{"id":33248,"date":"2026-07-06T21:17:40","date_gmt":"2026-07-06T21:17:40","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/nao-categorizado\/miami-syndrome\/"},"modified":"2026-07-10T11:54:44","modified_gmt":"2026-07-10T11:54:44","slug":"sindrome-miami","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/sindrome-miami\/","title":{"rendered":"S\u00edndrome de Miami"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A antecipa\u00e7\u00e3o define Miami. A cidade foi constru\u00edda no in\u00edcio do s\u00e9culo XX em um terreno antes inabit\u00e1vel, sobre ilhas artificiais formadas a partir de material dragado do oceano e financiada pela especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria apoiada pelo Estado, que desde ent\u00e3o molda seu crescimento ao longo de sucessivos ciclos de expans\u00e3o e crise. A riqueza \u00e9 produzida pela expectativa do que est\u00e1 por vir: novas ondas de moradores, novos empreendimentos imobili\u00e1rios, fluxos de capitais e valoriza\u00e7\u00e3o de ativos. A antecipa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m desempenha um papel central no <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/02723638.2024.2348957\">regime de gest\u00e3o de riscos<\/a> da Fl\u00f3rida\u2014tanto no mercado de seguros privados quanto nas finan\u00e7as p\u00fablicas\u2014, que busca se adaptar \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas que amea\u00e7am submergir o sul do estado at\u00e9 o fim do s\u00e9culo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, h\u00e1 mais de meio s\u00e9culo, quase todos os olhares em Miami se voltam para um horizonte espec\u00edfico: a perspectiva de mudan\u00e7a pol\u00edtica em Cuba. Havana fica a apenas 370 quil\u00f4metros de Miami, uma dist\u00e2ncia menor do que a que separa Miami de Tampa, a segunda maior cidade da Fl\u00f3rida. No bairro de Coconut Grove, \u00e0s margens da Ba\u00eda de Biscayne, a prefeitura de Miami ocupa o antigo terminal de hidroavi\u00f5es da Pan American, que durante a Grande Depress\u00e3o ligava a cidade a Havana por meio de voos di\u00e1rios. O edif\u00edcio foi requisitado pela Marinha durante a Segunda Guerra Mundial, quando Miami serviu como importante base militar. No p\u00f3s-guerra, o retorno dos soldados impulsionou um boom populacional e a <a href=\"https:\/\/www.miamidade.gov\/planning\/library\/historic-preservation\/from-metropolis-to-global-city.pdf\">expans\u00e3o suburbana<\/a>. Ainda assim, Miami mantinha uma economia tur\u00edstica relativamente modesta e era marcada por profundas divis\u00f5es raciais nas d\u00e9cadas de 1950 e 1960, agravadas pela constru\u00e7\u00e3o de rodovias que isolavam os bairros negros. Foi somente ap\u00f3s 1959, com o \u00eaxodo de pessoas e capitais provocado pela Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, que Miami passou por uma profunda revitaliza\u00e7\u00e3o. Os exilados cubanos, muitos deles integrantes da elite pr\u00e9-revolucion\u00e1ria, transformaram a antiga cidade tur\u00edstica de inverno, frequentada principalmente por visitantes do nordeste dos Estados Unidos, em um centro internacional de neg\u00f3cios. Hoje, cerca de 1,2 milh\u00e3o de cubano-americanos vivem em Miami-Dade, constituindo mais de metade da popula\u00e7\u00e3o do condado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Crise dos M\u00edsseis de 1962 consolidou a Fl\u00f3rida como um dos principais basti\u00f5es ideol\u00f3gicos e militares dos Estados Unidos na luta contra o comunismo e outros inimigos do conservadorismo. At\u00e9 hoje, o estado\u2014que sedia tr\u00eas dos principais comandos militares de combate dos EUA\u2014cumpre esse papel com entusiasmo. Desde a pandemia de Covid-19, que a lideran\u00e7a republicana da Fl\u00f3rida enxergou como uma oportunidade para atrair empresas e moradores para seu \u201cterrit\u00f3rio livre\u201d, Miami se transformou em um playground de bilion\u00e1rios, vivendo uma explos\u00e3o da atividade econ\u00f4mica que lhe rendeu o apelido de \u201cWall Street do Sul\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos \u00faltimos meses, gra\u00e7as \u00e0 ofensiva do governo Trump contra a Venezuela e ao endurecimento do bloqueio petrol\u00edfero a Cuba, as expectativas de uma mudan\u00e7a pol\u00edtica em Havana voltaram a ganhar for\u00e7a. Trump <a href=\"https:\/\/www.navytimes.com\/news\/your-navy\/2026\/05\/21\/uss-nimitz-arrives-in-caribbean-as-us-cuba-tension-mounts\/\">deslocou navios de guerra<\/a> do Oriente M\u00e9dio para a regi\u00e3o de Cuba e intensificou as san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e as <a href=\"https:\/\/edition.cnn.com\/2026\/05\/10\/americas\/us-spy-flights-cuba-latam-intl\">opera\u00e7\u00f5es de intelig\u00eancia<\/a> em Havana e Santiago. Em 17 de maio, os Estados Unidos passaram a acusar Cuba de <a href=\"https:\/\/www.axios.com\/2026\/05\/17\/us-military-drones-cuba\">preparar ataques com drones<\/a> contra a base militar americana em Guant\u00e1namo e, possivelmente, contra Key West. Alguns dias depois, o Departamento de Justi\u00e7a dos EUA apresentou uma <a href=\"https:\/\/www.justice.gov\/opa\/pr\/united-states-unseals-superseding-indictment-charging-raul-castro-and-five-castro-regime-co\">den\u00fancia<\/a> formal contra Ra\u00fal Castro, ex-presidente e irm\u00e3o de Fidel Castro. Para muitos observadores em Miami e fora dela, Cuba parece estar de joelhos, com as conquistas da Revolu\u00e7\u00e3o sob amea\u00e7a. \u00c0 medida que a crise na ilha se aprofunda, Miami prepara <a href=\"https:\/\/floridapolitics.com\/archives\/784174-miami-commission-to-review-city-preparedness-for-potential-political-transition-in-cuba\/\">planos de conting\u00eancia<\/a> tanto para celebra\u00e7\u00f5es p\u00fablicas quanto para uma poss\u00edvel nova onda migrat\u00f3ria\u2014como fez no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990, quando o colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica alimentou a expectativa de que o regime cubano estivesse com os dias contados. Mas, assim como naquela \u00e9poca, ningu\u00e9m faz a menor ideia do que pode acontecer caso o regime caia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde a Revolu\u00e7\u00e3o de 1959, uma caracter\u00edstica persistente da vida pol\u00edtica de Miami tem sido o esfor\u00e7o para pressionar Washington a promover uma mudan\u00e7a de regime em Cuba. Mas esse horizonte comum nunca significou uma mesma vis\u00e3o de futuro. Embora a queda do regime tenha, hoje, amplo apoio entre os cubano-americanos do sul da Fl\u00f3rida, n\u00e3o h\u00e1 consenso acerca de como alcan\u00e7\u00e1-la e nem de quem deveria colher seus benef\u00edcios. Enquanto todas as correntes pol\u00edticas esperam o fim do comunismo na ilha, h\u00e1 profunda diverg\u00eancia quanto ao que deveria substitu\u00ed-lo. Os maximalistas\u2014entre eles grandes empresas americanas, como a <a href=\"https:\/\/www.supremecourt.gov\/opinions\/25pdf\/24-699_f204.pdf\">Exxon<\/a>\u2014continuam defendendo a derrota completa do regime de Havana, acompanhada da restitui\u00e7\u00e3o de propriedades e do pagamento de repara\u00e7\u00f5es. Os grupos mais pragm\u00e1ticos e liberais, por sua vez, defendem uma transi\u00e7\u00e3o administrada, baseada em reformas de mercado e na preven\u00e7\u00e3o do colapso do Estado. J\u00e1 as elites empresariais mais ricas de Miami permanecem relutantes em investir enquanto Washington n\u00e3o assumir os riscos pol\u00edticos e financeiros da reconstru\u00e7\u00e3o. Caso os planos floridianos se concretizem, o futuro de Cuba depender\u00e1, em grande medida, de quem conduzir a transi\u00e7\u00e3o: as grandes corpora\u00e7\u00f5es americanas, o capital cubano-americano ou os pequenos empres\u00e1rios. Ainda assim, diante do agravamento da crise na ilha, \u00e9 dif\u00edcil imaginar que qualquer um desses projetos possa se materializar no curto prazo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto isso, Miami continua a ser constru\u00edda, literal e metaforicamente, sobre a pr\u00f3pria antecipa\u00e7\u00e3o. A cidade ocupa uma posi\u00e7\u00e3o de vanguarda e, cada vez mais, de centralidade nas finan\u00e7as e na pol\u00edtica globais, apresentando-se como uma capital hemisf\u00e9rica e como porta de entrada e sa\u00edda para uma Am\u00e9rica Latina que o governo Trump procura colocar sob <a href=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/doutrinas-monroe\/\">controle cada vez mais direto<\/a>. Por mais incerto que seja, o futuro continua sendo o ativo que Miami melhor sabe vender, financiar e valorizar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Entre Coral Gables e Hialeah<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Administrativamente, Miami \u00e9 apenas um dos munic\u00edpios que comp\u00f5em uma grande regi\u00e3o metropolitana formada pelos tr\u00eas condados mais populosos da Fl\u00f3rida\u2014Miami-Dade, Broward e Palm Beach\u2014, que se estendem do Oceano Atl\u00e2ntico ao Parque Nacional Everglades. A geografia pol\u00edtica \u00e9 marcada por profundas desigualdades sociais e raciais. Diferentes gera\u00e7\u00f5es de exilados cubanos se espalham pelo sul da Fl\u00f3rida, distinguindo-se tanto pelo momento em que chegaram aos Estados Unidos quanto pelos bairros em que podem se dar ao luxo de morar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, os grandes propriet\u00e1rios de terras e a alta burguesia urbana (em sua maioria brancos) desapropriados pela Revolu\u00e7\u00e3o que chegaram a Miami logo ap\u00f3s 1959 est\u00e3o plenamente integrados \u00e0s estruturas de poder estadunidenses e vivem nos endere\u00e7os mais valorizados de Coral Gables, Pinecrest e Key Biscayne. Depois do fiasco da Invas\u00e3o da Ba\u00eda dos Porcos de 1961 e de uma s\u00e9rie de tentativas clandestinas de assassinar Fidel Castro e derrubar o regime, muitos militantes do ex\u00edlio se reinventaram como <a href=\"https:\/\/www.ucpress.edu\/books\/city-on-the-edge\/paper\">empreendedores \u00e9tnicos<\/a> e conquistaram posi\u00e7\u00f5es de destaque na pol\u00edtica e na economia. Gra\u00e7as \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o espacial dos cubanos no sul da Fl\u00f3rida e ao sentimento de isolamento em rela\u00e7\u00e3o tanto aos estadunidenses quanto aos demais latinos, essa primeira gera\u00e7\u00e3o de emigrados passou a exercer grande influ\u00eancia sobre as oportunidades econ\u00f4micas e sociais daqueles que vieram depois. Como observam os soci\u00f3logos Alejandro Portes e Alex Stepick, a intoler\u00e2ncia pol\u00edtica desse enclave \u201cimp\u00f4s \u00e0 cidade uma vis\u00e3o monol\u00edtica, frequentemente indiferente \u00e0s preocupa\u00e7\u00f5es e aos interesses dos demais segmentos da popula\u00e7\u00e3o\u201d.<a data-contents=\"Alejandro Portes e Alex Stepick, (<)em(>)City on the Edge: The Transformation of Miami(<)\/em(>) (University of California Press), p.138\" class=\"footnote\" id=\"footnote-1\" href=\"#footnote-list-1\">1<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Alejandro Portes e Alex Stepick, (<)em(>)City on the Edge: The Transformation of Miami(<)\/em(>) (University of California Press), p.138<\/span> Em meados dos anos 1980, o ex\u00edlio cubano em Miami foi descrito por <a href=\"https:\/\/www.joandidion.org\/joan-didion-books\/miami\">Joan Didion<\/a> como defensor da completa destrui\u00e7\u00e3o do regime comunista e contr\u00e1rio a qualquer possibilidade de di\u00e1logo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A oposi\u00e7\u00e3o intransigente dessas gera\u00e7\u00f5es ao governo de Havana encontrou sua principal express\u00e3o pol\u00edtica na <a href=\"https:\/\/canf.org\/\">Cuban-American National Foundation<\/a> (CANF), organiza\u00e7\u00e3o de lobby criada em 1981 e inspirada no modelo do American Israel Public Affairs Committee (AIPAC). Seu fundador, o magnata da constru\u00e7\u00e3o civil Jorge Mas Canosa, foi uma figura carism\u00e1tica que, por d\u00e9cadas, exerceu enorme influ\u00eancia sobre a comunidade do ex\u00edlio. Em 1992, a revista <em>Time<\/em> o descreveu como \u201c<a href=\"https:\/\/time.com\/archive\/6721549\/the-man-who-would-oust-castro\/\">o homem que derrubaria Castro<\/a>\u201d.\u00a0 Em 1994, em troca do endurecimento do embargo americano contra Cuba, Mas Canosa apoiou a decis\u00e3o do governo Bill Clinton de deter refugiados cubanos em Guant\u00e1namo, rompendo com a pol\u00edtica de longa data que lhes concedia asilo pol\u00edtico. Clinton adotou a pol\u00edtica conhecida como \u201cp\u00e9s molhados, p\u00e9s secos\u201d, uma interpreta\u00e7\u00e3o do Cuban Adjustment Act segundo a qual cubanos interceptados no mar eram devolvidos \u00e0 ilha, enquanto aqueles que conseguissem chegar ao territ\u00f3rio americano podiam solicitar o direito de permanecer legalmente no pa\u00eds. Esse endurecimento da pol\u00edtica migrat\u00f3ria foi seguido pela aprova\u00e7\u00e3o, apoiada pela CANF, do <a href=\"https:\/\/www.congress.gov\/bill\/104th-congress\/house-bill\/927\">Cuban Liberty and Democratic Solidarity Act<\/a>. Mais conhecida como Lei Helms-Burton, a legisla\u00e7\u00e3o positivou o embargo econ\u00f4mico contra Cuba e passou a impor san\u00e7\u00f5es a empresas estrangeiras que mantivessem neg\u00f3cios na ilha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primeira gera\u00e7\u00e3o do ex\u00edlio j\u00e1 quase n\u00e3o existe. Seus filhos e netos, embora muitas vezes mantenham o compromisso com a mudan\u00e7a de regime, constru\u00edram suas vidas nos Estados Unidos. Um dos exemplos mais conhecidos \u00e9 o secret\u00e1rio de Estado Marco Rubio. Em sua autobiografia\u2014significativamente intitulada <em><a href=\"https:\/\/www.penguinrandomhouse.com\/books\/311989\/an-american-son-by-marco-rubio\/\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/www.penguinrandomhouse.com\/books\/311989\/an-american-son-by-marco-rubio\/\">An American Son<\/a><\/em>\u2014, Rubio, filho de imigrantes cubanos da classe trabalhadora que deixaram a ilha antes da Revolu\u00e7\u00e3o, define-se como \u201cherdeiro de duas gera\u00e7\u00f5es de sonhos n\u00e3o realizados\u201d.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As ondas migrat\u00f3rias que chegaram de Cuba depois da Revolu\u00e7\u00e3o ocorreram em circunst\u00e2ncias bastante distintas. Foi o caso do \u00caxodo de Mariel, em 1980, quando, sob forte press\u00e3o, o governo cubano permitiu que mais de 120 mil cidad\u00e3os\u2014entre eles, presos indultados e ex-pacientes de hospitais psiqui\u00e1tricos\u2014emigrassem para os EUA. Outra leva chegou durante o chamado Per\u00edodo Especial, eufemismo para uma das mais severas contra\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas em tempos de paz da hist\u00f3ria das Am\u00e9ricas. Com o colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, principal fiadora econ\u00f4mica de Cuba, o PIB do pa\u00eds despencou 35%, o com\u00e9rcio exterior <a href=\"https:\/\/www.jstor.org\/stable\/24487481\">encolheu<\/a> 75% e a escassez de alimentos e energia transformou profundamente a vida cotidiana. Durante a <a href=\"https:\/\/latino.si.edu\/exhibitions\/presente\/immigration-stories\/cuban-raft\">Crise dos Balseros<\/a> de 1994, entre 30 mil e 50 mil cubanos deixaram a ilha rumo \u00e0 Fl\u00f3rida, muitos dos quais morreram afogados durante a travessia. O endurecimento do embargo apoiado por Jorge Mas Canosa ap\u00f3s 1994 reduziu o fluxo de <em>balseros<\/em>, mas novas ondas de migrantes, em geral menos abastados, continuaram chegando \u00e0 Fl\u00f3rida. \u00c9 o caso mais recente dos chamados\u00a0walkers, que, desde 2017, gra\u00e7as ao fim da pol\u00edtica de \u201cp\u00e9s molhados, p\u00e9s secos\u201d no governo Obama e \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gios especiais para imigrantes cubanos, passaram, como muitos outros, a cruzar a fronteira terrestre via M\u00e9xico e a solicitar asilo. Um fluxo migrat\u00f3rio massivo iniciado em 2021 contribuiu para <a href=\"https:\/\/www.lemonde.fr\/en\/international\/article\/2025\/04\/30\/cuba-faces-population-decline-and-aging-amid-mass-migration-exodus_6740756_4.html\">reduzir<\/a> a popula\u00e7\u00e3o da ilha a menos de 10 milh\u00f5es de pessoas, um quarto das quais tem 60 anos ou mais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por manterem familiares e amigos em Cuba e, muitas vezes, d\u00e9cadas de experi\u00eancia sob o regime comunista, esses migrantes mais recentes frequentemente s\u00e3o vistos com desconfian\u00e7a pelos cubano-americanos da elite. Ao chegarem a Miami, enfrentam uma forte press\u00e3o para aderir \u00e0 narrativa anticastrista dominante do ex\u00edlio, mesmo quando preservam v\u00ednculos afetivos e materiais com o pa\u00eds que deixaram para tr\u00e1s. Como escreveu <a href=\"https:\/\/www.press.umich.edu\/pdf\/0472110217-07.pdf\">Mar\u00eda de los Angeles Torres<\/a>, \u201cMiami \u00e9 uma cidade em que o desejo de manter uma rela\u00e7\u00e3o com a pr\u00f3pria terra natal passou a ser tratado como ato de trai\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muitos desses rec\u00e9m-chegados se estabeleceram em Hialeah, cidade de classe m\u00e9dia baixa do condado de Miami-Dade, onde entre 90% e 94% da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 composta por latinos, dos quais pelo menos 75% s\u00e3o cubanos. Estima-se que, apenas entre 2022 e 2024, cerca de 80 mil cubanos tenham se <a href=\"https:\/\/www.miamiherald.com\/news\/local\/community\/miami-dade\/hialeah\/article285207352.html\">mudado<\/a> para Hialeah. A cidade abriga milhares de pequenos neg\u00f3cios (quase <a href=\"https:\/\/www.beaconcouncil.com\/hialeah\/\">93% deles<\/a> com menos de dez empregados) e trabalhadores <a href=\"https:\/\/www.chamberofcommerce.org\/cities-with-most-self-employed\">aut\u00f4nomos<\/a> e funciona como o principal centro de envio de remessas financeiras e mercadorias para Cuba. Defensores do MAGA continuam impondo a ortodoxia pol\u00edtica do ex\u00edlio \u00e0 classe trabalhadora cubana de Hialeah. O jovem prefeito da cidade, Bryan Calvo, lidera atualmente uma ofensiva contra <a href=\"https:\/\/www.cbsnews.com\/miami\/news\/hialeah-mayor-launches-crackdown-businesses-cuban-government\/\">pequenos neg\u00f3cios familiares<\/a> que enviam alimentos, medicamentos e outros bens essenciais a parentes na ilha. Em 8 de maio deste ano, o governador Ron DeSantis escolheu o Bay of Pigs Museum como palco para sancionar o <a href=\"https:\/\/www.flgov.com\/eog\/news\/press\/2026\/governor-ron-desantis-signs-legislation-protect-florida-against-foreign-influence\">Foreign Interference Restriction and Enforcement Act<\/a>. Conhecida como FIRE Act, a legisla\u00e7\u00e3o busca combater a \u201cinflu\u00eancia estrangeira hostil\u201d na Fl\u00f3rida, mirando especialmente empresas que mant\u00eam rela\u00e7\u00f5es comerciais com Cuba. Embora essas medidas tenham sobretudo um car\u00e1ter simb\u00f3lico\u2014a regulamenta\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio exterior \u00e9 compet\u00eancia do governo federal e j\u00e1 est\u00e1 amplamente disciplinada pela Lei Helms-Burton\u2014, as amea\u00e7as de cassa\u00e7\u00e3o de licen\u00e7as procuram desestimular tanto o apoio pol\u00edtico ao di\u00e1logo com Havana quanto o apoio material e afetivo aos que permanecem em Cuba.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Reforma ou mudan\u00e7a de regime?<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As d\u00e9cadas de 1980 e 90 registraram o auge da influ\u00eancia exercida pela Cuban-American National Foundation. Mas, em meados dos anos 2000, j\u00e1 era evidente que o embargo econ\u00f4mico mais duradouro da hist\u00f3ria dos Estados Unidos n\u00e3o havia produzido os resultados esperados em Havana. O aparente fracasso da Lei Helms-Burton abriu espa\u00e7o para a ascens\u00e3o de um novo grupo pol\u00edtico cubano-americano, de perfil mais liberal. O Cuba Study Group (CSG) foi criado no in\u00edcio dos anos 2000 por um seleto grupo de cubano-americanos de Miami, em sua maioria filhos da elite pr\u00e9-revolucion\u00e1ria e da primeira gera\u00e7\u00e3o de exilados. Embora igualmente contr\u00e1rio ao regime de Havana, o CSG passou, desde sua funda\u00e7\u00e3o, a defender o di\u00e1logo e o engajamento com o governo cubano. Em sintonia com a cren\u00e7a bipartid\u00e1ria nas revolu\u00e7\u00f5es coloridas e nas transi\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas que marcaram o chamado \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d e o momento unipolar dos Estados Unidos, o CSG via o comunismo cubano como um anacronismo destinado a desaparecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto \u00e0 transi\u00e7\u00e3o, ela deveria ser muito mais gradual e pragm\u00e1tica do que qualquer proposta defendida pela CANF: nem o embargo, nem uma interven\u00e7\u00e3o militar seriam capazes de produzi-la. Com os incentivos adequados, argumentava o grupo, a mudan\u00e7a viria de dentro da pr\u00f3pria ilha,&nbsp; por meio de reformas de mercado, do fortalecimento do Estado de Direito e da constru\u00e7\u00e3o de uma \u201csociedade aberta\u201d. Essa preocupa\u00e7\u00e3o com o momento e o ritmo da transi\u00e7\u00e3o resultava do estudo que seus integrantes fizeram das experi\u00eancias p\u00f3s-comunistas da Europa Oriental. Beneficiando-se dessa retrospectiva hist\u00f3rica\u2014e atentos aos riscos de viol\u00eancia durante a transi\u00e7\u00e3o, como ocorreu na Revolu\u00e7\u00e3o Romena, ou de retrocessos democr\u00e1ticos de longo prazo, como na Hungria de Viktor Orb\u00e1n\u2014, os membros do CSG aconselharam Obama a adotar uma estrat\u00e9gia de abertura gradual em rela\u00e7\u00e3o a Cuba ao longo de seus dois mandatos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em mar\u00e7o de 2016, quando Obama fez a primeira visita oficial de um presidente americano em exerc\u00edcio desde 1928 a Havana, esse processo de aproxima\u00e7\u00e3o atingia seu auge. Carlos Saladriga, l\u00edder do CSG e diretor-executivo da Regis HR Group, empresa de terceiriza\u00e7\u00e3o que presta servi\u00e7os a diversos pequenos neg\u00f3cios com v\u00ednculos com Cuba, foi uma <a href=\"https:\/\/www.newyorker.com\/magazine\/2016\/10\/03\/a-new-cuba\">figura-chave<\/a> das negocia\u00e7\u00f5es com o governo cubano no per\u00edodo. As conversas resultaram no restabelecimento das rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas, na facilita\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio e do envio de remessas e na flexibiliza\u00e7\u00e3o das restri\u00e7\u00f5es a viagens. Embora muitas dessas medidas tenham sido revertidas pelo governo Trump no ano seguinte, os Estados Unidos continuaram incentivando conex\u00f5es empresariais privadas com Cuba. O CSG, por meio de sua funda\u00e7\u00e3o<a href=\"http:\/\/cubastudygroup.org\/partnerships\/cuba-emprende-foundation\/\"> Cuba Emprende<\/a>, j\u00e1 capacitou cerca de 15 mil pequenos empres\u00e1rios cubanos e <a href=\"https:\/\/oncubanews.com\/en\/cuba-usa\/cuban-private-businesspeoples-expedition-in-miami-paths-that-open\/#google_vignette\">levou muitos deles a Miami<\/a>. Na vis\u00e3o do grupo e de outros setores pragm\u00e1ticos, as redes criadas por essas iniciativas constituem a base de uma futura transforma\u00e7\u00e3o pac\u00edfica de Cuba, na qual o regime comunista seria gradualmente substitu\u00eddo, sem provocar grandes rupturas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O CSG tamb\u00e9m <a href=\"https:\/\/en.cibercuba.com\/noticias\/2026-03-11-u1-e2-s27061-nid322813-saladrigas-propone-convertir-cuba-centro-financiero#google_vignette\">rejeita<\/a> a perspectiva de uma transi\u00e7\u00e3o que coloque Cuba na mesma trajet\u00f3ria de desenvolvimento de outras economias caribenhas, excessivamente dependentes do turismo. No lugar disso, o grupo pretende transformar Cuba em um polo financeiro e tecnol\u00f3gico semelhante a Singapura, Israel ou aos pa\u00edses b\u00e1lticos, apostando em setores como fintechs, sa\u00fade e intelig\u00eancia artificial, al\u00e9m de oportunidades de capitaliza\u00e7\u00e3o e refinanciamento hipotec\u00e1rio para o setor privado, favorecidas pela elevada taxa de propriedade imobili\u00e1ria existente no pa\u00eds. Os relat\u00f3rios do CSG destacam \u201c<a href=\"https:\/\/cubastudygroup.org\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/CSG_Cuba-Private-Sector-Report_Sept-2025_b.pdf\">o not\u00e1vel dinamismo das empresas privadas<\/a>\u201d como fator capaz de amenizar, quando n\u00e3o evitar, os efeitos da devastadora crise econ\u00f4mica cubana. Na vis\u00e3o dos l\u00edderes cubano-americanos ligados ao CSG, quem deveria conduzir essa transi\u00e7\u00e3o \u00e9 Hialeah, e n\u00e3o Coral Gables.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Cuba Study Group mant\u00e9m <a href=\"https:\/\/cubastudygroup.org\/experts\/matthew-aho\/\">estreitas rela\u00e7\u00f5es<\/a> com o escrit\u00f3rio de advocacia que ajudou a intermediar, no m\u00eas passado, um acordo pelo qual a empresa Vanguard Energy, sediada em Coral Gables, passaria a fornecer petr\u00f3leo ao setor privado cubano. Quando Marco Rubio bloqueou a opera\u00e7\u00e3o, o diretor-executivo do grupo chegou a se <a href=\"https:\/\/havanatimes.org\/news\/usa-sanctions-cubas-cupet-derailing-announced-agreement\/\">manifestar publicamente<\/a>. Na avalia\u00e7\u00e3o do CSG, as san\u00e7\u00f5es mais severas s\u00e3o problem\u00e1ticas porque devastam a economia cubana e impedem o acesso do pa\u00eds ao sistema financeiro internacional, tornando o investimento estrangeiro extremamente dif\u00edcil. Ao mesmo tempo, no entanto, o grupo sustenta que as san\u00e7\u00f5es foram importantes para pressionar o governo cubano a aceitar reformas: \u201cEst\u00e1 claro que o principal obst\u00e1culo eram as autoridades e sua t\u00e3o invocada vontade pol\u00edtica, e n\u00e3o a viabilidade ou a necessidade das reformas.\u201d A mudan\u00e7a de regime continua sendo, para o CSG, um desfecho inevit\u00e1vel. Ainda que n\u00e3o seja poss\u00edvel prever o momento exato do colapso e que uma transi\u00e7\u00e3o mais gradual deva ser estimulada, o grupo atribui esse desfecho ao esgotamento do experimento comunista e \u00e0 incapacidade de sua elite dirigente, e n\u00e3o \u00e0s a\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos. Assim como a lideran\u00e7a do ex\u00edlio hist\u00f3rico, o CSG concorda implicitamente com Rubio quando afirma que os comunistas cubanos n\u00e3o s\u00e3o apenas comunistas, \u201c<a href=\"https:\/\/www.wlrn.org\/americas\/2026-05-05\/incompetent-communists-marco-rubio-slams-cuban-communist-regimes-failed-economy\">o que j\u00e1 seria ruim o suficiente<\/a>\u201d, mas \u201c<a href=\"https:\/\/www.wlrn.org\/americas\/2026-05-05\/incompetent-communists-marco-rubio-slams-cuban-communist-regimes-failed-economy\">comunistas incompetentes<\/a>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O doce sabor dos neg\u00f3cios<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Longe de Hialeah, o grupo mais influente da di\u00e1spora cubano-americana \u00e9 formado por um seleto c\u00edrculo de empres\u00e1rios e milion\u00e1rios que, al\u00e9m da imensa riqueza, conquistaram tamb\u00e9m enorme poder pol\u00edtico, garantindo lugar cativo tanto nos luxuosos terra\u00e7os de Mar-a-Lago quanto nos jantares de Estado da Casa Branca. Desde que Trump intensificou o cerco a Cuba no in\u00edcio deste ano, por\u00e9m, esses grandes financiadores e apoiadores de sua campanha t\u00eam mantido um sil\u00eancio surpreendente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na ilha.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As fam\u00edlias Fanjul, Mas e Benjamin Leon Jr. representam tr\u00eas das dinastias empresariais mais importantes da Fl\u00f3rida. Ferrenhos anticomunistas, defensores do livre mercado e adeptos de uma linha dura em rela\u00e7\u00e3o a Cuba, constru\u00edram suas fortunas nos Estados Unidos gra\u00e7as \u00e0s suas conex\u00f5es pol\u00edticas e ao forte apoio de subs\u00eddios governamentais. Os irm\u00e3os Fanjul, hoje octogen\u00e1rios, s\u00e3o bar\u00f5es do a\u00e7\u00facar da Fl\u00f3rida. Seus vastos canaviais e usinas de a\u00e7\u00facar, \u00e0s margens dos Everglades, h\u00e1 muito s\u00e3o apontados como alguns dos principais respons\u00e1veis pela polui\u00e7\u00e3o das \u00e1guas da regi\u00e3o. H\u00e1 uma d\u00e9cada, quando Alfonso (ou Aly) Fanjul deu a entender que estaria aberto a investir em Cuba, foi imediatamente censurado pelas principais lideran\u00e7as pol\u00edticas da comunidade cubano-americana. Rubio, ent\u00e3o pupilo pol\u00edtico dos Fanjul, declarou na \u00e9poca estar \u201c<a href=\"https:\/\/www.washingtonpost.com\/news\/post-politics\/wp\/2014\/02\/04\/rubio-surprised-and-disappointed-by-sugar-tycoons-position-on-cuba\/\">surpreso e decepcionado<\/a>\u201d com a proposta. Desta vez, por\u00e9m, os Fanjul permanecem \u00e0 margem, satisfeitos com o \u201c<a href=\"https:\/\/www.forbes.com\/sites\/chloesorvino\/2025\/10\/16\/fanjul-family-sugar-barons-worth-4-billion-donald-trump-coca-cola\/\">doce neg\u00f3cio<\/a>\u201d que garantiram com Trump: a decis\u00e3o de substituir o xarope de milho por a\u00e7\u00facar de cana na produ\u00e7\u00e3o de Coca-Cola nos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os irm\u00e3os Mas, Jorge e Juan, s\u00e3o filhos de Jorge Mas Canosa, fundador da CANF. Ao contr\u00e1rio do pai, optaram por concentrar seus esfor\u00e7os nos neg\u00f3cios, e transformaram a <a href=\"https:\/\/www.dnb.com\/business-directory\/company-profiles.mastec_inc.2ab6fb39ea70d2a715b9f311d2fc1bcf.html\">MasTec<\/a>, empresa de constru\u00e7\u00e3o fundada por ele, em uma companhia da lista Fortune 500. Jorge Mas Canosa criou a empresa em 1969 como uma prestadora de servi\u00e7os para concession\u00e1rias de energia el\u00e9trica, e sua trajet\u00f3ria acompanhou a pr\u00f3pria expans\u00e3o da Fl\u00f3rida no p\u00f3s-guerra. Beneficiando-se do ambiente trabalhista de um estado desfavor\u00e1vel \u00e0 sindicaliza\u00e7\u00e3o, a MasTec cresceu apoiada em m\u00e3o de obra n\u00e3o organizada e diversificou suas atividades, passando da infraestrutura el\u00e9trica para os setores de telecomunica\u00e7\u00f5es, oleodutos e gasodutos, energia renov\u00e1vel e, mais recentemente, infraestrutura para centros de dados. Em 2018, a empresa conquistou o contrato para <a href=\"https:\/\/www.utilitydive.com\/news\/puerto-ricos-utility-signs-500m-recovery-contract-with-mastec\/524918\/\">reconstruir a rede el\u00e9trica de Porto Rico<\/a> ap\u00f3s o furac\u00e3o do ano anterior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jorge e Juan Mas converteram a fortuna constru\u00edda no setor de infraestrutura em outro ativo de enorme proje\u00e7\u00e3o p\u00fablica: tornaram-se copropriet\u00e1rios, ao lado de David Beckham, do Inter Miami, clube que, h\u00e1 dois anos, contratou o craque argentino Lionel Messi. Atualmente, finalizam o <a href=\"https:\/\/miamifreedompark.com\/\">Miami Freedom Park<\/a>, empreendimento de 53 hectares ao lado do Aeroporto Internacional de Miami que re\u00fane um est\u00e1dio de futebol com capacidade para 25 mil pessoas, im\u00f3veis de alto padr\u00e3o, parques p\u00fablicos e \u00e1reas comerciais. O nome do complexo remete \u00e0 Freedom Tower, centro de recep\u00e7\u00e3o por onde passaram gera\u00e7\u00f5es de imigrantes cubanos. Em um gesto de forte carga simb\u00f3lica, a prefeitura de Miami tamb\u00e9m dever\u00e1 deixar sua hist\u00f3rica sede de 1931, no antigo edif\u00edcio da Pan American em Coconut Grove, para se instalar no Freedom Park. Diante das enormes necessidades de infraestrutura de Cuba, a MasTec est\u00e1 particularmente bem posicionada para desempenhar um papel central em sua reconstru\u00e7\u00e3o\u2014desde que, e essa \u00e9 a principal ressalva, o governo dos Estados Unidos arque com a conta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Benjamin Leon Jr. \u00e9 um dos maiores financiadores de Donald Trump e, atualmente, ocupa o cargo de embaixador dos Estados Unidos na Espanha. (Outros dois cubano-americanos tamb\u00e9m servem como embaixadores nomeados por Trump, na Argentina e no Panam\u00e1.) Em 1964, seu pai, Benjamin Leon Sr., fundou uma pequena cl\u00ednica em Miami voltada ao atendimento de exilados cubanos que chegavam \u00e0 cidade. Oito anos depois, em 1972, pai e filho convenceram o Legislativo da Fl\u00f3rida a aprovar o Health Maintenance Organization Act. Sua Cl\u00ednica Asociaci\u00f3n Cubana recebeu a primeira licen\u00e7a para operar no setor de assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade do estado, abrindo caminho para a constru\u00e7\u00e3o de um imp\u00e9rio cujos centros m\u00e9dicos hoje atendem mais de 40 mil benefici\u00e1rios do Medicare no sul da Fl\u00f3rida. Seria de esperar que Leon estivesse na linha de frente de um eventual processo de privatiza\u00e7\u00e3o do sistema de sa\u00fade cubano, um dos \u00fanicos da ilha reconhecidos pelo padr\u00e3o internacional. At\u00e9 agora, por\u00e9m, ele tem evitado se pronunciar sobre o tema, concentrando-se na <a href=\"https:\/\/www.miamiherald.com\/news\/local\/community\/miami-dade\/article315127628.html\">reconstru\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es<\/a> entre Washington e Madri. A maioria dos cubano-americanos mant\u00e9m la\u00e7os familiares com a Espanha, que abriga a segunda maior di\u00e1spora cubana do mundo, e muitos dos canais diplom\u00e1ticos informais dos EUA com Havana passam justamente pelo pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em mar\u00e7o, o vice-primeiro-ministro de Cuba, Oscar P\u00e9rez-Oliva Fraga, anunciou a abertura do setor privado da ilha a investimentos de cidad\u00e3os cubanos residentes no exterior. Ainda assim, nenhum desses milion\u00e1rios cubano-americanos parece disposto a sair na frente. Para alguns, Cuba j\u00e1 est\u00e1 deteriorada demais para atrair investidores. O incorporador imobili\u00e1rio Jorge M. P\u00e9rez, por exemplo, uma das principais for\u00e7as por tr\u00e1s do que ficou conhecido como \u201c<a href=\"https:\/\/www.bloomberg.com\/news\/videos\/2026-05-01\/miami-s-biggest-boom-ever-says-billionaire-perez-video\">o maior boom da hist\u00f3ria de Miami<\/a>\u201d, j\u00e1 manifestou publicamente interesse em restaurar o centro hist\u00f3rico de Havana, mas nada al\u00e9m disso. Em <a href=\"https:\/\/havanatimes.org\/features\/the-intentions-of-wealthy-cuban-americans-for-cuba\/\">abril<\/a>, um grupo de empres\u00e1rios cubano-americanos ligados ao Partido Republicano declarou que estaria disposto a investir milh\u00f5es de d\u00f3lares na ilha, desde que contasse com o respaldo do governo americano. Michael Fux argumentou que os investidores precisariam de apoio federal \u201cpelo menos at\u00e9 que Cuba volte a se reerguer. Depois disso, acredito que o pa\u00eds poder\u00e1 seguir seu pr\u00f3prio caminho\u201d. Sem disposi\u00e7\u00e3o para investir em um ambiente jur\u00eddico e pol\u00edtico incerto, as grandes empresas parecem preferir aguardar nos bastidores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em Miami, escreveu <a href=\"https:\/\/www.joandidion.org\/joan-didion-books\/miami\">Didion<\/a>, \u201crevolu\u00e7\u00f5es e contrarrevolu\u00e7\u00f5es s\u00e3o concebidas na esfera privada, enquanto o aparato de seguran\u00e7a do Estado existe apenas para servir a um ou outro grupo particular de interesses\u201d. Nos Estados Unidos que Trump governa de Mar-a-Lago, os mais intervencionistas projetos de pol\u00edtica externa continuam sendo narrados no idioma dos neg\u00f3cios. O presidente j\u00e1 disse que pretende \u201ctransformar Cuba em uma oportunidade de investimento\u201d. Ainda n\u00e3o est\u00e1 claro, contudo, se o Estado estar\u00e1 disposto a ir t\u00e3o longe quanto o setor privado exigiria para assumir uma participa\u00e7\u00e3o decisiva no futuro de Cuba.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A espiral do colapso<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O historiador Greg Grandin argumenta que os Estados Unidos foram constitu\u00eddos por meio de sucessivas intera\u00e7\u00f5es, muitas vezes violentas, no continente americano. As conquistas e revolu\u00e7\u00f5es na Am\u00e9rica do Sul e no Caribe moldaram os horizontes pol\u00edticos do pa\u00eds. A Revolu\u00e7\u00e3o Haitiana assombrou os Pais Fundadores, intensificando seus temores de revoltas escravas e desordem racial, ao mesmo tempo em que tornou poss\u00edvel a expans\u00e3o territorial proporcionada pela Compra da Luisiana. Os projetos republicanos de Bol\u00edvar inspiraram gera\u00e7\u00f5es de movimentos anticoloniais, mas tamb\u00e9m alimentaram em Washington a preocupa\u00e7\u00e3o com o surgimento de projetos alternativos de modernidade para al\u00e9m do controle dos Estados Unidos. Depois de 1959, a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana transformou a Fl\u00f3rida em uma fronteira militarizada e ideol\u00f3gica da Guerra Fria, ligando de forma definitiva o destino de Miami ao da ilha caribenha situada a apenas 145 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo Grandin, a radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da Fl\u00f3rida n\u00e3o pode ser compreendida sem considerar seu papel como santu\u00e1rio dos que fugiam dos avan\u00e7os da esquerda em outras partes das Am\u00e9ricas. \u201c\u00c9 ali\u201d, <a href=\"https:\/\/www.penguinrandomhouse.com\/books\/747326\/america-america-by-greg-grandin\/\">escreve<\/a> Grandin, \u201cque, desde os tempos de Kennedy e Nixon, eles articulam seu retorno ao poder. \u00c9 ali tamb\u00e9m que estreitam seus la\u00e7os com os conservadores americanos, entendendo sua luta como uma causa de alcance hemisf\u00e9rico.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim como a Revolu\u00e7\u00e3o Haitiana gerou simultaneamente oportunidades comerciais e um profundo sentimento de ang\u00fastia existencial nos Estados Unidos, a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana intensificou aquilo que Richard Hofstadter chamou, em 1964, de \u201c<a href=\"https:\/\/harpers.org\/archive\/1964\/11\/the-paranoid-style-in-american-politics\/\">estilo paranoico<\/a>\u201d da pol\u00edtica estadunidense. Durante d\u00e9cadas, cubanos comunistas e anticomunistas apareceram como figuras enigm\u00e1ticas por tr\u00e1s de algumas das principais teorias da conspira\u00e7\u00e3o que marcaram a pol\u00edtica dos Estados Unidos: da Invas\u00e3o da Ba\u00eda dos Porcos e do assassinato de John F. Kennedy ao esc\u00e2ndalo de Watergate, ao caso Ir\u00e3-Contras e \u00e0 disputada elei\u00e7\u00e3o presidencial de 2000.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao mesmo tempo, diferen\u00e7as geracionais, de riqueza, renda e classe, tanto na Cuba pr\u00e9 e p\u00f3s-revolucion\u00e1ria quanto entre suas comunidades exiladas, continuaram a influenciar a pol\u00edtica do sul da Fl\u00f3rida e as <a href=\"https:\/\/quincyinst.org\/research\/cubas-role-in-u-s-presidential-elections\/\">elei\u00e7\u00f5es presidenciais<\/a> dos Estados Unidos. A resposta do governo Clinton ao caso Eli\u00e1n Gonz\u00e1lez, entre 1999 e 2000, contribuiu para a perda do apoio dos cubano-americanos a Al Gore na disputada elei\u00e7\u00e3o presidencial de 2000. Resgatado no mar durante a travessia para os Estados Unidos aos seis anos de idade, Eli\u00e1n tornou-se o centro de uma batalha judicial entre seu pai, que permanecia em Cuba, e seus parentes em Miami pela guarda da crian\u00e7a. A bem-sucedida aproxima\u00e7\u00e3o de Barack Obama com os cubano-americanos mais jovens, somada \u00e0 promessa de uma abertura econ\u00f4mica em Cuba, levou parte desse <a href=\"https:\/\/www.pewresearch.org\/short-reads\/2014\/12\/23\/as-cuban-american-demographics-change-so-do-views-of-cuba\/\">eleitorado<\/a> a apoiar os democratas nas elei\u00e7\u00f5es de 2008 e 2012. J\u00e1 a frustra\u00e7\u00e3o com o ritmo das mudan\u00e7as pol\u00edticas e econ\u00f4micas na ilha sob a estrat\u00e9gia gradualista de Obama devolveu esse eleitorado ao Partido Republicano nas tr\u00eas elei\u00e7\u00f5es presidenciais seguintes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, quanto mais Cuba se tornou central para o imagin\u00e1rio pol\u00edtico de Miami e dos Estados Unidos como um todo, menores passaram a ser as chances de \u00eaxito de seu experimento socialista. Mais uma vez, \u00e0 semelhan\u00e7a do Haiti, que foi sufocado pela pesada indeniza\u00e7\u00e3o imposta pela Fran\u00e7a em 1825 e isolado pela ansiedade racial das pot\u00eancias escravistas, Cuba foi submetida ao mais longo embargo comercial da hist\u00f3ria contempor\u00e2nea. Durante a Guerra Fria, esse isolamento foi parcialmente compensado pelos subs\u00eddios sovi\u00e9ticos e, posteriormente, em menor medida, pela ajuda de pa\u00edses como China, M\u00e9xico e Brasil, al\u00e9m do crucial fornecimento de petr\u00f3leo pela Venezuela.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A crise atual, contudo, \u00e9 diferente daquela vivida por Cuba nos anos 1990. Desde meados da d\u00e9cada passada, em um processo acelerado pela retra\u00e7\u00e3o do Estado cubano, pela retomada das san\u00e7\u00f5es durante o primeiro governo Trump, pelo colapso das receitas do turismo provocado pela pandemia e pelo crescimento da d\u00edvida externa, a economia cubana entrou em uma espiral de colapso da qual talvez j\u00e1 n\u00e3o consiga se recuperar, mesmo na aus\u00eancia de uma agress\u00e3o militar direta dos navios de guerra que cercam a ilha.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, as imagens que chegam de Havana lembram cada vez mais as de Porto Pr\u00edncipe. Montanhas de <a href=\"https:\/\/www.abc.net.au\/news\/2026-05-22\/cubans-describe-life-under-oil-blockade\/106709042\">lixo<\/a> se acumulam nas ruas. Falta luz em hospitais durante cirurgias e outros procedimentos vitais. As farm\u00e1cias est\u00e3o vazias. Bairros inteiros permanecem \u00e0s escuras por horas ou at\u00e9 dias, \u00e0 medida que a rede el\u00e9trica entra repetidamente em colapso. Profissionais qualificados, m\u00e9dicos, engenheiros e jovens deixam a ilha em n\u00fameros sem precedentes mesmo para os padr\u00f5es do per\u00edodo p\u00f3s-revolucion\u00e1rio. O endurecimento do bloqueio ao petr\u00f3leo e a interrup\u00e7\u00e3o de praticamente todas as transa\u00e7\u00f5es internacionais levaram a j\u00e1 fragilizada economia cubana \u00e0 beira do colapso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A lideran\u00e7a pol\u00edtica de Miami, composta majoritariamente por cubano-americanos, observa essa deteriora\u00e7\u00e3o com not\u00e1vel indiferen\u00e7a. Manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de empatia s\u00e3o sufocadas pela linguagem ritualizada do anticomunismo e da mudan\u00e7a de regime, hoje t\u00e3o profundamente enraizada que qualquer alternativa se torna quase invis\u00edvel. Gestos de solidariedade humanit\u00e1ria s\u00e3o recebidos com desconfian\u00e7a. Envios de ajuda organizados por movimentos como a <a href=\"https:\/\/www.codepink.org\/tags\/cuba\">CODEPINK<\/a> foram denunciados por pol\u00edticos locais como \u201c<a href=\"https:\/\/en.cibercuba.com\/noticias\/2026-04-22-u1-e199894-s27061-nid326691-miami-dade-condena-grupos-izquierda-turismo#google_vignette\">turismo comunista de mau gosto<\/a>\u201d e passaram a ser alvo de ativistas do ex\u00edlio mais radical, que temem que qualquer al\u00edvio ao sofrimento da popula\u00e7\u00e3o possa prolongar a sobreviv\u00eancia do regime. A mesma cidade que um dia celebrou a chegada de exilados cubanos hoje participa com entusiasmo da m\u00e1quina anti-imigra\u00e7\u00e3o do Estado americano contempor\u00e2neo. O escrit\u00f3rio do ICE em Miami <a href=\"https:\/\/www.cbsnews.com\/miami\/news\/miami-number-1-in-ice-arrests\/\">lidera o pa\u00eds<\/a> em n\u00famero de deporta\u00e7\u00f5es. Sob Trump, imigrantes cubanos, que antes eram acolhidos como refugiados do comunismo, agora s\u00e3o perseguidos como todos os outros. O Alligator Alcatraz, not\u00f3rio centro de deten\u00e7\u00e3o erguido nos Everglades em 2025, foi constru\u00eddo por <a href=\"https:\/\/prospect.org\/2025\/07\/17\/2025-07-17-meet-disaster-capitalists-alligator-alcatraz\/\">imigrantes cubanos de segunda gera\u00e7\u00e3o<\/a>: Carlos Duart e a esposa, Tina Vidal-Duart, por meio de seu Grupo Empresarial CDR.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto isso, Miami vive um novo boom imobili\u00e1rio, financiado por capital privado e por fortunas estrangeiras em busca de um porto seguro. <a href=\"https:\/\/www.miamiherald.com\/opinion\/editorials\/article305254906.html\">Incentivos fiscais<\/a> impulsionam a constru\u00e7\u00e3o de novos arranha-c\u00e9us. Hoje, cerca de noventa edif\u00edcios desse tipo est\u00e3o em obras, entre eles as torres do Waldorf Astoria e do Delano, al\u00e9m da futura Biblioteca Presidencial Donald J. Trump. A FIFA transformou Coral Gables no centro administrativo da Copa do Mundo de 2026, enquanto Doral, onde fica o <a href=\"https:\/\/www.wpbf.com\/article\/president-donald-trump-gold-statue-at-trump-doral-golf-club\/71330691\">resort de golfe de Trump<\/a>, se prepara para sediar a c\u00fapula do G20 em setembro. Stephen Ross, s\u00f3cio de Jorge M. P\u00e9rez na Related Group, e Ken Griffin, fundador da Citadel, lan\u00e7aram a campanha \u201c<a href=\"https:\/\/fc100.org\/news\/floridas-leading-ceos-launch-ambition-accelerated-platform-to-build-the-next-generation-of-companies-and-compete-for-americas-economic-future\">Ambition Accelerated<\/a>\u201d, uma iniciativa de US$ 100 milh\u00f5es destinada a atrair CEOs e grandes l\u00edderes empresariais para o sul da Fl\u00f3rida. A Palantir, fornecedora de tecnologias b\u00e9licas e de vigil\u00e2ncia algor\u00edtmica, <a href=\"https:\/\/www.foxbusiness.com\/technology\/ai-giant-palantir-moves-its-headquarters-florida-tech-company-exodus-continues\">transferiu sua sede<\/a> para Aventura. Miami prospera alimentada pela especula\u00e7\u00e3o e pela promessa de Trump de transformar a Fl\u00f3rida no centro geopol\u00edtico de um hemisf\u00e9rio em reorganiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo do alto dos arranha-c\u00e9us mais altos de Miami, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel avistar Cuba. A curvatura da Terra torna a ilha invis\u00edvel no horizonte. Distra\u00edda pelo pr\u00f3prio sucesso, Miami continua a brilhar enquanto Cuba mergulha na escurid\u00e3o. Ainda antes da mais recente escalada coercitiva, os indicadores econ\u00f4micos cubanos <a href=\"https:\/\/canadacaribbeaninstitute.org\/2025\/08\/08\/cuba-and-haiti-only-two-regional-economies-set-to-decline-in-2025-according-to-eclac\/\">j\u00e1 se aproximavam<\/a> cada vez mais dos do Haiti. Ao contr\u00e1rio da Venezuela, Cuba n\u00e3o disp\u00f5e de reservas de petr\u00f3leo nem de commodities estrat\u00e9gicas capazes de sustentar uma transi\u00e7\u00e3o prolongada. Tampouco h\u00e1 ind\u00edcios de que a campanha de press\u00e3o conduzida por Washington tenha preparado uma alternativa pol\u00edtica vi\u00e1vel, capaz de governar a ilha caso o regime atual entre em colapso ou se fragmente. Trump, sempre inclinado ao aceleracionismo e \u00e0 pol\u00edtica do espet\u00e1culo, talvez sonhe em encenar a rendi\u00e7\u00e3o de Cuba em meio \u00e0s comemora\u00e7\u00f5es dos 250 anos da independ\u00eancia dos Estados Unidos e da Copa do Mundo em Miami. 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