{"id":34968,"date":"2026-10-22T14:41:03","date_gmt":"2026-10-22T14:41:03","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/?p=34968"},"modified":"2026-10-22T14:42:44","modified_gmt":"2026-10-22T14:42:44","slug":"o-pendulo-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/entrevistas-br\/o-pendulo-brasileiro\/","title":{"rendered":"O p\u00eandulo brasileiro"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pol\u00edtica brasileira recente tem sido marcada por sucessivas reviravoltas e realinhamentos de classe, que se expressam em uma disputa pela pr\u00f3pria configura\u00e7\u00e3o&nbsp; do regime pol\u00edtico do pa\u00eds. Para compreender essa din\u00e2mica, \u00e9 preciso olhar al\u00e9m das oscila\u00e7\u00f5es conjunturais e retomar as interpreta\u00e7\u00f5es do pensamento social e pol\u00edtico brasileiro sobre as estruturas de longa dura\u00e7\u00e3o do capitalismo dependente. \u00c9 sob essa lente que o cientista pol\u00edtico Andr\u00e9 Singer, professor titular da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), examina o processo eleitoral em curso no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Autor de obras fundamentais para a compreens\u00e3o do lulismo e da pol\u00edtica brasileira, Singer rec\u00e9m-lan\u00e7ou o livro <a href=\"https:\/\/www.companhiadasletras.com.br\/9788535944396-impasse-4180\/p?srsltid=AU7gw4U9HhYtvzW9D4O2Y7d1Hw2-_FBzJEBEvYN-0Y82JbSggrzkGZpS\"><em>Impasse<\/em><\/a>, em que retoma e atualiza interpreta\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas para investigar os dilemas contempor\u00e2neos do pa\u00eds. Partindo da tese do comportamento pendular da burguesia brasileira\u2014formulada originalmente por Fernando Henrique Cardoso\u2014, ele analisa o comportamento de fra\u00e7\u00f5es das classes dominantes do Brasil, que oscilam entre o apoio a arranjos democr\u00e1tico-modernizantes e a ades\u00e3o a alternativas autorit\u00e1rias quando se veem amea\u00e7adas pelos processos de integra\u00e7\u00e3o social.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesta entrevista a Hugo Fanton e Daniel Pavan, editores da PW, Singer examina o panorama pol\u00edtico atual que, segundo ele, se caracteriza pela disputa entre duas grandes coaliz\u00f5es: a \u201cConfedera\u00e7\u00e3o\u201d bolsonarista e a \u201c<em>Concertaci\u00f3n<\/em>\u201d lulista. Essa polariza\u00e7\u00e3o se articula, por sua vez, com a disputa entre tr\u00eas regimes pol\u00edticos: o democr\u00e1tico, o semipresidencialista e o autocr\u00e1tico de vi\u00e9s fascista. Ao discutir as bases sociais e ideol\u00f3gicas dessas coaliz\u00f5es, Singer aborda a forma\u00e7\u00e3o de um \u201cBible Belt\u201d brasileiro, o peso do custo de vida no comportamento eleitoral e a consolida\u00e7\u00e3o do bolsonarismo enquanto conceito, a grande novidade das elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2026.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Entrevista com Andr\u00e9 Singer<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">Hugo Fanton<\/span>:  O livro Impasse parte de uma interpreta\u00e7\u00e3o de longo alcance da sociologia pol\u00edtica brasileira, formulada por Fernando Henrique Cardoso: o comportamento pendular da burguesia brasileira, que oscila entre o imobilismo e a mudan\u00e7a social, reproduzindo o atraso a cada avan\u00e7o no processo de moderniza\u00e7\u00e3o. Como devemos pensar a rela\u00e7\u00e3o das classes dominantes brasileiras com a pol\u00edtica, e de que modo a palavra impasse traduz, em termos atuais, o comportamento pendular?\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">Andr\u00e9 Singer<\/span>: Adotei como hip\u00f3tese de trabalho a ideia de que a burguesia brasileira possui interesses contradit\u00f3rios. O aspecto mais significativo da formula\u00e7\u00e3o de Fernando Henrique Cardoso \u00e9 demonstrar que a oscila\u00e7\u00e3o entre autoritarismo e democracia n\u00e3o \u00e9 um comportamento aleat\u00f3rio ou inesperado no Brasil, como pode parecer quando observamos as classes dominantes no plano internacional. Aqui, esse comportamento tem uma base material. Os interesses da burguesia brasileira s\u00e3o objetivamente contradit\u00f3rios e, portanto, sua a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica tamb\u00e9m \u00e9 objetivamente contradit\u00f3ria. Essa \u00e9 uma hip\u00f3tese com alto poder explicativo para o que vem ocorrendo nos \u00faltimos anos no pa\u00eds.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se observarmos o processo de impeachment de Dilma Rousseff, ponto de partida do que venho chamando de onda reacion\u00e1ria no Brasil, esse comportamento fica evidente. A burguesia, que havia apoiado e desempenhado um papel importante na redemocratiza\u00e7\u00e3o, come\u00e7a a se deslocar a partir do final de 2014, quando o PSDB n\u00e3o reconhece a vit\u00f3ria eleitoral da ex-presidenta. Esse deslocamento acabou desaguando, de forma talvez inesperada, no bolsonarismo em 2018.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O bolsonarismo emergiu no espectro dessa onda, mas tamb\u00e9m como reflexo de uma transforma\u00e7\u00e3o global, simbolizada pelo Brexit e pela vit\u00f3ria de Donald Trump em 2016, coincidentemente o mesmo ano do impeachment. Bolsonaro surfou nessa onda e conferiu a ela um car\u00e1ter de extrema-direita que inicialmente n\u00e3o possu\u00eda.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fra\u00e7\u00e3o cosmopolita da burguesia, que re\u00fane o setor mais moderno da classe dominante, manteve-se relativamente neutra na elei\u00e7\u00e3o de 2018, enquanto o setor n\u00e3o cosmopolita apoiou Bolsonaro de imediato. Essa neutralidade permitiu a vit\u00f3ria bolsonarista. Contudo, cerca de tr\u00eas anos depois, durante a pandemia, a fra\u00e7\u00e3o cosmopolita rompeu com o governo e se alinhou \u00e0 defesa da democracia. Isso ficou evidente no <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/sp\/sao-paulo\/eleicoes\/2022\/noticia\/2022\/08\/11\/ato-em-defesa-da-democracia-e-do-sistema-eleitoral-reune-artistas-juristas-e-empresarios-em-sp.ghtml\">ato de 11 de agosto de 2022<\/a> no Largo S\u00e3o Francisco e no posicionamento da Casa Branca durante o processo eleitoral brasileiro, quando sinalizou que n\u00e3o aceitaria um golpe ou o n\u00e3o reconhecimento do resultado eleitoral.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa dupla tomada de posi\u00e7\u00e3o, da burguesia cosmopolita e dos Estados Unidos, foi decisiva para conter a tentativa de golpe militar. Aproveito para registrar que, de todos os pa\u00edses que acompanho nesse processo global de autocratiza\u00e7\u00e3o, o Brasil foi o \u00fanico em que se verificou uma tentativa de golpe militar cl\u00e1ssica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Veja que temos a\u00ed uma oscila\u00e7\u00e3o. Primeiro, um posicionamento favor\u00e1vel \u00e0quilo que o Wanderley Guilherme dos Santos corretamente <a href=\"https:\/\/editora.fgv.br\/produto\/a-democracia-impedida-o-brasil-no-seculo-xxi-3107\">caracterizou<\/a> como um golpe parlamentar, em 2016; seis anos depois, uma tomada de posi\u00e7\u00e3o em defesa da democracia, num momento em que havia um avan\u00e7o autocr\u00e1tico em curso. Nas elei\u00e7\u00f5es de 2026, n\u00e3o est\u00e1 claro qual \u00e9 o posicionamento desse setor mais moderno da burguesia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Parece-me, portanto, que a hip\u00f3tese do p\u00eandulo, sugerida por Fernando Henrique h\u00e1 mais de 50 anos, continua f\u00e9rtil para entendermos essas oscila\u00e7\u00f5es, \u00e0s vezes muito r\u00e1pidas, que respondem a interesses objetivos. O p\u00eandulo sugere exatamente isso: a burguesia recorre ao autoritarismo quando a democracia amea\u00e7a seus interesses objetivos, mas o autoritarismo cobra um pre\u00e7o alto em termos de perda de liberdade. Essa contradi\u00e7\u00e3o ajuda a explicar as r\u00e1pidas oscila\u00e7\u00f5es da pol\u00edtica brasileira. E, no momento atual, ainda n\u00e3o est\u00e1 claro para que lado o p\u00eandulo vai se mover.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">Daniel Pavan<\/span>: O senhor poderia situar brevemente como Fernando Henrique Cardoso formula essa contradi\u00e7\u00e3o da burguesia em <a href=\"https:\/\/repositorio.usp.br\/item\/001394936\"><em>O Empres\u00e1rio Industrial<\/em><\/a>?\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">AS<\/span>: Fernando Henrique aponta que a burguesia mais moderna, como \u00e9 natural, tem interesse na moderniza\u00e7\u00e3o capitalista. Para isso, alia-se ao Estado para promover reformas modernizantes. Ocorre que essas reformas s\u00e3o tamb\u00e9m democratizantes e tendem a fortalecer as camadas populares. Em 1964, se n\u00e3o houvesse o golpe militar, o Estado tenderia a avan\u00e7ar em reformas que ultrapassariam o limite do que a burguesia considera aceit\u00e1vel para seus interesses objetivos. H\u00e1, portanto, uma contradi\u00e7\u00e3o objetiva: a burguesia empurra o Estado em determinada dire\u00e7\u00e3o e, em seguida, retira o apoio, provocando a queda da lideran\u00e7a pol\u00edtica que est\u00e1 conduzindo as reformas.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso tamb\u00e9m ocorreu no primeiro governo Dilma. Quando as reformas come\u00e7am a atravessar essa \u201clinha vermelha\u201d, a burguesia se unifica contra o processo, mesmo que isso implique desrespeitar as regras constitucionais. No caso de Dilma, embora o impeachment seja um instrumento constitucional, sua aplica\u00e7\u00e3o exige a perpetra\u00e7\u00e3o de um crime de responsabilidade, o que n\u00e3o foi comprovado, como apontaram at\u00e9 ve\u00edculos insuspeitos como a Folha de S. Paulo. Por isso, o cientista pol\u00edtico Wanderley Guilherme dos Santos chamou o processo de golpe parlamentar. No <a href=\"https:\/\/www.companhiadasletras.com.br\/9788535944396-impasse-4180\/p?srsltid=AU7gw4U9HhYtvzW9D4O2Y7d1Hw2-_FBzJEBEvYN-0Y82JbSggrzkGZpS\">livro<\/a>, proponho cham\u00e1-lo de golpe parlamentarista.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">HF<\/span>: H\u00e1 tamb\u00e9m a discuss\u00e3o de como esse processo reformista toca no nervo do capitalismo dependente, estruturado em torno da superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho e da manuten\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito industrial de reserva.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">AS<\/span>: Sim. O tipo de desenvolvimento que o capitalismo brasileiro assumiu pressup\u00f5e a exclus\u00e3o social, pois exige m\u00e3o de obra extremamente barata, garantida pela manuten\u00e7\u00e3o de um enorme ex\u00e9rcito industrial de reserva, muito maior do que o habitual.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 a quest\u00e3o da depend\u00eancia diz respeito \u00e0 necessidade do capitalismo brasileiro de seguir a pauta e o compasso ditados pelo centro do capitalismo mundial. At\u00e9 o final dos anos 1970, o arranjo global permitia e pressupunha a industrializa\u00e7\u00e3o do Brasil. Com a transfer\u00eancia do polo industrial global para o Leste Asi\u00e1tico, sobretudo para a China, o Brasil iniciou um processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o, reorientando a economia para a produ\u00e7\u00e3o prim\u00e1rio-exportadora. S\u00e3o, portanto, dois fatores articulados: a subordina\u00e7\u00e3o \u00e0 din\u00e2mica do mercado mundial e as caracter\u00edsticas internas da explora\u00e7\u00e3o do trabalho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">DP<\/span>: A rela\u00e7\u00e3o entre as classes dominantes e a pol\u00edtica na atual conjuntura \u00e9 debatida no livro a partir da forma\u00e7\u00e3o de duas coaliz\u00f5es de classe que polarizam a disputa eleitoral, a \u201cConfedera\u00e7\u00e3o\u201d bolsonarista e a \u201c<em>Concertaci\u00f3n<\/em>\u201d lulista. Como o senhor caracteriza essas coaliz\u00f5es e sua composi\u00e7\u00e3o social? H\u00e1 ind\u00edcios, no cen\u00e1rio eleitoral atual, de novos deslocamentos de classe entre elas ou para fora delas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">AS<\/span>: Elaborei a ideia de \u201cConfedera\u00e7\u00e3o\u201d ao analisar as elei\u00e7\u00f5es de 2022. Busquei entender qual coaliz\u00e3o de classe sustentava Bolsonaro ao fim de seu mandato, permitindo-lhe chegar t\u00e3o perto da vit\u00f3ria. Trata-se de um arranjo heterog\u00eaneo, que articula diferentes fra\u00e7\u00f5es de classe e setores corporativos. No plano das fra\u00e7\u00f5es de classe, destaca-se o agroneg\u00f3cio. O mapa eleitoral de 2022 mostra um corredor cont\u00ednuo de vota\u00e7\u00e3o bolsonarista que vai do norte do Rio Grande do Sul, atravessa Santa Catarina, Paran\u00e1, o interior de S\u00e3o Paulo e de Minas Gerais, abre-se no Centro-Oeste e alcan\u00e7a o sul da regi\u00e3o Norte, incorporando setores extrativistas e garimpeiros beneficiados pela flexibiliza\u00e7\u00e3o das normas ambientais e pelo enfraquecimento da defesa dos povos origin\u00e1rios. A esse bloco somaram-se o setor de servi\u00e7os e os pequenos e m\u00e9dios empres\u00e1rios, inseridos numa onda de empreendedorismo que possivelmente corresponde a uma varia\u00e7\u00e3o do capitalismo brasileiro.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No plano corporativo e social, a Confedera\u00e7\u00e3o conta com dois pilares fundamentais: o segmento evang\u00e9lico e as for\u00e7as de seguran\u00e7a. Os evang\u00e9licos funcionam como o \u201cNordeste do bolsonarismo\u201d. Representam cerca de 30% do eleitorado, com vota\u00e7\u00f5es na casa dos 70% a favor da extrema-direita, \u00edndice compar\u00e1vel ao que o lulismo obt\u00e9m no Nordeste. Temos a\u00ed a constitui\u00e7\u00e3o de um \u201cBible Belt\u201d brasileiro, uma base muito s\u00f3lida do bolsonarismo. As for\u00e7as de seguran\u00e7a, por sua vez, abrangem n\u00e3o apenas os militares, mas tamb\u00e9m policiais civis, parte da Pol\u00edcia Federal e um vasto setor de seguran\u00e7a privada. Esses segmentos se alinharam a Bolsonaro porque, desde 2018, como \u00e9 t\u00edpico da extrema-direita, ele coloca a quest\u00e3o da seguran\u00e7a p\u00fablica no centro do seu programa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Denominei esse bloco de Confedera\u00e7\u00e3o, em alus\u00e3o ao Sul dos EUA na Guerra Civil, para destacar a acentuada divis\u00e3o geogr\u00e1fica e cultural que se estabeleceu no Brasil, acompanhada por manifesta\u00e7\u00f5es, sutis ou expl\u00edcitas, de preconceito regionalista e racial. Com esse termo, quis chamar a aten\u00e7\u00e3o para uma tens\u00e3o in\u00e9dita na pol\u00edtica brasileira. N\u00e3o havia uma divis\u00e3o dessa natureza aqui. Ela \u00e9 resultado do fen\u00f4meno que agora talvez possamos conceituar, de maneira mais rigorosa, como bolsonarismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, a \u201c<em>Concertaci\u00f3n<\/em>\u201d \u00e9 a frente ampla estruturada para deter a autocratiza\u00e7\u00e3o. \u00c9 composta por duas vertentes principais: o PT e o lulismo, e setores do antigo PSDB com a fra\u00e7\u00e3o cosmopolita da burguesia. O PT \u00e9 o partido mais organizado e capilarizado do pa\u00eds, com ades\u00e3o de 30% do eleitorado, percentual muito superior ao de qualquer outro partido. O lulismo, por sua vez, vai al\u00e9m do PT e expressa um programa de supera\u00e7\u00e3o da pobreza sem confronto direto com o capital, tendo como refer\u00eancia a figura do presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva. \u00c9 herdeiro do \u201ccampo popular\u201d, segmento do eleitorado inaugurado por Get\u00falio Vargas em 1945 com o advento da democracia de massa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O lulismo, com isso, tem um grande potencial de votos. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds muito desigual, em que cerca de 85% do eleitorado pertence a fam\u00edlias com renda mensal de at\u00e9 cinco sal\u00e1rios m\u00ednimos. N\u00e3o \u00e0 toa, ganhou quatro elei\u00e7\u00f5es consecutivas, entre 2002 e 2014. Mas, para o retorno de Lula em 2022, foi necess\u00e1ria a constitui\u00e7\u00e3o de uma frente capaz de interromper o processo de autocratiza\u00e7\u00e3o, unindo esse campo aos remanescentes do antigo PSDB.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa segunda vertente \u00e9 <strong><\/strong>simbolizada pela figura do vice-presidente Geraldo Alckmin e conta com o apoio dos setores financeiro e industrial mais modernos, justamente aqueles que rivalizavam com o PT at\u00e9 2014. Disso vem o termo que escolhi, em refer\u00eancia \u00e0 <em>Concertaci\u00f3n<\/em> chilena, que uniu socialistas e democratas-crist\u00e3os para derrotar a direita e virar a p\u00e1gina da ditadura de Pinochet. Essa aproxima\u00e7\u00e3o entre o PT e setores do antigo PSDB teve o respaldo da fra\u00e7\u00e3o mais moderna da burguesia brasileira, que historicamente encontrava representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no PSDB e que, na reta final do segundo turno de 2022, declarou voto no presidente Lula.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">HF<\/span>: Ao analisar a vit\u00f3ria de Jair Bolsonaro nas elei\u00e7\u00f5es de 2018, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2019\/11\/neoatraso-bolsonarista-repete-clima-de-1964-diz-roberto-schwarz.shtml\">Roberto Schwarz afirmou<\/a> que, assim como no golpe de 1964, Bolsonaro defendeu um programa abertamente pr\u00f3-capital e mobilizou, para se tornar politicamente vi\u00e1vel, um \u201cfundo regressivo\u201d da sociedade brasileira. A mobiliza\u00e7\u00e3o dessas disposi\u00e7\u00f5es profundas do eleitorado tamb\u00e9m aparece na an\u00e1lise do senhor sobre a reativa\u00e7\u00e3o da direita no Brasil, apontando para o renascimento da ideologia como componente fundamental da disputa eleitoral. O gr\u00e1fico 2 do livro <em>Impasse<\/em> (figura abaixo) mostra que, em 2022, 47% do eleitorado se identificava com a direita no espectro ideol\u00f3gico, curiosamente, o mesmo percentual obtido por Fl\u00e1vio Bolsonaro no primeiro turno de 2026. Como devemos compreender o componente ideol\u00f3gico na disputa pol\u00edtica brasileira atual? E como correlacionar esse elemento ideol\u00f3gico com os fatores materiais expostos no cap\u00edtulo 3 do livro, como aumento do custo de vida e pre\u00e7o dos alimentos?<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"660\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-1024x660.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-34969\" style=\"aspect-ratio:1.5534246575342465;width:803px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-1024x660.png 1024w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-300x193.png 300w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-768x495.png 768w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image-1536x990.png 1536w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/image.png 1562w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Autolocaliza\u00e7\u00e3o nos campos ideol\u00f3gicos entre 2002-2022, em %, gr\u00e1fico em Andr\u00e9 Singer, <em>Impasse<\/em>, S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2026, 57, fig. 2<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">AS<\/span>: A ideologia \u00e9 um fator de longo prazo. Ela se consolida no momento em que a pessoa est\u00e1 formando a pr\u00f3pria personalidade, sua vis\u00e3o de mundo, e permanece como um substrato duradouro. Justamente por isso, ela n\u00e3o \u00e9 uma boa explica\u00e7\u00e3o para as varia\u00e7\u00f5es de cada conjuntura. \u00c9 uma explica\u00e7\u00e3o que atravessa as conjunturas. A pergunta, ent\u00e3o, passa a ser: por que o fator ideol\u00f3gico muda de uma conjuntura para outra? Porque a ideologia precisa ser ativada pelos agentes pol\u00edticos para desempenhar algum papel.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Brasil, os estudos indicam que o eleitorado tem uma inclina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica conservadora ou de direita. Durante o per\u00edodo da polariza\u00e7\u00e3o entre PT e PSDB, a linguagem ideol\u00f3gica direta (esquerda <em>versus<\/em> direita) foi desativada. Ao PSDB interessava captar os votos da direita sem se assumir como tal, e ao lulismo interessava atrair setores populares conservadores. A extrema-direita rompeu esse amortecimento a partir de 2014, sobretudo no processo de impedimento de Dilma, reativando abertamente o discurso ideol\u00f3gico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A extrema-direita corresponde a at\u00e9 15% do eleitorado, mas foi quem reativou o elemento ideol\u00f3gico e atraiu para si o conjunto da direita. Quem se beneficiou desse processo foi justamente quem estava preparado para falar a linguagem da ideologia: Jair Bolsonaro, que, at\u00e9 ent\u00e3o, n\u00e3o tinha relev\u00e2ncia alguma na pol\u00edtica brasileira. O bolsonarismo capturou a disposi\u00e7\u00e3o conservadora difusa presente em grande parte do eleitorado e deu a ela vocaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, em sintonia com movimentos internacionais, como o representado por Trump. \u00c9 uma linguagem de extrema-direita que se tornou pervasiva no mundo inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, quando a ideologia \u00e9 ativada de um lado, ela \u00e9 automaticamente ativada do outro. A <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/sp\/sao-paulo\/eleicoes\/2026\/noticia\/2026\/10\/18\/apoiadores-de-lula-fazem-atos-de-campanha-espalhados-pela-cidade-de-sp.ghtml\">grande manifesta\u00e7\u00e3o de rua recente<\/a> em S\u00e3o Paulo, talvez a maior da hist\u00f3ria da esquerda na cidade, mostra a polariza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica em curso. E vale lembrar que isso n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno exclusivamente brasileiro. A esquerda nos Estados Unidos est\u00e1 crescendo tamb\u00e9m, o que \u00e9 compreens\u00edvel, pois o combate pol\u00edtico passa a ser mais ideologizado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, depois deste primeiro turno em 2026, podemos dizer com bastante tranquilidade que o bolsonarismo persistir\u00e1 apesar do isolamento do ex-presidente. Esse grupo \u00e9 minorit\u00e1rio no eleitorado, mas tem um potencial pol\u00edtico que extrapola sua base. Isso ficou muito claro quando o candidato natural \u00e0 vaga de presidente, o governador Tarc\u00edsio de Freitas, de S\u00e3o Paulo, foi simplesmente posto de lado pela indica\u00e7\u00e3o do filho de Jair Bolsonaro, Fl\u00e1vio, que n\u00e3o contava com nenhum apoio al\u00e9m do pr\u00f3prio pai. Veja a for\u00e7a do bolsonarismo: descartou o candidato que contava com apoio de toda a direita e uma simpatia muito clara da burguesia brasileira, em nome de uma decis\u00e3o unilateral do ex-presidente Jair Bolsonaro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estamos caminhando para um realinhamento eleitoral semelhante ao de 2006, quando as camadas populares, sobretudo as da base da pir\u00e2mide, se deslocaram na dire\u00e7\u00e3o de Lula, enquanto as demais se aproximaram do PSDB. Em 2018, entramos numa esp\u00e9cie de interregno. Nas elei\u00e7\u00f5es de agora, podemos estar caminhando para um novo realinhamento, com o lulismo mantendo-se de um lado e o bolsonarismo consolidando-se do outro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m desses dois grandes blocos com sinais ideol\u00f3gicos diferentes, temos um terceiro ter\u00e7o do eleitorado que \u00e9 menos ideol\u00f3gico e mais pragm\u00e1tico. Esse bloco intermedi\u00e1rio oscila e decide as elei\u00e7\u00f5es, pois suas escolhas s\u00e3o orientadas, sobretudo, pelos benef\u00edcios materiais objetivos que possam ter obtido ao longo do mandato anterior ou que esperam para o pr\u00f3ximo mandato.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui entra o elemento material. Esse eleitorado avalia a situa\u00e7\u00e3o concreta do seu dia a dia: infla\u00e7\u00e3o, custo de vida e pre\u00e7o dos alimentos. Como <a href=\"https:\/\/www.foreignaffairs.com\/mexico\/governments-survived-inflation\">aponta<\/a> a economista Isabella Weber, nas elei\u00e7\u00f5es em v\u00e1rios pa\u00edses em 2024, os governos que n\u00e3o souberam lidar com a infla\u00e7\u00e3o tiveram dificuldade de vencer. Foi a \u201cmaldi\u00e7\u00e3o do incumbente\u201d, em que governos em todo o mundo enfrentaram rejei\u00e7\u00e3o popular em raz\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para disputar esse eleitorado pragm\u00e1tico, o governo Lula desenvolveu uma s\u00e9rie pol\u00edticas voltadas diretamente \u00e0s condi\u00e7\u00f5es materiais da popula\u00e7\u00e3o: a isen\u00e7\u00e3o do Imposto de Renda, a regula\u00e7\u00e3o e posterior proibi\u00e7\u00e3o das <em>bets<\/em>, a pauta de redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais e do fim da escala 6&#215;1 em favor de duas folgas por semana\u2014<a href=\"https:\/\/fpabramo.org.br\/fim-da-6x1-desenvolvimento-da-sociedade-se-mede-tambem-pela-qualidade-de-vida-avalia-pochmann\/\">considerada pela Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo<\/a> a maior vit\u00f3ria trabalhista desde a Constitui\u00e7\u00e3o de 88\u2014, a oferta de canetas emagrecedoras no SUS, o reajuste do Bolsa Fam\u00edlia e o programa Desenrola 3. O governo procura demonstrar concretamente o que tem feito por essas camadas da popula\u00e7\u00e3o. Do outro lado, o candidato da oposi\u00e7\u00e3o promete promover mudan\u00e7as que tamb\u00e9m tragam benef\u00edcios materiais a esses eleitores. Essa \u00e9 a disputa em curso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">HF<\/span>: Um componente importante da dimens\u00e3o ideol\u00f3gica \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre as bases sociais ligadas ao pentecostalismo e a extrema-direita. No livro, o senhor sugere que certos ramos pentecostais funcionam como uma esp\u00e9cie de Bible Belt tupiniquim, em refer\u00eancia ao cintur\u00e3o da B\u00edblia na regi\u00e3o Sudeste dos EUA, formado no processo de coloniza\u00e7\u00e3o, com fortes tra\u00e7os culturais ligados ao protestantismo e, sobretudo, \u00e0 Igreja Batista. Poderia desenvolver esse argumento? Em que medida a rela\u00e7\u00e3o entre pentecostalismo e extrema-direita revela o peso de disposi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas duradouras no comportamento eleitoral, para al\u00e9m de fatores conjunturais?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">AS<\/span>: O Brasil passou por uma enorme transforma\u00e7\u00e3o nas \u00faltimas d\u00e9cadas. O catolicismo era algo que definia o Brasil, era um aspecto importante da identidade nacional, completamente capilarizado na sociedade. A enorme maioria da popula\u00e7\u00e3o era cat\u00f3lica. E o pa\u00eds deixou de ser homogeneamente cat\u00f3lico para ter uma presen\u00e7a evang\u00e9lica em forte expans\u00e3o, em todos os sentidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Politicamente, no entanto, esse setor n\u00e3o estava unificado. Historicamente, o voto evang\u00e9lico era fragmentado. Nos governos Lula e Dilma, diversas lideran\u00e7as evang\u00e9licas compunham a base aliada. O salto qualitativo ocorreu com Jair Bolsonaro, que unificou politicamente grande parte desse segmento em torno de seu projeto ideol\u00f3gico, promovendo uma assimila\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e institucional, com nomea\u00e7\u00e3o de ministros, indica\u00e7\u00f5es para o STF e recep\u00e7\u00e3o de bispos no Pal\u00e1cio do Planalto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir de ent\u00e3o, o segmento evang\u00e9lico passou a agir em bloco e em conson\u00e2ncia com a extrema-direita. \u00c9 nesse momento que se constituiu um Bible Belt brasileiro, parecido com o americano. Nos Estados Unidos, h\u00e1 muitas d\u00e9cadas, o eleitorado evang\u00e9lico se identifica com os republicanos e, mais recentemente, com Trump. O bolsonarismo, por sua vez, inspirou-se diretamente no trumpismo, chegando a copiar certas pol\u00edticas, posturas e palavras de ordem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A forma\u00e7\u00e3o desse Bible Belt cria um bloco eleitoral coeso. Mesmo diante das oscila\u00e7\u00f5es em torno das candidaturas, como no debate sobre a indica\u00e7\u00e3o de Fl\u00e1vio Bolsonaro, as pesquisas indicam que cerca de 70% desse segmento permanece inclinado ao voto bolsonarista. Trata-se de um elemento central da consolida\u00e7\u00e3o do bolsonarismo enquanto movimento e conceito, que encontra no Bible Belt uma de suas bases mais duradouras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Temos, ent\u00e3o, dois processos articulados: a consolida\u00e7\u00e3o do bolsonarismo como conceito e a forma\u00e7\u00e3o, em seu interior, de um Bible Belt brasileiro, constitu\u00eddo pela ades\u00e3o da maioria das confiss\u00f5es evang\u00e9licas a esse campo pol\u00edtico. Isso indica que o bolsonarismo continuar\u00e1 sendo um fen\u00f4meno duradouro na pol\u00edtica brasileira, com o qual ser\u00e1 necess\u00e1rio lidar, qualquer que seja o resultado destas elei\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">DP<\/span>: Quero retomar a ideia do p\u00eandulo da burguesia e relacion\u00e1-la a outro argumento do livro, a exist\u00eancia de tr\u00eas regimes pol\u00edticos em disputa no Brasil: o regime democr\u00e1tico; o parlamentar ou semipresidencialista\u2014que assume aqui um car\u00e1ter antidemocr\u00e1tico por representar o controle do processo pol\u00edtico pelo Centr\u00e3o\u2014; e, por fim, o autocr\u00e1tico de vi\u00e9s fascista, representado, sobretudo, pela fam\u00edlia Bolsonaro. Como o senhor caracteriza esses tr\u00eas regimes pol\u00edticos em disputa e de que maneira essa disputa se manifesta nas elei\u00e7\u00f5es de 2026?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">AS<\/span>: As elei\u00e7\u00f5es presidenciais no Brasil s\u00e3o o momento em que as camadas populares expressam o que esperam do Estado. \u00c9 o \u00fanico momento institucional em que elas interv\u00eam na pol\u00edtica brasileira. J\u00e1 as elei\u00e7\u00f5es legislativas s\u00e3o muito influenciadas pelos poderes locais. S\u00e3o m\u00e1quinas pol\u00edticas olig\u00e1rquicas localmente estruturadas que dominam as elei\u00e7\u00f5es legislativas. Isso explica bastante o tipo de composi\u00e7\u00e3o que temos, sobretudo, na C\u00e2mara dos Deputados. As elei\u00e7\u00f5es presidenciais no Brasil s\u00e3o, em alguma medida, um reflexo da situa\u00e7\u00e3o da luta de classes, porque constituem o momento em que o campo popular se expressa. Quando a luta de classes atinge um ponto de curto-circuito, como ocorreu quando o governo Dilma tentou acelerar as transforma\u00e7\u00f5es do lulismo, implementando certas reformas desenvolvimentistas que extrapolaram os limites do que o campo de classe m\u00e9dia considerava aceit\u00e1vel, emerge uma competi\u00e7\u00e3o entre regimes pol\u00edticos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No golpe de 1964, havia uma situa\u00e7\u00e3o de curto-circuito grave, pois as camadas populares pressionavam por reformas, como a agr\u00e1ria. Havia possibilidade de uma mudan\u00e7a estrutural significativa. Naquele momento, colocou-se um embate entre democracia e autoritarismo. Mas, quando ocorre esse curto-circuito, se apresentam tr\u00eas regimes em disputa, e n\u00e3o dois. O terceiro \u00e9 o que hoje chamamos de semipresidencialismo. No per\u00edodo anterior a 1964, ele recebeu o nome de parlamentarismo, que chegou a ser adotado por um breve per\u00edodo para resolver a crise da ren\u00fancia de J\u00e2nio Quadros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O semipresidencialismo \u00e9 uma forma atenuada de parlamentarismo e j\u00e1 se apresentava, de maneira subjacente, no processo de impedimento da presidenta Dilma. Por isso chamo o golpe contra Dilma de golpe parlamentarista. O objetivo n\u00e3o era apenas destitu\u00ed-la, mas mudar o regime pol\u00edtico para o semipresidencialismo. Aqui, preciso fazer uma ressalva. Tecnicamente, o parlamentarismo \u00e9 democr\u00e1tico. Mas, no caso brasileiro, ele esvazia o \u00fanico momento em que as camadas populares efetivamente participam da pol\u00edtica: a elei\u00e7\u00e3o presidencial, pois a elei\u00e7\u00e3o legislativa est\u00e1 dominada pelos fatores que j\u00e1 mencionei. O semipresidencialismo transfere a condu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica econ\u00f4mica a um primeiro-ministro escolhido pelo Congresso Nacional. Isso interessa muito ao Congresso e a setores do Supremo Tribunal Federal, que declararam apoio \u00e0 ideia semipresidencialista diversas vezes. Acredito que essa proposta ressurgir\u00e1 quando houver uma situa\u00e7\u00e3o mais conturbada no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estamos, portanto, diante de uma tr\u00edade de regimes em disputa: a democracia de 1988; o semipresidencialismo, que esvazia a elei\u00e7\u00e3o presidencial; e o autoritarismo, que pode assumir a forma de uma ditadura militar ou de uma autocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Este \u00faltimo \u00e9, explicitamente, o projeto do bolsonarismo, que busca o desmantelamento das garantias constitucionais, a autocratiza\u00e7\u00e3o gradual ou a transi\u00e7\u00e3o para um autoritarismo competitivo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">HF<\/span>: Nas elei\u00e7\u00f5es de 2026, como o componente de vi\u00e9s fascista se manifesta?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">AS<\/span>: Nas disputas atuais, observamos a consolida\u00e7\u00e3o do bolsonarismo, agora estruturado tamb\u00e9m no interior de um grande partido como o PL, em di\u00e1logo com o Centr\u00e3o e orientado pelo trumpismo internacional, o que reafirma a perman\u00eancia do que chamo de vi\u00e9s fascista.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa ideia de que o bolsonarismo pode estar transitando de movimento para conceito se fundamenta na for\u00e7a adquirida pelo PL no Congresso Nacional. Uma das caracter\u00edsticas mais marcantes do bolsonarismo em sua fase inicial era a aus\u00eancia total de uma estrutura partid\u00e1ria. Agora, estamos diante de um partido pol\u00edtico que, diferentemente do fascismo hist\u00f3rico, n\u00e3o \u00e9 militarizado. Pode at\u00e9 contar com a participa\u00e7\u00e3o de agentes de for\u00e7as de seguran\u00e7a enquanto candidatos, mas n\u00e3o se organiza a partir da forma\u00e7\u00e3o de mil\u00edcias, um elemento muito pr\u00f3prio dos fascismos italiano e alem\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas esse partido se estruturou hoje numa condi\u00e7\u00e3o em que compete com o PT e at\u00e9 mesmo o supera. O bolsonarismo elegeu mais de 120 deputados, e o n\u00famero de senadores chega a 30. A estrutura partid\u00e1ria do bolsonarismo, representada pelo PL, tende a convergir com a forma de funcionamento do Centr\u00e3o. N\u00e3o por acaso, o PL \u00e9 dirigido por Valdemar Costa Neto, um pol\u00edtico t\u00edpico do Centr\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O vi\u00e9s fascista, por sua vez, vem de outro elemento: o bolsonarismo est\u00e1 mais do que nunca atrelado ao trumpismo. Com a segunda vit\u00f3ria eleitoral nos Estados Unidos, o trumpismo passou a orientar diretamente o bolsonarismo. Um dos elementos que caracterizam esse vi\u00e9s fascista \u00e9 o forte apelo ao inconsciente. Lideran\u00e7as como Donald Trump n\u00e3o t\u00eam propriamente um programa definido. N\u00e3o sabem exatamente o que fazer, e isso se reflete nas agruras pelas quais passa Trump neste momento. N\u00e3o sabemos como tudo isso se desdobrar\u00e1, mas entendo que o vi\u00e9s fascista se mant\u00e9m no bolsonarismo como conceito.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pol\u00edtica brasileira recente tem sido marcada por sucessivas reviravoltas e realinhamentos de classe, que se expressam em uma disputa pela pr\u00f3pria configura\u00e7\u00e3o&nbsp; do regime pol\u00edtico do pa\u00eds. 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