16 de janeiro de 2026

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Matrizes do império

Explicando o assalto à Venezuela

Após dar a ordem para o sequestro de Nicolás Maduro, Donald Trump declarou que os Estados Unidos planejam “governar” a Venezuela. “Não nos custará nada”, disse Trump,

porque o dinheiro que sai do solo é muito substancial… As empresas petrolíferas vão entrar. Elas vão gastar dinheiro. Vamos recuperar o petróleo que, francamente, deveríamos ter recuperado há muito tempo. Muito dinheiro está saindo do solo.

No passado, quando Washington afirmava agir em nome do humanitarismo, da democracia ou da liberdade, cabia a nós, economistas políticos, revelar os motivos ocultos, os interesses materiais por trás da propaganda da mídia. Agora, como escreveu TJ Clark, a própria hipocrisia política parece estar sob ameaça. Se a apropriação imperial de recursos é reconhecida abertamente, o que nos resta para analisar?

Na semana passada, grande parte do debate sobre o ataque dos EUA questionou se o petróleo era realmente o fator determinante. Alguns argumentam que a extração do pesado petróleo bruto da Venezuela seria muito cara e que, dada a situação atual do mercado e a improbabilidade de aumentos de preços em um futuro próximo, esse seria um investimento irracional para as empresas estadunidenses. Outros, por sua vez, observam que cerca de metade das reservas de petróleo da Venezuela não seriam tão pesadas quanto as do Cinturão de Orinoco e que nos campos petrolíferos das bacias de Maracaibo e Monagas ainda há potencial de “ganhos rápidos” para grandes empresas e prestadoras de serviços petrolíferos.

De qualquer forma, há muitos outros motivos plausíveis para a agressão dos EUA. Ela poderia ser concebida como uma apropriação de recursos não em sentido estratégico de longo prazo, mas como um ato pontual de extorsão para beneficiar atores específicos da coalizão de elite de Trump—saquear a Venezuela para pagar a espúria indenização reivindicada pela ConocoPhillips e pela ExxonMobil, por exemplo, ou para beneficiar as refinarias estadunidenses especializadas em petróleo pesado. Também se poderia ver isso como um espetáculo para o público interno: uma demonstração de força imperial para galvanizar a base MAGA e a direita latina, que há muito pressionam por uma mudança de regime patrocinada pelos EUA em Cuba e na Venezuela.

À medida que a situação na Venezuela evoluir nos próximos meses, é possível que tudo isso fique mais claro. Mas, por enquanto, a questão que quero levantar diz respeito à relação entre a operação militar e a política estadunidense de longa data de contenção da ascensão da China. Aqui, precisamos avaliar não apenas o impacto imediato do ataque, mas também o sinal de alerta que ele representa para toda a América Latina. Ao lado das tarifas e dos controles de investimentos estrangeiros e de exportações, a restauração da Doutrina Monroe pode ser vista como um novo pilar da estratégia anti-China que, desde a crise financeira de 2008, tem sido perseguida tanto por governos democratas quanto por republicanos. Embora o sequestro de Maduro pareça loucura para muitos, ainda podemos ver nele os contornos de um método.

Antes de abordarmos essa hipótese, porém, vale a pena dizer algumas palavras sobre a própria Venezuela. O objetivo desta coluna não é avaliar os pontos fortes e fracos dos governos bolivarianos. Há inúmeras razões para argumentar que as esperanças criadas pela ascensão de Hugo Chávez foram frustradas há muito e que os efeitos combinados das escolhas de Maduro e das sanções estrangeiras foram profundamente trágicos. Tampouco é preciso dizer que o ataque dos EUA só agrava a crise. O histórico fracassado de “mudanças de regime”, do Iraque ao Afeganistão, passando pela Líbia e por outros países, é prova disso. A própria Casa Branca tem falado muito mais sobre extrair petróleo venezuelano do que sobre libertar os venezuelanos, como se admitisse que as fantasias do governo Bush não podem mais ser sustentadas em 2026.

“Nosso hemisfério”

Três dias após o ataque a Caracas, o Departamento de Estado dos EUA publicou no Twitter uma foto em preto e branco de Trump com a legenda “ESTE É O NOSSO HEMISFÉRIO”. A sutileza e as nuances não fazem parte do vocabulário da atual gestão do país. Isso não é surpresa para quem leu a Estratégia de Segurança Nacional da Casa Branca, divulgada em novembro passado, que menciona um “Corolário Trump” à Doutrina Monroe. Esta última foi, como se sabe, apresentada em 1823—quando a América Latina passava por processo de descolonização—, e afirmava que a intervenção de potências estrangeiras em qualquer parte do hemisfério era uma ameaça à segurança dos EUA. Embora não tenha sido aplicada até o final do século XIX, a partir de então foi usada para justificar todo tipo de intervenção violenta no Panamá, em Cuba e em países que sofreram golpes militares apoiados pela CIA nas décadas de 1960 e 1970, entre outros. A própria Venezuela foi alvo de tentativas fracassadas de mudança de regime em 2002 e em 2019.

A Estratégia de Segurança Nacional de Trump afirma que a Doutrina Monroe deve ser revitalizada “após anos de negligência”. Um de seus objetivos declarados é desencorajar a “migração em massa para os Estados Unidos”. Outro é expulsar a China da América Latina: “queremos um hemisfério que permaneça livre de incursões estrangeiras hostis ou do controle de ativos essenciais e que apoie cadeias de abastecimento críticas; e queremos garantir nosso acesso contínuo a locais estratégicos importantes”.

O Corolário Trump também enfatiza a necessidade de colaboração entre Washington e os governos latino-americanos para combater os chamados “narcoterroristas, cartéis e outras organizações criminosas transnacionais”: daí as acusações forjadas de tráfico de drogas contra Maduro. Nos últimos anos, os governos de direita da região têm colocado cada vez mais organizações criminosas em listas de terroristas, tornando-as alvos legítimos para a intervenção dos EUA, em conformidade com a Convenção de Barbados. No Brasil, o filho mais velho de Bolsonaro sugeriu que gostaria de ver os EUA repetir, na costa do Rio de Janeiro, o bombardeio de barcos que promovem no Caribe. Se uma futura ação militar dos EUA quiser manter uma aparência de legalidade—mesmo que mínima—, ela certamente será justificada com base na nova legislação sobre narcoterrorismo.

China e América Latina

Não é uma fantasia trumpista dizer que a China, um “concorrente não hemisférico”, estabeleceu laços profundos com a América Latina nas últimas duas décadas. À medida que a China se tornou a fábrica do mundo, dominando as redes de produção do Leste Asiático, passou a depender de grandes quantidades de minerais, combustíveis e produtos agrícolas. O resultado foi um aumento no preço das commodities—o chamado superciclo das commodities—, que remodelou o papel de muitos países do Sul Global na divisão internacional do trabalho. A América do Sul, com sua propensão a exportar produtos primários, desempenhou um papel crucial nesse processo. 

Durante esse período, mesmo os países que mais haviam avançado no aumento da participação de produtos manufaturados nas exportações sucumbiram rapidamente ao extrativismo. Na década de 2000, em média, produtos manufaturados representavam 50% do total das exportações do Brasil, 35% da Colômbia e 32% do Uruguai. Se olharmos para as médias da década de 2010, vemos que esses números caíram para, respectivamente, 33% , 20% e 22% (Figura 1). Essa mudança significativa também pode ser observada nos dados sobre o destino das exportações (Figura 2). Para a América do Sul como um todo, a participação das exportações com destino à China subiu de cerca de 2% no final da década de 1990 para cerca de um quarto desde 2019, enquanto a participação com destino aos EUA caiu proporcionalmente. A América do Sul consolidou, assim, seu papel como fornecedora de bens de baixo valor agregado para redes de produção chinesas.

Quando analisamos commodities específicas, essa dinâmica fica ainda mais evidente. Em média, 53% das exportações mundiais de minério de cobre provêm da América do Sul desde 2004. A China importou pouco mais de 10% do total em 2000 e, em 2023, foi responsável por 62%. A participação da América do Sul nas exportações de minério de ferro vem diminuindo nos últimos anos, mas ainda representa mais de um quinto do total mundial; desde 2019, a China importa mais de dois terços de todo o minério de ferro comercializado internacionalmente. Os minerais que devem desempenhar um papel importante no desenvolvimento de tecnologias de energia renovável—lítio, níquel e terras raras—também estão fortemente concentrados na América Latina. Como Helen Thompson observou, “a tentativa de revolução energética global está começando a se desenrolar como um conflito entre a China e os EUA pelos recursos metálicos no Hemisfério Ocidental”.

Voltando ao petróleo, a participação da América Latina está longe de ser insignificante (Figura 3). Em termos de barris, o nível de produção da região, quando combinado com o do Canadá e dos EUA, é praticamente igual ao do Oriente Médio—e ainda pode aumentar se a infraestrutura petrolífera venezuelana for reconstruída. Neste momento, não se pode garantir que a transição energética deixará o petróleo de lado, mas, mesmo que isso venha a acontecer, é provável que o petróleo continue sendo crucial para as operações militares de Washington. Como Javier Blas argumenta, ao controlar a produção nas Américas, os EUA podem ser capazes de romper a ligação entre as guerras no exterior e os preços internos dos combustíveis:

Por décadas, o aventurismo militar dos EUA foi restringido pelo impacto de qualquer guerra nos custos da energia. Hoje, a Casa Branca tem primazia sobre aliados e adversários produtores de petróleo—seja a Arábia Saudita ou o Irã, a Nigéria ou a Rússia. Os últimos 18 meses já mostraram o que essas novas riquezas de hidrocarbonetos significam para a política externa dos EUA. O governo Trump tomou medidas antes impensáveis: desde bombardear instalações nucleares iranianas até ajudar a Ucrânia a atacar refinarias de petróleo russas. Capturar Nicolás Maduro em seu esconderijo nos arredores de Caracas foi o exemplo mais chocante até agora do que acontece quando o petróleo não restringe mais o Pentágono.

Em meio às consequências da crise de 2008, a conexão entre a China e a América Latina foi além do comércio, passando a abranger finanças e infraestrutura, com um crescimento significativo do investimento direto chinês na região e a participação de empresas chinesas em vários projetos de construção. Um exemplo proeminente é o megaporto de Chancay, no Peru, que provavelmente impulsionará ainda mais os fluxos comerciais. Uma série de países latino-americanos também optou por tomar empréstimos chineses para evitar as condicionalidades normalmente impostas pelo Banco Mundial ou pelo FMI. Em 2018, a China convidou a América Latina a aderir à Iniciativa Cinturão e Rota (também conhecida como Nova Rota da Seda), envolvendo ainda mais a região em suas redes de diplomacia e finanças internacionais. A relação de Pequim com o Brasil, consolidada por meio de uma série de instituições do BRICS, faz parte desse quadro mais amplo.

Doux Commerce

O que motiva o envolvimento chinês na região? A China aderiu à OMC em 2001 e traçou uma estratégia de desenvolvimento que exigia a integração de sua economia no circuito do capitalismo global: uma decisão que foi bem recebida pelos responsáveis pela política externa dos EUA, que esperavam desencadear um processo inexorável de liberalização chinesa e subordinação à ordem global liderada pelos EUA. Essa suposição poderia ser interpretada como um resquício da antiga doutrina do doux commerce, associada a Montesquieu, segundo a qual o comércio “polia e suavizava os costumes bárbaros”. Os funcionários estadunidenses que negociaram a adesão à OMC impuseram condições extraordinariamente rigorosas, exigindo que a China “abrisse substancialmente seus mercados bancários, de seguros, de valores mobiliários, de gestão de fundos e de outros serviços financeiros”.

A reordenação do capitalismo global que se seguiu foi aceitável para os EUA, em grande parte, devido à dinâmica interna de consumismo impulsionado pelo endividamento. Em 2001, a economia dos EUA já havia passado por mais de uma década de desindustrialização, com a produção manufatureira se transferindo para a Ásia. Isso, ao lado do enfraquecimento dos sindicatos, teve o efeito de consolidação da estagnação salarial. Para tornar isso compatível com o que David Harvey chamou de “regra de ouro do consumismo sem fim”, foi necessário mobilizar as finanças: com exceção daqueles que estavam na base da pirâmide de renda, a maioria das famílias dos EUA conseguiu, por um tempo, continuar melhorando seus padrões de vida com a ajuda do endividamento. Além disso, o fluxo de produtos manufaturados baratos da China ajudou a manter a inflação baixa.

Isso durou até 2008, quando a crise financeira expôs a insustentabilidade do endividamento dos trabalhadores. A partir de então, aqueles com empregos precários—vivendo em cidades empobrecidas nos cinturões industriais dos Estados Unidos e lutando para pagar suas dívidas—começaram a sentir o custo da reestruturação da divisão global do trabalho. A piora da situação econômica foi logo seguida por epidemias de suicídios e de overdoses fatais, especialmente entre homens sem formação superior: um dos principais grupos perdedores no jogo da “globalização”. O cenário estava pronto para a ascensão de Trump. Investigações empíricas cuidadosas de David Autor e seus coautores mostram que as localidades mais afetadas pelo “choque da China” tiveram um papel decisivo nessa mudança política.

Com a ascensão de Trump à presidência em 2016, o culto ao livre comércio foi substituído pela guerra comercial e tecnológica contra a China. Essa não foi uma mudança efêmera. O governo Biden intensificou as medidas comerciais e as tornou a pedra angular do que chamou de“política externa para a classe média”. Dois outros eventos consolidaram essa transição. O primeiro foi a Covid-19, que desorganizou as cadeias de abastecimento e empurrou a discussão política para a necessidade de maior resiliência nacional. O segundo foi a invasão da Ucrânia pela Rússia, particularmente seus efeitos nos mercados europeus de energia. Nesse ponto, até mesmo os defensores mais comprometidos com o laissez-faire ouviram o alerta. Em 2022, a revista The Economist argumentou que “a guerra da Rússia mostra que as cadeias de abastecimento precisam ser redesenhadas para impedir que países autocráticos intimidem os liberais”. Havia uma tensão, como eles colocaram, entre o livre comércio e a liberdade. A desilusão com o doux commerce era generalizada.

Um dos pilares da política externa de Washington na última década foi a proibição da exportação de tecnologia dos EUA para a China, impedindo empresas estadunidenses de fazer negócios com várias contrapartes chinesas e restringindo a venda de determinados produtos de alta tecnologia (Seans Starrs e Julian Germann ofereceram uma descrição detalhada dessas medidas). As recentes negociações sobre chips da Nvidia são a última manifestação desse processo, que começou com a Lei de Reforma de Controle de Exportações de 2018. No entanto, essa abordagem agora está enfrentando um problema: uma vez que se compromete a capacidade de produção da China para tentar impedir sua ascensão, é preciso encontrar fontes alternativas de produtos importados. Aqui entra a reformulação das cadeias de abastecimento e toda a discussão sobre reshoring e friendshoring. Mas, entre os muitos obstáculos a essa reorganização, está o fato de que a maioria dos recursos naturais do mundo está sendo vendida e refinada pela China. Isso, por sua vez, nos leva de volta à América Latina e ao interesse dos EUA em controlar seus recursos.

Hegemonia frágil?

Após o ataque a Caracas, parece que os EUA estão ansiosos para realizar sua próxima demonstração de poderio militar, voltando as atenções para a Groenlândia e, talvez, para o Irã. Independentemente de Trump levar adiante seu plano de “governar” a Venezuela, considero que o contexto geopolítico mais amplo indica que a lógica da rivalidade imperial é extremamente importante neste caso. A hipocrisia está em declínio; o imperialismo descarado parece estar de volta. A Venezuela foi a primeira na mira; Colômbia e Cuba podem ser as próximas. As eleições presidenciais que se aproximam na região—Peru, Colômbia, Brasil—podem apresentar a Trump novas oportunidades de afirmar o domínio hemisférico, talvez através dos mesmos métodos de interferência financeira que utilizou nas eleições argentinas do ano passado.

Se o retorno da Doutrina Monroe ajudará a reordenar as cadeias de abastecimento globais, no entanto, é outra questão. Os EUA estão cientes de suas fraquezas econômicas—tanto em recursos quanto em certas tecnologias essenciais—e parecem inclinados a compensá-las exibindo poderio militar. No entanto, no quarto de século desde que a China aderiu à OMC, desenvolveram-se profundas interdependências entre o Ocidente e o Oriente, e os esforços para desmantelá-las podem facilmente provocar um efeito contrário ao desejado. A volatilidade das tarifas de Trump é, em parte, um sinal dessa dificuldade. 

Outros atores também não vão simplesmente ficar parados. Sob pressão crescente, a China está fortalecendo o controle sobre as exportações de minerais essenciais. Quando Trump impôs tarifas ao Brasil, em retaliação à persecução penal de Bolsonaro, Lula se manteve firme e os EUA acabaram recuando, provavelmente devido ao risco de que as tarifas aumentassem os preços internos do café e da carne e, ao mesmo tempo, empurrassem o Brasil ainda mais para perto da China. No caso da Venezuela, a extorsão dos EUA à mão armada torna a resistência mais difícil. Ainda assim, parece que a coerção, por si só, não é uma forma infalível de vencer o conflito entre grandes potências.

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