edição 1, junho de 2026

Análises

Poder Americano

O mercado da soberania

O Brasil reivindica seu lugar em um mundo multipolar

Lygia Pape, Tecelar (Weavings), 1958.

Em 2025, Brasil e Estados Unidos protagonizaram um inédito incidente diplomático. Uma série de medidas coercitivas impostas por Donald Trump à maior economia da América Latina inaugurou meses de tensão entre os países. As ações incluíram tentativas de interferência política, sanções contra autoridades e revogação de vistos de membros do Executivo e do Judiciário, além da mais expressiva: o tarifaço de 50% contra produtos brasileiros exportados aos EUA. O que pretendia ser uma demonstração de força econômica e um exercício aberto de hegemonia, no entanto, viria a expor as rachaduras que ameaçam os pilares do império. As idas e vindas da agressão comercial contra o Brasil ilustram o equívoco da estratégia trumpista.

Os possíveis impactos das tarifas sobre o desempenho econômico do Brasil causaram forte temor inicial e reação midiática explosiva. Mesmo assim, Lula não cedeu às ameaças de Trump. O que se seguiu foi um rápido ciclo acomodatício, marcado pela compensação da queda nas exportações para os EUA pela reorientação para outros mercados. Em vez de imposição imperial, a investida estadunidense e a reação brasileira apontam na direção oposta: a debilidade do exercício de poder pela potência hegemônica global na região que, segundo sua própria Estratégia de Segurança Nacional, está submetida à “doutrina Donroe”. As tarifas falharam econômica e politicamente: em 2025, as exportações brasileiras bateram recorde, Bolsonaro foi preso pela trama golpista e o Brasil não foi submetido à tutela de Washington.

O descompasso entre expectativa e realidade na agressão de Trump exige repensar o lugar do Brasil nas dinâmicas geopolíticas globais. A investida ocorreu em uma conjuntura bastante distinta de outros episódios de pressão comercial (e militar) dos EUA na região. Nas últimas três décadas, as relações internacionais do Brasil mudaram significativamente. O período democrático foi marcado pelo apoio ao multilateralismo, incentivo à integração regional e cooperação com outros países do Sul global. No comércio, a China tomou a posição dos EUA como principal parceiro econômico, a Ásia e o Mercosul ganharam destaque como destino de exportações e o país adotou uma estratégia ativa e consistente de diversificação de parceiros. Nesse contexto, o tarifaço acelerou uma reorientação que já estava em curso, reforçando a capacidade do Brasil de absorver choques externos sem convergir para Washington e aproximando o país de parceiros mais estáveis, antigos e novos.

Três décadas de comércio exterior

A economia brasileira foi profundamente transformada desde a redemocratização. A ditadura militar havia promovido um processo de industrialização financiado por endividamento externo e marcado por protecionismo, forte concentração de renda e repressão às classes trabalhadoras. As vitórias eleitorais de Fernando Collor em 1989 e de Fernando Henrique Cardoso em 1994 e 1998 promoveram uma inflexão na agenda econômica e alinharam o país ao programa neoliberal. O período registrou uma acelerada abertura comercial, um amplo programa de privatizações e incentivos ao capital estrangeiro, além da adoção de um plano de estabilização monetária para responder ao rescaldo inflacionário da ditadura. Em conjunto, esses eventos expuseram a indústria nacional a novas vulnerabilidades. A valorização cambial barateou importações e a abertura comercial ampliou significativamente a concorrência. O país perdeu o dinamismo econômico anteriormente alcançado e passou a registrar déficits comerciais.

A isso somou-se a entrada da China no comércio internacional. Nos anos 2000, a alta significativa dos preços de commodities afetou positivamente o comércio exterior brasileiro: a riqueza em recursos naturais e terras cultiváveis e a necessidade de recomposição da balança comercial consolidaram o Brasil como fornecedor-chave. Ironicamente, a adoção do Consenso de Washington nos anos 1990 abriu espaço para a ascensão da parceria com a China na década seguinte. A partir de 2001, o Brasil voltou a registrar superávits comerciais.

Mas as mudanças no perfil produtivo brasileiro implicaram mais do que uma nova era de protagonismo da China na balança comercial: nas últimas duas décadas, o comércio exterior do país passou por um verdadeiro giro, marcado também pelo declínio da importância dos EUA e outros países do G7 e pela ampliação significativa das relações com outras partes do mundo. A transição do eixo comercial do Atlântico para o Pacífico e a busca ativa por novos mercados tiveram particular destaque ao longo dos governos liderados pelo Partido dos Trabalhadores, sob a agência de uma política externa “ativa e altiva”.

Em outras palavras, entre 1990 e 2025, houve uma mudança estrutural na inserção internacional do Brasil. Em 1990, os EUA eram o destino de quase um quarto de tudo o que o Brasil exportava em valor—24,6%—, enquanto a China absorvia apenas 1,2%. Dez anos depois, em 2000, o quadro ainda era basicamente o mesmo: os EUA lideravam com 24,3% e a China respondia por 2% do total exportado. No final da primeira década do século XXI, o cenário se inverteu.

Em 2010, a participação da China saltou para 15,3%, ultrapassando a dos EUA, cuja parcela caiu para 9,7%. Os anos seguintes consolidaram essa tendência: em 2015, a China já havia atingido uma participação de 18,8% nas exportações e, em 2025, figurava como destino dominante dos produtos brasileiros no mundo, com quase 29% do total. A parcela das exportações com destino para os EUA, por sua vez, foi de 12,9% em 2015, 12% em 2024 e, em 2025, após o tarifaço, caiu para 10,8%. Os dados do Comtrade/ONU revelam também o crescimento das relações comerciais com outros parceiros ao longo do período.

Não houve simplesmente uma “guinada” do Brasil para a China. O boom de commodities elevou a demanda global como um todo, e vários países passaram a importar mais do Brasil: em 1990, as exportações tinham 161 destinos; em 2000, o número aumentou para 201; e, em 2025, foram registrados 215 compradores. Superar os 200 destinos significa que o Brasil se relaciona com quase todo o universo de parceiros econômicos reconhecidos internacionalmente, o que inclui, além de Estados soberanos, territórios independentes e zonas aduaneiras separadas.

A ascensão da China na pauta exportadora esteve diretamente relacionada à tomada da posição anteriormente ocupada pelos EUA e por outros membros do G7, como Japão, Alemanha e Itália. O gráfico abaixo, que compara as exportações do Brasil para diferentes destinos em 1990, 2000 e 2025, ilustra esse movimento. A evolução temporal da participação dos dez maiores compradores e do “resto do mundo” no total das exportações do Brasil indica, ainda, a virada do Atlântico para o Pacífico e o crescimento da importância da América Latina.

Em meados dos anos 2010, a desaceleração da China, a queda dos preços internacionais e a crise interna no Brasil reduziram o valor das exportações, comprimiram as importações e levaram à perda de participação relativa do país no comércio global. Mas esse choque foi compensado por uma estratégia diplomática e comercial ativa, com o Brasil buscando novos mercados no Oriente Médio, no Sudeste Asiático, na África e na própria América Latina. Desde a pandemia e o início da guerra na Ucrânia, a demanda por produtos brasileiros registrou um aumento significativo. O perfil geopoliticamente mais neutro do país e o movimento global de proteção de cadeias de suprimento fizeram com que o Brasil emergisse como um fornecedor seguro em um cenário cada vez mais instável.

A defesa brasileira do “não alinhamento ativo” e de organismos e sistemas multilaterais de comércio, portanto, encontra lastro econômico na redução da dependência comercial em relação ao centro hegemônico do capitalismo global e na capacidade de absorção de choques em relações bilaterais por meio da expansão do comércio para outros lugares. Para além da dependência em relação à China, que responde atualmente por quase um terço do total das exportações, o Brasil soube navegar em um mercado global mais fragmentado, ampliando as parcerias em número e escopo geográfico.

O vaivém das tarifas

Desde a campanha para o segundo mandato, as tarifas ocuparam um lugar central no discurso de Donald Trump sobre política externa. Se a promessa já era incongruente—a guerra comercial promovida por Trump em seu primeiro governo, de alcance muito menor, mostrou que as tarifas foram quase integralmente repassadas aos importadores e consumidores estadunidenses—, a execução se mostrou caótica. Em fevereiro de 2025, no mesmo ato em que impôs uma sobretaxa de 10% à China, o presidente anunciou tarifas de 25% contra o México e o Canadá, ambos signatários do USMCA, acordo negociado pelo próprio Trump em 2018. Mas o passo seguinte da nova política comercial seria ainda mais disruptivo.

Em 2 de abril de 2025, Trump anunciou, com fanfarra, o “Dia da Libertação”. Foi como se o programa The Price is Right tivesse chegado a Washington, reportou o Guardian. Uma questionável retórica sobre déficits comerciais justificou a imposição de uma tarifa de 34% à China, 20% à União Europeia e 46% ao Vietnã. A medida entraria em vigor em uma semana. Mas, na manhã de 9 de abril, Trump anunciou a suspensão das tarifas por 90 dias, período no qual todos os exportadores estariam sujeitos à taxa de 10%. Nascia, assim, o empreendimento de “90 acordos em 90 dias”: o governo do republicano narrou a primeira “amarelada” tarifária como uma estratégia de pressão para que os países afetados firmassem acordos bilaterais favoráveis aos EUA. Decorridos os noventa dias, em 9 de julho de 2025, a manobra já se mostrava essencialmente falha (mesmo no fim de 2025, o sucesso ainda era questionável). A Casa Branca, então, arriscou um terceiro plano: o das “cartas tarifárias”.

O Brasil saiu praticamente ileso do Dia da Libertação, submetido apenas à alíquota universal de 10%. Com a sobretaxa de outros parceiros comerciais dos EUA, houve até quem apontasse para uma abertura de oportunidades para a economia brasileira, que poderia se valer da guerra comercial global para melhorar sua posição no mercado estadunidense. Alguns setores da economia chegaram a sinalizar uma potencial “vitória”: entre janeiro e junho de 2025, as exportações de café para os EUA cresceram 40%, enquanto as de carne dobraram. Café e carne ocupavam, respectivamente, o terceiro e o quarto lugar na lista de produtos brasileiros mais vendidos para o país.

O otimismo durou pouco: noventa dias depois, o cenário se inverteu. Em 9 de julho de 2025, a carta tarifária do Brasil foi entregue. Trump comunicou à Presidência brasileira que todas as exportações destinadas aos EUA seriam sobretaxadas em 40% a partir de 1º de agosto, totalizando um encargo de 50%. Tratava-se, então, da maior tarifa imposta em todo o mundo. Quaisquer supostas oportunidades criadas em abril foram suspensas. Em três meses, o Brasil passou de potencial vencedor da guerra tarifária a maior perdedor.

A particularidade do caso brasileiro não parou por aí. Desta vez, a principal justificativa das restrições comerciais era política, e não econômica: para Trump, o ex-presidente Jair Bolsonaro sofria perseguição da justiça brasileira. Para além do tarifaço, isso embasou medidas como a revogação de vistos para autoridades brasileiras e a sanção, com base na lei Magnitsky, contra Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e relator do processo que levaria Bolsonaro à cadeia pouco tempo depois.

Na carta de julho de 2025, Trump apresentou três motivos para a agressão comercial. Em primeiro lugar, falou da suposta “caça às bruxas” contra Bolsonaro. Em seguida, mencionou a ameaça do Brasil às “eleições livres” e à “liberdade de expressão” do povo estadunidense—o texto rotulava medidas regulatórias de redes sociais como “ordens de censura”. O terceiro motivo, enfim, dizia respeito à relação comercial entre os países que, de acordo com Trump, estaria “longe de ser recíproca”.

Imediatamente, Lula divulgou uma nota afirmando que “o Brasil é um país soberano com instituições independentes” e que o processo contra os envolvidos na tentativa de golpe de Estado de janeiro de 2023 era de competência exclusiva do Judiciário brasileiro. O documento desmentia, ainda, a alegação de que os EUA teriam um déficit comercial com o Brasil: de acordo com a própria Casa Branca, desde 2008, a balança comercial entre os dois países é favorável aos Estados Unidos.

A inédita motivação política para as tarifas recebeu, num primeiro momento, maior atenção. Na ocasião, Paul Krugman questionou o efeito da medida: “as exportações para os EUA representam menos de 2% do PIB do Brasil. Será que Trump realmente imagina que pode usar tarifas para intimidar uma nação gigantesca, que nem sequer depende muito do mercado americano, a ponto de levá-la a abandonar a democracia?”

Mas o tema econômico passou logo a dominar as discussões. Representantes da indústria nacional defenderam a negociação da suspensão do tarifaço, ressaltando a interdependência dos mercados dos países. Entidades empresariais dos EUA, não à toa, juntaram-se ao pleito: quem efetivamente suporta o ônus são os importadores dos EUA, que repassam os custos aos consumidores do país. A US Chamber of Commerce destacou que “mais de 6.500 pequenos negócios nos Estados Unidos dependem de produtos importados do Brasil, enquanto 3.900 empresas americanas investem no país. O Brasil é um dos dez principais mercados para as exportações dos Estados Unidos e o destino de aproximadamente US$ 60 bilhões em bens e serviços americanos todos os anos”.

Inicialmente, havia esperança de que o Brasil conseguiria adiar a data de início das tarifas. No final de julho, no entanto, a equipe de Lula passou a lidar diretamente com a possibilidade de não haver acordo. Um fundo temporário de crédito para os setores afetados começou a ser desenhado. O Ministério da Fazenda anunciou um plano de contingência e o governo declarou que trabalharia para diversificar ainda mais os parceiros comerciais e fortalecer o multilateralismo. Lula reafirmou estar aberto ao diálogo: “se Trump quiser, a nossa relação será a melhor possível”.

“Trump fez Lula great again”

Para a população estadunidense, a decisão de Trump de elevar o preço das importações brasileiras foi inoportuna. Antes mesmo da tarifa de 50% entrar em vigor, o mercado interno dos Estados Unidos já sentia o impacto inflacionário em produtos que integram a cesta de consumo da maioria das famílias: café e suco de laranja. Em 2024, o Brasil forneceu mais da metade de todo o suco de laranja comercializado nos EUA e 30% dos grãos de café importados pelo país. O anúncio de Trump fez com que o preço de ambas as commodities disparasse no mercado interno. Na semana seguinte ao envio da carta ao Brasil, os preços do suco de laranja congelado para entrega futura já haviam subido 10% e os do café, 6%. 

Politicamente, naquele momento, Lula foi quem mais se beneficiou. Desde o boom de commodities, a pauta exportadora do país não fazia tão bem para a imagem do presidente. “Trump fez Lula great again”, afirmou um colunista da Veja, revista notoriamente conservadora. Pesquisas de opinião confirmaram os ganhos.1A Atlas/Bloomberg, realizada entre 11 e 13 de julho, (<)a href='https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2025/07/15/aprovacao-de-lula-cresce-acima-da-margem-atlas.htm'(>)revelou(<)/a(>) um crescimento da aprovação e uma redução da desaprovação do presidente em relação ao mês anterior. A Genial/Quaest, realizada entre 10 e 14 de julho, (<)a href='https://www1.folha.uol.com.br/poder/2025/07/quaest-avaliacao-de-lula-tem-oscilacao-favoravel-agora-com-40-de-negativo-e-28-de-positivo.shtml'(>)apontou(<)/a(>) no mesmo sentido. Nos termos do Washington Post, “o Papai Noel chegou mais cedo para Lula, e o presente foi enviado por Trump”. Enquanto setores progressistas se uniram ao redor de Lula, na oposição, o efeito não poderia ter sido pior. Chamadas como “reação a Trump amplia racha de aliados de Bolsonaro” e “Trump expõe custo de Bolsonaro para a direita” foram publicadas repetidas vezes nos principais veículos de mídia do país. As pesquisas de opinião também apontaram o impacto negativo do tarifaço entre eleitores da direita. Nos EUA, a atitude de Trump foi desaprovada pela opinião pública.

A opção de Lula por não ceder e buscar o diálogo foi bem-sucedida. O primeiro sinal veio já na ordem executiva de 30 de julho de 2025, que formalizou a aplicação do tarifaço sobre o Brasil, mas incluiu uma lista de 694 exceções que contemplava 43,3% das exportações brasileiras. Produtos como combustíveis, minérios, aeronaves civis e fertilizantes foram poupados do tarifaço.

A tensão diplomática poderia atingir o ápice em setembro, quando o STF julgaria a trama golpista. No dia 11 daquele mês, Bolsonaro foi condenado a 27 anos e três meses de prisão. Caiu por terra o que havia sido, de acordo com Trump, o objetivo maior da adoção das tarifas. Mas, em vez de um recrudescimento das relações, o que se viu foi uma inflexão estadunidense.

Em 23 de setembro, durante a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Trump relatou em seu discurso a “ótima química” que sentiu ao se encontrar rapidamente com Lula nos bastidores. No dia 6 de outubro, os dois se falaram por telefone e iniciaram negociações formais para o alívio das tarifas. Em 20 de novembro, após uma reunião entre Mauro Vieira e Marco Rubio em Washington, a lista de isenções à sobretaxa de 40% foi ampliada: um adicional de 269 produtos retornou ao patamar-base de 10%, incluindo café, suco de laranja e carne. Na ocasião, o New York Times anunciou: “O Brasil desafiou Trump e venceu”.

Um novo desdobramento, de alcance global, ocorreu em fevereiro de 2026, quando a Suprema Corte dos EUA declarou inconstitucional o uso da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA, na sigla em inglês) para a imposição de tarifas. A decisão derrubou o tarifaço, mas a resposta de Donald Trump foi imediata: amparando-se no Trade Act of 1974, o presidente instituiu uma nova tarifa global de 10%.2Enquanto este texto é editado, a batalha judicial segue, (<)a href='https://www.nytimes.com/2025/02/20/us/politics/supreme-court-trump-tariffs.html?searchResultPosition=1'(>)e novamente as tarifas foram derrubadas pela Suprema Corte(<)/a(>).

O cenário voltou a se assemelhar ao de abril de 2025, com o Brasil em vantagem na comparação global. Os produtos sobretaxados em 40% agora estariam sujeitos apenas aos 10% globais. Mas a lista de isenções às exportações brasileiras, que inclui itens importantes na pauta exportadora do Brasil para os EUA, como petróleo, combustíveis, minérios e aeronaves civis, seguiu vigente. Enquanto aliados como o Japão e a União Europeia entraram em um limbo comercial por terem cedido ao acossamento trumpista e fechado acordos bilaterais desfavoráveis, o Brasil recuperou a competitividade em relação aos concorrentes sem aceitar nenhuma das exigências de Trump.

O vaivém de um ano de tarifaço revela elementos econômicos e políticos centrais das relações internacionais na fase atual do capitalismo global. O declínio da importância dos EUA na pauta exportadora do Brasil explica a limitação dos efeitos da política tarifária de Trump sobre a balança comercial da maior economia da América Latina. Longe de submeter o Brasil a seus interesses, Trump acelerou ainda mais essa tendência. A leitura dos dados do comércio exterior brasileiro não apenas corrobora essa hipótese, como sugere um reposicionamento mais amplo do país, que ultrapassa o aumento da participação chinesa e aponta para uma reconfiguração profunda da sua inserção na economia global.

O mundo como alternativa

Apesar do tamanho e da importância como fornecedor mundial, o Brasil tem uma economia bastante fechada. Em 2025, as exportações totais atingiram o recorde histórico de US$ 348,7 bilhões, um crescimento de 3,5% em relação a 2024. Ainda assim, representaram apenas cerca de 17% do PIB do país, um patamar baixo para parâmetros internacionais. Segundo o Banco Mundial, em 2024, as exportações responderam por 30% do PIB global, 25% do PIB da América Latina e 50% do PIB da OCDE.

O tarifaço teve impacto, é claro, sobre as exportações do Brasil para os EUA, que registraram em 2025 a maior queda desde a pandemia, com uma retração de 6,6% em relação ao ano anterior. Enquanto isso, as exportações para a China cresceram 6%, para a União Europeia 3,2% e para o Mercosul 26,6%. No primeiro trimestre de 2026, os EUA tiveram a menor participação da série histórica nas vendas brasileiras. O total em valor recuou 18,7% na comparação com o mesmo período de 2025.

Em 2024 e 2025, exportações do Brasil para os EUA não responderam por mais de 2% do PIB do país. A exposição da economia brasileira ao mercado estadunidense é limitada. Choques comerciais bilaterais podem ter impactos setoriais, mas tendem a não ter efeitos macroeconômicos significativos. O crescimento recorde das exportações no ano do tarifaço mostra como o principal impacto da agressão de Trump foi intensificar a estratégia de diversificação do Brasil.

A comparação do desempenho comercial do Brasil na primeira metade de 2025 (antes das tarifas) e na segunda (após as tarifas) ilustra esse movimento. Nos primeiros sete meses de 2025, as vendas para os EUA cresceram 4,8%; nos últimos cinco, tiveram variação negativa de 21,3%. Para a China, as exportações recuaram em 6,6% nos primeiros sete meses e aumentaram 29,8% nos últimos cinco. As exportações para outros destinos, especialmente para países da Ásia, da África e do Oriente Médio, também cresceram. As vendas para o Marrocos aumentaram 62% e para a Índia, 52,9%, por exemplo. O gráfico abaixo mostra as variações das exportações brasileiras para os EUA, a China e o mundo entre 2024 e 2025.

O tarifaço não afetou negativamente as exportações do Brasil. Ao contrário, o país se esquivou de potenciais perdas por meio de outros mercados. Entre agosto e dezembro, a China, sozinha, havia absorvido 37% do comércio impactado pela sobretaxa dos EUA. Grande parte desse volume teve relação com a substituição chinesa de commodities anteriormente importadas dos Estados Unidos. Em resumo, o rescaldo da guerra comercial de Trump contra o Brasil esteve longe de ser catastrófico. No plano doméstico, o governo brasileiro alcançou um grau incomum de coesão entre forças políticas e econômicas, a ponto de isolar a oposição de direita em torno do tema e garantir a Luiz Inácio Lula da Silva os mais altos índices de aprovação do ano. No plano externo, o país reafirmou a soberania nacional como princípio orientador de sua inserção internacional, algo que sequer as potências europeias conseguiram sustentar com a mesma consistência. Para os EUA, se um dos motores da “doutrina Donroe” era reduzir a relevância da China nas Américas, o tarifaço fez justamente o contrário.

É importante ressaltar que, apesar dos efeitos macroeconômicos terem sido amplamente amenizados, em alguns setores, a estratégia de compensar a queda nas exportações para os EUA pela diversificação de mercados não foi exitosa. Segundo o Icomex de março de 2026, “Entre os 28 setores analisados, 24 registraram recuo nas exportações entre o primeiro trimestre de 2026 e o de 2025. Entre esses, 15 registraram variação positiva nas exportações para o resto do mundo e recuaram nas vendas para os Estados Unidos, enquanto 9 registraram queda para os Estados Unidos e o mundo. Quatro setores aumentaram as vendas para os Estados Unidos”.3Os relatórios mais recentes da Ancham, que cobrem o comércio bilateral entre (<)a href='https://www.amcham.com.br/pesquisas-e-estudos/monitor-do-comercio-brasil-eua-janeiro-dezembro-2025?categoria=comerciointernacional'(>)janeiro e dezembro de 2025(<)/a(>) e j(<)a href='https://www.amcham.com.br/pesquisas-e-estudos/monitor-do-comercio-brasil-eua-janeiro-a-marco-2026?categoria=comerciointernacional'(>)aneiro a março de 2026(<)/a(>), oferecem mais detalhes sobre as dinâmicas setoriais desde o tarifaço.

O Brasil se esforçou para aliviar esses impactos setoriais. Um dos principais mecanismos foi a criação do programa Brasil Soberano, gerenciado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Trata-se de uma linha de financiamento destinada a exportadores impactados. Em 2025, os desembolsos totais da instituição atingiram R$ 169,7 bilhões, um crescimento de 27% em relação ao ano anterior. Desse montante, o Brasil Soberano foi responsável por R$ 19,5 bilhões—mais da metade do aumento—destinados a 676 empresas. Em 2026, uma nova linha de crédito de apoio a setores afetados por crises globais foi criada.

O sentido da soberania

O desfecho incerto da “era pós-Guerra Fria” e os resquícios cada vez mais frágeis do Consenso de Washington trouxeram a questão da soberania para o centro da política doméstica em todo o mundo, inclusive no Brasil. Apesar do favorecimento político que o ataque de Trump deu a Lula, muitos outros fatores incidem sobre o cenário político, e, embora a tentativa de intervir no julgamento de Jair Bolsonaro tenha fracassado, o bolsonarismo seguirá como principal adversário nas eleições de outubro. A polarização entre uma postura ativa e altiva e uma associação subordinada aos Estados Unidos voltará a se refletir nas urnas.

Na liderança da corrida eleitoral estão, de um lado, a extrema direita representada por Flávio Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente e igualmente entusiasta de Trump; de outro, o lulismo, em busca de mais um mandato presidencial com a plataforma de defesa da democracia e do multilateralismo. Flávio Bolsonaro já está tecnicamente empatado com Lula nas pesquisas de intenção de voto. Ainda que as reviravoltas no comércio internacional possam indicar que haveria base material para o apoio de variados setores da economia a Lula, outras questões estarão em jogo. A dominância financeira, os conflitos distributivos, as altas taxas de juros, os aumentos no custo de vida e os níveis elevadíssimos de endividamento familiar são algumas delas.

O vaivém político interno e externo indica que muito se passará até outubro. De todo modo, a análise dos impactos da política tarifária de Trump sobre a economia brasileira dá algumas pistas sobre o atual momento histórico. Primeiro, mais do que uma demonstração de força, a ofensiva comercial dos EUA ilustrou o declínio do poder imperial sobre o Brasil. Segundo, ainda que o crescimento da importância chinesa na balança comercial brasileira seja relevante, ele não explica sozinho a resiliência aos ataques dos EUA: o êxito vai além das relações bilaterais e aponta para a capacidade de operar fora de um eixo único de dependência.

O caso brasileiro sugere que a construção de uma ordem multipolar não depende exclusivamente da emergência de novas potências, mas também da ampliação da margem de manobra de países intermediários. O erro de cálculo de Washington não foi apenas econômico, mas geopolítico: ações coercitivas são cada vez mais limitadas em uma ordem internacional na qual potências médias conseguem resistir sem se alinhar. Nesse sentido, a defesa do multilateralismo não é simplesmente um artifício retórico da diplomacia brasileira. Ela tem base material no reposicionamento internacional do Brasil.

O que estará em jogo nas eleições deste ano não é apenas escolha entre dois projetos de governo, mas também entre duas formas de inserção internacional. A disputa eleitoral entre subordinação e multilateralismo se sustenta em condições materiais concretas, demonstradas didaticamente pelo episódio do tarifaço. A lição é que soberania não é um conceito abstrato, tampouco mera promessa eleitoreira. É, ao contrário, a efetiva capacidade de resistir, decidir e negociar sob pressão. E isso também estará em disputa nas urnas.

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