22 de outubro de 2026

Entrevistas

O pêndulo brasileiro

As oscilações da burguesia entre a democracia e o autoritarismo e a consolidação do bolsonarismo nas eleições de 2026

A política brasileira recente tem sido marcada por sucessivas reviravoltas e realinhamentos de classe, que se expressam em uma disputa pela própria configuração  do regime político do país. Para compreender essa dinâmica, é preciso olhar além das oscilações conjunturais e retomar as interpretações do pensamento social e político brasileiro sobre as estruturas de longa duração do capitalismo dependente. É sob essa lente que o cientista político André Singer, professor titular da Universidade de São Paulo (USP), examina o processo eleitoral em curso no Brasil.

Autor de obras fundamentais para a compreensão do lulismo e da política brasileira, Singer recém-lançou o livro Impasse, em que retoma e atualiza interpretações clássicas para investigar os dilemas contemporâneos do país. Partindo da tese do comportamento pendular da burguesia brasileira—formulada originalmente por Fernando Henrique Cardoso—, ele analisa o comportamento de frações das classes dominantes do Brasil, que oscilam entre o apoio a arranjos democrático-modernizantes e a adesão a alternativas autoritárias quando se veem ameaçadas pelos processos de integração social. 

Nesta entrevista a Hugo Fanton e Daniel Pavan, editores da PW, Singer examina o panorama político atual que, segundo ele, se caracteriza pela disputa entre duas grandes coalizões: a “Confederação” bolsonarista e a “Concertación” lulista. Essa polarização se articula, por sua vez, com a disputa entre três regimes políticos: o democrático, o semipresidencialista e o autocrático de viés fascista. Ao discutir as bases sociais e ideológicas dessas coalizões, Singer aborda a formação de um “Bible Belt” brasileiro, o peso do custo de vida no comportamento eleitoral e a consolidação do bolsonarismo enquanto conceito, a grande novidade das eleições presidenciais de 2026.

Entrevista com André Singer

Hugo Fanton: O livro Impasse parte de uma interpretação de longo alcance da sociologia política brasileira, formulada por Fernando Henrique Cardoso: o comportamento pendular da burguesia brasileira, que oscila entre o imobilismo e a mudança social, reproduzindo o atraso a cada avanço no processo de modernização. Como devemos pensar a relação das classes dominantes brasileiras com a política, e de que modo a palavra impasse traduz, em termos atuais, o comportamento pendular? 

André Singer: Adotei como hipótese de trabalho a ideia de que a burguesia brasileira possui interesses contraditórios. O aspecto mais significativo da formulação de Fernando Henrique Cardoso é demonstrar que a oscilação entre autoritarismo e democracia não é um comportamento aleatório ou inesperado no Brasil, como pode parecer quando observamos as classes dominantes no plano internacional. Aqui, esse comportamento tem uma base material. Os interesses da burguesia brasileira são objetivamente contraditórios e, portanto, sua ação política também é objetivamente contraditória. Essa é uma hipótese com alto poder explicativo para o que vem ocorrendo nos últimos anos no país. 

Se observarmos o processo de impeachment de Dilma Rousseff, ponto de partida do que venho chamando de onda reacionária no Brasil, esse comportamento fica evidente. A burguesia, que havia apoiado e desempenhado um papel importante na redemocratização, começa a se deslocar a partir do final de 2014, quando o PSDB não reconhece a vitória eleitoral da ex-presidenta. Esse deslocamento acabou desaguando, de forma talvez inesperada, no bolsonarismo em 2018.

O bolsonarismo emergiu no espectro dessa onda, mas também como reflexo de uma transformação global, simbolizada pelo Brexit e pela vitória de Donald Trump em 2016, coincidentemente o mesmo ano do impeachment. Bolsonaro surfou nessa onda e conferiu a ela um caráter de extrema-direita que inicialmente não possuía. 

A fração cosmopolita da burguesia, que reúne o setor mais moderno da classe dominante, manteve-se relativamente neutra na eleição de 2018, enquanto o setor não cosmopolita apoiou Bolsonaro de imediato. Essa neutralidade permitiu a vitória bolsonarista. Contudo, cerca de três anos depois, durante a pandemia, a fração cosmopolita rompeu com o governo e se alinhou à defesa da democracia. Isso ficou evidente no ato de 11 de agosto de 2022 no Largo São Francisco e no posicionamento da Casa Branca durante o processo eleitoral brasileiro, quando sinalizou que não aceitaria um golpe ou o não reconhecimento do resultado eleitoral. 

Essa dupla tomada de posição, da burguesia cosmopolita e dos Estados Unidos, foi decisiva para conter a tentativa de golpe militar. Aproveito para registrar que, de todos os países que acompanho nesse processo global de autocratização, o Brasil foi o único em que se verificou uma tentativa de golpe militar clássica. 

Veja que temos aí uma oscilação. Primeiro, um posicionamento favorável àquilo que o Wanderley Guilherme dos Santos corretamente caracterizou como um golpe parlamentar, em 2016; seis anos depois, uma tomada de posição em defesa da democracia, num momento em que havia um avanço autocrático em curso. Nas eleições de 2026, não está claro qual é o posicionamento desse setor mais moderno da burguesia. 

Parece-me, portanto, que a hipótese do pêndulo, sugerida por Fernando Henrique há mais de 50 anos, continua fértil para entendermos essas oscilações, às vezes muito rápidas, que respondem a interesses objetivos. O pêndulo sugere exatamente isso: a burguesia recorre ao autoritarismo quando a democracia ameaça seus interesses objetivos, mas o autoritarismo cobra um preço alto em termos de perda de liberdade. Essa contradição ajuda a explicar as rápidas oscilações da política brasileira. E, no momento atual, ainda não está claro para que lado o pêndulo vai se mover.

Daniel Pavan: O senhor poderia situar brevemente como Fernando Henrique Cardoso formula essa contradição da burguesia em O Empresário Industrial? 

AS: Fernando Henrique aponta que a burguesia mais moderna, como é natural, tem interesse na modernização capitalista. Para isso, alia-se ao Estado para promover reformas modernizantes. Ocorre que essas reformas são também democratizantes e tendem a fortalecer as camadas populares. Em 1964, se não houvesse o golpe militar, o Estado tenderia a avançar em reformas que ultrapassariam o limite do que a burguesia considera aceitável para seus interesses objetivos. Há, portanto, uma contradição objetiva: a burguesia empurra o Estado em determinada direção e, em seguida, retira o apoio, provocando a queda da liderança política que está conduzindo as reformas.  

Isso também ocorreu no primeiro governo Dilma. Quando as reformas começam a atravessar essa “linha vermelha”, a burguesia se unifica contra o processo, mesmo que isso implique desrespeitar as regras constitucionais. No caso de Dilma, embora o impeachment seja um instrumento constitucional, sua aplicação exige a perpetração de um crime de responsabilidade, o que não foi comprovado, como apontaram até veículos insuspeitos como a Folha de S. Paulo. Por isso, o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos chamou o processo de golpe parlamentar. No livro, proponho chamá-lo de golpe parlamentarista. 

HF: Há também a discussão de como esse processo reformista toca no nervo do capitalismo dependente, estruturado em torno da superexploração do trabalho e da manutenção do exército industrial de reserva. 

AS: Sim. O tipo de desenvolvimento que o capitalismo brasileiro assumiu pressupõe a exclusão social, pois exige mão de obra extremamente barata, garantida pela manutenção de um enorme exército industrial de reserva, muito maior do que o habitual. 

Já a questão da dependência diz respeito à necessidade do capitalismo brasileiro de seguir a pauta e o compasso ditados pelo centro do capitalismo mundial. Até o final dos anos 1970, o arranjo global permitia e pressupunha a industrialização do Brasil. Com a transferência do polo industrial global para o Leste Asiático, sobretudo para a China, o Brasil iniciou um processo de desindustrialização, reorientando a economia para a produção primário-exportadora. São, portanto, dois fatores articulados: a subordinação à dinâmica do mercado mundial e as características internas da exploração do trabalho. 

DP: A relação entre as classes dominantes e a política na atual conjuntura é debatida no livro a partir da formação de duas coalizões de classe que polarizam a disputa eleitoral, a “Confederação” bolsonarista e a “Concertación” lulista. Como o senhor caracteriza essas coalizões e sua composição social? Há indícios, no cenário eleitoral atual, de novos deslocamentos de classe entre elas ou para fora delas?

AS: Elaborei a ideia de “Confederação” ao analisar as eleições de 2022. Busquei entender qual coalizão de classe sustentava Bolsonaro ao fim de seu mandato, permitindo-lhe chegar tão perto da vitória. Trata-se de um arranjo heterogêneo, que articula diferentes frações de classe e setores corporativos. No plano das frações de classe, destaca-se o agronegócio. O mapa eleitoral de 2022 mostra um corredor contínuo de votação bolsonarista que vai do norte do Rio Grande do Sul, atravessa Santa Catarina, Paraná, o interior de São Paulo e de Minas Gerais, abre-se no Centro-Oeste e alcança o sul da região Norte, incorporando setores extrativistas e garimpeiros beneficiados pela flexibilização das normas ambientais e pelo enfraquecimento da defesa dos povos originários. A esse bloco somaram-se o setor de serviços e os pequenos e médios empresários, inseridos numa onda de empreendedorismo que possivelmente corresponde a uma variação do capitalismo brasileiro. 

No plano corporativo e social, a Confederação conta com dois pilares fundamentais: o segmento evangélico e as forças de segurança. Os evangélicos funcionam como o “Nordeste do bolsonarismo”. Representam cerca de 30% do eleitorado, com votações na casa dos 70% a favor da extrema-direita, índice comparável ao que o lulismo obtém no Nordeste. Temos aí a constituição de um “Bible Belt” brasileiro, uma base muito sólida do bolsonarismo. As forças de segurança, por sua vez, abrangem não apenas os militares, mas também policiais civis, parte da Polícia Federal e um vasto setor de segurança privada. Esses segmentos se alinharam a Bolsonaro porque, desde 2018, como é típico da extrema-direita, ele coloca a questão da segurança pública no centro do seu programa.

Denominei esse bloco de Confederação, em alusão ao Sul dos EUA na Guerra Civil, para destacar a acentuada divisão geográfica e cultural que se estabeleceu no Brasil, acompanhada por manifestações, sutis ou explícitas, de preconceito regionalista e racial. Com esse termo, quis chamar a atenção para uma tensão inédita na política brasileira. Não havia uma divisão dessa natureza aqui. Ela é resultado do fenômeno que agora talvez possamos conceituar, de maneira mais rigorosa, como bolsonarismo.

Por outro lado, a “Concertación” é a frente ampla estruturada para deter a autocratização. É composta por duas vertentes principais: o PT e o lulismo, e setores do antigo PSDB com a fração cosmopolita da burguesia. O PT é o partido mais organizado e capilarizado do país, com adesão de 30% do eleitorado, percentual muito superior ao de qualquer outro partido. O lulismo, por sua vez, vai além do PT e expressa um programa de superação da pobreza sem confronto direto com o capital, tendo como referência a figura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É herdeiro do “campo popular”, segmento do eleitorado inaugurado por Getúlio Vargas em 1945 com o advento da democracia de massa. 

O lulismo, com isso, tem um grande potencial de votos. O Brasil é um país muito desigual, em que cerca de 85% do eleitorado pertence a famílias com renda mensal de até cinco salários mínimos. Não à toa, ganhou quatro eleições consecutivas, entre 2002 e 2014. Mas, para o retorno de Lula em 2022, foi necessária a constituição de uma frente capaz de interromper o processo de autocratização, unindo esse campo aos remanescentes do antigo PSDB.

Essa segunda vertente é simbolizada pela figura do vice-presidente Geraldo Alckmin e conta com o apoio dos setores financeiro e industrial mais modernos, justamente aqueles que rivalizavam com o PT até 2014. Disso vem o termo que escolhi, em referência à Concertación chilena, que uniu socialistas e democratas-cristãos para derrotar a direita e virar a página da ditadura de Pinochet. Essa aproximação entre o PT e setores do antigo PSDB teve o respaldo da fração mais moderna da burguesia brasileira, que historicamente encontrava representação política no PSDB e que, na reta final do segundo turno de 2022, declarou voto no presidente Lula.

HF: Ao analisar a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições de 2018, Roberto Schwarz afirmou que, assim como no golpe de 1964, Bolsonaro defendeu um programa abertamente pró-capital e mobilizou, para se tornar politicamente viável, um “fundo regressivo” da sociedade brasileira. A mobilização dessas disposições profundas do eleitorado também aparece na análise do senhor sobre a reativação da direita no Brasil, apontando para o renascimento da ideologia como componente fundamental da disputa eleitoral. O gráfico 2 do livro Impasse (figura abaixo) mostra que, em 2022, 47% do eleitorado se identificava com a direita no espectro ideológico, curiosamente, o mesmo percentual obtido por Flávio Bolsonaro no primeiro turno de 2026. Como devemos compreender o componente ideológico na disputa política brasileira atual? E como correlacionar esse elemento ideológico com os fatores materiais expostos no capítulo 3 do livro, como aumento do custo de vida e preço dos alimentos?

Autolocalização nos campos ideológicos entre 2002-2022, em %, gráfico em André Singer, Impasse, São Paulo: Companhia das Letras, 2026, 57, fig. 2

AS: A ideologia é um fator de longo prazo. Ela se consolida no momento em que a pessoa está formando a própria personalidade, sua visão de mundo, e permanece como um substrato duradouro. Justamente por isso, ela não é uma boa explicação para as variações de cada conjuntura. É uma explicação que atravessa as conjunturas. A pergunta, então, passa a ser: por que o fator ideológico muda de uma conjuntura para outra? Porque a ideologia precisa ser ativada pelos agentes políticos para desempenhar algum papel. 

No Brasil, os estudos indicam que o eleitorado tem uma inclinação histórica conservadora ou de direita. Durante o período da polarização entre PT e PSDB, a linguagem ideológica direta (esquerda versus direita) foi desativada. Ao PSDB interessava captar os votos da direita sem se assumir como tal, e ao lulismo interessava atrair setores populares conservadores. A extrema-direita rompeu esse amortecimento a partir de 2014, sobretudo no processo de impedimento de Dilma, reativando abertamente o discurso ideológico. 

A extrema-direita corresponde a até 15% do eleitorado, mas foi quem reativou o elemento ideológico e atraiu para si o conjunto da direita. Quem se beneficiou desse processo foi justamente quem estava preparado para falar a linguagem da ideologia: Jair Bolsonaro, que, até então, não tinha relevância alguma na política brasileira. O bolsonarismo capturou a disposição conservadora difusa presente em grande parte do eleitorado e deu a ela vocalização política, em sintonia com movimentos internacionais, como o representado por Trump. É uma linguagem de extrema-direita que se tornou pervasiva no mundo inteiro.

Mas, quando a ideologia é ativada de um lado, ela é automaticamente ativada do outro. A grande manifestação de rua recente em São Paulo, talvez a maior da história da esquerda na cidade, mostra a polarização ideológica em curso. E vale lembrar que isso não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. A esquerda nos Estados Unidos está crescendo também, o que é compreensível, pois o combate político passa a ser mais ideologizado.

Além disso, depois deste primeiro turno em 2026, podemos dizer com bastante tranquilidade que o bolsonarismo persistirá apesar do isolamento do ex-presidente. Esse grupo é minoritário no eleitorado, mas tem um potencial político que extrapola sua base. Isso ficou muito claro quando o candidato natural à vaga de presidente, o governador Tarcísio de Freitas, de São Paulo, foi simplesmente posto de lado pela indicação do filho de Jair Bolsonaro, Flávio, que não contava com nenhum apoio além do próprio pai. Veja a força do bolsonarismo: descartou o candidato que contava com apoio de toda a direita e uma simpatia muito clara da burguesia brasileira, em nome de uma decisão unilateral do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Estamos caminhando para um realinhamento eleitoral semelhante ao de 2006, quando as camadas populares, sobretudo as da base da pirâmide, se deslocaram na direção de Lula, enquanto as demais se aproximaram do PSDB. Em 2018, entramos numa espécie de interregno. Nas eleições de agora, podemos estar caminhando para um novo realinhamento, com o lulismo mantendo-se de um lado e o bolsonarismo consolidando-se do outro. 

Além desses dois grandes blocos com sinais ideológicos diferentes, temos um terceiro terço do eleitorado que é menos ideológico e mais pragmático. Esse bloco intermediário oscila e decide as eleições, pois suas escolhas são orientadas, sobretudo, pelos benefícios materiais objetivos que possam ter obtido ao longo do mandato anterior ou que esperam para o próximo mandato. 

Aqui entra o elemento material. Esse eleitorado avalia a situação concreta do seu dia a dia: inflação, custo de vida e preço dos alimentos. Como aponta a economista Isabella Weber, nas eleições em vários países em 2024, os governos que não souberam lidar com a inflação tiveram dificuldade de vencer. Foi a “maldição do incumbente”, em que governos em todo o mundo enfrentaram rejeição popular em razão da inflação. 

Para disputar esse eleitorado pragmático, o governo Lula desenvolveu uma série políticas voltadas diretamente às condições materiais da população: a isenção do Imposto de Renda, a regulação e posterior proibição das bets, a pauta de redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais e do fim da escala 6×1 em favor de duas folgas por semana—considerada pela Fundação Perseu Abramo a maior vitória trabalhista desde a Constituição de 88—, a oferta de canetas emagrecedoras no SUS, o reajuste do Bolsa Família e o programa Desenrola 3. O governo procura demonstrar concretamente o que tem feito por essas camadas da população. Do outro lado, o candidato da oposição promete promover mudanças que também tragam benefícios materiais a esses eleitores. Essa é a disputa em curso.

HF: Um componente importante da dimensão ideológica é a relação entre as bases sociais ligadas ao pentecostalismo e a extrema-direita. No livro, o senhor sugere que certos ramos pentecostais funcionam como uma espécie de Bible Belt tupiniquim, em referência ao cinturão da Bíblia na região Sudeste dos EUA, formado no processo de colonização, com fortes traços culturais ligados ao protestantismo e, sobretudo, à Igreja Batista. Poderia desenvolver esse argumento? Em que medida a relação entre pentecostalismo e extrema-direita revela o peso de disposições ideológicas duradouras no comportamento eleitoral, para além de fatores conjunturais?

AS: O Brasil passou por uma enorme transformação nas últimas décadas. O catolicismo era algo que definia o Brasil, era um aspecto importante da identidade nacional, completamente capilarizado na sociedade. A enorme maioria da população era católica. E o país deixou de ser homogeneamente católico para ter uma presença evangélica em forte expansão, em todos os sentidos.

Politicamente, no entanto, esse setor não estava unificado. Historicamente, o voto evangélico era fragmentado. Nos governos Lula e Dilma, diversas lideranças evangélicas compunham a base aliada. O salto qualitativo ocorreu com Jair Bolsonaro, que unificou politicamente grande parte desse segmento em torno de seu projeto ideológico, promovendo uma assimilação simbólica e institucional, com nomeação de ministros, indicações para o STF e recepção de bispos no Palácio do Planalto. 

A partir de então, o segmento evangélico passou a agir em bloco e em consonância com a extrema-direita. É nesse momento que se constituiu um Bible Belt brasileiro, parecido com o americano. Nos Estados Unidos, há muitas décadas, o eleitorado evangélico se identifica com os republicanos e, mais recentemente, com Trump. O bolsonarismo, por sua vez, inspirou-se diretamente no trumpismo, chegando a copiar certas políticas, posturas e palavras de ordem.

A formação desse Bible Belt cria um bloco eleitoral coeso. Mesmo diante das oscilações em torno das candidaturas, como no debate sobre a indicação de Flávio Bolsonaro, as pesquisas indicam que cerca de 70% desse segmento permanece inclinado ao voto bolsonarista. Trata-se de um elemento central da consolidação do bolsonarismo enquanto movimento e conceito, que encontra no Bible Belt uma de suas bases mais duradouras. 

Temos, então, dois processos articulados: a consolidação do bolsonarismo como conceito e a formação, em seu interior, de um Bible Belt brasileiro, constituído pela adesão da maioria das confissões evangélicas a esse campo político. Isso indica que o bolsonarismo continuará sendo um fenômeno duradouro na política brasileira, com o qual será necessário lidar, qualquer que seja o resultado destas eleições. 

DP: Quero retomar a ideia do pêndulo da burguesia e relacioná-la a outro argumento do livro, a existência de três regimes políticos em disputa no Brasil: o regime democrático; o parlamentar ou semipresidencialista—que assume aqui um caráter antidemocrático por representar o controle do processo político pelo Centrão—; e, por fim, o autocrático de viés fascista, representado, sobretudo, pela família Bolsonaro. Como o senhor caracteriza esses três regimes políticos em disputa e de que maneira essa disputa se manifesta nas eleições de 2026?

AS: As eleições presidenciais no Brasil são o momento em que as camadas populares expressam o que esperam do Estado. É o único momento institucional em que elas intervêm na política brasileira. Já as eleições legislativas são muito influenciadas pelos poderes locais. São máquinas políticas oligárquicas localmente estruturadas que dominam as eleições legislativas. Isso explica bastante o tipo de composição que temos, sobretudo, na Câmara dos Deputados. As eleições presidenciais no Brasil são, em alguma medida, um reflexo da situação da luta de classes, porque constituem o momento em que o campo popular se expressa. Quando a luta de classes atinge um ponto de curto-circuito, como ocorreu quando o governo Dilma tentou acelerar as transformações do lulismo, implementando certas reformas desenvolvimentistas que extrapolaram os limites do que o campo de classe média considerava aceitável, emerge uma competição entre regimes políticos. 

No golpe de 1964, havia uma situação de curto-circuito grave, pois as camadas populares pressionavam por reformas, como a agrária. Havia possibilidade de uma mudança estrutural significativa. Naquele momento, colocou-se um embate entre democracia e autoritarismo. Mas, quando ocorre esse curto-circuito, se apresentam três regimes em disputa, e não dois. O terceiro é o que hoje chamamos de semipresidencialismo. No período anterior a 1964, ele recebeu o nome de parlamentarismo, que chegou a ser adotado por um breve período para resolver a crise da renúncia de Jânio Quadros. 

O semipresidencialismo é uma forma atenuada de parlamentarismo e já se apresentava, de maneira subjacente, no processo de impedimento da presidenta Dilma. Por isso chamo o golpe contra Dilma de golpe parlamentarista. O objetivo não era apenas destituí-la, mas mudar o regime político para o semipresidencialismo. Aqui, preciso fazer uma ressalva. Tecnicamente, o parlamentarismo é democrático. Mas, no caso brasileiro, ele esvazia o único momento em que as camadas populares efetivamente participam da política: a eleição presidencial, pois a eleição legislativa está dominada pelos fatores que já mencionei. O semipresidencialismo transfere a condução da política econômica a um primeiro-ministro escolhido pelo Congresso Nacional. Isso interessa muito ao Congresso e a setores do Supremo Tribunal Federal, que declararam apoio à ideia semipresidencialista diversas vezes. Acredito que essa proposta ressurgirá quando houver uma situação mais conturbada no Brasil.

Estamos, portanto, diante de uma tríade de regimes em disputa: a democracia de 1988; o semipresidencialismo, que esvazia a eleição presidencial; e o autoritarismo, que pode assumir a forma de uma ditadura militar ou de uma autocratização do país. Este último é, explicitamente, o projeto do bolsonarismo, que busca o desmantelamento das garantias constitucionais, a autocratização gradual ou a transição para um autoritarismo competitivo. 

HF: Nas eleições de 2026, como o componente de viés fascista se manifesta?

AS: Nas disputas atuais, observamos a consolidação do bolsonarismo, agora estruturado também no interior de um grande partido como o PL, em diálogo com o Centrão e orientado pelo trumpismo internacional, o que reafirma a permanência do que chamo de viés fascista. 

Essa ideia de que o bolsonarismo pode estar transitando de movimento para conceito se fundamenta na força adquirida pelo PL no Congresso Nacional. Uma das características mais marcantes do bolsonarismo em sua fase inicial era a ausência total de uma estrutura partidária. Agora, estamos diante de um partido político que, diferentemente do fascismo histórico, não é militarizado. Pode até contar com a participação de agentes de forças de segurança enquanto candidatos, mas não se organiza a partir da formação de milícias, um elemento muito próprio dos fascismos italiano e alemão. 

Mas esse partido se estruturou hoje numa condição em que compete com o PT e até mesmo o supera. O bolsonarismo elegeu mais de 120 deputados, e o número de senadores chega a 30. A estrutura partidária do bolsonarismo, representada pelo PL, tende a convergir com a forma de funcionamento do Centrão. Não por acaso, o PL é dirigido por Valdemar Costa Neto, um político típico do Centrão.

O viés fascista, por sua vez, vem de outro elemento: o bolsonarismo está mais do que nunca atrelado ao trumpismo. Com a segunda vitória eleitoral nos Estados Unidos, o trumpismo passou a orientar diretamente o bolsonarismo. Um dos elementos que caracterizam esse viés fascista é o forte apelo ao inconsciente. Lideranças como Donald Trump não têm propriamente um programa definido. Não sabem exatamente o que fazer, e isso se reflete nas agruras pelas quais passa Trump neste momento. Não sabemos como tudo isso se desdobrará, mas entendo que o viés fascista se mantém no bolsonarismo como conceito. 

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