22 de outubro de 2026

Análises

Duas rendas

A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro revela como a coerção externa e o rentismo doméstico se reforçam

Em 4 de outubro, os brasileiros colocaram o filho de um golpista preso à frente de Lula nas urnas. Flávio Bolsonaro teve 47% dos votos válidos, contra 45% do atual presidente. O resultado veio num país com desemprego próximo do menor nível da série histórica, salário real quase 4% acima do ano anterior e inflação dentro da meta. A direita conquistou também o Congresso Nacional e a maior parte dos grandes estados. A maioria das pesquisas divulgadas desde o primeiro turno coloca Flávio numericamente à frente, embora frequentemente em empate técnico com Lula. A eleição será decidida neste domingo, dia 25.

Circulam duas explicações. A primeira atribui o resultado a Trump: um tarifaço de 50% vinculado ao julgamento de Jair Bolsonaro, sanções ao ministro do Supremo Tribunal Federal que o condenou, listas de organizações terroristas com efeitos sobre o sistema financeiro e um candidato que pediu todas essas medidas. A segunda aponta para a economia: os bons indicadores de crescimento esconderiam a realidade de um país onde os juros do crédito rotativo do cartão chegam a 445% ao ano. 

Cada interpretação é, na verdade, um lado da mesma moeda. O Brasil paga duas rendas. A primeira é a renda imperial que Washington, em sua estratégia hemisférica, busca extrair da maior economia da região: petróleo, minerais, eletricidade para data centers e o controle de um sistema público de pagamentos que pretende entregar às bandeiras de cartão. A segunda é a renda doméstica que o Tesouro e as famílias transferem aos detentores da dívida pública e aos bancos, sob um regime de juros que um governo de esquerda escolheu preservar. As duas rendas são extraídas do mesmo excedente econômico e defendidas pelo mesmo bloco de interesses. Flávio Bolsonaro representa ambos, embora atribua a falência de empresas e o endividamento dos trabalhadores à incompetência de Lula. Escrevo de dentro dessa disputa, como economista que votará em Lula, mas critica suas escolhas macroeconômicas desde 2023.

Para compreender essa dinâmica, é preciso examinar os interesses de Washington no Brasil, a passagem da coerção econômica à intervenção eleitoral e os mecanismos internos de apropriação da renda. É a partir dessa articulação que se coloca a questão de como construir uma soberania capaz de se traduzir em benefícios concretos para a população.

O que o império quer

O segundo governo Trump pôs sua grande estratégia por escrito. O objetivo é preservar a supremacia dos Estados Unidos diante da China, numa disputa que seus funcionários chamam de civilizacional. O núcleo material tem dois pilares. O primeiro é a “dominância energética”, declarada no dia da posse e dirigida por um conselho instalado na Casa Branca. Suas funções são prolongar a vida do capital fóssil, fornecer energia barata à indústria que o protecionismo comercial quer trazer de volta, prender os aliados à oferta de gás estadunidense e controlar gargalos de oferta de petróleo dos quais a China depende.

O segundo pilar é o complexo computacional, que abrange dos semicondutores e data centers aos modelos mais avançados de inteligência artificial. Em Pequim, em maio, Washington negociou soja, aviões e terras raras, mas se recusou a flexibilizar os controles sobre a exportação de chips. Os dois pilares convergem na demanda crescente por eletricidade barata para alimentar a inteligência artificial. E seguem a mesma lógica: onde Washington não consegue ocupar uma posição central nas redes de produção e abastecimento, procura controlar seus pontos de estrangulamento.

Convém dizer o que há de novo nisso, porque a imprensa liberal trata o governo Trump como improviso. A Segunda Guerra Fria não é tanto um confronto entre blocos quanto uma disputa pelo controle das redes de infraestrutura, produção, finanças e computação construídas pela globalização. Nessas redes, o tempo joga contra Washington: a China produz a custos menores, domina o refino de minerais críticos e desenvolve modelos de inteligência artificial de pesos abertos que se aproximam rapidamente da fronteira. Diante disso, os Estados Unidos recorrem às áreas em que ainda detêm uma vantagem decisiva, como os hidrocarbonetos e o poder militar, e aos instrumentos de controle que preservam sobre pontos estratégicos dessas redes: a compensação em dólares, as licenças de exportação de chips e as plataformas digitais.

O objetivo não é desmontar a trama da globalização, mas transformar seus pontos estratégicos em instrumentos de coerção capazes de interromper fluxos de mercadorias, capitais e tecnologia. É nessa lógica que as instituições multilaterais construídas sob a liderança dos próprios Estados Unidos depois de 1945, das regras comerciais às alianças internacionais, passam a servir à coerção unilateral ou são enfraquecidas quando impõem obstáculos.

O hemisfério é onde essa estratégia sai mais barata. A Estratégia de Segurança Nacional de dezembro de 2025 chama o programa de “corolário Trump” à Doutrina Monroe. A imprensa o chama de “Doutrina Donroe”.1Casa Branca. Estratégia de Segurança Nacional. 5 de dezembro de 2025. Citado em “EUA reafirmam Doutrina Monroe em nova estratégia de segurança.” Poder360, 5 de dezembro de 2025. (<)a href='https://www.poder360.com.br/poder-internacional/eua-reafirmam-doutrina-monroe-em-nova-estrategia-de-seguranca/?utm_source=chatgpt.com'(>)(<)/a(>)(<)a href='https://www.poder360.com.br/poder-internacional/eua-reafirmam-doutrina-monroe-em-nova-estrategia-de-seguranca/'(>)https://www.poder360.com.br/poder-internacional/eua-reafirmam-doutrina-monroe-em-nova-estrategia-de-seguranca/(<)/a(>). Sobre o rótulo: Main, Alexander, e Jake Johnston. “The Donroe Doctrine Fan Club Kicks Off in Miami.” Center for Economic and Policy Research (CEPR), 6 de março de 2026. (<)a href='https://cepr.net/the-donroe-doctrine-fan-club-kicks-off-in-miami/?utm_source=chatgpt.com'(>)https://cepr.net/the-donroe-doctrine-fan-club-kicks-off-in-miami/(<)/a(>) Seu propósito é uma base segura de petróleo, minerais, eletricidade e território para data centers, fechada à China. Na Venezuela, uma incursão em janeiro capturou Nicolás Maduro. O que veio depois não foi a restauração democrática que o pretexto prometia, e sim um regime de extração de recursos. Cuba, sem o óleo venezuelano, vive sob o primeiro bloqueio naval efetivo desde 1962: onde não há ativo a capturar, há um exemplo a dar. Em setembro, Marco Rubio percorreu os Andes e voltou da Colômbia com um acordo sobre minerais e um memorando de cooperação nuclear. O Peru, por sua vez, aderiu ao “Escudo das Américas”, aliança de governos de direita reunida por Trump em março, em seu resort de golfe, sem a participação de Brasil, México ou Colômbia.

A doutrina já conta com uma estrutura institucional e jurídica. Sua base legal foi estabelecida no primeiro dia do governo Trump, em 2025, por uma ordem executiva que permite designar cartéis como organizações terroristas e associa sua atuação à “convergência” com potências de fora do hemisfério, numa referência à China presente desde o início. O alcance dessa classificação foi ampliado sucessivamente: oito cartéis foram designados em fevereiro de 2025; em outubro, o presidente em exercício da Colômbia foi incluído no âmbito das medidas; e a categoria passou a abranger o chamado “Cartel de los Soles”, cuja existência como organização o próprio Departamento de Justiça reconheceu, em juízo, não conseguir comprovar. Em 2026, a ofensiva alcançou duas facções brasileiras e, no documento estratégico, a própria esquerda. 

A coalizão política tomou forma em março, no resort de golfe de Trump em Doral, onde dezoito governos participaram do lançamento do “Escudo das Américas”. Na ocasião, um assessor da Casa Branca declarou que os direitos humanos a proteger “não são os dos selvagens”. A presença militar e policial estadunidense também se expandiu rapidamente: o Paraguai concedeu imunidade a tropas dos Estados Unidos; o Equador recebeu o primeiro escritório permanente do FBI; e a Argentina autorizou, por decreto, o acesso de um grupo de porta-aviões a suas bases no Atlântico Sul. A doutrina já produziu também consequências letais: ao menos 157 pessoas morreram em ataques a embarcações no Caribe e no Pacífico, classificados por relatores da ONU como execuções extrajudiciais.

Os casos revelam uma tipologia. Estados financeiramente dependentes, como a Argentina, são governados pela finança: swaps cambiais e operações de resgate convertem alinhamento em solvência. Economias grandes e diversificadas, como o Brasil e o México, derrotam a coerção comercial, que migra para os instrumentos securitizados e financeiros. Estados pequenos com ativos chineses, como Panamá e Equador, sofrem captura em pontos específicos. Estados com rendas capturáveis e sem escudo, como a Venezuela, viram protetorados informais. Estados sem renda nem utilidade, como Cuba, viram exemplos. O que ordena os casos não é só a ideologia do governo. Pesa a posição estrutural: reservas cambiais, dívida, geografia das exportações e profundidade do nexo com a China.

O Brasil é a peça que falta ao bloco. Maior produtor de petróleo da América Latina, extraiu 3,8 milhões de barris por dia em 2025, quatro quintos deles do pré-sal. Tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo. Sua matriz elétrica é 88% renovável, e o país já concentra metade da capacidade de data centers da América Latina, boa parte instalada em Campinas, onde dou aula, com presença de empresas como Microsoft e Amazon.2Petróleo: 3,8 milhões de barris por dia em 2025 (Diário do Comércio, 3/2/2026). Terras raras: cerca de 21 milhões de toneladas, 23% das reservas mundiais, atrás apenas da China (Serviço Geológico do Brasil). Rede elétrica: 88,2% de renováveis na geração de 2024 (EPE, Balanço Energético Nacional 2025). Data centers: 49% da capacidade instalada da América Latina (Moody’s, via Canal Solar, 5/8/2026); sobre Campinas, S&P Global, 27/8/2026. O Banco Central brasileiro opera o Pix, sistema gratuito de pagamentos instantâneos que, desde 2023, registra mais transações do que os cartões de crédito e débito somados. Tudo isso num país com o qual os Estados Unidos mantêm seu maior superávit comercial entre as economias emergentes. A investigação comercial aberta por Washington com base na Seção 301 explicita outros interesses: além do Pix, as decisões judiciais contra plataformas de redes sociais, as patentes e o etanol. Entre as concessões que Brasília sinalizou não descartar estão o refino de terras raras por subsidiárias estadunidenses e a instalação de data centers de grandes provedores de computação em nuvem. Nesse projeto imperial, o data center ocupa o lugar que a concessão ferroviária ocupou no passado: uma infraestrutura instalada em território estrangeiro que materializa relações de dependência e os consome recursos de quem a abriga.

Coerção relacional

Washington tentou primeiro alcançar esses objetivos por meio da coerção comercial. Em julho de 2025, Trump impôs tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, citando o julgamento de Jair Bolsonaro como justificativa. O Tesouro estadunidense também sancionou Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal responsável pelo caso. O Brasil não retaliou, mas tampouco cedeu. Bolsonaro foi condenado, os preços do café e da carne subiram nos supermercados dos Estados Unidos e, em novembro, as tarifas foram retiradas sem que o Brasil fizesse concessões. Em fevereiro, a Suprema Corte estadunidense derrubou a base legal da medida.

A segunda rodada de pressão incorporou as lições da primeira. Em julho de 2026, Washington impôs uma tarifa de 25% com base na Seção 301, mas abriu mais de mil exceções, incluindo café, carne, suco de laranja e aviões, produtos dos quais os Estados Unidos dependem. Uma tarifa menor, porém, pode exercer uma pressão maior. O alvo já não são apenas as mercadorias, mas também instituições e infraestruturas brasileiras. O Pix é atacado não apesar de sua gratuidade, mas justamente por ela: o sistema demonstra que uma infraestrutura pública de pagamentos pode competir com as bandeiras de cartão de crédito. Entre as condições impostas por Washington para aliviar as tarifas estão garantias a “dissidentes políticos”.

Em seguida, Washington recorreu a um instrumento que ainda não havia utilizado contra o Brasil. Em maio de 2026, três dias depois de um encontro entre Flávio Bolsonaro e Trump, os Estados Unidos incluíram as duas maiores facções criminosas brasileiras na lista de organizações terroristas, recorrendo à legislação criada para combater a Al Qaeda. Flávio afirma ter solicitado a medida. A designação abre caminho para sanções secundárias contra bancos e outros agentes brasileiros acusados de prestar “apoio material” às facções. Assim, um instrumento apresentado como parte do combate ao crime organizado passa também a funcionar como mecanismo de pressão sobre o sistema financeiro brasileiro, incluindo o Pix.

A coerção é uma relação, não um instrumento. Nos anos 1980 e 1990, o Brasil tinha uma elevada dívida em dólares, reservas cambiais suficientes para poucas semanas e sua política econômica submetida ao controle do Fundo Monetário Internacional (FMI).  A coerção não precisava ser declarada: era o ambiente. Duas décadas de demanda chinesa por commodities brasileiras transformaram essa situação. Em 2000, os Estados Unidos ainda absorviam 24% das exportações brasileiras, enquanto a China respondia por menos de 2%. Em 2025, a participação chinesa chegou a 29%, contra 11% dos Estados Unidos. As reservas internacionais superam os US$ 300 bilhões e o Brasil quitou sua dívida com o FMI há mais de vinte anos, em 2005.

Isso não eliminou a capacidade de coerção dos Estados Unidos, mas alterou seus mecanismos. A vulnerabilidade brasileira hoje está sobretudo na dependência de redes globais controladas por Washington, como o sistema de compensação em dólares, as plataformas digitais e as cadeias de semicondutores. A passagem de uma tarifa de 50% para medidas comerciais mais seletivas e para a designação de organizações terroristas busca explorar esses pontos de dependência.

A Argentina oferece um contraste. Com reservas internacionais líquidas negativas e um acordo de swap de US$ 20 bilhões com o Tesouro estadunidense, o país depende diretamente do apoio financeiro de Washington. Javier Milei assinou um acordo sobre minerais críticos, acompanhado de um acordo comercial desigual com os Estados Unidos, depois que Trump condicionou a continuidade do apoio financeiro à vitória de Milei nas eleições legislativas. A posição estrutural de cada país determina, portanto, quais formas de coerção são viáveis. Um Milei em Brasília não dependeria de promessas de financiamento de que o Brasil não precisa, assim como um Lula em Buenos Aires teria muito menos margem de negociação diante de Trump. Mas um Milei em Brasília poderia conceder voluntariamente aquilo que Washington não consegue obter pela coerção.

Dependência como projeto

Washington não inventou os golpes no Brasil. Tornou-os baratos. Em 1964, o embaixador estadunidense se coordenou com os conspiradores e uma força naval esperou ao largo. Em 2 de abril, um dia depois do golpe, o presidente Lyndon Johnson já havia enviado seus cumprimentos ao novo governo, sem esperar qualquer deliberação do Congresso brasileiro. Mas os militares, os jornais, os industriais e as classes médias que marcharam em defesa da “tradição, família e propriedade” eram brasileiros. Em 2016, o impeachment de Dilma Rousseff cavalgou uma operação anticorrupção cujos procuradores cooperaram com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos sem o conhecimento do próprio governo brasileiro. As mudanças que se seguiram foram explícitas: poucos meses depois, o Congresso revogou a exigência de que a Petrobras fosse a operadora de todos os blocos do pré-sal; em 2017, aprovou a reforma trabalhista; e, em 2022, a Eletrobras foi privatizada.

É o que se pode chamar de dependência como projeto. A dependência não resulta apenas de conspirações externas ou de erros de política econômica.  Uma classe dominante a escolheu, em cada ciclo, porque a subordinação custa menos do que partilhar poder e renda em casa. 

O ciclo atual tornou a escolha legível como nunca. Eduardo Bolsonaro mudou-se para os Estados Unidos no início de 2025 para pedir sanções contra magistrados brasileiros. Perdeu o mandato de deputado federal por faltas e foi condenado criminalmente pelo Supremo Tribunal Federal em junho deste ano, pela interferência no processo contra seu pai, sem sequer constituir advogado. Em julho de 2026, Flávio pediu ao representante comercial dos EUA que suspendesse as tarifas por 180 dias, até depois das eleições. Aplicá-las naquele momento, escreveu, daria ao governo Lula “precisamente a vitória política que ele vem construindo”. Seu programa para a Amazônia prevê a expansão do garimpo e da mineração em terras indígenas, uma contribuição brasileira à estratégia extrativa de Trump que, nesse caso, Washington nem precisou exigir. A disputa nunca foi apenas sobre empregos ou comércio, mas sobre quem governaria o Brasil. Agora, esse projeto tem um candidato. No dia seguinte ao primeiro turno, Trump saudou o resultado de Flávio como “uma grande vitória, bem apertada, mas uma grande, grande vitória”. Dias antes, havia declarado que Washington estava “de olho em tudo”.

A renda de casa

Uma estratégia tão grosseira deveria ter perdido. Em 2025, perdeu: a aprovação de Lula cresceu quando as tarifas chegaram, e a defesa da soberania tornou-se um dos principais trunfos políticos do governo naquele ano. Mas o trabalhador que aplaudiu a defesa do Pix votou no primeiro turno de outubro de 2026 pensando em algo mais próximo de casa. Metade dos adultos brasileiros está com o nome sujo, um recorde. As famílias comprometem quase 29% da renda com o serviço da dívida, outro recorde. A Selic está em 13,75%, cerca de 8,5% em termos reais, o maior juro real entre as quarenta economias do ranking da MoneYou/Lev Intelligence. Os bancos emprestam às famílias a 62% ao ano e, no rotativo do cartão, a 445%.3Serasa Experian, agosto de 2026: 84 milhões de inadimplentes, 51% dos adultos. Banco Central: comprometimento de 28,7% da renda das famílias com o serviço da dívida em julho de 2026. Quem ganhou emprego com Lula e, depois, ganhou aumento, vem devolvendo os dois ao banco.

A mesma taxa organiza as contas públicas. O Brasil não enfrenta uma crise de dívida, mas uma crise do custo da dívida. Antes dos juros, o déficit do setor público é de 0,6% do PIB. Depois dos juros, chega a quase 9,5%. A diferença, cerca de R$ 1,2 trilhão por ano (aproximadamente US$ 225 bilhões), vai para os detentores de uma dívida emitida quase inteiramente em reais: bancos, fundos, planos de previdência e as famílias do topo da distribuição.4Banco Central, estatísticas fiscais de 30 de setembro de 2026: déficit primário de R$ 82,1 bilhões em doze meses (0,62% do PIB), juros nominais de R$ 1,182 trilhão (8,86%), déficit nominal de 9,48%; dívida bruta de 82,9% do PIB. Tesouro Nacional: a dívida interna é 96% da dívida federal. O déficit que a imprensa financeira atribui ao gasto social é uma conta de juros, e é a maior transferência aos ricos do orçamento brasileiro. O maior programa social do Brasil é o que paga os ricos. Essa é a renda doméstica, contraparte da que Washington quer cobrar de fora. As duas são pedágios sobre uma economia dependente. Um é cobrado em dólares pelas bandeiras de cartão e pelas petroleiras, o outro em reais pelos donos da dívida pública, e as mesmas pessoas defendem os dois. Os bancos que defendem a manutenção do arcabouço fiscal também apoiam o alinhamento aos Estados Unidos. O agronegócio do Centro-Oeste, que votou em Flávio, exporta soja e carne para a China, mas recorre a Washington em busca de proteção contra as instituições judiciais do próprio país.

O regime tem história, e ela é mais velha do que Lula. O Plano Real de 1994 acabou com a inflação alta à custa de câmbio valorizado e de juros reais entre os mais altos do mundo, e a flutuação de 1999 trocou a âncora cambial pelas metas de inflação e pela meta de superávit primário. O primeiro governo Lula manteve esse tripé em 2003 e pôs um banqueiro na presidência do Banco Central. O boom das commodities pagou, então, a renda e a redistribuição ao mesmo tempo, e a contradição ficou escondida por uma década.

Essa contradição veio à tona em 2012, quando Dilma Rousseff levou a Selic a 7,25%, o menor nível da série até então, e orientou o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal a baixar os juros. Dilma deu continuidade à política iniciada por Lula após a crise financeira global de 2008, e os bancos privados acabaram acompanhando a redução, ainda que resmungando. Os spreads caíram. A reação se desenvolveu ao longo dos três anos seguintes e foi muito além da política monetária: envolveu a imprensa, o ajuste fiscal de 2015, o impeachment de 2016 e a aprovação, no mesmo ano, do teto de gastos, vigente a partir de 2017, sob o qual a economia cresceu, em média, 1,4% ao ano antes da pandemia. Em 2021, o Congresso formalizou a autonomia do Banco Central, estabelecendo mandatos fixos para seus dirigentes, não coincidentes com o mandato presidencial. Quando Lula voltou ao poder, as restrições à política econômica haviam sido reforçadas institucionalmente. Em 2023, ele escolheu não confrontá-las.

As duas formas de extração de renda se encontram no balanço do Banco Central. As reservas internacionais que protegem o Brasil da coerção externa foram acumuladas durante o boom das commodities, num contexto de juros elevados que atraíam capitais estrangeiros. Essas reservas oferecem rendimentos relativamente baixos em dólares, enquanto seu financiamento envolve dívida interna remunerada a taxas próximas da Selic. O custo de sustentar essa proteção externa integra, portanto, a conta de juros paga aos credores domésticos. Parte da renda financeira interna é o preço que o Brasil paga por sua capacidade de resistir às pressões externas. A esquerda deveria saber o que está pagando—e saber que o preço foi fixado pelos credores, e não pelo país. Um Banco Central que levasse a taxa básica para perto dos níveis de seus pares não perderia as reservas. Reduziria a renda sobre elas.

Social-desenvolvimentismo contido

O terceiro governo Lula foi uma unidade contraditória. De um lado, redistribuição real. O salário mínimo subiu acima da inflação todos os anos. O imposto de renda deixou de ser cobrado de quem ganha até R$ 5 mil por mês, criou-se um imposto mínimo para os muito ricos, e os grandes dividendos passaram a ser tributados pela primeira vez desde 1996. De outro, uma jaula macroeconômica neoliberal que o governo escolheu manter. Chamei essa combinação de social-desenvolvimentismo contido: redistribuição trancada dentro de uma regra fiscal e de um regime de juros herdados dos adversários.

A jaula tem três grades. A primeira é a meta de inflação. Em junho de 2023, o Conselho Monetário Nacional, presidido pelo ministro da Fazenda, manteve a meta em 3%, patamar estabelecido durante o governo Bolsonaro. Isso deu a um Banco Central autônomo, hoje dirigido por um indicado do próprio Lula, o mandato para manter o aperto. A segunda grade são os bancos públicos. Em 2012, eles serviram para derrubar os juros. Até setembro de 2026, um empréstimo pessoal custava mais no Banco do Brasil e na Caixa do que no banco privado mais barato da pesquisa do Procon-SP.5Procon-SP, pesquisa mensal de juros do empréstimo pessoal (taxas máximas pré-fixadas, 12 meses), seis bancos: em 1º de setembro de 2026, Banco do Brasil 7,43% ao mês, Caixa 8,00%, Safra 7,25%, Itaú 9,49%, Bradesco 9,79%, Santander 9,99%; em 2 de outubro, Banco do Brasil 5,86% e Bradesco 10,72%, demais sem alteração (InfoMoney, 15/9/2026; Gazeta Brasil, 14/10/2026). A terceira grade é o arcabouço fiscal de 2023, que limita o crescimento do gasto primário e deixa a conta de juros fora de seus limites. Sob ele, o Bolsa Família ficou congelado de março de 2023 até poucos dias antes da eleição, e o Tesouro fechou as metas com o imposto sobre as bets, que o próprio governo regulamentou em nome do ajuste e proibiu nove dias antes do primeiro turno. Parte do ajuste foi, assim, financiada pelas perdas dos mais pobres nas plataformas de apostas.

É nesse arranjo que se encontra a explicação para o paradoxo eleitoral de outubro. Pleno emprego combinado com juros de 445% no rotativo do cartão não garante a reeleição de um governo. Muitos trabalhadores sentiram a jaula, não a redistribuição, pautados também pela crítica feroz da grande imprensa ao crescimento da dívida pública. Mas os efeitos do endividamento não dependiam apenas dessa narrativa: chegavam concretamente, todos os meses, na fatura do cartão. A redistribuição, por sua vez, chegava uma vez por ano, no decreto do salário mínimo. Numa economia do endividamento, crescimento e emprego podem não bastar para vencer uma eleição. O custo da dívida pode ser decisivo.

O programa econômico da extrema-direita

Flávio representa os interesses associados às duas rendas, e é competitivo porque esconde a segunda atrás da primeira. Faz da segurança pública uma bandeira central, prometendo presídios federais inspirados no modelo salvadorenho, e defende cortes generalizados de impostos. O que seu programa não explicita apareceu duas vezes na imprensa: aposentadorias, o benefício assistencial pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda e os pisos constitucionais de saúde e educação passariam a ser corrigidos apenas pela inflação. Seus assessores econômicos também discutem um corte de gastos de 1,5% do PIB, cerca de R$ 190 bilhões.6Folha de S.Paulo, abril de 2026, sobre o programa, e o desmentido da campanha (Correio Braziliense, abril de 2026); Gazeta do Povo, 3/8/2026, sobre o corte de R$ 190 bilhões anunciado por Daniella Marques; Folha de S.Paulo, 8/10/2026, via NC News, sobre os cenários para aposentadorias e pisos, https://ncnews.com.br/2026/10/08/flavio-avalia-mudar-regras-da-previdencia-saude-e-educacao-para-economizar-ate-r-250-bilhoes/ Flávio classifica as reportagens como fake news, mas não esclarece como alcançaria essa redução.

A dificuldade é aritmética: cerca de nove décimos das despesas federais são obrigatórias. Preservados os benefícios, um corte dessa magnitude teria de recair quase inteiramente sobre o décimo restante, que financia investimentos, universidades e o funcionamento da administração pública. Nenhuma das propostas anunciadas altera a conta de juros. O Brasil já experimentou uma política de contenção prolongada das despesas com o teto de gastos de 2017, período em que a economia cresceu, em média, 1,4% ao ano antes da pandemia. As medidas discutidas pela equipe de Flávio apontam para um ajuste fiscal ainda mais profundo, com consequências especialmente graves para os serviços públicos e seus usuários de menor renda.

Mas o projeto político vai além do orçamento. Entre os evangélicos, aproximadamente um quarto da população, Flávio recebeu o dobro dos votos de Lula no primeiro turno; nas pesquisas para o segundo, essa proporção se aproxima de três para um. Prometeu anistiar o pai “ainda na transição” e, caso não consiga aprovar a anistia, conceder-lhe um indulto. Em abril, o Congresso já havia sinalizado apoio à redução das penas dos condenados pelos ataques de 8 de janeiro de 2023, ao derrubar o veto de Lula à medida. A partir de fevereiro, a direita ocupará 49 das 81 cadeiras do Senado, número superior aos três quintos exigidos para aprovar uma emenda constitucional naquela Casa, embora a aprovação também dependa da Câmara dos Deputados. O racismo e a misoginia presentes no discurso bolsonarista são dimensões importantes dessa disputa, mas não explicam, isoladamente, a dinâmica eleitoral: mulheres, negros e eleitores de menor renda já constituem parcelas importantes da base de Lula. Uma das questões centrais é o comportamento dos trabalhadores endividados, para os quais o custo do crédito e as dificuldades financeiras cotidianas podem pesar mais do que os indicadores agregados de emprego e renda. O eleitor em disputa é o trabalhador endividado que votou em Flávio pensando no nome sujo.

Os brasileiros não votaram em Flávio no primeiro turno por causa da soberania. Votaram preocupados com as próprias dívidas. Ainda assim, a experiência da guerra tarifária oferece uma chave para compreender o segundo turno: a soberania conquista apoio popular quando produz benefícios concretos. Milhões de brasileiros defenderam o Pix porque ele lhes poupa dinheiro todos os dias. O mesmo princípio pode orientar a política de crédito, o orçamento público e as condições em que o Brasil explora e comercializa seus recursos. Os bancos públicos podem cortar juros e forçar os privados a seguir, como fizeram em 2012. A meta de inflação pode ser fixada onde a produtividade do país permite, e não onde um governo derrotado a deixou. A regra fiscal pode excluir o investimento público e a capitalização de Petrobras, Eletrobras e BNDES, único modo de o comércio com a China virar estratégia de desenvolvimento em vez de conta de commodities. A queixa comercial de Washington pode ser respondida com o licenciamento compulsório de patentes de medicamentos, que a lei brasileira já permite: uma retaliação que baixa preços em vez de subi-los. Data centers e terras raras podem ser oferecidos a qualquer um, com uma condição: transferência de tecnologia, participação pública e eletricidade vendida a preço de custo aos brasileiros antes de ser vendida aos servidores. Em termos concretos, a soberania é também a capacidade de arbitrar entre polos poderosos. Ela ganha eleições quando paga.

Uma dessas propostas de redistribuição acaba de passar por um teste político, sem custar um centavo do Tesouro. A escala 6×1, seis dias de trabalho por um de descanso, dispensa apresentação para quem trabalha no comércio, na segurança ou na limpeza. O movimento para acabar com ela nasceu fora dos partidos, do vídeo de um balconista de farmácia no TikTok, em 2023. A PEC reduz a semana de 44 para 40 horas e garante dois dias de folga, sem corte de salário. A Câmara a aprovou em maio. No Senado, a direita trabalhou no escuro: esvaziou o plenário em setembro para impedir a votação. Flávio chamou a PEC de “inoportuna e eleitoreira”, e mais de três mil entidades patronais assinaram manifesto contra. Sete em cada dez brasileiros são favoráveis ao fim da escala: 72% de quem ganha até dois salários mínimos, 36% de quem ganha mais de cinco e 54% dos eleitores do próprio Flávio. Nenhum outro tema divide o eleitorado tão claramente por classe e tão pouco pelas linhas que favorecem a direita. A comerciária evangélica trabalha os mesmos seis dias por semana que a católica.

No segundo turno, Lula fez da PEC um plebiscito: um teste público das posições de cada campo político. Em 13 de outubro, depois de visitar o pai, Flávio mudou de posição anunciou que votaria a favor, “porque a maioria dos trabalhadores quer”. Na noite seguinte, o Senado aprovou a emenda à Constituição em dois turnos, por 75 votos a 1. Em 16 de outubro, o Congresso a promulgou, com Lula presente no plenário. A obstrução da direita funcionou enquanto ninguém estava olhando. À luz do dia, a direita votou com o trabalhador porque não podia votar contra ele, mas entre os aliados de Flávio já se fala em rever a redução da jornada em 2027—e o próprio candidato já afirmou a setores do empresariado que pretende mudar a regra caso seja eleito. 

A lição vale mais do que a vitória. A proposta não alterava o arcabouço fiscal, a meta de inflação nem a conta de juros, o que impedia a Fazenda de recorrer aos argumentos orçamentários habitualmente mobilizados contra outras demandas populares. Ela transfere tempo do lucro para o trabalhador num mercado em pleno emprego, em que os empregadores podem pagar. A medida tornou visível um conflito distributivo que atravessa as divisões eleitorais, sem exigir que Lula rompesse com seus compromissos fiscais. E avançou em poucos dias porque as posições dos parlamentares foram submetidas ao escrutínio público. É a demanda que o rentista não consegue precificar e o império não consegue sancionar. 

Na reta final, Lula também começou a distribuir o que o arcabouço segurou por três anos: um reajuste do Bolsa Família, o primeiro desde 2023; um pacote para os 17 milhões de microempreendedores individuais, com teto de faturamento maior, perdão de R$ 12,6 bilhões em dívidas tributárias e um repasse a fundo perdido de até R$ 5 mil para um milhão deles a partir de 2027; e a promessa de uma PEC do passe livre nos fins de semana, para que quem sai da escala 6×1 possa usar a folga. São medidas populares—e são as que o social-desenvolvimentismo contido não entregou enquanto o arcabouço e a conta de juros vinham na frente. Boa parte ainda é promessa. Mas a direção é a mesma revelada pela disputa em torno da jornada de trabalho: o que a jaula segurou por três anos, a campanha solta em três semanas.

O próximo passo tem que ser o crédito, porque a redução da jornada fala com quem tem carteira assinada, mas o endividamento atinge uma parcela muito mais ampla da população. O pacote dos MEIs é tímido nesse ponto: nada nele baixa o que os bancos públicos cobram das famílias. Na véspera do primeiro turno, o Banco do Brasil demonstrou que havia margem para agir. Reduziu a taxa mensal do crédito pessoal de 7,43% para 5,86%, tornando-a a menor entre os seis bancos pesquisados pelo Procon-SP. A Caixa, que cobrava 8% ao mês, não acompanhou a redução, tampouco as taxas do cartão de crédito. O precedente é o de 2012: bancos públicos reduzindo os juros do crédito pessoal e do cartão, pressionando os privados a acompanhá-los, por iniciativa do próprio governo como acionista controlador, sem depender do Congresso nem do Banco Central.

Mas os limites dessa estratégia continuam presentes. Em 13 de outubro, o Ministério do Planejamento apresentou a trajetória fiscal proposta para um eventual quarto mandato de Lula: passar de um déficit de 0,5% do PIB para um superávit de 1,5% em 2030, preservando o arcabouço fiscal. A jaula continua no programa de governo, e a esquerda deveria arrancar agora, enquanto Lula precisa de cada voto, o compromisso de que o investimento público e a capitalização dos bancos públicos fiquem fora dela.

O que está em jogo no segundo turno

A história favorece Flávio: nos sete segundos turnos presidenciais realizados desde 1989, venceu quem liderou o primeiro. Mas nenhum daqueles primeiros turnos teve diferença inferior a cinco pontos entre os candidatos, e nenhum teve um adversário que mudasse de lado na principal bandeira do oponente a doze dias da votação final. 

Uma vitória de Flávio sinalizaria ao restante da América Latina que o último grande contrapeso regional se alinhou a Washington e que a onda de direita agora inclui a maior economia do continente. Para os Estados Unidos, significaria que aquilo que a coerção externa não conseguiu obter poderia ser entregue por um governo aliado. O pré-sal e a rede elétrica brasileira seriam incorporados a um bloco energético hemisférico. As terras raras seriam refinadas para abastecer as cadeias produtivas estadunidenses, os data centers seriam alimentados às custas do Brasil, e o Pix e as plataformas seriam abertos às bandeiras de cartão e às empresas de tecnologia. A classificação de organizações criminosas brasileiras como terroristas permaneceria como instrumento de pressão sobre o sistema financeiro nacional. A renda doméstica seria protegida por uma austeridade mais profunda, paga pelas aposentadorias e pelo SUS. E a anistia diria a quem tentar um golpe no hemisfério que, se tudo der errado, basta esperar.

Uma vitória de Lula, por sua vez, exporia os limites que o primeiro ano da estratégia estadunidense já revelou. Seus dois pilares, o domínio energético e o controle da infraestrutura computacional, estão em disputa. A guerra contra o Irã, iniciada em fevereiro em torno do controle do estreito de Ormuz, transformou-se num conflito prolongado em que Teerã passou a emitir autorizações de passagem e cobrar pedágios pela travessia. A própria imprensa de Washington já descreve Ormuz como “um ativo iraniano”. Ao mesmo tempo, modelos chineses de inteligência artificial de pesos abertos circulam fora do alcance direto dos controles estadunidenses sobre semicondutores. No hemisfério, a doutrina de Trump encontra limites na dimensão e na diversificação das economias que pretende subordinar. Tampouco consegue fazer seus aliados abandonarem a demanda chinesa ou, até aqui, assegurar a vitória na eleição brasileira.

O Brasil preservaria, assim, sua posição de comercial com diferentes potências sem se alinhar integralmente a nenhuma delas. Continuaria sendo uma democracia que condenou os responsáveis por uma tentativa de golpe apesar das sanções estrangeiras e que rejeitou nas urnas aqueles que as solicitaram. Mas essa vitória não resolveria a contradição interna do governo. Um quarto mandato que simplesmente repetisse o terceiro, promovendo redistribuição dentro das mesmas restrições macroeconômicas, continuaria vulnerável a um Congresso cada vez mais hostil. A disputa pelo fim da escala 6×1 apontou outro caminho: mobilização popular, definição de prazos e exposição pública de um conflito distributivo diante do qual a direita não conseguiu sustentar sua oposição. A renda imperial e a renda doméstica saem do mesmo excedente. Uma soberania que melhore concretamente a vida dos brasileiros é a resposta às duas. É também o caminho para romper com a dependência como projeto político.


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