9 de janeiro de 2026
Análises
Regime de controle
A linha-dura da imigração nos EUA
Em 30 de setembro do ano passado, centenas de agentes federais invadiram um complexo de 130 apartamentos no bairro de South Shore, em Chicago. Armados com rifles, os policiais desceram de um helicóptero Black Hawk, lançaram bombas de efeito moral, arrombaram portas e arrastaram os moradores para fora de seus apartamentos, amarrando-os com lacres plásticos e detendo uma parte deles por horas a fio. A operação, que supostamente tinha como alvo um reduto da gangue venezuelana Tren de Aragua, resultou na prisão de 37 pessoas, em sua maioria imigrantes venezuelanos. Imagens dramáticas foram postadas nas redes sociais pelo Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês), acompanhadas de uma legenda que ameaçava: “A todos os criminosos estrangeiros ilegais: a escuridão não é mais seu refúgio. Nós vamos encontrá-los”. Mais tarde, o DHS admitiu que apenas dois dos presos realmente integravam qualquer organização criminosa.
A operação em South Shore é um microcosmo do novo regime imposto pela linha-dura da imigração no DHS, no Departamento de Justiça e na Casa Branca. As comunidades visadas por essa ofensiva conhecem bem seus traços característicos, da força indiscriminada ao abandono do devido processo legal e das alegações vazias de criminalidade à violência teatralizada. As consequências desse tipo de tática também são amplamente documentadas: um veterano atacado e arrastado para um escritório de campo do ICE em Portland; a candidata ao Congresso Kat Abughazaleh derrubada no chão do lado de fora de uma unidade de processamento migratório em Chicago; um cidadão mexicano morto a tiros ao tentar se afastar de agentes do ICE; um homem de 79 anos imobilizado com uma “gravata” por agentes da Patrulha de Fronteira; o controlador da cidade de Nova York, Brad Lander, e o prefeito de Newark, Ras Baraka, presos por agentes do ICE sob falsos pretextos. E agora, no início de janeiro, o assassinato brutal de Renee Nicole Good em Minneapolis, seguido pelas tentativas do governo Trump de difamá-la como uma “terrorista doméstica”; e o de Alex Pretti, que foi morto a tiros na mesma cidade enquanto protestava contra a onda de repressão estatal.
Ao lado da repressão e das operações de choque do ICE, varreduras mais rotineiras também vem sendo realizadas, nas quais algoritmos de reconhecimento facial e caprichos dos agentes de rua—em vez do status legal, dos documentos de identificação ou do processo judicial—decidem cada vez mais quem é detido e deportado. Com a oposição pública à agência atingindo seu auge em muitas cidades, vale a pena parar para perguntar se esse espetáculo aterrador representa algo realmente novo. De uma perspectiva, o atual regime de fiscalização reflete métodos de longa data da política dos EUA, acentuados pela Guerra Global ao Terror, incluindo a interiorização da fronteira no território continental dos EUA, o policiamento racializado, o uso da deportação contra inimigos ideológicos e as frequentes invocações de emergências ou estados de exceção mal definidos.
No entanto, esses mesmos métodos foram transformados nas últimas décadas por culturas organizacionais de extrema direita operando dentro do Estado. O segundo governo Trump aproveitou para construir uma força policial doméstica onipotente, sediada no DHS e dotada de recursos enormes, destinados pela lei orçamentária “One Big Beautiful Bill”. Ao reconfigurar as linhas de autoridade e distorcer as funções das agências, esse aparato lança um desafio existencial à ordem vigente que regula os direitos dos não cidadãos, ao mesmo tempo em que transforma a própria cidadania em uma categoria mais flexível. Como devemos entender a mais recente mutação no aparato de segurança interna criado pelo governo Bush, ampliado por Obama e preservado por Biden? Que dinâmicas institucionais estão impulsionando a escalada da guerra contra os migrantes?
Para responder, devemos primeiro examinar o programa migratório de Trump até agora: em que medida o arcabouço existente foi remodelado por esse recente aumento das detenções e deportações? Em seguida, podemos analisar como as próprias agências prepararam o terreno para esse projeto ao longo das décadas anteriores, à medida que se transformaram em atores fora de controle organizados em sindicatos cada vez mais radicalizados—contribuindo, assim, para o avanço da extrema direita em nível nacional.
Ofensiva no interior
A primeira medida do governo na transformação do policiamento federal envolveu a remoção sistemática das barreiras legais e institucionais à aplicação da lei de imigração. Ações do Executivo desmantelaram agências de fiscalização, expuseram dados e espaços confidenciais às autoridades de imigração, expandiram a remoção “acelerada” e desconsideraram a aplicação do devido processo legal até mesmo para residentes legais e cidadãos estadunidenses. Milhões de pessoas se tornaram inelegíveis para audiências de fiança e asilo, enquanto o status de proteção temporária (TPS, na sigla em inglês) foi revogado para um grupo após o outro. Essas medidas vieram acompanhadas de uma ruptura com a tendência, vigente havia quinze anos, de afastamento da fiscalização do interior do país. O ICE agora desviou sua atenção da fronteira entre os EUA e o México para as grandes cidades, aumentando a taxa de prisões internas a um ritmo alarmante. Dados do governo mostram que o ICE caminha para deportar mais de 300 mil não cidadãos em 2026.1Muitos comentaristas têm observado que os dados governamentais recentes devem ser considerados pouco confiáveis e difíceis de verificar. Aaron Reichlin-Melnick, do National Immigration Council, aponta que um comunicado do DHS divulgado em dezembro, que alardeia 605 mil “deportações” desde janeiro, está artificialmente inflado por retornos administrativos na fronteira e por saídas autodeclaradas via aplicativo CBP Home—nenhum dos quais constitui uma “remoção” formal. Ainda assim, um número mais realista apresentado em um relatório de agosto sugere que as remoções no primeiro ano de Trump já superaram amplamente a média anual de 218 mil remoções no interior do país durante o primeiro mandato de Obama.
Esses ataques institucionais foram complementados por investimentos maciços no aparato de fiscalização doméstica. No verão passado, o mais importante marco legislativo da gestão de Trump destinou a impressionante quantia de US$ 171 bilhões para fiscalização da imigração até 2029. Uma olhada nos itens da lei revela a escala do investimento: US$ 46,6 bilhões para concluir o muro na fronteira; US$ 45 bilhões para expandir os centros de detenção de imigrantes; US$ 18,2 bilhões para instalações e iniciativas na fronteira; e US$ 30 bilhões além do orçamento básico de US$ 9,6 bilhões do ICE para reforçar as operações de deportação e remoção. O orçamento anual do ICE triplicou para cerca de US$ 28 bilhões até 2029, o que o torna a maior agência federal de policiamento do país.2Esse valor subirá para US$ 30 bilhões anuais caso o orçamento presidencial para o ano fiscal de 2026 (FY2026) seja aprovado.
Gastos federais da CBP (vermelho) e do ICE (azul)

Fonte: Justificativa Orçamentária do Departamento de Segurança Interna ao Congresso (anos fiscais de 2006 a 2025)
Pesquisa e análise: Michael Macher
Gráfico: Yusuf Imaad Khan
A legislação afastou a iminente “crise de caixa” do ICE, ao mesmo tempo em que aumentou seu exército de advogados, oficiais de deportação e outros funcionários de apoio. Ela fortaleceu os vínculos materiais que conectam as agências de fiscalização migratória dos EUA, enquanto bloco de interesses, às indústrias de defesa, tecnologia e prisões privadas, e agora promete arrastar as polícias estaduais e locais, nos distritos cooperantes, ainda mais para o negócio de policiar a imigração.
O DHS não perdeu tempo em utilizar os novos recursos. Uma série de generosos incentivos à contratação, incluindo perdão de empréstimos estudantis e um bônus de assinatura de US$ 50 mil, foi anunciada para facilitar o recrutamento de 10 mil novos agentes para o ICE.3Os candidatos à Patrulha de Fronteira também podem receber incentivos de até US$ 30 mil, a depender do local para o qual forem designados. Em outubro, o ICE já tinha dificuldade para avaliar mais de 150 mil candidatos inscritos no seu processo seletivo. Supondo que as metas federais de contratação sejam atingidas, o número total de agentes de deportação do ICE aumentará de 6 mil para 16 mil, enquanto os agentes da Patrulha de Fronteira passarão de aproximadamente 20 mil para 23 mil. Esses aumentos, em grande medida, seguem o padrão histórico das agências de receberem aportes periódicos de recursos quando a política de fronteira volta ao centro das manchetes; ainda assim, eles marcam uma nova era para a equipe de Fiscalização e Remoção (ERO, na sigla em inglês) do ICE, cujos níveis de pessoal haviam permanecido estagnados desde a última onda de fiscalização no interior do país, sob Bush e Obama.
Registros de gastos federais mostram que, até outubro de 2025, o ICE também havia aumentado em 600% suas despesas com armamentos em comparação com 2024, sobretudo com armas leves e equipamentos de proteção. Outros US$ 25 milhões em contratos foram destinados a softwares de reconhecimento facial e monitoramento para localizar e deter a crescente lista de alvos da agência. Esses investimentos refletem não apenas uma força em expansão, mas também cada vez mais militarizada e tecnologizada, que se prepara para operações prolongadas nas cidades dos EUA. Tornou-se rotineiro que agentes de imigração e outros policiais federais aliados recorram a táticas de controle de multidões—como gás lacrimogêneo, granadas de efeito moral e balas de borracha—juntamente com uso excessivo de força física para “gerenciar” manifestantes e capturar alvos não cidadãos.
Operações de Fiscalização e Remoção do ICE (azul) e efetivo em tempo integral da Patrulha de Fronteira dos EUA (vermelho)

Fonte: Justificativa Orçamentária do Departamento de Segurança Interna ao Congresso (anos fiscais de 2006 a 2025)
Pesquisa e análise: Michael Macher
Gráfico: Yusuf Imaad Khan
Da quantidade à qualidade
Embora os números acima sejam impressionantes por qualquer critério, a mudança aqui não é meramente quantitativa. O regime de fiscalização emergente funde forças federais de aplicação da lei e outros quadros em um todo interoperacional, voltado para deportações em massa e policiamento ideológico. A Casa Branca designou pelo menos 33 mil funcionários federais adicionais para funções do ICE e da Alfândega e Proteção de Fronteiras (CPB, na sigla em inglês), retirando-os do Departamento de Justiça, do Departamento de Prisões, da Repressão às Drogas, do FBI, do Serviço de Delegados Federais dos EUA e da agência de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos. Os funcionários da Agência Federal de Gestão de Emergências do DHS agora têm a tarefa de selecionar milhares de candidaturas a vagas no ICE, enquanto os fundos de emergência da agência foram desviados para financiar campos de detenção. Um relatório de dezembro de 2025, divulgado pelos democratas do Senado, mostra que US$ 2 bilhões em fundos do Pentágono foram desviados para a fiscalização da imigração. O número de agentes de imigração investidos de poderes é ainda maior quando se contabilizam tropas da Guarda Nacional ocupando cidades dos EUA ou polícias locais incorporadas a forças-tarefa de imigração.
Essas medidas já comprometeram outras obrigações do DHS, incluindo aquelas mais alinhadas com as justificativas morais do próprio governo para deportações em massa, como o combate ao tráfico de drogas ou de pessoas para exploração sexual. Até mesmo os Serviços de Cidadania e Imigração dos EUA—a agência encarregada de processar pedidos de cidadania, asilo e autorização de trabalho— foram transformados em um braço de fiscalização, sem qualquer escrúpulo em deter até mesmo imigrantes que comparecem para participar de cerimônias de naturalização.
A repressão também se beneficia da flexibilidade de longa data nas atribuições do próprio ICE e da Patrulha de Fronteira. Em teoria, a jurisdição do ICE é o “interior”—prisões, locais de trabalho e comunidades—, enquanto a do CBP é a “fronteira”. Na prática, porém, suas atividades frequentemente se sobrepõem. Enquanto Biden concentrou recursos na fronteira, retirando-os do interior, Trump desviou recursos da fronteira para aumentar as remoções no interior. Isso não só garante a contratação mão de obra adicional, como também permite que os agentes da Patrulha de Fronteira operem com pouca transparência ou supervisão, desfrutando de autoridade especial para interrogar e deter indivíduos dentro de uma ampla “zona de fronteira” de 160 km ocupada por mais de 200 milhões de pessoas. Em outras palavras, desde que a situação na fronteira permaneça relativamente tranquila, essa interoperabilidade fluida permite que ambas as agências concentrem seus esforços no interior do país.
Os dados sobre detenções indicam a real dimensão dessa ofensiva no interior do país. Quando os números de detidos são desagregados por agência responsável pela prisão, observa-se que a proporção de detenções realizadas pelo ICE aumentou de 28% do total em janeiro para 82% em 13 de dezembro de 2025. Os mesmos dados mostram que o número médio total de detidos chegou a 50 mil em junho—patamar que não era registrado desde 2019—e ultrapassou 65 mil ao final do ano passado, o nível mais alto já documentado.
População detida pelo ICE atinge recorde de 68.442 pessoas*
Presos pelo ICE (azul) vs. pela CBP (vermelho)

Fonte: Austin Kocher e o Transactional Records Access Clearinghouse da Universidade de Syracuse
Gráfico: Yusuf Imaad Khan
Os novos detidos têm sido, até agora, amontoados em um sistema já extenso de centros de detenção mal conservados e improvisados, excedendo em muito a capacidade máxima de 41.500 pessoas prevista no orçamento anterior do ICE. Embora se estime que US$ 45 bilhões em financiamento adicional ampliarão a capacidade de detenção em “pelo menos 116 mil vagas”, é improvável que esses recursos melhorem as condições dos detentos. O tratamento degradante está embutido no próprio desenho institucional do sistema de detenção. Como os processos migratórios podem se arrastar por meses ou até anos, a suspensão das audiências de fiança vem direcionando ainda mais pessoas para centros de detenção já superlotados. Isso, por sua vez, aumenta a pressão sobre as equipes de Custódia e Gestão e de Serviços de Saúde do ICE. Supostamente responsáveis por manter os padrões de detenção e prestar assistência médica, essas equipes possuem um longo histórico de negligência e abusos, quadro que tende a se agravar à medida que os parceiros com fins lucrativos do ICE correm para contratar pessoal e expandir rapidamente as prisões privadas.
As novas linhas de financiamento também inauguraram uma era de “federalismo migratório”. O ICE depende fortemente da cooperação de órgãos estaduais, municipais e de forças policiais locais para realizar seu trabalho (daí a frustração vocal do “czar da fronteira”, Tom Homan, com as políticas de cidades-santuário). Programas como os acordos 287(g) criam esses vínculos entre o nível federal e o local ao subsidiar custos de detenção e conferir às autoridades locais poder para efetuar prisões por motivos migratórios. Na prática, esses esforços multiplicam os possíveis âmbitos—como abordagens de trânsito, espaços públicos e presídios—em que uma pessoa pode se deparar com uma autoridade migratória. Além dos US$ 10 bilhões em reembolsos para os chamados “estados fronteiriços”, outros US$ 3,5 bilhões em reembolsos a estados e municípios, até 2029, estão capacitando governos cooperantes a investir na fiscalização migratória. Essa enxurrada de recursos pode financiar milhares de iniciativas de controle em condados republicanos com orçamentos apertados—desde janeiro de 2025, ao menos 730 novos acordos foram firmados.4Isso eleva o total para 866, em comparação com os 135 acordos em vigor ao final do ano fiscal de 2024. Muitas localidades já (<)a href='https://www.americanimmigrationcouncil.org/fact-sheet/287g-program-immigration/'(>)enfrentaram(<)/a(>), no passado, dificuldades devido ao reembolso federal insuficiente para os custos de policiamento e detenção gerados por essas parcerias federais. Para dimensionar esse número, os condados de Mecklenburg e Alamance, na Carolina do Norte, gastaram respectivamente US$ 5,3 milhões e US$ 4,8 milhões em seu primeiro ano de operação do programa 287(g), enquanto no condado de Prince William, na Virgínia, os custos anuais de US$ 6,4 milhões com a fiscalização migratória obrigaram a cidade a aumentar o imposto sobre a propriedade e a recorrer a um fundo de emergência (“rainy day fund”).
Redefinindo a criminalidade
Em abril, Homan tentou chantagear as cidades ao prometer mais prisões “colaterais” caso as autoridades locais não cooperassem com o ICE: “as cidades-santuário vão receber exatamente o que não querem—mais agentes em suas comunidades, porque… agora teremos de enviar uma equipe inteira para procurar um bandido”. Essa oferta era claramente dissimulada. A ideia de que as cidades-santuário poderiam escapar do ICE sacrificando imigrantes “criminosos” foi desmentida tanto pelas estonteantes metas de deportação do governo Trump—estatisticamente impossíveis sem prisões de pessoas sem antecedentes—quanto pela alta proporção de detidos sem registro criminal. Entre os presos e detidos pelo ICE desde o início de outubro, 72% não cometeram qualquer infração penal. Muitos outros acabaram na mira por faltas menores, como multas de estacionamento ou acusações não violentas relacionadas a drogas. As recentes ameaças do governo de “desnaturalizar” cidadãos nascidos no exterior por motivos ideológicos sugerem que atos de protesto ou desobediência civil podem, em breve, resultar em deportação para dezenas de milhões de americanos.
Isso faz parte de uma tentativa mais ampla de redefinir a criminalidade de modo a envolver um número maior de imigrantes e ativistas, por exemplo, ao expandir a definição legal de “terrorismo” para incluir diversas formas de dissenso político, ou ao classificar o fentanil como uma “arma de destruição em massa”. Paralelamente a esses jogos de linguagem, o novo regime de fiscalização adotou uma concepção mais abrangente do trabalho policial migratório. Como se gabou um diretor de campo do ICE em um evento de recrutamento em Arlington no ano passado, o que distingue a agência das demais forças de segurança é que “[o ICE] é especialista em impedir a criação de vítimas… nós interrompemos as coisas… antes que aconteçam”.
A “criminalidade” há muito tempo funciona como o eixo conceitual das contradições do sistema migratório. Por décadas, legisladores favoráveis à imigração conquistaram reformas parciais ao separar imigrantes “maus” de imigrantes “bons”, submetendo os primeiros a duras sanções penais ou à deportação, enquanto ampliavam a entrada dos segundos. Essa estratégia trazia dois benefícios: primeiro, as ofensivas legislativas contra imigrantes “criminosos” permitiam aos formuladores de políticas adotar medidas de expansão da imigração negociando, em troca, os direitos dos não cidadãos; segundo, concediam ao Executivo maior discricionariedade para usar a deportação como uma moeda política, aumentando ou reduzindo seu ritmo conforme a conveniência do momento. Esse arranjo atendia aos interesses de empresários dependentes da mão de obra migrante, que mantinham acesso a uma ampla reserva de trabalhadores não cidadãos. Sem amparo legal, os mais de nove milhões de trabalhadores indocumentados nos Estados Unidos ficam, em grande medida, sob o poder dos empregadores.
Essas dinâmicas aprofundaram a divisão jurídica entre cidadãos e não cidadãos nas décadas que antecederam a Guerra ao Terror. A partir daí, novos investimentos em segurança de fronteira permitiram que as agências de imigração prosperassem como incubadoras pouco responsabilizadas de uma agenda da extrema direita dentro do DHS. É sobre esse alicerce que o governo Trump vem construindo sua política. Com o capital organizado deixando de exercer um papel moderador sobre a política migratória—passando, em vez disso, a priorizar cortes de impostos, desregulamentação e acordos de bastidores na fiscalização da imigração—, as forças que hoje operam a máquina do Estado abandonaram o status quo da aplicação seletiva da lei e giraram para uma estratégia de terra arrasada de deportações em massa. Para compreender plenamente essa transição, é preciso examinar mais de perto a política institucional do ICE e da Patrulha de Fronteira desenvolvida desde a era Bush.
Agências arbitrárias
A supervisão frouxa e os controles internos frágeis têm marcado o DHS desde sua criação. Além de implementar políticas publicamente controversas, como a separação de famílias, agentes da Patrulha de Fronteira foram implicados em inúmeros escândalos, incluindo sequestros, violência sexual e uso desproporcional da força, além de publicação de mensagens racistas em páginas privadas de redes sociais, corrupção generalizada e abusos de menor gravidade.
A crise de disciplina é um desdobramento de um Estado de segurança interna que foi reformulado para atender às exigências da Guerra ao Terror. Como documentou o jornalista Garrett Graff, a rápida expansão do ICE—de 9 mil agentes antes do 11 de Setembro para 21 mil durante a presidência de Obama—levou a uma redução drástica dos padrões de contratação, enquanto a CBP não dispunha de um processo interno de corregedoria coerente até 2014. Um relatório da ProPublica observa que as investigações de má conduta passaram a se tornar disputas entre “supervisores locais da CBP; a unidade nacional de assuntos internos da CBP; o inspetor-geral do Departamento de Segurança Interna; o escritório de direitos civis do Departamento de Segurança Interna; e, em certos casos, o FBI e o Departamento de Justiça dos EUA”. O próprio departamento de assuntos internos da CBP, que sofria de falta de pessoal, era mal equipado para lidar com o volume crescente de investigações disciplinares da agência.
A ausência de responsabilização caminhou junto com uma crise de autoridade no DHS. Embora tanto o ICE quanto a CBP tenham se beneficiado da remodelação do Estado de segurança promovida pelo DHS, seria errado vê-los como beneficiários passivas das reformas desencadeadas pela Guerra ao Terror. Se algo, a relação muitas vezes foi o inverso: atores militantes dentro do ICE e da Patrulha de Fronteira exploraram a disputa política em torno da imigração para ampliar seus recursos, sua autonomia e seu poder dentro do DHS—moldando ativamente o Departamento à sua própria imagem. Essa mobilização política ocorreu principalmente por meio de seus respectivos sindicatos, o National ICE Council (NIC) e o National Border Patrol Council (NBPC). Como organizações incumbidas de promover os interesses materiais dos agentes de base, ambos os sindicatos se tornaram incubadores de projetos da extrema direita. Ambos também encontraram em Trump um aliado evidente, que, por sua vez, passou a ver os sindicatos como uma possível base de poder dentro do DHS.
As energias insurrecionais no interior do NIC e do NBPC ficaram especialmente visíveis durante o primeiro mandato de Obama, à medida que o equilíbrio precário entre proteger e punir imigrantes começou a se desfazer. Mesmo quando Obama ordenou níveis recordes de remoções no interior do país, numa tentativa infrutífera de construir uma coalizão em torno de uma reforma migratória abrangente, figuras-chave do ICE e da Patrulha de Fronteira vociferavam contra o que consideravam políticas excessivamente conciliatórias de “fronteiras abertas”. Essa fissura preparou o terreno para uma disputa prolongada de poder dentro das agências de imigração entre facções mais pragmáticas e correntes radicalizadas, que já não viam espaço para a anistia no cálculo mais amplo do sistema migratório dos Estados Unidos.
Em 2010, o chefe do sindicato do ICE, Chris Crane, apresentou um voto de “desconfiança” contra o então diretor do ICE, John Morton, citando seu apoio a reformas de anistia, bem como a insuficiência de pessoal. Crane mais tarde viria a processar o governo Obama por causa da ordem executiva do Deferred Action for Childhood Arrivals (DACA) e precisou ser escoltado para fora de uma coletiva de imprensa no Senado, em 2013, na qual se anunciava uma legislação de compromisso sobre imigração. Enquanto isso, a Patrulha de Fronteira passou a se sentir cada vez mais cerceada por restrições institucionais, ao mesmo tempo em que era assolada por sucessivos escândalos de corrupção e abusos, o que a levou a intensificar as tensões com a Casa Branca de Obama.
Um ponto de inflexão ocorreu em 2016, em meio à crescente politização dos agentes de base, quando o NIC e o NBPC decidiram apoiar Trump: foram os primeiros endossos políticos formais. “Todas as pessoas responsáveis pelos problemas que assolam os Estados Unidos hoje se opõem ao Sr. Trump”, afirmou o NBPC, alertando que “se não protegermos nossas fronteiras, as comunidades americanas continuarão a sofrer nas mãos de gangues, cartéis e criminosos violentos que atacam inocentes”. O NIC também denunciou Hillary Clinton como uma “radical das fronteiras abertas”, cujas políticas forçariam os policiais a “violar seus juramentos de fazer cumprir a lei”.
A aposta deu resultado quando Trump venceu a eleição e recompensou as agências com maiores poderes de fiscalização, mais recursos e maior prestígio. Mas, embora visse o novo governo como um aliado, o NIC não hesitou em criticar Trump quando avaliou que ele estava cedendo a forças pró-imigração. Representantes do sindicato afirmaram que o governo Trump havia “traído” suas promessas ao manter a equipe do ICE herdada de Obama (o que incluía Homan, então diretor interino do ICE, acusado de desperdício e má gestão). Crane publicou uma carta aberta alegando que Trump estava dando continuidade às políticas da era Obama de subdimensionamento de pessoal, correção política e acordos com cidades-santuário. “Não acredito que se encontre um grupo de agentes da lei”, escreveu ele, “mais odiado por sua própria liderança e gestores do que os agentes da divisão de Operações de Execução e Remoção do ICE”.
Em 2017, o NBPC utilizou sua já considerável influência para derrubar Mark Morgan—um diretor reformista e o primeiro vindo de fora da agência—após apenas sete meses no cargo, ressentindo-se de seu suposto apoio às disposições da Reforma Migratória Abrangente que previam um caminho para a cidadania. Na época, o presidente do sindicato, Brandon Judd, declarou em entrevista à Fox News que os imigrantes são “piores que animais, na minha opinião… Animais não tratam outros animais da forma como a MS-13 trata outros seres humanos”. Esse compromisso obstinado com uma política anti-imigrante por parte dessas organizações poderosas contribuiu, ao que tudo indica, para empurrar o primeiro governo Trump ainda mais para a direita.
A essa altura, a crise de autoridade no DHS já começava a preocupar até os praticantes mais zelosos da Guerra ao Terror. No auge dos protestos do Black Lives Matter, em junho e julho de 2020, o ex-chefe do DHS na era Bush, Michael Chertoff, alertou para a crescente politização dentro de sua antiga agência, advertindo que o pessoal do DHS havia passado a “operar com uniformes camuflados sem qualquer insígnia clara de identificação”. Chertoff também afirmou que autoridades migratórias vinham deliberadamente ignorando pedidos de DACA, em aberta afronta a uma decisão da Suprema Corte.
Essa opinião foi discretamente endossada por um grupo bipartidário de ex-secretários e secretários interinos do Departamento de Segurança Interna que atuaram como assessores de um estudo do Atlantic Council de 2020 sobre o “Futuro do DHS”. O relatório descreveu uma crise de moral decorrente das críticas à separação de famílias, da insatisfação interna com as chamadas políticas de catch and release [captura e liberação] e do emprego do ICE e da CBP nos protestos do Black Lives Matter. Também examinou se “uma mudança na cultura da Patrulha de Fronteira seria benéfica”, citando a investigação de Garrett Graff, publicada em 2019, sobre a dissidência entre os agentes de base da CBP:
A maioria dos agentes da Patrulha de Fronteira em atividade hoje se alistou para um trabalho duro em uma agência quase militar, encarregada de proteger o país contra terroristas e traficantes de drogas. Em vez disso, acabaram atuando como uma agência humanitária muito mais banal—a recepção de primeira linha da nação para famílias de migrantes que se entregam de bom grado após cruzar a fronteira. A CBP não dispõe da cultura institucional necessária para enfrentar esse desafio, nem do efetivo ou do apoio do restante do governo para fazê-lo.
Após a eleição de 2020, o governo Trump tentou usar os sindicatos do ICE e da CBP como alavanca para minar a nova administração de Biden.5O sindicato do ICE elogiou Trump por promover “as políticas centrais necessárias para restaurar a segurança migratória, incluindo… o aumento da fiscalização no interior do país e da segurança de fronteira, o fim das cidades-santuário, o fim da política de (<)em(>)catch and release(<)/em(>), a imposição obrigatória de (<)em(>)detainers(<)/em(>)… e o cancelamento das anistias executivas e das diretrizes de não aplicação da lei”. O então vice-secretário interino de Segurança Interna, Ken Cuccinelli—futuro arquiteto do Projeto 2025—declarou unilateralmente que todas as mudanças de política do DHS que afetassem os agentes teriam de ser aprovadas pelo sindicato do ICE. Quando essa manobra fracassou, agentes do ICE ainda assim continuaram a desafiar as diretrizes federais de fiscalização do novo governo. Em 2022, o NIC apresentou uma queixa ao Departamento do Trabalho buscando “autonomia” em relação à American Federation of Government Employees e solicitando uma auditoria de sua organização-mãe, a AFL-CIO, que Crane classificou como “organizações de extrema esquerda” com viés “hostil às forças de segurança”.
Hipertrofia
Como devemos compreender o objetivo final dos sindicatos do ICE e da Patrulha de Fronteira? O que chama atenção nessas organizações é o grau em que seus investimentos materiais e ideológicos no policiamento migratório tendem a se reforçar mutuamente. Oponentes da imigração há muito defendem que a restrição dos fluxos ajudaria a proteger os interesses trabalhistas dos cidadãos nativos. A relação entre uma coisa e outra, porém, é bastante incerta. Mas, para agentes do ICE e da fronteira—cujos meios de vida dependem literalmente do nível de fiscalização migratória—, essa conexão é cristalina. Para aqueles na linha de frente da guerra contra os imigrantes, a política nativista se combina a incentivos materiais diretos para sustentar políticas de tolerância zero que buscam eliminar toda forma de anistia. É exatamente essa cultura institucional que o governo Trump procurou explorar ao desmantelar a divisão de direitos civis do DHS e o escritório do ombudsman de detenção.
No final de outubro de 2025, um grande expurgo na liderança do ICE em todos os Estados Unidos—que teria sido orquestrado pelo conselheiro informal de Trump, Corey Lewandowski—entregou maior controle das operações de deportação ao pessoal da Patrulha de Fronteira. Como resultado, o homem que agora lidera a operação é Gregory Bovino, um veterano da Patrulha de Fronteira que personaliza a “cultura cowboy” da agência e cujas batidas de imigração sem restrições na Califórnia rural impressionaram o governo. Com a aprovação da Suprema Corte, Bovino levou seu estilo característico de prisões indiscriminadas e perfilamento racial agressivo para as cidades-santuário “inimigas”.
A mudança ocorreu em meio a números de remoções que ficaram aquém da meta declarada pelo governo. Isso sugere que, mesmo enquanto o ICE acumula estatísticas formais de prisões no interior dos Estados Unidos, é a Patrulha de Fronteira que tende a se tornar a força dominante dentro do regime ampliado de fiscalização. A expansão numérica do ICE funcionará como o veículo para estender a mentalidade paramilitar da CBP por todo o território interno. Como afirmou um porta-voz do DHS à NBC News: “o governo acha que o ICE não está dando conta do recado”, enquanto a CBP “faz o que é mandado”.
A estreita relação entre o ICE/CBP e Trump passou agora, paradoxalmente, a limitar a própria margem de manobra de Trump. Seu instinto de proteger fazendeiros e empresários do setor hoteleiro de uma fiscalização excessiva foi frustrado por Stephen Miller, que rapidamente revogou uma ordem para “suspender a fiscalização em locais de trabalho”. Pouco depois, a Casa Branca deu meia-volta e passou a enfatizar a necessidade de “expandir massivamente” esse tipo de fiscalização na ausência de um “acordo” no Congresso. O episódio sugeriu que as linhas de autoridade que ligam Trump à fiscalização migratória acabaram por minar as próprias diretrizes presidenciais. Agora, com Bovino assumindo o comando, é quase certo que essa dinâmica se aprofundará.
Embora a realidade do sistema migratório tenha sido por muito tempo ocultada de amplos setores da população dos Estados Unidos, mudanças na opinião pública sugerem que muitos agora começam a perceber o quão radical é, de fato, o arcabouço vigente. Os acontecimentos recentes em Minneapolis e em outros lugares refletem seus excessos extrajudiciais desmedidos, com táticas que ultrapassam as exigências da missão e punições aplicadas por si mesmas. A agenda migratória de Trump—a ilegalidade alcançada por meio da hipertrofia das forças de segurança—foi exposta sem disfarces. À medida que o ICE e a CBP continuam a crescer em termos de poder e autonomia, diversos grupos (residentes legais, servidores federais, ativistas) passaram a se assemelhar aos alvos tradicionais das ofensivas migratórias, incapazes de contar com regras que possam conter a força bruta do Estado.
As práticas de longa data dessas agências se ajustam bem ao nosso momento atual de cidadania flexível e desaparecimento do devido processo legal. Sua expansão dramática representa um fortalecimento sem precedentes do aparato de segurança interna. Mas, embora esse desenvolvimento seja profundamente inquietante, ele não é súbito nem inexplicável, tampouco se resume a um projeto imposto de cima para baixo pelo governo Trump. O fluxo incondicional de dinheiro, equipamentos e outros recursos para o DHS e suas subagências migratórias—supervisionado por múltiplas administrações anteriores—já lhes havia permitido operar com mínima responsabilização por décadas. Isso, por sua vez, alimentou uma política anti-imigrante cada vez mais assertiva entre os agentes de base, cujos sindicatos militantes lutaram para se impor tanto contra a resistência de empregadores quanto de formuladores de políticas públicas. Democratas e republicanos, seguindo essa lógica bipartidária, passaram anos se movendo para a direita na questão migratória. Assim, recursos sem amarras viabilizaram o crescimento do regime de fiscalização de extrema direita. Enfrentá-lo exigirá encarar suas bases orçamentárias e institucionais.
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