edição 1, junho de 2026

Análises

Poder Americano

Crepúsculo bolivariano

A recolonização da Venezuela

Na madrugada de 3 de janeiro de 2026, enquanto aviões, helicópteros e tropas de elite estadunidenses conduziam a operação que culminou na captura e transferência de Nicolás Maduro para Nova York, o mundo inteiro se perguntava onde estaria a vice-presidente do país. Os rumores eram de que ela se encontrava na Rússia, informação logo desmentida pelo Kremlin. Foi apenas após a retirada das forças americanas que Delcy Rodríguez reapareceu exigindo uma prova de vida do presidente Maduro. Na Venezuela, o dissabor de uma derrota militar catastrófica suscitou dúvidas sobre a possibilidade de uma traição interna ter permitido aos Estados Unidos agir com quase absoluta impunidade.

Horas depois, o presidente Donald Trump anunciou que os Estados Unidos passariam a governar a Venezuela e estavam negociando com as autoridades do país, que se comprometeram a colaborar e a não cometer os mesmos erros de Maduro. Se, em abril de 2002, setores populares e a classe média trabalhadora saíram às ruas para protestar contra o golpe de Estado e exigir o retorno de Chávez ao poder, desta vez prevaleceu a calma—interrompida apenas por uma mobilização reduzida e pouco combativa, convocada e administrada pelo Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV).

Em 5 de janeiro, a vice Delcy Rodríguez foi empossada como presidente interina por uma medida extraconstitucional definida pela Suprema Corte de Justiça como um ato de força maior. Pouco tempo depois, em 26 de fevereiro, ela afirmou que Donald Trump era amigo e parceiro do país, enquanto solicitava a retirada das sanções para acelerar a agenda bilateral de cooperação. Em apenas dois meses, passou-se da retórica antiimperialista a discursos de superação dos 25 anos de distanciamento entre Washington e Caracas.

Um primeiro balanço da diplomacia trumpista indica que os Estados Unidos controlam todas as alternativas políticas atuais na Venezuela: a pós-madurista representada por Delcy Rodríguez, a da direitista María Corina Machado e a do centrista Enrique Márquez. De qualquer forma, a presidente interina, que há poucos meses era braço direito de Maduro, hoje se comporta como a operadora local da Estratégia de Segurança Nacional e do Corolário Trump.

Essa nova situação política pode ser analisada a partir das principais dinâmicas internas vividas pela Venezuela desde a Revolução Bolivariana até a transição entre o chavismo e o madurismo, que deu continuidade a um modelo rentista sob a égide de uma nova burguesia—o que explica a vulnerabilidade da Venezuela ao imperialismo estadunidense e o próprio faccionalismo dentro do governo e das elites.

Após 12 anos de madurismo, a esperança parece ter superado o anti-imperialismo. O apelo da esquerda revolucionária pela formação de uma ampla frente anti-imperialista, embora justo, não obteve o eco esperado. É um momento sombrio para a soberania do país. Por mais incerto que o futuro seja, está claro que a intervenção norte-americana e a capitulação do governo venezuelano marcaram o fim da Revolução Bolivariana.

Ciclos históricos de crise

A crise venezuelana está relacionada ao modo de acumulação de capital instaurado no país em função da centralidade do comércio de petróleo em todas as esferas da sociedade. Essa situação criou um modelo econômico sui generis, que Celso Furtado1Furtado, Celso. 2008. (<)em(>)Ensaios sobre a Venezuela: o subdesenvolvimento com abundância de divisas(<)/em(>). Brasil: Editorial Lumen. definiu como “subdesenvolvimento com abundância de divisas”, baseado na disputa pela renda petrolífera e pelo influxo de capital em dólares por conta da venda do petróleo bruto. Trata-se de uma situação que atrofia o aparato produtivo, uma vez que o centro da acumulação não está na produção de mercadorias, bens e serviços, mas no acesso a essa massa de dólares e na diferença cambial entre o valor real da moeda estrangeira e o preço preferencial obtido pela burguesia e pela elite burocrática.

Nesse esquema, as importações, mais do que a produção nacional, são centrais para o enriquecimento das elites locais. O Estado rentista2Mahdavy, Hossein. 2004. “The Patterns and Problems of Economic Development in Rentier States: The Case of Iran”. Em (<)em(>)Studies in the Economic History of the Middle East(<)/em(>), ed. M. A. Cook. Londres: Routledge. caracteriza-se pelo recebimento de receitas maciças resultantes de rendas externas (royalties petrolíferas) que levam ao desenvolvimento de padrões econômicos distorcidos, com dependência exacerbada da exploração petrolífera. Isso reduz os incentivos à diversificação produtiva e promove uma cultura social própria ao que Coronil denominou de “Estado Mágico”.3Coronil, Fernando. 1997. (<)em(>)El Estado mágico: Naturaleza, dinero y modernidad en Venezuela(<)/em(>).(<)em(>) (<)/em(>)Venezuela: Edições Alfa. Sob esses parâmetros, o economista Asdrúbal Baptista4Baptista, Asdrúbal. 1997. (<)em(>)El relevo del capitalismo rentístico: Hacia un nuevo balance de poder(<)/em(>). Venezuela: Edições Polar. referiu-se à experiência venezuelana como um capitalismo rentista caracterizado pela desindustrialização, corrupção generalizada, rápida concentração de riqueza nas mãos de poucos e crises cíclicas de empobrecimento severo de amplos setores da população.

O rentismo é o modelo econômico assumido pela democracia representativa que emergiu da revolução democrático-burguesa de 1958. Entre 1942 e 1998, o nacionalismo petrolífero e o anti-imperialismo dos instrumentos políticos do status quo eram mediados pela disputa por maiores margens de lucro e pela acumulação burguesa a partir da renda petrolífera. A exploração de petróleo moldou o que hoje podemos denominar de “velha burguesia”, que tinha os “doze apóstolos”5Os “doze apóstolos” foram denunciados pelo intelectual e político de esquerda Domingo Alberto Rangel e incluem Gustavo Cisneros, Lorenzo Mendoza Fleury, Eugenio Mendoza, Diego Cisneros, Ricardo Zuloaga, Miguel Ángel Capriles, entre outros.—agrupados na Fedecámaras e em suas organizações satélites—como figuras emblemáticas.

O modelo rentista mostrou-se socialmente bem-sucedido nos períodos de alta dos preços do petróleo e insuficiente nos ciclos de queda das importações. O momento mais expansivo ocorreu entre 1973 e 1978, com o boom dos preços do petróleo bruto, e criou a ilusão de uma sociedade em que a classe média se tornava majoritária. No período de 1979 a 1984,  os primeiros sinais de colapso desse modelo foram evidenciados pela contração do PIB real per capita, aumento da inflação—que começou a ultrapassar os 7%—, crescimento do endividamento externo e déficit fiscal incipiente. Isso se traduziu em uma deterioração progressiva da qualidade de vida da população.

Em fevereiro de 1983, esse modelo entrou em colapso. Foi o estopim de uma crise estrutural que já durava quarenta e três anos. Sob a perspectiva desta crise, pode-se compreender o alcance e as dimensões dos problemas atuais na Venezuela. Acima de tudo, porque sua eclosão foi um terremoto que desencadeou outras crises complementares que, como toda réplica, tiveram sua própria marca e impacto—e conduziram à revolução bolivariana.

Chavismo e Revolução Bolivariana

A Revolução Bolivariana liderada por Hugo Chávez enfrentou a crise do Estado rentista principalmente a partir da exaltação do nacional-popular. O chavismo surgiu em uma epopeia insurrecional que envolveu duas tentativas de golpe de Estado em 1992, e a construção de um movimento político capaz de mobilizar amplos setores das correntes histórico-sociais de resistência aos excessos do puntofijismo.6O Puntofijismo refere-se ao acordo de governabilidade e sucessão presidencial assinado na década de 1960 pelos partidos Ação Democrática (social-democrata), COPEI (democracia cristã) e União Republicana Democrática (liberal). Esse acordo orientou o modelo de democracia representativa até a chegada de Chávez. Ele foi um movimento convergente que aglutinou diversos setores políticos, econômicos e sociais do país.7Bonilla-Molina, L. et al. 2005. (<)em(>)Historia de la Revolución Bolivariana(<)/em(>).. Caracas: Edições MinCi. Com vocação geopolítica latino-americana e caribenha, foi liderado por um caudilho que almejava constituir outro modelo de policlassismo.

Tratava-se de um sistema de governabilidade sustentado na negociação e na conciliação entre classes sociais dominantes e subalternas, capaz de construir equilíbrios por meio de estruturas mediadoras como as centrais sindicais, as organizações camponesas, as associações empresariais e outras instâncias da sociedade civil, a partir do uso das instituições governamentais como árbitros. O policlassismo é uma variante dos modelos fordistas que adquiriu centralidade nos governos populistas da América Latina e do Caribe—e não apenas naqueles resultantes de eleições democráticas como a de Chávez (1999-2013), mas também em regimes autoritários como os de Perón na Argentina, Omar Torrijos no Panamá ou Juan Velasco Alvarado no Peru. Em perspectiva marxista, o policlassismo vai além das alianças táticas entre classes oprimidas e inclui a burguesia como forma de conter a revolução socialista, o que foi o caso venezuelano.

A partir de 2002, após superar o golpe militar que envolveu o conjunto da burguesia existente, Chávez decidiu empreender uma reestruturação social para sustentar seu poder. Por um lado, ele impulsionou a construção do poder popular e da democracia participativa e protagonista—o que culminou, em 2005, no apelo ao socialismo do século XXI, ao Estado Comunal e a uma nova internacional. Por outro lado, decidiu impulsionar a criação de uma nova burguesia bolivariana favorável ao seu projeto, o que significou uma ruptura radical entre a burguesia crioula e o governo.

Grupos que representavam a velha burguesia, como a Fedecamaras, envolveram-se ativamente no golpe de Estado de 2002. Ao contrário desse setor da classe dominante, que durante décadas havia construído uma narrativa e um imaginário para “justificar” sua ascendência social, a nova casta burguesa que surge a partir de 2002 é composta por figuras políticas afins ao processo revolucionário e por pessoas de seu círculo próximo e íntimo—ou seja, que da noite para o dia passaram a ser abastados proprietários de terras e mansões luxuosas. Essa classe recém formada se camuflou nos códigos políticos e sociais da revolução bolivariana, mas sentiu cada vez mais a necessidade de se assumir como uma nova burguesia,8 Isso inclui figuras como Arné Chacón (ex-militar, ligado ao Banco Real e ao Baninvest na crise bancária de 2009), Ricardo Fernández Barrueco (ex-fornecedor do Estado acusado de estar envolvido na compra de bancos), Alejandro Andrade (ex-tesoureiro do país, que esteve detido nos EUA), empresários como Raúl Gorrín (figura-chave na superação da greve petrolífera de 2002), Alex Saab (preso nos EUA, repatriado para a Venezuela em negociação entre Maduro e o governo Biden). que se distingue da anterior pelo nível de acesso aos mecanismos institucionais de captura da renda petrolífera.

Essas duas iniciativas políticas—a criação de uma nova burguesia e o projeto de um Estado comunitário baseado no socialismo do século XXI—não se mesclaram totalmente. Embora Chávez tenha se tornado o mediador de seus equilíbrios precários, em 2009 ficou claro que essa não seria uma tarefa fácil. A crise bancária daquele ano expôs que certas figuras do chavismo eram proprietários de bancos e revelou a constituição dessa nova burguesia, explicitando o comportamento de um setor da burocracia que boicotava elementos do poder popular comunal.

Essa burguesia se constituiu em torno do estamento militar, o que parece explicar as razões pelas quais Chávez não designou Diosdado Cabello—uma das figuras militares do 4 de fevereiro de 1992—como seu sucessor, com a esperança de que Maduro continuasse sustentando o equilíbrio entre os dois projetos que fundamentavam a ideia de um novo policlassismo na Venezuela.

A estratégia internacional do chavismo, expressa na Constituição da República Bolivariana da Venezuela (1999), apoiava-se na defesa de uma nova ordem mundial multipolar e descentralizada. Com liderança continental, Chávez conseguiu construir uma correlação de forças regionais que derrotou o Acordo de Livre Comércio das Américas (ALCA). A Comunidade do Caribe (CARICOM), por sua vez, teve um papel de destaque, especialmente devido à influência sub-regional de Cuba, cuja necessidade de petróleo passou a ser suprida pela Venezuela em troca de cooperação nas áreas de educação e saúde, bem como nos planos militar e de inteligência.

Desde a tentativa de golpe de 2002, está claro que a ingerência norte-americana—na forma de declarações e ações da Casa Branca, do Pentágono e dos organismos multilaterais controlados pelos Estados Unidos—foi uma constante no processo da chamada Revolução Bolivariana até 2026, quando ocorreu a agressão militar direta.

Madurismo

O madurismo é o resultado de um acontecimento fortuito: a morte de Chávez. Maduro não possuía qualquer carisma, não fazia parte dos círculos militares, nunca liderou uma luta operária de grande importância nem era uma liderança reconhecida por todos os setores políticos. Consequentemente, ele teve de construir novos equilíbrios, reunindo lideranças nas áreas em que havia lacunas. Cilia Flores, os irmãos Rodríguez, Diosdado Cabello e Padrino López foram assumindo a representação dessa estrutura colegiada de poder. Para construir identidade e consolidar sua liderança, o madurismo teve de afastar as figuras que representavam um vínculo de lealdade com o projeto nacional-popular policlassista liderado por Chávez do governo e do partido oficial (o PSUV). Em função disso, ele se tornou um mosaico de fontes de poder efetivo, político, midiático e econômico favorável ao projeto de uma nova burguesia.

Maduro não contava com a força política nem com a vontade ideológica necessárias para equilibrar o poder popular e a nova burguesia que se gestou no seio da revolução bolivariana. Ele optou pelo desmantelamento da agenda nacional-popular do socialismo do século XXI, baseada na promoção dos conselhos comunais, das fábricas recuperadas pelos trabalhadores, da economia social, das cadeias produtivas sustentadas pelo movimento cooperativo e da democracia participativa. Sua energia política concentrou-se na consolidação da nova burguesia, pela continuidade do modelo rentista de acumulação de riqueza. Maduro conseguiu consolidar o bloco da nova burguesia, enfraquecendo as representações e mediações de sua antecessora e dotando o madurismo de uma identidade política diferenciada do chavismo.

Além de consolidar o bloco da nova burguesia do clã de ricos que emergiu da crise de 2002, que tinha acesso garantido à renda petrolífera, Maduro também conseguiu fragilizar as representações e mediações da velha burguesia, incluindo partidos políticos da oposição, que sofreram intervenções por meio de medidas judiciais ou através de acordos entre forças internas promovidos pelo governo. O madurismo não atacou a velha burguesia enquanto classe econômica, mas suas representações políticas. Como a velha e a nova burguesia se unem pelo interesse no controle da renda petrolífera, qualquer diferença “ideológica” ou de vínculos partidários ficou subordinada a esse interesse principal.

Em 2015, Obama declarou a Venezuela uma ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos, um pretexto que permitiu a Trump, em seu primeiro mandato (2017), impor medidas coercitivas unilaterais. Antes das sanções, em 2014, a drástica queda internacional dos preços do petróleo já havia impossibilitado a sustentação do regime cambial, dando início a uma escalada no preço do dólar que desencadeou uma inflação descontrolada e uma deterioração significativa no poder de compra da população. A queda na disponibilidade de recursos fez com que o modelo rentista de acumulação fosse exacerbado e o ônus da crise transferido para os setores trabalhadores e para a população em geral, a fim de diminuir o impacto sobre a renda da burguesia. As sanções norte-americanas foram uma tentativa de impedir a consolidação da nova burguesia e boicotar o acordo entre os grupos dessa classe, iniciado por Maduro naquele período. Seus efeitos reais, no entanto, recaíram sobre a população, e não sobre as elites governantes.

Depois de 2018, Maduro buscou restabelecer a relação econômica entre a velha e a nova burguesia com o objetivo de se tornar o representante político dessa aproximação—uma estratégia que teve Delcy Rodríguez  como principal articuladora política e figura central da unidade entre as diferentes facções burguesas.9Essa iniciativa deu frutos a partir de 2021, quando a atual presidente interina foi especialmente convidada para abrir a(<)a href='https://vpitv.com/lo-ultimo/ultimas_noticias_sobre_venezuela/delcy-rodriguez-participo-en-la-instalacion-de-la-77-asamblea-anual-de-fedecamaras/'(>) 77ª Assembleia(<)/a(>) Anual da Federação das Câmaras Empresariais e de Comércio (Fedecamaras), a mesma entidade que havia liderado o golpe de Estado de 2002 e colocado seu então presidente, Carmona Estanga, à frente do breve governo de “salvação nacional”, cujo decreto de instauração foi assinado por María Corina Machado. O acordo se concretizou, em 2022, com a  reconciliação pública entre o governo da nova burguesia bolivariana e a Fedecamaras, a federação patronal.

As sanções sobre a economia venezuelana provocaram um colapso na produção de petróleo—que passou a ser vendido quase a preço de custo—, isolamento financeiro e comercial e uma queda na qualidade de vida da população. A guerra na Ucrânia levou o governo Biden a flexibilizar as sanções. Um exemplo foi a licença 44 de 2024, que autorizou a Chevron a comercializar o petróleo venezuelano, melhorando o nível de receitas, mas sem garantir reflexos positivos para a população. Pelo contrário, o salário mínimo caiu para níveis de 0,4 dólares por mês. Em uma economia que apresentava sinais de melhora macroeconômica, a acumulação rentista da burguesia cresceu exponencialmente.

Enquanto isso, o governo aprovou leis que limitavam as liberdades políticas e interveio judicialmente contra os partidos opositores de direita e de centro que representavam os interesses da velha burguesia, com o objetivo de cooptar uma parte importante dessas representações políticas e da liderança da oposição. Da mesma forma, o governo de Maduro utilizou a aliança cívico-militar-policial para esmagar as revoltas de rua denominadas “La Salida”, lideradas por Leopoldo López, Antonio Ledezma e María Corina Machado (2014). A essas manifestações seguiram-se as de 2015 contra a escassez de produtos básicos, as de 2016 contra a suspensão do referendo revogatório, e quatro meses de protestos violentos, em 2017, devido à rejeição da Assembleia Nacional à instauração de uma nova Assembleia Constituinte. Esses eventos resultaram em mais de 160 mortos, em sua maioria jovens.

Além disso, as sanções serviram de justificativa para o madurismo implementar, em 2018, um programa de ajustes estruturais ao estilo do Fundo Monetário Internacional (FMI) que limitava o direito de luta por aumentos salariais. A organização e a liberdade sindical foram restringidas, os salários nivelados para baixo, eliminando o conceito de direitos adquiridos,10Assim foi denominada a decisão da Oficina Nacional de Orçamento, que consiste em nivelar, para baixo, os salários e outros benefícios trabalhistas conquistados ao longo do século XX. e todos os partidos de esquerda sofreram intervenções que colocaram à sua frente diretorias ad hoc a serviço do governo. Com isso, Maduro demonstrou que, ao contrário de Chávez, estava interessado em ir contra a esquerda e as organizações sindicais, limitando suas capacidades de atuação política democrática e de luta social por meio das instituições.

A queda

Nas eleições presidenciais de 2024, Maduro enfrentou uma perda significativa de simpatia eleitoral, mas ainda contava com o apoio de sua base social. Com esse capital reduzido, decidiu remover María Corina Machado e todos os opositores que pudessem  afetar sua permanência no Palácio de Miraflores da disputa. O controle da mídia se intensificou, a repressão por meio de instrumentos jurídicos como a Lei contra o Ódio se acentuou, a livre circulação dos candidatos pelo território foi limitada e o aparato repressivo adquiriu uma centralidade inusitada.

Nesse cenário, o rentismo buscou um acordo forçado entre as diferentes facções da burguesia venezuelana, sendo Corina Machado a peça fora do tabuleiro que ameaçava a acumulação burguesa centrada na apropriação da renda petrolífera. Esse foi o início da tragédia da líder opositora, pois, como ficaria demonstrado após o 3 de janeiro, ela seria descartada até mesmo pelos Estados Unidos como alternativa para uma transição amigável ao capital.

Esse período encerrou-se com o ocaso da democracia eleitoral e a escalada do autoritarismo que levou à prisão, por motivos políticos, de mais de duas mil pessoas em apenas alguns meses.11Segundo dados do Foro Penal Venezuelano, existem atualmente cerca de 644 presos políticos. No entanto, entre a população, fala-se de três categorias de detidos por expressarem opiniões ou participarem de manifestações contra o governo, cujo número poderia chegar a vários milhares: políticos, cidadãos presos devido a suas opiniões políticas e militares dissidentes. O madurismo foi-se transformando num bonapartismo sui generis, que garantia aos diversos grupos de ricos e poderosos a continuidade do modelo rentista de acumulação burguesa. Daí a sua ofensiva autoritária, que, com um discurso supostamente socialista, intervia e neutralizava os instrumentos de representação política da classe trabalhadora (sindicatos, partidos de esquerda), buscando a aprovação dos Estados Unidos.

No entanto, o madurismo não avaliou corretamente o papel da energia na reconfiguração da ordem mundial, mesmo a Venezuela sendo o país com as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo. Durante o governo Biden, avançou na direção de um acordo de estabilização com os Estados Unidos, mas isso foi revertido no segundo mandato de Trump. Finalmente, em setembro de 2025, os Estados Unidos mobilizaram o cerco naval no Caribe. Nessa fase, Maduro continuou com um discurso radical para manter sua base social coesa e apostou em um acordo com o governo Trump que lhe permitisse permanecer no poder. Maduro, no entanto, superestimou o papel do petróleo e das riquezas minerais nessa negociação, assumindo uma atitude indiferente e diletante, o que acelerou os eventos de 3 de janeiro de 2026.

Ainda não está claro quais foram as cadeias de traições e as colaborações de altos funcionários do governo que tiveram de ocorrer para que a ação militar se concretizasse com tanta impunidade. A captura e prisão do presidente venezuelano evidenciam que o madurismo tinha avançado significativamente em um acordo estrutural com os Estados Unidos—só que ele se concretizou sem a figura do próprio Maduro.

Colonização trumpista

Os Estados Unidos não estão dispostos a perder o papel hegemônico na América Latina e apostam em assumir centralidade na formação dessa nova ordem mundial ao lado da China e da Rússia. Washington está preocupada com o volume dos investimentos chineses na região, estimado pela CEPAL em aproximadamente US$ 650 bilhões. Na Estratégia de Segurança Nacional com o Corolário Trump, a Venezuela aparece não apenas como prioridade, mas uma possibilidade concreta de avançar nessa recolonização regional. O país que ergueu as bandeiras da revolução bolivariana possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, além de jazidas de ouro e de terras raras, e um dos mais importantes bolsões de biodiversidade e água do planeta. O início do bloqueio militar norte-americano no sul do Caribe, a partir de agosto-setembro de 2025, corroeu as alianças entre a Venezuela e a região, em organismos como a CELAC e a ALBA.12O governo de Trinidad e Tobago disponibilizou seu território para a realização de operações militares prévias ao ataque de 3 de janeiro, o que levou ao rompimento do acordo de fornecimento de gás venezuelano àquele país.

Em 7 de janeiro de 2026, o Secretário de Estado Marco Rubio anunciou a estratégia em três fases para a transição na Venezuela. Ela começa com a estabilização, visando evitar que o caos se instale no país. O presidente dos Estados Unidos e sua equipe exigiram a libertação dos presos políticos, a criação de condições político-jurídicas para o retorno dos exilados e a realização de reformas legais que garantam segurança institucional e jurídica aos investidores estrangeiros. A segunda fase, denominada “recuperação econômica e reconciliação”, consiste em reativar a economia a partir da abertura do mercado energético às transnacionais petrolíferas, mas também ao capital internacional interessado em explorar outras áreas de extração, como ouro, terras raras, e o mercado da biodiversidade. Essa fase implicaria melhorar as condições da população, especialmente seus rendimentos salariais, que hoje são os mais baixos do mundo. Na Venezuela, o salário mínimo mensal é inferior a meio dólar e os produtos básicos custam duas ou três vezes mais que a média regional. A terceira fase, denominada de “transição política”, visa consolidar reformas estruturais no sistema político venezuelano, como a legalização dos partidos, a transparência, a liberdade de imprensa e a instalação de um novo Conselho Nacional Eleitoral. Não fica claro, porém, como a burguesia rentista venezuelana se posicionará a médio e longo prazo nessa nova situação.

Existe uma tensão fundamental entre o modelo rentista nacional representado pelo madurismo e o modelo econômico transnacional que os Estados Unidos pretendem implementar. O rodriguismo parece estar interessado em estabelecer uma ponte entre ambos.

Delcy Rodríguez era conhecida entre os revolucionários bolivarianos como uma radical. Sua carreira de burocrata teve início em 2003, quando foi diretora de assuntos internacionais do Ministério da Energia e Minas. Apesar de ter sido diretora do gabinete de Hugo Chávez, ela nunca foi uma pessoa de confiança do líder da revolução bolivariana. Sua ascensão meteórica teve início apenas após a morte de Chávez e a presidência de Maduro, assumindo responsabilidades à frente do Ministério da Comunicação e Informação (2013-2014) e depois passando para a pasta das Relações Exteriores (2014-2017), quando se iniciou a onda de demissões que resultou na exílio de Rafael Ramírez, considerado a figura-chave da indústria petrolífera durante a maior parte do governo de Chávez. Seu estilo antidiplomático e de confronto nos cenários internacionais contrasta com a postura subserviente que assumiu a partir de janeiro de 2026.13Por isso, surpreendeu que ela tenha sido a impulsionadora da doação de 500 mil dólares—provenientes da Citgo—que o governo venezuelano fez em 2017 para ajudar a cobrir as despesas da posse da primeira presidência de Donald Trump. Alguns críticos consideram que a boa relação entre Delcy Rodríguez e Donald Trump começou a ser construída a partir desse momento. Durante o governo de Biden, ela foi a representante do (<)a href='https://estrategia.la/2018/01/19/venezuela-unos-hablan-de-invasion-otros-de-reavivar-el-grupo-boston/'(>)Grupo de Boston,(<)/a(>) uma rede de políticos e figuras da política norte-americana, enquanto seu irmão e presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, (<)a href='https://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-48296372'(>)coordenava(<)/a(>) as negociações com a oposição promovidas pela Noruega, pelo México, pelo Vaticano e por outros membros da comunidade internacional.

Mais recentemente, a grande dúvida acerca do interesse dos irmãos Rodríguez em manter o “clã dos quatro” como epicentro do poder político ou dar um novo passo em direção à concentração do domínio governamental começa a se esclarecer. A destituição de Padrino López da chefia do Ministério da Defesa, cargo que ocupava desde 2014—e a nomeação do general Gustavo González López, encarregado de receber o diretor da CIA no país—revelam intenções de reduzir o clã à dupla de parentes. Nos últimos dois meses, os militares uniformizados—eixos da reestruturação do modelo rentista desde 2002—praticamente desapareceram dos discursos oficiais. Hoje, o chefe do Comando Sul dos Estados Unidos “exerce” a função  de alto comando militar bolivariano e comando estratégico operacional que antes foi de Vladimir Padrino. A renúncia do procurador-geral da República, Tarek William Saab, e do defensor do povo, Alfredo Ruiz, também faz parte do processo de desmantelamento das lealdades a Maduro. No início do ano, a ministra da Saúde havia sido substituída, o que foi seguido pela detenção de figuras como Alexander “Mimou” Vargas, ex-vice-ministro dos Esportes no governo de Maduro.14Ele é famoso por ter colocado a gigantesca estátua de um indígena, feita com resíduos e pela qual se dizia ter sido cobrado um valor milionário, em uma rodovia de Caracas. Vargas também havia sido o promotor das “piruetas de moto” como esporte para agradar aos motociclistas que faziam parte de coletivos e forças de choque do madurismo. É evidente que um tsunami está se formando na administração pública, que busca alcançar um equilíbrio entre os interesses de Trump e de Delcy Rodríguez.

O rodriguismo, no entanto, enfrenta um problema em sua busca por legitimidade como centro do poder político na Venezuela. Ele não possui uma história heroica própria capaz de caracterizá-lo com algo mais do que o herdeiro de um mártir revolucionário, e sua liderança acaba sendo eclipsada pela sombra do colaboracionismo. Por outro lado, as primeiras medidas parecem revelar que há uma tendência de construção de um sistema clientelista em torno de seu reconhecimento–o que lhe retira a capacidade política de liderar uma transição que implique governar de maneira mais plural, com correlações de força que transcendam os limites ideológicos e a proximidade com seu próprio clã.

Enrique Márquez, do partido Centrados, poderia, por sua vez, representar um desafio para a consolidação do poder.15Donald Trump convidou Márquez—prisioneiro político recém-libertado em Caracas e candidato à presidência nas eleições de 28 de julho de 2024, por um partido chamado Centrados, que obteve uma porcentagem inferior a 1%—a comparecer na apresentação do Discurso sobre o Estado da União ((<)em(>)State of the Union(<)/em(>)). Ele assumiu a política de defesa da Constituição da República Bolivariana da Venezuela, da liberdade dos presos políticos e das lutas sociais. Na Venezuela, uma população cansada da polarização política e de seus efeitos na deterioração da qualidade de vida pode encontrar nessa figura uma síntese que encarne a reconstrução nacional com o maior consenso possível. No entanto, a maioria dos partidos políticos encontra-se sob tutela do governo, o que rompeu o vínculo territorial e a legitimidade de muitos deles. A direita vive uma crise de credibilidade devido à cooptação funcional de muitos de seus dirigentes e à coabitação com o madurismo, enquanto o setor do partido Vente, de María Corina Machado, foi enfraquecido pela repressão aos seus quadros de nível médio e de base, bem como pelo esgotamento do discurso de “ponto final” e “transição sem chavistas” que a ganhadora do Prêmio Nobel vem desenvolvendo desde 2024. Sua proposta consistia em sustentar e intensificar a polarização, contrariando o desejo de estabilização política expresso pelos Estados Unidos. A esquerda foi despojada de toda personalidade jurídica e hoje não existe um único partido legalizado dessa corrente. Já a esquerda radical oscila entre a incapacidade de operar em frentes amplas e sua tendência à autorreferência, algo que ela terá que superar rapidamente se quiser sobreviver a essa tempestade.

Perspectivas

O processo de desmantelamento do que restava do chavismo ocorre de forma rápida desde o 3 de janeiro, mas isso não passa pela superação do rentismo. A nova Lei de Hidrocarbonetos faz com que a Venezuela perca o controle sobre a extração e a comercialização, enquanto os Estados Unidos assumem o papel de vendedor do petróleo venezuelano e controlador das porcentagens e do destino da renda que entra no país. As leis comerciais se ajustam à nova realidade e a implementação da chamada Constituinte Operária procura legitimar a eliminação da Lei do Trabalho vigente para criar uma legislação que permita a flexibilização e perpetue a precarização do mundo do trabalho.

Os presos políticos começam a ser libertados e uma Lei de Anistia foi aprovada em meio ao anúncio de reformas comerciais para facilitar o investimento estrangeiro, bem como de toda a estrutura jurídica institucional. Trata-se de uma contrarreforma sem precedentes que faz com que o processo constituinte de 1999 pareça tímido. E enquanto isso ocorre, as boinas vermelhas dos militares bolivarianos são substituídas por homenagens às visitas do diretor da CIA, John Ratcliffe, do chefe do Comando Sul, general Francis Denovan, e do secretário de energia, Chris Wright, que percorrem os corredores do Palácio de Miraflores como se fossem os novos senhores do vale.

O movimento sindical, que sofre repressão sistemática desde 2024, chegou a um acordo unificado para impulsionar, a partir de 2026, um cronograma de reivindicações e protestos por melhorias salariais, liberdade sindical e direitos democráticos, eventos que começaram a se concretizar com mobilizações em fevereiro e março. Caso as enormes expectativas a esse respeito não sejam resolvidas no curto e médio prazo, a esperança poderá transformar-se em decepção, a passividade em raiva e a calma em tempestade.

Substituir as figuras à frente do governo e até mesmo mudar sua orientação ideológica não garante a governabilidade da Venezuela, muito menos o projeto estratégico que os Estados Unidos conceberam para o país com o objetivo de dispor de suas reservas energéticas e minerais. A dupla rentismo-policlassismo foi o suporte da governabilidade na Venezuela, e pretender superar de forma abrupta essa estratégia de acumulação e dominação burguesa pode acarretar em complicações para a própria abertura ao capital transnacional que a administração Trump pretende inaugurar.

Todavia, isso não parece ser devidamente avaliado pela classe política venezuelana e pelo governo norte-americano, que consideram que a solução se limita à melhoria estrutural da economia e que o cotidiano das pessoas—expresso na questão salarial—pode esperar. Pelo contrário, a frustração decorrente da impossibilidade de alcançar rendimentos salariais iguais ou superiores à cesta básica de alimentos pode gerar um sentimento anti-imperialista que ainda não se manifestou.

A revolução bolivariana morreu, mas o anseio por mudanças estruturais não. O rentismo continua sendo o modo cultural de acumulação hegemônico da burguesia local e o policlassismo, o modelo de diálogo e equilíbrio entre as classes sociais. Como todo navio que atravessa tempestades sem chegar a um porto seguro, a reviravolta inoportuna em direção à situação colonial ocorrida em 3 de janeiro de 2026 não significa um novo momento político, mas a continuidade dos extremos—uma outra face do que já vinha ocorrendo. Garantir a diversidade política, social e econômica, bem como superar sem traumas o rentismo, é o grande desafio coletivo. Isso será possível em uma situação de instauração colonial?

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