bauxita (alumínio). O Brasil, no entanto, manteve um papel estratégico que poderia servir de contrapeso à política de domínio imperial. O país possui reservas essenciais de níquel, cobalto, terras raras e grafite, e a postura soberanista de Lula, a participação do Brasil no bloco BRICS+ e o papel da China como principal parceiro comercial do Brasil poderiam desafiar os objetivos hemisféricos dos EUA.
A terceira dimensão da estratégia geopolítica dos EUA pode ser observada no comércio. As tarifas foram transformadas em arma e fizeram parte de uma estratégia diplomático-transacional para obrigar os países a reorientar suas políticas de segurança, promover mudanças ideológicas internas e limitar o acesso a áreas estratégicas no hemisfério. Isso faz parte de um discurso mais amplo de “America First” e da guerra contra o narcoterrorismo, mas, na prática, tem como alvo a presença comercial, os investimentos e os projetos de infraestrutura da China na região. O Canal do Panamá é um exemplo disso. No ano passado, o governo panamenho cedeu à pressão dos EUA para revogar a concessão concedida a uma empresa sediada em Hong Kong que operava dois portos no Canal desde 1997.
A estratégia tarifária assumiu uma forma específica na América Latina. Trump e sua equipe têm conduzido negociações com cada chefe de Estado, condicionadas ao grau de subordinação existente e ao alinhamento com o domínio dos EUA. As tarifas se tornaram uma alavanca de pressão política para garantir concessões em acordos comerciais e intervir em assuntos políticos internos. Em julho de 2025, por exemplo, o governo ameaçou impor uma tarifa de 50% sobre as importações do Brasil a fim de pressionar o país a desistir dos processos judiciais contra Jair Bolsonaro pelo papel na tentativa de golpe entre 2022 e 2023. No âmbito comercial, um conjunto de acordos comerciais e de investimento entre os EUA e Guatemala, Argentina, Equador e El Salvador foi anunciado em novembro de 2025, concedendo acesso específico ao mercado dos EUA.13Sempre sujeito a avaliações periódicas que não dependam de acordos comerciais anteriores — tais como o CAFTA-DR ou acordos de livre comércio assinados anteriormente. Trump recorreu à Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) para reajustar as prioridades comerciais de acordo com questões de segurança e imigração.14Uma disposição, aliás, que se mostra altamente vulnerável(<)a href='https://www.dw.com/es/supremo-de-eeuu-declara-ilegales-los-aranceles-impuestos-por-trump/a-76065075'(>) à luz da(<)/a(>) recente(<)a href='https://www.dw.com/es/supremo-de-eeuu-declara-ilegales-los-aranceles-impuestos-por-trump/a-76065075'(>) decisão da Suprema Corte dos EUA(<)/a(>), que determinou que o presidente excedeu sua autoridade ao impor uma série de tarifas que perturbaram o comércio global.
A atuação pessoal do presidente Trump também se manifestou no novo quadro condicional para a obtenção de empréstimos por meio do Fundo Monetário Internacional (FMI). Na Argentina, Trump apoiou abertamente o partido de Javier Milei nas eleições intermediárias de 2025, sob a ameaça de cancelar um pacote de ajuda econômica de US$ 20 bilhões por meio do FMI. Os EUA também pressionaram o FMI a conceder empréstimos ao Equador (US$ 6,5 bilhões) e a El Salvador (US$ 2 bilhões), solidificando laços com aliados estratégicos subordinados a esse novo esquema de endividamento hemisférico e ao modelo oligárquico neoliberal. Da mesma forma, Trump expressou apoio ao candidato conservador Nasry Asfura, do Partido Nacional, nas eleições hondurenhas de 2025 e pressionou a autoridade eleitoral a reverter os resultados desfavoráveis ao “seu candidato”, ameaçando retirar todo o apoio ao país centro-americano.
Enquanto isso, em meio aos bombardeios extrajudiciais dos EUA no Caribe, Trump perdoou Juan Orlando Hernández, o ex-presidente hondurenho que cumpre uma pena de 40 anos por tráfico de drogas e lavagem de dinheiro nos Estados Unidos.
Por fim, a quarta dimensão da intervenção geopolítica dos EUA pode ser vista nas alianças militares com governos subordinados que se alinharam ao Corolário Trump. O foco na migração e na segurança reflete a alarmante guinada fascista no paradigma interno dos EUA de fiscalização da imigração, conduzida por meio da CBP e do ICE.15De acordo com a(<)a href='https://www.aclutx.org/cbp-fatal-encounters-tracker/'(>) ACLU Texas(<)/a(>), até março de 2026, foram registradas 367 mortes no total, das quais 78 eram de menores de idade e 51 de cidadãos americanos ou residentes permanentes legais; 62 ocorreram durante a detenção; 16 foram causadas por policiais fora de serviço; 23 estavam relacionadas ao muro da fronteira; 119 resultaram de perseguições de veículos pela Patrulha de Fronteira; e 6 foram causadas por tiroteios transfronteiriços. Uma maior cooperação em matéria de segurança e uma presença reforçada das forças armadas dos EUA ficaram evidentes na já mencionada Conferência das Américas contra os Cartéis e na iniciativa “Escudo das Américas”.16De acordo com o mais recente(<)a href='https://www.southcom.mil/Portals/7/Documents/Posture%20Statements/2025_SOUTHCOM_Posture_Statement_FINAL.pdf?ver=5L0oh0wyNgJ2_qzelc6wKQ%3d%3d'(>) Relatório do SOUTHCOM(<)/a(>) sobre Segurança Hemisférica, um montante regional consolidado de US$ 985 milhões foi alocado entre 2021 e 2024 durante o governo Biden.
As alianças mencionadas têm origem em uma longa história de imperialismo e intervenção militar dos Estados Unidos no hemisfério. Sob pressão tarifária, o México concordou em cooperar com os EUA em relação a ações militares contra os cartéis de drogas. Embora o governo mexicano tenha procurado preservar a soberania territorial e o controle sobre a segurança nacional, ele tem cedido gradualmente à pressão dos EUA. Em fevereiro de 2025, o governo de Claudia Sheinbaum atendeu imediatamente ao pedido do governo dos EUA de reforçar a segurança da fronteira norte, mobilizando 10 mil membros da Guarda Nacional e do Exército, além dos 32 mil membros da Guarda Nacional já designados para tarefas de imigração. Enquanto isso, entre 2025 e 2026, o México transferiu mais de 90 líderes do tráfico de drogas para os Estados Unidos sem um processo de extradição.
Ao sobrepor mapas de mobilização político-militar, expansão comercial dos EUA e acesso a recursos naturais, podemos ver a disputa geopolítica que impulsiona a projeção de poder dos EUA. Sob esse quadro hemisférico, cada território subsequente se torna um campo de batalha.
Criatividade anti-imperialista
Esta quinta etapa do imperialismo norte-americano não apenas reaviva antigos mecanismos de dominação, mas também põe à prova os marcos de referência através dos quais a América Latina historicamente concebeu sua emancipação. A criatividade política e intelectual não pode limitar-se a denunciar o intervencionismo. Pelo contrário, exige uma releitura estratégica da longa tradição latino-americanista, que, longe de ser um repertório nostálgico, constitui um campo vivo de produção teórica e prática.
O anti-imperialismo de hoje deve ser atualizado diante de novas formas de poder: financeirização coercitiva, extrativismo expandido, militarização orientada pela segurança e a captura social das plataformas digitais. A tradição anti-imperialista que se estende de Bolívar e Martí até as experiências mais recentes de cooperação latino-americana sugere que a unidade não é um dado adquirido, mas uma construção repleta de conflitos. Exige vontade política organizada, coesão social e uma imaginação institucional inovadora que defenda o multilateralismo.
O pan-americanismo dominado pelos EUA hoje é claramente incapaz de oferecer um quadro legítimo para a cooperação hemisférica. O que foi historicamente apresentado como um modelo de integração tornou-se um mecanismo de subordinação seletiva, agora radicalizado sob a “Doutrina Donroe”. Isso levanta questões fundamentais: como podemos construir um horizonte anti-imperialista ao nos depararmos com uma nova forma de imperialismo—que se manifesta não apenas por meio da ocupação territorial, mas também por meio de redes financeiras, plataformas digitais e cadeias de abastecimento globais? O que significa “Nuestra América” hoje?

“Nuestra América” não pode ser reduzida a um imaginário abstrato baseado em identidade. Deve, ao contrário, ser traduzida em projetos concretos de integração, justiça social e soberania. A CELAC é o melhor exemplo disso. Além disso, as posturas de distintos governos latino-americanos revelam diferenças nas concepções estatais de criatividade anti-imperialista. Nicolás Maduro, Gustavo Petro, Claudia Sheinbaum e Luiz Inácio Lula da Silva denunciaram, em diferentes graus, o retorno da lógica intervencionista hemisférica dos Estados Unidos. Essas posições ajudam a manter viva uma crítica governamental ao imperialismo e a afirmar uma visão de hemisfério que pertence a todos nós.
A unidade, também, não pode mais se limitar a alianças entre Estados. Ela deve representar um movimento entre os povos e as lutas populares, incluindo aquelas lideradas por grupos indígenas e afrodescendentes. O Manifesto de Caracas de 2025, movimentos transnacionais como a caravana de solidariedade “Nuestra América” contra o bloqueio energético a Cuba em 2026 e mobilizações contra intervenções militares são expressões da criatividade anti-imperialista na sociedade civil.
Essas práticas não apenas contestam a imaginação imperial, mas também conectam as lutas locais com horizontes globais de resistência popular anti-imperialista e antifascista. O desafio central dessa criatividade anti-imperialista renovada é articular um projeto capaz de confrontar o imperialismo em transformação. Nessa tensão entre memória e reinvenção, entre fragmentação e unidade, reside a possibilidade de um novo ciclo histórico para a Nuestra América.
Tradução: Hugo Fanton
Leia mais
Guerras do petróleo
Entrevista com o ex-ministro de Energia da Venezuela
Análise dos recursos energéticos da Venezuela como terreno de disputa, das nacionalizações de Chávez ao sequestro de Maduro.
The Bolivarian Hypothesis
An interview with Roy Daza
Venezuela's ruling party is seeking to implement its "Seven Transformations" program amid intense pressure from the United States and an unfavorable regional balance of power.
Matrices of Empire
Explaining the assault on Venezuela
Washington's campaign to weaken Chinese influence in Latin America is crucial context for its abduction of Maduro. Will its aggression backfire?