11 de março de 2026
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Como quem faz bicicletas
Quanto custa um drone kamikaze Shahed-136
Fabricado no Irã, o drone Shahed-136 é uma arma simples. As asas em delta, com 2,5 metros de envergadura, são feitas de fibra de vidro e têm dois estabilizadores verticais fixos nas extremidades. As superfíces de controle traseiras são operadas por servomecanismos simples. O drone é equipado com um sistema de piloto automático, um receptor de posicionamento global e um módulo de dados. A propulsão é fornecida por um motor básico de quatro pistões, refrigerado a ar e fabricado em alumínio fundido, que gera 50 cavalos de potência para acionar uma hélice. Apesar de seguir especificações próprias para a aviação, o motor não é muito diferente do de uma motocicleta pequena. O drone pode transportar uma ogiva de 40 quilos em uma velocidade de 185 km/h por até 2 mil quilômetros.
Nos últimos dias, esse modesto equipamento abalou a economia global. Desde 28 de fevereiro, quando os Estados Unidos e Israel iniciaram uma guerra ilegal contra o Irã, forças iranianas responderam lançando milhares de drones Shahed-136 contra alvos em toda a região. Os ataques atingiram não apenas instalações militares, mas também infraestrutura civil, incluindo refinarias, usinas de energia, aeroportos, hotéis e navios. Os drones se tornaram elemento central da estratégia de retaliação iraniana e levaram à paralisação do tráfego marítimo e aéreo. Os ataques têm forçado os reinos do Golfo, Israel e os Estados Unidos a usar mísseis interceptadores caros e escassos para se defender. Ainda que a maioria das interceptações tenha sido bem-sucedida, o volume extraordinário de lançamentos permitiu ao Irã atingir muitos de seus alvos.
Para entender as armas aéreas de longo alcance que intensificaram a devastação causada pelo conflito até agora e o estrago produzido pelos drones iranianos, muitas reportagens focaram na análise dos custos da plataforma Shahed-136. Dezenas de textos situam o preço desses drones entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, uma pequena fração do custo dos mísseis interceptadores, cujo valor unitário pode chegar a US$ 3 milhões.
Esse contraste tem chamado grande atenção como retrato das rápidas transformações da guerra contemporânea. Mas a comparação é realmente precisa? Uma análise do think tank CSIS sobre o preço da variante russa do Shahed-136 mostra como essas estimativas costumam ser pouco rigorosas.
É difícil determinar com precisão o custo unitário dos drones do tipo Shahed utilizados pela Rússia, que o país produz domesticamente sob o nome Geran-2. Em janeiro de 2023, um especialista israelense em mísseis estimou que cada drone custaria entre US$ 20 mil e US$ 30 mil por drone. Mais tarde, um analista britânico situou o valor mais próximo de US$ 80 mil, com base em uma inspeção pessoal dos componentes de um Shahed-136 capturado em outubro de 2022. A Forbes Ucrânia, por sua vez, utilizou o valor de US$ 50 mil por unidade para calcular o custo dos ataques russos. Nos nossos cálculos, adotamos um custo unitário conservadoramente alto, de US$ 35 mil, o ponto médio entre a estimativa mais baixa e o valor de US$ 50 mil citado com maior frequência.
A maioria das estimativas sobre o custo do Shahed-136 baseia-se nas variantes russas, e nenhuma parece resultar de uma análise detalhada dos componentes de um drone produzido no Irã. Na prática, é possível que o custo de produção dos drones iranianos seja muito mais baixo do que se imagina. Os Estados Unidos e Israel têm recorrido tanto a sanções quanto a ataques militares na tentativa de tornar a condução da guerra “cara demais” para o Irã. Mas, à medida que essa guerra de escolha se espalha pela região e mergulha a economia global em turbulência, torna-se essencial compreender o quão “baixo” pode ser o custo do conflito bélico hoje.
O custo de um Shahed
Um custo unitário de US$ 35 mil para a produção do Shahed-136 representaria um grande fracasso da indústria de defesa do Irã. O país tem priorizado o desenvolvimento de plataformas baratas, com capacidade de produção em série e baixa dependência de componentes importados. A mídia iraniana não divulga o custo de produção do Shahed-136. Curiosamente, reportagens publicadas em farsi costumam adotar a mesma faixa de US$ 20 mil a US$ 50 mil difundida nos meios de comunicação ocidentais.
Recentemente, os Estados Unidos anunciaram sua própria versão do Shahed-136, chamada Low-cost Uncrewed Combat Attack System (LUCAS). À imprensa, o Comando Central dos EUA (CENTCOM) informou que o LUCAS tem um custo de produção de US$ 35 mil. Esse é o indício mais claro de que o custo atribuído ao Shahed-136 tem sido sistematicamente superestimado. Embora seja ligeiramente menor, o LUCAS é um drone mais avançado, produzido com materiais compósitos, maior precisão e mais recursos, incluindo um terminal Starlink integrado. Mesmo que o LUCAS fosse mais rudimentar e, portanto, mais semelhante a um Shahed-136, as diferenças estruturais entre os fatores de produção envolvidos na indústria de defesa de cada um dos países—equipamentos, materiais e mão de obra, especialmente qualificada—implicam, necessariamente, que os dois drones não têm custos de produção semelhantes.
Produzir um drone kamikaze no Irã não pode custar o mesmo que fabricar um drone semelhante nos Estados Unidos, onde a mão de obra é mais cara, os materiais são mais avançados e a tecnologia empregada é mais sofisticada. Por isso, perguntei a um pesquisador em Teerã, familiarizado com a indústria de defesa iraniana, se ele conhecia alguma estimativa para o custo de produção de um Shahed-136. Ele consultou alguns colegas e a cifra que trouxe de volta foi de IRR 6 bilhões, cerca de US$ 4 mil à taxa de câmbio atual. Verificar a precisão desse valor está além do escopo deste texto, mas ele sugere que o Shahed-136 pode ser muito mais barato de produzir do que se tem reportado.
Um preço unitário de US$ 4 mil é evidentemente muito inferior à maioria das estimativas amplamente divulgadas. Por um lado, o valor em dólares reflete a forte desvalorização do rial iraniano, impulsionada pela pressão das sanções sobre o mercado cambial do país. Nesse sentido, a taxa de câmbio pode fazer com que os drones pareçam mais baratos do que realmente são. Por outro lado, o preço baixo pode refletir o elevado grau de nacionalização da produção do Shahed-136. Mais do que o volume efetivo de divisas necessário, ele indicaria a disponibilidade relativa de materiais, equipamentos e mão de obra para fabricar esses drones. Meu interlocutor insistiu que a produção do Shahed-136 já está totalmente nacionalizada, o que significa que os principais componentes são montados domesticamente.
Há diversos relatos de que o motor MD-550 utilizado no Shahed-136 é produzido integralmente no Irã. Os componentes eletrônicos podem ser montados domesticamente a partir de antenas, microcontroladores, reguladores de tensão e osciladores importados. A montagem local desses componentes não apenas reduz custos, mas também ajuda a preservar as cadeias de suprimento diante das sanções. Componentes completos, como sistemas de piloto automático, podem ser classificados como de “uso dual” e, por isso, são mais difíceis de obter. Especialistas iranianos assessoraram a implantação da linha de produção do drone russo Geran-2 no parque industrial de Alabuga, o que permite entrever práticas de fabricação provavelmente semelhantes às empregadas no Irã. O diretor da fábrica russa descreveu publicamente um processo de produção altamente eficiente: “Entram barras de alumínio, delas saem os motores; chips viram microeletrônica; fibra de carbono e fibra de vidro viram fuselagens: produção totalmente local.” Segundo o Institute for Science and International Security, a instalação de Alabuga informa atualmente uma produção anual entre 18.540 e 24.460 drones.
Dadas as dinâmicas da taxa de câmbio e a provável baixa participação de componentes importados no Shahed-136, a melhor maneira de entender o baixo custo desses drones no contexto da base industrial de defesa iraniana é comparar seu custo de produção com o de outros bens manufaturados, especialmente de produtos que também são fabricados nos Estados Unidos. Essa comparação ajuda a revelar as diferenças nos custos dos fatores de produção que estruturam a indústria de defesa nos Estados Unidos e no Irã.
Tratores
Convenientemente, ambos os países possuem grandes setores agrícolas e produzem tratores domesticamente. Por exemplo, o John Deere 5075M, fabricado em Augusta, na Geórgia, tem capacidades e características semelhantes às do trator ITM 475, produzido pela Iran Tractor Company em Tabriz. Ambos utilizam motores de combustão interna movidos a gasolina ou diesel com cerca de 75 cavalos de potência e tração nas quatro rodas. O trator da John Deere possui eletrônica mais avançada e utiliza um motor com turbocompressor, mas os dois modelos têm dimensões semelhantes, produzem potência comparável e oferecem funcionalidades similares.
No início do ano passado, o preço de fábrica do ITM 475 era de IRR 8,5 bilhões. Descontando o IVA e considerando a margem bruta da Iran Tractor Company—que costuma girar em torno de 13%, segundo documentos da empresa—, o custo de produção do ITM 475 pode ser estimado em IRR 6,8 bilhões. Utilizando a taxa de câmbio corrente no início de 2025, isso significa que o custo de produção do ITM 475 era de cerca de US$ 7 mil. Em comparação, o preço de tabela do John Deere 5075M era de aproximadamente US$ 50 mil no mesmo período. Considerando uma margem bruta de cerca de 25%, conforme os relatórios da John Deere, e margens de concessionária em torno de 8%, o preço de fábrica provavelmente girava em torno de US$ 35 mil. Em outras palavras, os custos dos fatores de produção para um trator produzido em série são cerca de cinco vezes maiores nos Estados Unidos do que no Irã.
A matemática dos tratores e a matemática dos drones se encaixam de forma bastante clara. Aplicando a proporção de cinco para um nos custos de manufatura—revelada pela comparação entre os tratores—ao custo de produção de US$ 35 mil da plataforma LUCAS, chega-se a um preço de cerca de US$ 7 mil para um Shahed-136 fabricado no Irã. Em outras palavras, com os recursos que os Estados Unidos utilizam para produzir um LUCAS, o Irã pode fabricar cinco Shahed-136.
Devido às dinâmicas da taxa de câmbio, mencionar um preço em dólares para explicar o custo de produção dos drones iranianos pode dar uma impressão distorcida. O preço iraniano deve ser comparado ao de um sistema americano semelhante para revelar a diferença nos custos dos fatores de produção. Em última instância, a principal conclusão aqui é que, para o Irã, produzir um drone Shahed-136 exige aproximadamente o mesmo volume de recursos e trabalho que fabricar um trator agrícola básico. Nesse sentido, a comparação puramente monetária subestima a capacidade do Irã de sustentar sua atual campanha de drones. A Iran Tractor Company produz cerca de 35 mil tratores por ano, mesmo sob as severas restrições das sanções de “pressão máxima”. E um drone tampouco é muito mais complexo de fabricar do que um pequeno automóvel: o setor automotivo iraniano produz mais de 1 milhão de veículos de passeio por ano, apoiado por uma grande indústria de aço e alumínio e por uma ampla base doméstica de fabricantes de autopeças. Em suma, o Irã dispõe de uma capacidade industrial e de estoques de materiais consideráveis, que podem ser deslocados da produção civil para a produção de defesa diante das urgências da guerra.
As sanções econômicas e os controles de exportação não conseguiram afetar significativamente a capacidade do Irã de produzir drones, dado o baixo custo da plataforma e o avanço da nacionalização da produção. Agora, forças americanas e israelenses recorrem ao poder militar para atingir o arsenal de drones iraniano. Ataques aéreos têm mirado instalações pertencentes à fabricante do Shahed-136, a Iran Aircraft Manufacturing Industrial Company, também conhecida como HESA. O Irã, porém, tende a responder dispersando a produção de drones por diversas instalações, inclusive subterrâneas. Autoridades americanas também discutem a aquisição de drones interceptadores ucranianos como uma forma mais econômica de defesa contra o Shahed-136. Esses sistemas, embora mais baratos do que o emprego de baterias Patriot ou THAAD, devem oferecer apenas uma melhoria marginal nas taxas de interceptação, que já se aproximam de 100%.
O general Hossein Salami, que comandou o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica até morrer em um ataque aéreo israelense no ano passado, disse certa vez que os avanços da indústria de defesa iraniana haviam tornado a fabricação de sistemas de armas “tão fácil quanto produzir bicicletas.” O custo real de produção do Shahed-136 sugere que sua afirmação estava mais próxima da verdade do que seus adversários gostariam de admitir.
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