{"id":32877,"date":"2026-06-26T09:00:00","date_gmt":"2026-06-26T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/?p=32877"},"modified":"2026-06-26T16:08:28","modified_gmt":"2026-06-26T16:08:28","slug":"endividamento-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/endividamento-brasil\/","title":{"rendered":"Afogados em d\u00edvidas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na elei\u00e7\u00e3o de outubro, o Partido dos Trabalhadores de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva enfrentar\u00e1 pela terceira vez o movimento de extrema direita liderado por Jair Bolsonaro. Lula disputa a reelei\u00e7\u00e3o a seu quarto mandato presidencial amparado por um desempenho macroecon\u00f4mico <a href=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/crescimento-politicamente-limitado\/\">relativamente bem-sucedido<\/a>. Ap\u00f3s um longo per\u00edodo de crise e estagna\u00e7\u00e3o\u2014entre 2015 e 2022, o crescimento m\u00e9dio anual do PIB foi de apenas 0,3%\u2014, a economia brasileira cresceu cerca de 3% anuais nos tr\u00eas primeiros anos do atual governo, enquanto a taxa de desemprego caiu de 9,5% para algo em torno de 6%, na compara\u00e7\u00e3o entre as m\u00e9dias de 2022, \u00faltimo ano do governo anterior, e de 2025. Mas as <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/czd2prld130o\">pesquisas<\/a> indicam que isso pode n\u00e3o ser suficiente para garantir uma reelei\u00e7\u00e3o tranquila. A maioria delas aponta uma disputa acirrada entre Lula e Fl\u00e1vio Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente, que cumpre pena por tentativa de golpe de Estado.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A resili\u00eancia do bolsonarismo tem provocado uma reavalia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica da estrat\u00e9gia do lulismo, deslocando o debate para al\u00e9m dos indicadores macroecon\u00f4micos e voltando a aten\u00e7\u00e3o para os efeitos de longo prazo das pol\u00edticas adotadas pelos governos do PT. Nesse contexto, o endividamento popular virou uma <a href=\"http:\/\/google.com\/url?q=https:\/\/diplomatique.org.br\/por-que-as-conquistas-nao-se-convertem-em-votos\/?__cf_chl_tk%3DbRG3FHsgnhxtjuyH_hQvh9qme9hb0RgK08LGPUrCIjw-1781017235-1.0.1.1-fzow7eJVddsm4a90ApiM30.fhkg8j2mC97nfoOvMGxA&amp;sa=D&amp;source=docs&amp;ust=1782311181725632&amp;usg=AOvVaw3YppyQnG83aM9DDEk8Rdt0\">quest\u00e3o<\/a> <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2026\/05\/por-que-o-desempenho-economico-de-lula-3-nao-se-converte-em-popularidade.shtml\">central<\/a>. Embora a renda dos estratos mais pobres tenha aumentado, uma parcela crescente desses ganhos \u00e9 imediatamente transferida a credores concentrados no topo da pir\u00e2mide social, reduzindo a margem para melhorias efetivas nas condi\u00e7\u00f5es de vida. Esse diagn\u00f3stico refor\u00e7a os alertas que economistas como <a href=\"https:\/\/www.ie.ufrj.br\/images\/IE\/grupos\/finsoc\/home\/Lavinas%20(2017).%20The%20Takeover%20of%20Social%20Policy%20by%20Financialization.pdf\">Lena Lavinas<\/a> v\u00eam fazendo h\u00e1 anos sobre a financeiriza\u00e7\u00e3o em massa. Os benef\u00edcios ineg\u00e1veis da inclus\u00e3o financeira\u2014que ampliou o acesso a bens b\u00e1sicos como geladeiras e m\u00e1quinas de lavar\u2014, passaram, aos olhos de grande parte da popula\u00e7\u00e3o, a ser ofuscados pelos custos da <a href=\"https:\/\/journals.sagepub.com\/doi\/10.1177\/0486613417707530\">expropria\u00e7\u00e3o financeira<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seria exagerado atribuir a atual incerteza eleitoral exclusivamente \u00e0s pol\u00edticas de cr\u00e9dito ao consumidor. Mesmo assim, examin\u00e1-las em detalhe ajuda a iluminar um aspecto problem\u00e1tico da estrat\u00e9gia de promo\u00e7\u00e3o do crescimento econ\u00f4mico com redu\u00e7\u00e3o das desigualdades adotada pelo PT. Tamb\u00e9m permite compreender como a expans\u00e3o global do cr\u00e9dito \u00e0s fam\u00edlias produz efeitos espec\u00edficos no Sul global, onde se combina \u00e0 <a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/full\/10.1080\/09692290.2022.2098359\">subordina\u00e7\u00e3o financeira internacional<\/a> e a consequentes <a href=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/refem-do-antigo-consenso\/\">altas e vol\u00e1teis taxas de juros<\/a>. Em raz\u00e3o do elevado custo do cr\u00e9dito, n\u00edveis de endividamento substancialmente mais baixos (como propor\u00e7\u00e3o do PIB) em compara\u00e7\u00e3o com outros pa\u00edses tendem a coexistir com parcelas extraordinariamente elevadas da renda comprometidas com o pagamento de d\u00edvidas. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os gr\u00e1ficos abaixo mostram que a d\u00edvida das fam\u00edlias brasileiras corresponde a pouco mais de 30% do PIB, enquanto nos pa\u00edses do G7 (com exce\u00e7\u00e3o da It\u00e1lia), a cifra varia entre 50% e 100%. Quando observamos a rela\u00e7\u00e3o entre servi\u00e7o da d\u00edvida e renda, por\u00e9m, o quadro se inverte: nos pa\u00edses do G7, essa propor\u00e7\u00e3o costuma ficar entre 5% e 15%; no Brasil, girou em torno de 25% at\u00e9 2010 e recentemente se aproximou dos 30%. Ainda que diferen\u00e7as institucionais entre os pa\u00edses <a href=\"https:\/\/www.bis.org\/publ\/qtrpdf\/r_qt1509h.pdf\">limitem a comparabilidade<\/a> direta desses indicadores, h\u00e1 pouca d\u00favida quanto ao panorama geral que eles revelam. Para compreender plenamente seu significado, vale acompanhar com mais aten\u00e7\u00e3o a trajet\u00f3ria de crescimento do endividamento dos trabalhadores brasileiros.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"929\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/chart1-pt-d-4-1-1024x929.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-32906\" srcset=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/chart1-pt-d-4-1-1024x929.png 1024w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/chart1-pt-d-4-1-300x272.png 300w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/chart1-pt-d-4-1-768x697.png 768w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/chart1-pt-d-4-1-1536x1394.png 1536w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/chart1-pt-d-4-1-2048x1858.png 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Combinado e desigual<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O boom mundial de endividamento familiar tem suas origens sobretudo nos Estados Unidos e no Reino Unido dos anos 1980, quando trabalhadores com rendas comprimidas passaram a recorrer cada vez mais ao cr\u00e9dito de bancos comerciais que, por sua vez, tamb\u00e9m estavam sob press\u00e3o. \u00c0 medida que investidores de alta renda deslocavam seus recursos dos dep\u00f3sitos banc\u00e1rios para <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/02692171.2012.721755\">fundos m\u00fatuos, fundos de pens\u00e3o e fundos do mercado monet\u00e1rio<\/a> em busca de maior rentabilidade e efici\u00eancia tribut\u00e1ria, os bancos viam diminuir uma de suas principais fontes de liquidez. Ao mesmo tempo, empresas n\u00e3o financeiras diversificavam seus canais de cr\u00e9dito, captando recursos sem a intermedia\u00e7\u00e3o de bancos comerciais. No <a href=\"https:\/\/www.penguin.co.uk\/books\/56199\/crashed-by-tooze-adam\/9780141032214\">caso dos Estados Unidos<\/a>, os bancos ainda enfrentavam dificuldades adicionais em raz\u00e3o das press\u00f5es sobre o mercado hipotec\u00e1rio decorrentes do choque Volcker, que j\u00e1 havia derrubado as chamadas institui\u00e7\u00f5es de poupan\u00e7a e empr\u00e9stimo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A perda simult\u00e2nea de importantes bases de financiamento e de uma parcela relevante de sua clientela tradicional de cr\u00e9dito levou esses bancos a procurar novas fontes de receita. Como <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/02692171.2012.721755\">observou<\/a> Paulo dos Santos, eles redirecionaram suas atividades para segmentos como os servi\u00e7os de banco de investimento para empresas, a corretagem de varejo e o cr\u00e9dito \u00e0s fam\u00edlias. Do outro lado dessas opera\u00e7\u00f5es estavam os trabalhadores, atingidos por uma combina\u00e7\u00e3o de tr\u00eas choques: a transfer\u00eancia de empregos para o Leste Asi\u00e1tico, o empenho de governos em enfraquecer sindicatos e o acesso cada vez mais mercantilizado a bens e servi\u00e7os b\u00e1sicos, como educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e moradia. Com os sal\u00e1rios estagnados, passaram a depender cada vez mais do cr\u00e9dito para fechar as contas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo dados do <a href=\"https:\/\/data.bis.org\/\">Banco de Compensa\u00e7\u00f5es Internacionais<\/a> (BIS, na sigla em ingl\u00eas), a rela\u00e7\u00e3o entre a d\u00edvida das fam\u00edlias e o PIB, que na d\u00e9cada de 1970 oscilava em torno de 30% no Reino Unido e 45% nos Estados Unidos, cresceu de forma cont\u00ednua em ambos os pa\u00edses at\u00e9 atingir o pico, pouco abaixo de 100%, durante a crise financeira global de 2008 (ver gr\u00e1fico acima). O Canad\u00e1 seguiu trajet\u00f3ria semelhante. Na Fran\u00e7a, essa propor\u00e7\u00e3o triplicou ao longo do mesmo per\u00edodo (como partia de um patamar muito mais baixo, por\u00e9m, s\u00f3 ultrapassaria a marca dos 50% \u00e0s v\u00e9speras da crise de 2008). Alemanha e Jap\u00e3o tamb\u00e9m sentiram o boom de endividamento das fam\u00edlias, mas seus indicadores atingiram o pico mais cedo, na virada do mil\u00eanio, em torno de 70%.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a ado\u00e7\u00e3o do euro, Gr\u00e9cia, Portugal e Espanha, economias da periferia da Europa, passaram a acompanhar essa tend\u00eancia, registrando uma forte expans\u00e3o da d\u00edvida das fam\u00edlias em rela\u00e7\u00e3o ao PIB ao longo dos anos 2000. Na \u00c1sia, o boom do cr\u00e9dito na Coreia do Sul e na Tail\u00e2ndia tamb\u00e9m levou a cifra para perto de 100% durante a pandemia, enquanto na China a expans\u00e3o foi uma das mais r\u00e1pidas do mundo: em apenas uma d\u00e9cada, a rela\u00e7\u00e3o entre d\u00edvida das fam\u00edlias e PIB triplicou, alcan\u00e7ando pouco mais de 60% em 2020. Os dados do BIS para a Am\u00e9rica Latina s\u00e3o mais limitados, mas ainda assim revelam uma trajet\u00f3ria semelhante em pa\u00edses como Brasil, Chile e Col\u00f4mbia. Os n\u00edveis observados, contudo, permanecem mais baixos: no Chile, a propor\u00e7\u00e3o atingiu seu pico pouco abaixo de 50% em 2020; na Col\u00f4mbia, em torno de 30% no mesmo ano; e, no caso brasileiro, continua em ascens\u00e3o, aproximando-se dos 40%.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse aumento quantitativo foi sustentado por <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/02692171.2012.721755\">transforma\u00e7\u00f5es qualitativas<\/a> no setor banc\u00e1rio. Rela\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito baseadas em v\u00ednculos locais e duradouros entre bancos e tomadores deram lugar a opera\u00e7\u00f5es concentradas, realizadas em larga escala e assentadas em sistemas quantitativos de avalia\u00e7\u00e3o de risco, contribuindo para a consolida\u00e7\u00e3o do sistema banc\u00e1rio. Al\u00e9m disso, a dissemina\u00e7\u00e3o da securitiza\u00e7\u00e3o permitiu que os bancos deixassem de manter ativos arriscados em seus balan\u00e7os, transferindo-os na forma de t\u00edtulos para investidores institucionais e entidades do sistema financeiro paralelo (shadow banking). Nesse processo, grandes bancos norte-americanos e europeus n\u00e3o apenas ampliaram sua participa\u00e7\u00e3o em mercados dom\u00e9sticos, mas tamb\u00e9m expandiram suas opera\u00e7\u00f5es para o Sul global, explorando oportunidades adicionais de lucro. Para isso, contaram com o apoio ativo do Banco Mundial, que vinha promovendo a liberaliza\u00e7\u00e3o dos sistemas financeiros de pa\u00edses perif\u00e9ricos especialmente por meio da abertura de seus mercados aos bancos estrangeiros. No <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/02692171.2012.721755\">Brasil e no M\u00e9xico<\/a>, por exemplo, foram justamente os bancos estrangeiros que lideraram a expans\u00e3o do cr\u00e9dito \u00e0s fam\u00edlias (ainda que bancos nacionais tenham permanecido dominantes, como ocorreu no caso brasileiro).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As mudan\u00e7as tanto na oferta quanto na demanda por cr\u00e9dito logo ganharam relev\u00e2ncia macroecon\u00f4mica. Na conhecida <a href=\"https:\/\/www.versobooks.com\/en-gb\/products\/1788-the-boom-and-the-bubble?srsltid=AfmBOopo6VGCvyOAEnbREbTwjovyLsvhjLdzSrrsed7YDlnw37m0jgNc\">interpreta\u00e7\u00e3o<\/a> de Robert Brenner do per\u00edodo, os governos procuraram compensar a longa desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica\u2014provocada pelo excesso de capacidade produtiva na ind\u00fastria global e pela queda das taxas de lucro\u2014estimulando bolhas nos pre\u00e7os dos ativos capazes de impulsionar o consumo. A din\u00e2mica dessa <em>economia das bolhas<\/em> era a seguinte: a valoriza\u00e7\u00e3o dos ativos, especialmente dos im\u00f3veis residenciais, ampliava as garantias que as fam\u00edlias podiam oferecer para contrair novos empr\u00e9stimos. As fam\u00edlias, ao tomarem empr\u00e9stimos para comprar im\u00f3veis, impulsionavam ainda mais a alta dos pre\u00e7os, alimentando um processo cumulativo. Como <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/jofi.12842\">demonstraram<\/a> Chen e seus coautores, mais de 60% das opera\u00e7\u00f5es de refinanciamento hipotec\u00e1rio realizadas nos Estados Unidos entre 1985 e 2013 resultaram em um aumento de pelo menos 5% no volume total da d\u00edvida, sugerindo que tomadores de empr\u00e9stimos estavam convertendo a valoriza\u00e7\u00e3o de seus im\u00f3veis em liquidez, ou, nos termos dos pr\u00f3prios autores, utilizando suas casas \u201ccomo caixas eletr\u00f4nicos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A interpreta\u00e7\u00e3o de Brenner continua sendo alvo de controv\u00e9rsia, mas muito menos controverso \u00e9 o fato de que governos deliberadamente estimularam o endividamento dos trabalhadores. Segundo leituras como a do <a href=\"https:\/\/journals.sagepub.com\/doi\/pdf\/10.1111\/j.1467-856X.2009.00377.x?casa_token=8-POgr2Z3G0AAAAA:kpGy8Uh5SNT9gOw4Fcxo8_ZcWeK1synUFfj6OFRxWMG6O9rvvhqbVDKL4wXVVwe8_VpFbgF2S8oN\">keynesianismo privatizado<\/a> de Colin Crouch ou do <a href=\"https:\/\/www.elgaronline.com\/view\/journals\/ejeep\/20\/3\/article-p410.xml\">crescimento puxado pela d\u00edvida<\/a> dos p\u00f3s-keynesianos, o endividamento das fam\u00edlias funcionou como um mecanismo de compensa\u00e7\u00e3o para o aumento da desigualdade e a estagna\u00e7\u00e3o salarial, amortecendo a press\u00e3o negativa sobre a demanda por bens e servi\u00e7os. Em outras palavras, tratava-se de uma resposta ao problema da realiza\u00e7\u00e3o formulado por Marx. J\u00e1 em autores como <a href=\"https:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/produto\/tempo-comprado-152345?srsltid=AfmBOopOI2ApAeN7aqdqNnJkIcAwhV1WOthRw7JQjq0F42ojpNEgNVkH\">Wolfgang Streeck<\/a>, o foco recai menos sobre o desempenho econ\u00f4mico e mais sobre a legitimidade pol\u00edtica. Nessa perspectiva, a expans\u00e3o da d\u00edvida privada constituiu uma terceira tentativa das democracias capitalistas de ganhar tempo, adiando temporariamente a eclos\u00e3o de conflitos distributivos mais agudos. O recurso ao cr\u00e9dito permitia aos trabalhadores sustentar, em certa medida, seus padr\u00f5es de consumo e vida, enquanto a estagna\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios contribu\u00eda para a eleva\u00e7\u00e3o da rentabilidade do capital. Parecia um arranjo vantajoso para todos os envolvidos, at\u00e9 que tudo desmoronou, desencadeando uma crise de alcance global.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O lulismo e o endividamento dos trabalhadores<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A a\u00e7\u00e3o do Estado tamb\u00e9m foi decisiva para impulsionar o endividamento nos pa\u00edses do Sul global, mas tanto a din\u00e2mica desse ciclo de expans\u00e3o do cr\u00e9dito quanto os discursos que o legitimavam assumiram caracter\u00edsticas distintas. O caso brasileiro ajuda a ilustrar essas especificidades. As opera\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito para pessoas f\u00edsicas como propor\u00e7\u00e3o do PIB j\u00e1 vinham crescendo desde os anos 1990, mas, a partir de 2004, esse movimento ganhou for\u00e7a, impulsionado tanto pela queda das taxas de juros quanto por pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas \u00e0 expans\u00e3o do cr\u00e9dito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lula venceu as elei\u00e7\u00f5es pela primeira vez, em 2002, em meio a um <a href=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/refem-do-antigo-consenso\/\">ataque especulativo<\/a> dos mercados financeiros, que buscavam constranger o PT a preservar a estrat\u00e9gia neoliberal adotada pelo governo que deixava o poder. A fuga de capitais provocou uma forte desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial e uma acelera\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o, levando o Banco Central a elevar as taxas de juros. Em fevereiro de 2003, a taxa b\u00e1sica nominal atingiu 26,5% ao ano. A partir de ent\u00e3o, por\u00e9m, a combina\u00e7\u00e3o entre a alta dos pre\u00e7os das commodities e a abund\u00e2ncia de fluxos de capitais levou \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o gradual do real, contribuindo para a desacelera\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o e permitindo ao Banco Central iniciar um ciclo de redu\u00e7\u00e3o dos juros. Como resultado, a taxa de juros real (ou seja, descontada a infla\u00e7\u00e3o) caiu de uma m\u00e9dia de 12,8% em 2003 para 3,7% em 2010, quando Lula encerrou seu segundo mandato presidencial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na tentativa de reduzir o custo efetivo do cr\u00e9dito para os trabalhadores, em 2003, o governo autorizou a cria\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito consignado, modalidade de empr\u00e9stimo em que as parcelas s\u00e3o descontadas automaticamente da folha de pagamento ou do benef\u00edcio previdenci\u00e1rio. Isso reduziu significativamente o risco para os bancos, especialmente no caso de servidores p\u00fablicos e aposentados, que, at\u00e9 2025, respondiam por mais de 90% do estoque de cr\u00e9dito nessa modalidade. Em muitos aspectos, o cr\u00e9dito consignado \u00e9 emblem\u00e1tico do reformismo moderado que caracteriza o lulismo. A pol\u00edtica ampliou o acesso a bens b\u00e1sicos de consumo e reduziu desigualdades nos padr\u00f5es de vida, mas evitou confrontar os interesses das classes dominantes, contornando esfor\u00e7os redistributivos mais profundos. A expans\u00e3o do cr\u00e9dito impulsionou simultaneamente os lucros das institui\u00e7\u00f5es financeiras, o consumo e o crescimento econ\u00f4mico, ampliando a arrecada\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria e abrindo espa\u00e7o para a expans\u00e3o das transfer\u00eancias sociais. Tratava-se, assim, de uma pol\u00edtica expansionista capaz de complementar instrumentos fiscais mais convencionais, cuja utiliza\u00e7\u00e3o permanecia limitada pelas metas de resultado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os efeitos foram evidentes. Entre 2005 e 2011, a d\u00edvida das fam\u00edlias como propor\u00e7\u00e3o da renda dispon\u00edvel (excluindo os financiamentos imobili\u00e1rios) praticamente dobrou, passando de 15% para pouco menos de 30%. Consequentemente, a distribui\u00e7\u00e3o dos fluxos de renda financeira na economia brasileira foi profundamente alterada. Como <a href=\"https:\/\/academic.oup.com\/cje\/article\/48\/2\/275\/7499302\">Pedro Marques e eu<\/a> <a href=\"https:\/\/madeusp.com.br\/en\/publications\/articles\/rentier-income-and-mass-based-financialisation-the-limits-of-redistributive-policies-during-the-pink-tide-in-brazil\/\">demonstramos<\/a>, antes do boom do endividamento, mais de dois ter\u00e7os dos pagamentos intersetoriais de juros, isto \u00e9, dos pagamentos l\u00edquidos de juros realizados entre os principais agentes institucionais da economia (institui\u00e7\u00f5es financeiras, empresas n\u00e3o financeiras, governo, fam\u00edlias endividadas, fam\u00edlias credoras e n\u00e3o residentes), eram feitos pelo governo. Ao final dos anos 2000, por\u00e9m, os trabalhadores endividados haviam deslocado o Estado da posi\u00e7\u00e3o de maior tomador de recursos da economia: entre 2008 e 2011, passaram a responder, em m\u00e9dia, por quase metade dos pagamentos de juros, enquanto a participa\u00e7\u00e3o do governo recuou para 47,6%.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma das conquistas mais celebradas dos governos do Partido dos Trabalhadores nos anos 2000 foi o aumento da participa\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios na renda nacional, ou seja, da parcela do PIB apropriada pelos trabalhadores. Entre 2005 e 2011, essa participa\u00e7\u00e3o cresceu de 46,2% para 48,1%, impulsionada pela formaliza\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho e pela valoriza\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo. No entanto, quando se descontam os pagamentos de juros, a <a href=\"https:\/\/madeusp.com.br\/en\/publications\/articles\/rentier-income-and-mass-based-financialisation-the-limits-of-redistributive-policies-during-the-pink-tide-in-brazil\/\">tend\u00eancia se inverte<\/a>. A participa\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios na renda l\u00edquida de juros caiu de 44,1% para 42,2%. Em outras palavras, a expropria\u00e7\u00e3o financeira mais do que compensou os ganhos obtidos no mercado de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Consumo em massa no Brasil, produ\u00e7\u00e3o em massa na China<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pode-se dar ao lulismo o benef\u00edcio da d\u00favida e interpretar o endividamento dos trabalhadores sob uma perspectiva diferente. \u00c9 poss\u00edvel argumentar que o governo n\u00e3o foi a principal for\u00e7a por tr\u00e1s da expans\u00e3o do cr\u00e9dito, que resultou sobretudo da din\u00e2mica do ciclo financeiro global, mas apenas procurou adotar pol\u00edticas, como o cr\u00e9dito consignado, que permitissem aos trabalhadores acessar empr\u00e9stimos em condi\u00e7\u00f5es menos onerosas. Al\u00e9m disso, em vez de enfatizar a participa\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios na renda agregada e as consequ\u00eancias macroecon\u00f4micas da expropria\u00e7\u00e3o financeira, poder\u00edamos destacar as transforma\u00e7\u00f5es concretas na vida cotidiana de quem recorreu ao cr\u00e9dito para comprar sua primeira geladeira, m\u00e1quina de lavar ou at\u00e9 o smartphone que, em muitos casos, ampliou suas possibilidades de gera\u00e7\u00e3o de renda. Numa entrevista realizada por <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/abs\/10.1111\/blar.13317\">pesquisadores<\/a> no Jardim Helena, bairro da periferia de S\u00e3o Paulo, um morador relatou: \u201cPasso o dia inteiro no WhatsApp falando com meus clientes. Sou aut\u00f4nomo [eletricista e pedreiro] e dependo do celular para trabalhar.\u201d Outra entrevistada acrescentou: \u201cRecebo todas as encomendas de bolo pelo WhatsApp \u00e0s sextas-feiras. \u00c9 \u00f3timo, porque o celular aumentou minha renda. Ficou muito mais f\u00e1cil me comunicar com os clientes.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Crucialmente, o processo de inclus\u00e3o financeira poderia ser entendido como parte de uma estrat\u00e9gia mais ampla de desenvolvimento, que articulava a expans\u00e3o do consumo de massa diversificado \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o da estrutura produtiva. \u00c0 medida que os setores populares passassem a ter acesso a uma gama mais ampla de bens, poderiam induzir adapta\u00e7\u00f5es na produ\u00e7\u00e3o, criando melhores oportunidades de emprego e desencadeando um c\u00edrculo virtuoso entre as estruturas de demanda e de oferta. Essa vis\u00e3o foi formulada por <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/ecos\/a\/F8mXfg5mkdfyjw5Y5bLXqxg\/?format=pdf&amp;lang=pt\">Ricardo Bielschowsky<\/a>, para quem o consumo de massa deveria figurar entre os principais motores de uma estrat\u00e9gia de desenvolvimento para o Brasil. Sua <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/ecos\/a\/F8mXfg5mkdfyjw5Y5bLXqxg\/?format=pdf&amp;lang=pt\">aposta<\/a> residia no fato de que \u201cos bens de consumo de massa s\u00e3o produzidos por estruturas produtivas e empresariais modernas, afeitas ao progresso t\u00e9cnico e ao aumento de produtividade\u201d. Nessa perspectiva, a d\u00edvida contra\u00edda pelos trabalhadores n\u00e3o cresceria de forma insustent\u00e1vel, mas criaria as condi\u00e7\u00f5es para sua pr\u00f3pria supera\u00e7\u00e3o. Conforme melhorassem as condi\u00e7\u00f5es de emprego e renda, os trabalhadores seriam capazes de quitar os empr\u00e9stimos tomados e reduzir gradualmente seu n\u00edvel de endividamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essas expectativas se baseavam em uma <a href=\"https:\/\/academic.oup.com\/cje\/article-abstract\/1\/3\/259\/1692810?redirectedFrom=fulltext\">interpreta\u00e7\u00e3o espec\u00edfica<\/a> do que havia ocorrido durante o chamado milagre econ\u00f4mico brasileiro, no final dos anos 1960 e in\u00edcio dos anos 1970. Naquele per\u00edodo, a brutal repress\u00e3o aos sindicatos e a forte compress\u00e3o dos sal\u00e1rios foram os instrumentos utilizados pela ditadura militar para restaurar a rentabilidade do capital. Parte significativa do boom de investimentos que se seguiu esteve associada \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de autom\u00f3veis e eletrodom\u00e9sticos, cuja demanda dependia tanto da redistribui\u00e7\u00e3o de renda para cima quanto da ampla oferta de cr\u00e9dito ao consumidor, que estendia o acesso a esses bens \u00e0s camadas m\u00e9dias superiores. Tr\u00eas d\u00e9cadas depois, economistas desenvolvimentistas passaram a acreditar que era poss\u00edvel inverter a <a href=\"https:\/\/www.jstor.org\/stable\/1884627\">espiral concentradora<\/a> do milagre econ\u00f4mico. Se antes os bens modernos de consumo estavam restritos aos estratos mais ricos da popula\u00e7\u00e3o, agora poderiam tamb\u00e9m ser acessados pelos mais pobres. Havia, contudo, um risco importante, que <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/ecos\/a\/F8mXfg5mkdfyjw5Y5bLXqxg\/?format=pdf&amp;lang=pt\">preocupava<\/a> o pr\u00f3prio Bielschowsky: \u201cser\u00e1 que a produ\u00e7\u00e3o em massa estimulada pelo consumo de massa ser\u00e1 feita no pa\u00eds ou teremos consumo de massa no Brasil e produ\u00e7\u00e3o em massa na China?\u201d<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A segunda onda de endividamento<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em retrospecto, \u00e9 evidente que essa transforma\u00e7\u00e3o virtuosa da estrutura produtiva n\u00e3o ocorreu e que a expans\u00e3o do consumo de massa n\u00e3o interrompeu o processo de <a href=\"https:\/\/www.cepal.org\/pt-br\/publicacoes\/48265-questao-estilo-mudanca-estrutural-igualdade-seus-desafios\">especializa\u00e7\u00e3o regressiva<\/a> da economia brasileira. Os bens mais sofisticados adquiridos em larga escala durante o boom do consumo popular eram, na melhor das hip\u00f3teses, apenas montados no Brasil. Na maioria das vezes, chegavam prontos do exterior, sobretudo da China.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como resultado, trabalhadores endividados encontraram poucas oportunidades de migrar para ocupa\u00e7\u00f5es mais bem remuneradas, capazes de sustentar seus novos padr\u00f5es de consumo. Na pr\u00e1tica, tiveram de se contentar com empregos de baixa remunera\u00e7\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o civil e nos servi\u00e7os b\u00e1sicos, setores que concentraram a grande maioria das vagas criadas durante o per\u00edodo de acelera\u00e7\u00e3o do crescimento nos anos 2000. Nessas condi\u00e7\u00f5es, suas d\u00edvidas n\u00e3o puderam ser amortizadas. Ao contr\u00e1rio, cresceram mais rapidamente do que a renda, aumentando a parcela dos rendimentos das fam\u00edlias transferida diretamente aos credores. Entre 2005 e 2011, a rela\u00e7\u00e3o entre servi\u00e7o da d\u00edvida e renda (excluindo o cr\u00e9dito imobili\u00e1rio) subiu de 16,6% para 23,4% (como mostra a figura abaixo; diferentemente das duas anteriores, os dados apresentados excluem os financiamentos habitacionais).<br><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"880\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/chart2-pt-d-2-880x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-32886\" srcset=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/chart2-pt-d-2-880x1024.png 880w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/chart2-pt-d-2-258x300.png 258w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/chart2-pt-d-2-768x893.png 768w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/chart2-pt-d-2-1320x1536.png 1320w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/chart2-pt-d-2-1761x2048.png 1761w\" sizes=\"auto, (max-width: 880px) 100vw, 880px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre 2011 e 2013, Dilma Rousseff travou a chamada \u201c<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1177\/0094582X19877187\">batalha dos spreads banc\u00e1rios<\/a>\u201d, utilizando os grandes bancos p\u00fablicos para exercer press\u00e3o competitiva sobre as institui\u00e7\u00f5es privadas e for\u00e7ar a redu\u00e7\u00e3o das taxas cobradas dos tomadores de cr\u00e9dito. Essa estrat\u00e9gia foi acompanhada por uma redu\u00e7\u00e3o da taxa b\u00e1sica de juros promovida pelo Banco Central. A inten\u00e7\u00e3o era, possivelmente, aliviar o peso do endividamento sobre os trabalhadores, permitindo que renegociassem suas d\u00edvidas em condi\u00e7\u00f5es mais favor\u00e1veis. Mas havia tamb\u00e9m outro objetivo: desencadear uma nova rodada de expans\u00e3o do cr\u00e9dito, capaz de sustentar o crescimento econ\u00f4mico. Essas iniciativas, por\u00e9m, tiveram vida curta. Entre 2014 e 2016, a economia brasileira mergulhou em uma profunda recess\u00e3o, dando in\u00edcio a um processo gradual de desalavancagem das fam\u00edlias. Como resultado, a rela\u00e7\u00e3o entre d\u00edvida e renda dispon\u00edvel recuou de 27% para cerca de 21% at\u00e9 2017, enquanto a rela\u00e7\u00e3o entre servi\u00e7o da d\u00edvida e renda caiu de 23% para 20% no mesmo per\u00edodo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir de 2016, um novo ciclo de expans\u00e3o da liquidez global voltou a aliviar as restri\u00e7\u00f5es enfrentadas pelo Banco Central e criou condi\u00e7\u00f5es para uma nova onda de endividamento. Ao mesmo tempo, a recess\u00e3o atravessada pela economia brasileira manteve a infla\u00e7\u00e3o sob controle e permitiu \u00e0 autoridade monet\u00e1ria reduzir a taxa b\u00e1sica de juros a n\u00edveis in\u00e9ditos no pa\u00eds: 6,5% em 2018 e, ap\u00f3s novos cortes, 2% em 2020. Nesse contexto, entre 2018 e 2022, a rela\u00e7\u00e3o entre d\u00edvida das fam\u00edlias e renda dispon\u00edvel aumentou cerca de dez pontos percentuais. A rela\u00e7\u00e3o entre servi\u00e7o da d\u00edvida e renda demorou um pouco mais para acompanhar esse movimento, contida temporariamente pelas taxas de juros excepcionalmente baixas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em mar\u00e7o de 2021, por\u00e9m, o Banco Central reagiu \u00e0 contra\u00e7\u00e3o da liquidez internacional e \u00e0s press\u00f5es inflacion\u00e1rias associadas \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o p\u00f3s-pandemia, elevando a taxa b\u00e1sica de juros de 2% para 13,75% em apenas dezoito meses. A dura realidade do endividamento na periferia capitalista logo se tornaria evidente. Trabalhadores foram obrigados a refinanciar suas d\u00edvidas em condi\u00e7\u00f5es muito mais desfavor\u00e1veis; a rela\u00e7\u00e3o entre servi\u00e7o da d\u00edvida e renda disparou de 18,3% em 2020 para 26,1% em 2023 e, ap\u00f3s a rodada mais recente de aumentos de juros, para 27% nos primeiros tr\u00eas meses deste ano (\u00faltimo dado dispon\u00edvel). H\u00e1 tamb\u00e9m <a href=\"https:\/\/eaesp.fgv.br\/en\/producao-intelectual\/indice-desconforto-credito-idc\">ind\u00edcios<\/a> de deteriora\u00e7\u00e3o na composi\u00e7\u00e3o do endividamento das fam\u00edlias. Nos \u00faltimos anos, modalidades de cr\u00e9dito com juros mais elevados\u2014como cheque especial, cart\u00e3o de cr\u00e9dito e empr\u00e9stimos pessoais n\u00e3o descontados em folha\u2014ganharam participa\u00e7\u00e3o, passando de 18,2% para 24,7% do estoque total entre 2020 e 2026.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Da inclus\u00e3o financeira \u00e0 expropria\u00e7\u00e3o financeira<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2010, Lula concluiu seu segundo mandato no auge do primeiro ciclo de expans\u00e3o do endividamento e com n\u00edveis extraordin\u00e1rios de popularidade. Naturalmente, havia m\u00faltiplas raz\u00f5es para isso. Ainda assim, \u00e9 plaus\u00edvel supor que as pol\u00edticas de cr\u00e9dito tenham contribu\u00eddo para esse resultado, como parte da estrat\u00e9gia que impulsionou o boom do consumo de massa. \u00c0 \u00e9poca, essas pol\u00edticas eram vistas predominantemente como uma conquista\u2014um instrumento de inclus\u00e3o financeira, n\u00e3o de expropria\u00e7\u00e3o\u2014, e seus efeitos eram bastante evidentes. \u00c0 medida que a propor\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o com conta banc\u00e1ria <a href=\"https:\/\/www.soas.ac.uk\/sites\/default\/files\/2025-03\/economics-wp268.pdf\">aumentou<\/a> de 43% para 86% entre 2005 e 2017, a parcela dos domic\u00edlios com m\u00e1quina de lavar quase <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/abs\/10.1111\/blar.13317\">dobrou<\/a>, passando de 33,7% para 66,1% entre 2001 e 2019, enquanto a presen\u00e7a de computadores mais do que <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/abs\/10.1111\/blar.13317\">triplicou<\/a>, de 12,6% para 40,6% no mesmo per\u00edodo. Geladeiras e televisores tornaram-se praticamente <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/abs\/10.1111\/blar.13317\">universais<\/a>, com sua presen\u00e7a nos domic\u00edlios aumentando, respectivamente, de 85% para 98% e de 89% para 99%.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma d\u00e9cada e meia depois, por\u00e9m, os custos do endividamento dos trabalhadores parecem ter se tornado mais evidentes, ofuscando os benef\u00edcios anteriormente associados \u00e0 expans\u00e3o do cr\u00e9dito. Com os pagamentos de juros consumindo, em m\u00e9dia, mais de um quarto da renda das fam\u00edlias, a expropria\u00e7\u00e3o financeira passou a aparecer com mais nitidez como a outra face da inclus\u00e3o financeira. O governo reconheceu o problema e anunciou uma s\u00e9rie de <a href=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/desenrola-brasil\/\">iniciativas<\/a> para enfrentar o superendividamento. Primeiro, em 2023, ao lado do lan\u00e7amento do programa de renegocia\u00e7\u00e3o de d\u00edvidas Desenrola Brasil; depois, neste ano, do chamado Novo Desenrola. Algumas dessas medidas buscam disciplinar os mercados de cr\u00e9dito, impondo limites a determinadas taxas de juros e ao comprometimento da renda. A maioria delas, contudo, concentra-se na renegocia\u00e7\u00e3o dos d\u00e9bitos j\u00e1 existentes. Embora ofere\u00e7am al\u00edvio imediato aos devedores e possam atenuar ressentimentos associados ao endividamento \u00e0s v\u00e9speras da elei\u00e7\u00e3o, essas resolu\u00e7\u00f5es est\u00e3o longe de desmontar a <a href=\"https:\/\/journals.openedition.org\/regulation\/14491?lang=en\">armadilha da financeiriza\u00e7\u00e3o de massas<\/a> constru\u00edda ao longo das \u00faltimas duas d\u00e9cadas.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O objetivo, evidentemente, n\u00e3o deve ser excluir os mais pobres dos mercados de cr\u00e9dito, condenando-os a viver de rendimentos prec\u00e1rios e vol\u00e1teis. A tarefa consiste, antes, em complementar a inclus\u00e3o financeira com uma transforma\u00e7\u00e3o da estrutura produtiva capaz de gerar empregos melhores e mais bem remunerados, bem como com uma estrat\u00e9gia de redu\u00e7\u00e3o da subordina\u00e7\u00e3o financeira internacional, enfrentando assim o problema dos juros elevados. Somente nessas condi\u00e7\u00f5es o acesso ao cr\u00e9dito poder\u00e1 efetivamente beneficiar os trabalhadores. Na aus\u00eancia dessas transforma\u00e7\u00f5es, como ilustra o caso brasileiro, ele apenas os submete a formas cada vez mais intensas de expropria\u00e7\u00e3o financeira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na elei\u00e7\u00e3o de outubro, o Partido dos Trabalhadores de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva enfrentar\u00e1 pela terceira vez o movimento de extrema direita liderado por Jair Bolsonaro. Lula disputa a reelei\u00e7\u00e3o a seu quarto mandato presidencial amparado por um desempenho macroecon\u00f4mico relativamente bem-sucedido. 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