{"id":35217,"date":"2026-10-31T15:48:40","date_gmt":"2026-10-31T15:48:40","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/nao-categorizado\/frozen-map\/"},"modified":"2026-11-03T22:23:34","modified_gmt":"2026-11-03T22:23:34","slug":"mapa-congelado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/mapa-congelado\/","title":{"rendered":"Mapa congelado"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As elei\u00e7\u00f5es de meio de mandato raramente trazem \u00e0 tona o melhor dos presidentes dos Estados Unidos. Quase sempre diante de um cen\u00e1rio eleitoral desfavor\u00e1vel, os presidentes recorrem a manobras e artif\u00edcios que apenas refor\u00e7am a crescente desconfian\u00e7a dos eleitores em rela\u00e7\u00e3o a seus governos. Em 1938, a tentativa fracassada de Franklin Roosevelt de expurgar do Partido Democrata os advers\u00e1rios do New Deal n\u00e3o fez mais do que lembrar aos eleitores que n\u00e3o haveria um terceiro New Deal. Em 1974, a campanha de Gerald Ford convenceu at\u00e9 os economistas republicanos de que o presidente tinha pouco a oferecer em mat\u00e9ria de pol\u00edtica econ\u00f4mica. Este ano, diante de \u00edndices de aprova\u00e7\u00e3o em queda livre, o presidente Donald Trump aproveitou o ciclo eleitoral para associar os candidatos de seu partido \u00e0 pr\u00f3pria imagem e cobrar deles US$ 25 mil pela participa\u00e7\u00e3o em um com\u00edcio de arrecada\u00e7\u00e3o de fundos para as elei\u00e7\u00f5es de meio de mandato.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas as demonstra\u00e7\u00f5es de desatino presidencial nem sempre se traduzem em derrotas eleitorais acachapantes. Nesse sentido, um paralelo hist\u00f3rico pertinente para as elei\u00e7\u00f5es de 3 de novembro de 2026 talvez sejam as pouco memor\u00e1veis elei\u00e7\u00f5es de meio de mandato de um s\u00e9culo atr\u00e1s. Em 1926, o presidente republicano Calvin Coolidge, t\u00e3o avesso \u00e0 a\u00e7\u00e3o que era conhecido por passar horas cochilando todas as tardes, governava um pa\u00eds em plena expans\u00e3o econ\u00f4mica, com um Congresso que praticamente o deixava agir como bem entendesse. Naquele ano, os republicanos perderam algumas cadeiras, mas preservaram uma maioria confort\u00e1vel nas duas casas do Congresso. O mapa eleitoral permanecia praticamente inalterado desde o grande realinhamento de 1896: os republicanos dominavam o Nordeste e o Meio-Oeste, enquanto os democratas monopolizavam o Sul. Nenhum dos partidos conseguia penetrar nos redutos eleitorais do advers\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sob a aparente estabilidade, no entanto, ambos os partidos atravessavam profundas crises internas. A associa\u00e7\u00e3o do Partido Republicano com a alta finan\u00e7a, embora eleitoralmente vantajosa, come\u00e7ava a corroer suas estruturas. Andrew Mellon, um dos homens mais ricos do pa\u00eds, comandava o Tesouro e a pol\u00edtica tribut\u00e1ria em benef\u00edcio direto de sua classe. Ao mesmo tempo, os esc\u00e2ndalos do governo Harding, que s\u00f3 vieram \u00e0 tona ap\u00f3s sua morte, em 1923, revelavam um partido em que cargos ministeriais estavam \u00e0 venda. A situa\u00e7\u00e3o dos democratas n\u00e3o era melhor. Na conven\u00e7\u00e3o de 1924, foram necess\u00e1rias 103 rodadas de vota\u00e7\u00e3o para escolher o advogado de Wall Street John W. Davis como candidato \u00e0 Presid\u00eancia, depois que os delegados se dividiram em disputas acirradas em torno da Ku Klux Klan e da Lei Seca. Davis acabaria recebendo menos de 30% dos votos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mapa eleitoral parecia congelado\u2014at\u00e9 deixar de estar. Na d\u00e9cada que se seguiu \u00e0s desimportantes elei\u00e7\u00f5es de meio de mandato de 1926, o Partido Democrata passaria por uma das transforma\u00e7\u00f5es mais profundas da hist\u00f3ria pol\u00edtica estadunidense, impulsionada pela mobiliza\u00e7\u00e3o de novos eleitores urbanos, imigrantes e trabalhadores. O Partido Republicano, por sua vez, seria afastado do poder nacional por uma gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Quem decide<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O dom\u00ednio de Donald Trump sobre o Partido Republicano n\u00e3o tem precedentes na hist\u00f3ria estadunidense. Embora presidentes como Abraham Lincoln e Franklin Roosevelt tenham exercido enorme influ\u00eancia sobre seus partidos, nenhum deles conseguiu consolidar o grau de controle personalista que Trump exerce sobre o Partido Republicano h\u00e1 quase uma d\u00e9cada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em certo sentido, o dom\u00ednio de Trump veio ocupar o lugar das estruturas partid\u00e1rias tradicionais, enfraquecidas ao longo das d\u00e9cadas anteriores.<a data-contents=\"Para uma an\u00e1lise mais aprofundada dessa trajet\u00f3ria, ver meu livro Rogue Elephant: How the Republicans Went from the Party of Business to the Party of Chaos (Verso, 2025).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-1\" href=\"#footnote-list-1\">1<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Para uma an\u00e1lise mais aprofundada dessa trajet\u00f3ria, ver meu livro Rogue Elephant: How the Republicans Went from the Party of Business to the Party of Chaos (Verso, 2025).<\/span> Antes de sua ascens\u00e3o mete\u00f3rica, os financiadores tradicionais do Partido Republicano no meio empresarial j\u00e1 apresentavam divis\u00f5es pol\u00edticas crescentes. Ao mesmo tempo, um modelo de financiamento eleitoral cada vez mais centrado nos candidatos e nos comit\u00eas de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (PACs, na sigla em ingl\u00eas) transferia essas divis\u00f5es diretamente para o interior da organiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria. O resultado foi uma esp\u00e9cie de guerra civil republicana entre 2008 e 2016, marcada pelo confronto entre a ala ligada ao Tea Party e o establishment tradicional. Trump ascendeu em meio ao impasse entre essas duas for\u00e7as e rapidamente se tornou o principal elemento de coes\u00e3o de um partido profundamente dividido, cujas fac\u00e7\u00f5es tinham cada vez menos pontos em comum.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora os caprichos de uma estrela de reality show tenham se tornado o cimento que mantinha o partido unido, durante seu primeiro mandato os impulsos de Trump frequentemente esbarravam na in\u00e9rcia institucional, na incompet\u00eancia de sua pr\u00f3pria administra\u00e7\u00e3o e na resist\u00eancia de diferentes integrantes do aparelho republicano. No segundo mandato, por\u00e9m, a in\u00e9rcia institucional e a resist\u00eancia interna foram superadas em grande medida. Enquanto o primeiro governo contava com figuras de alto escal\u00e3o como John Kelly e Jim Mattis, que encaravam sua participa\u00e7\u00e3o na administra\u00e7\u00e3o como uma forma de conter os danos provocados pela pr\u00f3pria direita, os principais integrantes do segundo governo, como Stephen Miller e Marco Rubio, mostram-se dispostos a executar at\u00e9 mesmo as diretrizes mais delirantes de Trump.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A maioria republicana no Congresso tamb\u00e9m passou a demonstrar obedi\u00eancia irrestrita ao presidente, sem oferecer resist\u00eancia \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o de poderes nas m\u00e3os do Executivo. Tudo isso permitiu ao governo agir com uma <a href=\"https:\/\/sps.columbia.edu\/news\/destruction-federal-governments-organizational-capacity\">velocidade assustadora<\/a> na reestrutura\u00e7\u00e3o da burocracia federal. Ao mesmo tempo, os integrantes do segundo governo Trump desistiram de tentar dissuadir o presidente de tomar decis\u00f5es precipitadas. Como <a href=\"https:\/\/www.axios.com\/2026\/09\/09\/trump-midterms-republicans-popularity?utm_source=chatgpt.com\">resumiu<\/a> um de seus assessores \u00e0 imprensa: \u201cPara qu\u00ea se dar ao trabalho? Quem manda \u00e9 ele.\u201d Embora essa defer\u00eancia demonstre a for\u00e7a de Trump dentro do partido, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que seus resultados v\u00eam prejudicando as perspectivas republicanas nas elei\u00e7\u00f5es de meio de mandato.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Toda a campanha republicana para essas elei\u00e7\u00f5es foi organizada em torno dos caprichos mon\u00e1rquicos de Trump. Em vez de definir uma estrat\u00e9gia para a participa\u00e7\u00e3o de seu gabinete na campanha, o presidente criou uma <a href=\"https:\/\/www.theatlantic.com\/politics\/2026\/09\/trump-cabinet-travel-midterms\/688560\/\">competi\u00e7\u00e3o ao estilo de <em>O Aprendiz<\/em><\/a>, na qual autoridades como o procurador-geral e o secret\u00e1rio de Defesa ganham prest\u00edgio conforme o tempo que passam discursando em distritos eleitorais disputados. A conven\u00e7\u00e3o de meio de mandato, anunciada como um grande espet\u00e1culo para impulsionar os republicanos em novembro, serviu tanto para arrecadar fundos para o presidente quanto para financiar as campanhas ao Congresso. A Casa Branca <a href=\"https:\/\/www.axios.com\/2026\/09\/03\/vulnerable-republicans-get-a-25k-convention-pass\">cobrou dos candidatos para participar<\/a> e, em troca, ofereceu-lhes a oportunidade de aparecer na televis\u00e3o ao lado de um presidente historicamente impopular, que fez quest\u00e3o de discursar nas duas noites do evento. N\u00e3o surpreende que muitos candidatos republicanos em disputas acirradas tenham <a href=\"https:\/\/www.cbsnews.com\/news\/trump-gop-convention-republican-house-senate-candidates\/\">preferido ficar de fora<\/a>. Mesmo quando Trump recorreu ao seu super PAC, o MAGA Inc., para financiar an\u00fancios em disputas apertadas, as pe\u00e7as publicit\u00e1rias <a href=\"https:\/\/www.cnn.com\/2026\/09\/02\/politics\/trump-midterm-ad-spending\">destacaram sobretudo<\/a> a figura do pr\u00f3prio presidente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No campo das pol\u00edticas p\u00fablicas, a falta de modera\u00e7\u00e3o de Trump tem efeitos igualmente prejudiciais. H\u00e1 quase um ano, o presidente vem desqualificando as preocupa\u00e7\u00f5es com o custo de vida, tratando-as como uma \u201cfarsa\u201d e afirmando que a pr\u00f3pria express\u00e3o foi \u201c<a href=\"https:\/\/fortune.com\/2026\/07\/23\/trump-dismisses-affordability-democrats-made-up-word-oil-prices-100-barrel\/\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/fortune.com\/2026\/07\/23\/trump-dismisses-affordability-democrats-made-up-word-oil-prices-100-barrel\/\">inventada pelos democratas<\/a>\u201d. Enquanto a apreens\u00e3o com a intelig\u00eancia artificial e a constru\u00e7\u00e3o de centros de dados cresce entre os eleitores, Trump mant\u00e9m uma <a href=\"https:\/\/www.cbsnews.com\/news\/trump-dismisses-ai-regulation-tech-slowdown\/\">posi\u00e7\u00e3o <em>laissez-faire<\/em><\/a> em rela\u00e7\u00e3o a ambos. O exemplo mais evidente, por\u00e9m, \u00e9 a desastrosa guerra contra o Ir\u00e3, que se tornou um problema pol\u00edtico t\u00e3o grave para o governo que seus porta-vozes passaram a <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=rkDOy7Hi-fY\">repreender os eleitores<\/a>, acusando de falta de patriotismo quem reclama da alta dos pre\u00e7os da gasolina. A cada passo, Trump insiste em moldar a identidade do Partido Republicano segundo seus pr\u00f3prios impulsos, independentemente dos custos pol\u00edticos para a legenda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse cen\u00e1rio, alguns republicanos come\u00e7aram a <a href=\"https:\/\/www.nbcnews.com\/politics\/2026-election\/several-republicans-start-distance-trump-midterms-rcna598334?utm_source=chatgpt.com\">ensaiar um distanciamento<\/a> do governo. Mas a margem de manobra dos republicanos para se afastar de Trump \u00e9 bastante limitada. Na primavera, o presidente demonstrou que continua exercendo forte influ\u00eancia sobre o eleitorado republicano nas prim\u00e1rias, ao apoiar candidaturas que derrotaram diversos parlamentares em exerc\u00edcio. Em <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2026\/05\/05\/us\/trump-candidates-win-indiana-republican-primary.html\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2026\/05\/05\/us\/trump-candidates-win-indiana-republican-primary.html\">Indiana<\/a>, os advers\u00e1rios de seis legisladores estaduais que haviam votado contra uma nova divis\u00e3o dos distritos eleitorais receberam o apoio de Trump e venceram todas as disputas. No <a href=\"https:\/\/newleftreview.org\/sidecar\/posts\/costly-signals\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/newleftreview.org\/sidecar\/posts\/costly-signals\">Kentucky<\/a>, o deputado Thomas Massie, principal cr\u00edtico do governo dentro do Partido Republicano, foi derrotado nas prim\u00e1rias por um candidato apoiado pelo presidente. Na Louisiana e no Texas, senadores que buscavam a reelei\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m perderam para advers\u00e1rios endossados por Trump. Na <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2026\/05\/27\/us\/politics\/paxton-cornyn-texas-republican-primary.html\">Louisiana<\/a>, Bill Cassidy foi derrotado pela deputada Julia Letlow, financiada pela OpenAI. No Texas, John Cornyn, aliado fiel de Trump, mas pouco entusiasmado em suas demonstra\u00e7\u00f5es de submiss\u00e3o, perdeu para Ken Paxton, procurador-geral do estado envolvido em diversos esc\u00e2ndalos. Na Carolina do Sul, por sua vez, Trump escolheu Darline, irm\u00e3 de Lindsey Graham, para suceder o senador falecido, e seu super PAC gastou quase US$ 1 milh\u00e3o na \u00faltima semana da campanha para garantir sua vit\u00f3ria sobre o ultraconservador Ralph Norman. Diante de tamanha demonstra\u00e7\u00e3o de poder, a maioria dos parlamentares republicanos passou a competir para ver quem demonstrava maior lealdade ao presidente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m de contar com um ex\u00e9rcito de eleitores nas prim\u00e1rias, Trump tamb\u00e9m controla os recursos financeiros nesta elei\u00e7\u00e3o. O MAGA Inc. arrecadou impressionantes US$ 400 milh\u00f5es de um seleto grupo de bilion\u00e1rios de reputa\u00e7\u00e3o duvidosa. Entre os principais doadores, destaca-se a direita do Vale do Sil\u00edcio: David Brockman, fundador da OpenAI, os irm\u00e3os Winklevoss e Marc Andreessen contribu\u00edram, cada um, com mais de US$ 10 milh\u00f5es. Tamb\u00e9m figuram na lista financistas como Stephen Schwarzman e Timothy Mellon, magnatas dos cassinos como Steve Wynn e Bijan Tehrani e empres\u00e1rios do setor petrol\u00edfero texano, como Kelcy Warren e Tim Dunn. Este \u00faltimo financia a Texas Public Policy Foundation, organiza\u00e7\u00e3o que se tornou uma importante fonte de quadros e propostas para o segundo governo Trump. Gra\u00e7as \u00e0s contribui\u00e7\u00f5es desse grupo relativamente restrito de financiadores, o MAGA Inc. acumulou recursos muito superiores aos de todos os demais super PACs envolvidos na disputa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante de um cen\u00e1rio eleitoral desfavor\u00e1vel, muitos republicanos esperam receber alguns milh\u00f5es desse caixa bilion\u00e1rio para conseguir chegar \u00e0 vit\u00f3ria. Embora o comit\u00ea tenha se mostrado relutante em gastar, <a href=\"https:\/\/www.cnbc.com\/2026\/09\/21\/trump-maga-midterm-spending-war-chest.html\">documentos<\/a> recentes apresentados \u00e0 Comiss\u00e3o Eleitoral Federal (FEC) sugerem que essa conten\u00e7\u00e3o talvez n\u00e3o se explique apenas pela avareza de Trump. Dois novos super PACs, o No Going Back PAC e o Safety and Affordability PAC, que compartilham o mesmo tesoureiro e endere\u00e7o do MAGA Inc., foram criados em 1\u00ba de setembro e j\u00e1 contrataram mais de US$ 125 milh\u00f5es em publicidade eleitoral. Assim, embora muitos integrantes do partido j\u00e1 considerem a marca MAGA politicamente t\u00f3xica, os republicanos continuam dependentes dos recursos controlados por Trump, o que dificulta um distanciamento generalizado do presidente. Os candidatos republicanos podem at\u00e9 reconhecer que Trump est\u00e1 na origem de boa parte de seus problemas, mas tamb\u00e9m sabem que dependem dele para tentar super\u00e1-los.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cem anos depois, apesar da profunda impopularidade de Donald Trump, das turbul\u00eancias da pol\u00edtica nacional e das especula\u00e7\u00f5es sobre uma onda democrata, o mapa eleitoral estadunidense parece igualmente est\u00e1tico. A maioria dos analistas considera que uma mudan\u00e7a de vinte cadeiras na C\u00e2mara dos Representantes seria o m\u00e1ximo que se poderia esperar desta elei\u00e7\u00e3o. No Senado, at\u00e9 mesmo uma altera\u00e7\u00e3o de cinco cadeiras parece improv\u00e1vel. A polariza\u00e7\u00e3o entre \u00e1reas rurais e urbanas e a manipula\u00e7\u00e3o dos limites dos distritos eleitorais reduziram drasticamente o n\u00famero de cadeiras efetivamente em disputa. Tudo indica que esta elei\u00e7\u00e3o ficar\u00e1 muito aqu\u00e9m das grandes reviravoltas de 1994, 2006 e 2018, quando dezenas de cadeiras trocaram de m\u00e3os e alteraram o equil\u00edbrio de for\u00e7as na C\u00e2mara.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como na d\u00e9cada de 1920, por\u00e9m, a aparente estabilidade do mapa eleitoral encobre profundas transforma\u00e7\u00f5es no interior dos partidos. Em suas estruturas institucionais, nas rela\u00e7\u00f5es com o eleitorado e nas fontes de financiamento, democratas e republicanos s\u00e3o hoje partidos muito diferentes daqueles de apenas uma d\u00e9cada atr\u00e1s. E nada indica que essas transforma\u00e7\u00f5es estejam perdendo for\u00e7a. Um sistema pol\u00edtico t\u00e3o pouco capaz de traduzir essa efervesc\u00eancia em resultados eleitorais n\u00e3o poder\u00e1 cont\u00ea-la indefinidamente.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Teoria moderna do portf\u00f3lio republicana<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas d\u00e9cadas anteriores \u00e0 ascens\u00e3o de Trump, o Partido Republicano era tradicionalmente associado \u00e0s grandes empresas e a seus conselhos de administra\u00e7\u00e3o. O financiamento das campanhas dependia, em grande medida, das redes de rela\u00e7\u00f5es da elite empresarial. J\u00e1 na d\u00e9cada de 1980, era evidente que \u201cas empresas utilizavam suas redes de contatos para contornar os limites legais \u00e0s doa\u00e7\u00f5es eleitorais\u201d.<a data-contents=\"Dan Clawson et al., (<)em(>)Dollars and Votes: How Business Campaign Contributions Subvert Democracy(<)\/em(>) (Temple University Press, 1998), 177.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-2\" href=\"#footnote-list-2\">2<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Dan Clawson et al., (<)em(>)Dollars and Votes: How Business Campaign Contributions Subvert Democracy(<)\/em(>) (Temple University Press, 1998), 177.<\/span> Esse modelo atingiu seu auge nas campanhas de George W. Bush. Karl Rove, assessor de longa data de Bush, desenvolveu um sistema em que os apoiadores respons\u00e1veis por arrecadar contribui\u00e7\u00f5es de amigos, colegas e familiares recebiam t\u00edtulos de prest\u00edgio conforme os valores mobilizados: os <em>Pioneers<\/em> arrecadavam pelo menos US$ 100 mil; os <em>Rangers<\/em>, US$ 200 mil. A arrecada\u00e7\u00e3o eleitoral funcionava, assim, como um mecanismo de coes\u00e3o da pr\u00f3pria elite empresarial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa estrutura come\u00e7ou a se desintegrar ap\u00f3s as decis\u00f5es judiciais de <em>Citizens United<\/em> e <em>SpeechNow<\/em>, em 2010, que abriram caminho para a cria\u00e7\u00e3o dos chamados super PACs. Ao contr\u00e1rio dos comit\u00eas oficiais de campanha, sujeitos a limites de contribui\u00e7\u00e3o que haviam estimulado a forma\u00e7\u00e3o das redes de arrecadadores, os super PACs podem receber doa\u00e7\u00f5es individuais de valor ilimitado. Se o modelo anterior favorecia financiadores capazes de mobilizar dezenas de pessoas com posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas semelhantes, os super PACs permitiram que doadores com convic\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas mais marcadas destinassem \u00e0s campanhas quantias muito superiores \u00e0s que at\u00e9 mesmo o mais bem relacionado dos <em>Rangers<\/em> conseguia arrecadar. Em 2012, por exemplo, o magnata dos cassinos Sheldon Adelson <a href=\"http:\/\/publicintegrity.org\/politics\/pac-profile-restore-our-future\/\">doou<\/a> US$ 5 milh\u00f5es ao super PAC de Mitt Romney. Os mais ricos j\u00e1 n\u00e3o precisavam mobilizar seu capital social: bastava abrir a carteira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo da d\u00e9cada seguinte, os super PACs ganharam import\u00e2ncia crescente no sistema de financiamento eleitoral. Embora democratas e republicanos recorram a essas organiza\u00e7\u00f5es, elas representam uma parcela muito maior dos recursos que financiam as campanhas republicanas, j\u00e1 que o partido conta com uma base relativamente pequena de pequenos doadores. Em 2024, o comit\u00ea de campanha de Trump arrecadou apenas cerca de US$ 450 milh\u00f5es, menos da metade do valor obtido pela campanha Biden\/Harris e, ainda mais revelador, aproximadamente US$ 300 milh\u00f5es a menos do que havia arrecadado em 2020. Cerca de 70% dos <a href=\"https:\/\/www.opensecrets.org\/2024-presidential-race\">recursos destinados \u00e0 campanha de Trump<\/a> vieram de super PACs, como o MAGA Inc., e de outras organiza\u00e7\u00f5es externas \u00e0 estrutura oficial da campanha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A capacidade dos super PACs de canalizar somas extraordin\u00e1rias de dinheiro de bilion\u00e1rios individuais tem sido uma t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o para o Partido Republicano. Em 2024, apenas <a href=\"https:\/\/americansfortaxfairness.org\/billionaire-clans-spend-nearly-2-billion-2024-elections\/\">tr\u00eas fam\u00edlias<\/a>\u2014os Adelson, os Mellon e os Musk\u2014contribu\u00edram com mais de US$ 450 milh\u00f5es para campanhas republicanas por meio dessas organiza\u00e7\u00f5es. Sem esses recursos, \u00e9 incerto se o partido teria conseguido conquistar simultaneamente a Presid\u00eancia e a maioria nas duas casas do Congresso. Mas essa depend\u00eancia crescente de um pequeno grupo de megadoadores com posi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas bem definidas tamb\u00e9m estreitou sua base de financiamento. Enquanto George W. Bush contava com o apoio entusiasmado de amplos setores da elite empresarial, o Partido Republicano de Trump depende da generosidade de um n\u00famero comparativamente \u00ednfimo de financiadores. Em 2024, o cientista pol\u00edtico Adam Bonica <a href=\"https:\/\/bsky.app\/profile\/adambonica.bsky.social\/post\/3lbfmyq22d224\">calculou<\/a> que os 400 maiores doadores republicanos respondiam por impressionantes 60% dos recursos arrecadados pelo partido. Entre os democratas, essa propor\u00e7\u00e3o era pouco superior a 20%. Em um pa\u00eds com mais de 230 milh\u00f5es de eleitores, trata-se de uma base extraordinariamente restrita para sustentar o financiamento de um partido pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa depend\u00eancia de um pequeno grupo de megadoadores persistiu nas elei\u00e7\u00f5es de meio de mandato de 2026. Considerando apenas os comit\u00eas oficiais de campanha, os republicanos est\u00e3o em ampla desvantagem na arrecada\u00e7\u00e3o. No fim de setembro, os comit\u00eas dos candidatos democratas \u00e0 C\u00e2mara dos Representantes dispunham, juntos, de cerca de US$ 200 milh\u00f5es a mais que seus advers\u00e1rios republicanos. No Senado, a vantagem dos democratas chegava a aproximadamente US$ 275 milh\u00f5es. Ainda assim, na reta final da campanha, os gastos eleitorais republicanos superam amplamente os democratas. Segundo o <a href=\"https:\/\/www.politico.com\/news\/2026\/09\/24\/democrats-midterms-money-worries-disagreements-01090770\"><em>Politico<\/em><\/a>, desde agosto os republicanos gastaram US$ 264 milh\u00f5es a mais em publicidade nas disputas pelo Senado e US$ 73 milh\u00f5es a mais nas disputas pela C\u00e2mara. A diferen\u00e7a se explica, sobretudo, pelos super PACs. Como vimos, o MAGA Inc., de Trump, disp\u00f5e de cerca de US$ 400 milh\u00f5es. J\u00e1 o Senate Leadership Fund, criado por Mitch McConnell e hoje controlado por John Thune, conta com quase o dobro dos recursos de seu equivalente democrata. O Congressional Leadership Fund, fundado por John Boehner e atualmente a servi\u00e7o de Mike Johnson, disp\u00f5e de aproximadamente <a href=\"https:\/\/www.politico.com\/news\/2026\/07\/22\/democrats-republicans-midterms-cash-fundraising-gap-01007270\">50% mais recursos<\/a> que seu correspondente democrata. Por tr\u00e1s dessa enorme capacidade de financiamento est\u00e1 um grupo de apenas algumas dezenas de pessoas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"778\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/chart1-pt-d-9-778x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-35219\" srcset=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/chart1-pt-d-9-778x1024.png 778w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/chart1-pt-d-9-228x300.png 228w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/chart1-pt-d-9-767x1010.png 767w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/chart1-pt-d-9-1167x1536.png 1167w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/chart1-pt-d-9-1556x2048.png 1556w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/chart1-pt-d-9-scaled.png 1945w\" sizes=\"auto, (max-width: 778px) 100vw, 778px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Democratas lideram na arrecada\u00e7\u00e3o tradicional de recursos, enquanto republicanos dominam o financiamento por meio dos super PACs.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa din\u00e2mica tamb\u00e9m se reproduziu nas disputas estaduais e locais.<a data-contents=\"As disputas por cargos estaduais n\u00e3o est\u00e3o sujeitas \u00e0 fiscaliza\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Eleitoral Federal (FEC) nem \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o federal sobre financiamento de campanhas. Por isso, as estruturas institucionais de financiamento eleitoral podem variar consideravelmente de um estado para outro e n\u00e3o seguem necessariamente a r\u00edgida separa\u00e7\u00e3o entre super PACs e comit\u00eas de campanha existente no \u00e2mbito federal.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-3\" href=\"#footnote-list-3\">3<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">As disputas por cargos estaduais n\u00e3o est\u00e3o sujeitas \u00e0 fiscaliza\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Eleitoral Federal (FEC) nem \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o federal sobre financiamento de campanhas. Por isso, as estruturas institucionais de financiamento eleitoral podem variar consideravelmente de um estado para outro e n\u00e3o seguem necessariamente a r\u00edgida separa\u00e7\u00e3o entre super PACs e comit\u00eas de campanha existente no \u00e2mbito federal.<\/span> Em Wisconsin, por exemplo, <a href=\"https:\/\/madison.com\/news\/state-regional\/government-politics\/elections\/article_7e33d526-6496-5f12-b391-42bf71301383.html\">dois ter\u00e7os dos recursos<\/a> arrecadados pelo candidato republicano ao governo estadual, Tom Tiffany, vieram de apenas tr\u00eas bilion\u00e1rios, dois deles casados entre si, que tamb\u00e9m est\u00e3o entre os principais financiadores do MAGA Inc. Essas contribui\u00e7\u00f5es permitiram que Tiffany gastasse <a href=\"https:\/\/wisconsinexaminer.com\/2026\/09\/18\/the-real-cost-of-tom-tiffanys-debate-dodge\/\">tr\u00eas vezes mais que seu advers\u00e1rio democrata<\/a>, David Crowley. Na Fl\u00f3rida, o republicano Byron Donalds <a href=\"https:\/\/floridapolitics.com\/archives\/820861-cash-crunch-continues-for-david-jolly-in-governors-race\/\">disp\u00f5e<\/a> de cerca de US$ 45 milh\u00f5es, somando os recursos de seu comit\u00ea de campanha e de um PAC associado. Desse total, <a href=\"https:\/\/www.nbcnews.com\/politics\/2026-election\/republican-ken-griffin-byron-donalds-florida-governor-rcna588984\">US$ 10 milh\u00f5es<\/a> vieram de Ken Griffin, um dos maiores financiadores do Partido Republicano e do MAGA Inc. Seu advers\u00e1rio democrata, David Jolly, disp\u00f5e de apenas US$ 6,3 milh\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A capacidade de financiamento dos republicanos \u00e9, sem d\u00favida, impressionante. Nas elei\u00e7\u00f5es de meio de mandato, os recursos costumam fluir para o partido com maiores perspectivas de vit\u00f3ria, \u00e0 medida que os doadores buscam garantir acesso e conquistar a simpatia da futura maioria. Mas a capacidade republicana de mobilizar somas extraordin\u00e1rias junto a um grupo t\u00e3o restrito de financiadores contrariou essa tend\u00eancia e garantiu ao partido uma enorme vantagem financeira. Ainda assim, uma vit\u00f3ria democrata na C\u00e2mara dos Representantes parece bastante prov\u00e1vel, enquanto a conquista da maioria no Senado permanece ao alcance do partido. Paradoxalmente, a facilidade com que os republicanos arrecadam centenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares de um punhado de bilion\u00e1rios tamb\u00e9m lhes permitiu se tornar menos atentos \u00e0s demandas do eleitorado. Com recursos suficientes para tentar compensar qualquer desvantagem nas pesquisas, o partido passou a sentir menos necessidade de moderar suas posi\u00e7\u00f5es ou responder \u00e0s mudan\u00e7as na opini\u00e3o p\u00fablica. Nesse sentido, a for\u00e7a financeira do novo modelo de financiamento republicano pode tamb\u00e9m ser sua principal fragilidade.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Na trilha do elefante<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muitos integrantes do Partido Democrata certamente gostariam de ter que lidar com os problemas decorrentes de uma abund\u00e2ncia de recursos financeiros. Por enquanto, por\u00e9m, embora os candidatos democratas estejam conseguindo arrecadar fundos, as estruturas partid\u00e1rias e os PACs ligados ao partido v\u00eam perdendo terreno para seus equivalentes republicanos. O Comit\u00ea Nacional Democrata (DNC, na sigla em ingl\u00eas), em particular, enfrenta sua pior crise financeira desde o fim da d\u00e9cada de 1960, quando as tentativas de Lyndon Johnson de contornar a estrutura partid\u00e1ria deixaram a organiza\u00e7\u00e3o praticamente sem condi\u00e7\u00f5es de financiar a campanha presidencial de Hubert Humphrey, em 1968.<a data-contents=\"Daniel J. Galvin, (<)em(>)Presidential Party Building: Dwight D. Eisenhower to George W. Bush(<)\/em(>) (Princeton University Press, 2010), cap. 9.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-4\" href=\"#footnote-list-4\">4<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Daniel J. Galvin, (<)em(>)Presidential Party Building: Dwight D. Eisenhower to George W. Bush(<)\/em(>) (Princeton University Press, 2010), cap. 9.<\/span> Hoje, o comit\u00ea acumula um d\u00e9ficit de v\u00e1rios milh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Trata-se de uma mudan\u00e7a bastante recente. Nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais, ao menos, os candidatos democratas <a href=\"https:\/\/jacobin.com\/2024\/12\/the-party-of-american-capital\">arrecadaram mais<\/a> que seus advers\u00e1rios republicanos em todas as disputas desde 2004. E, embora o DNC frequentemente tenha arrecadado menos que o Comit\u00ea Nacional Republicano (RNC, na sigla em ingl\u00eas) nas elei\u00e7\u00f5es de meio de mandato, n\u00e3o h\u00e1 precedentes recentes de uma crise financeira dessa dimens\u00e3o \u00e0s v\u00e9speras de uma elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As dificuldades do comit\u00ea t\u00eam diversas origens. A controv\u00e9rsia em torno da divulga\u00e7\u00e3o da avalia\u00e7\u00e3o interna do Partido Democrata sobre sua derrota nas elei\u00e7\u00f5es de 2024 <a href=\"https:\/\/www.politico.com\/news\/2026\/05\/21\/democratic-party-2024-autopsy-00931754\">desgastou<\/a> a imagem de Ken Martin, rec\u00e9m-empossado presidente do DNC, e suas tentativas posteriores de conter a crise acabaram enfraquecendo ainda mais sua lideran\u00e7a. No centro da disputa estava o impacto do apoio do governo Biden a Israel, respons\u00e1vel por um genoc\u00eddio, sobre a campanha de Kamala Harris. Martin e outros dirigentes procuraram rapidamente encerrar a discuss\u00e3o, mas a controv\u00e9rsia persistiu, sobretudo depois que o pr\u00f3prio respons\u00e1vel pela conturbada avalia\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/www.axios.com\/2026\/08\/06\/dnc-2024-autopsy-author-gaza\">admitiu<\/a> acreditar que esse apoio havia influenciado significativamente o resultado eleitoral. Desde 2024, a quest\u00e3o n\u00e3o d\u00e1 sinais de perder for\u00e7a, como demonstram tanto a defesa enf\u00e1tica da causa palestina por Zohran Mamdani durante sua campanha \u00e0 prefeitura de Nova York quanto as vit\u00f3rias, nas prim\u00e1rias deste ano, de diversos candidatos que colocaram a guerra em Gaza no centro de suas plataformas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As divis\u00f5es em torno do apoio a Israel tamb\u00e9m abalaram a confian\u00e7a dos financiadores no DNC. Diversos grandes doadores <a href=\"https:\/\/www.washingtonexaminer.com\/in_focus\/4668472\/israel-divide-jewish-democrats-donors\/\">afirmaram<\/a> ter suspendido suas contribui\u00e7\u00f5es ao comit\u00ea por receio de que os recursos fossem destinados a candidatos cr\u00edticos a Israel. Ao mesmo tempo, organiza\u00e7\u00f5es como o Democratic Majority for Israel e o United Democracy Project, ligado \u00e0 AIPAC, passaram a direcionar suas contribui\u00e7\u00f5es por meio de outros grupos ligados ao Partido Democrata, como o Emily\u2019s List e o BOLD America, que apoia candidatos hisp\u00e2nicos. Embora esse deslocamento n\u00e3o necessariamente reduza o volume total de recursos destinados aos candidatos democratas, ele enfraquece financeiramente o DNC, limita sua capacidade de coordenar estrat\u00e9gias entre diferentes disputas eleitorais e aprofunda as divis\u00f5es internas do partido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O principal problema dos democratas, por\u00e9m, \u00e9 mais simples: a segunda derrota para Trump abalou profundamente a confian\u00e7a do eleitorado na dire\u00e7\u00e3o do partido. O cen\u00e1rio \u00e9 muito semelhante ao enfrentado pelos republicanos ap\u00f3s a vit\u00f3ria de Barack Obama, em 2008, quando o desgaste do governo Bush e a derrota de John McCain, defensor da Guerra do Iraque, abriram caminho para a ascens\u00e3o do Tea Party.<a data-contents=\"Patrick Rafail e John D. McCarthy, (<)em(>)The Rise, Fall, and Influence of the Tea Party Insurgency(<)\/em(>), Cambridge Studies in Contentious Politics (Cambridge University Press, 2024), 153.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-5\" href=\"#footnote-list-5\">5<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Patrick Rafail e John D. McCarthy, (<)em(>)The Rise, Fall, and Influence of the Tea Party Insurgency(<)\/em(>), Cambridge Studies in Contentious Politics (Cambridge University Press, 2024), 153.<\/span><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"931\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/chart2-pt-d-4-931x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-35222\" srcset=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/chart2-pt-d-4-931x1024.png 931w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/chart2-pt-d-4-273x300.png 273w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/chart2-pt-d-4-767x844.png 767w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/chart2-pt-d-4-1396x1536.png 1396w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/chart2-pt-d-4-1862x2048.png 1862w\" sizes=\"auto, (max-width: 931px) 100vw, 931px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os democratas parecem agora seguir um caminho semelhante. A insurg\u00eancia do Tea Party, que combinava mobiliza\u00e7\u00e3o de base com a atua\u00e7\u00e3o de figuras influentes da elite, levou a um n\u00famero recorde de candidaturas contra pol\u00edticos estabelecidos nas prim\u00e1rias de 2010 e inaugurou um per\u00edodo de disputas internas que s\u00f3 chegaria ao fim com a ascens\u00e3o de Trump ao comando do Partido Republicano. Hoje, a mobiliza\u00e7\u00e3o da esquerda democrata, impulsionada em grande medida, mas n\u00e3o exclusivamente, pelos Socialistas Democr\u00e1ticos da Am\u00e9rica (DSA, na sigla em ingl\u00eas), tamb\u00e9m provocou um aumento expressivo no n\u00famero de candidaturas que desafiam parlamentares em exerc\u00edcio nas prim\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Partido Democrata pode, assim, estar percorrendo a mesma trajet\u00f3ria dos republicanos, embora com algum atraso e por caminhos distintos. No Partido Republicano, o esvaziamento das estruturas institucionais come\u00e7ou com a ascens\u00e3o dos super PACs, que reduziram a import\u00e2ncia do aparelho partid\u00e1rio, e se aprofundou com o dom\u00ednio personalista de Trump, que tornou dispens\u00e1veis os mecanismos de decis\u00e3o coletiva. Entre os democratas, o processo parece avan\u00e7ar por outra via: enquanto Trump enfraqueceu as institui\u00e7\u00f5es republicanas ao submet\u00ea-las a seu controle pessoal, as estruturas centrais do Partido Democrata v\u00eam perdendo poder \u00e0 medida que seus recursos financeiros se esgotam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao mesmo tempo, os eleitores que participam das prim\u00e1rias de ambos os partidos passaram a privilegiar candidatos menos dispostos a fazer concess\u00f5es \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o. Em 2010, o eleitorado republicano rejeitou a pol\u00edtica tradicional de negocia\u00e7\u00e3o entre os partidos e favoreceu candidatos que prometiam um confronto mais duro com o governo Obama. Hoje, os eleitores democratas exigem candidatos comprometidos com uma oposi\u00e7\u00e3o sem concess\u00f5es ao governo Trump.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diferentemente do Tea Party e do Freedom Caucus, na C\u00e2mara dos Representantes, por\u00e9m, a insurg\u00eancia dos DSA n\u00e3o conta com as bases aut\u00f4nomas de financiamento e organiza\u00e7\u00e3o que sustentaram as disputas internas no Partido Republicano. No plano federal, 60% dos parlamentares democratas que buscavam a reelei\u00e7\u00e3o enfrentaram advers\u00e1rios competitivos nas prim\u00e1rias deste ano, mas essa propor\u00e7\u00e3o j\u00e1 havia sido superada pelos republicanos em 2022. Al\u00e9m disso, o tipo de lideran\u00e7a que emergiu da insurg\u00eancia da esquerda democrata difere daquele produzido pela revolta do Tea Party. Esta \u00faltima deu proje\u00e7\u00e3o a figuras notoriamente obstrucionistas, como Ted Cruz, no Senado, e os integrantes do Freedom Caucus, na C\u00e2mara. Ao desafiar a lideran\u00e7a partid\u00e1ria em epis\u00f3dios como a tentativa de revoga\u00e7\u00e3o do Obamacare, esses parlamentares conquistaram grande visibilidade na imprensa e atra\u00edram contribui\u00e7\u00f5es generosas para suas campanhas, mas tamb\u00e9m acabaram isolados dentro do pr\u00f3prio partido.<br><br>Embora a ala mais \u00e0 esquerda do Partido Democrata continue muito menor que sua equivalente republicana, \u00e9 significativo que a intransig\u00eancia n\u00e3o tenha sido, em geral, a estrat\u00e9gia adotada por lideran\u00e7as como Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez. Como mostrou Abhinav Ramaswamy em um <a href=\"https:\/\/papers.ssrn.com\/sol3\/papers.cfm?abstract_id=7056598\">artigo<\/a> recente, \u00e9 justamente a ala direita do Partido Democrata, organizada no Blue Dog Caucus, que tem se mostrado mais disposta a confrontar a dire\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria. Seus integrantes podem adotar essa postura porque disp\u00f5em do apoio de uma rede de financiadores empresariais relativamente independente das fontes tradicionais de financiamento do partido. Em contraste, muitas das candidaturas insurgentes da esquerda t\u00eam buscado se integrar \u00e0 estrutura mais ampla de financiamento eleitoral democrata.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Resta saber se a ala esquerda, cada vez mais numerosa no Congresso, adotar\u00e1 uma postura de confronto interno semelhante \u00e0 da direita republicana. A fragilidade da lideran\u00e7a de Hakeem Jeffries na C\u00e2mara certamente oferece um alvo tentador. Mas a <a href=\"https:\/\/paulheideman.substack.com\/p\/is-the-freedom-caucus-a-model-for\">experi\u00eancia do Freedom Caucus<\/a> pode levar os insurgentes de esquerda a evitar essa estrat\u00e9gia. Afinal, em momentos decisivos, a intransig\u00eancia do grupo acabou produzindo resultados mais progressistas, e n\u00e3o mais conservadores. Em 2019, por exemplo, a insist\u00eancia do Freedom Caucus em revogar o Obamacare da forma mais abrangente poss\u00edvel inviabilizou a aprova\u00e7\u00e3o, no Senado, da proposta de revoga\u00e7\u00e3o que havia passado pela C\u00e2mara. Com isso, uma parcela muito maior das medidas institu\u00eddas pelo Affordable Care Act permanece em vigor do que teria sobrevivido caso o grupo tivesse simplesmente seguido a orienta\u00e7\u00e3o de Paul Ryan.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seja qual for a estrat\u00e9gia adotada pela esquerda no Congresso, est\u00e1 claro que, assim como ocorreu com os republicanos depois de 2008, o eleitorado democrata hoje exige um partido mais ideol\u00f3gico e combativo. A quest\u00e3o \u00e9 se a dire\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria estar\u00e1 disposta a responder a essa demanda.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica?<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar das profundas transforma\u00e7\u00f5es dos dois principais partidos pol\u00edticos estadunidenses na \u00faltima d\u00e9cada, o mapa eleitoral permanece praticamente congelado. Embora os republicanos estejam estreitamente associados a um governo profundamente impopular, tudo indica que sofrer\u00e3o perdas eleitorais menores do que as enfrentadas por partidos em circunst\u00e2ncias semelhantes no passado. As elei\u00e7\u00f5es de meio de mandato de 2026 n\u00e3o dever\u00e3o, portanto, alterar substancialmente os rumos da pol\u00edtica estadunidense.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No longo prazo, por\u00e9m, seria um erro descartar a possibilidade de mudan\u00e7as profundas e repentinas. Em 2028, pela primeira vez em doze anos, Donald Trump deixar\u00e1 de ser a figura central do Partido Republicano. Embora as especula\u00e7\u00f5es sobre uma eventual candidatura a um terceiro mandato tenham despertado o interesse de democratas e republicanos, por enquanto essa possibilidade parece mais uma fantasia do que um plano concreto. Nem Trump nem o Partido Republicano tomaram medidas para preparar o terreno para uma viola\u00e7\u00e3o t\u00e3o flagrante da 22\u00aa Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o. E, \u00e0 medida que a popularidade do presidente continua a cair, os poss\u00edveis benef\u00edcios de uma manobra desse tipo tornam-se cada vez menores. (Al\u00e9m disso, seus potenciais sucessores, JD Vance e Marco Rubio, t\u00eam fortes incentivos para impedir qualquer articula\u00e7\u00e3o nesse sentido.) O mais prov\u00e1vel, portanto, \u00e9 que o Partido Republicano perca o principal elemento de coes\u00e3o que, at\u00e9 agora, manteve unidas suas fac\u00e7\u00f5es profundamente divididas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao mesmo tempo, o fortalecimento da esquerda democrata abre caminho para o acirramento das disputas internas. Figuras importantes do establishment partid\u00e1rio, como Rahm Emanuel e Neera Tanden, preparam-se para um confronto prolongado com os Socialistas Democr\u00e1ticos da Am\u00e9rica (DSA) e outros grupos insurgentes. Se a situa\u00e7\u00e3o financeira do partido continuar a se deteriorar, essa disputa ser\u00e1 cada vez mais vista como uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia. Na d\u00e9cada de 2010, os dois partidos atravessaram conflitos internos de intensidade in\u00e9dita em d\u00e9cadas. Mas os conflitos que se anunciam podem fazer daquela d\u00e9cada um per\u00edodo de relativa tranquilidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As elei\u00e7\u00f5es de meio de mandato raramente trazem \u00e0 tona o melhor dos presidentes dos Estados Unidos. Quase sempre diante de um cen\u00e1rio eleitoral desfavor\u00e1vel, os presidentes recorrem a manobras e artif\u00edcios que apenas refor\u00e7am a crescente desconfian\u00e7a dos eleitores em rela\u00e7\u00e3o a seus governos. 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