{"id":35296,"date":"2026-11-04T18:23:31","date_gmt":"2026-11-04T18:23:31","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/?p=35296"},"modified":"2026-11-05T17:26:19","modified_gmt":"2026-11-05T17:26:19","slug":"agronegocio-e-estado-compensatorio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/agronegocio-e-estado-compensatorio\/","title":{"rendered":"Agroneg\u00f3cio e Estado compensat\u00f3rio"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Garantir a alimenta\u00e7\u00e3o da humanidade sem destruir o planeta \u00e9 <a href=\"https:\/\/newleftreview.org\/issues\/ii138\/articles\/harriet-friedmann-farming-futures\">reconhecidamente<\/a> <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/09692290.2023.2180769\">um dos grandes desafios<\/a> do nosso tempo. Menos aten\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, tem sido dedicada a outra dimens\u00e3o desse mesmo desafio: como alimentar a popula\u00e7\u00e3o mundial sem alimentar tamb\u00e9m din\u00e2micas pol\u00edticas que favore\u00e7am a viol\u00eancia, a explora\u00e7\u00e3o e o autoritarismo. Na Am\u00e9rica do Sul, as duas quest\u00f5es est\u00e3o intimamente ligadas. O caso da Bol\u00edvia, objeto deste ensaio, \u00e9 particularmente ilustrativo dessa rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41893-021-00729-z.pdf\">avan\u00e7o incessante<\/a> da agricultura industrial vem transformando as plan\u00edcies do centro da Am\u00e9rica do Sul\u2014da Bacia do Prata \u00e0s por\u00e7\u00f5es sul e leste da Floresta Amaz\u00f4nica\u2014em planta\u00e7\u00f5es de soja e milho e \u00e1reas de pastagem. Essa expans\u00e3o \u00e9 um dos <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/09692290.2023.2180769\">principais motores<\/a> da perda de biodiversidade, da degrada\u00e7\u00e3o ambiental e do desmatamento, contribuindo para o aquecimento global e alterando os padr\u00f5es locais de clima e precipita\u00e7\u00e3o. Como se sabe, essa transforma\u00e7\u00e3o est\u00e1 associada \u00e0 reconfigura\u00e7\u00e3o da divis\u00e3o internacional do trabalho impulsionada pela ascens\u00e3o da China, que consolidou o papel da Am\u00e9rica do Sul como <a href=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/republicas-da-soja\/\">fornecedora de commodities prim\u00e1rias<\/a> ao capitalismo global\u2014entre elas, a ra\u00e7\u00e3o \u00e0 base de soja que sustenta a produ\u00e7\u00e3o de carne em todo o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo dados da <a href=\"https:\/\/www.fao.org\/faostat\/en\/#data\/QCL\">Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e a Agricultura<\/a> (FAO), entre 1995 e 2024, a \u00e1rea cultivada com soja nos cinco principais pa\u00edses produtores da Am\u00e9rica do Sul (Argentina, Bol\u00edvia, Brasil, Paraguai e Uruguai) quase quadruplicou, passando de aproximadamente 18,8 milh\u00f5es para 68,6 milh\u00f5es de hectares. Ainda que menos intensa, a expans\u00e3o da \u00e1rea cultivada com milho no mesmo per\u00edodo tamb\u00e9m foi expressiva: de 17,1 milh\u00f5es para 31,4 milh\u00f5es de hectares. No caso espec\u00edfico do Brasil, Niels Sondergaard e seus coautores <a href=\"https:\/\/link.springer.com\/book\/10.1007\/978-3-031-29853-0\">descreveram<\/a> a expans\u00e3o do complexo agroindustrial como um dos \u201cprocessos mais r\u00e1pidos e abrangentes de incorpora\u00e7\u00e3o de terras da hist\u00f3ria da humanidade\u201d. Com o <a href=\"https:\/\/www.fao.org\/faostat\/en\/#data\/QCL\">salto<\/a> da produ\u00e7\u00e3o de soja de 40 milh\u00f5es para mais de 210 milh\u00f5es de toneladas ao longo dessas tr\u00eas d\u00e9cadas, a participa\u00e7\u00e3o dos cinco pa\u00edses na produ\u00e7\u00e3o mundial passou de cerca de um ter\u00e7o para mais da metade. No caso das <a href=\"https:\/\/atlas.hks.harvard.edu\/explore\/overtime?view=markets&amp;exporter=group-1&amp;product=product-HS92-753&amp;importer=group-1\">exporta\u00e7\u00f5es<\/a>, o crescimento foi de um quinto para mais de 60% do total mundial.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Soja e a onda rosa<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora essas tend\u00eancias sejam amplamente conhecidas, suas consequ\u00eancias para a pol\u00edtica dos pa\u00edses sul-americanos permanecem pouco exploradas. Todos os cinco integraram a <a href=\"https:\/\/www.plutobooks.com\/product\/the-last-day-of-oppression-and-the-first-day-of-the-same\/\">chamada<\/a> <a href=\"https:\/\/catalyst-journal.com\/2018\/09\/the-latin-american-lefts-shifting-tides\">onda rosa<\/a> dos anos 2000 e in\u00edcio da d\u00e9cada de 2010, quando partidos de centro-esquerda ascenderam ao poder na esteira de mobiliza\u00e7\u00f5es contra o neoliberalismo. Entre janeiro de 2006, quando Evo Morales assumiu a presid\u00eancia da Bol\u00edvia, e dezembro de 2015, quando Mauricio Macri sucedeu Cristina Kirchner na Argentina, esses pa\u00edses, assim como outros da Am\u00e9rica do Sul, foram governados pela esquerda. A exce\u00e7\u00e3o foi o Paraguai, que acompanhou essa tend\u00eancia regional por um per\u00edodo mais curto, entre 2008 e 2012. Em meados dos anos 2010, o refluxo da onda rosa teve m\u00faltiplas causas. Sem d\u00favida, diferentes conjunturas dom\u00e9sticas definiram sua forma em diferentes lugares. Ainda assim, as semelhan\u00e7as entre as trajet\u00f3rias econ\u00f4micas e pol\u00edticas desses pa\u00edses refletem sua vulnerabilidade \u00e0s oscila\u00e7\u00f5es dos pre\u00e7os das commodities e, nos cinco exemplos aqui analisados, as din\u00e2micas pol\u00edticas desencadeadas pelas transforma\u00e7\u00f5es no campo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O <a href=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/battlefield-amazonia-2\/\">caso brasileiro<\/a> \u00e9 o que recebeu maior aten\u00e7\u00e3o. A combina\u00e7\u00e3o entre o apoio estatal \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o empresarial nas cadeias produtivas da soja e da carne e pol\u00edticas ambientais voltadas \u00e0 conten\u00e7\u00e3o da expans\u00e3o da \u00e1rea agropecu\u00e1ria produziu um movimento de pin\u00e7a que subordinou pequenos e m\u00e9dios propriet\u00e1rios rurais em uma vasta extens\u00e3o do territ\u00f3rio brasileiro. Esse processo lan\u00e7ou as bases de um bloco eleitoral que hoje constitui um dos principais pilares do bolsonarismo. Nas <a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/politica\/eleicoes-2026\/noticia\/2026\/10\/10\/felipe-nunes-flavio-foi-melhor-que-jair-foi-o-agro-estupido.ghtml\">recentes elei\u00e7\u00f5es presidenciais<\/a>, a divis\u00e3o territorial do eleitorado tornou-se ainda mais n\u00edtida do que quatro anos antes, com Fl\u00e1vio Bolsonaro ampliando desproporcionalmente sua vota\u00e7\u00e3o nos munic\u00edpios mais influenciados pelo complexo da soja e da carne. O Brasil talvez seja, assim, o caso em que a rela\u00e7\u00e3o entre os desafios ambientais e pol\u00edticos se revela com maior nitidez. Maior exportador agr\u00edcola do mundo, o pa\u00eds tem enfrentado dificuldades para proteger seus ecossistemas do avan\u00e7o avassalador da agroind\u00fastria. Paralelamente, assiste \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o de um movimento de extrema direita eleitoralmente competitivo, com parte de suas bases enraizadas no campo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas a combina\u00e7\u00e3o perversa de amea\u00e7as ambientais e pol\u00edticas se manifesta para al\u00e9m das fronteiras brasileiras. Na Argentina, por exemplo, h\u00e1 evid\u00eancias de que a guinada \u00e0 direita\u2014primeiro com a elei\u00e7\u00e3o de Macri e, depois, de forma mais radical, com a ascens\u00e3o de Javier Milei\u2014resultou de processos iniciados com a <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/dech.12362\"><em>crisis del campo<\/em><\/a>, em 2008. Naquele ano, um conflito pol\u00edtico em torno da tributa\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es de soja desencadeou uma prolongada onda de protestos que contribuiu para a forma\u00e7\u00e3o de um bloco pol\u00edtico rural em oposi\u00e7\u00e3o ao governo de centro-esquerda. No Paraguai, a onda rosa foi interrompida pelo impeachment do presidente de centro-esquerda Fernando Lugo, em 2012. \u201cA elite agr\u00edcola paraguaia conseguiu se organizar para derrubar Fernando Lugo, o primeiro presidente de esquerda do pa\u00eds\u201d, <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2016.1146705\">escreveram<\/a> Gustavo Oliveira e Susanna Hecht, \u201cquando ele tentou redistribuir terras agr\u00edcolas destinadas ao agroneg\u00f3cio da soja\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O caso boliviano \u00e9 particularmente interessante porque os governos de Evo Morales (2006\u20132019) confrontaram, ao menos inicialmente, as elites agr\u00e1rias em nome de uma \u201c<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12240\">revolu\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria<\/a>\u201d. Ainda assim, n\u00e3o conseguiram impedir uma guinada \u00e0 direita que, seguindo a tend\u00eancia regional, tamb\u00e9m teve ra\u00edzes nas transforma\u00e7\u00f5es do campo. Examinar como a esquerda boliviana procurou enfrentar o poder da grande agricultura capitalista pode, portanto, oferecer li\u00e7\u00f5es para romper o c\u00edrculo vicioso entre degrada\u00e7\u00e3o ambiental e eros\u00e3o democr\u00e1tica na Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A persistente polariza\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A soja \u00e9 uma cultura relativamente recente na Am\u00e9rica do Sul, cuja expans\u00e3o ganhou impulso na d\u00e9cada de 1970, quando a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria (Embrapa) conseguiu <a href=\"https:\/\/documents1.worldbank.org\/curated\/en\/156191468236982040\/pdf\/884900BRI0EP1450Box385225B000PUBLIC0.pdf\">adapt\u00e1-la<\/a> \u00e0s condi\u00e7\u00f5es do solo do Cerrado brasileiro. Segundo <a href=\"https:\/\/www.fao.org\/faostat\/en\/#data\/QCL\">dados da FAO<\/a>, ap\u00f3s a expans\u00e3o inicial das lavouras de soja no Brasil, o cultivo se disseminou para o Paraguai e a Argentina. A Bol\u00edvia passou a acompanhar essa tend\u00eancia regional no final da d\u00e9cada de 1980 e, nos anos 1990, o ritmo de expans\u00e3o da \u00e1rea cultivada com soja acelerou acentuadamente: a extens\u00e3o total das lavouras quase triplicou entre 1993 e 1999 (figura abaixo). Essa primeira fase do boom da soja boliviana, concentrada nas terras bajas (plan\u00edcies orientais), sobretudo no departamento de Santa Cruz, <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12209\">aprofundou<\/a> a polariza\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria herdada das d\u00e9cadas anteriores, marcada pela oposi\u00e7\u00e3o entre uma minoria de grandes empres\u00e1rios agr\u00edcolas e uma ampla maioria de camponeses.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"956\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/chart1-pt-d-10-1024x956.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-35297\" srcset=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/chart1-pt-d-10-1024x956.png 1024w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/chart1-pt-d-10-300x280.png 300w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/chart1-pt-d-10-768x717.png 768w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/chart1-pt-d-10-1536x1434.png 1536w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/chart1-pt-d-10-2048x1912-1.png 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa estrutura polarizada resultou do que Ben McKay e Gonzalo Colque <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2015.1053875\">chamaram<\/a> de \u201cmodelo planejado de desenvolvimento agr\u00edcola dual\u201d. A partir da d\u00e9cada de 1950, \u201ccamponeses andinos recebiam entre 20 e 50 hectares para produzir alimentos tradicionais destinados ao mercado interno, enquanto empres\u00e1rios capitalistas e elites locais recebiam entre 500 e 50 mil hectares para produzir culturas voltadas \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o\u201d. Com o tempo, esse modelo dual de desenvolvimento consolidou o predom\u00ednio da agricultura capitalista industrial, cuja participa\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola boliviana <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12209\">aumentou gradualmente<\/a> de 18% para 60% entre 1963 e 2002, aprofundando a concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria. Segundo uma <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12036\">estimativa de 2010<\/a>, cerca de 500 grandes produtores, com propriedades superiores a mil hectares, controlavam 56% da \u00e1rea cultivada com soja, enquanto os 13.500 pequenos e m\u00e9dios produtores detinham o restante. Assim, apenas 3% dos produtores concentravam mais da metade das terras. Em Santa Cruz, a concentra\u00e7\u00e3o era <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2015.1053875\">ainda maior<\/a>: em 2011, 71% da \u00e1rea cultivada com soja estava nas m\u00e3os de apenas 2% dos produtores, novamente aqueles com propriedades de mil hectares ou mais. Para efeito de <a href=\"https:\/\/escolhas.org\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Relatorio-Tecnico_Brasil-como-lider-mundial-em-producao-de-soja.pdf\">compara\u00e7\u00e3o<\/a>, no Brasil, maior produtor mundial de soja, as propriedades com mais de mil hectares representavam, em 2017, 5% dos estabelecimentos produtores do gr\u00e3o e respondiam por quase 60% da \u00e1rea cultivada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a chegada de Evo Morales \u00e0 Presid\u00eancia, em 2006, a quest\u00e3o agr\u00e1ria ganhou centralidade no debate pol\u00edtico. Afinal, o Movimiento al Socialismo (MAS), partido de Morales, havia surgido de um <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12240\">ciclo de protestos<\/a> liderado por uma coaliz\u00e3o de movimentos sociais com forte protagonismo campon\u00eas. O Pacto de Unidade, formado em 2005 por organiza\u00e7\u00f5es camponesas e ind\u00edgenas, constituiu a principal base de sustenta\u00e7\u00e3o do MAS. Os tr\u00eas primeiros anos do governo Morales foram marcados por um <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12240\">intenso<\/a> <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12209\">conflito<\/a> entre esses movimentos sociais e os grandes propriet\u00e1rios de terras do leste do pa\u00eds, em meio \u00e0s disputas pela implementa\u00e7\u00e3o da reforma agr\u00e1ria, ap\u00f3s a aprova\u00e7\u00e3o de uma nova lei em 2006, e pela elabora\u00e7\u00e3o de uma nova Constitui\u00e7\u00e3o. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12240?utm_source=chatgpt.com\"><\/a><a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12240\">Pesquisas<\/a> <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12209\">sobre<\/a> o per\u00edodo indicam que as principais conquistas da pol\u00edtica fundi\u00e1ria foram a acelera\u00e7\u00e3o dos processos de regulariza\u00e7\u00e3o de terras e o reconhecimento formal de extensas \u00e1reas como terras de propriedade coletiva das comunidades ind\u00edgenas, totalizando mais de <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12240\">7,5 milh\u00f5es de hectares<\/a>. Enquanto isso, as elites oposicionistas se organizaram em um movimento separatista e recorreram \u00e0 \u201c<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12209\">desestabiliza\u00e7\u00e3o extraparlamentar<\/a>\u201d, ocupando \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, bloqueando aeroportos e preparando um golpe de Estado. Essa fase mais aguda do conflito terminou com a derrota da oposi\u00e7\u00e3o, \u00e0 medida que Morales acumulava vit\u00f3rias eleitorais\u2014no referendo revogat\u00f3rio de 2008 e nas elei\u00e7\u00f5es gerais de 2009\u2014e a direita perdia apoio ao recorrer \u00e0 viol\u00eancia, sobretudo ap\u00f3s o assassinato de dezenas de camponeses e estudantes que apoiavam o governo em <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12209\">Porvenir<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Capitalismo andino-amaz\u00f4nico?<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora a reforma agr\u00e1ria n\u00e3o tenha chegado a redistribuir terras, o governo adotou outras pol\u00edticas de apoio aos pequenos produtores. Uma das principais foi a cria\u00e7\u00e3o, em 2007, da <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12036\">EMAPA<\/a> (Empresa de Apoio \u00e0 Produ\u00e7\u00e3o de Alimentos, na sigla em espanhol). Ao garantir aos pequenos produtores acesso a capital, tecnologia e compradores dispostos a pagar pre\u00e7os justos, a EMAPA pretendia \u201cmodificar as estruturas econ\u00f4micas das terras baixas e reduzir o poder do agroneg\u00f3cio, transformando, assim, as rela\u00e7\u00f5es de poder pol\u00edtico no interior do Estado\u201d, <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12036\">segundo<\/a> Diana Cordoba e Kees Jansen. A empresa estatal <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12036\">incentivou<\/a> a organiza\u00e7\u00e3o dos agricultores em associa\u00e7\u00f5es coletivas de 15 a 270 membros, oferecendo-lhes pre\u00e7os de compra superiores aos praticados no mercado, al\u00e9m de cr\u00e9dito subsidiado e assist\u00eancia t\u00e9cnica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A iniciativa buscava enfrentar diretamente a subordina\u00e7\u00e3o dos pequenos produtores que caracteriza as terras baixas dominadas pelo cultivo da soja. Dois fatores, por\u00e9m, limitaram seu alcance. O primeiro foi sua escala reduzida. Os gastos totais da EMAPA representavam uma <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12209\">pequena parcela<\/a> dos gastos p\u00fablicos, permanecendo, em geral, abaixo de 2% do financiamento total destinado \u00e0s empresas estatais, o que restringia sua capacidade operacional. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12036\">Em 2011<\/a>, por exemplo, \u201ca EMAPA de Santa Cruz contava com apenas nove t\u00e9cnicos de campo respons\u00e1veis pela assist\u00eancia t\u00e9cnica em uma \u00e1rea m\u00e9dia de 11 mil hectares cada, quando a recomenda\u00e7\u00e3o era de um t\u00e9cnico para cada 3 mil hectares\u201d. O segundo fator foi a decis\u00e3o da empresa de garantir o acesso \u00e0 tecnologia atuando como <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12036\">intermedi\u00e1ria<\/a> entre os pequenos produtores e as grandes corpora\u00e7\u00f5es agroqu\u00edmicas. Dessa forma, buscava fortalecer os pequenos agricultores sem romper com o modelo dominante de moderniza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, em vez de enfrentar a estrutura agr\u00e1ria polarizada por meio da constru\u00e7\u00e3o de uma alternativa \u00e0 agricultura industrial convencional. Segundo a <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12036\">avalia\u00e7\u00e3o<\/a> de Cordoba e Jansen, essa estrat\u00e9gia acabou aprofundando os \u201cla\u00e7os de depend\u00eancia\u201d e refor\u00e7ando a subordina\u00e7\u00e3o dos pequenos produtores: \u201cA aus\u00eancia de uma proposta alternativa ao modelo dominante de moderniza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, somada \u00e0 assist\u00eancia t\u00e9cnica inadequada, aos insumos de baixa qualidade e aos pacotes tecnol\u00f3gicos caros e excessivamente simplificados, enfraquece a posi\u00e7\u00e3o dos pequenos produtores diante dos demais atores da cadeia agroalimentar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2006, \u00c1lvaro Garc\u00eda Linera, vice-presidente de Morales, <a href=\"https:\/\/www.lemondediplomatique.cl\/2006\/01\/el-capitalismo-andino-amazonico\">defendeu<\/a> que o objetivo do governo deveria ser a constru\u00e7\u00e3o de um capitalismo andino-amaz\u00f4nico, concebido como uma etapa de transi\u00e7\u00e3o rumo ao socialismo. Isso exigiria, em <a href=\"https:\/\/www.lemondediplomatique.cl\/2006\/01\/el-capitalismo-andino-amazonico\">suas palavras<\/a>, \u201cconstruir um Estado forte\u201d, capaz de canalizar o excedente da economia industrial para as comunidades, a fim de \u201cimpulsionar formas aut\u00eanticas de auto-organiza\u00e7\u00e3o e desenvolvimento mercantil andino e amaz\u00f4nico\u201d. Em retrospecto, considerando a trajet\u00f3ria do setor agr\u00e1rio boliviano, \u00e9 poss\u00edvel afirmar que o governo n\u00e3o conseguiu promover essa auto-organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, ao menos no sentido de fortalecer as associa\u00e7\u00f5es camponesas frente ao grande capital agr\u00edcola. Na pr\u00e1tica, o governo administrou a continuidade da expans\u00e3o da agricultura industrial, o aprofundamento da concentra\u00e7\u00e3o empresarial na cadeia produtiva da soja e o agravamento da subordina\u00e7\u00e3o dos pequenos produtores. Em vez de preparar o pa\u00eds para uma transforma\u00e7\u00e3o radical, o MAS parece ter constru\u00eddo um Estado compensador, para empregar a express\u00e3o de <a href=\"https:\/\/www.taylorfrancis.com\/chapters\/edit\/10.4324\/9781315687698-7\/natural-resource-nationalisms-compensatory-state-progressive-south-america-eduardo-gudynas?context=ubx&amp;refId=7d62777d-a576-491b-bc30-cf912622b604\">Eduardo Gudynas<\/a>, combinando pol\u00edticas de redu\u00e7\u00e3o da pobreza com uma nova estrat\u00e9gia de desenvolvimento extrativista. Uma vez que se sustentava no boom das commodities, a abordagem era fadada a ter vida curta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Reaproxima\u00e7\u00e3o<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s a primeira reelei\u00e7\u00e3o de Morales, em 2009, a pol\u00edtica agr\u00e1ria do governo mudou de rumo. McKay <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12240\">descreveu<\/a> essa mudan\u00e7a como uma transi\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria para a revolu\u00e7\u00e3o produtiva, na qual o esfor\u00e7o de construir a legitimidade popular do Estado deu lugar \u00e0 prioridade de estabelecer uma alian\u00e7a entre Estado e capital. De maneira semelhante, Webber <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12209\">interpretou<\/a> a mudan\u00e7a como a passagem de um per\u00edodo de contesta\u00e7\u00e3o insurgente para outro, marcado por uma alian\u00e7a entre o agroneg\u00f3cio e o Estado. Ap\u00f3s as derrotas de 2008 e 2009, as elites agr\u00e1rias moderaram sua postura de confronto, abrindo caminho para uma reaproxima\u00e7\u00e3o com o MAS. O governo, por sua vez, passou a considerar especialmente necess\u00e1ria a forma\u00e7\u00e3o do que Cordoba e Jansen chamaram de \u201c<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12036\">nova alian\u00e7a produtiva<\/a>\u201d ap\u00f3s o <em>gasolinazo<\/em> de 2010, quando a redu\u00e7\u00e3o dos subs\u00eddios aos combust\u00edveis provocou desabastecimento e infla\u00e7\u00e3o de alimentos. A EMAPA tentou enfrentar a crise, mas acabou envolvida na controv\u00e9rsia, com apoiadores urbanos do MAS exigindo seu fechamento. O governo decidiu recorrer ao capital agroindustrial para superar a crise, <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12036\">abandonando<\/a> \u201csua postura de confronto\u201d e prometendo \u201capoio financeiro e seguran\u00e7a jur\u00eddica para suas terras\u201d. A estrat\u00e9gia era question\u00e1vel, uma vez que a agricultura voltada \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o n\u00e3o garante a seguran\u00e7a alimentar da popula\u00e7\u00e3o. De fato, as importa\u00e7\u00f5es de alimentos <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12240\">cresceram<\/a> cerca de 62% entre 2010 e 2014.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No ano seguinte, dois acontecimentos consolidaram a decis\u00e3o do governo de privilegiar seus antigos advers\u00e1rios em detrimento de suas bases camponesas e ind\u00edgenas. Primeiro, uma nova lei de pol\u00edtica agr\u00edcola, cuja vers\u00e3o inicial havia sido elaborada por integrantes do Pacto de Unidade, foi substancialmente alterada sob press\u00e3o das elites de Santa Cruz, resultando em um texto <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12240\">favor\u00e1vel \u00e0 expans\u00e3o agroindustrial<\/a>. A pol\u00edtica agr\u00edcola avan\u00e7aria ainda mais nessa dire\u00e7\u00e3o em 2016, com a <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12209\">Agenda Patri\u00f3tica 2025<\/a>, que prometia ao capital agroindustrial \u201cmais investimentos p\u00fablicos em infraestrutura de produ\u00e7\u00e3o e transporte, al\u00e9m de garantias de insumos energ\u00e9ticos subsidiados e estabilidade cambial\u201d. Segundo, em 2011, o governo ignorou a oposi\u00e7\u00e3o de suas pr\u00f3prias bases \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma rodovia que atravessaria o Territ\u00f3rio Ind\u00edgena e Parque Nacional Isiboro S\u00e9cure (<a href=\"https:\/\/brill.com\/display\/book\/edcoll\/9789004271074\/B9789004271074_014.xml\">TIPNIS<\/a>). Ap\u00f3s um intenso conflito, o projeto foi levado adiante, e dois dos cinco movimentos sociais que haviam formado o Pacto de Unidade romperam com a alian\u00e7a, desiludidos com o MAS.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo desse per\u00edodo, a concentra\u00e7\u00e3o empresarial na cadeia produtiva da soja continuou avan\u00e7ando sem tr\u00e9gua, acompanhando transforma\u00e7\u00f5es semelhantes nos demais <a href=\"http:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/republicas-da-soja\/\">pa\u00edses produtores de soja da Am\u00e9rica do Sul<\/a>. A ADM e a Cargill, por exemplo, duas das quatro maiores comercializadoras de gr\u00e3os do mundo, come\u00e7aram a operar na Bol\u00edvia em 1998 e, em 2012, j\u00e1 <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2015.1053875\">controlavam quase um quarto<\/a> das exporta\u00e7\u00f5es de soja e derivados do pa\u00eds. Com a autoriza\u00e7\u00e3o do uso de sementes geneticamente modificadas, em 2005, ampliou-se a capacidade dessas empresas de subordinar os pequenos produtores. A ADM, por exemplo, <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12036\">concedia empr\u00e9stimos<\/a> para financiar a compra de insumos agr\u00edcolas, como sementes, agrot\u00f3xicos e fertilizantes, geralmente fornecidos por um pequeno grupo de multinacionais, al\u00e9m de \u00f3leo diesel. Em contrapartida, os pequenos agricultores perdiam autonomia sobre suas pr\u00e1ticas produtivas e corriam o risco de perder suas terras. Como <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12036\">explicam<\/a> Cordoba e Jansen: \u201cOs contratos estipulavam que a ADM tomaria posse da terra caso a produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o fosse conduzida adequadamente, e que caberia \u00e0 empresa determinar o pre\u00e7o e os padr\u00f5es de qualidade da soja colhida (o que geralmente resultava em descontos elevados devido \u00e0 umidade ou \u00e0 presen\u00e7a de impurezas)\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse contexto, muitos pequenos produtores foram levados a aderir \u00e0 <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2015.1053875\"><em>partida<\/em><\/a>, modalidade de cess\u00e3o de terras para cultivo por grandes empres\u00e1rios agr\u00edcolas. Com o aumento dos custos de produ\u00e7\u00e3o imposto pelo controle empresarial sobre a cadeia produtiva, diversos camponeses j\u00e1 n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00f5es de cultivar suas pr\u00f3prias terras. Diante do tamanho reduzido de suas propriedades e dos baixos valores recebidos pelo arrendamento, acabavam assumindo uma condi\u00e7\u00e3o amb\u00edgua: tornavam-se, ao mesmo tempo, <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2015.1053875\">pequenos \u201crentistas\u201d e semiprolet\u00e1rios<\/a>, obrigados a recorrer ao trabalho assalariado para complementar a renda e garantir a subsist\u00eancia. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2015.1053875\">Segundo<\/a> McKay e Colque, em alguns munic\u00edpios das terras baixas onde a fronteira agr\u00edcola avan\u00e7ava, a maioria dos pequenos produtores passou a recorrer \u00e0 partida.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Vit\u00f3ria vazia<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na Argentina e no Brasil, o boom da soja deu origem a <a href=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/republicas-da-soja\/\">blocos pol\u00edticos unificados<\/a> em oposi\u00e7\u00e3o aos governos da onda rosa, reunindo agricultores relativamente subordinados, elites agr\u00e1rias e setores de servi\u00e7os e da ind\u00fastria ligados \u00e0 agricultura industrial. Esses blocos constitu\u00edram uma das principais bases da guinada pol\u00edtica \u00e0 direita. Os movimentos que contestavam o modelo dominante de agricultura capitalista foram marginalizados, com sua influ\u00eancia restrita \u00e0s \u00e1reas ainda n\u00e3o alcan\u00e7adas pelo avan\u00e7o avassalador da soja e recebendo dos governos apenas uma fra\u00e7\u00e3o do apoio destinado \u00e0s cadeias produtivas controladas pelas grandes empresas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na Bol\u00edvia, em contrapartida, o conflito agr\u00e1rio entre camponeses e grandes capitalistas rurais manteve sua centralidade pol\u00edtica, talvez como legado das intensas disputas dos primeiros anos do governo MAS e tamb\u00e9m por sua rela\u00e7\u00e3o com <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12240\">divis\u00f5es raciais<\/a> mais profundas da sociedade boliviana, que op\u00f5em grupos ind\u00edgenas dos Andes \u00e0s popula\u00e7\u00f5es mesti\u00e7as das terras baixas. Desde a d\u00e9cada de 1990, imigrantes brasileiros passaram a representar uma parcela expressiva dos grandes empres\u00e1rios agr\u00edcolas. Ainda assim, aos olhos da tradicional <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12036\">elite de Santa Cruz<\/a>, \u201cos \u2018imigrantes\u2019 s\u00e3o os camponeses andinos, e n\u00e3o os produtores brasileiros de soja\u201d. Ao apoiar, na pr\u00e1tica, a expans\u00e3o da agricultura industrial, dividir os movimentos camponeses e ind\u00edgenas e tomar como garantido o apoio das classes populares, o MAS cavou a pr\u00f3pria cova. A vit\u00f3ria inicial sobre as elites agr\u00e1rias revelou-se vazia na medida em que n\u00e3o foi aproveitada para superar a polariza\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A principal li\u00e7\u00e3o dessa experi\u00eancia talvez seja que a supera\u00e7\u00e3o do dom\u00ednio das grandes corpora\u00e7\u00f5es da soja exige uma estrat\u00e9gia de transi\u00e7\u00e3o capaz de fortalecer os pequenos produtores e viabilizar a ado\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas agroecol\u00f3gicas que garantam alimentos a pre\u00e7os acess\u00edveis no mercado interno. Dessa forma, o Estado pode construir uma base alternativa de sustenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para enfrentar a agricultura capitalista, reduzindo a influ\u00eancia desta sobre a oferta e os pre\u00e7os dos alimentos. Apesar dos conflitos iniciais de Morales com as elites de Santa Cruz, seu governo incentivou a integra\u00e7\u00e3o dos pequenos produtores \u00e0s cadeias produtivas controladas pelas grandes empresas, ao passo que <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/02255189.2016.1179626\">despolitizou<\/a> e <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12209\">desmobilizou<\/a> os movimentos camponeses. Assim, j\u00e1 no in\u00edcio da d\u00e9cada de 2010, havia minado as condi\u00e7\u00f5es de que talvez dispusesse anteriormente para transformar o campo boliviano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A desarticula\u00e7\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o permitiu ao MAS preservar sua supremacia eleitoral por mais tempo do que os demais governos da onda rosa. Com o tempo, por\u00e9m, o fim do boom das commodities enfraqueceu o Estado compensador, reduzindo o apoio popular a Morales e <a href=\"https:\/\/socialistregister.com\/index.php\/srv\/article\/view\/44706\">fortalecendo a oposi\u00e7\u00e3o<\/a>. A direita sabia que Morales j\u00e1 n\u00e3o podia contar com suas bases originais de sustenta\u00e7\u00e3o nos movimentos camponeses e ind\u00edgenas, afastados pelas prioridades agr\u00e1rias do MAS. Em um momento decisivo, na segunda metade da d\u00e9cada de 2010, quando Morales tentou alterar a Constitui\u00e7\u00e3o para permitir mais uma reelei\u00e7\u00e3o, perdeu o apoio da <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/joac.12240\">confedera\u00e7\u00e3o de trabalhadores camponeses<\/a>, um dos principais movimentos sociais que ainda integravam o Pacto de Unidade. Ainda assim, insistiu em concorrer \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o e, j\u00e1 politicamente enfraquecido, acabou sendo derrubado por um golpe articulado pela direita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora o MAS tenha conseguido retornar ao poder por mais um mandato sob a lideran\u00e7a de Luis Arce, suas <a href=\"https:\/\/nuso.org\/articulo\/307-evistas-versus-arcistas\/\">divis\u00f5es internas<\/a> j\u00e1 n\u00e3o puderam ser contidas. A fragmenta\u00e7\u00e3o foi tamanha que, nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es gerais, a esquerda sequer chegou ao <a href=\"https:\/\/nacla.org\/bolivia-into-the-abyss\/\">segundo turno<\/a>. Enquanto isso, o conflito agr\u00e1rio permanece no centro da disputa pol\u00edtica. O atual governo enfrentou enormes protestos ao tentar aprovar uma lei que <a href=\"https:\/\/nacla.org\/bolivia-into-the-abyss\/\">aprofundaria a subordina\u00e7\u00e3o dos pequenos produtores<\/a>. Resta saber se essa renovada resist\u00eancia camponesa ser\u00e1 capaz de recriar as condi\u00e7\u00f5es para um projeto pol\u00edtico nacional que aponte para al\u00e9m do dom\u00ednio da soja, cujas consequ\u00eancias s\u00e3o t\u00e3o nocivas para a pol\u00edtica quanto para o meio ambiente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Garantir a alimenta\u00e7\u00e3o da humanidade sem destruir o planeta \u00e9 reconhecidamente um dos grandes desafios do nosso tempo. Menos aten\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, tem sido dedicada a outra dimens\u00e3o desse mesmo desafio: como alimentar a popula\u00e7\u00e3o mundial sem alimentar tamb\u00e9m din\u00e2micas pol\u00edticas que favore\u00e7am a viol\u00eancia, a explora\u00e7\u00e3o e o autoritarismo. 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