edição 1, junho de 2026
Análises
Crônicas do declínio
Política e economia no “declinismo” dos Estados Unidos
“Há muita ruína em uma nação”, disse certa vez Adam Smith para tranquilizar seus compatriotas britânicos em um momento de derrota.1Wood, John Cunningham (ed.). 1983–1984. (<)em(>)Adam Smith: Critical Assessments(<)/em(>). Londres: Croom Helm, p. 9 Mas quanta, exatamente? As elites políticas estadunidenses vêm se fazendo essa pergunta periodicamente há sessenta anos. Em intervalos irregulares, vozes à esquerda e à direita voltam a anunciar o prognóstico do declínio americano. O que essa série de previsões furadas nos ensina? Os arautos do desastre estão condenados ao erro ou simplesmente chegaram cedo demais?
Na edição do inverno de 1988-1989 da revista Foreign Affairs, às vésperas da consolidação da nova ordem unipolar, o cientista político Samuel Huntington se debruçou sobre a questão no ensaio “The US—Decline or Renewal?” Apesar da vitória iminente na Guerra Fria, aquele era um período de profunda ansiedade para o capitalismo estadunidense. O mal-estar da época foi sintetizado pelo candidato democrata à Presidência Paul Tsongas: “A Guerra Fria acabou. O Japão e a Alemanha venceram.”2Lichtenstein, Nelson. 2023. “Bill Clinton’s Failure.” Princeton University Press, 13 de setembro. https://press.princeton.edu/ideas/bill-clintons-failure. Huntington rejeitava esse derrotismo. Para dissipar os temores do momento, lembrava aos leitores que episódios semelhantes de pânico em relação ao declínio dos EUA vinham se repetindo desde os anos 1950, em sucessivas ondas simbolizadas pelo Sputnik, pelo Vietnã, pela crise energética e, agora, no fim da década de 1980, pelo Japão.
Em cada um desses episódios, o declínio anunciado não se concretizou. Em retrospecto, é fácil reconhecer essas fantasias e projeções pelo que realmente eram. Quem ainda se lembra de best-sellers como The Coming War with Japan?3Friedman, George e Meredith LeBard. 1991. (<)em(>)The Coming War With Japan(<)/em(>). New York: St. Martin’s Press Mas, embora rejeitasse a tese do declínio, Huntington se recusava a tratar os declinistas com condenscendência: mesmo temores equivocados mereciam ser levados a sério. De fato, os EUA haviam sobrevivido a inúmeros diagnósticos supostamente terminais, mas até um hipocontríaco, defendia ele, pode se beneficiar de visitas regulares ao médico. Teria a república imperial perdurado sem os ataques de pânico recorrentes? Seria possível que um discurso alucinatório (Khrushchev nos enterrará4N.E.: “Nós os enterraremos” é uma (<)a href='https://time.com/archive/6804927/foreign-news-we-will-bury-you/'(>)afirmação(<)/a(>) atribuída ao líder soviético Nikita Khruschev. Ela teria sido dita a diplomatas ocidentais em uma recepção na embaixada polonesa em Moscou em novembro de 1956. A frase foi alvo de polêmicas a respeito de uma (<)a href='https://web.archive.org/web/20160603154555/https://www.aulibrary.au.edu/multim1/ABAC_Pub/Galaxy-The-English-Department-Journal/n2-6-2013.pdf'(>)possível má-compreensão(<)/a(>) por parte dos estadunidenses, que teriam a interpretado como uma ameaça de ataque nuclear, enquanto (<)a href='https://books.google.com.br/books?id=rw61VDID7U4C&pg=PA630&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false'(>)comentadores(<)/a(>) argumentaram que a declaração deveria ser compreendida em chave marxista, no sentido de que o sistema comunista sobreviveria historicamente à morte do capitalismo) acabasse produzindo sua própria realidade (a continuidade da primazia americana)?
Era precisamente essa a conclusão de Huntington: o poder estrutural dos EUA havia perdurado não apesar dos pessimistas, mas por causa deles. Em suas palavras, “os declinistas têm um papel indispensável na prevenção do que prevêem”.5Huntington, Samuel P.. 1988. “(<)em(>)The US—Decline or Renewal?(<)/em(>)”. Foreign Affairs, 1º de novembro. https://www.foreignaffairs.com/united-states/us-decline-or-renewal. O padrão se repetia ao longo das sucessivas ondas de discurso pós-Sputnik e dava margem a uma previsão astutamente confiante: “enquanto a população estiver periodicamente convencida de que o país está prestes a entrar em declínio, é improvável que os Estados Unidos entrem em declínio”.6Huntington 1988. “Decline or Renewal”.
Platão chamaria esse fenômeno de “nobre mentira”, uma das formas mais antigas de racionalização. O eleitorado estadunidense precisava ser persuadido da possibilidade de declínio de seu país para que apoiasse políticas de renovação. E a quem caberia enganar o público para seu próprio bem? De forma mais imediata, os declinistas. Mas, por trás deles, deveria haver alguém capaz de inflar conscientemente o discurso da crise. Pode soar cínico, mas parece apropriado no caso de Huntington, que certa vez relembrou saudosamente aos leitores de sua contribuição para o relatório da Comissão Trilateral sobre “A Crise da Democracia” de 1973, quando observou que Truman “conseguiu governar o país com a cooperação de um número relativamente pequeno de advogados e banqueiros de Wall Street”7Crozier, Michel, Samuel P. Huntington e Joji Watanuki. 1975. (<)em(>)The Crisis of Democracy: Report on the Governability of Democracies to the Trilateral Commission(<)/em(>).(<)em(>) (<)/em(>)Nova York: New York University Press.—uma rara admissão das fontes do poder político no Século Americano. Se um radical escrevesse a mesma frase, seria imediatamente crucificado pela falta de sutileza.
Chame isso de cinismo ou reducionismo, a perspectiva de Huntington há muito tempo é lugar-comum em Cambridge, Manhattan e Washington. Citações semelhantes vindas de homens muito mais poderosos do que ele podem ser reproduzidas indefinidamente. Ferdinand Eberstadt, banqueiro de investimentos e arquiteto da ordem do pós-guerra, pioneiro do Conselho de Segurança Nacional e da Agência Central de Inteligência (CIA), dizia que “o país sempre foi governado por crises”. E acrescentava: “na ausência de uma crise visível, era preciso criá-la para que as coisas fossem feitas”.8Kofsky, Frank. 1993. (<)em(>)Harry S. Truman and the War Scare of 1948: A Successful Campaign to Deceive the Nation(<)/em(>).(<)em(>) (<)/em(>)Nova York: St. Martin’s Press, p. 10. Entre os círculos do poder, esse tipo de raciocínio era praticamente uma piada interna. Em março de 1950, um congressista da Nova Inglaterra disse ao Secretário de Estado Dean Acheson que não seria possível vender a ideia do rearmamento para a Guerra Fria “sem alguma crise doméstica”. Caso “Stalin não cumpra seu papel de auxiliar na precipitação de crises”, Acheson não deveria “hesitar em criá-las ele mesmo”.9Casey, Steven. 2005. “Selling NSC-68: The Truman Administration, Public Opinion, and the Politics of Mobilization, 1950–51”, Diplomatic History 29, n.º 4: 655–690.
Alçada ao poder ao lado de George W. Bush em 2000, a ex-Conselheira de Segurança Nacional Condoleezza Rice observou que os EUA “tinham extrema dificuldade em definir seu ‘interesse nacional’ na ausência do poder soviético”.10Rice, Condoleezza. 2000. “Promoting the National Interest: Exercising Power Without Arrogance”, (<)em(>)Chicago Tribune(<)/em(>), 31 de dezembro. Reimpresso no Washington File do Departamento de Estado dos EUA, 4 de janeiro de 2001, https://usinfo.org/wf-archive/2001/010104/epf406.htm. Pendurou, então, um retrato de Acheson em seu gabinete e esperou. O radicalismo islâmico pouco interessava a uma sovietóloga de formação como Rice, até que, de repente, provocou “um daqueles grandes terremotos que esclarecem e explicitam tudo”.11Robin, Corey. 2017. (<)em(>)The Reactionary Mind: Conservatism from Edmund Burke to Donald Trump(<)/em(>). 2ª ed. Nova York: Oxford University Press, p. 207. As ruínas em Manhattan viraram matéria-prima para uma nova crise e, prometeu Rice, para mais um século em que a única superpotência do mundo seria capaz de “transformar status quo voláteis que já não servem aos nossos interesses”.12Rice, Condoleezza. 2005. “The Promise of Democratic Peace”, (<)em(>)Washington Post(<)/em(>), 11 de dezembro. Reimpresso pelo Departamento de Estado dos EUA, https://2001-2009.state.gov/secretary/rm/2005/57888.htm.
Mas, por mais eloquentes que sejam esses episódios descarados de cinismo, eles têm pouco a dizer se tudo o que extrairmos for a percepção de que elites políticas e econômicas manipularam, ou até mesmo fabricaram, narrativas de crise e declínio. A questão central, hoje, é saber se desta vez é diferente.
A história do declínio segundo Huntington, 1958-1988
Estudos de casos são a melhor forma de rastrear as complexas interações entre o discurso declinista e a realidade do declínio. A genealogia de Huntington começa no final da década de 1950, quando muitas elites ocidentais temiam que o crescimento relativamente acelerado da renda nacional soviética pudesse implicar um rebaixamento dos EUA enquanto potência. Em retrospecto, essa crença no crescimento soviético se mostrou infundada, mas o desempenho dos EUA nesse período foi, de fato, insuficiente. Entre meados de 1953 e meados de 1958, a produção industrial e o nível de emprego no setor privado recuaram. Durante toda a era Eisenhower, o PIB real per capita cresceu pouco mais de 1% ao ano.13U.S. Bureau of Labor Statistics. s.d. “All Employees, Total Private”. FRED Economic Data, Federal Reserve Bank of St. Louis. Acesso em 19 de maio de 2026. https://fred.stlouisfed.org/series/USPRIV; U.S. Bureau of Economic Analysis. s.d. “Real Gross Domestic Product Per Capita”. FRED Economic Data, Federal Reserve Bank of St. Louis. Acesso em 19 de maio de 2026. https://fred.stlouisfed.org/series/A939RX0Q048SBEA; Board of Governors of the Federal Reserve System (US). s.d. “Industrial Production: Total Index”. FRED Economic Data, Federal Reserve Bank of St. Louis. Acesso em 19 de maio de 2026. https://fred.stlouisfed.org/series/INDPRO.
Em 4 de outubro de 1957, a União Soviética lançou o primeiro satélite artificial da história. A imagem do Sputnik, impulsionado por uma versão modificada de um míssil balístico intercontinental, permitiu ao discurso declinista apresentar o desafio tecnoeconômico soviético como uma ameaça direta à segurança física dos cidadãos americanos. Naquele mesmo momento, a economia dos EUA entrava na pior recessão desde os anos 1930. Aproveitando a conjuntura, o Senador de Washington Henry “Scoop” Jackson, importante liderança liberal do Partido Democrata e aliado da Boeing, reivindicou uma “Semana Nacional da Vergonha e do Perigo”.14Brzezinski, Matthew. 2007. (<)em(>)Red Moon Rising: Sputnik and the Hidden Rivalries That Ignited the Space Age(<)/em(>). Nova York: Times Books, p. 297
As aparentemente intermináveis áreas de fragilidade relativa catalogadas pelo lançamento do Sputnik—crescimento econômico, gastos com pesquisa e desenvolvimento, investimento em educação, taxas de formação em engenharia e assim por diante—serviam como argumentos para que a nação levasse a sério sua posição no mundo. O pânico do Sputnik foi o trampolim necessário para impulsionar o crescimento econômico, as compras militares e os investimentos públicos ancorados no aparato de defesa. E, de quebra, essa síntese política ainda ajudava a bloquear alternativas social-democráticas mais incômodas.
O lançamento do Sputnik foi, evidentemente, um acontecimento real, e o crescimento econômico dos EUA era, de fato, relativamente lento. Mas para alimentar a narrativa histérica da crise, detalhes fundamentais foram ocultados, exagerados ou distorcidos. A expressão mais clara dessa enganação descarada foi a chamada “lacuna de mísseis”, que John F. Kennedy instrumentalizou em sua campanha pela retomada democrata do poder em 1960. De acordo com vários “especialistas” alinhados ao Partido Democrata, a União Soviética em breve teria 1.500 mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs, na sigla em inglês), em comparação com apenas 130 nos EUA. Internamente, no entanto, a CIA estimava que os soviéticos teriam cerca de uma dúzia de ICBMs. Hoje sabemos que esse número era ainda menor. Mesmo na época, Eisenhower tinha consciência de que a lacuna de mísseis era uma fantasia conveniente, razão pela qual reagiu à derrota republicana em 1960 com um discurso que criticava o que chamou de complexo industrial-militar. E o próprio Kennedy, se algum dia realmente acreditou na existência da lacuna, logo passou a suspeitar (em suas próprias palavras) que “parece que nós, alguns de nós, distorcemos os fatos e criamos um mito”.15John F. Kennedy Presidential Library and Museum. 2002. “New Tapes: JFK Questioned Value of Nuclear Build-Up” press release. 6 de fevereiro. https://www.jfklibrary.org/about-us/news-and-press/press-releases/new-tapes-jfk-questioned-value-of-nuclear-build-up.
A combinação do golpe de propaganda soviético com a recessão nos EUA tornou-se a chave da política americana pós-1958. Mas o que realmente estava em jogo nesse labirinto de espelhos? Segundo o historiador Julian Zelizer, o “objetivo” do mito da lacuna de mísseis era “a revitalização do internacionalismo liberal”.16Zelizer, Julian E.. 2007. “When Liberals Were Hawks: Liberal Militarism, The Republican Right, and the Cold War”. Paper apresentado na Annual Meeting of the Society for Historians of American Foreign Relations (SHAFR). No plano doméstico, a vitória seria medida pelo crescimento da produção: a estagnação generalizada que assombrou a década de 1950 foi substituída pelo boom ininterrupto da década de 1960. A partir desse estudo de caso, Huntington formulou duas hipóteses importantes. A primeira dizia respeito à utilidade do declinismo exagerado para assegurar apoio político à renovação do poder nacional. A segunda tratava do caráter “autolimitante” dos cortes no orçamento militar, posto que os efeitos econômicos de qualquer retração mais drástica poderiam “dar origem a pressões e demandas políticas potencialmente atendidas por um aumento nos gastos militares”.17Huntington, Samuel P.. 1961. (<)em(>)The Common Defense: Strategic Programs in National Politics(<)/em(>). New York: Columbia University Press.
As fórmulas básicas do capitalismo da Guerra Fria perduraram até 1968, quando os vietcongues e os mercados internacionais de câmbio expuseram os limites desse arranjo entre política interna e externa. Poucas semanas após a Ofensiva do Tet, “multiplicaram-se os relatos de hotéis, companhias aéreas e casas de câmbio europeias se recusando a aceitar pagamentos em dólares”.18Coombs, Charles A.. 1976. (<)em(>)The Arena of International Finance(<)/em(>). Nova York: John Wiley & Sons, p. 168. Medidas de emergência—incluindo uma pausa nos bombardeios e a renúncia de Lyndon Johnson—estancaram o sangramento. Mas a crise de confiança no poder e na solvência dos Estados Unidos persistiu, levando ao fim do padrão ouro-dólar em 1971.
A longa desaceleração de meados dos anos 1970, que levou dezenas de milhões ao desemprego em todo o mundo capitalista, fez muita gente séria falar em uma nova depressão. Enquanto isso, nacionalistas de recursos naturais liderados pela OPEP passaram a desafiar os fundamentos da ordem econômica internacional. As expropriações atingiram níveis recordes, enquanto consultorias empresariais tentavam prever o local da próxima revolução por meio de computadores com cartões perfurados (principais candidatos: Rodésia, Nigéria, Turquia, Líbano, El Salvador, Líbia, Portugal, Itália, Argentina e Zaire). “É o fim do dólar como moeda internacional”, declarou Charles Kindleberger.19Mehrling, Perry. 2022. (<)em(>)Money and Empire: Charles P. Kindleberger and the Dollar System(<)/em(>). Cambridge: Cambridge University Press, p. 155. No início da década de 1980, dentre os livros de não ficção mais vendidos estavam Crisis Investing e The Coming Currency Collapse.
Tudo isso era uma grande dor de cabeça, e era extremamente complicado imaginar como superar esses problemas dentro da política democrática estadunidense, atribulada por forças como o “neo-isolacionismo” de direita e o antimilitarismo liberal. Nixon e Kissinger tentaram lidar com as complicações internacionais declarando que “a era das superpotências está chegando ao fim”.20Kissinger, Henry A.. 2003. “Central Issues of American Foreign Policy”. Em (<)em(>)Foreign Relations of the United States, 1969–1976, vol. I, Foundations of Foreign Policy, 1969–1972(<)/em(>). Smith, Louis J. e Herschler, David H. (eds.). Washington, D.C.: Government Printing Office, Document 4. https://history.state.gov/historicaldocuments/frus1969-76v01/d4 Jimmy Carter gabava-se de que os EUA tinham finalmente se libertado daquele “medo desmedido do comunismo que outrora nos levou”21Carter, Jimmy. 1977. “Address at Commencement Exercises at the University of Notre Dame.” Em (<)em(>)The American Presidency Project(<)/em(>). Peters, Gerhard e Woolley, John T. (eds.). 22 de maio https://www.presidency.ucsb.edu/documents/address-commencement-exercises-the-university-notre-dame. a desastres como o Vietnã.
Diante do enfraquecimento do militarismo globalista, uma influente coalizão de elites se mobilizou para ressuscitar a ideia de uma ameaça soviética clara e iminente. “Precisamos de um Pearl Harbor para nos despertar”, escreveu em 1977 o neoguerreiro frio Eugene Rostow.22Gibbs, David N.. 2024. (<)em(>)Revolt of the Rich: How the Politics of the 1970s Widened America’s Class Divide(<)/em(>). New York: Columbia University Press. Alguns anos depois, Rostow e seus companheiros do Comitê sobre o Perigo Iminente inundariam jornais e comissões do Congresso com a alegação fantasiosa de que a Revolução Iraniana era o tiro de largada de uma nova ofensiva soviética. Na ausência de um verdadeiro Yamamoto, qualquer coisa serve de Pearl Harbor.
O pânico da Segunda Guerra Fria foi cultivado por um grupo bipartidário que incluía democratas como Samuel Huntington. Mas seu maior beneficiário foi Reagan, que chegou ao poder com ideias vagas sobre estratégia e fortes compromissos com os interesses domésticos do complexo industrial-militar. De acordo com William Niskanen, o economista de Reagan, o orçamento da defesa havia se tornado “pouco mais do que um apanhado de solicitações orçamentárias de cada ramo das Forças Armadas”.23Collins, Robert M.. 2000. (<)em(>)More: The Politics of Economic Growth in Postwar America(<)/em(>). Nova York: Oxford University Press, p. 202. Mas até a história oficial publicada pelo Gabinete do Secretário de Defesa sofreu para apresentar argumentos favoráveis ao rearmamento:
Foi uma reação necessária e apropriada à ameaça soviética? Ou foi apenas uma forma de satisfazer os interesses do complexo industrial-militar? Ou um pouco de cada?24Keefer, Edward C.. 2023. (<)em(>)Caspar Weinberger and the U.S. Military Buildup, 1981–1985(<)/em(>). Secretaries of Defense Historical Series, vol. X. Washington, D.C.: Historical Office, Office of the Secretary of Defense, p. 3
Ainda menos plausível do que a Guerra Fria requentada era a ideia de que o Japão representasse uma ameaça à segurança nacional dos EUA. Um dos estímulos para o ensaio de Huntington foi o inesperado best-seller do historiador Paul Kennedy, The Rise and Fall of the Great Powers, cujo argumento era que os EUA haviam recaído em um padrão familiar de expansão imperial fiscalmente ruinosa. O verdadeiro vencedor seria o Japão, cuja liberdade em relação aos custos militares lhe havia possibilitado conquistar, um após o outro, mercados civis ao redor do mundo.
Vale a pena relembrar a extensão e a irracionalidade do pânico em torno do Japão. Era ridículo sugerir que um país desarmado e dependente representasse uma ameaça à segurança de qualquer pessoa nos Estados Unidos. (Isso não impediu que magnatas do Vale do Silício, como Robert Noyce, da Intel, alertassem que “eles querem cortar nossos pescoços”25Bylinsky, Gene. 1978. “The Japanese Spies in Silicon Valley”. (<)em(>)Fortune(<)/em(>), 27 de fevereiro, 74–79. Um trecho do artigo foi citado em 1983 numa (<)a href='https://www.google.com/books/edition/Building_and_sustaining_the_economic_rec/ZfUUAAAAYAAJ?hl=en&gbpv=1&dq=%E2%80%9CThey+are+out+to+slit+our+throats.%E2%80%9D&pg=PA323&printsec=frontcover'(>)sessão do Congresso(<)/a(>) para o Subcommittee on Domestic Monetary Policy.) Tentativas forçadas de redefinir o Japão como um enclave soviético apenas realçavam a incongruência da narrativa. No início da década de 1980, a Toshiba vendeu oito máquinas de controle numérico à URSS, contornando deliberadamente as restrições de exportação impostas pelos EUA. Supostamente, essas sofisticadas fresadoras poderiam ser usadas na fabricação de parafusos para propulsores de submarinos. Certamente, alegou o Pentágono, não era coincidência que a marinha soviética tivesse acabado de alcançar um avanço inesperado na redução do ruído de seus submarinos nucleares.26Chapman, Bert. 2013. (<)em(>)Export Controls: A Contemporary History(<)/em(>). Lanham, MD: University Press of America, p. 263. Logo depois, é claro, a União Soviética deixaria de existir.
Huntington rejeitava confiantemente a ideia de que o Japão fosse, ou pudesse se tornar, um concorrente próximo dos EUA. A potência industrial asiática ainda carecia de uma ideologia universalmente atraente. Mesmo na frente econômica, o modelo de crescimento japonês mostrava sinais de queda em seus rendimentos, enquanto os EUA haviam sustentado uma participação relativamente estável no PIB mundial e nas exportações da década de 1960 até a década de 1980. Huntington também desprezava a ideia de que “o declínio decorre do imperialismo e do militarismo”.27Huntington 1988, “Decline or Renewal”, p. 86. Estudioso dos anos 1950, ele sabia que, muitas vezes, o oposto era verdadeiro. De qualquer forma, mesmo no auge da Segunda Guerra Fria, o orçamento de defesa dos EUA respondia por bem menos de 10% do PIB.
Mesmo assim, no final da década, Huntington concluiu que o pânico declinista era necessário para levar os estadunidenses a enfrentar os desafios reais, mas remediáveis, que tinham diante de si. O problema estava no carrinho de compras, e não nas armas: “o consumismo, e não o militarismo, é a ameaça à força americana.”28Huntington 1988, “Decline or Renewal”, p. 88. A participação do consumo no PIB havia, de fato, disparado na década de 1980 (embora Huntington não mencionasse que esse consumo excessivo era altamente concentrado nas classes abastadas). Nesse aspecto, o Japão parecia ter vantagem, pois o consumo representava apenas 67% do seu PIB, em comparação com 78% nos EUA. Sempre foi difícil convencer as pessoas de que elas viviam bem demais, razão pela qual uma pequena crise talvez fosse exatamente o remédio prescrito.
Da “crise” à Crise, 1988-2016
A anatomia huntintoniana do declinismo foi transmitida como herança intelectual de geração em geração entre as elites estadunidenses. Até bem pouco tempo atrás, essas elites ainda recorriam a Huntington para se tranquilizar. Em 2014, o ex-conselheiro de Segurança Nacional de Obama, Tom Donilon, observou que o declinismo recorrente “faz parte do nosso DNA e ajuda a impulsionar nossa renovação”. Citando diretamente o artigo de Huntington na Foreign Affairs, afirmou: “enquanto a população for periodicamente convencida de que o país está prestes a entrar em declínio, é improvável que os Estados Unidos entrem em declínio”. Qualquer desafio real—a fraca recuperação após 2008, o Tea Party, Piketty, a China—poderia ser tratado com doses homeopáticas de retórica da crise.29Donilon, Thomas. 2014. “The Landon Lecture.” (<)em(>)Landon Lecture Series(<)/em(>), (<)em(>)Kansas State University(<)/em(>). Manhattan: KS, 15 de abril. (<)a href='https://www.k-state.edu/landon/speakers/thomas-donilon/transcript.html'(>) https://www.k-state.edu/landon/speakers/thomas-donilon/transcript.html(<)/a(>).
Em 2016, porém, Hillary Clinton perdeu as eleições para Donald Trump e a confiança nesse imaginário de resiliência americana passou a ser um problema geracional para a política das elites. O choque foi profundo. Somada à inesperada ascensão de Bernie Sanders nas primárias democratas, a vitória de Trump passou a ser interpretada como uma crise de legitimidade do capitalismo liberal e, em particular, de sua variante globalizada. Jake Sullivan, o protégée linha-dura de Clinton, ficou encarregado de examinar os escombros da campanha e concluiu que a vitória de Trump “refletia o esgotamento do modelo econômico pós-Guerra Fria”, como se não houvesse sinais de alerta anteriores.30Hughes, Chris. 2025. (<)em(>)Marketcrafters: The 100-Year Struggle to Shape the American Economy(<)/em(>). New York: Avid Reader Press, p. 296
Conforme tentamos desvendar o significado político do discurso declinista, vale retomar o ponto em que Huntington havia parado e recordar as transformações dramáticas da economia americana que precederam essa nova onda de declinismo.
O que estava acontecendo na década de 1980, quando Huntington podia desprezar tão facilmente temores de fragilidade econômica? Por um lado, o dinamismo japonês tinha evaporado e já não parecia existir qualquer ameaça real à supremacia econômica dos EUA. Além da fraqueza dos concorrentes, o crescimento relativamente forte da economia do país sustentou alegações de uma revitalização industrial. Segundo o historiador Robert Brenner, após 1986, “o setor manufatureiro dos EUA e, com ele, a economia privada do país como um todo alcançaram uma recuperação impressionante da lucratividade e do dinamismo”. No final dos anos 1990, o investimento em capital fixo das empresas americanas ultrapassou os picos da “era de ouro” pré-Reagan.31U.S. Bureau of Economic Analysis. s.d.. “Private Nonresidential Fixed Investment/Gross Domestic Product,” (<)em(>)FRED Economic Data, Federal Reserve Bank of St. Louis(<)/em(>). Acesso em 19 de maio de 2026. https://fred.stlouisfed.org/graph/?g=1W4E1. Junto à euforia especulativa e às fraudes da década, indicadores mais tradicionais, como o investimento empresarial, forneciam uma base concreta para o boom.
Ao mesmo tempo, a base industrial americana havia sido radicalmente reestruturada de maneira relativamente bem-sucedida. Ninguém negava que a desindustrialização da década de 1980 tivesse sido disruptiva. De acordo com a Brookings, as perdas repentinas de empregos nesse período “superaram de longe qualquer outra onda de demissões na história recente dos Estados Unidos”. Ainda assim, seus efeitos foram altamente concentrados, afetando principalmente dois setores (siderúrgico e automotivo) e algumas dezenas de condados (de um total de mais de 3 mil em todo o país).32Feyrer, James Donald, Bruce Sacerdote e Ariel Dora Stern. 2007. “Did the Rust Belt Become Shiny? A Study of Cities and Counties That Lost Steel and Auto Jobs in the 1980s”, (<)em(>)Brookings-Wharton Papers on Urban Affairs(<)/em(>). https://dx.doi.org/10.1353/urb.2007.0005.
A indústria pesada nunca se recuperou totalmente, mas versões impressionistas da história da desindustrialização acabaram obscurecendo a profundidade da reestruturação que ocorreu após o fundo do poço da era Reagan. Ao longo da década de 1990, quase 300 mil postos de trabalho foram criados no setor automotivo dos EUA. Esses novos empregos não surgiram nos mesmos lugares de antes nem ofereceram o mesmo grau de estabilidade aos trabalhadores, tampouco levaram à formação de sindicatos poderosos. Mas, do ponto de vista de um gestor do capitalismo estadunidense ou de um acionista de alguma das três grandes montadoras, era difícil ver sinais de fracasso nisso. Histórias semelhantes de racionalização orientada pelo lucro e pela recuperação parcial poderiam ser contadas sobre os setores siderúrgico e de maquinários após 1982. Para a política das elites, no entanto, os impactos geracionais desse deslocamento—e seu lugar na história do discurso declinista—só se tornariam plenamente visíveis em 2016.
Mais decisiva do que a reestruturação das velhas indústrias foi a supremacia americana na manufatura de alta tecnologia. No livro The Making of Global Capitalism, Leo Panitch e Sam Gindin observam que, no fim dos anos 1990, “35% da produção mundial de alta tecnologia ocorria dentro dos Estados Unidos”.33Dentro dos EUA, ou seja, “sem contar a extensa produção de alta tecnologia das multinacionais americanas no exterior”. Panitch, Leo e Gindin, Sam. 2012. (<)em(>)The Making of Global Capitalism: The Political Economy of American Empire(<)/em(>). Londres: Verso, p. 190. O Japão e a Alemanha, supostos beneficiários de uma política industrial esclarecida, respondiam por 21% e 6%, respectivamente (a União Europeia como um todo representava 24%). Uma década depois da última escalada da Guerra Fria de Reagan, “os EUA respondiam por 77% das vendas globais do setor aeroespacial, 75% de todas as vendas de computadores e equipamentos de escritório, 91% das vendas de software e 62% das vendas farmacêuticas”.34Panitch e Gindin 2012, “The Making of Global Capitalism”(<)em(>).(<)/em(>)
Diante das fragilidades da tese declinista (como formulada por Huntington) e da prosperidade evidente da era de Bill Clinton, os antideclinistas não encontraram grandes dificuldades para conquistar território. Em 1998—ao contrário de 1988, 1978, 1968, 1958 e 1948—, nenhuma política doméstica de crise parecia estar em vigor. Aproveitando essa brecha, parte do discurso das elites passou da complacência ao delírio, especialmente entre os economistas. “Essa expansão vai durar para sempre”, afirmou Rudi Dornbusch, do MIT. Paul Krugman declarou que bons economistas poderiam discordar sobre questões como “a importância do lado da demanda”. Janet Yellen e Alan Blinder especularam sobre um futuro sem dívida pública.
Mas enquanto a retórica da elite se tornava surpreendentemente isenta do alarmismo da crise, sinais reais de tensão econômica começavam a se acumular. Mesmo antes de 2008, as estatísticas de produtividade já deixavam claro que a década de 1990 havia sido uma anomalia, e não um novo e fabuloso normal. Segundo o Bureau of Labor Statistics, a desaceleração da produtividade tornou-se “uma refutação imediata da ideia popular . . . de que havíamos entrado em uma nova era”.35Sprague, Shawn. 2021. “The U.S. Productivity Slowdown: An Economy-Wide and Industry-Level Analysis”, (<)em(>)Monthly Labor Review(<)/em(>), abril. https://www.bls.gov/opub/mlr/2021/article/the-us-productivity-slowdown-the-economy-wide-and-industry-level-analysis.htm Na manufatura, a estagnação era visível não apenas no emprego, mas também na produção. Entre 1975 e 2000, o índice de produção industrial desse setor mais do que dobrou. Já entre 2000 e 2025, a produção total recuou ligeiramente. Nos setores de alta tecnologia, o excesso de capacidade instalada resultou em investimentos fracos e cortes de custos.
As primeiras duas décadas e meia do século XXI foram pouco generosas com os sonhos otimistas dos anos 1990. Ficou claro que os democratas neoliberais que diziam ter revitalizado a indústria dos EUA estavam errados. Em 2018, Jake Sullivan, o protégée de Clinton, já considerava oportuno afirmar que a produção no setor de defesa “constitui a única base industrial nacional dos Estados Unidos”.36Ahmed, Salman, Karan Bhatia, Wendy Cutler, David Gordon, Jennifer Harris, Edward Hill, Douglas Lute, Daniel M. Price, William Shkurti, Christopher Smart, Fran Stewart, Jake Sullivan, Ashley J. Tellis e Tom Wyler. 2018. (<)em(>)U.S. Foreign Policy for the Middle Class: Perspectives from Ohio(<)/em(>). Washington, D.C.: Carnegie Endowment for International Peace, 10 de dezembro. https://carnegieendowment.org/research/2018/12/us-foreign-policy-for-the-middle-class-perspectives-from-ohio A pressão dos acionistas terminou por desestabilizar as próprias empresas que sustentaram a supremacia americana. A General Electric, fundada em 1892, deixou de existir em 2024. Naquele mesmo ano, Adam Tooze pôde se referir sem controvérsia ao “fato de que a Boeing já não consegue fabricar aviões seguros, ou de que a Intel já não consegue produzir chips de ponta”, e perguntar: “Se você atua na manufatura de alta complexidade, por que estaria nos Estados Unidos?”37Christophers, Brett e Adam Tooze. 2025. “Market Failure: The Climate Crisis and the Limits of Capitalism”, moderado por Kate Aronoff. (<)em(>)Dissent(<)/em(>), 28 de fevereiro. https://dissentmagazine.org/online_articles/market-failure/
Da perspectiva huntingtoniana, o acúmulo de evidências concretas do declínio americano fez com que os fundamentos da lógica revivalista do declinismo mudassem profundamente. A dinâmica de autorrenovação descrita por Huntington dependia de dois elementos: “a abertura de seu sistema político e a competitividade de sua economia”. Hoje, ambos os pilares estão abalados. Se a retórica da “crise” começa a dar lugar a uma efetiva crise econômica e política, a relação traçada por Huntington entre o discurso declinista e a realidade da renovação estadunidense talvez já não seja mais sustentável. O acúmulo visível de décadas de desestruturação econômica, somado a uma avalanche de crises internas e externas irradiadas de Washington, impõe a questão: será que a “nobre mentira” declinista ainda é capaz de produzir seu efeito estabilizador?
Um século de vergonha e perigo?
A resposta a essa pergunta provavelmente depende da forma como se define sucesso. Mesmo uma deterioração contínua e descontrolada dos EUA pode ser compatível com sua persistência enquanto polo mais forte de um mundo multipolar.
As conquistas da China no campo da produção não se converterão em hegemonia automaticamente, a menos que o Partido Comunista Chinês desenvolva uma ideologia globalmente atraente e enfrente as profundas contradições existentes dentro da própria sociedade. Na década de 1920, os EUA produziam 85% dos automóveis do mundo, mas ainda precisaram da Depressão, do New Deal e de outra Guerra Mundial para integrar sua classe trabalhadora e construir uma nova ordem mundial. Os mesmos princípios se aplicam à dimensão militar: as humilhações sofridas no Golfo Pérsico demonstram que os EUA não são onipotentes, mas, enquanto outros países permanecerem militarmente inferiores ao complexo EUA-OTAN-Israel-OEA, não há razão para que os EUA não possam desfrutar de um domínio sem onipotência.
De toda forma, já é possível afirmar o seguinte: independentemente de os EUA permanecerem ou não dominantes em algum sentido, suas pretensões hegemônicas têm se tornado cada vez menos convincentes. A aplicação banal da política de crise, seja qual for sua eficácia eleitoral ou burocrática, simplesmente não é capaz de restaurar o estado de coisas anterior a 2016 ou a 2000. Esse trem partiu junto com Joe Biden. Mais ainda, os próprios instrumentos políticos do declinismo tendem a acelerar a erosão dos dois pilares identificados por Huntington. Isso é incontestável no que diz respeito à abertura política: a virada securitária do pós-2020 ficará para sempre associada à repressão bipartidária contra residentes nos Estados Unidos, de Hamilton Hall38N.E.: Hamilton Hall é um edificio da Universidade do Columbia, em Nova York, ocupado por estudantes ativistas pró-Palestina em 2025. Em (<)a href='https://www.bbc.com/news/articles/c0rz4eqx4g7o'(>)resposta(<)/a(>) à mobilização, a Universidade suspendeu e expulsou alunos participantes e o governo Trump cortou cerca de US$ 400 milhões do financiamento federal de Columbia. às Cidades Gêmeas,39N.E.: As Cidades Gêmeas [ou Twin Cities], Minneapolis e Saint Paul, são cidades do estado de Minnesota que foram alvo da Operação Metro Surge do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos [Immigration and Customs Enforcement ou ICE], resultando na morte dos cidadãos estadunidenses Renée Good e Alex Pretti. passando pelo CECOT.40N.E.: CECOT, ou Centro de Confinamiento del Terrorismo é um presídio de segurança máxima instalado em El Salvador em 2022. No começo de 2025, o Secretário de Estado Marco Rubio selou um (<)a href='https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2025/02/03/rubio-diz-que-el-salvador-aceitara-receber-presos-americanos.htm'(>)acordo(<)/a(>) com o governo de El Salvador para enviar “imigrantes e criminosos” presos nos Estados Unidos ao Centro. A mesma coisa vale para a esfera econômica, na qual o novo vocabulário ferozmente bipartidário da política orientada pela segurança nacional produziu uma década de protecionismo aventureiro, culminando no “Dia da Libertação”.
O atual caleidoscópio de discursos declinistas transforma os escombros acumulados da guerra de classes doméstica nos Estados Unidos, da destruição imperial e da competição com a China em uma vertiginosa sucessão de diagnósticos e prescrições. Enquanto intelectuais do America First defendem um declínio administrado no New York Times, multiplicam-se ecos suprapartidários da “Semana da Vergonha e do Perigo” de Scoop Jackson. Mas os declinistas de hoje parecem menos capazes do que nunca de produzir uma nova era de renovação. E, em uma época de convulsões tectônicas globais, tentar contornar a crise por meio de triangulações políticas não funciona: os últimos anos da política estadunidense mostram que isso agrava ainda mais a situação.
Leia mais
Alerta de suicídio imperial
Anatomia do poder estadunidense
Economia política internacional e poder imperial dos EUA
Power, States, and Wars
An interview with Michael Mann on the study of history and the reemergence of great power politics
Over the course of several decades, Michael Mann's writing has consistently advanced thinking on great powers and the social orders they create. Combining a theoretical...
O que foi a Bidenomics?
Do Build Back Better à síntese de segurança nacional
Do Build Back Better à síntese de segurança nacional