10 de junho de 2026

Análises

Capitalismo de Estado trumpista

Minerais críticos e intervencionismo econômico nos EUA

Da compra de participações acionárias em empresas privadas a ameaças de intervenção em companhias de defesa, passando por acordos de compartilhamento de receitas com fabricantes de semicondutores e por uma nova onda de tarifas e outras medidas protecionistas, é notório o esforço de Trump, em seu segundo mandato, em defender a propriedade estatal e a politização explícita da economia. “Acho que deveríamos ter participações em empresas. Alguns diriam que isso não parece muito americano. Na verdade, acho que é muito americano”, declarou o presidente no fim do ano passado.

As características distintivas do capitalismo de Estado trumpista aparecem com especial nitidez na busca dos Estados Unidos por garantir o acesso a “minerais críticos”, um conjunto cada vez maior de matérias-primas consideradas essenciais para a segurança nacional e o funcionamento da economia, cujo abastecimento é vulnerável a interrupções. Desde julho de 2025, o Export-Import Bank of the United States, a US International Development Finance Corporation e os Departamentos de Comércio, Energia e Guerra comprometeram cerca de US$ 25 bilhões em financiamentos para empresas e projetos de mineração desses insumos nos Estados Unidos, Reino Unido, Austrália, Brasil, Ucrânia, Cazaquistão, Arábia Saudita, Coreia do Sul, República Democrática do Congo e Jamaica. Em fevereiro de 2026, Trump lançou o Project Vault, um estoque estratégico de minerais críticos no valor de US$ 12 bilhões, e o vice-presidente JD Vance anunciou a intenção de criar um novo bloco comercial de minerais críticos “entre aliados e parceiros, que garanta aos Estados Unidos acesso ao seu próprio poderio industrial e, ao mesmo tempo, amplie a produção em toda essa área”. 

À medida que os Estados Unidos promovem uma corrida global pelo controle de recursos estratégicos, reorganizam cadeias produtivas e constroem alianças para conter a ascensão chinesa, os contornos do capitalismo de Estado trumpista tornam-se mais nítidos. Ao mesmo tempo, porém, também emergem seus limites, contradições e potenciais pontos de ruptura. Essa guinada intervencionista, centrada na segurança do abastecimento de minerais críticos e de outros insumos estratégicos, ocorre em um contexto mais amplo de ressurgimento do capitalismo de Estado em diversas partes do mundo e se apoia, ainda que de forma distinta, nas capacidades institucionais construídas pela política industrial verde do governo anterior. O resultado tende a redefinir tanto a disputa por estratégias de desenvolvimento verde no Sul global quanto os próprios termos do debate sobre política industrial e intervenção estatal nos Estados Unidos.

O capitalismo de Estado antes de Trump

Apesar de toda a encenação, Trump chegou tarde a essa agenda. Há pelo menos duas décadas, governos ao redor do mundo voltaram a recorrer à propriedade estatal, geralmente associada a diferentes formas de política industrial e, muitas vezes, com objetivos geoestratégicos. Esse processo marca a reinvenção do capitalismo de Estado no século XXI. Bancos de desenvolvimento, fundos soberanos, empresas públicas e fundos de capital de risco apoiados pelo Estado se multiplicaram, e o volume de capital e de ativos sob seu controle cresceu de forma extraordinária. No início de 2026, os fundos soberanos administravam, em conjunto, cerca de US$ 15 trilhões em ativos, ante menos de US$ 1 trilhão em 2000. As empresas estatais controlam ainda mais: US$ 54 trilhões em ativos, o equivalente a quase metade do PIB mundial, frente a aproximadamente US$ 13 trilhões em 2000.1Embora não haja dúvida de que a China exerce um peso significativo nesses dados, um vasto conjunto de estudos acadêmicos e de pesquisas voltadas à formulação de políticas públicas—incluindo relatórios do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial, da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e de outras instituições de governança global—demonstra que essa expansão não pode ser explicada apenas pela ascensão da China, nem pela chamada ascensão dos BRICS e de outras economias emergentes. Essas diferentes modalidades de empresas estatais e de entidades corporativas controladas pelo Estado têm origem em países de todos os níveis de renda e sob os mais diversos regimes políticos e estão amplamente presentes em países da OCDE. Entre 2017 e 2023, o ritmo de adoção de políticas industriais aumentou nove vezes. As restrições ao comércio também se tornaram um componente central da agenda do capitalismo de Estado. Tarifas de importação, bem como proibições, cotas e outras restrições às exportações cresceram acentuadamente ao longo da última década.

Essa mudança quantitativa reflete uma reorganização mais profunda da economia. O significado político da intervenção estatal se isentou das associações ideológicas do século XX—socialismo, social-democracia, fascismo e afins—e passou a ser apropriado por governos dos mais diversos matizes. Em uma reversão parcial das ondas de privatização e liberalização dos mercados que marcaram o auge do neoliberalismo entre os anos 1980 e 2000, governos voltaram a recorrer à propriedade estatal para assegurar objetivos industriais e de desenvolvimento diante das turbulências da economia global e da intensificação da competição geoeconômica.

Embora responda a tendências globais mais amplas e esteja inserido nelas, o que distingue o capitalismo de Estado trumpista? A instrumentalização das redes financeiras e tecnológicas dos Estados Unidos já figurava na estratégia de diversos governos anteriores. Biden, em particular, também já havia promovido uma política industrial voltada à indução do investimento privado, baseada na combinação de créditos tributários para investimentos privados em tecnologias verdes e minerais críticos com incentivos aos consumidores. A variante trumpista, porém, combina a enorme capacidade de intervenção do Estado americano com relações de caráter personalista e, mais, defende a propriedade estatal numa escala jamais cogitada por seu antecessor. 

Mas, ainda que esse último aspecto represente um ponto de inflexão no exercício de poder do Estado americano, não se trata de algo sem precedentes. Historicamente, nos EUA, iniciativas de governo impulsionaram avanços tecnológicos que, mais tarde, ganharam ampla aplicação comercial. Durante o New Deal, instituições públicas chegaram a assumir diretamente a propriedade e o controle de empresas como parte da construção de uma economia mista. Na Segunda Guerra Mundial, o governo federal ampliou suas funções de planejamento e coordenação por meio de instituições como o War Production Board. Em 1950, o Defense Production Act conferiu ao Estado instrumentos para direcionar a produção privada. Desde a década de 1950, já em tempos de paz, o governo adquiriu repetidas vezes participações acionárias em instituições financeiras e grandes empresas. No passado, intervenções como essas estiveram vinculadas a programas temporários de resgate financeiro; hoje, constituem a base jurídica para as iniciativas de Trump de ampliar a participação acionária do Estado em empresas privadas. A Strategic Petroleum Reserve (SPR), criada em 1975 como um estoque estratégico de petróleo administrado pelo governo para estabilizar preços e garantir a segurança do abastecimento, talvez constitua o precedente mais próximo de um ativo de propriedade e gestão estatais concebido para atender simultaneamente a objetivos geoestratégicos e desenvolvimentistas.

O laboratório dos minerais críticos

Mesmo em economias declaradamente comprometidas com o livre mercado, os setores extrativos são, por excelência, aqueles em que a intervenção estatal se manifesta de forma mais intensa. O modelo dessa intervenção é tão variado hoje quanto no passado: nacionalizações e expropriações de ativos; empresas estatais; joint ventures entre estatais e empresas privadas; negociações de contratos entre corporações e órgãos públicos para concessões ou direitos de exploração; exigência de autorizações e licenças para pesquisar, desenvolver, encerrar e recuperar áreas de mineração; além de um conjunto cada vez mais amplo de normas sociais, ambientais e trabalhistas, incluindo, em algumas jurisdições, a obrigatoriedade de consulta ou consentimento prévio de povos indígenas. Do acesso às jazidas minerais à definição das condições de investimento e à gestão dos impactos socioambientais da extração, o Estado participa de praticamente todas as etapas do processo. Agora, no entanto, assistimos à criação de novas capacidades estatais para enfrentar (e intensificar) a crescente importância geopolítica das cadeias de suprimento que sustentam as novas tecnologias, todas elas ancoradas na extração de minerais.

O que explica essa renovação da obsessão política pela mineração? O atual consenso dos minerais críticos foi moldado pela combinação de diversos processos: o boom das commodities, iniciado no começo deste século e encerrado em 2014; a ascensão econômica da China e o desafio que ela passou a representar para a primazia tecnológica do Norte global; a rápida expansão e difusão das tecnologias digitais e verdes; e a pandemia de Covid-19, que expôs a fragilidade das cadeias globais de suprimento diante de grandes choques, fragilidade essa que foi sucessivamente reforçada pela sucessão de conflitos geopolíticos.

A preocupação tanto com a disponibilidade quanto com a volatilidade dos preços de uma ampla gama de insumos minerais surgiu ainda durante o boom das commodities, impulsionado pela acelerada industrialização e urbanização chinesa. Naquele momento, porém, esse debate permanecia restrito a segmentos da burocracia estatal dos Estados Unidos e da União Europeia. Esse quadro começou a mudar à medida que a ansiedade das elites desses países se intensificava diante da ascensão da China, que subiu rapidamente na cadeia produtiva, deixando para trás a montagem e a manufatura de baixos salários e avançando para a fronteira da inovação tecnológica.

Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, o governo dos EUA passou a manter uma lista oficial do que denominava “minerais críticos” e a formar estoques estratégicos desses materiais. Ao longo da última década, uma série de decretos presidenciais ampliou essa lista para incluir novos insumos minerais essenciais às tecnologias avançadas, aos equipamentos de defesa e à transição verde. Do outro lado do Atlântico, a União Europeia passou a catalogar esses minerais em 2010, enquanto o Reino Unido elaborou sua própria lista em 2021. À medida que especialistas em políticas públicas do Norte global começaram a compreender, ainda que tardiamente, a dimensão histórica da transformação industrial chinesa, procuraram internalizar e securitizar as cadeias de suprimento em todas as suas etapas, da mina à fábrica. O objetivo era trazer esses elos produtivos de volta ao território nacional (onshoring ou, em alguns casos, reshoring) ou, na impossibilidade disso, transferi-los para países aliados (friendshoring). A amplitude do consenso dos minerais críticos é digna de nota: tanto nos Estados Unidos quanto no Reino Unido e na União Europeia, em contextos políticos marcados por forte polarização, esse objetivo atravessou todo o espectro ideológico e aproximou os setores público e privado, reunindo defensores da segurança nacional, ativistas climáticos, especialistas em política energética, industriais, executivos de grandes empresas de tecnologia e investidores.

O predomínio da China nas cadeias globais de suprimento desses recursos, da mineração ao processamento e refino, passando pela manufatura e pela reciclagem ao fim da vida útil dos produtos, disseminou a preocupação com um eventual “choque chinês” dos minerais críticos. O caso das terras raras, utilizadas em motores de veículos elétricos, naceles de turbinas eólicas, eletrônicos de consumo e equipamentos militares, é ilustrativo. Desde o início da década de 1990, a China construiu, de forma gradual e a um enorme custo ambiental, uma posição dominante e altamente integrada verticalmente no setor de terras raras. Enquanto isso, a maior parte das minas localizadas nos países ricos foi desativada, seja em razão da legislação ambiental, seja pela incapacidade de competir com as novas minas chinesas. Dinâmica semelhante pode ser observada em outros segmentos de minerais críticos, sobretudo nas etapas de processamento e refino, onde essa concentração é ainda mais acentuada.

Segundo a Mining Technology, a China responde atualmente por 99% da produção mundial de grafite de grau bateria, mais de 60% dos compostos químicos de lítio, 40% do cobre refinado, mais de 80% das terras raras magnéticas refinadas e 70% do cobalto refinado, “além de dominar integralmente a cadeia de suprimento de ânodos de grafite, de ponta a ponta”. A China também passou a utilizar essa posição dominante como instrumento de política externa. Em 2010, após as tensões no Mar da China Oriental, Pequim interrompeu temporariamente as exportações de terras raras para o Japão, reforçando o sentimento de alerta entre formuladores de políticas e burocracias de segurança no Ocidente. Em julho de 2023, em resposta às restrições impostas pelo governo Biden às exportações de tecnologias relacionadas a semicondutores, a China estabeleceu controles sobre as exportações de gálio e germânio, insumos essenciais para a indústria eletrônica. Já em outubro de 2025, em meio à guerra comercial desencadeada por Trump, Pequim ampliou esse regime de controles para abranger um conjunto mais amplo de minerais críticos, incluindo terras raras, materiais para baterias de lítio e grafite.

Impulsionados pela expectativa de que a demanda por esses recursos aumente significativamente nas próximas décadas, países de todo o mundo vêm respondendo à intensa “geopolitização” dos minerais críticos com uma ampla gama de iniciativas de política pública. O Critical Raw Minerals Act da União Europeia, a Critical Minerals Strategy do Canadá e a Vision 2025 do Reino Unido, todos voltados à reconfiguração e diversificação do abastecimento de matérias-primas críticas indispensáveis às transições verde e digital, são exemplos disso. Muitas dessas iniciativas recorrem a fundos públicos de investimento, empresas estatais e bancos de desenvolvimento para financiar empresas e projetos de mineração em território nacional e no exterior. Outras preveem a criação de estoques estratégicos estatais de metais industriais, em antecipação a futuras interrupções nas cadeias de suprimento.

A política comercial também se tornou um instrumento central para garantir o acesso a minerais críticos. Nesse contexto, os Estados Unidos multiplicaram acordos bilaterais e multilaterais voltados à “segurança dos minerais” (mineral security). Houve, ainda, um  crescimento expressivo da adoção de proibições e cotas de exportação destinadas a restringir a saída de minerais críticos, seja para fortalecer a indústria doméstica, para transformar a interdependência econômica em instrumento de coerção ou para ampliar as receitas provenientes do setor de commodities. Propostas de coordenação transnacional voltadas à estabilização dos preços e, potencialmente, à padronização da governança desses mercados também começaram a proliferar—iniciativas que, por sua vez, se articulam a projetos geopolíticos concorrentes liderados pelos Estados Unidos, pela União Europeia, pela República Democrática do Congo e por países da América Latina.

A arquitetura do capitalismo de Estado americano

O governo Trump vem conduzindo um amplo projeto para reposicionar tanto a economia americana quanto os próprios Estados Unidos nas redes globais de minerais críticos. Até fevereiro de 2026, pelo menos dezoito grandes empresas do setor haviam recebido ou sido contempladas com ofertas de financiamento direto, empréstimos garantidos ou participações acionárias por parte do governo federal, do Export-Import Bank e da US International Development Finance Corporation.

Sem apoio estatal maciço, projetos de mineração nos Estados Unidos são, em geral, pouco rentáveis para investidores privados. O principal obstáculo é a taxa mínima de retorno exigida pelo capital privado: o nível de rentabilidade considerado aceitável descontados os riscos e os custos do investimento. A mineração tem elevados custos fixos iniciais, quase todos classificados como irrecuperáveis, e envolve prazos muito longos até que o capital investido comece a gerar retorno. Das etapas iniciais de licenciamento e exploração à construção e às fases operacionais, que podem se estender por décadas, esses projetos estão expostos a todo tipo de risco. Excedentes de oferta podem derrubar os preços e, com isso, reduzir tanto o valor do ativo mineral quanto o das ações da empresa proprietária; tensões geopolíticas podem interromper cadeias de suprimento ou deteriorar relações entre produtores e clientes; protestos de comunidades locais podem paralisar minas por dias ou semanas; a incerteza tecnológica e a ameaça de substituição de materiais rondam projetos extrativos ligados a fronteiras de inovação em rápida transformação; e o próprio arsenal crescente de intervenções estatais pode gerar incerteza, à medida que regulações, regimes tributários e estruturas de propriedade permanecem em reconfiguração.

Todas essas características são profundamente avessas à lógica do setor financeiro privado. Mais de uma década após o fim do superciclo das commodities, os orçamentos destinados à exploração de novos depósitos (projetos greenfield) ainda não se recuperaram plenamente. Nesse contexto, o financiamento público não simplesmente substitui o investimento privado: é a condição indispensável para atrair um capital que, de outra forma, evitaria um setor marcado por custos elevados, riscos significativos e um horizonte de retorno de longo prazo. Nos Estados Unidos e na União Europeia, onde os custos operacionais de terra e mão de obra são mais altos do que no Sul global, essa dependência é ainda maior. Como resultado, projetos de mineração passaram a requerer cada vez mais disposição dos governos.

O caso da Thacker Pass, uma mina de lítio em construção no estado de Nevada, é ilustrativo. Apesar de anos de incerteza provocados por diversas ações judiciais e por acampamentos permanentes de manifestantes, o projeto acabou saindo do papel, mas somente graças à mobilização de todo o arsenal do capitalismo de Estado. A mina foi beneficiada por um processo acelerado de licenciamento durante o primeiro governo Trump, obtendo sua aprovação definitiva em janeiro de 2021, na última semana do mandato. Em seguida, já no governo Biden, recebeu um empréstimo bilionário do Departamento de Energia (DOE, na sigla em inglês), que financiou cerca de 75% dos custos de construção. Paralelamente, ainda sob Biden, a General Motors comprou uma participação significativa no empreendimento para garantir acesso preferencial à produção futura da mina. Posteriormente, durante o segundo governo Trump, o próprio DOE adquiriu participações acionárias tanto no projeto quanto na empresa responsável por sua execução.

Um movimento semelhante também pode ser observado na Europa. A generosidade do capitalismo de Estado contemporâneo fica nítida no projeto Lionheart da Vulcan Energy, localizado no Alto Vale do Reno, na Alemanha. Segundo o Financial Times, em dezembro de 2025 a empresa assegurou US$ 2,56 bilhões por meio de uma estrutura combinada de financiamento público e privado “lastreada por agências governamentais da Alemanha e da União Europeia, pelo Banco Europeu de Investimento, por cinco agências de crédito à exportação e por sete bancos comerciais, reunindo empréstimos, subsídios públicos, aportes de capital e captação de recursos via emissão de ações”. 

Ao reduzir as taxas mínimas de retorno exigidas pelo capital privado, as intervenções do capitalismo de Estado americano buscam, antes de tudo, expandir as atividades de mineração e processamento de matérias-primas críticas (como titânio, níquel, cobre, ouro, zinco, lítio, cobalto, grafite, potássio, manganês e gálio) em território nacional. Para isso, recorrem a diferentes estratégias: abrir novas minas, como a Thacker Pass, de lítio; reativar minas desativadas, como a Mountain Pass, de terras raras; e destravar projetos que permaneciam paralisados nas fases iniciais de licenciamento devido à falta de interesse de investidores ou à oposição local, como o Resolution Copper, no Arizona. Em conjunto com a fixação de preços mínimos para determinados minerais, esse financiamento estatal busca apoiar empresas do setor e atrair investimentos nacionais e estrangeiros. A expansão das capacidades de extração e processamento reforçaria a posição e a centralidade da economia estadunidense nas redes globais de minerais críticos. Em tese, essa posição fortalecida aumentaria a proteção do país contra riscos de abastecimento e permitiria aos Estados Unidos transformar a dependência dos países importadores em instrumento de coerção, como já ocorre no caso dos semicondutores avançados.

O segundo objetivo do capitalismo de Estado no setor de minerais críticos é controlar nós estratégicos das cadeias globais de suprimento e das redes de produção. A US International Development Finance Corporation (DFC) foi reorientada justamente para cumprir essa função. Segundo a própria instituição, sua missão é “investir em projetos que façam frente à presença da China em locais estratégicos e fortaleçam as cadeias de suprimento de minerais críticos necessários às indústrias do futuro”. Em meados de dezembro, o Congresso americano renovou seu mandato por meio do National Defense Authorization Act de 2026, que mais do que triplicou o teto de investimentos, de US$ 60 bilhões para US$ 205 bilhões. Com isso, a DFC pode realizar investimentos de maior risco em empresas e outras entidades sediadas em países de baixa, média e alta renda. Entre as operações mais recentes da instituição estão um empréstimo de US$ 565 milhões à mineradora brasileira Serra Verde—descrita como “a primeira produtora em larga escala, fora da Ásia, dos quatro elementos magnéticos de terras raras”—e um aporte de capital de US$ 75 milhões ao United States–Ukraine Reconstruction Investment Fund voltado ao desenvolvimento do setor de minerais críticos.

Embora a DFC tenha sido criada para estimular a iniciativa privada, hoje ela também pode investir em empresas estatais, que continuam ocupando um papel central nos setores de mineração e infraestrutura ao redor do mundo. Nesse sentido, os Estados Unidos passaram a fomentar o capitalismo de Estado tanto no plano doméstico quanto no internacional: uma mudança marcante em relação à era do Consenso de Washington, durante a qual formuladores de políticas americanos e as instituições financeiras e de desenvolvimento sob liderança dos Estados Unidos combatiam sistematicamente a propriedade estatal e a política industrial no Sul global.

Um exemplo é a atuação da DFC na República Democrática do Congo (RDC), onde empresas chinesas ocupam uma posição dominante no setor de mineração. Em dezembro de 2025, a DFC anunciou a aquisição de uma participação acionária em uma joint venture entre a estatal congolesa Gécamines e a gigante global de commodities Mercuria Energy Trading. A parceria anunciou um novo aporte de US$ 2 bilhões para projetos minerais, abrindo caminho para ampliar o acesso dos Estados Unidos às vastas reservas da RDC, especialmente de cobre e cobalto. O acordo também concede às empresas americanas direito de preferência na compra dos metais produzidos pelo empreendimento. No fim de 2025, a DFC se associou ao hedge fund Orion Capital Partners e ao fundo soberano ADQ, de Abu Dhabi, para criar o Orion Critical Mineral Consortium (CMC), um fundo de investimentos em mineração apoiado pelo governo dos EUA e destinado a financiar projetos em diferentes partes do mundo. Em fevereiro de 2026, o consórcio anunciou a aquisição de uma participação de 40% nos projetos de cobre e cobalto da gigante da mineração Glencore na RDC. No mesmo mês, o Orion CMC uniu-se à Virtus, grupo fundado por ex-integrantes dos serviços americanos de inteligência e segurança, para adquirir a mineradora congolesa Chemaf, que enfrentava dificuldades financeiras durante a construção do que deverá se tornar uma das maiores minas de cobalto do mundo. Ainda é cedo para saber se essas iniciativas de financiamento produzirão os resultados esperados. O que já está claro, porém, é que a República Democrática do Congo tornou-se o principal laboratório da tentativa americana de utilizar a propriedade estatal como instrumento para assumir o controle de nós estratégicos das cadeias transnacionais de suprimento de minerais críticos.

O terceiro e último objetivo das intervenções do capitalismo de Estado trumpista é excluir atores chineses dessas redes. A partir de 1º de janeiro de 2027, novas regras de compras do setor de defesa dos Estados Unidos passarão a proibir o uso de terras raras e ímãs de origem chinesa em toda a cadeia de suprimentos da indústria de defesa americana, desde a extração e o processamento até sua incorporação em equipamentos militares e sistemas de armas. Ao mesmo tempo, o governo Trump vem promovendo uma política de formação de blocos voltada à construção de alianças e agrupamentos de países capazes de isolar empresas chinesas. Recentemente, os Estados Unidos firmaram uma dúzia de acordos bilaterais e memorandos de entendimento com países ricos em recursos minerais para criar novas fontes de abastecimento que contornem fornecedores chineses. Entre os parceiros estão Canadá, Austrália, Marrocos, República Democrática do Congo, Argentina, Malásia, Ilhas Cook, Arábia Saudita, Equador, Guiné, Paraguai, Peru, Filipinas, Emirados Árabes Unidos e Uzbequistão. Paralelamente, seguem em negociação novas parcerias com União Europeia, Japão, Brasil o México para a instalação de minas, projetos de infraestrutura e políticas comerciais coordenadas.

Algumas dessas parcerias bilaterais contam diretamente com empréstimos da DFC e com contratos internacionais de compra da produção futura garantidos pelo EXIM Bank. No âmbito da Supply Chain Resiliency Initiative, por exemplo, o EXIM pode financiar projetos de mineração no exterior que tenham firmado contratos de fornecimento de longo prazo com empresas americanas, contribuindo para assegurar a essas empresas um acesso estável a minerais críticos provenientes de países parceiros. Em síntese, o governo dos EUA mobiliza instrumentos típicos do capitalismo de Estado para moldar a integração de regiões ricas em recursos minerais e as relações entre empresas no interior de redes de minerais críticos centradas nos Estados Unidos.

Em 6 de fevereiro de 2026, além da multiplicação de acordos bilaterais, os Estados Unidos lançaram o Forum on Resource Geostrategic Engagement (FORGE), um novo organismo plurilateral. A iniciativa reúne dezessete membros e aprofunda a Minerals Security Partnership, criada em 2022 durante o governo Biden. Seu objetivo é promover a cooperação, tanto no plano nacional quanto no âmbito de projetos específicos, em temas como padrões regulatórios, controles de exportação, triagem de investimentos, mecanismos de financiamento e exigências ambientais e trabalhistas, de modo a reconfigurar redes transnacionais de minerais críticos que atravessam diferentes jurisdições. O FORGE também propõe a criação de uma zona preferencial de comércio para minerais críticos, baseada em preços de referência que funcionariam como pisos efetivos para determinados minerais, sustentados por tarifas ajustáveis. A medida busca não apenas assegurar maior estabilidade de preços em um setor marcado por elevada volatilidade, mas também neutralizar a suposta prática chinesa de dumping, ou seja, da venda de minerais abaixo do preço de mercado para preservar sua posição dominante nas cadeias globais de minerais críticos. Espera-se ainda que o estoque estratégico americano, o Project Vault, incorpore uma dimensão internacional, funcionando como comprador de última instância para produtores aliados. Outras iniciativas plurilaterais lideradas pelos Estados Unidos, como a Pax Silica, voltada às cadeias de suprimento e às tecnologias de inteligência artificial, também buscam consolidar a demanda nos segmentos a jusante das cadeias de minerais críticos entre países aliados.

Em conjunto, o capitalismo de Estado trumpista reconfigura simultaneamente as relações de poder no plano doméstico e projeta poder para além das fronteiras nacionais, com o objetivo de reestruturar as redes transnacionais de minerais críticos e ocupar uma posição central em seu funcionamento. Expandir a oferta, aprofundar o controle e excluir adversários: em tese, esses objetivos são compatíveis entre si. Na prática, entretanto, são marcados por múltiplas contradições.

Limites e contradições do capitalismo de Estado trumpista

Do ponto de vista do financiamento, projetos de mineração no Norte global são inviáveis sem um amplo apoio estatal. Mas recorrer ao poder fiscal do governo federal estadunidense também expõe as empresas a intervenções cada vez mais detalhadas nas decisões de investimento e produção. Além disso, elas passam a ficar mais vulneráveis às oscilações do mercado provocadas pela volatilidade das decisões governamentais. Um exemplo disso ocorreu no fim de janeiro de 2026, quando as ações da MP Materials, da USA Rare Earths, da Lithium Americas e de outras mineradoras de terras raras listadas nas bolsas americanas despencaram diante da hesitação do governo Trump em garantir publicamente preços mínimos para determinados minerais. As ações voltaram a cair em fevereiro, depois que o vice-presidente JD Vance anunciou a criação de um bloco comercial com países aliados, refletindo a preocupação dos investidores com a continuidade da intervenção estatal no setor. Esses episódios mostram que instrumentos de política concebidos para atuar de forma complementar (como participações acionárias do Estado, preços mínimos e blocos comerciais multilaterais) e orientados para um mesmo objetivo (o fortalecimento de cadeias de suprimento organizadas em torno dos Estados Unidos) podem acabar produzindo reações contraditórias ou até adversas nos mercados.

Esse quadro é agravado pela lógica de “agir rápido e quebrar tudo” (move fast and break things) que orientou a atuação do governo até aqui. Embora ela esteja em sintonia com a preferência do governo Trump pelo espetáculo e por uma versão intervencionista, ostensiva e de grande impacto do capitalismo de Estado, dificilmente se presta ao tipo de planejamento de longo prazo e de coordenação econômica abrangente necessários para reconfigurar múltiplas cadeias de suprimento complexas. A mesma coisa vale para o mindset típico do private equity que parece orientar essas intervenções estatais, marcado pela busca de resultados rápidos e retorno fácil. Como observou recentemente uma equipe de analistas do setor de recursos naturais: “Uma coisa é o governo federal mobilizar capital público e atrair investidores de Wall Street; outra, completamente diferente, é alterar os fundamentos econômicos de uma indústria doméstica que se encontra em declínio estrutural.” Isso implica enfrentar desafios relacionados à sustentabilidade de longo prazo, à competitividade e à eficiência econômica, sobretudo diante de empresas chinesas que concentram poder de mercado e mantêm liderança tecnológica em um setor extremamente intensivo em capital em escala global.

Do ponto de vista da política industrial, as preocupações dos analistas revelam um dilema de sequenciamento. Se uma rede já é dominada por um concorrente, não é possível excluí-lo sem antes assegurar o controle de seus próprios nós estratégicos. O problema é que isso pode ser inviável sem o apoio, ao menos em parte, da estrutura produtiva do próprio adversário. As intervenções do capitalismo de Estado americano no setor de grafite ilustram bem essa tensão.

Durante o governo Biden, a australiana Syrah Resources recebeu empréstimos de grande porte do DOE, em 2022, e da DFC, em 2024, para financiar, respectivamente, sua planta de processamento de grafite na Louisiana e a mina de grafite de Balama, em Moçambique. Esse apoio foi decisivo. Ainda assim, a empresa entrou em inadimplência diversas vezes e esteve à beira da falência. Em dezembro de 2024, suspendeu suas operações e declarou força maior em razão da escalada dos protestos liderados por agricultores locais contra os termos do reassentamento realizado quando a mina foi originalmente construída. As atividades foram retomadas em junho de 2025, mas os problemas estavam longe de terminar. Em fevereiro de 2026, a subsidiária americana da empresa, responsável pela refinaria da Louisiana, uniu-se a outras companhias do setor em uma petição ao Departamento de Comércio para que fossem impostas “tarifas antidumping” sobre as importações de grafite chinês. O pedido resultou na aplicação de uma tarifa de 93,5%.

No que diz respeito à exclusão da China das cadeias de suprimento de grafite, porém, essa foi uma vitória pírrica. Como relata Henry Sanderson, o efeito prático da medida foi redirecionar a produção da mina de Balama para uma planta de processamento na Indonésia. A unidade pertence majoritariamente à BTR, empresa sediada em Shenzhen; a participação minoritária é controlada por uma subsidiária da chinesa Tsingshan, uma das maiores produtoras de níquel do mundo. Por que a Syrah Resources simplesmente não enviou esse grafite para sua planta nos Estados Unidos? Porque o processo de qualificação de um material como apto para uso em baterias é longo e complexo, e a planta da Louisiana ainda não atende aos padrões exigidos pela indústria. A planta da BTR, por outro lado, já havia obtido essa qualificação. Biden e Trump podem até ter ampliado a oferta de grafite, mas enquanto a refinaria da Louisiana não demonstrar que seu produto atende aos padrões exigidos para aplicações em baterias, todos esses empréstimos e tarifas serão incapazes de fortalecer a posição dos Estados Unidos nas cadeias globais de suprimento de baterias e, naturalmente, de excluir um adversário delas. 

Esses limites e desafios da política industrial são agravados pela dimensão predatória do capitalismo de Estado à moda de Trump. Há sérias dúvidas tanto sobre as condições em que alguns desses acordos são firmados (que são, no mínimo, bastante opacas) quanto sobre a capacidade das empresas promovidas pela Casa Branca de cumprir o que prometem. Muitas das companhias escolhidas não têm um histórico comprovado de sucesso. O caso da USA Rare Earths é ilustrativo. A empresa figura entre as grandes beneficiárias de um programa que prevê aportes acionários do governo no valor de US$ 1,6 bilhão e foi escolhida a dedo para desenvolver uma cadeia produtiva integrada “da mina ao ímã”, desvinculada da China. No entanto, ainda não demonstrou ser capaz de fazê-lo em bases comercialmente viáveis. Mas as dúvidas vão muito além da USA Rare Earths: também há incertezas quanto à capacidade de muitas das mineradoras selecionadas de entregar os resultados prometidos.

Se modelos de negócio comprovadamente viáveis aparentemente não são um critério para a concessão de apoio financeiro, o nepotismo talvez seja. A USA Rare Earths contou com o apoio do banco de investimentos Cantor Fitzgerald em sua captação de recursos. A instituição foi comandada pelo atual secretário de Comércio, Howard Lutnick, e hoje é administrada por seus filhos. Duas startups pouco conhecidas, Vulcan Elements e ReElement Technologies, fecharam em dezembro de 2025 um acordo de US$ 1,4 bilhão, combinando empréstimos e participação acionária do governo, apenas três meses depois de receberem um investimento da 1789 Capital, empresa de capital de risco de Donald Trump Jr. na Vulcan. Segundo a Bloomberg, quando a 1789 Capital investiu, a empresa era avaliada em US$ 200 milhões; em janeiro de 2026, alguns investidores já cogitavam uma avaliação próxima de US$ 2 bilhões para a rodada seguinte de captação. Donald Trump Jr. e Eric Trump também detêm uma participação (cujo tamanho não foi divulgado) na Cove Kaz Capital, grupo americano de investimentos que, em novembro, assegurou acesso a uma importante mina de tungstênio no Cazaquistão, com US$ 1,6 bilhão em apoio financeiro prometido pelo EXIM Bank e pela DFC. Dispensa maiores explicações o fato de que esse tipo de oportunismo, capitalismo clientelista e concentração de poder e riqueza nas mãos de um grupo tão restrito contraria os princípios mais elementares de uma política industrial eficaz e duradoura.

Por fim, do ponto de vista geopolítico, a estratégia de capitalismo de Estado do governo Trump encerra uma contradição fundamental. De um lado, reconhece que a reconfiguração de complexas redes transnacionais de minerais críticos depende da construção de parcerias sólidas em diferentes partes do mundo. De outro, continua ameaçando países com tarifas comerciais, sanções, anexações territoriais e agressões imperialistas. Transformar nós estratégicos e gargalos dessas redes em instrumentos de coerção até pode servir como demonstração de poder. Ao mesmo tempo, porém, essa estratégia compromete os esforços para criar novos blocos e redes paralelas capazes de reconfigurar rapidamente as cadeias globais de suprimento. A evolução do capitalismo de Estado trumpista no setor de minerais críticos expressa essa contradição fundamental do poder imperial americano em uma era marcada pela intensificação da competição em torno de redes econômicas estratégicas.

Apesar dessas tensões, as intervenções do capitalismo de Estado americano no setor de minerais críticos parecem seguir uma dinâmica de reforço mútuo. Isso ocorre, em grande medida, porque medidas apresentadas como resposta a riscos percebidos à segurança nacional, como a concentração das cadeias de suprimento de minerais críticos nas mãos de um adversário estrangeiro declarado, acabam, elas próprias, intensificando a escalada da disputa geopolítica. A cordialidade exibida durante a cúpula Trump–Xi, realizada em maio, não altera esse quadro. Não há qualquer sinal de uma estratégia capaz de pôr fim à crescente instrumentalização da interdependência econômica.

Implicações meridionais

Esta nova era do capitalismo de Estado, longe de representar uma “desglobalização” (seja lá o que isso signifique), é marcada pela reconfiguração dos fluxos transnacionais de capitais e minerais, da geografia das cadeias de suprimento e dos polos industriais, bem como das alianças que articulam múltiplos atores nos campos do comércio e da diplomacia. Essas transformações são particularmente relevantes para governos e sociedades do Sul global, que buscam navegar por uma ordem internacional cada vez mais fragmentada sem abrir mão de objetivos históricos de desenvolvimento, integração regional e soberania. Nesse sentido, o novo capitalismo de Estado trumpista traz consigo três implicações globais de grande importância: neocolonialismo, integração subordinada e competição assimétrica.

De maneira geral, o neocolonialismo refere-se à reprodução de relações desiguais de poder em um contexto “pós-colonial”. Aqui, porém, o termo é empregado em um sentido mais específico e, talvez, mais literal: intervenções de política externa que ameaçam a integridade territorial e a soberania política e econômica de países do Sul global. Essa dinâmica remete a uma forma mais clássica de imperialismo, baseada no exercício direto ou indireto do poder para conquistar e anexar colônias, subjugar populações, manipular a política local, garantir o acesso à terra e aos recursos naturais e reforçar a posição geoestratégica da metrópole.

O paralelo mais evidente na atualidade é a invasão da Venezuela e o sequestro do presidente Maduro, conduzidos com o objetivo explícito de assumir o controle da indústria petrolífera venezuelana em benefício das empresas estadunidenses de combustíveis fósseis. A Venezuela também possui importantes reservas minerais, sobretudo de ouro, bauxita e coltan. A precariedade da infraestrutura básica nas regiões mineradoras do país somada ao elevado grau de incerteza política torna pouco provável que o setor mineral experimente um boom no curto prazo. Enquanto isso, o governo dos Estados Unidos já vendeu quase US$ 2 bilhões em petróleo bruto venezuelano e tenta assumir a propriedade do petroleiro Skipper, que transportava dois milhões de barris e foi apreendido por fuzileiros navais americanos em dezembro. Trump descreve a intervenção na Venezuela como uma “vitória colossal”. À luz das recentes ameaças à Groenlândia, do bloqueio de combustíveis imposto a Cuba, da guerra travada por Estados Unidos e Israel contra o Irã e o Líbano, do bloqueio em curso do Estreito de Ormuz e das reiteradas exaltações, por altas autoridades do governo Trump, ao sombrio legado do colonialismo ocidental, não resta dúvida quanto às ambições imperiais da administração—e tampouco sobre o quanto elas são difíceis de conciliar com uma estratégia baseada no capitalismo de Estado.

Esses episódios de intervenção militar e apropriação de recursos naturais representam a forma mais extrema de uma ameaça muito mais cotidiana: a integração subordinada às redes de minerais críticos organizadas em torno dos Estados Unidos. O risco é que governos e empresas fiquem presos a essas redes, sujeitos aos desígnios do poder imperial americano e impedidos de aprofundar relações com outros parceiros estratégicos, como a China. Esse problema já é evidente em países como o México, cuja indústria manufatureira altamente integrada está submetida a diversas restrições impostas pelos Estados Unidos em nome da segurança nacional. A reconfiguração adicional dos blocos comerciais e das cadeias de suprimento segundo prioridades americanas, somada à presença de ativos estatais dos Estados Unidos em nós estratégicos dessas redes, sejam eles empresas, minas ou projetos de infraestrutura, ampliaria ainda mais a capacidade do Estado americano de instrumentalizar as redes de minerais críticos para fins geopolíticos.

Esse poder é particularmente problemático para os países do Sul global que adotam uma estratégia de polialinhamento: cultivam simultaneamente parcerias comerciais, de investimento e de segurança com diferentes potências concorrentes, sem se alinhar exclusivamente a qualquer país ou bloco geopolítico. Como resumiu recentemente o presidente da Zâmbia, Hakainde Hichilema, ao comentar a atração de investimentos estrangeiros para a mineração: “Quando estou em Pequim, não sou contra Washington. Quando estou em Washington, não sou contra Pequim”. (Vale lembrar que a Zâmbia desempenhou um papel central no Movimento dos Não Alinhados nas décadas de 1960 e 1970.) O objetivo dessa estratégia é aproveitar a competição entre as economias mais ricas pela reorganização das cadeias de suprimento estratégicas para atrair uma nova onda de investimentos estrangeiros voltados à transição verde. Como o governo Trump já tentou, em diversas ocasiões, restringir deliberadamente esse tipo de estratégia, é provável que não hesite em usar seu controle ampliado sobre as redes de minerais críticos para pressionar ainda mais os países em desenvolvimento a reduzir seus vínculos com a China e outros competidores.

Um terceiro risco é o da competição assimétrica, fenômeno distinto da integração subordinada, que se refere à possibilidade de que países do Sul global passem a disputar com os países do Norte os investimentos destinados tanto à mineração quanto às etapas posteriores das cadeias produtivas. Esse desafio revela uma implicação ainda pouco explorada da estratégia estadunidense de onshoring. Formuladores de políticas públicas no Sul, mesmo em países que já possuem ou pretendem desenvolver um setor de minerais críticos, dificilmente conseguem competir com os volumosos pacotes de financiamento oferecidos pelo governo americano às empresas de mineração. Como consequência, correm o risco não apenas de perder um mercado de exportação, caso os Estados Unidos substituam importações por produção doméstica, mas também de disputar diretamente investimentos estrangeiros diretos caso a estratégia estadunidense de atração de capital seja bem-sucedida. Também nesse caso, o potencial de industrialização ancorada em recursos minerais e de outras estratégias de transformação estrutural nos países em desenvolvimento pode ser limitado. Em um mundo em que um número crescente de governos disputa investimentos para a mineração, a simples preservação da posição atualmente ocupada pelos países do Sul global nos elos mais extrativos e de menor valor agregado das cadeias produtivas das tecnologias verdes já demandará que eles tornem seus projetos mais atraentes para o capital financeiro por meio da desregulamentação, da redução de riscos para investidores e da repressão a mobilizações sociais.

Em todos esses aspectos, o capitalismo de Estado trumpista explora e aprofunda as desigualdades globais. Ao mesmo tempo, porém, a dimensão espetacularizada da atuação do governo Trump pode abrir novas oportunidades estratégicas para forças progressistas, tanto nos Estados Unidos quanto em outras partes do mundo. O experimento do Trump 2.0 (assim como a tendência mais ampla do capitalismo de Estado contemporâneo) suscita questões profundas sobre como o poder político e a autoridade pública podem ser exercidos por meio da propriedade econômica em favor da acumulação privada, da extração militarizada e de objetivos imperiais. Projetos de esquerda ao redor do mundo precisam construir suas próprias alternativas. Isso passa por recuperar a capacidade institucional do Estado para exercer o controle coletivo de forma racional e consciente sobre as infraestruturas que sustentam a vida social, econômica e ecológica. Em suma, as investidas do governo Trump abrem um novo terreno de disputa para que forças progressistas, no Norte e no Sul global, voltem a explorar e defender formas alternativas de planejamento e de propriedade da atividade econômica, para além das finanças privadas e do capitalismo de Estado, em favor de um desenvolvimento orientado pela justiça social e pela sustentabilidade planetária.

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