{"id":33741,"date":"2026-07-30T05:59:00","date_gmt":"2026-07-30T05:59:00","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/?p=33741"},"modified":"2026-07-30T19:16:20","modified_gmt":"2026-07-30T19:16:20","slug":"regime-alimentar-falido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/regime-alimentar-falido\/","title":{"rendered":"Regime alimentar falido\u00a0"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao redor do mundo, governos t\u00eam buscado, \u00e0s pressas, maneiras de enfrentar a <a href=\"https:\/\/www.foreignaffairs.com\/mexico\/governments-survived-inflation\">infla\u00e7\u00e3o de alimentos<\/a>, diante da indigna\u00e7\u00e3o justificada de popula\u00e7\u00f5es que veem a conta do mercado subir muito mais r\u00e1pido do que a renda. Em maio, o governo brit\u00e2nico sugeriu a ado\u00e7\u00e3o de <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/business\/2026\/may\/24\/horror-price-caps-fix-broken-food-system-analysis\">tetos de pre\u00e7os volunt\u00e1rios<\/a> para alimentos essenciais. Executivos do setor supermercadista responderam com a habitual boa vontade: um descreveu a proposta como \u201c<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/business\/2026\/may\/19\/uk-supermarkets-urged-to-consider-voluntary-price-caps-on-essential-foods\">completamente insana<\/a>\u201d; outro a <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/business\/2026\/may\/19\/uk-supermarkets-urged-to-consider-voluntary-price-caps-on-essential-foods\">classificou<\/a> como uma interven\u00e7\u00e3o \u201cdesnecess\u00e1ria, indesejada e injustificada\u201d no mercado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em toda a Europa, \u00e0 medida que a infla\u00e7\u00e3o de alimentos ganhou for\u00e7a desde a pandemia, iniciativas semelhantes se multiplicaram (para um panorama recente, ver o <a href=\"https:\/\/www.project-syndicate.org\/commentary\/affordability-crisis-governments-treating-symptoms-not-causes-by-carolina-alves-1-2026-05\">artigo<\/a> de Carolina Alves no <em>Project Syndicate<\/em>). Alguns pa\u00edses, como Fran\u00e7a e Gr\u00e9cia, apostaram na colabora\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria dos varejistas. Outros foram al\u00e9m, impondo tetos de pre\u00e7os espec\u00edficos (Hungria) ou condicionando isen\u00e7\u00f5es tribut\u00e1rias \u00e0 redu\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os (Espanha). Do outro lado do Atl\u00e2ntico, a alta dos alimentos tamb\u00e9m levou governos a agir: no M\u00e9xico, o governo <a href=\"https:\/\/www.foreignaffairs.com\/mexico\/governments-survived-inflation\">negociou<\/a> com supermercados a cria\u00e7\u00e3o de uma cesta b\u00e1sica com pre\u00e7os fixados; no Brasil, a administra\u00e7\u00e3o de Lula optou por uma medida menos eficaz, manipulando as al\u00edquotas de impostos sobre alguns produtos espec\u00edficos (<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2025\/01\/ministro-diz-que-proposta-de-intervencao-no-preco-de-alimentos-foi-equivoco-de-comunicacao.shtml?utm_source=twitter&amp;utm_medium=social&amp;utm_campaign=twfolha\">evitando<\/a> uma a\u00e7\u00e3o mais ousada depois que vigilantes neoliberais espalharam o p\u00e2nico de que controles estrat\u00e9gicos de pre\u00e7os provocariam escassez). E, em Nova York, Zohran Mamdani come\u00e7a a cumprir sua promessa de campanha de <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/environment\/2025\/jul\/25\/mamdani-nyc-public-grocery-stores\">criar supermercados p\u00fablicos<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O debate sobre formas alternativas de garantir o acesso \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 bem-vindo. Embora economistas convencionais insistam em afirmar que bancos centrais comprometidos com metas de infla\u00e7\u00e3o t\u00eam a situa\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/www.piie.com\/publications\/working-papers\/2024\/analysis-pandemic-era-inflation-11-economies\">sob controle<\/a>, a realidade da crise de acessibilidade vem levando cada vez mais pol\u00edticos a romper com a ortodoxia neoliberal. H\u00e1 raz\u00f5es hist\u00f3ricas para essa preocupa\u00e7\u00e3o. A Primavera \u00c1rabe, na d\u00e9cada de 2010, foi impulsionada, ao menos em parte, <a href=\"https:\/\/iopscience.iop.org\/article\/10.1088\/1748-9326\/11\/3\/035007\/pdf\">pela infla\u00e7\u00e3o dos alimentos<\/a>, e houve in\u00fameros outros epis\u00f3dios em que a alta dos pre\u00e7os da comida, percebida como uma afronta \u00e0 <a href=\"https:\/\/www.jstor.org\/stable\/650244\">economia moral da multid\u00e3o<\/a>, desencadeou revoltas populares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa genealogia, contudo, pode acabar obscurecendo a singularidade do atual regime alimentar global, respons\u00e1vel por determinar tanto a variedade de produtos dispon\u00edveis nas prateleiras dos supermercados quanto seus pre\u00e7os. Embora picos de infla\u00e7\u00e3o dos alimentos n\u00e3o sejam novidade, eles se tornaram, sem d\u00favida,<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2022.2129013\"> mais comuns e mais pronunciados<\/a>, \u00e0 medida que esse regime alimentar espec\u00edfico se revelou incapaz de cumprir a tarefa de alimentar o mundo\u2014especialmente no contexto de<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41467-026-70700-z\"> choques induzidos pelo clima<\/a>. Nos pr\u00f3ximos meses, a combina\u00e7\u00e3o entre a interrup\u00e7\u00e3o do fornecimento de petr\u00f3leo e fertilizantes, em raz\u00e3o do fechamento do <a href=\"https:\/\/theconversation.com\/hormuz-closure-threatens-the-global-food-supply-why-grocery-price-hikes-are-coming-279899\">Estreito de Ormuz<\/a>, e um \u201csuper\u201d <a href=\"https:\/\/www.ecb.europa.eu\/press\/economic-bulletin\/focus\/2023\/html\/ecb.ebbox202306_01~36e78cc75e.en.html\">El Ni\u00f1o<\/a> dever\u00e1 pressionar ainda mais os pre\u00e7os dos alimentos. A reconstru\u00e7\u00e3o de capacidade estatal para enfrentar choques dessa natureza\u2014por meio de <a href=\"https:\/\/peri.umass.edu\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/WP634.pdf\">estoques reguladores<\/a>, redes p\u00fablicas de abastecimento ou pol\u00edticas tribut\u00e1rias\u2014est\u00e1 em andamento, acompanhada de um engajamento cr\u00edtico intensificado com a din\u00e2mica do pr\u00f3prio regime alimentar. A quest\u00e3o \u00e9 saber se medidas emergenciais ser\u00e3o capazes de criar as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o dos processos de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o global de alimentos ou se servir\u00e3o apenas para apagar o inc\u00eandio da vez. Um panorama das origens hist\u00f3ricas do regime alimentar global ajuda a dimensionar a magnitude desse desafio e as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para super\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Uma avalanche de gr\u00e3os\u00a0<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde 1989, o conceito de regime alimentar tornou-se a principal refer\u00eancia para as pesquisas sobre a reorganiza\u00e7\u00e3o capitalista da produ\u00e7\u00e3o mundial de alimentos. Naquele ano, Harriet Friedmann e Philip McMichael publicaram um <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/j.1467-9523.1989.tb00360.x\">artigo seminal<\/a> que, dialogando tanto com a escola francesa da regula\u00e7\u00e3o quanto com a teoria do sistema-mundo, buscava vincular \u201cas rela\u00e7\u00f5es internacionais de produ\u00e7\u00e3o e consumo de alimentos \u00e0s formas de acumula\u00e7\u00e3o que distinguem, em linhas gerais, os diferentes per\u00edodos da transforma\u00e7\u00e3o capitalista desde 1870\u201d. A no\u00e7\u00e3o de regime alimentar inspirava-se, assim, no conceito regulacionista de regime de acumula\u00e7\u00e3o. Friedmann e McMichael identificaram dois regimes alimentares, cada um associado a uma pot\u00eancia hegem\u00f4nica distinta. O primeiro, sob a hegemonia brit\u00e2nica, estendeu-se de 1870 a 1914; o segundo, sob a hegemonia dos Estados Unidos, consolidou-se ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial. Pesquisas posteriores passaram a discutir se estar\u00edamos vivendo hoje sob um <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2015.1101456\">terceiro regime<\/a>, tema ao qual retornaremos mais adiante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se o primeiro regime alimentar foi estabelecido em 1870, suas origens pol\u00edticas e intelectuais remontam a cerca de meio s\u00e9culo antes, a um dos <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1215\/00182702-2847351\">debates fundacionais<\/a> da economia pol\u00edtica. Enquanto David Ricardo e Thomas Malthus discutiam, na d\u00e9cada de 1810, a determina\u00e7\u00e3o da renda da terra e dos lucros, o debate brit\u00e2nico voltou-se para os pre\u00e7os dos alimentos. Os propriet\u00e1rios de terra temiam que o fim das Guerras Napole\u00f4nicas provocasse uma <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1093\/ereh\/her004\">queda nos pre\u00e7os dos gr\u00e3os<\/a> e comprimisse suas rendas. Essa ansiedade esteve por tr\u00e1s da disputa em torno das chamadas Corn Laws, que acabou se tornando uma das<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/09672567.2025.2509524\"> lutas pol\u00edticas<\/a> mais marcantes da \u00e9poca, opondo os propriet\u00e1rios de terras \u00e0 emergente burguesia industrial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em uma s\u00e9rie de <a href=\"https:\/\/oll.libertyfund.org\/titles\/sraffa-the-works-and-correspondence-of-david-ricardo-vol-4-pamphlets-and-papers-1815-1823\">ensaios<\/a> publicados a partir de 1815, os dois economistas apresentaram posi\u00e7\u00f5es opostas sobre essa controv\u00e9rsia e, ao mesmo tempo, refinaram seus respectivos arcabou\u00e7os te\u00f3ricos. Malthus alinhou-se aos propriet\u00e1rios de terra, defendendo restri\u00e7\u00f5es \u00e0 importa\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os estrangeiros, enquanto Ricardo sustentava a abertura ao livre-com\u00e9rcio. \u201cO interesse do propriet\u00e1rio de terras est\u00e1 sempre em oposi\u00e7\u00e3o ao interesse de todas as demais classes da comunidade\u201d, <a href=\"https:\/\/oll.libertyfund.org\/titles\/sraffa-the-works-and-correspondence-of-david-ricardo-vol-4-pamphlets-and-papers-1815-1823\">afirmava<\/a>. (O ensaio de Ricardo n\u00e3o apenas lan\u00e7ou as bases de sua principal obra, publicada alguns anos depois, como tamb\u00e9m apresentou sua hip\u00f3tese sobre a tend\u00eancia de longo prazo \u00e0 queda da taxa de lucro, posteriormente criticamente apropriada por Marx e transformada em um dos grandes debates do marxismo.) Num primeiro momento, os propriet\u00e1rios de terra prevaleceram e conseguiram impor restri\u00e7\u00f5es \u00e0s importa\u00e7\u00f5es. Na d\u00e9cada de 1840, por\u00e9m, quando a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as pol\u00edticas se voltou contra eles, as Corn Laws foram revogadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A elimina\u00e7\u00e3o das restri\u00e7\u00f5es \u00e0s importa\u00e7\u00f5es deu origem ao que Harriet Friedmann chamou de \u201co primeiro mercado de um bem essencial \u00e0 vida regulado por pre\u00e7os\u201d: um mercado internacional, ou seja, com<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2015.1101456\"> pre\u00e7os mundiais para os alimentos<\/a>. A consolida\u00e7\u00e3o desse mercado exigiu a constru\u00e7\u00e3o da infraestrutura necess\u00e1ria para transportar gr\u00e3os por longas dist\u00e2ncias, processo que se desenrolou ao longo das d\u00e9cadas seguintes. Entre 1840 e 1880, a \u00e1rea cultivada no mundo <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/j.1467-9523.1989.tb00360.x\">cresceu 50%<\/a>, sendo metade dessa expans\u00e3o concentrada na Am\u00e9rica do Norte e na Austr\u00e1lia. Nas tr\u00eas d\u00e9cadas seguintes, o com\u00e9rcio internacional de produtos prim\u00e1rios <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/j.1467-9523.1989.tb00360.x\">triplicou<\/a>. Apenas as exporta\u00e7\u00f5es de trigo dos Estados Unidos para a Europa cresceram <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2022.2129013\">quarenta vezes<\/a> na segunda metade do s\u00e9culo XIX. Pela primeira vez na hist\u00f3ria, a subsist\u00eancia b\u00e1sica da popula\u00e7\u00e3o europeia passou a depender do com\u00e9rcio de longa dist\u00e2ncia, em especial da importa\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os das \u201ccol\u00f4nias de povoamento\u201d: Estados Unidos, Canad\u00e1, Argentina, Austr\u00e1lia e Nova Zel\u00e2ndia. Nas<a href=\"https:\/\/www.penguin.co.uk\/books\/461123\/the-great-transformation-by-polanyi-karl\/9780241685556\"> palavras<\/a> de Karl Polanyi, \u201cAssim que os grandes investimentos na constru\u00e7\u00e3o de navios a vapor e ferrovias amadureceram . . . uma avalanche de gr\u00e3os abateu-se sobre a combalida Europa.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse primeiro regime alimentar foi um produto inequ\u00edvoco da incessante busca do capital por lucros, aproveitando as oportunidades criadas por um n\u00famero crescente de trabalhadores assalariados urbanos na Europa que precisavam ser alimentados. Os lucros extra\u00eddos da explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores industriais, dos investimentos em ferrovias ao redor do mundo e da compra e venda de gr\u00e3os tinham como premissa esse <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/j.1467-9523.1989.tb00360.x\">novo padr\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o e consumo de alimentos<\/a>. O PIB per capita n\u00e3o \u00e9 uma m\u00e9trica particularmente confi\u00e1vel para esse per\u00edodo, mas os dados ainda assim s\u00e3o reveladores. Segundo o Maddison Project, em 1910, o Reino Unido e as cinco col\u00f4nias de povoamento que o abasteciam com gr\u00e3os figuravam entre os oito pa\u00edses de <a href=\"https:\/\/adamtooze.substack.com\/p\/chartbook-459-spain-v-argentina-1816?utm_campaign=email-half-post&amp;r=6o2nh&amp;utm_source=substack&amp;utm_medium=email\">maior PIB per capita<\/a> do mundo. Os outros dois eram a Su\u00ed\u00e7a e a B\u00e9lgica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com o segundo regime alimentar, na segunda metade do s\u00e9culo XX, a depend\u00eancia das importa\u00e7\u00f5es de alimentos foi globalizada. O aprofundamento da mecaniza\u00e7\u00e3o e da utiliza\u00e7\u00e3o de produtos qu\u00edmicos na agricultura industrial dos EUA, com base em tend\u00eancias j\u00e1 observ\u00e1veis no primeiro regime, criou a necessidade de encontrar mercados para a<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2015.1101456\"> superprodu\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os<\/a> do pa\u00eds. A pol\u00edtica externa de \u201cajuda alimentar\u201d adotada nesse contexto perturbou a produ\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica de alimentos na periferia global e estendeu a depend\u00eancia das importa\u00e7\u00f5es da Europa para a maior parte do mundo, situa\u00e7\u00e3o que se agravou ainda mais nas \u00faltimas d\u00e9cadas. \u201cOs pa\u00edses menos desenvolvidos, em conjunto\u201d, escreveu Jennifer Clapp<a href=\"https:\/\/www.wiley.com\/en-us\/shop\/general-introductory-political-science\/food-3rd-edition-p-9781509541782\"> em 2020<\/a>, \u201ceram exportadores l\u00edquidos de produtos agr\u00edcolas na d\u00e9cada de 1960, mas agora s\u00e3o importadores l\u00edquidos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em uma contratend\u00eancia parcial, a <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2022.2129013\">Revolu\u00e7\u00e3o Verde<\/a>, \u201cque levou todo o pacote de sementes, agroqu\u00edmicos, fertilizantes e maquin\u00e1rio ao mundo em desenvolvimento ao longo das d\u00e9cadas de 1950 a 1980\u201d, aumentou a produ\u00e7\u00e3o em alguns pa\u00edses. Sua consequ\u00eancia \u00faltima, por\u00e9m, foi incorpor\u00e1-los a um sistema alimentar global dominado por corpora\u00e7\u00f5es estrangeiras, deslocando agricultores por meio da concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria e, ao mesmo tempo, <a href=\"https:\/\/newleftreview.org\/sidecar\/posts\/the-great-unfettering\">produzindo as megafavelas<\/a> que se tornaram o s\u00edmbolo dos limites do \u201cdesenvolvimento\u201d perif\u00e9rico. Por fim, outra caracter\u00edstica do segundo regime alimentar foi vincular a agricultura industrial ao <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/j.1467-9523.1989.tb00360.x\">capital industrial<\/a> ao redirecionar sua produ\u00e7\u00e3o cada vez menos aos consumidores finais e cada vez mais \u00e0s empresas de processamento de alimentos, tend\u00eancia que tamb\u00e9m se fortaleceu nas \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Sistema alimentar falido<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos anos 2000, Friedmann e McMichael <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2015.1101456\">divergiram<\/a> quanto \u00e0 caracteriza\u00e7\u00e3o de um poss\u00edvel terceiro regime alimentar, dando origem a um intenso debate na \u00e1rea. Um dos principais pontos de discord\u00e2ncia dizia respeito ao papel relativo das empresas e dos Estados ap\u00f3s a ascens\u00e3o do neoliberalismo. Na interpreta\u00e7\u00e3o de McMichael, esse <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2015.1101456\">terceiro regime<\/a>\u2014que ele denominou de \u201ccorporativo\u201d\u2014seria marcado pela subordina\u00e7\u00e3o dos Estados ao capital global, submetendo-os \u00e0s \u201cregras\u201d impostas pela ideologia do mercado. De fato, as gigantes do agroneg\u00f3cio, cuja ascens\u00e3o come\u00e7ou no segundo regime alimentar, passaram a exercer enorme poder sobre os sistemas alimentares nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Talvez, por\u00e9m, a principal novidade desse per\u00edodo n\u00e3o tenha sido o enfraquecimento do Estado, mas uma reorienta\u00e7\u00e3o deliberada de sua atua\u00e7\u00e3o em favor do grande capital agroalimentar. Em compara\u00e7\u00e3o com outros setores da economia, a produ\u00e7\u00e3o de alimentos sempre esteve mais fortemente condicionada por regula\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas p\u00fablicas. Com o avan\u00e7o do neoliberalismo, essas regula\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas passaram, cada vez mais, a atender aos interesses do agroneg\u00f3cio, em vez de limit\u00e1-los.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, por tr\u00e1s das transi\u00e7\u00f5es entre os diferentes regimes alimentares globais, \u00e9 poss\u00edvel identificar tend\u00eancias de longo prazo: a integra\u00e7\u00e3o crescente da produ\u00e7\u00e3o de alimentos em escala mundial, a mercantiliza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o e a cont\u00ednua concentra\u00e7\u00e3o empresarial em todos os elos da cadeia alimentar, processos cujas origens remontam ao in\u00edcio do s\u00e9culo XIX. Nas <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2022.2129013\">palavras<\/a> de Clapp, \u201cos sucessivos regimes alimentares s\u00e3o, em parte, um produto dos processos de concentra\u00e7\u00e3o desse sistema alimentar industrial global e, ao mesmo tempo, se sobrep\u00f5em a eles\u201d. O regime alimentar contempor\u00e2neo representa o ponto culminante dessas tend\u00eancias, levando a um grau sem precedentes de concentra\u00e7\u00e3o, rigidez e vulnerabilidade acumulado ao longo de mais de dois s\u00e9culos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Basta observar a <a href=\"https:\/\/www.mckinsey.com\/~\/media\/mckinsey\/business%20functions\/sustainability\/our%20insights\/will%20the%20worlds%20breadbaskets%20become%20less%20reliable\/mgi-will-the-worlds-breadbaskets-become-less-reliable.pdf\">dieta<\/a> <a href=\"https:\/\/www.fao.org\/faostat\/en\/#data\">m\u00e9dia<\/a> mundial. Arroz e trigo, sozinhos, respondem por mais de um ter\u00e7o das calorias consumidas diariamente. Se acrescentarmos milho, soja e produtos de origem animal, essa participa\u00e7\u00e3o chega a cerca de 60%. Paralelamente \u00e0 crescente depend\u00eancia global de importa\u00e7\u00f5es de alimentos, muitos pa\u00edses do Sul global\u2014e tamb\u00e9m alguns europeus\u2014importam mais de 10% de todo o gr\u00e3o que consomem. Nos exemplos mais vulner\u00e1veis, essa depend\u00eancia supera metade do consumo nacional e, em alguns casos, chega a tr\u00eas quartos. E a oferta desses gr\u00e3os est\u00e1 concentrada em um n\u00famero <a href=\"https:\/\/atlas.hks.harvard.edu\/explore\/treemap\/\">muito reduzido<\/a> de pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas, cerca de 57% de todo o trigo (e da mistura de trigo com centeio) comercializado internacionalmente foi exportado por apenas cinco pa\u00edses: R\u00fassia, Ucr\u00e2nia, Estados Unidos, Canad\u00e1 e Austr\u00e1lia. No caso do arroz, a concentra\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda maior: \u00cdndia, Tail\u00e2ndia, Paquist\u00e3o, Vietn\u00e3 e Estados Unidos responderam por 72% das exporta\u00e7\u00f5es mundiais. J\u00e1 na soja, a depend\u00eancia \u00e9 extrema: Brasil, Argentina, Paraguai, Estados Unidos e Canad\u00e1 concentraram 95% de todo o com\u00e9rcio internacional. E nem mesmo esses \u201cceleiros do mundo\u201d est\u00e3o livres de rela\u00e7\u00f5es de depend\u00eancia alimentar. No Brasil, por exemplo, a expans\u00e3o acelerada da \u00e1rea plantada com soja nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2023.2259807\">reduziu<\/a> o espa\u00e7o dedicado ao cultivo de alimentos b\u00e1sicos da dieta nacional, como arroz e feij\u00e3o. At\u00e9 mesmo uma emergente superpot\u00eancia agr\u00edcola n\u00e3o escapou \u00e0 infla\u00e7\u00e3o dos alimentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A produ\u00e7\u00e3o e a distribui\u00e7\u00e3o dessa<a href=\"https:\/\/www.editorasenacsp.com.br\/livro\/caminhos-transicao-sistema-agroalimentar?srsltid=AfmBOoqtseyUUjr54pa59rkH-K8sb9OcCa-GyhMuKnVqb3fkjnE1w8e4\"> dieta mon\u00f3tona<\/a>, baseada em um pequeno conjunto de culturas e proveniente de um punhado de pa\u00edses, s\u00e3o controladas por um n\u00famero igualmente reduzido de gigantes corpora\u00e7\u00f5es. Embora, em muitos casos, a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e a pecu\u00e1ria sejam delegadas a uma multid\u00e3o de pequenos e m\u00e9dios produtores, sua autonomia foi drasticamente reduzida pelo car\u00e1ter oligopolista e oligops\u00f4nico dos demais elos da cadeia de abastecimento. Onde quer que estejam, esses produtores compram sementes, fertilizantes, pesticidas, tratores e m\u00e1quinas agr\u00edcolas de um punhado de empresas\u2014o oligop\u00f3lio\u2014e vendem sua produ\u00e7\u00e3o a um n\u00famero igualmente reduzido de grandes comercializadoras\u2014o oligops\u00f4nio. Essas comercializadoras, por sua vez, abastecem um pequeno grupo de gigantes da ind\u00fastria de alimentos, que mascaram essa concentra\u00e7\u00e3o ao encher as prateleiras dos supermercados com uma aparente diversidade de produtos ultraprocessados, pouco variados entre si e produzidos pelas mesmas empresas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os dados compilados por <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.foodpol.2025.102897\">Jennifer Clapp<\/a> e outros pesquisadores mostram que n\u00e3o se trata de um exagero. Em 2015, estimava-se que apenas <a href=\"https:\/\/www.ers.usda.gov\/amber-waves\/2017\/april\/mergers-and-competition-in-seed-and-agricultural-chemical-markets\">quatro corpora\u00e7\u00f5es<\/a> controlavam cerca de tr\u00eas quartos do mercado de sementes de soja, 85% do mercado de sementes de milho e mais de 90% do mercado de sementes de algod\u00e3o. E isso antes de uma <a href=\"https:\/\/www.ers.usda.gov\/amber-waves\/2019\/february\/mergers-in-seeds-and-agricultural-chemicals-what-happened\">nova onda de concentra\u00e7\u00e3o<\/a> na ind\u00fastria de sementes e pesticidas, marcada pelas fus\u00f5es entre Bayer e Monsanto e entre Dow Chemical e DuPont, al\u00e9m da aquisi\u00e7\u00e3o da Syngenta pela ChemChina. Apenas duas empresas <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.foodpol.2025.102897\">controlam 95%<\/a> do mercado mundial de matrizes para a avicultura, enquanto seis corpora\u00e7\u00f5es respondem por <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.foodpol.2025.102897\">60% do com\u00e9rcio e processamento<\/a> de cacau. O com\u00e9rcio internacional de gr\u00e3os continua amplamente dominado pelas empresas conhecidas como ABCD\u2014ADM, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus\u2014que, somadas \u00e0 chinesa COFCO, <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.foodpol.2025.102897\">concentram cerca de 90%<\/a> desse mercado. Esses s\u00e3o apenas alguns exemplos de uma <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.foodpol.2025.102897\">lista muito mais extensa<\/a>, que inclui os mercados de agroqu\u00edmicos, m\u00e1quinas agr\u00edcolas, com\u00e9rcio de bananas e refrigerantes. Como Clapp e seus coautores <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.foodpol.2025.102897\">argumentam<\/a>, essas empresas<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">desempenham um papel importante na determina\u00e7\u00e3o dos alimentos aos quais as pessoas t\u00eam acesso e podem pagar, da remunera\u00e7\u00e3o que os produtores recebem ao vender suas safras para as cadeias de abastecimento alimentar, dos m\u00e9todos de produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola empregados, das condi\u00e7\u00f5es de trabalho dos trabalhadores do sistema alimentar e das oportunidades para que os atores do sistema alimentar participem das pol\u00edticas e da governan\u00e7a.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tem-se <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2021.1986012\">discutido<\/a> se a crescente centralidade da China e do Brasil no regime alimentar global, acompanhada da ascens\u00e3o de empresas desses pa\u00edses\u2014como COFCO e JBS\u2014, poderia desafiar esse padr\u00e3o de concentra\u00e7\u00e3o. At\u00e9 o momento, por\u00e9m, isso n\u00e3o ocorreu. A entrada da COFCO, por exemplo, apenas transformou um oligops\u00f4nio de quatro empresas em um oligops\u00f4nio de cinco, sem alterar de forma significativa as pr\u00e1ticas do setor nem as rela\u00e7\u00f5es de poder que estruturam as cadeias agroalimentares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2022.2129013\">sobreposi\u00e7\u00e3o dessas concentra\u00e7\u00f5es<\/a>\u2014poucas culturas produzidas em poucos pa\u00edses e distribu\u00eddas por cadeias dominadas por poucas empresas\u2014resulta em um sistema alimentar especialmente vulner\u00e1vel a choques. E esses choques tornaram-se cada vez mais frequentes. Recentemente, o aumento das tens\u00f5es geopol\u00edticas afetou o sistema alimentar ao interromper importantes polos de produ\u00e7\u00e3o, como a Ucr\u00e2nia, e rotas estrat\u00e9gicas de <a href=\"https:\/\/www.chathamhouse.org\/sites\/default\/files\/publications\/research\/2017-06-27-chokepoints-vulnerabilities-global-food-trade-bailey-wellesley-final.pdf\">transporte<\/a>, como o Mar Negro e o Estreito de Ormuz. Ao mesmo tempo, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas ampliam o risco de <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41467-026-70700-z\">secas simult\u00e2neas<\/a> em diferentes regi\u00f5es produtoras, agravando ainda mais as amea\u00e7as \u00e0 seguran\u00e7a alimentar global. Um <a href=\"https:\/\/www.mckinsey.com\/~\/media\/mckinsey\/business%20functions\/sustainability\/our%20insights\/will%20the%20worlds%20breadbaskets%20become%20less%20reliable\/mgi-will-the-worlds-breadbaskets-become-less-reliable.pdf\">estudo publicado em 2020<\/a> estimou que a probabilidade de uma quebra simult\u00e2nea de safras em m\u00faltiplos grandes celeiros agr\u00edcolas, ao menos uma vez por d\u00e9cada, aumentar\u00e1 de 10% para 34% at\u00e9 2050.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo o <a href=\"https:\/\/www.fao.org\/worldfoodsituation\/foodpricesindex\/en\/\">\u00cdndice de Pre\u00e7os dos Alimentos da FAO<\/a> (Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e a Agricultura), ap\u00f3s um forte epis\u00f3dio de infla\u00e7\u00e3o de alimentos no in\u00edcio dos anos 1970, os pre\u00e7os permaneceram relativamente est\u00e1veis durante as tr\u00eas d\u00e9cadas seguintes. Desde meados dos anos 2000, por\u00e9m, o mundo atravessou duas grandes crises de pre\u00e7os de alimentos: a primeira coincidiu com a crise financeira global de 2008; a segunda teve in\u00edcio durante a pandemia de Covid-19. A queda observada ap\u00f3s a crise do fim dos anos 2000 foi modesta, mantendo os pre\u00e7os em um patamar significativamente superior ao da tend\u00eancia anterior. E a combina\u00e7\u00e3o da crise dos fertilizantes com o \u201csuper\u201d El Ni\u00f1o tende a prolongar os efeitos da escalada de pre\u00e7os iniciada durante a pandemia. Como seria de esperar, estudos v\u00eam demonstrando repetidamente que os efeitos desses epis\u00f3dios recaem de forma muito mais severa sobre os pa\u00edses mais pobres do Sul global. Quando a escassez se instala, as economias mais ricas mobilizam seu poder de compra para assegurar o pr\u00f3prio abastecimento, enquanto o restante do mundo disputa as migalhas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"916\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/chart1-pt-d-7-916x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-33742\" srcset=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/chart1-pt-d-7-916x1024.png 916w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/chart1-pt-d-7-268x300.png 268w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/chart1-pt-d-7-768x858.png 768w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/chart1-pt-d-7-1374x1536.png 1374w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/chart1-pt-d-7-1832x2048.png 1832w\" sizes=\"auto, (max-width: 916px) 100vw, 916px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sistema alimentar global n\u00e3o apenas falha em garantir um abastecimento est\u00e1vel de alimentos a pre\u00e7os acess\u00edveis, mas tamb\u00e9m nutre muitas das tend\u00eancias estruturais que o impedem de faz\u00ea-lo. Por meio de seus impactos ecol\u00f3gicos, acaba cavando a pr\u00f3pria cova, tanto em escala local quanto global. Os leitores desta coluna j\u00e1 conhecem a amea\u00e7a que o complexo soja-carne representa \u00e0 <a href=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/battlefield-amazonia-2\/\">Amaz\u00f4nia<\/a>, um bioma crucial para a estabilidade clim\u00e1tica do planeta e um dos principais pilares do atual regime alimentar. O desmatamento impulsionado pela expans\u00e3o da pecu\u00e1ria e da soja altera os <a href=\"https:\/\/www.amazonconservation.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/EN_Flying-Rivers.pdf\">regimes de chuva<\/a> dos quais essas pr\u00f3prias atividades dependem. Na Indon\u00e9sia, as <a href=\"https:\/\/yalebooks.co.uk\/book\/9780300272482\/saving-a-rainforest-and-losing-the-world\/\">florestas tropicais<\/a> v\u00eam sendo devastadas pela expans\u00e3o das planta\u00e7\u00f5es de dend\u00ea voltadas ao abastecimento da ind\u00fastria de alimentos processados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De forma mais ampla, como <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/09692290.2023.2180769\">observam<\/a> Mart\u00edn Arboleda e seus coautores, o sistema agroalimentar globalizado constitui \u201co principal vetor da perda de biodiversidade, da exaust\u00e3o dos recursos h\u00eddricos e da degrada\u00e7\u00e3o dos solos em escala planet\u00e1ria\u201d. Estimativas sugerem que, quando se consideram as mudan\u00e7as no uso da terra, o transporte, as embalagens, o varejo e o desperd\u00edcio, o sistema alimentar responde por algo entre um <a href=\"https:\/\/www.annualreviews.org\/content\/journals\/10.1146\/annurev-environ-020411-130608\">quinto<\/a> e um <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/09692290.2023.2180769\">ter\u00e7o<\/a> de todas as emiss\u00f5es globais de gases de efeito estufa. Ao contribuir para o aquecimento global, esse sistema alimentar baseado em combust\u00edveis f\u00f3sseis\u2014\u201c<a href=\"https:\/\/www.annualreviews.org\/content\/journals\/10.1146\/annurev-environ-020411-130608\">fossil food<\/a>\u201d\u2014ajuda a produzir os eventos clim\u00e1ticos extremos que acabam interrompendo o funcionamento das pr\u00f3prias cadeias de produ\u00e7\u00e3o e abastecimento.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O futuro da comida<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo de sua consolida\u00e7\u00e3o, o atual sistema alimentar global encontrou resist\u00eancia constante, sobretudo por parte dos <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2016.1143816\">movimentos camponeses<\/a> que se levantaram contra a expropria\u00e7\u00e3o de terras, os deslocamentos for\u00e7ados, a expans\u00e3o das monoculturas e a destrui\u00e7\u00e3o de modos de vida e tradi\u00e7\u00f5es culturais. Esses movimentos conquistaram vit\u00f3rias importantes e influenciaram pol\u00edticas p\u00fablicas e institui\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o conseguiram impedir que as grandes corpora\u00e7\u00f5es agroalimentares consolidassem sua posi\u00e7\u00e3o dominante. Na \u00faltima d\u00e9cada, por\u00e9m, as patologias desse regime alimentar\u2014entre elas a infla\u00e7\u00e3o de alimentos\u2014somaram-se ao aprofundamento das crises social, econ\u00f4mica e ecol\u00f3gica, desencadeando sucessivas revoltas contra o status quo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda assim, os interesses dominantes do agroneg\u00f3cio permaneceram, em grande medida, imunes \u00e0 contesta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Mais do que isso, os movimentos de extrema direita que ganharam for\u00e7a nesse per\u00edodo conseguiram mobilizar agricultores\u2014nas <a href=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/republicas-da-soja\/\">Am\u00e9ricas<\/a> e na <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/2024\/dec\/06\/2024-greenlash-climate-breakdown-europeans-climate-action\">Europa<\/a>\u2014contra as pol\u00edticas ambientais, e n\u00e3o contra as corpora\u00e7\u00f5es que os subordinam. Em alguns pa\u00edses, esses setores sociais foram decisivos para fortalecer partidos reacion\u00e1rios, bloqueando, ao menos por enquanto, alternativas democr\u00e1ticas e inclusivas ao atual sistema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o, portanto, \u00e9 saber se as medidas emergenciais voltadas ao enfrentamento da infla\u00e7\u00e3o dos alimentos podem romper esse c\u00edrculo vicioso e reabrir a possibilidade de transformar a forma como produzimos e distribu\u00edmos alimentos. H\u00e1, sem d\u00favida, espa\u00e7o para reduzir os efeitos mais nocivos do sistema atual por meio de pol\u00edticas que elevem os padr\u00f5es regulat\u00f3rios, diminuam a concentra\u00e7\u00e3o ao longo da cadeia agroalimentar e moderem a volatilidade dos pre\u00e7os, como os <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/2024\/dec\/06\/2024-greenlash-climate-breakdown-europeans-climate-action\">estoques reguladores<\/a> defendidos por Isabella Weber e outros autores. A import\u00e2ncia dessas medidas n\u00e3o deve ser subestimada em um mundo no qual quase um d\u00e9cimo da popula\u00e7\u00e3o enfrenta a <a href=\"https:\/\/openknowledge.fao.org\/server\/api\/core\/bitstreams\/e3c60970-7123-4de4-9d82-81f4a08912e4\/content\">fome<\/a>, enquanto mais de um quarto vive em situa\u00e7\u00e3o de <a href=\"https:\/\/openknowledge.fao.org\/server\/api\/core\/bitstreams\/e3c60970-7123-4de4-9d82-81f4a08912e4\/content\">inseguran\u00e7a alimentar moderada ou grave<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, \u00e9 pouco prov\u00e1vel que qualquer sistema alimentar baseado na mercantiliza\u00e7\u00e3o dos alimentos e na busca incessante por lucros consiga reverter a tend\u00eancia \u00e0 crescente concentra\u00e7\u00e3o e centraliza\u00e7\u00e3o do capital, para usar a <a href=\"https:\/\/www.penguin.co.uk\/books\/35192\/capital-by-karl-marx-intro-ernest-mandel-trans-ben-fowkes\/9780140445688\">express\u00e3o de Marx<\/a>. A hist\u00f3ria dos \u00faltimos dois s\u00e9culos sugere que essa din\u00e2mica de concentra\u00e7\u00e3o produz, de forma recorrente, degrada\u00e7\u00e3o ambiental e inseguran\u00e7a alimentar, ainda que alguns de seus outros efeitos negativos, como o aumento da desigualdade, possam ser atenuados. Essa \u00e9, provavelmente, a principal li\u00e7\u00e3o da literatura sobre a hist\u00f3ria do sistema alimentar global.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em seus prim\u00f3rdios, a transforma\u00e7\u00e3o capitalista da produ\u00e7\u00e3o e da distribui\u00e7\u00e3o de alimentos elevou significativamente a produtividade, permitindo sustentar uma parcela cada vez maior da popula\u00e7\u00e3o concentrada nas cidades. Mas esse desenvolvimento, orientado pela busca do lucro e n\u00e3o pelo objetivo de garantir uma alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel e suficiente para toda a sociedade, produziu um sistema alimentar marcado pela acumula\u00e7\u00e3o de vulnerabilidades: um sistema que degradou o meio ambiente, difundiu alimentos ultraprocessados e, ao final, fracassou em cumprir a promessa que lhe dava legitimidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma alternativa desmercantilizada pode assumir diferentes formas. Uma possibilidade seria substituir a l\u00f3gica homogeneizadora que marcou os \u00faltimos dois s\u00e9culos por uma l\u00f3gica da diversidade, baseada em pr\u00e1ticas agroecol\u00f3gicas. Isso significaria aprofundar o legado das resist\u00eancias camponesas, n\u00e3o para fazer a agricultura retroceder ao s\u00e9culo XVIII, mas para ampliar as formas inovadoras pelas quais a agroecologia tem conseguido conciliar t\u00e9cnicas modernas e conserva\u00e7\u00e3o ambiental, renovando uma multiplicidade de tradi\u00e7\u00f5es alimentares, agr\u00edcolas e culturais. Nas <a href=\"https:\/\/newleftreview.org\/sidecar\/posts\/the-great-unfettering\">palavras<\/a> de Kai Heron, esse caminho significaria \u201clibertar os produtores do mundo para escolher entre um conjunto mais rico e diverso de tecnologias e rela\u00e7\u00f5es socioecol\u00f3gicas do que aquele oferecido pela industrializa\u00e7\u00e3o capitalista\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2022.2129013\">ampla<\/a> <a href=\"https:\/\/www.imperial.ac.uk\/media\/imperial-college\/faculty-of-natural-sciences\/centre-for-environmental-policy\/protective-foods-that-protect-the-planet\/public\/Food-Sovereignty-in-Practice-Developing-Climate-Resilient-Food-Systems.pdf\">converg\u00eancia<\/a> <a href=\"https:\/\/digitallibrary.un.org\/record\/756817\/?v=pdf\">entre<\/a> os pesquisadores que estudam o tema nessa dire\u00e7\u00e3o. Ainda assim, parte da esquerda permanece c\u00e9tica. Matt Huber, por exemplo, <a href=\"https:\/\/newleftreview.org\/sidecar\/posts\/mish-mash-ecologism\">argumenta<\/a> que \u201ca inclina\u00e7\u00e3o ecossocialista a um retorno \u00e0 agricultura de pequena escala . . . implica fome, quando n\u00e3o inani\u00e7\u00e3o, para as megafavelas do mundo\u201d. De modo semelhante, George Monbiot <a href=\"https:\/\/www.penguin.co.uk\/books\/317018\/regenesis-by-monbiot-george\/9780141992990\">afirma<\/a> que \u201c\u00e9 imposs\u00edvel alimentar o mundo com uma agroecologia de baixa produtividade\u201d. Ambos depositam suas esperan\u00e7as em alternativas tecnol\u00f3gicas, como a carne cultivada em laborat\u00f3rio, cujo desenvolvimento, segundo Huber, floresceria caso fosse desvinculado das rela\u00e7\u00f5es sociais capitalistas. Essas cr\u00edticas ecomodernistas s\u00e3o \u00fateis porque direcionam o debate para quest\u00f5es centrais, como a forma de medir a produtividade em <a href=\"https:\/\/newleftreview.org\/issues\/ii138\/articles\/harriet-friedmann-farming-futures.pdf\">sistemas agr\u00edcolas diversificados<\/a> e o papel da <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S2211912417301293\">agricultura familiar<\/a> no abastecimento alimentar. H\u00e1 evid\u00eancias, por exemplo, de que propriedades com menos de dois hectares, \u00e0 margem do sistema alimentar global, s\u00e3o respons\u00e1veis por cerca de <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S2211912417301293\">um ter\u00e7o da oferta mundial<\/a> de alimentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De todo modo, reconhecer que o sistema atual est\u00e1 em crise \u00e9 um pr\u00e9-requisito indispens\u00e1vel para imaginar essas poss\u00edveis alternativas desmercantilizadas, compreender suas implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e ecol\u00f3gicas e identificar os obst\u00e1culos \u00e0 sua concretiza\u00e7\u00e3o. Para isso, \u00e9 essencial conhecer em profundidade o funcionamento do sistema alimentar contempor\u00e2neo, de modo a construir uma pol\u00edtica capaz de transform\u00e1-lo\u2014das <a href=\"https:\/\/www.cambridge.org\/core\/books\/neoextractivism-in-latin-america\/EB7C46C43B99ABE7C72F9F43A1CC842D\">lutas ecoterritoriais<\/a> travadas nas principais regi\u00f5es produtoras \u00e0s disputas em torno do abastecimento e dos pre\u00e7os dos alimentos nos pa\u00edses importadores. O que est\u00e1 em jogo \u00e9 muito mais do que a alimenta\u00e7\u00e3o. A manuten\u00e7\u00e3o do status quo apenas aprofunda a inseguran\u00e7a alimentar e alimenta a regress\u00e3o pol\u00edtica. 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