{"id":34179,"date":"2026-08-27T20:20:47","date_gmt":"2026-08-27T20:20:47","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/nao-categorizado\/against-the-lewis-model\/"},"modified":"2026-08-30T22:15:27","modified_gmt":"2026-08-30T22:15:27","slug":"contra-o-modelo-de-lewis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/contra-o-modelo-de-lewis\/","title":{"rendered":"Contra o modelo de Lewis"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O trabalho de Arthur Lewis \u00e9 um dos melhores pontos de partida para um di\u00e1logo com o pensamento cl\u00e1ssico sobre desenvolvimento. Em sua <a href=\"https:\/\/press.princeton.edu\/books\/hardcover\/9780691215716\/w-arthur-lewis-and-the-birth-of-development-economics?srsltid=AfmBOoocLhfY7qcsF98B6oQA9OYutNQ_1ALs8BpZqmq5rpgJ5pCHEgwA\">biografia<\/a> do economista caribenho, Robert Tignor argumentou que \u201cEconomic Development With Unlimited Supplies of Labor<em>\u201d<\/em>, o cl\u00e1ssico <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/j.1467-9957.1954.tb00021.x\">artigo de Lewis de 1954<\/a>, \u201cimpulsionou decisivamente o novo campo da economia do desenvolvimento, conferindo-lhe uma legitimidade que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o possu\u00eda\u201d. Nos anos em que lecionei uma disciplina sobre desenvolvimento para alunos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o na Universidade de S\u00e3o Paulo, costumava apresentar os principais trabalhos das d\u00e9cadas de 1950 e 1960\u2014de Rosenstein-Rodan, Nurkse, Furtado, Hirschman, Myrdal, Kuznets e Pinto\u2014como extens\u00f5es e\/ou cr\u00edticas ao \u201cmodelo de Lewis\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso n\u00e3o significa que Lewis tenha inaugurado esse debate. Na verdade, muitas das ideias que ele articulou em seu artigo j\u00e1 vinham sendo exploradas por outros autores na d\u00e9cada anterior. Um dos pilares de seu argumento\u2014a exist\u00eancia de uma oferta ilimitada de m\u00e3o de obra nas economias perif\u00e9ricas\u2014havia sido objeto de <a href=\"https:\/\/www.jstor.org\/stable\/1910629\">extensa<\/a> <a href=\"https:\/\/repositorio.cepal.org\/server\/api\/core\/bitstreams\/08ac817a-864c-4df6-961c-7745a3b2fae9\/content\">pesquisa<\/a>, geralmente descrita em termos de \u201c<a href=\"https:\/\/academic.oup.com\/ej\/article-abstract\/46\/182\/225\/5268209\">desemprego disfar\u00e7ado<\/a>\u201d. Sua contribui\u00e7\u00e3o foi oferecer uma perspectiva unificadora sobre o processo de desenvolvimento, combinando percep\u00e7\u00f5es fundamentais sobre a realidade da periferia global com uma an\u00e1lise rigorosa da intera\u00e7\u00e3o entre distribui\u00e7\u00e3o de renda, acumula\u00e7\u00e3o de capital e transforma\u00e7\u00e3o estrutural. Como <a href=\"https:\/\/academic.oup.com\/princeton-scholarship-online\/book\/18029\/chapter-abstract\/175892842?redirectedFrom=fulltext\">Hirschman observou<\/a>, \u201cele conseguiu \u2014 quase milagrosamente \u2014 extrair da simples proposi\u00e7\u00e3o sobre o subemprego um conjunto completo de \u2018leis de movimento\u2019 para o pa\u00eds subdesenvolvido t\u00edpico, al\u00e9m de uma ampla gama de recomenda\u00e7\u00f5es para a pol\u00edtica econ\u00f4mica dom\u00e9stica e internacional\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A influ\u00eancia exercida pelo artigo de 1954, ao lado de alguns trabalhos posteriores, foi tamanha que Lewis ganhou o Pr\u00eamio Nobel de Economia, tornando-se a primeira pessoa negra e o primeiro (e, at\u00e9 hoje, \u00fanico) latino-americano a receber o reconhecimento. Seu trabalho continua sendo uma refer\u00eancia fundamental, mobilizada por economistas <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/08911916.2017.1407742\">de<\/a> <a href=\"https:\/\/www.penguinrandomhouse.com\/books\/205014\/why-nations-fail-by-daron-acemoglu-and-james-a-robinson\/\">perspectivas<\/a> <a href=\"https:\/\/www.cambridge.org\/core\/books\/macroeconomic-inequality-from-reagan-to-trump\/38C31A794E054985CD24002F15FAD5F1\">muito<\/a> <a href=\"https:\/\/direct.mit.edu\/books\/book\/2271\/The-Vanishing-Middle-ClassPrejudice-and-Power-in-a\">diversas<\/a>. Ainda assim, um conjunto amplo de evid\u00eancias provenientes de diferentes pa\u00edses e per\u00edodos indica que a concep\u00e7\u00e3o de desenvolvimento de Lewis deveria ser invertida. Sua previs\u00e3o de que a acumula\u00e7\u00e3o de capital transformaria pa\u00edses abundantes em m\u00e3o de obra em pa\u00edses escassos em m\u00e3o de obra raramente se confirmou na experi\u00eancia concreta do desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para come\u00e7ar, a abund\u00e2ncia de m\u00e3o de obra raramente foi uma caracter\u00edstica das economias perif\u00e9ricas <em>antes<\/em> de iniciarem sua trajet\u00f3ria de desenvolvimento. Al\u00e9m disso, nos pa\u00edses em que as rela\u00e7\u00f5es sociais capitalistas se disseminam, a escassez de m\u00e3o de obra \u00e9 observada apenas de forma transit\u00f3ria, mesmo nos casos de na\u00e7\u00f5es que alcan\u00e7am n\u00edveis elevados de renda per capita. Isso ocorre porque, como <a href=\"https:\/\/www.penguin.co.uk\/books\/35192\/capital-by-karl-marx-intro-ernest-mandel-trans-ben-fowkes\/9780140445688\">Marx indicou<\/a>, em sociedades nas quais o capital se torna dominante, uma popula\u00e7\u00e3o excedente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s necessidades da acumula\u00e7\u00e3o de capital tende a ser constantemente reproduzida. Assim, a hist\u00f3ria n\u00e3o tem sido a de uma transi\u00e7\u00e3o da abund\u00e2ncia para a escassez de m\u00e3o de obra, mas, na verdade, o contr\u00e1rio: da escassez de m\u00e3o de obra para uma oferta verdadeiramente ilimitada de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Um modelo cl\u00e1ssico<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A abertura do <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/j.1467-9957.1954.tb00021.x\">artigo de 1954<\/a> \u00e9 memor\u00e1vel: \u201cEste ensaio se insere na tradi\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica, parte das premissas cl\u00e1ssicas e formula a quest\u00e3o cl\u00e1ssica. Os cl\u00e1ssicos, de Smith a Marx, todos pressupunham, ou argumentavam, que havia uma oferta ilimitada de m\u00e3o de obra dispon\u00edvel a sal\u00e1rios de subsist\u00eancia.\u201d De certa maneira, Lewis recorria \u00e0 mesma estrat\u00e9gia argumentativa que Keynes <a href=\"https:\/\/link.springer.com\/book\/10.1007\/978-3-319-70344-2\">havia empregado<\/a> menos de duas d\u00e9cadas antes, quando afirmou que a teoria que contestava n\u00e3o estava errada, mas simplesmente n\u00e3o se aplicava aos casos em quest\u00e3o: na vis\u00e3o de Lewis, a teoria neocl\u00e1ssica era v\u00e1lida para economias nas quais a m\u00e3o de obra era escassa, mas esse n\u00e3o era o caso de muitas economias perif\u00e9ricas. Assim, para estudar estas \u00faltimas, era preciso <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/j.1467-9957.1954.tb00021.x\">\u201cvoltar at\u00e9 os economistas cl\u00e1ssicos\u201d<\/a>, que haviam formulado teorias baseadas na premissa de abund\u00e2ncia de m\u00e3o de obra, supostamente em sintonia com as condi\u00e7\u00f5es existentes no in\u00edcio da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse argumento revelava uma vis\u00e3o linear da hist\u00f3ria que contrastava com a de alguns pensadores do desenvolvimento em atividade naquele per\u00edodo, como os estruturalistas latino-americanos. Como <a href=\"https:\/\/www.ucpress.edu\/books\/development-and-underdevelopment\/paper\">colocou Celso Furtado<\/a>, a situa\u00e7\u00e3o das economias \u201csubdesenvolvidas\u201d parecia semelhante \u00e0 dos pa\u00edses centrais na primeira fase de seu desenvolvimento capitalista, mas essa semelhan\u00e7a era superficial. Para ele, o \u201csubdesenvolvimento . . . \u00e9 um processo particular, resultante da introdu\u00e7\u00e3o de empresas capitalistas modernas em estruturas arcaicas\u201d e, por isso, exigia \u201cum esfor\u00e7o aut\u00f4nomo de teoriza\u00e7\u00e3o\u201d. Em boa parte dos escritos de Lewis\u2014como em sua discuss\u00e3o sobre o modelo de economia aberta no artigo de 1954\u2014, ele estava, evidentemente, ciente dessa especificidade hist\u00f3rica e a incorporava \u00e0 an\u00e1lise. Mas a formula\u00e7\u00e3o de seu modelo principal a deixava de lado. Como ele escreveu em um <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1016\/B978-0-12-216450-7.50017-7\">texto posterior<\/a>, \u201co principal exemplo hist\u00f3rico em que o modelo [de 1954] se baseou\u201d foi a Gr\u00e3-Bretanha no per\u00edodo entre 1780 e 1870\u2014como se as economias perif\u00e9ricas de meados do s\u00e9culo XX fossem repetir o percurso brit\u00e2nico do passado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E que trajet\u00f3ria era essa? O <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/j.1467-9957.1954.tb00021.x\">modelo<\/a> dividia a economia em dois \u201csetores\u201d: um capitalista e outro de subsist\u00eancia, \u201c\u00e1reas da economia intensamente desenvolvidas, cercadas por uma escurid\u00e3o econ\u00f4mica\u201d. Desenvolver significava ampliar essas \u00e1reas at\u00e9 que eventualmente abarcassem toda a economia. A principal restri\u00e7\u00e3o era a falta de capital capaz de empregar produtivamente os trabalhadores no setor capitalista. Super\u00e1-la exigia que os lucros fossem poupados e reinvestidos no processo produtivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lewis, assim, <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/j.1467-9957.1954.tb00021.x\">afirmava<\/a> que o \u201cproblema central\u201d do desenvolvimento era elevar a taxa de poupan\u00e7a de cerca de 4% ou 5% para aproximadamente 12% a 15% da renda nacional. A oferta ilimitada de m\u00e3o de obra tornava isso poss\u00edvel, pois mantinha os sal\u00e1rios pr\u00f3ximos da renda m\u00e9dia obtida no setor de subsist\u00eancia e garantia que os trabalhadores n\u00e3o comprimiriam os lucros. Dessa forma, \u00e0 medida que o setor capitalista crescesse, aumentaria a parcela da renda apropriada sob a forma de lucros, concentrando-a nas m\u00e3os da \u201cclasse poupadora\u201d. \u201cO fato central do desenvolvimento econ\u00f4mico\u201d, <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/j.1467-9957.1954.tb00021.x\">escreveu<\/a> ele, \u201c\u00e9 que a distribui\u00e7\u00e3o da renda se altera em favor da classe poupadora\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Lewis e Malthus\u00a0<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas esse era realmente um modelo cl\u00e1ssico? \u00c9 poss\u00edvel encontrar, sem d\u00favida, no trabalho de alguns economistas cl\u00e1ssicos a ideia de que os sal\u00e1rios s\u00e3o ancorados em algum n\u00edvel de subsist\u00eancia\u2014o que Lewis chamou de \u201cpremissa cl\u00e1ssica\u201d. Em sua formula\u00e7\u00e3o mais clara, essa ideia se baseia na discuss\u00e3o de Thomas Malthus sobre o \u201c<a href=\"https:\/\/oll.libertyfund.org\/titles\/malthus-an-essay-on-the-principle-of-population-1798-1st-ed\">princ\u00edpio da popula\u00e7\u00e3o<\/a>\u201d. Segundo esse princ\u00edpio, um aumento generalizado dos sal\u00e1rios acima do n\u00edvel b\u00e1sico de subsist\u00eancia ampliaria o acesso \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o e reduziria a mortalidade infantil. O consequente aumento da popula\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, tenderia a superar o crescimento da produ\u00e7\u00e3o de alimentos, provocando uma alta dos pre\u00e7os dos alimentos que faria os sal\u00e1rios retornarem, em termos reais, ao n\u00edvel de subsist\u00eancia. A redu\u00e7\u00e3o da renda, por sua vez, restringiria o acesso \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o, elevando novamente a mortalidade infantil e reequilibrando o tamanho da popula\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de alimentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa teoria macabra, segundo a qual aumentos salariais levam \u00e0 escassez de alimentos e ao aumento da mortalidade infantil, fazia parte da tentativa de Malthus de dissipar as esperan\u00e7as despertadas pela Revolu\u00e7\u00e3o Francesa de que a condi\u00e7\u00e3o dos pobres poderia melhorar\u2014um exemplo t\u00edpico daquilo que se convencionou chamar de <a href=\"https:\/\/www.jstor.org\/stable\/j.ctvjnrs9q\">\u201cret\u00f3rica da rea\u00e7\u00e3o\u201d<\/a>. Ainda assim, at\u00e9 economistas que n\u00e3o compartilhavam dessa pol\u00edtica reacion\u00e1ria, como David Ricardo, acabaram incorporando sua \u201c<a href=\"https:\/\/www.versobooks.com\/en-gb\/products\/2159-the-first-international-and-after?srsltid=AfmBOopyhvGbodYCJYDAstINq6yA3pDzqOEEua9fQnLHUWi3TLDHsbei\">lei de ferro dos sal\u00e1rios<\/a>\u201d, ainda que de forma atenuada. Como o pr\u00f3prio Lewis <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/j.1467-9957.1954.tb00021.x\">colocou<\/a>, a \u201clei malthusiana da popula\u00e7\u00e3o\u201d era uma das \u201cpedras angulares do sistema de Ricardo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A interpreta\u00e7\u00e3o de Lewis sobre a posi\u00e7\u00e3o dos dois economistas cl\u00e1ssicos a respeito dessa quest\u00e3o era, contudo, peculiar. Em <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/j.1467-9957.1954.tb00021.x\">sua vis\u00e3o<\/a>, Malthus havia demonstrado que o \u201caumento da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 causado pelo desenvolvimento econ\u00f4mico\u201d. Dado que, historicamente, o desenvolvimento havia reduzido a taxa de mortalidade para cerca de doze por mil, Lewis <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/j.1467-9957.1954.tb00021.x\">argumentava<\/a> que \u201cem qualquer sociedade onde a taxa de mortalidade seja de cerca de quarenta por mil, o efeito do desenvolvimento econ\u00f4mico ser\u00e1 gerar um aumento na oferta de m\u00e3o de obra\u201d. A queda da mortalidade estimularia o crescimento populacional, garantindo uma oferta ilimitada de m\u00e3o de obra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em seguida, ele <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/j.1467-9957.1954.tb00021.x\">recorria<\/a> \u00e0s descobertas da \u201cteoria populacional moderna\u201d sobre a transi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica, isto \u00e9, ao fato de que a taxa de fertilidade tamb\u00e9m tende a cair \u00e0 medida que a renda per capita aumenta, compensando a queda da mortalidade e reduzindo o ritmo de crescimento da popula\u00e7\u00e3o. Isso, <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/j.1467-9957.1954.tb00021.x\">segundo ele<\/a>, era o que Ricardo e Malthus haviam deixado de perceber e, por isso, eles \u201csuperestimaram a taxa de crescimento da popula\u00e7\u00e3o\u201d. Assim, n\u00e3o conseguiram enxergar que \u201cse as condi\u00e7\u00f5es forem favor\u00e1veis para que o excedente capitalista cres\u00e7a mais rapidamente do que a popula\u00e7\u00e3o, chegar\u00e1 necessariamente o dia em que a acumula\u00e7\u00e3o de capital ter\u00e1 alcan\u00e7ado a oferta de m\u00e3o de obra\u201d. Nesse momento, a oferta de m\u00e3o de obra deixaria de ser ilimitada, e seria poss\u00edvel voltar \u00e0 teoria neocl\u00e1ssica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em vez de adotar a vis\u00e3o malthusiana (e ricardiana) de que a intera\u00e7\u00e3o entre a din\u00e2mica populacional e a produ\u00e7\u00e3o de alimentos determina o n\u00edvel dos sal\u00e1rios, Lewis reduziu a contribui\u00e7\u00e3o de ambos a um argumento segundo o qual, ao longo do desenvolvimento, o crescimento populacional aumenta a oferta de m\u00e3o de obra. Mas isso ocorre apenas transitoriamente, antes que a queda da taxa de fertilidade alcance a redu\u00e7\u00e3o da mortalidade. \u00c9 verdade que Lewis <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/j.1467-9957.1954.tb00021.x\">argumentava<\/a>, em 1954, que, enquanto o capital pudesse ser exportado para outros pa\u00edses com excedente de m\u00e3o de obra, ou a imigra\u00e7\u00e3o proveniente desses pa\u00edses fosse estimulada, o caso neocl\u00e1ssico baseado na escassez de m\u00e3o de obra continuaria sendo inv\u00e1lido, pois, \u201cno mundo neocl\u00e1ssico, a m\u00e3o de obra \u00e9 escassa em todos os pa\u00edses\u201d. A literatura posterior, contudo, praticamente ignorou essa ressalva e o modelo de economia aberta que derivava dela, concentrando-se em identificar empiricamente o chamado <a href=\"https:\/\/www.routledge.com\/Debating-the-Lewis-Turning-Point-in-China\/Huang-Cai\/p\/book\/9781032929866\">\u201cponto de virada de Lewis\u201d<\/a>, isto \u00e9, o momento em que a abund\u00e2ncia de m\u00e3o de obra se esgota e os sal\u00e1rios come\u00e7am a alcan\u00e7ar a produtividade. Ao fazer isso, os estudiosos posteriores consolidaram uma vis\u00e3o \u201cmalthusiana\u201d do desenvolvimento, na qual os sal\u00e1rios dependem crucialmente das tend\u00eancias demogr\u00e1ficas.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Marx contra Malthus<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa vis\u00e3o havia sido fortemente criticada por Marx em <a href=\"https:\/\/www.penguin.co.uk\/books\/35192\/capital-by-karl-marx-intro-ernest-mandel-trans-ben-fowkes\/9780140445688\"><em>O Capital<\/em><\/a>. Em linha com seu procedimento habitual diante da economia pol\u00edtica cl\u00e1ssica, Marx examinou em detalhe como o \u201cprinc\u00edpio da popula\u00e7\u00e3o\u201d de Malthus n\u00e3o era a-hist\u00f3rico, como se sugeria, mas, na verdade, um fen\u00f4meno historicamente espec\u00edfico, enraizado no capitalismo. Nas <a href=\"https:\/\/www.penguin.co.uk\/books\/35192\/capital-by-karl-marx-intro-ernest-mandel-trans-ben-fowkes\/9780140445688\">palavras de Marx<\/a>, a \u201clei natural da popula\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o estava fundada nas \u201cleis eternas da natureza\u201d, mas nas \u201cleis hist\u00f3ricas da natureza da produ\u00e7\u00e3o capitalista\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essas leis hist\u00f3ricas garantiam que uma popula\u00e7\u00e3o excedente fosse constantemente reproduzida, mantendo os sal\u00e1rios sob controle e assegurando a continuidade da acumula\u00e7\u00e3o de capital. A reprodu\u00e7\u00e3o da abund\u00e2ncia de m\u00e3o de obra era independente das tend\u00eancias demogr\u00e1ficas: resultava tanto da din\u00e2mica c\u00edclica das economias capitalistas\u2014que absorvem e recriam continuamente um ex\u00e9rcito industrial de reserva \u00e0 medida que se sucedem per\u00edodos de expans\u00e3o e crise\u2014quanto da tend\u00eancia estrutural do capital a deslocar a m\u00e3o de obra, substituindo-a por m\u00e1quinas. Se as condi\u00e7\u00f5es da luta de classes permitirem elevar o sal\u00e1rio de subsist\u00eancia historicamente aceito, os capitalistas individuais ser\u00e3o incentivados a acelerar a mecaniza\u00e7\u00e3o para reduzir custos e maximizar os lucros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com esse argumento, Marx oferecia uma explica\u00e7\u00e3o alternativa para a \u201cpremissa cl\u00e1ssica\u201d, isto \u00e9, para a ideia de que os sal\u00e1rios gravitam em torno de um n\u00edvel de subsist\u00eancia. (Sua compreens\u00e3o do n\u00edvel de subsist\u00eancia era significativamente diferente da de Malthus, pois incorporava uma dimens\u00e3o hist\u00f3rica e moral, abrindo espa\u00e7o para que a luta de classes influenciasse os sal\u00e1rios e a taxa de explora\u00e7\u00e3o.) Essa explica\u00e7\u00e3o alternativa \u00e9 dif\u00edcil de conciliar com a afirma\u00e7\u00e3o de Lewis de que a oferta ilimitada de m\u00e3o de obra tenderia a se esgotar no curso da transi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica, pois a mecaniza\u00e7\u00e3o poderia ser acelerada para preservar a popula\u00e7\u00e3o excedente mesmo que o crescimento populacional desacelerasse. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lewis rejeitava o argumento de Marx, <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/j.1467-9957.1954.tb00021.x\">referindo-se<\/a> a ele como um \u201cmodelo curioso\u201d e afirmando que deveria ser declinado \u201ccom base em evid\u00eancias emp\u00edricas\u201d. \u201c\u00c9 claro que o efeito da acumula\u00e7\u00e3o de capital no passado foi reduzir o tamanho do ex\u00e9rcito de reserva\u201d, <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/j.1467-9957.1954.tb00021.x\">explicou<\/a>, \u201ce n\u00e3o aument\u00e1-lo.\u201d O argumento de Marx n\u00e3o era que o ex\u00e9rcito de reserva continuaria crescendo indefinidamente, mas simplesmente que ele seria continuamente reproduzido. Mas, de todo modo, ser\u00e1 que as evid\u00eancias realmente est\u00e3o do lado de Lewis nesse ponto? Pelo menos dois conjuntos de estudos apontam na dire\u00e7\u00e3o oposta, dando respaldo \u00e0 vis\u00e3o marxiana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Primeiro, muitos estudiosos partiram do argumento de Marx e investigaram empiricamente o chamado \u201c<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/j.1467-999X.2004.00201.x\">progresso t\u00e9cnico induzido<\/a>\u201d, isto \u00e9, o fato de que a press\u00e3o por aumentos salariais tende a estimular mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas que levam \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o de trabalhadores. Uma <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/j.1467-999X.1995.tb00380.x\">variedade<\/a> <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/02692171.2016.1225017\">de m\u00e9todos<\/a> <a href=\"https:\/\/link.springer.com\/article\/10.1007\/s00191-019-00658-3\">estat\u00edsticos<\/a> e bases de dados levam \u00e0 conclus\u00e3o de que a ado\u00e7\u00e3o de novas tecnologias \u00e9 frequentemente impulsionada pelo conflito distributivo. Segundo, um <a href=\"https:\/\/files.epi.org\/uploads\/215903.pdf\">vasto<\/a> <a href=\"https:\/\/www.resolutionfoundation.org\/app\/uploads\/2020\/01\/Dead-end-relationship.pdf\">conjunto<\/a> <a href=\"https:\/\/academic.oup.com\/ser\/article-abstract\/20\/3\/1091\/6179057\">de<\/a> <a href=\"https:\/\/academic.oup.com\/qje\/article-abstract\/129\/1\/61\/1899422?redirectedFrom=fulltext\">estudos<\/a>, a partir de perspectivas diversas, mostra que os sal\u00e1rios se descolaram da produtividade na maioria dos pa\u00edses ricos, que supostamente seriam caracterizados pela escassez de m\u00e3o de obra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lewis estava extrapolando a partir de um per\u00edodo muito particular da hist\u00f3ria do capitalismo. Por um breve per\u00edodo, no Norte global, pareceu que a \u201c<a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/full\/10.1111\/dech.12115\">rela\u00e7\u00e3o de emprego padr\u00e3o<\/a>\u201d\u2014em tempo integral, formal e com uma s\u00e9rie de direitos\u2014havia se tornado a norma. Durante o que \u00e0s vezes \u00e9 chamado de \u201c<a href=\"https:\/\/academic.oup.com\/book\/26656\">era de ouro<\/a>\u201d\u2014as duas d\u00e9cadas e meia que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial\u2014, os mercados de trabalho desses pa\u00edses permaneceram relativamente aquecidos e os sal\u00e1rios acompanharam de perto a produtividade. Tanto que um dos \u201c<a href=\"https:\/\/link.springer.com\/chapter\/10.1007\/978-1-349-08452-4_10\">fatos estilizados<\/a>\u201d do per\u00edodo era a estabilidade da participa\u00e7\u00e3o salarial na renda. O fortalecimento dos sindicatos e da negocia\u00e7\u00e3o coletiva, combinado aos efeitos pol\u00edticos do trauma do desemprego em massa dos anos 1930, conteve temporariamente o capital e reduziu a popula\u00e7\u00e3o excedente no n\u00facleo capitalista. Em retrospecto, fica claro que se tratava de uma situa\u00e7\u00e3o excepcional e transit\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pelo menos desde os anos 1980, a abund\u00e2ncia de m\u00e3o de obra foi restaurada, n\u00e3o na forma de uma multid\u00e3o de trabalhadores de subsist\u00eancia\u2014como imaginava Lewis\u2014, mas por meio do aprofundamento da subordina\u00e7\u00e3o das classes trabalhadoras. Nos Estados Unidos, por exemplo, est\u00e1 bem estabelecido que o <a href=\"https:\/\/files.epi.org\/uploads\/215903.pdf\">sal\u00e1rio m\u00e9dio dos trabalhadores da produ\u00e7\u00e3o<\/a> (isto \u00e9, aqueles que n\u00e3o exercem fun\u00e7\u00f5es de supervis\u00e3o) no setor privado permaneceu praticamente estagnado desde 1979: enquanto quase dobrou entre 1948 e 1979, aumentou apenas <a href=\"https:\/\/files.epi.org\/uploads\/215903.pdf\">11%<\/a> nas quatro d\u00e9cadas seguintes. O arrocho salarial n\u00e3o foi t\u00e3o dram\u00e1tico nos <a href=\"https:\/\/www.resolutionfoundation.org\/app\/uploads\/2020\/01\/Dead-end-relationship.pdf\">outros pa\u00edses ricos<\/a>, mas foi suficientemente forte para reduzir a <a href=\"https:\/\/academic.oup.com\/ser\/article-abstract\/20\/3\/1091\/6179057\">participa\u00e7\u00e3o salarial<\/a> <a href=\"https:\/\/academic.oup.com\/qje\/article-abstract\/129\/1\/61\/1899422?redirectedFrom=fulltext\">na renda<\/a> na maioria deles.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto isso, a precariza\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho se consolidou em todo o n\u00facleo capitalista, levando <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/dech.12733\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/dech.12733\">alguns analistas<\/a> \u00e0 sugest\u00e3o de que os mercados de trabalho do Norte global se assemelham cada vez mais aos dos pa\u00edses do Sul. Se for poss\u00edvel esperar algum tipo de converg\u00eancia econ\u00f4mica global, \u00e9 mais prov\u00e1vel que ela resulte da deteriora\u00e7\u00e3o do centro do que de um processo de recupera\u00e7\u00e3o vindo de baixo. A expans\u00e3o do <a href=\"https:\/\/www.ucpress.edu\/books\/after-the-gig\/paper\">trabalho em plataformas<\/a> e do emprego involunt\u00e1rio em tempo parcial s\u00e3o dois exemplos desse fen\u00f4meno mais amplo. At\u00e9 mesmo macroeconomistas convencionais perceberam a restaura\u00e7\u00e3o da abund\u00e2ncia de m\u00e3o de obra, \u00e0 medida que sua curva de Phillips <a href=\"https:\/\/www.imf.org\/-\/media\/websites\/imf\/imported-full-text-pdf\/external\/pubs\/ft\/wp\/2007\/_wp0776.pdf\">come\u00e7ou a ficar<\/a> <a href=\"https:\/\/academic.oup.com\/qje\/article\/137\/3\/1299\/6529257\">cada vez mais plana<\/a> (isto \u00e9, o impacto do desemprego sobre a infla\u00e7\u00e3o enfraqueceu). Os trabalhadores j\u00e1 n\u00e3o conseguem pressionar por aumentos substanciais dos sal\u00e1rios reais, nem mesmo durante as fases de expans\u00e3o do ciclo econ\u00f4mico, quando o desemprego cai, pois seu poder de barganha foi estruturalmente reduzido.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Da escassez de m\u00e3o de obra \u00e0 marginaliza\u00e7\u00e3o em massa<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tudo isso sugere, contra Lewis, que a premissa neocl\u00e1ssica da escassez de m\u00e3o de obra est\u00e1 muito longe de se verificar em qualquer lugar\u2014nem mesmo nos pa\u00edses ricos. Lewis, por\u00e9m, estava menos interessado na realidade do Norte global do que no processo de desenvolvimento em curso no Sul. O que podemos dizer de sua an\u00e1lise nesse sentido?\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muitos argumentam que ele ignorou a brutalidade dos processos que estabeleceram uma abund\u00e2ncia inicial de m\u00e3o de obra, obrigando popula\u00e7\u00f5es a buscar emprego assalariado por meio da expropria\u00e7\u00e3o, do deslocamento e da coer\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Como <a href=\"https:\/\/soas-repository.worktribe.com\/output\/372438\/what-development-economists-miss-in-the-lewis-model-and-what-the-lewis-model-misses\">colocaram John Sender e Christopher Cramer<\/a>, Lewis \u201cdeu aten\u00e7\u00e3o insuficiente ao papel da viol\u00eancia, da coer\u00e7\u00e3o e da interven\u00e7\u00e3o estatal for\u00e7ada na explica\u00e7\u00e3o dos resultados do mercado de trabalho\u201d. Os processos violentos de acumula\u00e7\u00e3o primitiva ficaram ocultos em uma narrativa que sugeria que os capitalistas simplesmente atra\u00edam trabalhadores do setor de subsist\u00eancia ao oferecer um pequeno pr\u00eamio sobre a renda. Na maioria das vezes\u2014como o pr\u00f3prio Lewis menciona de passagem no <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/j.1467-9957.1954.tb00021.x\">artigo de 1954<\/a>\u2014, essa renda de subsist\u00eancia era deliberadamente comprimida, de modo que a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o tivesse outra escolha sen\u00e3o vender sua for\u00e7a de trabalho \u00e0s empresas capitalistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em um <a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/abs\/10.1080\/00220387008421322\">artigo de 1970<\/a>, Giovanni Arrighi foi provavelmente o primeiro a formular esse argumento de maneira sistem\u00e1tica, tanto te\u00f3rica quanto empiricamente, ao contestar uma interpreta\u00e7\u00e3o \u00e0 la Lewis do desenvolvimento do Zimb\u00e1bue. Segundo Arrighi, entre 1903 e 1920, o pa\u00eds era inequivocamente caracterizado pela escassez de m\u00e3o de obra, e o \u201cmodelo de Lewis\u201d s\u00f3 se tornou relevante por um curto per\u00edodo na d\u00e9cada de 1920, ap\u00f3s um longo esfor\u00e7o para expropriar os trabalhadores ind\u00edgenas e proletariz\u00e1-los. Uma hist\u00f3ria semelhante foi contada <a href=\"https:\/\/paulsinger.com.br\/dominacao-e-desigualdade-estudos-sobre-a-reparticao-da-renda\/\">sobre o Brasil<\/a>, onde a proletariza\u00e7\u00e3o em larga escala s\u00f3 foi observada a partir dos anos 1960. A proletariza\u00e7\u00e3o resultou de uma profunda transforma\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais no campo, envolvendo a expans\u00e3o da agricultura capitalista mecanizada e o deslocamento de camponeses para terras menores e menos f\u00e9rteis. A \u201cmoderniza\u00e7\u00e3o\u201d da agricultura promovida pelo Estado foi fundamental para a <a href=\"https:\/\/portal.sescsp.org.br\/loja\/11289_CELSO+FURTADO+E+OS+60+ANOS+DE+FORMACAO+ECONOMICA+DO+BRASIL#\/content=detalhes-do-produto\">acumula\u00e7\u00e3o primitiva<\/a> no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De toda forma, uma vez estabelecida a abund\u00e2ncia de m\u00e3o de obra, quaisquer que sejam os meios, podemos finalmente aceitar o argumento de Lewis de que a acumula\u00e7\u00e3o de capital a elimina gradualmente? N\u00e3o exatamente. Como muitos economistas do desenvolvimento\u2014entre eles <a href=\"https:\/\/link.springer.com\/article\/10.1007\/BF02800594\">Furtado<\/a> e <a href=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/as-licoes-de-anibal-pinto\/\">An\u00edbal Pinto<\/a>\u2014j\u00e1 haviam observado nos anos 1960, o padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o observado nas partes da periferia onde o crescimento era relativamente r\u00e1pido logo se voltou para ind\u00fastrias e tecnologias intensivas em capital, absorvendo cada vez menos m\u00e3o de obra. A massa de trabalhadores expropriados tinha poucas chances de encontrar emprego no setor capitalista, dando origem \u00e0 informalidade urbana que caracteriza as metr\u00f3poles da periferia global.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao retomar o <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/abs\/10.1111\/j.1467-9957.1979.tb00625.x\">tema em 1979<\/a>, Lewis estava, evidentemente, ciente de que a abund\u00e2ncia de m\u00e3o de obra havia se mostrado muito mais persistente do que ele tinha previsto. Em vez de dialogar com a sofisticada an\u00e1lise dos latino-americanos sobre a heterogeneidade estrutural, por\u00e9m, ele voltou mais uma vez ao malthusianismo. Em sua vis\u00e3o, a abund\u00e2ncia de m\u00e3o de obra persistia porque a popula\u00e7\u00e3o crescia r\u00e1pido demais. Em suas <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/abs\/10.1111\/j.1467-9957.1979.tb00625.x\">palavras<\/a>, \u201co crescimento populacional est\u00e1 no cerne da abund\u00e2ncia de m\u00e3o de obra\u201d, e \u201cn\u00e3o h\u00e1 como uma popula\u00e7\u00e3o crescer 3% ao ano sem experimentar abund\u00e2ncia de m\u00e3o de obra em seu setor moderno\u201d. A <a href=\"https:\/\/www.penguin.co.uk\/books\/35192\/capital-by-karl-marx-intro-ernest-mandel-trans-ben-fowkes\/9780140445688\">observa\u00e7\u00e3o de Marx<\/a> sobre Malthus se aplica perfeitamente a Lewis: \u201cele explica [a popula\u00e7\u00e3o excedente], \u00e0 sua maneira estreita, n\u00e3o dizendo que parte da popula\u00e7\u00e3o trabalhadora se tornou relativamente sup\u00e9rflua, mas atribuindo-a ao seu crescimento excessivo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Para al\u00e9m de Lewis<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 p\u00f4r em d\u00favida o compromisso de Lewis com a luta por um mundo mais justo e pela melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida das grandes maiorias da Am\u00e9rica Latina e da \u00c1frica, as duas regi\u00f5es \u00e0s quais dedicou <a href=\"https:\/\/press.princeton.edu\/books\/hardcover\/9780691215716\/w-arthur-lewis-and-the-birth-of-development-economics?srsltid=AfmBOoocLhfY7qcsF98B6oQA9OYutNQ_1ALs8BpZqmq5rpgJ5pCHEgwA\">maior aten\u00e7\u00e3o<\/a>. Seu esfor\u00e7o para abrir espa\u00e7o a reflex\u00f5es originais sobre a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da periferia global foi louv\u00e1vel, e seus escritos cont\u00eam uma s\u00e9rie de contribui\u00e7\u00f5es valiosas. No fim das contas, por\u00e9m, o modelo que constitui seu principal legado revela-se um obst\u00e1culo \u00e0 reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre o desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao tomar a abund\u00e2ncia de m\u00e3o de obra como realidade na maior parte do Sul e desconsiderar a brutalidade envolvida em sua cria\u00e7\u00e3o, o modelo acabou legitimando esses processos de acumula\u00e7\u00e3o primitiva como males necess\u00e1rios no caminho para o desenvolvimento. A linguagem de Lewis frequentemente revelava esse vi\u00e9s\u2014por exemplo, quando <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/j.1467-9957.1954.tb00021.x\">argumentou<\/a> que os trabalhadores do setor de subsist\u00eancia precisavam ser convencidos a se adaptar ao \u201cambiente mais disciplinado e urbanizado do setor capitalista\u201d. Al\u00e9m disso, o pr\u00f3prio mecanismo de desenvolvimento que ele formulou conferia legitimidade n\u00e3o apenas \u00e0 expropria\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o cont\u00ednua da renda, uma vez que, segundo ele, uma acumula\u00e7\u00e3o de capital mais r\u00e1pida dependia da transfer\u00eancia de renda para a eufemisticamente denominada \u201cclasse poupadora\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tudo isso era exigido em troca da promessa de um futuro de escassez de m\u00e3o de obra que produziria resultados \u201cm\u00e1gicos\u201d\u2014a palavra \u00e9 <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/j.1467-9957.1979.tb00625.x\">dele pr\u00f3prio<\/a>. Essa promessa, por\u00e9m, dependia de um malthusianismo question\u00e1vel, incapaz de apreender a din\u00e2mica efetiva das economias capitalistas. Quando ficou claro que o esgotamento das reservas de m\u00e3o de obra era uma quimera, muitos aprofundaram sua <a href=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/as-licoes-de-anibal-pinto\/\">an\u00e1lise cr\u00edtica<\/a> dos resultados concretos do desenvolvimento capitalista perif\u00e9rico. Lewis, ao contr\u00e1rio, culpou as popula\u00e7\u00f5es do Sul por se reproduzirem r\u00e1pido demais. Pouco depois, tornou-se evidente que a abund\u00e2ncia de m\u00e3o de obra n\u00e3o era apenas um flagelo do desenvolvimento perif\u00e9rico, mas a pr\u00f3pria norma do capitalismo global, tendo voltado a se afirmar at\u00e9 mesmo nos pa\u00edses ricos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lewis tinha raz\u00e3o ao afirmar que eliminar a abund\u00e2ncia de m\u00e3o de obra \u00e9 fundamental para melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores, no Norte e no Sul, pois isso implica enfrentar a subordina\u00e7\u00e3o do trabalho ao capital. Mas n\u00e3o podemos contar, como ele fez, nem com a din\u00e2mica populacional nem com a acumula\u00e7\u00e3o de capital para alcan\u00e7ar esse objetivo. A tarefa de repensar o desenvolvimento para al\u00e9m da moderniza\u00e7\u00e3o capitalista e da proletariza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada deveria come\u00e7ar pela busca de formas concretas de produzir e sustentar a escassez de m\u00e3o de obra, por exemplo, fortalecendo as maiorias por meio de formas alternativas de propriedade na agricultura, nos servi\u00e7os e na ind\u00fastria. Isso exige ao menos algum controle democr\u00e1tico sobre a organiza\u00e7\u00e3o dos processos produtivos e sobre os rumos da tecnologia, de modo a enfraquecer o mecanismo que produz continuamente uma popula\u00e7\u00e3o excedente. Rejeitar o malthusianismo de Lewis nos permite reconhecer que a escassez de m\u00e3o de obra n\u00e3o surgir\u00e1 de uma acumula\u00e7\u00e3o de capital que avance mais r\u00e1pido que o crescimento populacional, mas, sim, da conten\u00e7\u00e3o do impulso do capital de produzir um ex\u00e9rcito de reserva de m\u00e3o de obra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O trabalho de Arthur Lewis \u00e9 um dos melhores pontos de partida para um di\u00e1logo com o pensamento cl\u00e1ssico sobre desenvolvimento. 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