{"id":34128,"date":"2026-08-15T08:00:00","date_gmt":"2026-08-15T08:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/nao-categorizado\/perus-so-called-paradox\/"},"modified":"2026-08-27T15:02:39","modified_gmt":"2026-08-27T15:02:39","slug":"o-chamado-paradoxo-peruano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/o-chamado-paradoxo-peruano\/","title":{"rendered":"O chamado paradoxo peruano"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 28 de julho, Keiko Fujimori, filha do ex-ditador peruano Alberto Fujimori, tomou posse como presidente do Peru. Depois de tr\u00eas tentativas fracassadas de chegar ao cargo, Fujimori venceu a elei\u00e7\u00e3o deste ano prometendo encerrar um per\u00edodo de crescente instabilidade pol\u00edtica: ela ser\u00e1 a d\u00e9cima presidente a governar o Peru nos \u00faltimos dez anos, em meio a uma sucess\u00e3o de impeachments, ren\u00fancias motivadas por esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o e coaliz\u00f5es partid\u00e1rias fr\u00e1geis. A elei\u00e7\u00e3o foi decidida no segundo turno, com Fujimori recebendo 50,13% dos votos v\u00e1lidos, a menor margem j\u00e1 registrada em uma elei\u00e7\u00e3o presidencial no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa d\u00e9cada de instabilidade pol\u00edtica conviveu com uma surpreendente estabilidade macroecon\u00f4mica: infla\u00e7\u00e3o persistentemente baixa e moeda relativamente est\u00e1vel. O contraste entre pol\u00edtica e economia \u00e9 amplamente conhecido como o \u201cparadoxo\u201d da economia pol\u00edtica peruana. Tanto no debate <a href=\"https:\/\/elcomercio.pe\/opinion\/colaboradores\/julio-velarde-y-el-valor-de-la-estabilidad-por-alejandro-garland-banco-central-de-reserva-bcr-noticia\/\">dom\u00e9stico<\/a> quanto no <a href=\"https:\/\/www.wsj.com\/world\/americas\/with-10-presidents-in-10-years-perus-real-leader-is-its-central-banker-d325bf9e?eafs_enabled=false\">internacional<\/a>, ele costuma ser atribu\u00eddo \u00e0 efici\u00eancia da tecnocracia do pa\u00eds, sobretudo \u00e0 atua\u00e7\u00e3o de longa data de Julio Velarde \u00e0 frente do Banco Central e sua rigorosa gest\u00e3o da pol\u00edtica monet\u00e1ria. Com a promessa de estabilizar a vida pol\u00edtica do pa\u00eds e garantir a seguran\u00e7a macroecon\u00f4mica por meio da recondu\u00e7\u00e3o de Velarde ao cargo, Fujimori se apresentou como uma figura capaz de finalmente p\u00f4r fim ao paradoxo peruano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hipocrisia dessa narrativa \u00e9 evidente. Desde 2016, Fujimori e seu partido, o direitista Fuerza Popular, foram respons\u00e1veis por uma parcela significativa do caos pol\u00edtico, atuando sistematicamente para obstruir o governo. Em 2022, o Fuerza Popular <a href=\"https:\/\/larepublica.pe\/politica\/2026\/05\/22\/miguel-torres-admite-que-fuerza-popular-y-el-congreso-conspiraron-para-sacar-a-pedro-castillo-hnews-1524336\">conspirou<\/a> com o Congresso para destituir o presidente de esquerda Pedro Castillo e substitu\u00ed-lo por Dina Boluarte, sua vice. Boluarte reprimiu violentamente os grandes protestos que se seguiram ao impeachment e \u00e0 pris\u00e3o de Castillo. Dezenas de mortes foram registradas.<a data-contents=\"Pedro Castillo anunciou a dissolu\u00e7\u00e3o inconstitucional do Congresso, o que levou ao seu r\u00e1pido impeachment e \u00e0 sua pris\u00e3o imediata. No entanto, o Congresso e setores das elites j\u00e1 haviam lan\u00e7ado uma ofensiva contra seu governo antes mesmo de sua posse, que incluiu tentativas de reverter o resultado das elei\u00e7\u00f5es, o bloqueio sistem\u00e1tico de reformas, amea\u00e7as constantes e um processo de impeachment. Em 2026, o bra\u00e7o direito e vice-presidente eleito de Fujimori, Miguel Torres, admitiu que seu objetivo era encerrar (de forma irregular) o governo de Castillo por meio de press\u00e3o constante.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-1\" href=\"#footnote-list-1\">1<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Pedro Castillo anunciou a dissolu\u00e7\u00e3o inconstitucional do Congresso, o que levou ao seu r\u00e1pido impeachment e \u00e0 sua pris\u00e3o imediata. No entanto, o Congresso e setores das elites j\u00e1 haviam lan\u00e7ado uma ofensiva contra seu governo antes mesmo de sua posse, que incluiu tentativas de reverter o resultado das elei\u00e7\u00f5es, o bloqueio sistem\u00e1tico de reformas, amea\u00e7as constantes e um processo de impeachment. Em 2026, o bra\u00e7o direito e vice-presidente eleito de Fujimori, Miguel Torres, admitiu que seu objetivo era encerrar (de forma irregular) o governo de Castillo por meio de press\u00e3o constante.<\/span> Em 2024, o governo de Boluarte, ileg\u00edtimo e impopular, agradeceu a alian\u00e7a com o Fuerza Popular ao decretar tr\u00eas dias de luto nacional pela morte de Alberto Fujimori, condenado em 2009 a 25 anos de pris\u00e3o por viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos e corrup\u00e7\u00e3o, mas indultado por raz\u00f5es humanit\u00e1rias em 2017.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, a pr\u00f3pria ideia do \u201cparadoxo\u201d peruano distorce a rela\u00e7\u00e3o entre as esferas pol\u00edtica e econ\u00f4mica do pa\u00eds. O decl\u00ednio pol\u00edtico e democr\u00e1tico do Peru est\u00e1, na verdade, intimamente ligado ao seu status quo macroecon\u00f4mico. Desde a promulga\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o de 1993, um modelo de crescimento baseado na exporta\u00e7\u00e3o de bens prim\u00e1rios de origem extrativa, sobretudo minerais, tem produzido conflitos sociais e ambientais recorrentes, sem contribuir de forma significativa para reduzir as profundas desigualdades territoriais e urbanas, superar a informalidade ou eliminar de maneira duradoura a pobreza. Esse modelo depende da entrada constante de investimento estrangeiro direto (IED) e da acumula\u00e7\u00e3o de grandes reservas internacionais, o que, por sua vez, fortalece as ind\u00fastrias extrativas e enfraquece outras poss\u00edveis fontes de investimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A economia peruana do s\u00e9culo XXI conseguiu evitar de forma consistente o tipo de crise econ\u00f4mica que atingiu vizinhos como Venezuela, Bol\u00edvia e Argentina, pa\u00edses que, por diferentes raz\u00f5es, passaram por ajustes no balan\u00e7o de pagamentos que resultaram em acelera\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o e recess\u00f5es. Mas estabilizar a infla\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o mesmo que promover uma estrat\u00e9gia de desenvolvimento. O isolamento do Banco Central de Reserva do Peru (BCRP) do escrut\u00ednio p\u00fablico, somado \u00e0 rever\u00eancia em torno de seu presidente, reduz o espa\u00e7o para o debate democr\u00e1tico sobre os caminhos para um desenvolvimento mais inclusivo. Na aus\u00eancia desse debate, o Estado acaba recorrendo \u00e0 for\u00e7a para responder \u00e0 crescente instabilidade social.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Um milagre econ\u00f4mico?<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A industrializa\u00e7\u00e3o do Peru foi tardia. At\u00e9 a d\u00e9cada de 1960, uma poderosa e longeva oligarquia fundi\u00e1ria ainda constitu\u00eda um obst\u00e1culo \u00e0s reformas estruturais. Ent\u00e3o, em 1968, o governo militar liderado por Juan Velasco Alvarado chegou ao poder com o objetivo de redistribuir terras e industrializar o pa\u00eds. O governo implementou uma s\u00e9rie de reformas agr\u00e1rias e nacionaliza\u00e7\u00f5es setoriais, como a expropria\u00e7\u00e3o dos ativos da International Petroleum Company, subsidi\u00e1ria da Standard Oil of New Jersey. Durante alguns anos, as autoridades peruanas tentaram reestruturar a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e industrial de modo a transferir o poder para cooperativas participativas que incorporassem as popula\u00e7\u00f5es rurais e ind\u00edgenas, historicamente marginalizadas e violentadas.<a data-contents=\"Ver Carlos Aguirre e Paulo Drinot, eds., (<)em(>)The Peculiar Revolution: Rethinking the Peruvian Experiment Under Military Rule(<)\/em(>) (Austin: University of Texas Press, 2017).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-2\" href=\"#footnote-list-2\">2<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Ver Carlos Aguirre e Paulo Drinot, eds., (<)em(>)The Peculiar Revolution: Rethinking the Peruvian Experiment Under Military Rule(<)\/em(>) (Austin: University of Texas Press, 2017).<\/span> Essa forma peculiar de capitalismo de Estado rapidamente chegou ao limite. O esfor\u00e7o de industrializa\u00e7\u00e3o n\u00e3o conseguiu superar formas arraigadas de depend\u00eancia econ\u00f4mica, entre elas a depend\u00eancia da importa\u00e7\u00e3o de bens de capital e da disponibilidade de d\u00f3lares. Al\u00e9m disso, o Estado peruano n\u00e3o tinha capacidade nem respaldo pol\u00edtico para alterar estruturalmente a din\u00e2mica de acumula\u00e7\u00e3o. Uma forte press\u00e3o pol\u00edtica, tanto dentro do governo quanto das For\u00e7as Armadas, acabou por encerrar essas ambi\u00e7\u00f5es desenvolvimentistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir do final dos anos 1970, e especialmente ap\u00f3s o Choque Volcker de 1979, o Peru foi atingido por sucessivas crises de balan\u00e7o de pagamentos, interven\u00e7\u00f5es do FMI e uma s\u00e9rie de experimenta\u00e7\u00f5es de pol\u00edtica econ\u00f4mica feitas por governos democr\u00e1ticos de direita e de esquerda. Programas de choque ortodoxos e heterodoxos, assim como alternativas gradualistas, falharam em conduzir a economia do pa\u00eds a uma trajet\u00f3ria de crescimento sustent\u00e1vel e desenvolvimento industrial. As crises foram agravadas pela intensa migra\u00e7\u00e3o interna do campo para as cidades, que ampliou a for\u00e7a de trabalho informal e subempregada nos centros urbanos. Durante os anos 1980, a ofensiva do grupo guerrilheiro mao\u00edsta Sendero Luminoso e a guerra suja promovida pelo Estado peruano em resposta resultaram em quase 70 mil mortes, sobretudo em comunidades camponesas. A \u201cd\u00e9cada perdida\u201d da d\u00edvida e da hiperinfla\u00e7\u00e3o assumiu, no Peru, uma forma especialmente violenta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alberto Fujimori foi eleito em 1990 com uma plataforma que rejeitava as pol\u00edticas neoliberais, mas mudou de rumo antes mesmo de tomar posse. O chamado \u201cFujishock\u201d\u2014uma retirada abrupta dos subs\u00eddios e dos controles de pre\u00e7os, acompanhada da ado\u00e7\u00e3o de um regime de c\u00e2mbio flutuante que fez os pre\u00e7os de produtos essenciais dobrarem ou triplicarem da noite para o dia\u2014foi seguido por profundas reformas estruturais, privatiza\u00e7\u00f5es e pelo desmonte generalizado das estruturas do Estado desenvolvimentista, incluindo a extin\u00e7\u00e3o do banco nacional de desenvolvimento e dos \u00f3rg\u00e3os de planejamento. Sob o pretexto de combater a hiperinfla\u00e7\u00e3o, Fujimori dissolveu o Congresso, destituiu o Judici\u00e1rio e, com o apoio das For\u00e7as Armadas, concentrou poderes ditatoriais. Seguiu-se uma campanha brutal de pris\u00f5es e demiss\u00f5es que substituiu jornalistas, ju\u00edzes e funcion\u00e1rios p\u00fablicos por representantes do regime.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1993, Fujimori prop\u00f4s uma nova Constitui\u00e7\u00e3o, aprovada em consulta popular por 52% dos votos. Al\u00e9m de concentrar poderes pol\u00edticos no Executivo, a Constitui\u00e7\u00e3o consagrou um programa econ\u00f4mico inspirado no modelo de Pinochet, proibindo pol\u00edticas discriminat\u00f3rias contra o investimento estrangeiro e a ado\u00e7\u00e3o de controles cambiais. As atribui\u00e7\u00f5es do Banco Central do Peru foram limitadas \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da estabilidade de pre\u00e7os e o financiamento monet\u00e1rio do governo foi proibido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como uma economia pequena e subitamente aberta em um mundo globalizado, o Peru aprofundou sua posi\u00e7\u00e3o de exportador de commodities. Um novo c\u00f3digo de minera\u00e7\u00e3o, respaldado pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1993, privatizou integralmente o setor e garantiu aos investidores estrangeiros as mesmas condi\u00e7\u00f5es de acesso \u00e0 atividade que os investidores nacionais.<a data-contents=\"Ver S. Gruber e J. C. Orihuela, \u201cDeeply Rooted Grievance, Varying Meaning: The Institution of the Mining Canon,\u201d em (<)em(>)Resource Booms and Institutional Pathways: The Case of the Extractive Industry in Peru(<)\/em(>), ed. E. Dargent et al. (London: Palgrave Macmillan, 2017), 41\u201367.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-3\" href=\"#footnote-list-3\">3<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Ver S. Gruber e J. C. Orihuela, \u201cDeeply Rooted Grievance, Varying Meaning: The Institution of the Mining Canon,\u201d em (<)em(>)Resource Booms and Institutional Pathways: The Case of the Extractive Industry in Peru(<)\/em(>), ed. E. Dargent et al. (London: Palgrave Macmillan, 2017), 41\u201367.<\/span> Um grande n\u00famero de concess\u00f5es constitucionalmente garantidas ofereceu a mineradoras nacionais e estrangeiras <a href=\"https:\/\/larepublica.pe\/opinion\/2024\/03\/29\/contratos-de-estabilidad-tributaria-e-industrias-extractivas-por-humberto-campodonico-1839264\">prote\u00e7\u00e3o contra mudan\u00e7as tribut\u00e1rias<\/a>. Cobre e outros metais passaram a representar mais da metade das exporta\u00e7\u00f5es, enquanto um mercado emergente de exporta\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas chegou a responder por cerca de 15% do total.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"766\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/chart1-pt-d-8-766x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-34130\" style=\"width:565px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/chart1-pt-d-8-766x1024.png 766w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/chart1-pt-d-8-224x300.png 224w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/chart1-pt-d-8-1149x1536.png 1149w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/chart1-pt-d-8-1532x2048.png 1532w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/chart1-pt-d-8-768x1026.png 768w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/chart1-pt-d-8-scaled.png 1915w\" sizes=\"auto, (max-width: 766px) 100vw, 766px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As <a href=\"https:\/\/ipe.org.pe\/la-constitucion-de-la-economia-peruana\/\">interpreta\u00e7\u00f5es<\/a> mais <a href=\"https:\/\/gestion.pe\/opinion\/waldo-mendoza-el-capitulo-economico-de-la-constitucion-de-1993-noticia-2\/\">convencionais<\/a> da economia pol\u00edtica peruana atribuem \u00e0s reformas constitucionais o m\u00e9rito pelo chamado milagre econ\u00f4mico que se seguiu. De fato, entre 1990 e 1996, a infla\u00e7\u00e3o peruana caiu para a casa de um d\u00edgito, enquanto as receitas das privatiza\u00e7\u00f5es e as reformas tribut\u00e1rias recompuseram as contas p\u00fablicas do pa\u00eds. A realidade macroecon\u00f4mica, por\u00e9m, era mais complexa. O crescimento melhorou modestamente, mas permaneceu vol\u00e1til e ficou, em m\u00e9dia, em apenas 1% ao ano. Em 1998, o Banco Central enfrentou um grave desafio quando a R\u00fassia deu calote em sua d\u00edvida externa. O Peru estava particularmente exposto em raz\u00e3o da abertura aos fluxos de capital estrangeiro e do avan\u00e7o da dolariza\u00e7\u00e3o promovido pelas reformas dos anos 1990. Al\u00e9m disso, o Banco Central n\u00e3o conseguiu impedir o in\u00edcio de uma crise banc\u00e1ria provocada pelos desalinhamentos cambiais nos bancos peruanos. Os efeitos recessivos, agravados por desastres naturais como o El Ni\u00f1o e pelo colapso pol\u00edtico do <em>fujimorismo<\/em>, prolongaram-se at\u00e9 2001.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A crise de 1998 foi decisiva para definir a forma como o Banco Central do Peru operaria nas d\u00e9cadas seguintes, levando a uma modera\u00e7\u00e3o de algumas das reformas mais radicais de 1993. Depois da crise, os dirigentes do BCRP, entre eles economistas de orienta\u00e7\u00e3o \u00e0 esquerda, introduziram um novo regime baseado em pol\u00edticas antic\u00edclicas para conter tend\u00eancias deflacion\u00e1rias, na acumula\u00e7\u00e3o de reservas internacionais e na gest\u00e3o t\u00e1cita do c\u00e2mbio flutuante. Na base de tudo isso estava um esfor\u00e7o cont\u00ednuo de desdolariza\u00e7\u00e3o\u2014uma iniciativa que foi muito al\u00e9m do Banco Central e que, como explicou em entrevista o ex-presidente interino do BCRP, Oscar Dancourt, exigiu primeiro derrotar aqueles que defendiam a ado\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar como moeda oficial, a exemplo do que fez o Equador em 2000. Nenhuma dessas caracter\u00edsticas, tampouco a ideia fundamental de administrar a taxa de c\u00e2mbio em conjunto com a estabilidade de pre\u00e7os, estava prevista na lei org\u00e2nica do Banco Central ou na Constitui\u00e7\u00e3o de 1993. Elas foram, antes, resultado de um processo criativo de aprendizado conduzido por um grupo plural de autoridades, que reconheceram os riscos de uma financeiriza\u00e7\u00e3o subordinada. Mas, embora essa modera\u00e7\u00e3o do neoliberalismo tenha contribu\u00eddo para preservar a estabilidade, ela n\u00e3o alterou fundamentalmente a posi\u00e7\u00e3o dependente do pa\u00eds na economia global.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O verdadeiro \u201cmilagre\u201d de crescimento viria no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, depois da ren\u00fancia de Fujimori em 2000, em meio a protestos em massa provocados por um esc\u00e2ndalo de corrup\u00e7\u00e3o e por uma elei\u00e7\u00e3o amplamente considerada fraudulenta. Entre 2002 e 2013, o PIB peruano cresceu, em m\u00e9dia, 6% ao ano. A infla\u00e7\u00e3o permaneceu baixa e a moeda dom\u00e9stica se valorizou, impulsionada pela entrada de capitais decorrente do boom de exporta\u00e7\u00f5es do pa\u00eds. Notavelmente, esse per\u00edodo tamb\u00e9m foi marcado por uma queda expressiva da desigualdade e da pobreza: a taxa de pobreza caiu de 50% no fim do governo Fujimori para 20% em 2018, gra\u00e7as tanto a pol\u00edticas sociais focalizadas quanto ao aumento do emprego e do acesso ao cr\u00e9dito.<a data-contents=\"O emprego n\u00e3o era necessariamente de boa qualidade, e as altas taxas de juros limitavam os benef\u00edcios para os pequenos tomadores de cr\u00e9dito. Assim, embora muitas pessoas tenham sa\u00eddo da pobreza extrema, isso n\u00e3o significou necessariamente que tenham alcan\u00e7ado condi\u00e7\u00f5es de vida dignas.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-4\" href=\"#footnote-list-4\">4<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">O emprego n\u00e3o era necessariamente de boa qualidade, e as altas taxas de juros limitavam os benef\u00edcios para os pequenos tomadores de cr\u00e9dito. Assim, embora muitas pessoas tenham sa\u00eddo da pobreza extrema, isso n\u00e3o significou necessariamente que tenham alcan\u00e7ado condi\u00e7\u00f5es de vida dignas.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, <a href=\"https:\/\/repositorio.pucp.edu.pe\/items\/576e60b0-c1cc-4580-b491-07fa867bfdf8\">acima de tudo<\/a>, essas tend\u00eancias positivas foram sustentadas pelo boom das commodities dos anos 2000, impulsionado pela demanda de mercados emergentes,\u00a0 sobretudo da China, e respons\u00e1vel por beneficiar economias de toda a Am\u00e9rica Latina.<a data-contents=\"Para uma compara\u00e7\u00e3o com a Am\u00e9rica Latina, ver Jos\u00e9 Antonio Ocampo e Luis B\u00e9rtola, (<)em(>)The Economic Development of Latin America since Independence(<)\/em(>) (Oxford: Oxford University Press, 2013).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-5\" href=\"#footnote-list-5\">5<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Para uma compara\u00e7\u00e3o com a Am\u00e9rica Latina, ver Jos\u00e9 Antonio Ocampo e Luis B\u00e9rtola, (<)em(>)The Economic Development of Latin America since Independence(<)\/em(>) (Oxford: Oxford University Press, 2013).<\/span> Com o fim desse superciclo, o crescimento do Peru desacelerou junto com o restante do continente: da m\u00e9dia de 6% registrada nos anos 2000, caiu para 3,5% em 2014 e, depois da pandemia de Covid-19, para um modesto 1,8%. Nos anos p\u00f3s-pandemia, tamb\u00e9m houve uma revers\u00e3o profunda dos avan\u00e7os na redu\u00e7\u00e3o da pobreza. A Covid-19 exp\u00f4s a precariedade dos avan\u00e7os econ\u00f4micos do Peru, dada a rapidez com que milh\u00f5es de pessoas que trabalhavam na economia informal <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S2949856223000077\">perderam suas condi\u00e7\u00f5es de subsist\u00eancia<\/a>. Embora a melhora nos termos de troca\u2014ainda mais favor\u00e1veis do que durante o superciclo\u2014esteja agora levando a uma previs\u00e3o de crescimento de 3,2%, as consequ\u00eancias duradouras da guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Ir\u00e3, somadas \u00e0 turbul\u00eancia dom\u00e9stica e \u00e0 amea\u00e7a do pior El Ni\u00f1o j\u00e1 registrado, colocam essa recupera\u00e7\u00e3o em risco.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Os riscos por tr\u00e1s do sucesso exportador<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As mesmas pol\u00edticas macroecon\u00f4micas que impulsionam o crescimento no Peru tamb\u00e9m produzem desigualdade e precariedade. Economistas como <a href=\"https:\/\/www.scielo.org.mx\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0185-16672011000100005\">Germ\u00e1n Alarco Tosoni<\/a> e <a href=\"https:\/\/repositorio.pucp.edu.pe\/index\/handle\/123456789\/189162\">F\u00e9lix Jim\u00e9nez<\/a> argumentam que o sucesso das exporta\u00e7\u00f5es de produtos prim\u00e1rios provavelmente provocou um quadro de doen\u00e7a holandesa, com os fluxos financeiros gerados pela minera\u00e7\u00e3o valorizando a moeda, deslocando outras atividades de maior valor agregado e enfraquecendo os motores internos da demanda agregada.<a data-contents=\"Uma vers\u00e3o desse argumento, enfatizando a rela\u00e7\u00e3o entre pol\u00edtica monet\u00e1ria e desenvolvimento industrial, foi recentemente retomada por Germ\u00e1n Alarco, Patricia del Hierro e Luis Rodrigo D\u00edaz em (<)em(>)Banca Central y Pol\u00edtica Monetaria en Latinoam\u00e9rica(<)\/em(>) (Lima: Otra Mirada, 2026).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-6\" href=\"#footnote-list-6\">6<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Uma vers\u00e3o desse argumento, enfatizando a rela\u00e7\u00e3o entre pol\u00edtica monet\u00e1ria e desenvolvimento industrial, foi recentemente retomada por Germ\u00e1n Alarco, Patricia del Hierro e Luis Rodrigo D\u00edaz em (<)em(>)Banca Central y Pol\u00edtica Monetaria en Latinoam\u00e9rica(<)\/em(>) (Lima: Otra Mirada, 2026).<\/span> A valoriza\u00e7\u00e3o cambial aumenta a demanda por importa\u00e7\u00f5es, \u00e0 medida que os produtos dom\u00e9sticos que poderiam substitu\u00ed-las s\u00e3o prejudicados pelo processo de reprimariza\u00e7\u00e3o, pressionando a balan\u00e7a comercial. Esses efeitos s\u00e3o mais evidentes na ind\u00fastria. O crescimento registrado nos anos 1990 reverteu de forma ativa a industrializa\u00e7\u00e3o ainda incipiente das d\u00e9cadas anteriores, levando ao que Jim\u00e9nez classificou como \u201cdesindustrializa\u00e7\u00e3o prematura\u201d: a <a href=\"https:\/\/revistas.pucp.edu.pe\/index.php\/economia\/article\/view\/19797\/19848\">contribui\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria para o crescimento econ\u00f4mico<\/a> caiu de 17,7% em 2003 para apenas 6,4% em 2015.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A agricultura tradicional tamb\u00e9m foi gravemente impactada. A abertura comercial do pa\u00eds tornou os alimentos importados cada vez mais competitivos em rela\u00e7\u00e3o aos produtos b\u00e1sicos produzidos internamente. Essa tend\u00eancia \u00e9 refor\u00e7ada pela prefer\u00eancia dos setores de restaurantes e hotelaria por insumos padronizados e de menor custo, como batatas importadas (apesar do Peru ser historicamente o ber\u00e7o da batata cultivada e ainda manter uma produ\u00e7\u00e3o significativa do tub\u00e9rculo). Sem uma interven\u00e7\u00e3o ativa de pol\u00edticas p\u00fablicas, a agricultura tradicional tende ao decl\u00ednio, amea\u00e7ando tanto a seguran\u00e7a alimentar do pa\u00eds quanto o sustento de uma parcela significativa da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O modelo de crescimento do Peru tamb\u00e9m fez do emprego informal uma caracter\u00edstica estrutural. A minera\u00e7\u00e3o emprega poucos trabalhadores: o setor representa atualmente cerca de 9% do PIB e mais de 60% das exporta\u00e7\u00f5es, mas responde diretamente por menos de 2% da for\u00e7a de trabalho. J\u00e1 o setor informal de servi\u00e7os concentra cerca de 70% da popula\u00e7\u00e3o economicamente ativa, embora responda por apenas 17% do PIB. A informalidade tamb\u00e9m est\u00e1 presente no setor formal, que depende de m\u00e3o de obra mais barata e sem prote\u00e7\u00e3o regulat\u00f3ria: aproximadamente um quinto dos trabalhadores informais est\u00e1 empregado em empresas formalmente registradas. Esse modelo preserva hierarquias e desigualdades regionais e gera poucas conex\u00f5es produtivas n\u00e3o extrativistas entre as diferentes atividades econ\u00f4micas espalhadas pelo territ\u00f3rio.<a data-contents=\"Efra\u00edn Gonzales de Olarte apresentou an\u00e1lises sobre a articula\u00e7\u00e3o setorial e espacial da economia peruana em diversos trabalhos. Em um artigo recente, ele mede os diferenciais de produtividade entre os setores formal e informal com o aux\u00edlio de uma matriz de insumo-produto: \u201cInformalidad, productividades e ingresos en el Per\u00fa: An\u00e1lisis sectorial\u201d, Working Paper n\u00ba 546, Departamento de Econom\u00eda, Pontificia Universidad Cat\u00f3lica del Per\u00fa (PUCP), 2025.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-7\" href=\"#footnote-list-7\">7<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Efra\u00edn Gonzales de Olarte apresentou an\u00e1lises sobre a articula\u00e7\u00e3o setorial e espacial da economia peruana em diversos trabalhos. Em um artigo recente, ele mede os diferenciais de produtividade entre os setores formal e informal com o aux\u00edlio de uma matriz de insumo-produto: \u201cInformalidad, productividades e ingresos en el Per\u00fa: An\u00e1lisis sectorial\u201d, Working Paper n\u00ba 546, Departamento de Econom\u00eda, Pontificia Universidad Cat\u00f3lica del Per\u00fa (PUCP), 2025.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, o superciclo das commodities que impulsionou a economia tamb\u00e9m fortaleceu atores informais e ilegais que continuam a disputar o poder regulat\u00f3rio do Estado. Dos que atuam na minera\u00e7\u00e3o informal aos envolvidos com o tr\u00e1fico de drogas, esses atores se beneficiam das possibilidades de lavagem de dinheiro oferecidas pela extensa economia de servi\u00e7os de Lima.<a data-contents=\"Ver Juan Pablo Luna, Andreas E. Feldmann e Eduardo Dargent, \u201cGreater State Capacity, Lesser Stateness: Lessons from the Peruvian Commodity Boom\u201d, (<)em(>)Politics &amp; Society(<)\/em(>) 45, n\u00ba 1 (2017): 3\u201334; e Zara\u00ed Toledo Orozco, \u201cInformal Gold Miners, State Fragmentation, and Resource Governance in Bolivia and Peru\u201d, (<)em(>)Latin American Politics and Society(<)\/em(>) 64, n\u00ba 2 (2022): 45\u201366.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-8\" href=\"#footnote-list-8\">8<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Ver Juan Pablo Luna, Andreas E. Feldmann e Eduardo Dargent, \u201cGreater State Capacity, Lesser Stateness: Lessons from the Peruvian Commodity Boom\u201d, (<)em(>)Politics &amp; Society(<)\/em(>) 45, n\u00ba 1 (2017): 3\u201334; e Zara\u00ed Toledo Orozco, \u201cInformal Gold Miners, State Fragmentation, and Resource Governance in Bolivia and Peru\u201d, (<)em(>)Latin American Politics and Society(<)\/em(>) 64, n\u00ba 2 (2022): 45\u201366.<\/span> Um Estado fraco e limitado governa esses agentes por meio da \u201cn\u00e3o aplica\u00e7\u00e3o das leis\u201d, da \u201ctoler\u00e2ncia deliberada\u201d ou da cumplicidade aberta, admitindo sua atua\u00e7\u00e3o em raz\u00e3o de sua utilidade na gera\u00e7\u00e3o de empregos, como argumentam estudiosos como Alisha Holland.<a data-contents=\"Ver Alisha C. Holland, (<)em(>)Forbearance as Redistribution: The Politics of Informal Welfare in Latin America(<)\/em(>) (Nova York: Cambridge University Press, 2017); e Mat\u00edas Dewey, Cornelia Woll e Lucas Ronconi, \u201cThe Political Economy of Law Enforcement\u201d, MaxPo Discussion Paper n\u00ba 21\/1, Max Planck Sciences Po Center on Coping with Instability in Market Societies, Paris, 2021.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-9\" href=\"#footnote-list-9\">9<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Ver Alisha C. Holland, (<)em(>)Forbearance as Redistribution: The Politics of Informal Welfare in Latin America(<)\/em(>) (Nova York: Cambridge University Press, 2017); e Mat\u00edas Dewey, Cornelia Woll e Lucas Ronconi, \u201cThe Political Economy of Law Enforcement\u201d, MaxPo Discussion Paper n\u00ba 21\/1, Max Planck Sciences Po Center on Coping with Instability in Market Societies, Paris, 2021.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pol\u00edtica de abertura comercial peruana tamb\u00e9m cria vulnerabilidades externas, n\u00e3o apenas na balan\u00e7a comercial, mas em todo o balan\u00e7o de pagamentos. O pa\u00eds <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/full\/10.1111\/dech.12793\">depende<\/a> do investimento estrangeiro direto (IED) para evitar crises no balan\u00e7o de pagamentos. No entanto, essas entradas de capital s\u00e3o acompanhadas por sa\u00eddas financeiras s\u00fabitas e sistem\u00e1ticas, uma vez que as condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis \u00e0 obten\u00e7\u00e3o de altos retornos pelo investimento estrangeiro\u2014como padr\u00f5es regulat\u00f3rios mais baixos, mecanismos de arbitragem internacional e garantias de sa\u00edda f\u00e1cil de capitais, respaldadas pelo elevado volume de reservas internacionais\u2014facilitam a repatria\u00e7\u00e3o dos lucros. Os fluxos financeiros de curto prazo, em particular, est\u00e3o sujeitos a fortes oscila\u00e7\u00f5es repentinas. Os fluxos de IED de longo prazo e a depend\u00eancia das exporta\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m geram riscos para a conta corrente, marcada por um d\u00e9ficit estrutural em servi\u00e7os e rendas prim\u00e1rias. Tanto as exporta\u00e7\u00f5es de bens quanto os investimentos estrangeiros dependem de servi\u00e7os profissionais estrangeiros, como transporte de cargas, expertise cient\u00edfica e consultoria jur\u00eddica e financeira. Assim, os rendimentos gerados pelo IED acabam, em \u00faltima inst\u00e2ncia, financiando um endividamento externo crescente, tanto privado quanto p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"868\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/chart2-pt-d-3-868x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-34133\" style=\"aspect-ratio:0.8945230598221091;width:501px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/chart2-pt-d-3-868x1024.png 868w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/chart2-pt-d-3-254x300.png 254w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/chart2-pt-d-3-1736x2048.png 1736w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/chart2-pt-d-3-767x905.png 767w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/chart2-pt-d-3-1302x1536.png 1302w\" sizes=\"auto, (max-width: 868px) 100vw, 868px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa circula\u00e7\u00e3o de capitais n\u00e3o seria um problema se os fluxos de investimento fossem direcionados para promover mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas e estruturais e ampliar a complexidade da produ\u00e7\u00e3o e das exporta\u00e7\u00f5es peruanas.<a data-contents=\"Para uma discuss\u00e3o mais aprofundada sobre a import\u00e2ncia da mudan\u00e7a estrutural nas economias em desenvolvimento, ver Gabriel Porcile e Giuliano Toshiro Yajima, \u201cNew Structuralism and the Balance-of-Payments Constraint\u201d, (<)em(>)Review of Keynesian Economics(<)\/em(>) 7, n\u00ba 4 (2019): 517\u201336.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-10\" href=\"#footnote-list-10\">10<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Para uma discuss\u00e3o mais aprofundada sobre a import\u00e2ncia da mudan\u00e7a estrutural nas economias em desenvolvimento, ver Gabriel Porcile e Giuliano Toshiro Yajima, \u201cNew Structuralism and the Balance-of-Payments Constraint\u201d, (<)em(>)Review of Keynesian Economics(<)\/em(>) 7, n\u00ba 4 (2019): 517\u201336.<\/span> Em vez disso, esses fluxos est\u00e3o aprofundando ainda mais a reprimariza\u00e7\u00e3o da economia. Em termos minskyanos, como colocam <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/full\/10.1111\/dech.12793\">Samuele Bibi e Sebastian Valdecantos<\/a>, o perfil das contas externas do Peru, quando os ventos das exporta\u00e7\u00f5es perdem for\u00e7a, assume a forma de um esquema de pir\u00e2mide insustent\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa fragilidade estrutural \u00e9 compensada pelo baixo n\u00edvel de gasto p\u00fablico do pa\u00eds, por uma grande for\u00e7a de trabalho informal e de baixos sal\u00e1rios, pelo elevado volume de remessas enviadas por peruanos que vivem no exterior e pelos termos de troca favor\u00e1veis da pauta de exporta\u00e7\u00f5es. As crises de balan\u00e7o de pagamentos s\u00e3o evitadas por meio de aumentos das taxas de juros, que atraem capital estrangeiro; de exig\u00eancias de reservas de natureza macroprudencial, que ajudam a conter os fluxos financeiros de curto prazo; e da acumula\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o de reservas internacionais, utilizadas tanto para intervir no mercado de c\u00e2mbio quanto para desestimular ataques especulativos contra a moeda peruana.<a data-contents=\"Ver Renzo Rossini, \u201cLa pol\u00edtica monetaria del Banco Central de Reserva del Per\u00fa,\u201d em (<)em(>)Pol\u00edtica y estabilidad monetaria en el Per\u00fa,(<)\/em(>) ed. Gustavo Yamada e Diego Winkelried (Lima: Universidad del Pac\u00edfico, 2016).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-11\" href=\"#footnote-list-11\">11<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Ver Renzo Rossini, \u201cLa pol\u00edtica monetaria del Banco Central de Reserva del Per\u00fa,\u201d em (<)em(>)Pol\u00edtica y estabilidad monetaria en el Per\u00fa,(<)\/em(>) ed. Gustavo Yamada e Diego Winkelried (Lima: Universidad del Pac\u00edfico, 2016).<\/span><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"844\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/chart3-pt-d-1-844x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-34136\" style=\"aspect-ratio:0.8574277291263235;width:581px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/chart3-pt-d-1-844x1024.png 844w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/chart3-pt-d-1-247x300.png 247w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/chart3-pt-d-1-767x931.png 767w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/chart3-pt-d-1-1266x1536.png 1266w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/chart3-pt-d-1-1688x2048.png 1688w\" sizes=\"auto, (max-width: 844px) 100vw, 844px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As grandes reservas internacionais do BCRP se tornaram um <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/abs\/pii\/S0164070425000096?via%3Dihub\">pilar<\/a> da estabilidade macroecon\u00f4mica do Peru. A acumula\u00e7\u00e3o de reservas funciona como uma esp\u00e9cie de <a href=\"https:\/\/www.bis.org\/publ\/bppdf\/bispap104q.pdf\">seguro<\/a> <a href=\"https:\/\/www.aeaweb.org\/articles?id=10.1257\/mac.2.2.57\">contra<\/a> a volatilidade dos mercados financeiros, que pode penalizar desproporcionalmente as economias cujas moedas ocupam posi\u00e7\u00f5es inferiores na hierarquia monet\u00e1ria. Trata-se de uma estrat\u00e9gia adotada por diversas economias perif\u00e9ricas desde as instabilidades dos anos 1990. Ainda assim, mesmo em compara\u00e7\u00e3o com outros pa\u00edses latino-americanos, a acumula\u00e7\u00e3o de reservas do Peru \u00e9 particularmente elevada. Na \u00faltima d\u00e9cada, o pa\u00eds n\u00e3o apenas liderou a Am\u00e9rica Latina em reservas internacionais como propor\u00e7\u00e3o do PIB, como tamb\u00e9m acumulou um volume equivalente ao dobro da m\u00e9dia regional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As grandes reservas internacionais conferem ao Peru algum grau de autonomia na condu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica monet\u00e1ria, apesar da abertura da conta de capitais. Elas permitem ao Banco Central reduzir a volatilidade da taxa de c\u00e2mbio e sinalizar aos mercados que h\u00e1 liquidez em moeda estrangeira dispon\u00edvel, acalmando investidores mais apreensivos. Seus custos de oportunidade, por\u00e9m, recebem muito menos aten\u00e7\u00e3o.<a data-contents=\"\u00a0Por exemplo, a acumula\u00e7\u00e3o de reservas implica interven\u00e7\u00f5es esterilizadas do Banco Central, destinadas a reduzir a oferta de moeda e manter a infla\u00e7\u00e3o sob controle. H\u00e1 um debate aberto, inclusive dentro da economia heterodoxa, sobre as vantagens e desvantagens dessas opera\u00e7\u00f5es. Em uma perspectiva cr\u00edtica, Eduardo Torijo-Zane argumenta que essas compras esterilizadas de divisas\u2014comuns em pa\u00edses perif\u00e9ricos, mas particularmente expressivas no caso peruano\u2014carregam os balan\u00e7os dos bancos com t\u00edtulos do Banco Central de alto rendimento e sem risco. Os bancos que atuam como (<)em(>)primary dealers(<)\/em(>) t\u00eam um incentivo permanente a manter instrumentos do BCRP em vez de ampliar a oferta de cr\u00e9dito produtivo ao setor privado, reduzindo o apetite por risco justamente das institui\u00e7\u00f5es com maior capacidade de intermedia\u00e7\u00e3o financeira. Ver \u201cBancos Centrales \u2018Perif\u00e9ricos\u2019: El Caso de Am\u00e9rica Latina\u201d, em (<)em(>)Estructura Productiva y Pol\u00edtica Macroecon\u00f3mica. Enfoques Heterodoxos Desde Am\u00e9rica Latina(<)\/em(>) (CEPAL, 2015).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-12\" href=\"#footnote-list-12\">12<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">\u00a0Por exemplo, a acumula\u00e7\u00e3o de reservas implica interven\u00e7\u00f5es esterilizadas do Banco Central, destinadas a reduzir a oferta de moeda e manter a infla\u00e7\u00e3o sob controle. H\u00e1 um debate aberto, inclusive dentro da economia heterodoxa, sobre as vantagens e desvantagens dessas opera\u00e7\u00f5es. Em uma perspectiva cr\u00edtica, Eduardo Torijo-Zane argumenta que essas compras esterilizadas de divisas\u2014comuns em pa\u00edses perif\u00e9ricos, mas particularmente expressivas no caso peruano\u2014carregam os balan\u00e7os dos bancos com t\u00edtulos do Banco Central de alto rendimento e sem risco. Os bancos que atuam como (<)em(>)primary dealers(<)\/em(>) t\u00eam um incentivo permanente a manter instrumentos do BCRP em vez de ampliar a oferta de cr\u00e9dito produtivo ao setor privado, reduzindo o apetite por risco justamente das institui\u00e7\u00f5es com maior capacidade de intermedia\u00e7\u00e3o financeira. Ver \u201cBancos Centrales \u2018Perif\u00e9ricos\u2019: El Caso de Am\u00e9rica Latina\u201d, em (<)em(>)Estructura Productiva y Pol\u00edtica Macroecon\u00f3mica. Enfoques Heterodoxos Desde Am\u00e9rica Latina(<)\/em(>) (CEPAL, 2015).<\/span> Ao <a href=\"https:\/\/ideas.repec.org\/a\/taf\/rripxx\/v30y2023i1p281-306.html\">desviar capital<\/a> de investimentos produtivos dom\u00e9sticos, a <a href=\"https:\/\/www.taylorfrancis.com\/books\/mono\/10.4324\/9781315670287\/financialisation-emerging-economies-juan-pablo-painceira\">acumula\u00e7\u00e3o de reservas<\/a> mant\u00e9m o pa\u00eds preso a uma posi\u00e7\u00e3o de subordina\u00e7\u00e3o financeira dominada pelo d\u00f3lar. Em vez de serem direcionados para <a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/abs\/10.1080\/10168730600879331\">projetos de desenvolvimento local<\/a>, esses recursos s\u00e3o, em geral, reciclados para o n\u00facleo do sistema financeiro global: as reservas internacionais s\u00e3o predominantemente aplicadas em ativos altamente l\u00edquidos e considerados seguros, como t\u00edtulos do Tesouro dos Estados Unidos. O \u201c<a href=\"https:\/\/ideas.repec.org\/\/p\/hkm\/wpaper\/382009.html\">medo de perder reservas<\/a>\u201d n\u00e3o apenas restringe a autonomia da pol\u00edtica econ\u00f4mica, como tamb\u00e9m estimula uma acumula\u00e7\u00e3o c\u00edclica de reservas para preservar continuamente a confian\u00e7a dos mercados.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Democracia esvaziada<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em um retrocesso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 promessa democr\u00e1tica de transforma\u00e7\u00e3o social que levou \u00e0 queda de Alberto Fujimori no in\u00edcio do mil\u00eanio, a economia pol\u00edtica peruana passou a ser marcada por v\u00ednculos cada vez mais estreitos entre as elites governantes, investidores estrangeiros e interesses empresariais dom\u00e9sticos, todos com interesses convergentes nos setores de minera\u00e7\u00e3o, servi\u00e7os e agroneg\u00f3cio. Em contraste com a narrativa corrente de que a instabilidade pol\u00edtica do Peru seria fruto de incompet\u00eancia (da qual sua pol\u00edtica macroecon\u00f4mica estaria protegida), esses v\u00ednculos sugerem que, como argumentava o falecido soci\u00f3logo peruano Francisco Durand, o fracasso das institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do pa\u00eds est\u00e1 diretamente relacionado \u00e0 sua captura por interesses empresariais.<a data-contents=\"Ver Francisco Durand, \u201cEl problema del fortalecimiento institucional empresarial,\u201d em (<)em(>)Construir instituciones: Democracia, desarrollo y desigualdad en el Per\u00fa desde 1980(<)\/em(>), ed. John Crabtree (Lima: Instituto de Estudios Peruanos, 2006); e John Crabtree e Francisco Durand, (<)em(>)Per\u00fa: \u00c9lites del poder y captura pol\u00edtica(<)\/em(>) (Lima: Red para el Desarrollo de las Ciencias Sociales en el Per\u00fa, 2017).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-13\" href=\"#footnote-list-13\">13<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Ver Francisco Durand, \u201cEl problema del fortalecimiento institucional empresarial,\u201d em (<)em(>)Construir instituciones: Democracia, desarrollo y desigualdad en el Per\u00fa desde 1980(<)\/em(>), ed. John Crabtree (Lima: Instituto de Estudios Peruanos, 2006); e John Crabtree e Francisco Durand, (<)em(>)Per\u00fa: \u00c9lites del poder y captura pol\u00edtica(<)\/em(>) (Lima: Red para el Desarrollo de las Ciencias Sociales en el Per\u00fa, 2017).<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A expans\u00e3o da minera\u00e7\u00e3o, do setor de servi\u00e7os essenciais e do agroneg\u00f3cio tanto provocou resist\u00eancia popular quanto fortaleceu a capacidade repressiva do Estado. Em 2009, o governo peruano publicou decretos que permitiam a explora\u00e7\u00e3o de recursos naturais em terras ind\u00edgenas na Amaz\u00f4nia por empresas privadas. Depois que ind\u00edgenas Awajun e Wampis bloquearam estradas na cidade de Bagua em protesto, o governo enviou a pol\u00edcia, resultando, segundo dados oficiais, na morte de pelo menos dez ind\u00edgenas e 23 policiais, al\u00e9m de mais de 150 feridos. Testemunhas afirmam que o n\u00famero de mortes entre civis foi <a href=\"https:\/\/www.hrw.org\/news\/2009\/06\/10\/peru-investigate-violence-bagua\">subestimado<\/a>. O uso excessivo da for\u00e7a pelo governo, somado \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o do poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico, amea\u00e7a deteriorar ainda mais as condi\u00e7\u00f5es para a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica popular.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A natureza predominantemente extrativista da macroeconomia peruana produziu o que Roger Merino chamou de Estado c\u00ednico: um Estado que se apresenta como empenhado em responder \u00e0s preocupa\u00e7\u00f5es sociais e ambientais da popula\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo em que flexibiliza regula\u00e7\u00f5es para atrair investimento estrangeiro direto. A presid\u00eancia de Ollanta Humala \u00e9 um exemplo emblem\u00e1tico. Humala chegou ao poder em 2011 com uma agenda progressista, prometendo responder \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, mas, sob press\u00e3o constante de setores das elites e da m\u00eddia, nomeou figuras conservadoras para comandar o Minist\u00e9rio da Economia e Finan\u00e7as e o Banco Central. Depois de seis meses, a maioria dos ministros de orienta\u00e7\u00e3o mais \u00e0 esquerda j\u00e1 havia deixado o cargo, e o governo traiu suas promessas de n\u00e3o impor atividades extrativas \u00e0s comunidades, <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/news\/world-latin-america-18980109\">reprimindo violentamente os protestos<\/a> contra a instala\u00e7\u00e3o de uma gigantesca mina de ouro em Cajamarca\u2014protestos que acabaram sendo bem-sucedidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m ficou cada vez mais evidente que o Banco Central possui menos autonomia tecnocr\u00e1tica do que normalmente se sup\u00f5e. Em 2021, a elei\u00e7\u00e3o de Castillo, um professor rural de esquerda, provocou uma enorme sa\u00edda de capitais no curto prazo, pressionando a taxa de c\u00e2mbio, que chegou a quatro soles por d\u00f3lar\u2014o n\u00edvel mais alto desde a introdu\u00e7\u00e3o da moeda, em 1990. Como <a href=\"https:\/\/otramirada.pe\/economia\/esta-el-banco-central-combatiendo-realmente-el-alza-del-dolar\">argumentaram observadores cr\u00edticos na \u00e9poca<\/a>, o Banco Central tinha condi\u00e7\u00f5es de estabilizar o c\u00e2mbio utilizando suas grandes reservas, mas optou por n\u00e3o faz\u00ea-lo. O epis\u00f3dio poderia ser interpretado, como apontaram setores da esquerda, como uma tentativa de pressionar o novo governo a mudar de rumo pol\u00edtico; ou, ao contr\u00e1rio, como evid\u00eancia dos limites da autonomia de pol\u00edtica econ\u00f4mica que o ac\u00famulo de reservas deveria proporcionar, diante do medo disseminado de perd\u00ea-las. De todo modo, a turbul\u00eancia desestabilizou ainda mais a j\u00e1 fr\u00e1gil coaliz\u00e3o de esquerda em torno de Castillo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em geral, l\u00edderes de esquerda t\u00eam dificuldade para avan\u00e7ar contra a prote\u00e7\u00e3o que as elites conferem \u00e0s pol\u00edticas do Banco Central. Quando o ent\u00e3o pr\u00e9-candidato \u00e0 Presid\u00eancia e ex-diretor do Banco Central Alfonso L\u00f3pez Chau prop\u00f4s, neste ano, a cria\u00e7\u00e3o de um fundo soberano, a ideia foi rejeitada como uma viola\u00e7\u00e3o quase sacr\u00edlega das reservas internacionais acumuladas a duras penas pelo Banco Central.<a data-contents=\"Ironicamente, uma proposta muito semelhante foi apresentada em 2025 por Jorge Baca-Campodonico, ex-ministro de Alberto Fujimori e atual assessor de Keiko Fujimori.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-14\" href=\"#footnote-list-14\">14<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Ironicamente, uma proposta muito semelhante foi apresentada em 2025 por Jorge Baca-Campodonico, ex-ministro de Alberto Fujimori e atual assessor de Keiko Fujimori.<\/span> A rea\u00e7\u00e3o que se seguiu obrigou L\u00f3pez Chau a se comprometer a reconduzir Velarde ao cargo caso fosse eleito presidente e a buscar a aprova\u00e7\u00e3o de Velarde para sua pol\u00edtica econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O rec\u00e9m-inaugurado governo de Fujimori deve aprofundar as for\u00e7as que sustentam o chamado paradoxo peruano, seu modelo de crescimento baseado no extrativismo e no investimento estrangeiro direto, bem como o enfraquecimento democr\u00e1tico que ele produz. Ainda assim, o prometido forte controle sobre os mecanismos de poder do Estado dever\u00e1 trazer mudan\u00e7as significativas. Sob o pretexto de combater a inseguran\u00e7a e a criminalidade, o partido da presidente vem defendendo a amplia\u00e7\u00e3o dos poderes repressivos do Estado. Seus aliados aprovaram leis que garantem impunidade \u00e0s for\u00e7as policiais e militares respons\u00e1veis pela repress\u00e3o de manifesta\u00e7\u00f5es, abrindo caminho para novos projetos extrativistas. O sistema internacional de direitos humanos, que no passado funcionava como um mecanismo de conten\u00e7\u00e3o, encontra-se hoje comprometido diante da guinada extrema \u00e0 direita no hemisf\u00e9rio, liderada pelos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Rejeitar a separa\u00e7\u00e3o entre pol\u00edtica e economia \u00e9 essencial para romper com esse padr\u00e3o. \u00c9 somente abrindo espa\u00e7o para a delibera\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica sobre a economia que ser\u00e1 poss\u00edvel construir uma nova agenda desenvolvimentista e democr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 28 de julho, Keiko Fujimori, filha do ex-ditador peruano Alberto Fujimori, tomou posse como presidente do Peru. 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