edição 1, junho de 2026
Entrevistas
Alerta de suicídio imperial
Anatomia do poder estadunidense
Nos últimos dezoito meses, os Estados Unidos lançaram bombas sobre Irã, Venezuela, Síria, Iêmen, Somália, Nigéria, Iraque e o Mar do Caribe, ao mesmo tempo em que ameaçaram mobilizar tropas para uma série de outros países, incluindo México, Colômbia e Cuba. Essa expansão bélica em escala global—somada aos conflitos comerciais e às crises energéticas que desorganizaram cadeias de suprimento vitais—colocou em xeque a durabilidade e a racionalidade do imperialismo americano. Mas que tipo de império é o estadunidense? O protecionismo beligerante de Trump representa uma ruptura com a hegemonia americana ou a reconstituição de uma era anterior de dominação?
Nesta entrevista, Herman Mark Schwartz situa o império americano em perspectiva histórica e comparada. Dialogando com debates da economia política internacional, Schwartz analisa a centralidade do dólar, os limites da produção e do crescimento dos EUA e a persistência do poder militar estadunidense ao longo do último século. Historicamente, argumenta Schwartz, os impérios dependeram de formas de cooperação entre centro e periferia—e é precisamente essa necessária colaboração que a agressividade global de Trump ameaça desarticular.
Herman Mark Schwartz é Professor Emérito de Política da Universidade da Virgínia. Historiador econômico, sua obra investiga as relações entre poder estatal e poder de mercado. Seu livro States Versus Markets, atualmente na quinta edição (2026), examina as transformações da relação entre Estado e mercado no contexto da globalização e das crises econômicas. Já Subprime Nation: American Power, Global Capital, and the Housing Bubble (2009) analisa o colapso do mercado imobiliário estadunidense em sua articulação com as finanças globais. Maria Fernanda Sikorski e Jack Gross, editores da PW, entrevistaram Schwartz em maio de 2026, pouco mais de dois meses após o início da prolongada guerra EUA-Israel contra o Irã.
Entrevista com Herman Mark Schwartz
Maria Fernanda Sikorski: Comecemos pelo básico: o que é um império?
Herman Mark Schwartz: Tendemos a imaginar os impérios como um conjunto de relações de poder que podem ser desenhadas em um mapa, colorindo a extensão territorial do Império Romano ou do Império Britânico. Essa visão pressupõe fronteiras relativamente nítidas: tudo o que fica fora da área colorida estaria, portanto, fora do império. Acho que essa é uma compreensão fundamentalmente equivocada de como os impérios funcionam.
A história da civilização humana é, em grande medida, uma história dos impérios: formações sociais de larga escala que mobilizam enormes volumes de recursos e exercem controle sobre outros seres humanos, seja organizando o trabalho, seja regulando comportamentos em função de objetivos imperiais. Na raiz disso está a conexão entre violência e comércio—entre Estados e mercados. Historicamente, todos os impérios nasceram do controle de fluxos comerciais de longa distância.
Estados interessados em expandir a capacidade arrecadatória frequentemente descobriam que a estratégia mais eficiente e lucrativa era controlar o comércio de longa distância e a circulação de bens de luxo. A escassez fazia desses bens fontes valiosas de receitas e, crucialmente, permitia a extração de recursos das elites. Mercadorias de consumo universal—sobretudo o sal—tornavam-se extraordinariamente lucrativas quando submetidas ao controle centralizado do Estado. Mas a principal ameaça à autoridade central nos grandes impérios provinha das elites internas, e o controle sobre os bens de luxo era uma das maneiras mais eficientes de drenar recursos dessas camadas, geralmente resistentes à tributação. Era essa a lógica dos sistemas de tributos: ao controlar o comércio externo, o Estado garantia acesso a bens escassos e utilizava sua distribuição tanto para arrecadar riqueza quanto para manter influência sobre potenciais rivais internos.
Em segundo lugar, há uma relação estreita entre o comércio de longa distância e o poder político. Impérios não são necessariamente, nem uniformemente, governados por déspotas. Na verdade, como demonstrou Michael Mann, o despotismo é bastante ineficiente. Impérios duradouros se sustentam por meio de relações de cooperação entre as elites do centro e as elites de sociedades subordinadas. Mas diferentes elites negociam diferentes tipos de acordo, e é justamente aí que a estrutura do império se torna mais nítida. No topo, estão o centro imperial e suas elites: isso é hierarquia. Mais abaixo, quanto maior a proximidade com o centro, mais favoráveis são os arranjos feitos pelas elites: isso é heterogeneidade. E, por fim, é o centro que determina os termos do comércio, da distribuição e da ordem política: isso é assimetria.
Se olharmos para o Império Britânico do século XIX, fica claro que ele operava por meio de diferentes camadas de integração e dominação. Algumas regiões eram administradas de forma despótica e tecnicamente faziam parte do núcleo do império. Outras, como os domínios autônomos e as colônias de povoamento branco, desfrutavam de condições muito mais vantajosas, recebendo volumes desproporcionais de capital e maiores graus de autonomia. Depois havia as colônias da Coroa, sob controle administrativo direto. O Sul da Ásia era governado de maneira muito mais violenta, mas ainda assim havia adesão das elites domésticas.
Mais abaixo na hierarquia da soberania estavam os protetorados, onde leis, moedas e idiomas locais continuavam existindo, mas cujas relações com o império eram mediadas pela língua, pela legislação e pela moeda do centro imperial. As cinco maiores zonas não brancas do Império Britânico—Índias Ocidentais, Estabelecimentos dos Estreitos, Índia, África Oriental e África Ocidental—operavam com moedas próprias lastreadas em prata, que circulavam apenas dentro de suas respectivas áreas monetárias. Esse arranjo restringia a criação de crédito e reprimia o investimento nesses territórios. A conversibilidade dessas moedas em libras esterlinas dependia de bancos privados britânicos e de currency boards locais, instituições monetárias coloniais que emitiam moeda exclusivamente contra reservas depositadas em Londres. A própria arquitetura desse sistema foi imposta pelo centro imperial, que definiu tanto a transição dos bancos privados para os currency boards quanto o padrão monetário baseado em prata, e não em ouro.
Essa é a lógica geral dos impérios. As formas históricas que eles assumem, contudo, variam conforme se expandem as tecnologias sociais e a capacidade estatal de mobilizar trabalho e recursos. Foi isso que permitiu a passagem de formas de dominação predominantemente despóticas para formas de poder infraestrutural. Isso explica as enormes diferenças entre o Império dos EUA e os anteriores. Primeiro, ele se sustenta em uma escala inédita de criação endógena de crédito offshore, muito mais ampla do que aquela existente sob a hegemonia britânica. Segundo, a capacidade destrutiva da guerra moderna cresceu exponencialmente. Terceiro, as corporações transnacionais passaram a atuar como canais de difusão de capacidades produtivas, acelerando o catch-up econômico da periferia.
Sob a lógica do desenvolvimento desigual e combinado, o desafio central de todo núcleo imperial consiste em preservar a assimetria entre centro e periferia: em outras palavras, manter uma vantagem decisiva na mobilização de recursos e na produção de poder. Nas condições contemporâneas, porém, essa distância tende a diminuir num ritmo muito mais acelerado do que em épocas anteriores.
Jack Gross: Qual é a diferença entre Estados e impérios?
HMS: Se o primeiro ponto era que o mapa não é o território, o segundo é que, por uma série de razões, é falsa a noção de que a Paz de Vestfália (1648) colocou o mundo em uma trajetória de transição dos antigos impérios agrários para um sistema moderno de Estados soberanos.
Historicamente, o fim dos impérios formais—mesmo dentro da estrutura vestfaliana—é extremamente recente. Eu estava vivo quando alguns dos últimos países foram descolonizados. E, quando observamos os impérios, a heterogeneidade é fundamental. Sempre existem zonas de soberania parcial e governança em camadas.
Muitos dos lugares que hoje chamamos de Estados ocupam, na prática, essa mesma posição essencialmente semissoberana. A Europa possui mais soberania local e autonomia jurídica do que muitas regiões, mas, militarmente, é claramente semissoberana e monetariamente ocupa um degrau abaixo do Federal Reserve e do sistema offshore do dólar. A Europa também continua repleta de bases militares americanas, assim como o Japão e a Coreia do Sul. E isso também é assimétrico: você não encontra bases militares alemãs nos EUA.
O que convencionalmente descrevemos como Estados soberanos são, na verdade, componentes de um sistema imperial mais amplo, diferenciados por graus variados de autonomia.
JG: Como a produção e reprodução das elites e das camadas gerenciais se encaixam nessa visão, tanto historicamente quanto no presente?
HMS: Antes de tudo, vale dizer que nenhum sistema de poder opera de forma perfeitamente ordenada. Historicamente, quando um centro incorporava uma periferia ao sistema imperial, isso envolvia algum tipo de troca, fosse incluindo entidades políticas semissoberanas nos ganhos do comércio, fosse concedendo-lhes maior autonomia e poder político.
Isso frequentemente se dava por meio de casamentos entre elites. As dinastias chinesas administravam rivais por meio de alianças dinásticas, incorporando elites fronteiriças a relações de cooperação com o centro imperial. O Império Romano, por sua vez, operava como um gradiente de integração econômica centrado no Mediterrâneo: quanto mais distante do centro, mais frágil se tornava a integração econômica e maior era a importância relativa dos bens de luxo em relação aos bens básicos. A distribuição desses produtos ajudava a manter as elites das fronteiras vinculadas ao centro imperial. Já no Império Britânico, para além das colônias de povoamento branco, o elemento decisivo era o acesso aos mercados de capitais de Londres, que permitia aos proprietários de terra na Argentina ou nos Estados Unidos acumular riqueza. As elites locais prosperavam justamente por sua integração às redes financeiras imperiais.
No caso dos Estados Unidos, há diversos mecanismos semelhantes de barganha política. Os EUA construíram uma coalizão em torno dos direitos de propriedade intelectual ao mobilizar empresas europeias dos setores farmacêutico e tecnológico para pressionar seus governos a garantir a aplicação desses direitos—condição essencial para a rentabilidade dessas firmas. A proteção militar oferecida pelos EUA à Europa, ao Japão e à Coreia do Sul também serve para integrar essas elites à ordem imperial americana.
O que costuma desestabilizar sistemas imperiais não são revoltas abertas, mas tensões internas desses pactos. Na Idade Média, um dos problemas clássicos era a isenção tributária da aristocracia. Foi isso que tornou o Estado espanhol tão frágil no auge de seu império. A Coroa britânica, por sua vez, também se enfraqueceu quando a aristocracia, por meio do Parlamento, ganhou controle sobre a tributação. O paradoxo é que essas estratégias acabavam corroendo a própria estrutura imperial da qual dependia a segurança das elites, deixando o sistema exposto à pressão de potências rivais.
Hoje, elites evitam pagar impostos nos Estados Unidos e em todo o mundo. A redução das alíquotas corporativas e o avanço das privatizações vêm esvaziando a capacidade dos Estados. A principal ameaça ao sistema não parte dos camponeses nem dos trabalhadores, mas justamente das camadas de elite cuja cooperação é necessária para mantê-lo funcionando.
Quando os próprios quadros estatais perdem de vista sua função histórica, outros problemas emergem. Eles podem começar a priorizar interesses privados em detrimento de interesses coletivos de classe. Também podem simplesmente errar na leitura da conjuntura ou permanecer presos a rotinas burocráticas incompatíveis com a realidade do momento. As perdas militares dos EUA no Golfo são um exemplo disso. Estruturadas em torno de sistemas de armas caros e sofisticados, as Forças Armadas americanas ainda não perceberam que drones e inteligência artificial tornaram a proteção da infraestrutura e da logística uma questão central. Mesmo depois de três anos de guerra de drones na Ucrânia, continuam operando segundo as mesmas rotinas.
MFS: Em que momento você diria que os EUA se tornaram um império? E esse império está em declínio?
HMS: Nos séculos XVIII e XIX, os Estados Unidos faziam parte da fronteira imperial. As elites locais cooperavam com o centro imperial britânico até que, evidentemente, lançaram a Revolução Americana. Mark Agno argumenta que, já naquele momento, essas elites imaginavam a construção de um império na América do Norte: faziam planos para expulsar franceses, espanhóis, mexicanos e populações indígenas, ao mesmo tempo em que buscavam estabelecer acordos com o Canadá e com o próprio Império Britânico.
A ascensão dos Estados Unidos à condição de hegemonia global foi produto de duas guerras mundiais, que neutralizaram diversos concorrentes, e da Guerra Fria, que empurrou seu único potencial rival para uma posição inferior. Historicamente, a dominação imperial depende da capacidade de mobilizar violência de forma eficaz. Mas compreender o funcionamento concreto dos impérios exige decompor as diferentes fontes de poder e examinar os mecanismos específicos pelos quais a dominação é reproduzida.
Susan Strange é a principal referência aqui. Sua grande contribuição foi mostrar que as relações internacionais, mais do que um domínio centrado exclusivamente na força militar e na geoestratégia, constituem um subconjunto daquilo que hoje chamamos de economia política internacional. A capacidade de mobilizar recursos precede e condiciona o exercício da violência. Strange também se recusava a reduzir o poder a uma única dimensão e argumentava que o império americano se sustenta em quatro formas de poder estrutural: produtivo, financeiro, cognitivo e militar. Isso é particularmente útil para pensar sistemas imperiais, já que diferentes formas de poder predominam em zonas subordinadas distintas.
No plano produtivo, embora as empresas americanas permaneçam muito mais lucrativas do que as chinesas, a produção material já é amplamente dominada pela China. Em contrapartida, o fato do dólar continuar sendo a principal unidade de conta do crédito global—isto é, a expressão do poder financeiro americano—aponta na direção oposta: bancos não americanos criam mais crédito em dólar nos mercados offshore do que os próprios bancos dos EUA no mercado doméstico. Isso ainda constitui uma imensa fonte de poder infraestrutural para os Estados Unidos. No campo do conhecimento, as universidades americanas já foram as melhores do mundo, mas vêm sendo sistematicamente enfraquecidas pela política federal. Militarmente, os EUA seguem como a única potência com alcance verdadeiramente global, mantendo uma condição de “semidominância”. Ainda assim, a erosão de sua capacidade de dissuasão e de sua superioridade estratégica impõe limites cada vez maiores aos tipos de guerra que o país pode sustentar.
O dólar e o império
JG: Você tem argumentado contra a visão convencional de um sistema monetário internacional estruturado em torno da moeda soberana e proposto, no lugar, aquilo que chama de “visão da criação de crédito”. Poderia explicar melhor essa distinção e como ela altera nossa compreensão da centralidade do dólar?
HMS: Mais uma vez: bancos não americanos criam mais crédito denominado em dólar offshore do que os bancos americanos criam domesticamente. Isso é um fato. Também é um fato que os EUA operam com déficit em conta corrente.
A interpretação desses fatos depende do modelo monetário e da teoria do dinheiro e do crédito que se adota. A visão da moeda soberana corresponde à abordagem tradicional dos manuais de economia. Ela trata o dinheiro como um ativo puro, e não como um instrumento inscrito em balanços patrimoniais que possui um passivo correspondente. Essa visão emerge de uma narrativa histórica na qual agentes privados escolhem o ouro como meio de troca e passam a depositá-lo em bancos, que então o emprestam na forma de crédito.
A mesma lógica produz o modelo dos fundos emprestáveis. Primeiro vêm as poupanças, e então os bancos simplesmente intermedeiam essas poupanças para tomadores. Projetada para o sistema financeiro global, essa concepção implica que poupanças domésticas são transferidas de países superavitários para países deficitários. O problema é que ela aponta para os indicadores de poder errados: moeda e reservas cambiais em vez da capacidade efetiva de criação de crédito.
Essa visão tradicional trata a poupança como a base do crédito, mas ignora de onde essa própria poupança surgiu. A renda original que depois se transforma em poupança é criada pelo crédito. Ela é gerada por empresas que tomaram dinheiro emprestado a curto ou longo prazo para comprar insumos, incluindo salários. O sistema financeiro não é composto por cofres cheios de dinheiro, mas por uma rede de balanços interconectados na qual o crédito é criado em parte pelos bancos centrais, em parte pelos bancos privados e, decisivamente, criado do nada.
Isso se chama de criação endógena de crédito. Quando bancos concedem empréstimos, eles não estão simplesmente redistribuindo poupanças existentes. Estão criando simultaneamente dois registros contábeis: o empréstimo aparece como ativo e o depósito correspondente na conta do tomador como passivo. O dinheiro nasce do próprio ato de emprestar. Esses balanços estão articulados em cadeias complexas. Um banco americano pode conceder crédito a uma subsidiária nas Ilhas Cayman, que então empresta à Petrobras, que por sua vez financia um fornecedor local.
O que isso significa para a centralidade e o poder do dólar? No sistema offshore do dólar, bancos não americanos criam enormes volumes de crédito denominado em dólar, embora não estejam sediados nos Estados Unidos. Isso é decisivo porque, quando as crises eclodem—e, como argumenta Hyman Minsky, crises financeiras tendem precisamente a emergir de longos períodos de estabilidade—, os ativos dos bancos passam a valer menos do que seus passivos. Nessa situação, os bancos podem quebrar ou ser socorridos. Mas existe apenas uma instituição capaz de fornecer dólares em última instância: o Federal Reserve, através de linhas de swap. Os próprios bancos não conseguem simplesmente criar mais dólares, porque isso exigiria expandir simultaneamente ativos e passivos em seus balanços, e a crise consiste exatamente no fato de que os ativos existentes já perderam valor em relação aos passivos.
É justamente aqui que se percebe por que desagregar as diferentes fontes de poder é essencial para compreender os mecanismos concretos da dominação imperial. A posição de cada banco central na hierarquia do sistema global de crédito determina seu acesso à liquidez em dólar em períodos de crise. Isso é hierarquia. Alguns países desfrutam de acesso privilegiado aos dólares americanos. No núcleo interno do império encontram-se o Banco da Inglaterra, o Banco Central Europeu, o Banco Nacional Suíço, o Banco do Japão e o Banco do Canadá, todos dotados de acesso irrestrito e ilimitado às linhas de swap do Federal Reserve. Em caso de turbulência, podem obter dólares facilmente usando suas próprias moedas como garantia. Em um nível inferior estão nove países com acesso incondicional, porém limitado, ao Fed: Singapura, Coreia do Sul, México, Brasil, Dinamarca, Noruega, Suécia, Austrália e Nova Zelândia. São economias consideradas estrategicamente importantes para os Estados Unidos e que, por isso, recebem acesso garantido à liquidez em dólar em volumes restritos, normalmente entre US$ 30 e US$ 60 bilhões.
Para o restante dos países, as condições tornam-se significativamente mais rígidas. O acesso a dólares passa pelo mecanismo de recompra de títulos da FIMA (a repo facility da Foreign and International Monetary Authorities), através do qual bancos centrais podem trocar temporariamente títulos do Tesouro americano ou ativos hipotecários dos EUA por liquidez em dólar. A limitação é simples: sem títulos do Tesouro americano, não há acesso algum; e a quantidade disponível para empréstimo depende diretamente do volume desses ativos em posse do país. Isso é heterogeneidade.
A camada mais baixa da hierarquia é ocupada pelos países que sequer possuem títulos do Tesouro americano e precisam implorar por ajuda ao FMI e a outras instituições multilaterais. A assimetria atravessa todas essas relações porque, em última instância, é sempre o Federal Reserve quem dita as regras. O Tesouro americano pode utilizar o acesso a resgates financeiros para extrair concessões dos sistemas semissoberanos situados em posições inferiores da hierarquia global. Durante a crise financeira asiática, por exemplo, os EUA condicionaram o acesso aos pacotes de resgate à abertura do sistema financeiro sul-coreano, permitindo que instituições financeiras americanas adquirissem participações em empresas coreanas e expandissem suas atividades de crédito no país. A mesma coisa ocorreu com o México na crise de 1994.
Toda essa arquitetura só se torna inteligível quando o dinheiro deixa de ser concebido como um estoque fixo de poupança prévia e passa a ser entendido como um sistema de criação endógena de crédito.
MFS: Como você avalia a posição atual do dólar na economia global? O retorno de Trump ao poder alterou sua visão sobre a possibilidade de uma mudança no papel do dólar no sistema financeiro internacional? E, caso essa transformação venha a ocorrer, o que caracterizaria um ponto de inflexão?
HMS: Há hoje muita especulação em torno do declínio do dólar. Isso resulta, sobretudo, da fragmentação dos outros três pilares do poder estrutural identificados por Susan Strange. Ainda assim, o dólar permanece como um componente relativamente estável dessa arquitetura de poder, e, no médio prazo, não vejo razões para esperar mudanças muito profundas.
As previsões sobre o declínio do dólar costumam se basear na redução de sua participação nas reservas cambiais formais ou na leve queda de seu valor frente a outras moedas. Mas esses indicadores são menos importantes do que a questão do crédito. Nos últimos 25 anos, cerca de 60% do comércio mundial foi faturado em dólares, enquanto aproximadamente 80% das liquidações internacionais ocorreram na moeda americana. Isso significa que, mesmo quando uma transação é denominada em ienes, ela frequentemente continua sendo liquidada em dólares. Trata-se de um padrão extraordinariamente estável há pelo menos um quarto de século.
Entre 60% e 70% dos empréstimos realizados offshore por bancos e mercados de títulos seguem denominados em dólares, e quase metade das operações globais de câmbio envolve a moeda americana—o que, na prática, significa quase todas, já que cada transação cambial envolve duas moedas. Esse quadro permaneceu estável ao longo do governo Trump, embora seja possível que a guerra contra o Irã produza alguma mudança.
O PIB dos EUA corresponde a cerca de 25% do PIB mundial, mas a participação do dólar nos fluxos globais de transações é quase três vezes superior a isso. O euro, em contraste, possui um peso muito mais proporcional ao tamanho da economia europeia. Se quisermos considerar seriamente a hipótese da desdolarização, talvez seja preciso começar perguntando como o dólar alcançou uma posição tão dominante como moeda global.
Quando a Segunda Guerra Mundial devastou a Europa e o Japão, essas zonas econômicas tornaram-se dependentes dos Estados Unidos para sua reconstrução, que exigia grandes volumes de importações de alimentos, petróleo e máquinas. Para administrar essa situação, em 1950, a Europa criou a União Europeia de Pagamentos (EPU, na sigla em inglês). A própria criação da EPU havia sido exigida pelos EUA como condição para o recebimento da ajuda do Plano Marshall. O sistema permitia que os países europeus evitassem superávits comerciais entre si, o que poderia ser deflacionário, acumulando créditos na própria União e realizando liquidações periódicas através de uma unidade comum de conta que, na prática, todos reconheciam como o dólar. Foi nesse contexto que o dólar se consolidou como a moeda dominante da reconstrução do pós-guerra.
Pouco depois, os controles cambiais e de capitais começaram a desaparecer, assim como a própria EPU. Bancos europeus passaram então a expandir suas atividades para o exterior—ainda não existia um mercado europeu unificado—e a conceder empréstimos denominados em dólares. Esse foi um dos elementos decisivos para o surgimento do mercado de eurodólares em meados da década de 1950. Mais tarde, os choques do petróleo aprofundaram ainda mais essa dinâmica, já que o petróleo também era precificado em dólares.
O resultado foi a consolidação de um sistema global em que os balanços patrimoniais ao redor do mundo são massivamente denominados em dólar. O outro lado disso é que os demais países costumam depender de superávits comerciais, porque a demanda doméstica é insuficiente e seus modelos de crescimento são orientados por exportações. No entanto, se os países superavitários convertessem esses dólares em moeda local, suas taxas de câmbio se valorizariam frente ao dólar, corroendo justamente esses superávits. A solução encontrada foi reciclar dólares em ativos financeiros, expandindo continuamente balanços denominados na moeda americana. Enquanto as elites continuarem lucrando com exportações para o mercado americano e com a manutenção de ativos denominados em dólar, por que romperiam com esse sistema?
JG: Há cerca de um ano, a imprensa financeira estava obcecada em tentar encontrar uma lógica para as políticas econômicas do governo Trump, em grande medida a partir das interpretações dos textos de Stephen Miran, que argumenta que a centralidade do dólar produz fragilidades econômicas para os Estados Unidos, na medida em que déficits persistentes e um dólar sobrevalorizado estariam minando a indústria do país. Você argumenta, porém, que essas características não constituem fraquezas, mas sim condições estruturais da hegemonia do dólar. Como entender, então, a visão da administração Trump?
HMS: Existe uma certa coerência operacional no que Trump está fazendo, mas não há uma estratégia propriamente dita. Miran e Trump consideram a desindustrialização um problema e querem combinar tarifas com um dólar mais fraco para revertê-la. Também gostariam de reduzir o déficit comercial. Mas o restante das políticas da administração não é compatível com esses objetivos.
Os governos Johnson e Nixon enfrentaram uma preocupação semelhante e desenvolveram uma grande estratégia para lidar com ela. No fim dos anos 1960 e início dos anos 1970, os Estados Unidos começaram a registrar déficits comerciais e em conta corrente, algo percebido como prejudicial ao emprego industrial americano. Estava claro que o déficit comercial resultava do catching up produtivo da Europa e do Japão na manufatura mecânica. Esses países conseguiam produzir os mesmos tipos de automóveis, mas a preços mais baixos, porque pagavam salários inferiores. Isso só era possível porque sua produtividade havia praticamente alcançado os níveis americanos; no caso do Japão nos anos 1970, a produtividade na produção de aço e automóveis chegou inclusive a superar a dos EUA—aliás, esse é justamente o padrão típico dos impérios sobre o qual falamos antes: as periferias eventualmente alcançam o centro.
Em resposta, o choque Nixon combinou uma tarifa de 10% com uma desvalorização de 10% do dólar, restaurando temporariamente o equilíbrio externo americano. Mas a estratégia mais ampla foi além disso. O governo aceitou que os Estados Unidos já não eram capazes de dominar os segmentos industriais de menor valor agregado—especialmente setores como aço e automóveis, onde os sindicatos eram mais fortes. A opção foi abandonar a disputa direta com Japão e Europa nesses setores e voltar-se contra os sindicatos domésticos. Nos anos 1970, então, os EUA reorientaram tanto sua economia doméstica quanto a economia global em direção às novas tecnologias.
A estratégia consistia em reposicionar os Estados Unidos em torno de setores nos quais o país preservava liderança tecnológica. A chamada “Guerra contra o Câncer”, por exemplo, acabou funcionando como um gigantesco programa de investimento em biotecnologia. Houve investimentos maciços em eletrônica e indústria farmacêutica, acompanhados de mudanças profundas no regime de propriedade intelectual, tanto doméstico quanto internacional. A Suprema Corte reconheceu a possibilidade de patentear entidades biológicas inéditas, enquanto o Congresso aprovou legislações que tornaram os softwares protegidos por direitos autorais. Novas formas de propriedade foram criadas e generalizadas globalmente justamente nos setores em que os EUA eram ou poderiam vir a ser competitivos.
O fortalecimento dos direitos autorais favoreceu Hollywood e a indústria de software; patentes mais rígidas em biotecnologia impulsionaram as exportações farmacêuticas; e a liberalização agrícola consolidou a dominância agroindustrial americana, cada vez mais vinculada à biotecnologia. Paralelamente, os EUA reorganizaram sua estratégia militar, abandonando o modelo mecânico herdado da Segunda Guerra Mundial em favor de uma doutrina de alta tecnologia baseada em munições inteligentes, semicondutores e processamento digital de sinais. O objetivo era preservar a superioridade tecnológica reduzindo a necessidade de grandes contingentes militares, recorrendo cada vez mais a aliados e forças proxy para fornecer mão de obra militar em campo. Isso constituía uma estratégia coerente, algo ausente no caso de Trump.
Uma nova estratégia relativamente integrada emergiu durante os anos Obama, diante de pressões estruturais crescentes: o enorme déficit comercial com a China e a dependência de importações de petróleo que, em 2008, já representavam quase metade do déficit comercial americano. Obama então promove uma reorientação estratégica para a Ásia e busca reorganizar a economia em torno da eletrificação solar e do modelo de veículos elétricos hoje dominado pela China. Simultaneamente, enfraquece a capacidade da OMC de arbitrar disputas comerciais, já que a China vinha utilizando os próprios mecanismos da organização tanto para ampliar seu acesso a mercados externos quanto para proteger seu mercado doméstico.
Obama articulava uma estratégia relativamente coerente entre tecnologia, poder militar e déficit comercial. Foi também nesse período que o fracking foi fortemente expandido, convertendo os EUA de grandes importadores em exportadores de petróleo e gás. À medida que o petróleo deixa de ser uma vulnerabilidade estratégica para os EUA, a assimetria se intensifica: Europa, Japão e China permanecem dependentes de energia importada, enquanto os Estados Unidos já não dependem nem mesmo do petróleo do Oriente Médio.
É por isso que o retorno de Trump ao Oriente Médio é tão caótico. Não há coerência alguma do ponto de vista da construção de novas tecnologias e capacidades econômicas. Sua política corrói as bases institucionais da liderança tecnológica americana ao atacar universidades, pesquisa pública e financiamento científico. Instituições como a Fundação Nacional da Ciência, os Institutos Nacionais de Saúde e os braços de pesquisa vinculados à CIA, ao Departamento de Defesa e ao Departamento de Agricultura desempenharam um papel central na construção do sistema tecnológico americano.
A política de Trump é incoerente: um passo adiante na questão comercial, dez passos atrás em todo o restante. Se a estratégia consiste apenas em observar a taxa de câmbio do dólar ou o volume de reservas cambiais como medidas do poder americano, então ela está olhando para os indicadores errados. Desde que Nixon retirou os EUA de Bretton Woods, as taxas de câmbio flutuam continuamente. Ainda assim, em meio a todas essas oscilações, o dólar preservou sua posição dominante. A taxa de câmbio é uma questão secundária. A questão decisiva é: qual moeda serve de unidade de conta para a criação de crédito?
Ciclos de crescimento global
MFS: A última década de debates e reorientações de política econômica nos Estados Unidos pode ser vista como uma reação ao reconhecimento de um declínio do poder produtivo americano. Você argumenta, porém, de forma contraintuitiva, que o auge desse poder coincidiu com a própria desindustrialização, à medida que as empresas passaram a estruturar suas estratégias de acumulação em torno de cadeias globais de produção protegidas por regimes robustos de propriedade intelectual, concentrando nos EUA uma parcela desproporcional dos lucros. Como entender a relação entre globalização, propriedade intelectual como estratégia de lucro apoiada juridicamente pelo Estado americano e o conceito de “poder produtivo” formulado por Susan Strange?
HMS: Lembre-se de que Susan Strange argumentava que o império americano se sustentava sobre quatro pilares estruturais: domínio da produção, do crédito, do conhecimento e do poder militar. No plano produtivo, o que ocorreu foi um esvaziamento da manufatura americana impulsionado por dinâmicas veblenianas. Thorstein Veblen argumentava que aquilo que chamava de “indústria”, isto é, capacidade produtiva concreta e progresso técnico, estava em tensão permanente com aquilo que chamava de “negócio”, ou seja, a lógica da rentabilidade.
Em linhas gerais, a razão pela qual chegamos a uma situação em que empresas americanas concentram lucros sem produção, enquanto empresas chinesas concentram produção com margens reduzidas é que as firmas dos EUA responderam às grandes convulsões trabalhistas e aos choques macroeconômicos das décadas de 1960 e 1970 expulsando de suas estruturas o máximo possível de capital físico e trabalho. Paralelamente, transformaram-se cada vez mais em proprietárias de ativos de propriedade intelectual—patentes, direitos autorais, registros de marca e branding—e passaram a pressionar por regimes mais rígidos de proteção desses direitos. A Disney, por exemplo, garantiu a duração dos direitos autorais do Mickey Mouse por 105 anos.
O resultado foi uma extraordinária concentração de lucros em determinadas empresas americanas. As firmas dos EUA capturam uma parcela desproporcional dos lucros globais e, dentro desse grupo, as empresas baseadas em propriedade intelectual concentram uma fatia ainda maior. Embora os Estados Unidos representem cerca de 25% do PIB mundial, suas empresas absorvem aproximadamente 35% dos lucros corporativos globais.
Apple e Nike controlam suas cadeias produtivas inteiras, mas num sentido de facto, e não de jure. A Nike basicamente projeta tênis e vende emoções; outras empresas fabricam seus produtos. A Apple desenvolve software e design de chips, enquanto a produção é terceirizada: a TSMC fabrica os principais chips, Samsung e STM produzem memória e giroscópios, e a Hon Hai realiza a montagem final. Na base dessas cadeias, as empresas enfrentam intensa pressão competitiva para reduzir preços e, consequentemente, operam com margens muito estreitas.
A produção foi globalizada, mas isso significou, na prática, concentração dos lucros nos Estados Unidos e da atividade produtiva na China. Esses padrões tendem a se reforçar mutuamente. Quanto mais a manufatura se concentra na China, mais as empresas são atraídas por sua profunda rede de fornecedores. E quanto mais lucrativas se tornam as empresas americanas baseadas em propriedade intelectual, mais capital estrangeiro flui para adquirir participação nesses lucros, elevando o valor de suas ações e tornando a terceirização da produção o modelo “óbvio” a ser seguido.
Isso produziu consequências geopolíticas importantes. De forma intuitiva, tendemos a imaginar que quem fabrica detém o poder—algo que continua sendo verdade, em última instância, do ponto de vista militar. Mas, numa economia capitalista, o elemento central é a rentabilidade. O Estado americano cooperou tacitamente com a transferência da produção para o exterior, sobretudo ao reforçar globalmente as proteções jurídicas da propriedade intelectual, protegendo as empresas que terceirizavam internacionalmente sua produção. O acordo TRIPS da OMC foi decisivo para permitir que firmas americanas desses setores alcançassem níveis extraordinários de lucratividade.
Como todo processo social, isso também produziu contradições. O Estado americano abriu caminho para a globalização das empresas e garantiu às firmas dos EUA controle sobre grande parte da produção mundial e uma parcela desproporcional dos lucros globais. Mas esse mesmo processo também acelerou a desindustrialização, com consequências políticas domésticas e implicações geopolíticas profundamente negativas.
JG: A neo-schumpeteriana Carlota Perez argumenta que houve cinco revoluções tecnológicas desde a Revolução Industrial, incluindo a atual “Era da Informação”, iniciada por volta de 1971, que talvez esteja se aproximando de um ponto de esgotamento, embora tenha sido central para a estratégia de crescimento baseada na propriedade intelectual. Uma nova onda schumpeteriana de expansão estaria surgindo no horizonte, impulsionada pelas tecnologias verdes ou pela inteligência artificial? E o que isso pode significar para a distribuição global de poder e para a própria configuração da economia mundial?
HMS: Tenho uma resposta muito longa para essa pergunta na forma de um artigo escrito com Yussef Robinson. Quando publicamos esse texto, estávamos cautelosamente otimistas de que já existiam bases políticas para uma sexta revolução tecnológica, razão pela qual nos concentramos sobretudo na substância de uma possível nova onda de crescimento.
Schumpeter argumentava que o capitalismo não evolui em direção a um estado de equilíbrio, mas através de sucessivas, ainda que não automáticas, ondas de crescimento e estagnação. Cada nova onda emergiria em resposta ao esgotamento dos recursos relativamente baratos que sustentavam a fase anterior e envolveria cinco elementos inéditos: uma nova fonte de energia, um novo meio de transporte, uma nova tecnologia de produção de uso geral, novos bens industriais ou de consumo de massa derivados dessa tecnologia e uma nova forma de organização da produção—ou, como prefiro chamar, um novo modo de controle e exploração do trabalho. Os neo-schumpeterianos, como Carlota Perez, acrescentaram ainda um sexto elemento: uma nova forma de regulação macroeconômica capaz de restabelecer o equilíbrio entre oferta e demanda.
A atual ou quinta onda de crescimento centrada em tecnologias de informação e comunicação foi estruturada em torno de chips e software, digitalização, combustíveis fósseis, eletrônicos de consumo, internet, além da profunda desintegração vertical e globalização da produção e daquilo que costuma ser chamado de política macroeconômica neoliberal. Essa onda está claramente esgotada. O custo de produção de uma única porta lógica semicondutora voltou a subir após quase cinquenta anos de queda contínua; o orçamento global de carbono foi praticamente exaurido; os smartphones já saturaram o mercado consumidor; não há mais tempo disponível para expandir o consumo de redes sociais; e a governança neoliberal produziu crises financeiras recorrentes e desigualdades extremas.
Qualquer nova onda de expansão precisará superar esses limites estruturais. A energia não fóssil certamente ocuparia uma posição central nesse novo arranjo. Isso talvez—e enfatizo o talvez—pudesse assumir a forma de energias renováveis como fonte de eletricidade barata; eletrificação dos transportes; inteligência artificial e bioengenharia baseada em CRISPR-Cas como novas tecnologias de uso geral, com a IA aplicada sobretudo à robótica e ao design de proteínas, mais do que aos atuais modelos conversacionais de linguagem; além de um retorno à produção verticalmente integrada. Mas é justamente nesse ponto que as incertezas começam. Como seria uma forma de exploração do trabalho capaz de se sustentar política e macroeconomicamente nas próximas décadas? Como seriam reorganizadas as redes globais de comércio e finanças? Quais inovações jurídicas poderiam sustentar a rentabilidade da mesma forma que os regimes de propriedade intelectual sustentaram a onda das tecnologias da informação e comunicação? E, finalmente, o que poderá transformar—ou substituir—o atual império global americano baseado em finanças e cadeias globais de suprimento?
São essas as questões que estruturam os atuais conflitos multilaterais em escala global: a disputa entre produtores tradicionais de combustíveis fósseis e produtores de energia renovável; o antagonismo entre Estados Unidos e China e, em sentido mais amplo, entre Norte e Sul globais; o conflito entre proprietários e trabalhadores; e as tensões entre refugiados provenientes de futuras zonas de desastre climático e populações instaladas em regiões relativamente protegidas. Evidentemente, mudanças tecnológicas podem abrir caminho para transformações na estrutura global de poder. A produção de baterias e drones já está criando novas formas de capacidade militar; substitutos bioengenheirados para fibras e plásticos tendem a corroer o sistema petroagroindustrial; e assim por diante. Mas se eu tivesse respostas definitivas para essas questões, estaria conversando com meu corretor, não com vocês.
Até onde estou disposto a especular, consigo imaginar um mundo composto por economias regionais relativamente desconectadas, operando com moedas regionais em vez do dólar, submetidas a algum grau de pressão deflacionária em razão da queda acentuada do custo dos bens manufaturados e marcado por fricções militares ocasionais nas zonas de contato entre regiões. Algo que combinaria traços das chamadas Grandes Depressões de 1876–1879 e dos anos 1930, ainda que com uma depressão menos profunda e, espero, formas menos revanchistas de militarização.
Poder militar
JG: Segundo estimativas do Stockholm International Peace Research Institute, os gastos militares globais alcançaram os níveis mais altos já registrados. Nunca houve tamanha expansão simultânea dos diferentes complexos militar-industriais em competição, ainda que os Estados Unidos sigam ocupando com folga a posição dominante. O que mudou—ou não—na natureza do poder militar e em seu papel na competição imperial contemporânea?
HMS: Os gastos e a capacidade militar jamais deixaram de ser um pilar central do poder imperial. Mas existem algumas diferenças importantes hoje em relação ao período clássico da hegemonia americana. Em primeiro lugar, temos conflitos militares abertos nas fronteiras do núcleo do sistema: a invasão russa da Ucrânia e a guerra dos EUA contra o Irã.
É claro que, ao longo da hegemonia americana, houve golpes de Estado, manipulação eleitoral, corrupção, operações policiais, drones e guerras conduzidas com diferentes graus de visibilidade. Mas isso é qualitativamente distinto de lançar paraquedistas sobre um aeroporto nos arredores de Kiev e mover colunas de tanques através de fronteiras disputadas. E isso, por sua vez, é diferente de destruir praticamente toda a infraestrutura militar iraniana para, supostamente, obter um acordo que o governo Obama já havia alcançado em 2015. Portanto, eu não diria que o gasto militar era menos importante no passado recente; o que mudou é que sua centralidade se tornou muito mais explícita.
Isso é particularmente relevante num contexto em que o governo Trump desvalorizou radicalmente o poder militar americano de três maneiras. A primeira foi o consumo acelerado de estoques de munição equivalentes a cerca de uma década de produção, ou seja, algo que provavelmente levará outros dez anos para ser recomposto. A segunda é que a administração corroeu a reputação do poder militar americano ao demonstrar que os alvos de uma ofensiva dos EUA são capazes de responder com sistemas relativamente simples e baratos. Uma das expressões que circulam hoje é que os americanos estão “usando Ferraris para derrubar frisbees”, ou seja, empregando mísseis de milhões de dólares para derrubar drones de alguns milhares de dólares. A insurgência passou a ser capaz de impor custos materiais concretos ao império em termos de sistemas de armas: toda a infraestrutura de radares no Golfo foi destruída.
A terceira é que a capacidade de dissuasão foi praticamente dissolvida. Os gastos militares estão aumentando porque os sul-coreanos perceberam que os iranianos conseguiram destruir os interceptadores dos quais dependeriam para neutralizar um míssil norte-coreano com ogiva nuclear. Os interceptadores americanos remanescentes também se mostram vulneráveis a sistemas de armas baratos, que a China pode produzir em escala massiva. Como resultado, está em curso um planejamento de expansão maciça da produção militar em diversos países. O Japão, por exemplo, passou a legalizar a exportação de armamentos ofensivos como forma de desenvolver sua própria indústria bélica e integrar atores regionais ao seu sistema militar. O Canadá também começa a apontar na mesma direção com seu novo plano de rearmamento voltado para a União Europeia.
Os países estão pensando cada vez mais seriamente em armas nucleares. Sob Biden, os Estados Unidos poderiam ter sido muito mais agressivos no fornecimento de armamentos de longo alcance à Ucrânia, mas evitaram fazê-lo por receio, entre outros fatores, das capacidades nucleares russas. Em vez disso, Washington prefere confrontar potências não nucleares, como fez na Líbia, no Irã e no Iraque. Todos os incentivos estratégicos atualmente apontam para o desenvolvimento de capacidades de dissuasão nuclear.
Falando de forma um pouco provocativa, a maioria dos países é perfeitamente capaz de construir armas nucleares. Israel as possui. A África do Sul praticamente chegou a desenvolvê-las antes de encerrar seu programa. Brasil e Argentina avançaram até a metade do caminho. A tecnologia remonta aos anos 1940; o principal obstáculo é obter urânio enriquecido em quantidade suficiente. Francamente, hoje, seria quase insensato não buscar esse tipo de capacidade. E isso é profundamente assustador.
MFS: Ao longo da conversa discutimos momentos em que os Estados Unidos reconfiguraram a ordem global, como no pós-guerra e nos anos 1970. Hoje, muitos interpretam o governo Trump como um agente de transformação da ordem mundial em termos aparentemente autodestrutivos—você mesmo chegou a descrever esse processo como potencialmente suicida. Ao mesmo tempo, porém, essas demonstrações de força parecem reafirmar o caráter sem paralelo do poder americano. Até que ponto uma única administração pode corroer estruturas imperiais tão profundamente consolidadas?
HMS: Impérios normalmente não colapsam por causa de agressões externas. Eles entram em colapso por alguma forma de suicídio. Retomando a discussão sobre as elites, Trump é um exemplo extremo de um quadro dirigente que passa a pensar na própria riqueza e nos próprios interesses imediatos em detrimento da reprodução do sistema como um todo.
Mas até que ponto a tentativa de reconfigurar a ordem mundial é apenas resultado de Trump? As tentativas de reorganizar a ordem internacional em torno de uma nova inflexão histórica claramente antecedem sua chegada ao poder, assim como as próprias contradições que tornaram possível sua vitória eleitoral. Trump não criou esse ponto de inflexão, mas suas ações certamente moldarão seus desdobramentos.
Em termos imperiais, contudo, trata-se de um processo de longa duração. Os efeitos da deterioração do sistema universitário americano, por exemplo, serão sentidos ao longo de décadas, não de semanas. Embora a credibilidade militar dos EUA tenha sido seriamente danificada, o país continua sendo a única potência com capacidade logística e sistemas de comando e controle capazes de sustentar uma guerra global. É possível que o “Imperador Louco” desapareça, outro governo seja eleito e algum grau de restauração ocorra.
Como argumenta Edward Luttwak em seu livro sobre o Império Bizantino, a essência da estratégia bizantina era simples: não entre em guerras que você não pode vencer, porque elas acabarão destruindo o próprio império. O livro foi escrito, em grande medida, como um aviso às elites americanas de defesa e política externa durante a Guerra do Iraque. O caso do Irã hoje é ainda mais irracional. Parte do problema reside no próprio Trump, um líder errático e irresponsável, mas a conjuntura atual também expressa as pressões exercidas por forças sociais poderosas ao seu redor: a indústria do petróleo, o complexo industrial-militar, os falcões anti-Irã e assim por diante. Por isso, considero justificável falar em um império sob vigilância suicida: as elites no centro estão minando ativamente os alicerces do poder americano.
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