{"id":33177,"date":"2026-06-10T03:31:27","date_gmt":"2026-06-10T03:31:27","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/nao-categorizado\/trumpian-state-capitalism\/"},"modified":"2026-07-04T14:36:21","modified_gmt":"2026-07-04T14:36:21","slug":"capitalismo-estado-trumpista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/capitalismo-estado-trumpista\/","title":{"rendered":"Capitalismo de Estado trumpista"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Da compra de participa\u00e7\u00f5es acion\u00e1rias em empresas privadas a amea\u00e7as de interven\u00e7\u00e3o em companhias de defesa, passando por acordos de compartilhamento de receitas com fabricantes de semicondutores e por uma nova onda de tarifas e outras medidas protecionistas, \u00e9 not\u00f3rio o esfor\u00e7o de Trump, em seu segundo mandato, em defender a propriedade estatal e a politiza\u00e7\u00e3o expl\u00edcita da economia. \u201cAcho que dever\u00edamos ter participa\u00e7\u00f5es em empresas. Alguns diriam que isso n\u00e3o parece muito americano. Na verdade, acho que \u00e9 muito americano\u201d, declarou o presidente no fim do ano passado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As caracter\u00edsticas distintivas do capitalismo de Estado trumpista aparecem com especial nitidez na busca dos Estados Unidos por garantir o acesso a \u201c<a href=\"https:\/\/www.federalregister.gov\/documents\/2025\/11\/07\/2025-19813\/final-2025-list-of-critical-minerals\">minerais cr\u00edticos<\/a>\u201d, um conjunto cada vez maior de mat\u00e9rias-primas consideradas essenciais para a seguran\u00e7a nacional e o funcionamento da economia, cujo abastecimento \u00e9 vulner\u00e1vel a interrup\u00e7\u00f5es. Desde julho de 2025, o Export-Import Bank of the United States, a US International Development Finance Corporation e os Departamentos de Com\u00e9rcio, Energia e Guerra comprometeram <a href=\"https:\/\/www.state.gov\/releases\/office-of-the-spokesperson\/2026\/02\/2026-critical-minerals-ministerial\">cerca de US$ 25 bilh\u00f5es<\/a> em financiamentos para empresas e projetos de minera\u00e7\u00e3o desses insumos nos Estados Unidos, Reino Unido, Austr\u00e1lia, Brasil, Ucr\u00e2nia, Cazaquist\u00e3o, Ar\u00e1bia Saudita, Coreia do Sul, Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo e Jamaica. Em fevereiro de 2026, Trump lan\u00e7ou o <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/us-news\/2026\/feb\/03\/trump-critical-minerals-stockpile-project-vault\">Project Vault<\/a>, um estoque estrat\u00e9gico de minerais cr\u00edticos no valor de US$ 12 bilh\u00f5es, e o vice-presidente JD Vance anunciou a inten\u00e7\u00e3o de criar um novo <a href=\"https:\/\/www.aljazeera.com\/economy\/2026\/2\/4\/us-announces-proposed-critical-mineral-trading-bloc\">bloco comercial de minerais cr\u00edticos<\/a> \u201centre aliados e parceiros, que garanta aos Estados Unidos acesso ao seu pr\u00f3prio poderio industrial e, ao mesmo tempo, amplie a produ\u00e7\u00e3o em toda essa \u00e1rea\u201d.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 medida que os Estados Unidos promovem uma corrida global pelo controle de recursos estrat\u00e9gicos, reorganizam cadeias produtivas e constroem alian\u00e7as para conter a ascens\u00e3o chinesa, os contornos do capitalismo de Estado trumpista tornam-se mais n\u00edtidos. Ao mesmo tempo, por\u00e9m, tamb\u00e9m emergem seus limites, contradi\u00e7\u00f5es e potenciais pontos de ruptura. Essa guinada intervencionista, centrada na seguran\u00e7a do abastecimento de minerais cr\u00edticos e de outros insumos estrat\u00e9gicos, ocorre em um contexto mais amplo de ressurgimento do capitalismo de Estado em diversas partes do mundo e se apoia, ainda que de forma distinta, nas capacidades institucionais constru\u00eddas pela pol\u00edtica industrial verde do governo anterior. O resultado tende a redefinir tanto a disputa por estrat\u00e9gias de desenvolvimento verde no Sul global quanto os pr\u00f3prios termos do debate sobre pol\u00edtica industrial e interven\u00e7\u00e3o estatal nos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O capitalismo de Estado antes de Trump<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar de toda a encena\u00e7\u00e3o, Trump chegou tarde a essa agenda. H\u00e1 pelo menos duas d\u00e9cadas, governos ao redor do mundo voltaram a recorrer \u00e0 propriedade estatal, geralmente associada a diferentes formas de pol\u00edtica industrial e, muitas vezes, com objetivos geoestrat\u00e9gicos. Esse processo marca a <a href=\"https:\/\/academic.oup.com\/book\/57552\">reinven\u00e7\u00e3o do capitalismo de Estado<\/a> no s\u00e9culo XXI. Bancos de desenvolvimento, fundos soberanos, empresas p\u00fablicas e fundos de capital de risco apoiados pelo Estado se multiplicaram, e o volume de capital e de ativos sob seu controle cresceu de forma extraordin\u00e1ria. No in\u00edcio de 2026, os fundos soberanos administravam, em conjunto, cerca de <a href=\"https:\/\/academic.oup.com\/book\/57552\">US$ 15 trilh\u00f5es em ativos<\/a>, ante menos de US$ 1 trilh\u00e3o em 2000. As empresas estatais controlam ainda mais: <a href=\"https:\/\/www.oecd.org\/en\/publications\/ownership-and-governance-of-state-owned-enterprises-2024_395c9956-en.html\">US$ 54 trilh\u00f5es em ativos<\/a>, o equivalente a quase metade do PIB mundial, frente a aproximadamente US$ 13 trilh\u00f5es em 2000.<a data-contents=\"Embora n\u00e3o haja d\u00favida de que a China exerce um peso significativo nesses dados, um vasto conjunto de estudos acad\u00eamicos e de pesquisas voltadas \u00e0 formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas\u2014incluindo relat\u00f3rios do Fundo Monet\u00e1rio Internacional, do Banco Mundial, da Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Com\u00e9rcio e Desenvolvimento (UNCTAD), da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE) e de outras institui\u00e7\u00f5es de governan\u00e7a global\u2014demonstra que essa expans\u00e3o n\u00e3o pode ser explicada apenas pela ascens\u00e3o da China, nem pela chamada ascens\u00e3o dos BRICS e de outras economias emergentes. Essas diferentes modalidades de empresas estatais e de entidades corporativas controladas pelo Estado t\u00eam origem em pa\u00edses de todos os n\u00edveis de renda e sob os mais diversos regimes pol\u00edticos e est\u00e3o amplamente presentes em pa\u00edses da OCDE.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-1\" href=\"#footnote-list-1\">1<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Embora n\u00e3o haja d\u00favida de que a China exerce um peso significativo nesses dados, um vasto conjunto de estudos acad\u00eamicos e de pesquisas voltadas \u00e0 formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas\u2014incluindo relat\u00f3rios do Fundo Monet\u00e1rio Internacional, do Banco Mundial, da Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Com\u00e9rcio e Desenvolvimento (UNCTAD), da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE) e de outras institui\u00e7\u00f5es de governan\u00e7a global\u2014demonstra que essa expans\u00e3o n\u00e3o pode ser explicada apenas pela ascens\u00e3o da China, nem pela chamada ascens\u00e3o dos BRICS e de outras economias emergentes. Essas diferentes modalidades de empresas estatais e de entidades corporativas controladas pelo Estado t\u00eam origem em pa\u00edses de todos os n\u00edveis de renda e sob os mais diversos regimes pol\u00edticos e est\u00e3o amplamente presentes em pa\u00edses da OCDE.<\/span> Entre 2017 e 2023, o ritmo de ado\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas industriais <a href=\"https:\/\/blogs.worldbank.org\/en\/developmenttalk\/the-renaissance-of-industrial-policy--known-knowns--known-unknow\">aumentou<\/a> nove vezes. As <a href=\"https:\/\/blogs.worldbank.org\/en\/developmenttalk\/the-renaissance-of-industrial-policy--known-knowns--known-unknow\">restri\u00e7\u00f5es ao com\u00e9rcio<\/a> tamb\u00e9m se tornaram um componente central da agenda do capitalismo de Estado. Tarifas de importa\u00e7\u00e3o, bem como proibi\u00e7\u00f5es, cotas e outras restri\u00e7\u00f5es \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es cresceram acentuadamente ao longo da \u00faltima d\u00e9cada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa mudan\u00e7a quantitativa reflete uma reorganiza\u00e7\u00e3o mais profunda da economia. O significado pol\u00edtico da interven\u00e7\u00e3o estatal se isentou das associa\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas do s\u00e9culo XX\u2014socialismo, social-democracia, fascismo e afins\u2014e passou a ser apropriado por governos dos mais diversos matizes. Em uma revers\u00e3o parcial das ondas de privatiza\u00e7\u00e3o e liberaliza\u00e7\u00e3o dos mercados que marcaram o auge do neoliberalismo entre os anos 1980 e 2000, governos voltaram a recorrer \u00e0 propriedade estatal para assegurar objetivos industriais e de desenvolvimento diante das turbul\u00eancias da economia global e da intensifica\u00e7\u00e3o da competi\u00e7\u00e3o geoecon\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora responda a tend\u00eancias globais mais amplas e esteja inserido nelas, o que distingue o capitalismo de Estado trumpista? A instrumentaliza\u00e7\u00e3o das redes financeiras e tecnol\u00f3gicas dos Estados Unidos j\u00e1 figurava na estrat\u00e9gia de <a href=\"https:\/\/www.penguin.co.uk\/books\/455209\/underground-empire-by-newman-henry-farrell-and-abraham\/9781802062076\">diversos governos<\/a> anteriores. Biden, em particular, tamb\u00e9m j\u00e1 havia promovido uma pol\u00edtica industrial voltada \u00e0 indu\u00e7\u00e3o do investimento privado, baseada na combina\u00e7\u00e3o de cr\u00e9ditos tribut\u00e1rios para investimentos privados em tecnologias verdes e minerais cr\u00edticos com incentivos aos consumidores. A variante trumpista, por\u00e9m, combina a enorme capacidade de interven\u00e7\u00e3o do Estado americano com rela\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter personalista e, mais, defende a propriedade estatal numa escala jamais cogitada por seu antecessor.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, ainda que esse \u00faltimo aspecto represente um ponto de inflex\u00e3o no exerc\u00edcio de poder do Estado americano, n\u00e3o se trata de algo sem precedentes. Historicamente, nos EUA, iniciativas de governo impulsionaram <a href=\"https:\/\/www.war.gov\/News\/Feature-Stories\/Story\/Article\/4337784\/12-military-innovations-that-are-now-everyday-parts-of-society\/\">avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos<\/a> que, mais tarde, ganharam ampla aplica\u00e7\u00e3o comercial. Durante o New Deal, institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas chegaram a assumir diretamente a propriedade e o controle de empresas como parte da constru\u00e7\u00e3o de uma economia mista. Na Segunda Guerra Mundial, o governo federal ampliou suas fun\u00e7\u00f5es de planejamento e coordena\u00e7\u00e3o por meio de institui\u00e7\u00f5es como o War Production Board. Em 1950, o Defense Production Act conferiu ao Estado instrumentos para direcionar a produ\u00e7\u00e3o privada. Desde a d\u00e9cada de 1950, j\u00e1 em tempos de paz, o governo <a href=\"https:\/\/www.lawfaremedia.org\/article\/the-legal-bases-for-government-stakes-in-private-firms\">adquiriu repetidas vezes<\/a> participa\u00e7\u00f5es acion\u00e1rias em institui\u00e7\u00f5es financeiras e grandes empresas. No passado, interven\u00e7\u00f5es como essas estiveram vinculadas a programas tempor\u00e1rios de resgate financeiro; hoje, constituem a base jur\u00eddica para as iniciativas de Trump de ampliar a participa\u00e7\u00e3o acion\u00e1ria do Estado em empresas privadas. A Strategic Petroleum Reserve (SPR), criada em 1975 como um estoque estrat\u00e9gico de petr\u00f3leo administrado pelo governo para estabilizar pre\u00e7os e garantir a seguran\u00e7a do abastecimento, talvez constitua o precedente mais pr\u00f3ximo de um ativo de propriedade e gest\u00e3o estatais concebido para atender simultaneamente a objetivos geoestrat\u00e9gicos e desenvolvimentistas.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O laborat\u00f3rio dos minerais cr\u00edticos<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo em economias declaradamente comprometidas com o livre mercado, os setores extrativos s\u00e3o, por excel\u00eancia, aqueles em que a interven\u00e7\u00e3o estatal se manifesta de forma mais intensa. O modelo dessa interven\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o variado hoje quanto no passado: nacionaliza\u00e7\u00f5es e expropria\u00e7\u00f5es de ativos; empresas estatais; joint ventures entre estatais e empresas privadas; negocia\u00e7\u00f5es de contratos entre corpora\u00e7\u00f5es e \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos para concess\u00f5es ou direitos de explora\u00e7\u00e3o; exig\u00eancia de autoriza\u00e7\u00f5es e licen\u00e7as para pesquisar, desenvolver, encerrar e recuperar \u00e1reas de minera\u00e7\u00e3o; al\u00e9m de um conjunto cada vez mais amplo de normas sociais, ambientais e trabalhistas, incluindo, em algumas jurisdi\u00e7\u00f5es, a obrigatoriedade de consulta ou consentimento pr\u00e9vio de povos ind\u00edgenas. Do acesso \u00e0s jazidas minerais \u00e0 defini\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de investimento e \u00e0 gest\u00e3o dos impactos socioambientais da extra\u00e7\u00e3o, o Estado participa de praticamente todas as etapas do processo. Agora, no entanto, assistimos \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de novas capacidades estatais para enfrentar (e intensificar) a crescente import\u00e2ncia geopol\u00edtica das cadeias de suprimento que sustentam as novas tecnologias, todas elas ancoradas na extra\u00e7\u00e3o de minerais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que explica essa renova\u00e7\u00e3o da obsess\u00e3o pol\u00edtica pela minera\u00e7\u00e3o? O atual <a href=\"https:\/\/static1.squarespace.com\/static\/53e8fd0ee4b065351ce13257\/t\/63e5beb17cec867b1030ddb0\/1676000945789\/riofrancos+-+security+sustainability+nexus+-+GEP+final+.pdf\">consenso dos minerais cr\u00edticos<\/a> foi moldado pela combina\u00e7\u00e3o de diversos processos: o boom das commodities, iniciado no come\u00e7o deste s\u00e9culo e encerrado em 2014; a ascens\u00e3o econ\u00f4mica da China e o desafio que ela passou a representar para a primazia tecnol\u00f3gica do Norte global; a r\u00e1pida expans\u00e3o e difus\u00e3o das tecnologias digitais e verdes; e a pandemia de Covid-19, que exp\u00f4s a fragilidade das cadeias globais de suprimento diante de grandes choques, fragilidade essa que foi sucessivamente refor\u00e7ada pela sucess\u00e3o de conflitos geopol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A preocupa\u00e7\u00e3o tanto com a disponibilidade quanto com a volatilidade dos pre\u00e7os de uma ampla gama de insumos minerais surgiu ainda durante o boom das commodities, impulsionado pela acelerada industrializa\u00e7\u00e3o e urbaniza\u00e7\u00e3o chinesa. Naquele momento, por\u00e9m, esse debate permanecia restrito a segmentos da burocracia estatal dos Estados Unidos e da Uni\u00e3o Europeia. Esse quadro come\u00e7ou a mudar \u00e0 medida que a ansiedade das elites desses pa\u00edses se intensificava diante da ascens\u00e3o da China, que subiu rapidamente na cadeia produtiva, deixando para tr\u00e1s a montagem e a manufatura de baixos sal\u00e1rios e avan\u00e7ando para a fronteira da inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0s v\u00e9speras da Segunda Guerra Mundial, o governo dos EUA passou a manter uma lista oficial do que denominava \u201cminerais cr\u00edticos\u201d e a formar estoques estrat\u00e9gicos desses materiais. Ao longo da \u00faltima d\u00e9cada, uma s\u00e9rie de decretos presidenciais ampliou essa lista para incluir novos insumos minerais essenciais \u00e0s tecnologias avan\u00e7adas, aos equipamentos de defesa e \u00e0 transi\u00e7\u00e3o verde. Do outro lado do Atl\u00e2ntico, a Uni\u00e3o Europeia passou a catalogar esses minerais em 2010, enquanto o Reino Unido elaborou sua pr\u00f3pria lista em 2021. \u00c0 medida que especialistas em pol\u00edticas p\u00fablicas do Norte global come\u00e7aram a compreender, ainda que tardiamente, a dimens\u00e3o hist\u00f3rica da transforma\u00e7\u00e3o industrial chinesa, procuraram internalizar e securitizar as cadeias de suprimento em todas as suas etapas, da mina \u00e0 f\u00e1brica. O objetivo era trazer esses elos produtivos de volta ao territ\u00f3rio nacional (<em>onshoring<\/em> ou, em alguns casos, <em>reshoring<\/em>) ou, na impossibilidade disso, transferi-los para pa\u00edses aliados (<em>friendshoring<\/em>). A amplitude do consenso dos minerais cr\u00edticos \u00e9 digna de nota: tanto nos Estados Unidos quanto no Reino Unido e na Uni\u00e3o Europeia, em contextos pol\u00edticos marcados por forte polariza\u00e7\u00e3o, esse objetivo atravessou todo o espectro ideol\u00f3gico e aproximou os setores p\u00fablico e privado, reunindo defensores da seguran\u00e7a nacional, ativistas clim\u00e1ticos, especialistas em pol\u00edtica energ\u00e9tica, industriais, executivos de grandes empresas de tecnologia e investidores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O predom\u00ednio da China nas cadeias globais de suprimento desses recursos,\u00a0da minera\u00e7\u00e3o ao processamento e refino, passando pela manufatura e pela reciclagem ao fim da vida \u00fatil dos produtos, disseminou a preocupa\u00e7\u00e3o com um eventual \u201cchoque chin\u00eas\u201d dos minerais cr\u00edticos. O caso das terras raras, utilizadas em motores de ve\u00edculos el\u00e9tricos, naceles de turbinas e\u00f3licas, eletr\u00f4nicos de consumo e equipamentos militares, \u00e9 ilustrativo. Desde o in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990, a China construiu, de forma gradual e a um <a href=\"https:\/\/www.bbc.co.uk\/news\/resources\/idt-66cdf862-5e96-4e6e-90b8-a407b597c8d9\">enorme custo ambiental<\/a>, uma posi\u00e7\u00e3o dominante e altamente integrada verticalmente no setor de terras raras. Enquanto isso, a maior parte das minas localizadas nos pa\u00edses ricos foi desativada, seja em raz\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o ambiental, seja pela incapacidade de competir com as novas minas chinesas. Din\u00e2mica semelhante pode ser observada em outros segmentos de minerais cr\u00edticos, sobretudo nas etapas de processamento e refino, onde essa concentra\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais acentuada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo a <a href=\"https:\/\/www.mining-technology.com\/features\/a-deep-dive-into-chinas-role-as-critical-mineral-monolith\/\"><em>Mining Technology<\/em><\/a>, a China responde atualmente por 99% da produ\u00e7\u00e3o mundial de grafite de grau bateria, mais de 60% dos compostos qu\u00edmicos de l\u00edtio, 40% do cobre refinado, mais de 80% das terras raras magn\u00e9ticas refinadas e 70% do cobalto refinado, \u201cal\u00e9m de dominar integralmente a cadeia de suprimento de \u00e2nodos de grafite, de ponta a ponta\u201d. A China tamb\u00e9m passou a utilizar essa posi\u00e7\u00e3o dominante como instrumento de pol\u00edtica externa. Em 2010, ap\u00f3s as tens\u00f5es no Mar da China Oriental, Pequim interrompeu temporariamente as exporta\u00e7\u00f5es de terras raras para o Jap\u00e3o, refor\u00e7ando o sentimento de alerta entre formuladores de pol\u00edticas e burocracias de seguran\u00e7a no Ocidente. Em julho de 2023, em resposta \u00e0s restri\u00e7\u00f5es impostas pelo governo Biden \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es de tecnologias relacionadas a semicondutores, a China estabeleceu <a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/world\/china\/china-export-curbs-choke-off-shipments-gallium-germanium-second-month-2023-10-20\/\">controles sobre as exporta\u00e7\u00f5es de g\u00e1lio e germ\u00e2nio<\/a>, insumos essenciais para a ind\u00fastria eletr\u00f4nica. J\u00e1 em outubro de 2025, em meio \u00e0 guerra comercial desencadeada por Trump, Pequim <a href=\"https:\/\/www.aljazeera.com\/news\/2025\/10\/10\/china-tightens-export-controls-on-rare-earth-metals-why-this-matters\">ampliou esse regime de controles<\/a> para abranger um conjunto mais amplo de minerais cr\u00edticos, incluindo terras raras, materiais para baterias de l\u00edtio e grafite.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Impulsionados pela expectativa de que a demanda por esses recursos <a href=\"https:\/\/www.iea.org\/reports\/global-critical-minerals-outlook-2025\/executive-summary\">aumente significativamente<\/a> nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, pa\u00edses de todo o mundo v\u00eam respondendo \u00e0 intensa \u201cgeopolitiza\u00e7\u00e3o\u201d dos minerais cr\u00edticos com uma ampla gama de iniciativas de pol\u00edtica p\u00fablica. O <a href=\"https:\/\/single-market-economy.ec.europa.eu\/sectors\/raw-materials\/areas-specific-interest\/critical-raw-materials\/critical-raw-materials-act_en\">Critical Raw Minerals Act<\/a> da Uni\u00e3o Europeia, a <a href=\"https:\/\/www.canada.ca\/en\/campaign\/critical-minerals-in-canada\/canadas-critical-minerals-strategy.html\">Critical Minerals Strateg<\/a>y do Canad\u00e1 e a <a href=\"https:\/\/www.gov.uk\/government\/publications\/uk-critical-minerals-strategy\/vision-2035-critical-minerals-strategy\">Vision 2025<\/a> do Reino Unido, todos voltados \u00e0 reconfigura\u00e7\u00e3o e diversifica\u00e7\u00e3o do abastecimento de mat\u00e9rias-primas cr\u00edticas indispens\u00e1veis \u00e0s transi\u00e7\u00f5es verde e digital, s\u00e3o exemplos disso. Muitas dessas iniciativas recorrem a <a href=\"https:\/\/transitionsecurity.org\/imperial-state-capitalism\/\">fundos p\u00fablicos de investimento, empresas estatais e bancos de desenvolvimento<\/a> para financiar empresas e projetos de minera\u00e7\u00e3o em territ\u00f3rio nacional e no exterior. Outras preveem a cria\u00e7\u00e3o de <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/environment\/2026\/feb\/16\/critical-minerals-shortages-jd-vance-trading-bloc-analysis\">estoques estrat\u00e9gicos estatais de metais industriais<\/a>, em antecipa\u00e7\u00e3o a futuras interrup\u00e7\u00f5es nas cadeias de suprimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pol\u00edtica comercial tamb\u00e9m se tornou um instrumento central para garantir o acesso a minerais cr\u00edticos. Nesse contexto, os Estados Unidos <a href=\"https:\/\/www.csis.org\/analysis\/ahead-apec-trump-signs-flurry-bilateral-minerals-agreements-asia-tour\">multiplicaram<\/a> acordos <a href=\"https:\/\/www.csis.org\/analysis\/what-know-about-signed-us-ukraine-minerals-deal\">bilaterais<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.csis.org\/analysis\/what-know-about-signed-us-ukraine-minerals-deal\">multilaterais<\/a> voltados \u00e0 \u201cseguran\u00e7a dos minerais\u201d (<em>mineral security<\/em>). Houve, ainda, um\u00a0 <a href=\"https:\/\/www.oecd.org\/en\/about\/news\/press-releases\/2026\/04\/critical-raw-materials-face-rising-export-restrictions-increasing-risks-to-global-supply-chains.html\">crescimento expressivo<\/a> da ado\u00e7\u00e3o de proibi\u00e7\u00f5es e cotas de exporta\u00e7\u00e3o destinadas a restringir a sa\u00edda de minerais cr\u00edticos, seja para fortalecer a ind\u00fastria dom\u00e9stica, para transformar a interdepend\u00eancia econ\u00f4mica em instrumento de coer\u00e7\u00e3o ou para ampliar as receitas provenientes do setor de commodities. Propostas de coordena\u00e7\u00e3o transnacional voltadas \u00e0 estabiliza\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os e, potencialmente, \u00e0 padroniza\u00e7\u00e3o da governan\u00e7a desses mercados tamb\u00e9m come\u00e7aram a proliferar\u2014iniciativas que, por sua vez, se articulam a projetos geopol\u00edticos concorrentes liderados pelos <a href=\"https:\/\/apnews.com\/article\/trump-china-rare-earths-critical-minerals-tariffs-aa82fd4c065c9b62300ff7834b660cfb\">Estados Unidos<\/a>, pela <a href=\"https:\/\/single-market-economy.ec.europa.eu\/sectors\/raw-materials\/areas-specific-interest\/raw-materials-diplomacy_en\">Uni\u00e3o Europeia<\/a>, pela <a href=\"https:\/\/copperbeltkatangamining.com\/drc-proposes-strategic-minerals-organization-to-stabilize-global-market\/\">Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo<\/a> e por pa\u00edses da <a href=\"https:\/\/www.forbes.com\/sites\/eliasferrerbreda\/2023\/08\/08\/is-this-the-dawn-of-a-lithium-opec\/\">Am\u00e9rica Latina<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A arquitetura do capitalismo de Estado americano<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O governo Trump vem conduzindo um amplo projeto para reposicionar tanto a economia americana quanto os pr\u00f3prios Estados Unidos nas redes globais de minerais cr\u00edticos. At\u00e9 fevereiro de 2026, pelo menos <a href=\"https:\/\/www.state.gov\/releases\/office-of-the-spokesperson\/2026\/02\/2026-critical-minerals-ministerial\">dezoito grandes empresas do setor<\/a> haviam recebido ou sido contempladas com ofertas de financiamento direto, empr\u00e9stimos garantidos ou participa\u00e7\u00f5es acion\u00e1rias por parte do governo federal, do Export-Import Bank e da US International Development Finance Corporation.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sem apoio estatal maci\u00e7o, projetos de minera\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos s\u00e3o, em geral, pouco rent\u00e1veis para investidores privados. O principal obst\u00e1culo \u00e9 a taxa m\u00ednima de retorno exigida pelo capital privado: o n\u00edvel de rentabilidade considerado aceit\u00e1vel descontados os riscos e os custos do investimento. A minera\u00e7\u00e3o tem elevados custos fixos iniciais, quase todos classificados como irrecuper\u00e1veis, e envolve prazos muito longos at\u00e9 que o capital investido comece a gerar retorno. Das etapas iniciais de licenciamento e explora\u00e7\u00e3o \u00e0 constru\u00e7\u00e3o e \u00e0s fases operacionais, que podem se estender por d\u00e9cadas, esses projetos est\u00e3o expostos a todo tipo de risco. Excedentes de oferta podem derrubar os pre\u00e7os e, com isso, reduzir tanto o valor do ativo mineral quanto o das a\u00e7\u00f5es da empresa propriet\u00e1ria; tens\u00f5es geopol\u00edticas podem interromper cadeias de suprimento ou deteriorar rela\u00e7\u00f5es entre produtores e clientes; protestos de comunidades locais podem paralisar minas por dias ou semanas; a incerteza tecnol\u00f3gica e a amea\u00e7a de substitui\u00e7\u00e3o de materiais rondam projetos extrativos ligados a fronteiras de inova\u00e7\u00e3o em r\u00e1pida transforma\u00e7\u00e3o; e o pr\u00f3prio arsenal crescente de interven\u00e7\u00f5es estatais pode gerar incerteza, \u00e0 medida que regula\u00e7\u00f5es, regimes tribut\u00e1rios e estruturas de propriedade permanecem em reconfigura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todas essas caracter\u00edsticas s\u00e3o profundamente avessas \u00e0 l\u00f3gica do setor financeiro privado. Mais de uma d\u00e9cada ap\u00f3s o fim do superciclo das commodities, os <a href=\"https:\/\/www.spglobal.com\/market-intelligence\/en\/news-insights\/research\/2026\/03\/world-exploration-trends-2026-what-the-latest-data-says-about-budgets-risk-appetite-and-the-project-pipeline\">or\u00e7amentos destinados \u00e0 explora\u00e7\u00e3o de novos dep\u00f3sitos<\/a> (projetos <em>greenfield<\/em>) ainda n\u00e3o se recuperaram plenamente. Nesse contexto, o financiamento p\u00fablico n\u00e3o simplesmente substitui o investimento privado: \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel para atrair um capital que, de outra forma, evitaria um setor marcado por custos elevados, riscos significativos e um horizonte de retorno de longo prazo. Nos Estados Unidos e na Uni\u00e3o Europeia, onde os custos operacionais de terra e m\u00e3o de obra s\u00e3o mais altos do que no Sul global, essa depend\u00eancia \u00e9 ainda maior. Como resultado, projetos de minera\u00e7\u00e3o passaram a requerer cada vez mais disposi\u00e7\u00e3o dos governos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O caso da Thacker Pass, uma mina de l\u00edtio em constru\u00e7\u00e3o no estado de Nevada, \u00e9 ilustrativo. Apesar de anos de incerteza provocados por diversas a\u00e7\u00f5es judiciais e por acampamentos permanentes de manifestantes, o projeto acabou saindo do papel, mas somente gra\u00e7as \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o de todo o arsenal do capitalismo de Estado. A mina foi beneficiada por um processo acelerado de licenciamento durante o primeiro governo Trump, obtendo sua aprova\u00e7\u00e3o definitiva em janeiro de 2021, na \u00faltima semana do mandato. Em seguida, j\u00e1 no governo Biden, recebeu um empr\u00e9stimo bilion\u00e1rio do Departamento de Energia (DOE, na sigla em ingl\u00eas), que financiou <a href=\"https:\/\/www.batterytechonline.com\/materials\/new-study-names-nevada-lithium-mine-world-s-largest\">cerca de 75% dos custos de constru\u00e7\u00e3o<\/a>. Paralelamente, ainda sob Biden, a General Motors comprou uma participa\u00e7\u00e3o significativa no empreendimento para garantir acesso preferencial \u00e0 produ\u00e7\u00e3o futura da mina. Posteriormente, durante o segundo governo Trump, o pr\u00f3prio DOE <a href=\"https:\/\/www.energy.gov\/articles\/department-energy-restructures-lithium-americas-deal-protect-taxpayers-and-onshore\">adquiriu participa\u00e7\u00f5es acion\u00e1rias<\/a> tanto no projeto quanto na empresa respons\u00e1vel por sua execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um movimento semelhante tamb\u00e9m pode ser observado na Europa. A generosidade do capitalismo de Estado contempor\u00e2neo fica n\u00edtida no projeto Lionheart da Vulcan Energy, localizado no Alto Vale do Reno, na Alemanha. Segundo o <a href=\"https:\/\/www.ft.com\/content\/0714a81f-0e18-4497-84d3-1d6e8a428443\"><em>Financial Times<\/em><\/a>, em dezembro de 2025 a empresa assegurou US$ 2,56 bilh\u00f5es por meio de uma estrutura combinada de financiamento p\u00fablico e privado \u201clastreada por ag\u00eancias governamentais da Alemanha e da Uni\u00e3o Europeia, pelo Banco Europeu de Investimento, por cinco ag\u00eancias de cr\u00e9dito \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o e por sete bancos comerciais, reunindo empr\u00e9stimos, subs\u00eddios p\u00fablicos, aportes de capital e capta\u00e7\u00e3o de recursos via emiss\u00e3o de a\u00e7\u00f5es\u201d.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao reduzir as taxas m\u00ednimas de retorno exigidas pelo capital privado, as interven\u00e7\u00f5es do capitalismo de Estado americano buscam, antes de tudo, expandir as atividades de minera\u00e7\u00e3o e processamento de mat\u00e9rias-primas cr\u00edticas (como tit\u00e2nio, n\u00edquel, cobre, ouro, zinco, l\u00edtio, cobalto, grafite, pot\u00e1ssio, mangan\u00eas e g\u00e1lio) em territ\u00f3rio nacional. Para isso, recorrem a diferentes estrat\u00e9gias: abrir novas minas, como a Thacker Pass, de l\u00edtio; reativar minas desativadas, como a Mountain Pass, de terras raras; e destravar projetos que permaneciam paralisados nas fases iniciais de licenciamento devido \u00e0 falta de interesse de investidores ou \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o local, como o Resolution Copper, no Arizona. Em conjunto com a fixa\u00e7\u00e3o de <a href=\"https:\/\/www.resources.org\/common-resources\/can-price-floors-fix-americas-rare-earth-problem\/\">pre\u00e7os m\u00ednimos<\/a> para determinados minerais, esse financiamento estatal busca apoiar empresas do setor e atrair investimentos nacionais e estrangeiros. A expans\u00e3o das capacidades de extra\u00e7\u00e3o e processamento refor\u00e7aria a posi\u00e7\u00e3o e a centralidade da economia estadunidense nas redes globais de minerais cr\u00edticos. Em tese, essa posi\u00e7\u00e3o fortalecida aumentaria a prote\u00e7\u00e3o do pa\u00eds contra riscos de abastecimento e permitiria aos Estados Unidos transformar a depend\u00eancia dos pa\u00edses importadores em instrumento de coer\u00e7\u00e3o, como j\u00e1 ocorre no caso dos semicondutores avan\u00e7ados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O segundo objetivo do capitalismo de Estado no setor de minerais cr\u00edticos \u00e9 controlar n\u00f3s estrat\u00e9gicos das cadeias globais de suprimento e das redes de produ\u00e7\u00e3o. A US International Development Finance Corporation (DFC) foi reorientada justamente para cumprir essa fun\u00e7\u00e3o. Segundo a <a href=\"https:\/\/www.dfc.gov\/who-we-are\/about-us\">pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o<\/a>, sua miss\u00e3o \u00e9 \u201cinvestir em projetos que fa\u00e7am frente \u00e0 presen\u00e7a da China em locais estrat\u00e9gicos e fortale\u00e7am as cadeias de suprimento de minerais cr\u00edticos necess\u00e1rios \u00e0s ind\u00fastrias do futuro\u201d. Em meados de dezembro, o Congresso americano <a href=\"https:\/\/www.cgdev.org\/blog\/dfc-reauthorization-whats-new-and-what-it-means#:~:text=The%20US%20International%20Development%20Finance%20Corporation%20(DFC),revolving%20fund%20to%20support%20direct%20equity%20investments.\">renovou seu mandato<\/a> por meio do National Defense Authorization Act de 2026, que mais do que triplicou o teto de investimentos, de US$ 60 bilh\u00f5es para US$ 205 bilh\u00f5es. Com isso, a DFC pode realizar <a href=\"https:\/\/www.thinkglobalhealth.org\/article\/what-the-development-finance-corporation-reauthorization-means-for-global-health-security\">investimentos de maior risco<\/a> em empresas e outras entidades sediadas em pa\u00edses de baixa, m\u00e9dia e alta renda. Entre as <a href=\"https:\/\/www.dfc.gov\/media\/press-releases\/dfc-highlights-landmark-critical-minerals-investments-strengthen-us-national\">opera\u00e7\u00f5es mais recentes<\/a> da institui\u00e7\u00e3o est\u00e3o um empr\u00e9stimo de US$ 565 milh\u00f5es \u00e0 mineradora brasileira <a href=\"https:\/\/svpm.com.br\/en\/?cn-reloaded=1\">Serra Verde<\/a>\u2014descrita como \u201ca primeira produtora em larga escala, <a href=\"https:\/\/www.vision-blue.com\/portfolio\/serra-verde\/\">fora da \u00c1sia<\/a>, dos quatro elementos magn\u00e9ticos de terras raras\u201d\u2014e um aporte de capital de US$ 75 milh\u00f5es ao <a href=\"https:\/\/www.dfc.gov\/investment-story\/investing-ukraines-reconstruction-and-americas-security\">United States\u2013Ukraine Reconstruction Investment Fund<\/a> voltado ao desenvolvimento do setor de minerais cr\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora a DFC tenha sido criada para estimular a iniciativa privada, hoje ela tamb\u00e9m pode investir em empresas estatais, que continuam ocupando um <a href=\"https:\/\/carnegieendowment.org\/research\/2025\/11\/from-caution-to-competition-positioning-us-development-finance-for-industrial-power\">papel central<\/a> nos setores de minera\u00e7\u00e3o e infraestrutura ao redor do mundo. Nesse sentido, os Estados Unidos passaram a fomentar o capitalismo de Estado tanto no plano dom\u00e9stico quanto no internacional: uma mudan\u00e7a marcante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 era do Consenso de Washington, durante a qual formuladores de pol\u00edticas americanos e as institui\u00e7\u00f5es financeiras e de desenvolvimento sob lideran\u00e7a dos Estados Unidos combatiam sistematicamente a propriedade estatal e a pol\u00edtica industrial no Sul global.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um exemplo \u00e9 a atua\u00e7\u00e3o da DFC na Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo (RDC), onde empresas chinesas ocupam uma posi\u00e7\u00e3o dominante no setor de minera\u00e7\u00e3o. Em dezembro de 2025, a DFC anunciou a <a href=\"https:\/\/www.dfc.gov\/media\/press-releases\/dfc-strengthens-strategic-partnerships-democratic-republic-congo-and-rwanda\">aquisi\u00e7\u00e3o de uma participa\u00e7\u00e3o acion\u00e1ria<\/a> em uma joint venture entre a estatal congolesa G\u00e9camines e a gigante global de commodities Mercuria Energy Trading. A parceria anunciou um <a href=\"https:\/\/www.ft.com\/content\/982d40c8-61f5-48f8-9c97-29a4510a4dde\">novo aporte de US$ 2 bilh\u00f5es<\/a> para projetos minerais, abrindo caminho para ampliar o acesso dos Estados Unidos \u00e0s vastas reservas da RDC, especialmente de cobre e cobalto. O acordo tamb\u00e9m concede \u00e0s empresas americanas <a href=\"https:\/\/www.ft.com\/content\/982d40c8-61f5-48f8-9c97-29a4510a4dde\">direito de prefer\u00eancia<\/a> na compra dos metais produzidos pelo empreendimento. No fim de 2025, a DFC se associou ao hedge fund Orion Capital Partners e ao fundo soberano ADQ, de Abu Dhabi, para criar o <a href=\"https:\/\/www.dfc.gov\/media\/press-releases\/dfc-joins-18-billion-consortium-secure-critical-mineral-supply-chains-and\">Orion Critical Mineral Consortium<\/a> (CMC), um fundo de investimentos em minera\u00e7\u00e3o apoiado pelo governo dos EUA e destinado a financiar projetos em diferentes partes do mundo. Em fevereiro de 2026, o cons\u00f3rcio anunciou a aquisi\u00e7\u00e3o de uma <a href=\"https:\/\/www.dfc.gov\/media\/press-releases\/dfc-joins-18-billion-consortium-secure-critical-mineral-supply-chains-and\">participa\u00e7\u00e3o de 40%<\/a> nos projetos de cobre e cobalto da gigante da minera\u00e7\u00e3o Glencore na RDC. No mesmo m\u00eas, o Orion CMC uniu-se \u00e0 Virtus, grupo fundado por ex-integrantes dos servi\u00e7os americanos de intelig\u00eancia e seguran\u00e7a, para adquirir a mineradora congolesa <a href=\"https:\/\/www.dfc.gov\/media\/press-releases\/dfc-joins-18-billion-consortium-secure-critical-mineral-supply-chains-and\">Chemaf<\/a>, que enfrentava dificuldades financeiras durante a constru\u00e7\u00e3o do que dever\u00e1 se tornar uma das maiores minas de cobalto do mundo. Ainda \u00e9 cedo para saber se essas iniciativas de financiamento produzir\u00e3o os resultados esperados. O que j\u00e1 est\u00e1 claro, por\u00e9m, \u00e9 que a Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo tornou-se o principal laborat\u00f3rio da tentativa americana de utilizar a propriedade estatal como instrumento para assumir o controle de n\u00f3s estrat\u00e9gicos das cadeias transnacionais de suprimento de minerais cr\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O terceiro e \u00faltimo objetivo das interven\u00e7\u00f5es do capitalismo de Estado trumpista \u00e9 excluir atores chineses dessas redes. A partir de 1\u00ba de janeiro de 2027, novas regras de compras do setor de defesa dos Estados Unidos passar\u00e3o a <a href=\"https:\/\/rareearthexchanges.com\/news\/the-pentagons-rare-earth-ultimatum-ban-on-chinese-materials-by-2027\/\">proibir o uso<\/a> de terras raras e \u00edm\u00e3s de origem chinesa em toda a cadeia de suprimentos da ind\u00fastria de defesa americana, desde a extra\u00e7\u00e3o e o processamento at\u00e9 sua incorpora\u00e7\u00e3o em equipamentos militares e sistemas de armas. Ao mesmo tempo, o governo Trump vem promovendo uma pol\u00edtica de forma\u00e7\u00e3o de blocos voltada \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de alian\u00e7as e agrupamentos de pa\u00edses capazes de isolar empresas chinesas. Recentemente, os Estados Unidos firmaram <a href=\"https:\/\/www.spglobal.com\/energy\/en\/news-research\/latest-news\/metals\/020526-us-signs-11-critical-mineral-frameworks-mous-to-strengthen-supply-chain\">uma d\u00fazia de acordos bilaterais e memorandos de entendimento<\/a> com pa\u00edses ricos em recursos minerais para criar novas fontes de abastecimento que contornem fornecedores chineses. Entre os parceiros est\u00e3o Canad\u00e1, Austr\u00e1lia, Marrocos, Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, Argentina, Mal\u00e1sia, Ilhas Cook, Ar\u00e1bia Saudita, Equador, Guin\u00e9, Paraguai, Peru, Filipinas, Emirados \u00c1rabes Unidos e Uzbequist\u00e3o. Paralelamente, seguem em negocia\u00e7\u00e3o novas parcerias com <a href=\"https:\/\/www.bloomberg.com\/news\/articles\/2026-02-03\/eu-to-offer-us-critical-minerals-partnership-to-counter-china\">Uni\u00e3o Europeia<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/business\/2026\/feb\/18\/us-japan-critical-minerals-agreement-oil-gas-projects-deal\">Jap\u00e3o<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/world\/americas\/us-hosts-critical-minerals-event-brazil-amid-diplomatic-strains-2026-03-18\/\">Brasil<\/a> o <a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/world\/china\/us-mexico-develop-coordinated-trade-policies-critical-minerals-2026-02-04\/\">M\u00e9xico<\/a> para a instala\u00e7\u00e3o de minas, projetos de infraestrutura e pol\u00edticas comerciais coordenadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Algumas dessas parcerias bilaterais <a href=\"https:\/\/www.iiss.org\/online-analysis\/online-analysis\/2026\/01\/us-critical-minerals-diplomacy-from-america-first-deals-to-pax-silica\/\">contam<\/a> diretamente com empr\u00e9stimos da DFC e com contratos internacionais de compra da produ\u00e7\u00e3o futura garantidos pelo EXIM Bank. No \u00e2mbito da <a href=\"https:\/\/www.exim.gov\/about\/special-initiatives\/supply-chain-resiliency-initiative\">Supply Chain Resiliency Initiative<\/a>, por exemplo, o EXIM pode <a href=\"https:\/\/grow.exim.gov\/blog\/what-is-exim-supply-chain-resiliency-initiative\">financiar projetos de minera\u00e7\u00e3o no exterior<\/a> que tenham firmado contratos de fornecimento de longo prazo com empresas americanas, contribuindo para assegurar a essas empresas um acesso est\u00e1vel a minerais cr\u00edticos provenientes de pa\u00edses parceiros. Em s\u00edntese, o governo dos EUA mobiliza instrumentos t\u00edpicos do capitalismo de Estado para moldar a integra\u00e7\u00e3o de regi\u00f5es ricas em recursos minerais e as rela\u00e7\u00f5es entre empresas no interior de redes de minerais cr\u00edticos centradas nos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 6 de fevereiro de 2026, al\u00e9m da multiplica\u00e7\u00e3o de acordos bilaterais, os Estados Unidos lan\u00e7aram o <a href=\"https:\/\/www.state.gov\/releases\/office-of-the-spokesperson\/2026\/02\/2026-critical-minerals-ministerial\">Forum on Resource Geostrategic Engagement<\/a> (FORGE), um novo organismo plurilateral. A iniciativa re\u00fane dezessete membros e aprofunda a Minerals Security Partnership, criada em 2022 durante o governo Biden. Seu objetivo \u00e9 promover a coopera\u00e7\u00e3o, tanto <a href=\"https:\/\/www.csis.org\/analysis\/critical-minerals-ministerial-introduces-new-international-cooperation-strategy\">no plano nacional quanto no \u00e2mbito de projetos<\/a> espec\u00edficos, em temas como padr\u00f5es regulat\u00f3rios, controles de exporta\u00e7\u00e3o, triagem de investimentos, mecanismos de financiamento e exig\u00eancias ambientais e trabalhistas, de modo a <a href=\"https:\/\/www.csis.org\/analysis\/critical-minerals-ministerial-introduces-new-international-cooperation-strategy\">reconfigurar redes transnacionais de minerais cr\u00edticos<\/a> que atravessam diferentes jurisdi\u00e7\u00f5es. O FORGE tamb\u00e9m prop\u00f5e a cria\u00e7\u00e3o de uma zona preferencial de com\u00e9rcio para minerais cr\u00edticos, baseada em pre\u00e7os de refer\u00eancia que funcionariam como pisos efetivos para determinados minerais, sustentados por tarifas ajust\u00e1veis. A medida busca n\u00e3o apenas assegurar maior estabilidade de pre\u00e7os em um setor marcado por elevada volatilidade, mas tamb\u00e9m neutralizar a suposta pr\u00e1tica chinesa de dumping, ou seja, da venda de minerais abaixo do pre\u00e7o de mercado para preservar sua posi\u00e7\u00e3o dominante nas cadeias globais de minerais cr\u00edticos. Espera-se ainda que o estoque estrat\u00e9gico americano, o Project Vault, incorpore uma dimens\u00e3o internacional, funcionando como comprador de \u00faltima inst\u00e2ncia para <a href=\"https:\/\/www.steptoe.com\/en\/news-publications\/stepwise-risk-outlook\/the-trump-administrations-skyrocketing-critical-mineral-strategy.html\">produtores aliados<\/a>. Outras iniciativas plurilaterais lideradas pelos Estados Unidos, como a Pax Silica, voltada \u00e0s cadeias de suprimento e \u00e0s tecnologias de intelig\u00eancia artificial, tamb\u00e9m buscam consolidar a <a href=\"https:\/\/www.iiss.org\/online-analysis\/online-analysis\/2026\/01\/us-critical-minerals-diplomacy-from-america-first-deals-to-pax-silica\/\">demanda nos segmentos a jusante<\/a> das cadeias de minerais cr\u00edticos entre pa\u00edses aliados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em conjunto, o capitalismo de Estado trumpista reconfigura simultaneamente as rela\u00e7\u00f5es de poder no plano dom\u00e9stico e projeta poder para al\u00e9m das fronteiras nacionais, com o objetivo de reestruturar as redes transnacionais de minerais cr\u00edticos e ocupar uma posi\u00e7\u00e3o central em seu funcionamento. Expandir a oferta, aprofundar o controle e excluir advers\u00e1rios: em tese, esses objetivos s\u00e3o compat\u00edveis entre si. Na pr\u00e1tica, entretanto, s\u00e3o marcados por m\u00faltiplas contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Limites e contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo de Estado trumpista<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Do ponto de vista do financiamento, projetos de minera\u00e7\u00e3o no Norte global s\u00e3o invi\u00e1veis sem um amplo apoio estatal. Mas recorrer ao poder fiscal do governo federal estadunidense tamb\u00e9m exp\u00f5e as empresas a interven\u00e7\u00f5es cada vez mais detalhadas nas decis\u00f5es de investimento e produ\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, elas passam a ficar mais vulner\u00e1veis \u00e0s oscila\u00e7\u00f5es do mercado provocadas pela volatilidade das decis\u00f5es governamentais. Um exemplo disso ocorreu no fim de janeiro de 2026, quando as a\u00e7\u00f5es da MP Materials, da USA Rare Earths, da Lithium Americas e de <a href=\"https:\/\/www.investors.com\/news\/rare-earth-stocks-tumble-trump-price-floor-shift\/\">outras mineradoras de terras raras listadas nas bolsas americanas<\/a> despencaram diante da hesita\u00e7\u00e3o do governo Trump em garantir publicamente pre\u00e7os m\u00ednimos para determinados minerais. As a\u00e7\u00f5es <a href=\"https:\/\/uk.investing.com\/news\/commodities-news\/critical-minerals-stocks-fall-as-us-proposes-trading-bloc-93CH-4488903\">voltaram a cair<\/a> em fevereiro, depois que o vice-presidente JD Vance anunciou a cria\u00e7\u00e3o de um bloco comercial com pa\u00edses aliados, refletindo a preocupa\u00e7\u00e3o dos investidores com a continuidade da interven\u00e7\u00e3o estatal no setor. Esses epis\u00f3dios mostram que instrumentos de pol\u00edtica concebidos para atuar de forma complementar (como participa\u00e7\u00f5es acion\u00e1rias do Estado, pre\u00e7os m\u00ednimos e blocos comerciais multilaterais) e orientados para um mesmo objetivo (o fortalecimento de cadeias de suprimento organizadas em torno dos Estados Unidos) podem acabar produzindo rea\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias ou at\u00e9 adversas nos mercados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse quadro \u00e9 agravado pela l\u00f3gica de \u201cagir r\u00e1pido e quebrar tudo\u201d (<em>move fast and break things<\/em>) que orientou a atua\u00e7\u00e3o do governo at\u00e9 aqui. Embora ela esteja em sintonia com a prefer\u00eancia do governo Trump pelo espet\u00e1culo e por uma vers\u00e3o intervencionista, ostensiva e de grande impacto do capitalismo de Estado, dificilmente se presta ao tipo de planejamento de longo prazo e de coordena\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica abrangente necess\u00e1rios para reconfigurar m\u00faltiplas cadeias de suprimento complexas. A mesma coisa vale para o <em>mindset<\/em> t\u00edpico do <em>private equity<\/em> que parece orientar essas interven\u00e7\u00f5es estatais, marcado pela busca de resultados r\u00e1pidos e <a href=\"https:\/\/www.iiss.org\/online-analysis\/online-analysis\/2026\/01\/us-critical-minerals-diplomacy-from-america-first-deals-to-pax-silica\/\">retorno f\u00e1cil<\/a>. Como <a href=\"https:\/\/www.resources.org\/common-resources\/why-one-off-federal-investments-wont-make-or-break-us-critical-mineral-supply\/\">observou<\/a> recentemente uma equipe de analistas do setor de recursos naturais: \u201cUma coisa \u00e9 o governo federal mobilizar capital p\u00fablico e atrair investidores de Wall Street; outra, completamente diferente, \u00e9 alterar os fundamentos econ\u00f4micos de uma ind\u00fastria dom\u00e9stica que se encontra em decl\u00ednio estrutural.\u201d Isso implica enfrentar desafios relacionados \u00e0 sustentabilidade de longo prazo, \u00e0 competitividade e \u00e0 efici\u00eancia econ\u00f4mica, sobretudo diante de empresas chinesas que concentram poder de mercado e mant\u00eam lideran\u00e7a tecnol\u00f3gica em um setor extremamente intensivo em capital em escala global.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Do ponto de vista da pol\u00edtica industrial, as preocupa\u00e7\u00f5es dos analistas revelam um dilema de sequenciamento. Se uma rede j\u00e1 \u00e9 dominada por um concorrente, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel exclu\u00ed-lo sem antes assegurar o controle de seus pr\u00f3prios n\u00f3s estrat\u00e9gicos. O problema \u00e9 que isso pode ser invi\u00e1vel sem o apoio, ao menos em parte, da estrutura produtiva do pr\u00f3prio advers\u00e1rio. As interven\u00e7\u00f5es do capitalismo de Estado americano no setor de grafite ilustram bem essa tens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante o governo Biden, a australiana Syrah Resources recebeu <a href=\"https:\/\/www.afr.com\/companies\/mining\/australiansuper-s-graphite-pet-syrah-defaults-on-us-government-debt-20241211-p5kxr7\">empr\u00e9stimos de grande porte<\/a> do DOE, em 2022, e da DFC, em 2024, para financiar, respectivamente, sua planta de processamento de grafite na Louisiana e a mina de grafite de Balama, em Mo\u00e7ambique. Esse apoio foi decisivo. Ainda assim, a empresa entrou em inadimpl\u00eancia diversas vezes e esteve \u00e0 beira da fal\u00eancia. Em dezembro de 2024, suspendeu suas opera\u00e7\u00f5es e declarou <a href=\"https:\/\/www.geopoliticalmonitor.com\/protests-shutter-mozambiques-balama-graphite-mine\/#:~:text=protests.%20The%20company%20explained%2C%20%E2%80%9Cthe%20disturbances%20at,demobilized%20most%20of%20its%20operational%20staff%2C%20mai\">for\u00e7a maior<\/a> em raz\u00e3o da escalada dos protestos liderados por agricultores locais contra os termos do reassentamento realizado quando a mina foi originalmente constru\u00edda. As atividades foram retomadas em junho de 2025, mas os problemas estavam longe de terminar. Em fevereiro de 2026, a subsidi\u00e1ria americana da empresa, respons\u00e1vel pela refinaria da Louisiana, uniu-se a outras companhias do setor em uma peti\u00e7\u00e3o ao Departamento de Com\u00e9rcio para que fossem impostas \u201c<a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/world\/china\/us-commerce-dept-sets-935-anti-dumping-tariff-chinese-anode-graphite-2025-07-17\/\">tarifas antidumping<\/a>\u201d sobre as importa\u00e7\u00f5es de grafite chin\u00eas. O pedido resultou na aplica\u00e7\u00e3o de uma tarifa de 93,5%.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No que diz respeito \u00e0 exclus\u00e3o da China das cadeias de suprimento de grafite, por\u00e9m, essa foi uma vit\u00f3ria p\u00edrrica. Como relata Henry Sanderson, o efeito pr\u00e1tico da medida foi <a href=\"https:\/\/voltrush.substack.com\/p\/why-tariffs-arent-stopping-chinas\">redirecionar a produ\u00e7\u00e3o da mina de Balama para uma planta de processamento na Indon\u00e9sia<\/a>. A unidade pertence majoritariamente \u00e0 BTR, empresa sediada em Shenzhen; a participa\u00e7\u00e3o minorit\u00e1ria \u00e9 controlada por uma subsidi\u00e1ria da chinesa Tsingshan, uma das maiores produtoras de n\u00edquel do mundo. Por que a Syrah Resources simplesmente n\u00e3o enviou esse grafite para sua planta nos Estados Unidos? Porque o processo de qualifica\u00e7\u00e3o de um material como apto para uso em baterias \u00e9 longo e complexo, e a planta da Louisiana ainda n\u00e3o atende aos padr\u00f5es exigidos pela ind\u00fastria. A planta da BTR, por outro lado, j\u00e1 havia obtido essa qualifica\u00e7\u00e3o. Biden e Trump podem at\u00e9 ter ampliado a oferta de grafite, mas enquanto a refinaria da Louisiana n\u00e3o demonstrar que seu produto atende aos padr\u00f5es exigidos para aplica\u00e7\u00f5es em baterias, todos esses empr\u00e9stimos e tarifas ser\u00e3o incapazes de fortalecer a posi\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos nas cadeias globais de suprimento de baterias e, naturalmente, de excluir um advers\u00e1rio delas.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses limites e desafios da pol\u00edtica industrial s\u00e3o agravados pela dimens\u00e3o predat\u00f3ria do capitalismo de Estado \u00e0 moda de Trump. H\u00e1 s\u00e9rias d\u00favidas tanto sobre as condi\u00e7\u00f5es em que alguns desses acordos s\u00e3o firmados (que s\u00e3o, no m\u00ednimo, bastante opacas) quanto sobre a capacidade das empresas promovidas pela Casa Branca de cumprir o que prometem. Muitas das companhias escolhidas n\u00e3o t\u00eam um hist\u00f3rico comprovado de sucesso. O caso da USA Rare Earths \u00e9 ilustrativo. A empresa figura entre as grandes benefici\u00e1rias de um programa que prev\u00ea aportes acion\u00e1rios do governo no valor de US$ 1,6 bilh\u00e3o e foi escolhida a dedo para desenvolver uma cadeia produtiva integrada \u201cda mina ao \u00edm\u00e3\u201d, desvinculada da China. No entanto, ainda n\u00e3o demonstrou ser capaz de faz\u00ea-lo em bases comercialmente vi\u00e1veis. Mas as d\u00favidas v\u00e3o muito al\u00e9m da USA Rare Earths: tamb\u00e9m h\u00e1 <a href=\"https:\/\/www.ft.com\/content\/4ba88e38-fdfd-447c-9250-163cd85293c4?syn-25a6b1a6=1\">incertezas quanto \u00e0 capacidade de muitas das mineradoras selecionadas<\/a> de entregar os resultados prometidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se modelos de neg\u00f3cio comprovadamente vi\u00e1veis aparentemente n\u00e3o s\u00e3o um crit\u00e9rio para a concess\u00e3o de apoio financeiro, o nepotismo talvez seja. A USA Rare Earths contou com o <a href=\"https:\/\/www.ft.com\/content\/4ba88e38-fdfd-447c-9250-163cd85293c4?syn-25a6b1a6=1\">apoio do banco de investimentos Cantor Fitzgerald<\/a> em sua capta\u00e7\u00e3o de recursos. A institui\u00e7\u00e3o foi comandada pelo atual secret\u00e1rio de Com\u00e9rcio, Howard Lutnick, e hoje \u00e9 administrada por seus filhos. Duas startups pouco conhecidas, Vulcan Elements e ReElement Technologies, fecharam em dezembro de 2025 um acordo de US$ 1,4 bilh\u00e3o, combinando empr\u00e9stimos e participa\u00e7\u00e3o acion\u00e1ria do governo, apenas tr\u00eas meses depois de <a href=\"https:\/\/www.ft.com\/content\/952f37ba-78b4-42a4-8d1b-2258de65f2c0?syn-25a6b1a6=1\">receberem um investimento da 1789 Capital, empresa de capital de risco de Donald Trump Jr.<\/a> na Vulcan. Segundo a <a href=\"https:\/\/archive.is\/ft5kc\"><em>Bloomberg<\/em><\/a>, quando a 1789 Capital investiu, a empresa era avaliada em US$ 200 milh\u00f5es; em janeiro de 2026, alguns investidores j\u00e1 cogitavam uma avalia\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima de US$ 2 bilh\u00f5es para a rodada seguinte de capta\u00e7\u00e3o. Donald Trump Jr. e Eric Trump tamb\u00e9m <a href=\"https:\/\/www.ft.com\/content\/d99f6f75-931a-42e5-9111-0dc0acc4368c?syn-25a6b1a6=1\">det\u00eam uma participa\u00e7\u00e3o<\/a> (cujo tamanho n\u00e3o foi divulgado) na Cove Kaz Capital, grupo americano de investimentos que, em novembro, assegurou acesso a uma importante mina de tungst\u00eanio no Cazaquist\u00e3o, com US$ 1,6 bilh\u00e3o em apoio financeiro prometido pelo EXIM Bank e pela DFC. Dispensa maiores explica\u00e7\u00f5es o fato de que esse tipo de oportunismo, capitalismo clientelista e concentra\u00e7\u00e3o de poder e riqueza nas m\u00e3os de um grupo t\u00e3o restrito contraria os princ\u00edpios mais elementares de uma pol\u00edtica industrial eficaz e duradoura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por fim, do ponto de vista geopol\u00edtico, a estrat\u00e9gia de capitalismo de Estado do governo Trump encerra uma contradi\u00e7\u00e3o fundamental. De um lado, reconhece que a reconfigura\u00e7\u00e3o de complexas redes transnacionais de minerais cr\u00edticos depende da constru\u00e7\u00e3o de parcerias s\u00f3lidas em diferentes partes do mundo. De outro, continua amea\u00e7ando pa\u00edses com tarifas comerciais, san\u00e7\u00f5es, anexa\u00e7\u00f5es territoriais e agress\u00f5es imperialistas. Transformar n\u00f3s estrat\u00e9gicos e gargalos dessas redes em instrumentos de coer\u00e7\u00e3o at\u00e9 pode servir como demonstra\u00e7\u00e3o de poder. Ao mesmo tempo, por\u00e9m, essa estrat\u00e9gia compromete os esfor\u00e7os para criar novos blocos e redes paralelas capazes de reconfigurar rapidamente as cadeias globais de suprimento. A evolu\u00e7\u00e3o do capitalismo de Estado trumpista no setor de minerais cr\u00edticos expressa essa contradi\u00e7\u00e3o fundamental do poder imperial americano em uma era marcada pela <a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/full\/10.1080\/14650045.2023.2253432\">intensifica\u00e7\u00e3o da competi\u00e7\u00e3o<\/a> em torno de redes econ\u00f4micas estrat\u00e9gicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar dessas tens\u00f5es, as interven\u00e7\u00f5es do capitalismo de Estado americano no setor de minerais cr\u00edticos parecem seguir uma din\u00e2mica de refor\u00e7o m\u00fatuo. Isso ocorre, em grande medida, porque medidas apresentadas como resposta a riscos percebidos \u00e0 seguran\u00e7a nacional, como a concentra\u00e7\u00e3o das cadeias de suprimento de minerais cr\u00edticos nas m\u00e3os de um advers\u00e1rio estrangeiro declarado, acabam, elas pr\u00f3prias, intensificando a escalada da disputa geopol\u00edtica. A cordialidade exibida durante a c\u00fapula Trump\u2013Xi, realizada em maio, n\u00e3o altera esse quadro. N\u00e3o h\u00e1 qualquer sinal de uma estrat\u00e9gia capaz de p\u00f4r fim \u00e0 crescente instrumentaliza\u00e7\u00e3o da interdepend\u00eancia econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Implica\u00e7\u00f5es meridionais<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta nova era do capitalismo de Estado, longe de representar uma \u201cdesglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d (seja l\u00e1 o que isso signifique), \u00e9 marcada pela reconfigura\u00e7\u00e3o dos fluxos transnacionais de capitais e minerais, da geografia das cadeias de suprimento e dos polos industriais, bem como das alian\u00e7as que articulam m\u00faltiplos atores nos campos do com\u00e9rcio e da diplomacia. Essas transforma\u00e7\u00f5es s\u00e3o particularmente relevantes para governos e sociedades do Sul global, que buscam navegar por uma ordem internacional cada vez mais fragmentada sem abrir m\u00e3o de objetivos hist\u00f3ricos de desenvolvimento, integra\u00e7\u00e3o regional e soberania. Nesse sentido, o novo capitalismo de Estado trumpista traz consigo tr\u00eas implica\u00e7\u00f5es globais de grande import\u00e2ncia: neocolonialismo, integra\u00e7\u00e3o subordinada e competi\u00e7\u00e3o assim\u00e9trica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De maneira geral, o neocolonialismo refere-se \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es desiguais de poder em um contexto \u201cp\u00f3s-colonial\u201d. Aqui, por\u00e9m, o termo \u00e9 empregado em um sentido mais espec\u00edfico e, talvez, mais literal: interven\u00e7\u00f5es de pol\u00edtica externa que amea\u00e7am a integridade territorial e a soberania pol\u00edtica e econ\u00f4mica de pa\u00edses do Sul global. Essa din\u00e2mica remete a uma forma mais cl\u00e1ssica de imperialismo, baseada no exerc\u00edcio direto ou indireto do poder para conquistar e anexar col\u00f4nias, subjugar popula\u00e7\u00f5es, manipular a pol\u00edtica local, garantir o acesso \u00e0 terra e aos recursos naturais e refor\u00e7ar a posi\u00e7\u00e3o geoestrat\u00e9gica da metr\u00f3pole.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O paralelo mais evidente na atualidade \u00e9 a invas\u00e3o da Venezuela e o sequestro do presidente Maduro, conduzidos com o objetivo expl\u00edcito de assumir o controle da ind\u00fastria petrol\u00edfera venezuelana em benef\u00edcio das empresas estadunidenses de combust\u00edveis f\u00f3sseis. A Venezuela tamb\u00e9m possui importantes reservas minerais, sobretudo de ouro, bauxita e coltan. A <a href=\"https:\/\/www.csis.org\/analysis\/venezuela-critical-minerals-target#:~:text=Venezuela%20is%20known%20to%20host,those%20efforts%20were%20ultimately%20abandoned.\">precariedade da infraestrutura<\/a> b\u00e1sica nas regi\u00f5es mineradoras do pa\u00eds somada ao elevado grau de incerteza pol\u00edtica torna pouco prov\u00e1vel que o setor mineral experimente um boom no curto prazo. Enquanto isso, o governo dos Estados Unidos <a href=\"https:\/\/finance.yahoo.com\/news\/oil-sales-under-us-venezuela-001011034.html\">j\u00e1 vendeu quase US$ 2 bilh\u00f5es em petr\u00f3leo bruto venezuelano<\/a> e tenta assumir a propriedade do petroleiro <em>Skipper<\/em>, que transportava dois milh\u00f5es de barris e foi apreendido por fuzileiros navais americanos em dezembro. Trump descreve a interven\u00e7\u00e3o na Venezuela como uma \u201c<a href=\"https:\/\/www.pbs.org\/newshour\/politics\/read-trumps-full-2026-state-of-the-union-address\">vit\u00f3ria colossal<\/a>\u201d. \u00c0 luz das recentes amea\u00e7as \u00e0 Groenl\u00e2ndia, do bloqueio de combust\u00edveis imposto a Cuba, da guerra travada por Estados Unidos e Israel contra o Ir\u00e3 e o L\u00edbano, do bloqueio em curso do Estreito de Ormuz e das reiteradas exalta\u00e7\u00f5es, por <a href=\"https:\/\/apnews.com\/article\/stephen-miller-venezuela-greenland-minneapolis-ba175d90c0d34730cafd2a64df70be82\">altas autoridades do governo<\/a> Trump, ao sombrio legado do colonialismo ocidental, n\u00e3o resta d\u00favida quanto \u00e0s ambi\u00e7\u00f5es imperiais da administra\u00e7\u00e3o\u2014e tampouco sobre o quanto elas s\u00e3o dif\u00edceis de conciliar com uma estrat\u00e9gia baseada no capitalismo de Estado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses epis\u00f3dios de interven\u00e7\u00e3o militar e apropria\u00e7\u00e3o de recursos naturais representam a forma mais extrema de uma amea\u00e7a muito mais cotidiana: a integra\u00e7\u00e3o subordinada \u00e0s redes de minerais cr\u00edticos organizadas em torno dos Estados Unidos. O risco \u00e9 que governos e empresas fiquem presos a essas redes, sujeitos aos des\u00edgnios do poder imperial americano e impedidos de aprofundar rela\u00e7\u00f5es com outros parceiros estrat\u00e9gicos, como a China. Esse problema j\u00e1 \u00e9 evidente em pa\u00edses como o M\u00e9xico, cuja ind\u00fastria manufatureira altamente integrada est\u00e1 submetida a diversas restri\u00e7\u00f5es impostas pelos Estados Unidos em nome da seguran\u00e7a nacional. A reconfigura\u00e7\u00e3o adicional dos blocos comerciais e das cadeias de suprimento segundo prioridades americanas, somada \u00e0 presen\u00e7a de ativos estatais dos Estados Unidos em n\u00f3s estrat\u00e9gicos dessas redes, sejam eles empresas, minas ou projetos de infraestrutura, ampliaria ainda mais a capacidade do Estado americano de instrumentalizar as redes de minerais cr\u00edticos para fins geopol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse poder \u00e9 particularmente problem\u00e1tico para os pa\u00edses do Sul global que adotam uma estrat\u00e9gia de <a href=\"https:\/\/www.tni.org\/en\/article\/the-new-frontline\">polialinhamento<\/a>: cultivam simultaneamente parcerias comerciais, de investimento e de seguran\u00e7a com diferentes pot\u00eancias concorrentes, sem se alinhar exclusivamente a qualquer pa\u00eds ou bloco geopol\u00edtico. Como <a href=\"https:\/\/www.ft.com\/content\/c41f101a-fdfa-4cb4-ab58-a9d82e146a7b\">resumiu recentemente o presidente da Z\u00e2mbia<\/a>, Hakainde Hichilema, ao comentar a atra\u00e7\u00e3o de investimentos estrangeiros para a minera\u00e7\u00e3o: \u201cQuando estou em Pequim, n\u00e3o sou contra Washington. Quando estou em Washington, n\u00e3o sou contra Pequim\u201d. (Vale lembrar que a Z\u00e2mbia desempenhou um papel central no Movimento dos N\u00e3o Alinhados nas d\u00e9cadas de 1960 e 1970.) O objetivo dessa estrat\u00e9gia \u00e9 aproveitar a competi\u00e7\u00e3o entre as economias mais ricas pela reorganiza\u00e7\u00e3o das cadeias de suprimento estrat\u00e9gicas para atrair uma <a href=\"https:\/\/www.break-down.org\/a-green-cold-war\/\">nova onda de investimentos estrangeiros voltados \u00e0 transi\u00e7\u00e3o verde<\/a>. Como o governo Trump j\u00e1 tentou, em diversas ocasi\u00f5es, <a href=\"https:\/\/globaltradealert.org\/reports\/US-poison-pills\">restringir deliberadamente<\/a> esse tipo de estrat\u00e9gia, \u00e9 prov\u00e1vel que n\u00e3o hesite em usar seu controle ampliado sobre as redes de minerais cr\u00edticos para pressionar ainda mais os pa\u00edses em desenvolvimento a reduzir seus v\u00ednculos com a China e outros competidores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um terceiro risco \u00e9 o da competi\u00e7\u00e3o assim\u00e9trica, fen\u00f4meno distinto da integra\u00e7\u00e3o subordinada,  que se refere \u00e0 possibilidade de que pa\u00edses do Sul global passem a disputar com os pa\u00edses do Norte os investimentos destinados tanto \u00e0 minera\u00e7\u00e3o quanto \u00e0s etapas posteriores das cadeias produtivas. Esse desafio revela uma implica\u00e7\u00e3o ainda pouco explorada da estrat\u00e9gia estadunidense de onshoring. Formuladores de pol\u00edticas p\u00fablicas no Sul, mesmo em pa\u00edses que j\u00e1 possuem ou pretendem desenvolver um setor de minerais cr\u00edticos, dificilmente conseguem competir com os volumosos pacotes de financiamento oferecidos pelo governo americano \u00e0s empresas de minera\u00e7\u00e3o. Como consequ\u00eancia, correm o risco n\u00e3o apenas de perder um mercado de exporta\u00e7\u00e3o, caso os Estados Unidos substituam importa\u00e7\u00f5es por produ\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica, mas tamb\u00e9m de disputar diretamente investimentos estrangeiros diretos caso a estrat\u00e9gia estadunidense de atra\u00e7\u00e3o de capital seja bem-sucedida. Tamb\u00e9m nesse caso, o potencial de industrializa\u00e7\u00e3o ancorada em recursos minerais e de outras estrat\u00e9gias de transforma\u00e7\u00e3o estrutural nos pa\u00edses em desenvolvimento pode ser limitado. Em um mundo em que um n\u00famero crescente de governos disputa investimentos para a minera\u00e7\u00e3o, a simples preserva\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o atualmente ocupada pelos pa\u00edses do Sul global nos elos mais extrativos e de menor valor agregado das cadeias produtivas das tecnologias verdes j\u00e1 demandar\u00e1 que eles tornem seus projetos mais atraentes para o capital financeiro por meio da desregulamenta\u00e7\u00e3o, da redu\u00e7\u00e3o de riscos para investidores e da repress\u00e3o a mobiliza\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em todos esses aspectos, o capitalismo de Estado trumpista explora e aprofunda as desigualdades globais. Ao mesmo tempo, por\u00e9m, a dimens\u00e3o espetacularizada da atua\u00e7\u00e3o do governo Trump pode abrir novas oportunidades estrat\u00e9gicas para for\u00e7as progressistas, tanto nos Estados Unidos quanto em outras partes do mundo. O experimento do Trump 2.0 (assim como a tend\u00eancia mais ampla do capitalismo de Estado contempor\u00e2neo) suscita quest\u00f5es profundas sobre como o poder pol\u00edtico e a autoridade p\u00fablica podem ser exercidos por meio da propriedade econ\u00f4mica em favor da acumula\u00e7\u00e3o privada, da extra\u00e7\u00e3o militarizada e de objetivos imperiais. Projetos de esquerda ao redor do mundo precisam construir suas pr\u00f3prias alternativas. Isso passa por recuperar a capacidade institucional do Estado para exercer o controle coletivo de forma racional e consciente sobre as infraestruturas que sustentam a vida social, econ\u00f4mica e ecol\u00f3gica. Em suma, as investidas do governo Trump abrem um novo terreno de disputa para que for\u00e7as progressistas, no Norte e no Sul global, voltem a explorar e defender <a href=\"https:\/\/www.common-wealth.org\/green-planning-commission\">formas alternativas de planejamento e de propriedade<\/a> da atividade econ\u00f4mica, para al\u00e9m das finan\u00e7as privadas e do capitalismo de Estado, em favor de um desenvolvimento orientado pela justi\u00e7a social e pela sustentabilidade planet\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Da compra de participa\u00e7\u00f5es acion\u00e1rias em empresas privadas a amea\u00e7as de interven\u00e7\u00e3o em companhias de defesa, passando por acordos de compartilhamento de receitas com fabricantes de semicondutores e por uma nova onda de tarifas e outras medidas protecionistas, \u00e9 not\u00f3rio o esfor\u00e7o de Trump, em seu segundo mandato, em defender a propriedade estatal e a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":355,"featured_media":32436,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[730],"tags":[],"issue":[],"newsletter":[],"region":[1177,1039],"sector":[1045],"theme":[1090,1102],"series":[],"class_list":["post-33177","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-analises","region-eua-pt-br","region-global-pt-br","sector-mineracao-e-extrativismo","theme-financiamento-desenvolvimento","theme-geopolitica"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.0 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Capitalismo de Estado trumpista | Ilias Alami &amp; Thea Riofrancos<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"O segundo mandato de Trump tem sido marcado por interven\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas de grande impacto e pelo surgimento de novas formas de propriedade estatal. 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