{"id":32835,"date":"2026-06-24T19:20:23","date_gmt":"2026-06-24T19:20:23","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/nao-categorizado\/missing-links\/"},"modified":"2026-07-09T16:22:40","modified_gmt":"2026-07-09T16:22:40","slug":"elos-perdidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/elos-perdidos\/","title":{"rendered":"Elos perdidos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde 2024, a Am\u00e9rica do Norte registra uma corrida de investimentos industrais. M\u00e9xico, Estados Unidos e Canad\u00e1, os tr\u00eas pa\u00edses signat\u00e1rios do USMCA, acordo de livre-com\u00e9rcio que substituiu o NAFTA, anunciaram dezenas de bilh\u00f5es de d\u00f3lares para a constru\u00e7\u00e3o de gigaf\u00e1bricas de baterias, plantas de semicondutores e novas linhas de montagem automotiva. A movimenta\u00e7\u00e3o ocorreu em antecipa\u00e7\u00e3o \u00e0 revis\u00e3o conjunta do acordo, com in\u00edcio previsto para 1\u00ba de julho deste ano. Os n\u00fameros s\u00e3o impressionantes e os an\u00fancios se multiplicam. O real impacto dessa onda de investimentos, no entanto, n\u00e3o ser\u00e1 medido pelo n\u00famero de f\u00e1bricas inauguradas, mas por algo menos vis\u00edvel e mais decisivo: a capacidade de formar, ao redor dessas plantas, um ecossistema capaz de abastec\u00ea-las.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse ecossistema \u00e9 o que determina se uma regi\u00e3o apenas monta os produtos ou efetivamente os produz. A quest\u00e3o, portanto, n\u00e3o \u00e9 se h\u00e1 investimento, mas onde s\u00e3o adquiridos os componentes dos quais esse investimento depende. Em resposta a isso, se espera que a primeira revis\u00e3o conjunta do acordo traga um endurecimento das regras destinadas a excluir componentes importados de pa\u00edses fora do bloco. Jamieson Greer, representante comercial dos Estados Unidos, argumenta que a revis\u00e3o deve avaliar se as chamadas \u201cregras de origem\u201d est\u00e3o de fato promovendo a integra\u00e7\u00e3o regional. Marcelo Ebrard, secret\u00e1rio de Economia do M\u00e9xico, aceitou a possibilidade de requisitos mais rigorosos, mas condicionou seu apoio a uma implementa\u00e7\u00e3o gradual e \u00e0 ado\u00e7\u00e3o de mecanismos de verifica\u00e7\u00e3o compartilhados entre os pa\u00edses. Na aus\u00eancia de cadeias produtivas regionais j\u00e1 consolidadas, por\u00e9m, mudan\u00e7as desse tipo n\u00e3o resolvem o problema.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, os bens finais produzidos pela ind\u00fastria mexicana entram no mercado americano beneficiados pelas prefer\u00eancias do USMCA, mas grande parte dos insumos utilizados em sua fabrica\u00e7\u00e3o continua vindo de fora da regi\u00e3o. A brecha do USMCA que os pa\u00edses signat\u00e1rios buscam resolver n\u00e3o decorre da falta de ambi\u00e7\u00e3o do acordo, mas da dist\u00e2ncia entre suas exig\u00eancias e a capacidade produtiva da regi\u00e3o: a revis\u00e3o busca fortalecer a comprova\u00e7\u00e3o de origem regional de insumos que a Am\u00e9rica do Norte ainda n\u00e3o consegue oferecer em escala e nem certificar a custos razo\u00e1veis.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre mar\u00e7o de 2025 e mar\u00e7o de 2026, a parcela das exporta\u00e7\u00f5es mexicanas que reivindicavam tratamento preferencial sob o USMCA saltou de 44,8% para 88,7%. <a data-contents=\"C\u00e1lculos do autor com base em dados do Servi\u00e7o de Administra\u00e7\u00e3o Tribut\u00e1ria do M\u00e9xico (SAT) e da Alf\u00e2ndega e Prote\u00e7\u00e3o de Fronteiras dos Estados Unidos (CBP, na sigla em ingl\u00eas), referentes ao per\u00edodo 2024\u20132025. Todos os dados de com\u00e9rcio utilizados prov\u00eam do Observat\u00f3rio de Complexidade Econ\u00f4mica (OEC, na sigla em ingl\u00eas), compilados a partir de fontes oficiais do Minist\u00e9rio da Economia do M\u00e9xico, do U.S. Census Bureau e do Statistics Canada. Os dados seguem a classifica\u00e7\u00e3o HS6 e referem-se ao ano de 2024. Os \u00edndices de Vantagem Comparativa Revelada (RCA) foram calculados em n\u00edvel subnacional.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-1\" href=\"#footnote-list-1\">1<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">C\u00e1lculos do autor com base em dados do Servi\u00e7o de Administra\u00e7\u00e3o Tribut\u00e1ria do M\u00e9xico (SAT) e da Alf\u00e2ndega e Prote\u00e7\u00e3o de Fronteiras dos Estados Unidos (CBP, na sigla em ingl\u00eas), referentes ao per\u00edodo 2024\u20132025. Todos os dados de com\u00e9rcio utilizados prov\u00eam do Observat\u00f3rio de Complexidade Econ\u00f4mica (OEC, na sigla em ingl\u00eas), compilados a partir de fontes oficiais do Minist\u00e9rio da Economia do M\u00e9xico, do U.S. Census Bureau e do Statistics Canada. Os dados seguem a classifica\u00e7\u00e3o HS6 e referem-se ao ano de 2024. Os \u00edndices de Vantagem Comparativa Revelada (RCA) foram calculados em n\u00edvel subnacional.<\/span> Esse aumento, por\u00e9m, n\u00e3o reflete uma transforma\u00e7\u00e3o produtiva, mas uma mudan\u00e7a nos incentivos. Em 6 de mar\u00e7o de 2025, o presidente Donald Trump isentou da tarifa de 25% os produtos mexicanos certificados pelo USMCA. Em tese, isso tornaria economicamente irracional exportar sem sem certifica\u00e7\u00e3o de origem. A papelada mudou; a cadeia produtiva, n\u00e3o. A estrutura subjacente permaneceu essencialmente a mesma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso fica particularmente evidente no setor automotivo, para o qual existem dados mais detalhados. O M\u00e9xico abriga mais de 2 mil fabricantes de autope\u00e7as. Delas, 60% s\u00e3o fornecedoras do Tier 1 do USMCA, ou seja, abastecem diretamente as montadoras, enquanto apenas 39% produzem os componentes que incorporam aos produtos finais. A pir\u00e2mide est\u00e1 invertida: h\u00e1 mais empresas pr\u00f3ximas da montagem final do que nos est\u00e1gios anteriores da cadeia produtiva. Quando a base de fornecedores regionais de componentes \u00e9 relativamente estreita, comprovar o cumprimento das regras de origem torna-se mais complexo e custoso. Segundo estimativas do Federal Reserve, o cumprimento das regras de origem acrescenta custos equivalentes a uma tarifa de 1,4% a 2,5%.<a data-contents=\"Board of Governors of the Federal Reserve System, \u201cTrade Compliance at What Cost? Lessons from USMCA Automotive Trade\u201d, (<)em(>)FEDS Notes(<)\/em(>), 18 de julho de 2025.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-2\" href=\"#footnote-list-2\">2<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Board of Governors of the Federal Reserve System, \u201cTrade Compliance at What Cost? Lessons from USMCA Automotive Trade\u201d, (<)em(>)FEDS Notes(<)\/em(>), 18 de julho de 2025.<\/span>  Embora o acordo n\u00e3o imponha um imposto de fronteira propriamente dito, as empresas arcam com o custo de manter documenta\u00e7\u00e3o, certifica\u00e7\u00f5es e sistemas de rastreabilidade por pelo menos cinco anos. De acordo com depoimentos recolhidos pelo Escrit\u00f3rio do Representante Comercial dos Estados Unidos, alguns fornecedores preferem declarar suas pe\u00e7as como \u201cn\u00e3o origin\u00e1rias\u201d em vez de enfrentar o processo de verifica\u00e7\u00e3o, mesmo quando poderiam se qualificar para o tratamento preferencial.<a data-contents=\"Escrit\u00f3rio do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), (<)em(>)2022 USMCA Autos Report to Congress(<)\/em(>) e (<)em(>)2024 USMCA Autos Report to Congress(<)\/em(>). Inclui depoimentos da Associa\u00e7\u00e3o dos Fabricantes de Motores e Equipamentos ((<)em(>)Motor &amp; Equipment Manufacturers Association(<)\/em(>), ou MEMA) sobre os custos administrativos e os encargos burocr\u00e1ticos associados \u00e0 certifica\u00e7\u00e3o de origem.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-3\" href=\"#footnote-list-3\">3<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Escrit\u00f3rio do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), (<)em(>)2022 USMCA Autos Report to Congress(<)\/em(>) e (<)em(>)2024 USMCA Autos Report to Congress(<)\/em(>). Inclui depoimentos da Associa\u00e7\u00e3o dos Fabricantes de Motores e Equipamentos ((<)em(>)Motor &amp; Equipment Manufacturers Association(<)\/em(>), ou MEMA) sobre os custos administrativos e os encargos burocr\u00e1ticos associados \u00e0 certifica\u00e7\u00e3o de origem.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os projetos anunciados por M\u00e9xico, Canad\u00e1 e Estados Unidos nos \u00faltimos dois anos t\u00eam localiza\u00e7\u00e3o, valor de investimento e nome. Os elos que os abastecem, n\u00e3o. Contratos de fornecimento, processos de qualifica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e sistemas de rastreabilidade entre fornecedores raramente aparecem nos an\u00fancios de investimento. O que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 a capacidade da Am\u00e9rica do Norte de construir gigaf\u00e1bricas, mas de produzir o que falta entre elas.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A brecha<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para medir com precis\u00e3o a lacuna existente entre as exporta\u00e7\u00f5es mexicanas e os insumos utilizados para produzi-las, \u00e9 preciso abandonar os agregados e examinar os elos individuais da cadeia. A an\u00e1lise a seguir concentra-se em dois bens transversais\u2014bombas hidr\u00e1ulicas e v\u00e1lvulas industriais\u2014empregados nos setores de energia, saneamento e em diversos processos industriais. Suas cadeias de fornecimento incluem motores el\u00e9tricos, conversores est\u00e1ticos, circuitos de controle, veda\u00e7\u00f5es de borracha, sistemas de cabeamento e componentes estruturais. Cada um desses subsistemas possui sua pr\u00f3pria geografia produtiva e suas pr\u00f3prias vulnerabilidades.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Grande parte das an\u00e1lises existentes trata o uso de insumos estrangeiros nas exporta\u00e7\u00f5es mexicanas como um \u00fanico problema: a depend\u00eancia de componentes produzidos fora da regi\u00e3o. Na pr\u00e1tica, por\u00e9m, existem tr\u00eas problemas distintos: falhas de coordena\u00e7\u00e3o, concentra\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica da produ\u00e7\u00e3o e desenvolvimento tecnol\u00f3gico insuficiente. Cada um deles exige instrumentos espec\u00edficos para ser enfrentado. Uma solu\u00e7\u00e3o \u00fanica e indiferenciada n\u00e3o resolve nenhum desses desafios e pode, inclusive, agravar os outros dois.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O descompasso entre a integra\u00e7\u00e3o no topo da cadeia e nos elos de fornecimento fica evidente nos fluxos comerciais de 2024. Naquele ano, o M\u00e9xico exportou US$ 1,16 bilh\u00e3o em bombas hidr\u00e1ulicas e US$ 3,13 bilh\u00f5es em v\u00e1lvulas industriais, dos quais 94% tiveram como destino os Estados Unidos ou o Canad\u00e1, mas apenas 24% dos insumos utilizados em sua produ\u00e7\u00e3o tiveram origem dentro do bloco. Para fabricar essas bombas e v\u00e1lvulas, os tr\u00eas pa\u00edses importam seis subsistemas cr\u00edticos: motores el\u00e9tricos, conversores est\u00e1ticos, circuitos integrados de controle, veda\u00e7\u00f5es de borracha vulcanizada, chicotes el\u00e9tricos e componentes para equipamentos de processamento. Em todos os seis casos, a maior parte das importa\u00e7\u00f5es vem de fora do bloco de livre-com\u00e9rcio. Isso n\u00e3o descreve uma cadeia produtiva em processo de consolida\u00e7\u00e3o. Descreve, antes, uma integra\u00e7\u00e3o assim\u00e9trica: o produto final foi regionalizado, mas os elos intermedi\u00e1rios da cadeia permaneceram externos.<a data-contents=\"Nos Estados Unidos, esse descompasso era igualmente pronunciado nos componentes eletr\u00f4nicos industriais: 99% das importa\u00e7\u00f5es de circuitos processadores e 84% das de conversores vieram de fora da regi\u00e3o. As diferen\u00e7as entre os pa\u00edses s\u00e3o de grau, n\u00e3o de natureza.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-4\" href=\"#footnote-list-4\">4<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Nos Estados Unidos, esse descompasso era igualmente pronunciado nos componentes eletr\u00f4nicos industriais: 99% das importa\u00e7\u00f5es de circuitos processadores e 84% das de conversores vieram de fora da regi\u00e3o. As diferen\u00e7as entre os pa\u00edses s\u00e3o de grau, n\u00e3o de natureza.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os seis subsistemas, contudo, n\u00e3o enfrentam o mesmo tipo de obst\u00e1culo, e trat\u00e1-los como se fossem um \u00fanico problema conduz a pol\u00edticas ineficazes. No caso dos motores el\u00e9tricos, a capacidade produtiva j\u00e1 existe na Am\u00e9rica do Norte, mas permanece desconectada. O problema est\u00e1 nos custos de coordena\u00e7\u00e3o. Qualificar um fornecedor regional exige auditorias espec\u00edficas para cada cliente, rastreabilidade lote a lote e certifica\u00e7\u00f5es que n\u00e3o podem ser transferidas de um comprador para outro. Cada novo contrato obriga a repetir praticamente todo o processo de qualifica\u00e7\u00e3o. Enquanto esse custo superar a vantagem tarif\u00e1ria oferecida pelas regras de origem, montadoras e fabricantes continuar\u00e3o recorrendo aos fornecedores extrarregionais que j\u00e1 possuem certifica\u00e7\u00e3o e hist\u00f3rico de fornecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O M\u00e9xico importa US$ 1,66 bilh\u00e3o em motores el\u00e9tricos, dos quais 87% t\u00eam origem fora da regi\u00e3o, embora pelo menos cinco estados do bloco\u2014Michigan, Indiana, Illinois, Tamaulipas e Chihuahua\u2014registrem forte especializa\u00e7\u00e3o exportadora nesse subsistema. Jalisco \u00e9 um dos principais exportadores mexicanos de componentes para equipamentos de processamento e conversores est\u00e1ticos, mas os fluxos dessas mercadorias para os estados do nordeste do M\u00e9xico, onde bombas e v\u00e1lvulas s\u00e3o montadas, permanecem pequenos em compara\u00e7\u00e3o com a capacidade instalada do estado. A dist\u00e2ncia f\u00edsica entre essas regi\u00f5es mexicanas \u00e9 inferior a 1.200 quil\u00f4metros. O que separa o fornecedor do montador n\u00e3o \u00e9 a geografia, mas os custos de verifica\u00e7\u00e3o e certifica\u00e7\u00e3o que ainda n\u00e3o foram dilu\u00eddos ao longo de m\u00faltiplas transa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No caso dos conversores est\u00e1ticos, a regi\u00e3o disp\u00f5e de capacidade produtiva, mas a oferta \u00e9 concentrada em poucos polos. O M\u00e9xico importa US$ 4,06 bilh\u00f5es desses componentes, sendo 83% provenientes de fora da regi\u00e3o. A produ\u00e7\u00e3o est\u00e1 concentrada em alguns n\u00facleos industriais: Jalisco, Tamaulipas e Nuevo Le\u00f3n, no M\u00e9xico; Indiana, Illinois e Ohio, nos Estados Unidos. Fora desses seis estados, a capacidade exportadora de conversores \u00e9 bastante limitada. Quando qualquer um desses polos sofre interrup\u00e7\u00f5es ou gargalos, os fabricantes recorrem a fornecedores extrarregionais previamente homologados como alternativa. Essa concentra\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica transforma um problema de redund\u00e2ncia produtiva em depend\u00eancia estrutural.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A produ\u00e7\u00e3o regional de circuitos processadores, por sua vez, enfrenta limita\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas. O M\u00e9xico importa US$ 18,76 bilh\u00f5es desses componentes, dos quais 96% v\u00eam de fora da Am\u00e9rica do Norte; os Estados Unidos importam US$ 28,25 bilh\u00f5es, sendo 99% provenientes de fora da regi\u00e3o. Nenhum estado do bloco apresenta especializa\u00e7\u00e3o exportadora significativa nesse subsistema. Os investimentos mobilizados pelo CHIPS Act tampouco dever\u00e3o gerar volumes expressivos de com\u00e9rcio em polos maduros de semicondutores industriais antes de 2027 ou 2028. Endurecer as regras de origem para esse segmento j\u00e1 em julho de 2026 significa, portanto, penalizar as importa\u00e7\u00f5es sem oferecer uma alternativa produtiva vi\u00e1vel dentro da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As declara\u00e7\u00f5es p\u00fablicas dos principais fabricantes de bombas, v\u00e1lvulas e equipamentos de controle corroboram o padr\u00e3o estrutural revelado pelos dados comerciais. A Pentair, uma das maiores fabricantes norte-americanas de bombas e sistemas de tratamento de \u00e1gua, informa em seu relat\u00f3rio anual de 2024 (10-K) que entre seus principais insumos est\u00e3o \u201ccomponentes eletr\u00f4nicos (incluindo acionamentos e motores)\u201d adquiridos em mercados globais, al\u00e9m de reconhecer as dificuldades associadas ao fornecimento proveniente de pa\u00edses e regi\u00f5es com infraestrutura limitada ou fora dos Estados Unidos.<a data-contents=\"Pentair plc, (<)em(>)Form 10-K(<)\/em(>), 25 de fevereiro de 2025, exerc\u00edcio fiscal de 2024. Item 1 ((<)em(>)Business(<)\/em(>)): principais insumos e mat\u00e9rias-primas; Item 1A ((<)em(>)Risk Factors(<)\/em(>)): riscos associados \u00e0s cadeias globais de fornecimento e ao abastecimento externo. Arquivo dispon\u00edvel no sistema EDGAR da Comiss\u00e3o de Valores Mobili\u00e1rios dos Estados Unidos (SEC), CIK 0000077360.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-5\" href=\"#footnote-list-5\">5<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Pentair plc, (<)em(>)Form 10-K(<)\/em(>), 25 de fevereiro de 2025, exerc\u00edcio fiscal de 2024. Item 1 ((<)em(>)Business(<)\/em(>)): principais insumos e mat\u00e9rias-primas; Item 1A ((<)em(>)Risk Factors(<)\/em(>)): riscos associados \u00e0s cadeias globais de fornecimento e ao abastecimento externo. Arquivo dispon\u00edvel no sistema EDGAR da Comiss\u00e3o de Valores Mobili\u00e1rios dos Estados Unidos (SEC), CIK 0000077360.<\/span> A Parker Hannifin, maior fabricante do bloco de sistemas de movimento e controle, estima uma exposi\u00e7\u00e3o anual de aproximadamente US$ 375 milh\u00f5es a tarifas comerciais\u2014cerca de 3% de seu custo de venda\u2014e identifica explicitamente as restri\u00e7\u00f5es comerciais envolvendo a China como um risco material para seus neg\u00f3cios.<a data-contents=\"Parker Hannifin Corporation, (<)em(>)Form 10-K(<)\/em(>), 22 de agosto de 2024, referente ao exerc\u00edcio fiscal encerrado em 30 de junho de 2024. Item 1A ((<)em(>)Risk Factors(<)\/em(>)): exposi\u00e7\u00e3o a tarifas comerciais e riscos associados \u00e0s restri\u00e7\u00f5es comerciais envolvendo a China. Arquivo dispon\u00edvel no sistema EDGAR da Comiss\u00e3o de Valores Mobili\u00e1rios dos Estados Unidos (SEC), CIK 0000076334.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-6\" href=\"#footnote-list-6\">6<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Parker Hannifin Corporation, (<)em(>)Form 10-K(<)\/em(>), 22 de agosto de 2024, referente ao exerc\u00edcio fiscal encerrado em 30 de junho de 2024. Item 1A ((<)em(>)Risk Factors(<)\/em(>)): exposi\u00e7\u00e3o a tarifas comerciais e riscos associados \u00e0s restri\u00e7\u00f5es comerciais envolvendo a China. Arquivo dispon\u00edvel no sistema EDGAR da Comiss\u00e3o de Valores Mobili\u00e1rios dos Estados Unidos (SEC), CIK 0000076334.<\/span> J\u00e1 a Illinois Tool Works opera com cerca de 40 mil fornecedores ativos distribu\u00eddos por cinquenta e cinco pa\u00edses e seus dez maiores fornecedores respondem por apenas 22% dos gastos totais com compras.<a data-contents=\"Illinois Tool Works Inc., (<)em(>)Form 10-K(<)\/em(>), fevereiro de 2025, referente ao exerc\u00edcio fiscal de 2024. Item 1 ((<)em(>)Business(<)\/em(>)): estrutura da base de fornecedores e grau de concentra\u00e7\u00e3o das compras. Arquivo dispon\u00edvel no sistema EDGAR da Comiss\u00e3o de Valores Mobili\u00e1rios dos Estados Unidos (SEC), CIK 0000049826.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-7\" href=\"#footnote-list-7\">7<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Illinois Tool Works Inc., (<)em(>)Form 10-K(<)\/em(>), fevereiro de 2025, referente ao exerc\u00edcio fiscal de 2024. Item 1 ((<)em(>)Business(<)\/em(>)): estrutura da base de fornecedores e grau de concentra\u00e7\u00e3o das compras. Arquivo dispon\u00edvel no sistema EDGAR da Comiss\u00e3o de Valores Mobili\u00e1rios dos Estados Unidos (SEC), CIK 0000049826.<\/span> Essa dispers\u00e3o geogr\u00e1fica deliberada constitui, por si s\u00f3, uma evid\u00eancia de que a ind\u00fastria n\u00e3o conta com escala suficiente dentro da Am\u00e9rica do Norte para suprir sua demanda por componentes eletr\u00f4nicos e sistemas de controle.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os fluxos comerciais e as informa\u00e7\u00f5es divulgadas pelas pr\u00f3prias empresas apontam para o mesmo diagn\u00f3stico: a depend\u00eancia de componentes eletr\u00f4nicos e de controle produzidos fora da regi\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno acidental nem uma caracter\u00edstica espec\u00edfica de algumas firmas. Trata-se de uma condi\u00e7\u00e3o estrutural que atravessa todo o setor.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A geografia do desacoplamento<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ser\u00e1 poss\u00edvel para o M\u00e9xico reduzir sua depend\u00eancia de insumos produzidos fora da regi\u00e3o diante do aumento das tarifas? Tamb\u00e9m aqui \u00e9 poss\u00edvel examinar os principais n\u00f3s da produ\u00e7\u00e3o e das exporta\u00e7\u00f5es: de um lado, bens-\u00e2ncora exportados como produtos finais, como bombas e v\u00e1lvulas; de outro, insumos eletr\u00f4nicos cr\u00edticos, como motores, conversores e circuitos integrados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses produtos podem ser analisados a partir de dois indicadores. O primeiro \u00e9 o conte\u00fado regional de valor (Regional Value Content, ou RVC, na sigla em ingl\u00eas), que permite identificar a parcela dos insumos origin\u00e1ria da Am\u00e9rica do Norte. O segundo \u00e9 o \u00cdndice de Vantagem Comparativa Revelada (RCA, na sigla em ingl\u00eas). Esse indicador mede a participa\u00e7\u00e3o de um determinado estado ou prov\u00edncia nas exporta\u00e7\u00f5es nacionais de um produto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 participa\u00e7\u00e3o desse mesmo produto no conjunto das exporta\u00e7\u00f5es do pa\u00eds. Um RCA superior a 1 indica especializa\u00e7\u00e3o relativa naquele produto, enquanto valores acima de 10 sinalizam uma concentra\u00e7\u00e3o particularmente elevada. Diferentemente do \u00edndice convencional de Balassa, que compara pa\u00edses com o restante do mundo, o c\u00e1lculo utilizado aqui compara unidades subnacionais com seus pr\u00f3prios pa\u00edses. Por isso, os valores do RCA podem atingir n\u00edveis bastante elevados: um estado altamente especializado em determinado produto pode registrar \u00edndices de 30, 50 ou mais. Os dados utilizados referem-se a 2024 e foram compilados pelo Observat\u00f3rio de Complexidade Econ\u00f4mica a partir de fontes oficiais de cada pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Indiana registrou um RCA de 45,4 para bombas, 48,7 para motores, 51,0 para conversores e 44,9 para chicotes el\u00e9tricos. Trata-se do \u00fanico estado dos EUA com uma vantagem comparativa revelada competitiva em todos os principais subsistemas el\u00e9tricos analisados. Tamaulipas e Michigan apresentam perfis semelhantes, ainda que com n\u00edveis menores de especializa\u00e7\u00e3o. Nesses polos j\u00e1 integrados, um endurecimento das regras de origem para motores e conversores n\u00e3o geraria custos imediatos de substitui\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que a produ\u00e7\u00e3o dos diferentes elos da cadeia encontra-se relativamente articulada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ohio, por outro lado, exemplifica um polo de montagem dependente de componentes eletr\u00f4nicos produzidos em outros lugares. O estado exportou US$ 124 milh\u00f5es em bombas (RCA de 31,0) e US$ 524 milh\u00f5es em v\u00e1lvulas (RCA de 35,3), apoiando-se sobretudo em uma base metalmec\u00e2nica. J\u00e1 os circuitos integrados registraram um RCA de apenas 0,6. Coahuila, Nuevo Le\u00f3n e Illinois apresentam varia\u00e7\u00f5es desse mesmo perfil: forte especializa\u00e7\u00e3o na montagem, mas pouca ou nenhuma capacidade relevante na produ\u00e7\u00e3o de componentes eletr\u00f4nicos. Nesses casos, um endurecimento das regras de origem para eletr\u00f4nicos industriais elevaria os custos de produ\u00e7\u00e3o sem oferecer uma fonte alternativa imediata de abastecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jalisco constitui o exemplo mais claro da desconex\u00e3o entre os elos iniciais da cadeia produtiva e a montagem final. O estado registra RCA de 42,7 para componentes de equipamentos de processamento de dados, 32,0 para conversores e 22,0 para circuitos integrados, mas apenas 0,2 para bombas e 1,1 para v\u00e1lvulas. Em outras palavras, a capacidade produtiva para insumos cr\u00edticos existe, mas os contratos de fornecimento qualificados com os montadores do nordeste mexicano n\u00e3o. O gargalo \u00e9 transacional, n\u00e3o produtivo, gerando um quadro de capacidade instalada subutilizada. J\u00e1 Ont\u00e1rio, no Canad\u00e1, representa um polo emergente. A prov\u00edncia exportou US$ 880 milh\u00f5es em v\u00e1lvulas, com um RCA de 2,4. O corredor industrial Windsor\u2013Toronto encontra-se fortemente integrado \u00e0 manufatura dos Estados Unidos, mas a taxa de utiliza\u00e7\u00e3o das prefer\u00eancias do USMCA pelo Canad\u00e1 alcan\u00e7ou apenas 53% em 2025, indicando que ainda h\u00e1 espa\u00e7o consider\u00e1vel para aprofundar a integra\u00e7\u00e3o produtiva regional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se as negocia\u00e7\u00f5es do USMCA em julho resultarem em um endurecimento uniforme das regras de origem para componentes eletr\u00f4nicos industriais, os efeitos ser\u00e3o bastante distintos entre os diferentes polos produtivos da regi\u00e3o. Em Ohio e Coahuila, os custos de produ\u00e7\u00e3o tenderiam a aumentar; em Jalisco e Nuevo Le\u00f3n, dificilmente surgiriam novos contratos de fornecimento; e, em Ont\u00e1rio, o conte\u00fado regional de valor (RVC) permaneceria praticamente inalterado. Cada uma dessas situa\u00e7\u00f5es exige instrumentos de pol\u00edtica espec\u00edficos, compat\u00edveis com o est\u00e1gio de desenvolvimento e o grau de integra\u00e7\u00e3o das atividades produtivas locais. Mais importante ainda, essas diferen\u00e7as atravessam as fronteiras nacionais. Os impactos de uma renegocia\u00e7\u00e3o do USMCA n\u00e3o se distribuiriam de forma homog\u00eanea entre M\u00e9xico, Canad\u00e1 e Estados Unidos, mas seriam sentidos de maneira desigual entre estados e prov\u00edncias dentro de cada pa\u00eds. Em outras palavras, os efeitos da revis\u00e3o do acordo seriam definidos menos pela nacionalidade dos atores econ\u00f4micos do que pela posi\u00e7\u00e3o espec\u00edfica que cada territ\u00f3rio ocupa nas cadeias produtivas norte-americanas.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Quem captura o qu\u00ea?<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 aqui, a an\u00e1lise concentrou-se na produ\u00e7\u00e3o. A quest\u00e3o seguinte \u00e9 distributiva: quem se beneficia da manuten\u00e7\u00e3o das estruturas atuais do USMCA? Na pr\u00e1tica, as prefer\u00eancias tarif\u00e1rias do acordo se traduzem em margens mais elevadas e volumes de venda mais est\u00e1veis para os grandes fornecedores, privilegiando aqueles que j\u00e1 possuem acesso consolidado aos contratos. Para se qualificar, \u00e9 necess\u00e1rio cumprir uma s\u00e9rie de exig\u00eancias documentais: rastreabilidade dos insumos, auditorias de processo e registros de conformidade. Trata-se de um custo em grande medida fixo. Documentar uma exporta\u00e7\u00e3o de US$ 500 mil pode custar praticamente o mesmo que documentar uma opera\u00e7\u00e3o de US$ 50 milh\u00f5es. Quem consegue diluir esse custo em grandes volumes captura os benef\u00edcios do acordo, quem n\u00e3o consegue acaba exportando sem as prefer\u00eancias tarif\u00e1rias ou simplesmente fica de fora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A esses custos fixos somam-se os custos de substitui\u00e7\u00e3o de fornecedores. Uma vez que um fabricante de equipamentos originais (OEM, na sigla em ingl\u00eas) investe na auditoria e homologa\u00e7\u00e3o de um fornecedor, substitu\u00ed-lo exige repetir todo o processo: novas auditorias, nova documenta\u00e7\u00e3o e um novo per\u00edodo de qualifica\u00e7\u00e3o. O resultado \u00e9 uma barreira relacional que protege os fornecedores j\u00e1 estabelecidos e desestimula a avalia\u00e7\u00e3o de alternativas, mesmo quando estas s\u00e3o competitivas em termos de pre\u00e7o e qualidade. Os mecanismos de verifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas elevam o custo de entrada; eles criam formas de depend\u00eancia contratual. Para um novo fornecedor\u2014uma pequena ou m\u00e9dia empresa de Jalisco especializada em veda\u00e7\u00f5es mec\u00e2nicas, ou uma oficina de Quer\u00e9taro que fabrica componentes para motores\u2014, o principal obst\u00e1culo n\u00e3o \u00e9 a capacidade produtiva. O desafio est\u00e1 em demonstrar, para cada cliente em potencial, que seus produtos atendem a padr\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o automaticamente reconhecidos em toda a regi\u00e3o. Esse custo surge antes mesmo de qualquer ganho de escala e precisa ser incorrido novamente a cada novo comprador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As consequ\u00eancias pol\u00edticas dessa estrutura s\u00e3o diretas. Os atores mais bem posicionados para influenciar a renegocia\u00e7\u00e3o das regras do USMCA n\u00e3o s\u00e3o os fornecedores que tentam ingressar no mercado, mas as empresas que j\u00e1 internalizaram seus custos e procedimentos. Benef\u00edcios concentrados, custos dispersos: uma combina\u00e7\u00e3o politicamente est\u00e1vel, que favorece ajustes no valor das prefer\u00eancias existentes sem necessariamente ampliar o universo de empresas capazes de acess\u00e1-las.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o custo dessa estrutura n\u00e3o \u00e9 apenas distributivo. Ele \u00e9 cumulativo. Capacidades industriais s\u00e3o constru\u00eddas por meio da repeti\u00e7\u00e3o: ciclos de produ\u00e7\u00e3o, aperfei\u00e7oamentos de qualidade e processos cont\u00ednuos de aprendizado entre fornecedores e montadores. Cada contrato de fornecimento qualificado que deixa de ser firmado representa um ciclo de aprendizagem interrompido. O fabricante de conversores em Jalisco que nunca consegue fechar um contrato com uma montadora ou integradora em Nuevo Le\u00f3n n\u00e3o perde apenas uma venda. Ele deixa de acumular experi\u00eancia produtiva, de realizar sucessivos lotes de fabrica\u00e7\u00e3o, de aperfei\u00e7oar toler\u00e2ncias t\u00e9cnicas e de desenvolver os processos que, ao longo do tempo, o tornariam um fornecedor mais competitivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A n\u00e3o portabilidade dos mecanismos de verifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o bloqueia apenas o com\u00e9rcio; ela bloqueia tamb\u00e9m o aprendizado pela pr\u00e1tica (<em>learning by doing<\/em>), principal mecanismo de acumula\u00e7\u00e3o de capacidades na manufatura de bens intermedi\u00e1rios. O resultado \u00e9 um ciclo de retroalimenta\u00e7\u00e3o: a persist\u00eancia de lacunas produtivas serve como justificativa para continuar adquirindo insumos fora do bloco, enquanto essa pr\u00f3pria depend\u00eancia impede que as capacidades necess\u00e1rias sejam desenvolvidas internamente. A revis\u00e3o do USMCA prevista para julho de 2026 constitui precisamente a encruzilhada institucional em que esse ciclo poder\u00e1 ser rompido ou consolidado.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Agenda para 2026<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primeira revis\u00e3o do USMCA tem mandato limitado: confirmar ou modificar as regras de origem aplic\u00e1veis a determinadas categorias de bens industriais. Ela n\u00e3o pode, por si s\u00f3, criar capacidade produtiva nem financiar uma nova base territorial de produ\u00e7\u00e3o. Ainda assim, o acordo oferece tr\u00eas caminhos institucionais distintos para enfrentar os tr\u00eas problemas identificados nesta an\u00e1lise.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O primeiro diz respeito \u00e0 portabilidade dos processos de verifica\u00e7\u00e3o, um instrumento voltado a reduzir as falhas de coordena\u00e7\u00e3o. No caso dos motores el\u00e9tricos, a capacidade produtiva j\u00e1 existe dos dois lados da fronteira. O instrumento mais adequado seria um sistema de certifica\u00e7\u00e3o de fornecedores v\u00e1lido em todo o bloco: um cadastro administrado conjuntamente pelo Servi\u00e7o de Administra\u00e7\u00e3o Tribut\u00e1ria do M\u00e9xico (SAT), pela Alf\u00e2ndega e Prote\u00e7\u00e3o de Fronteiras dos Estados Unidos (CBP, na sigla em ingl\u00eas) e pela Ag\u00eancia de Servi\u00e7os de Fronteira do Canad\u00e1 (CBSA), no qual a elegibilidade de um fornecedor regional, uma vez auditada por um comprador, fosse automaticamente reconhecida pelos compradores subsequentes, sem a necessidade de repetir todo o processo de qualifica\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um mecanismo desse tipo reduziria o custo marginal da substitui\u00e7\u00e3o de fornecedores extrarregionais por fornecedores do bloco sem exigir novos investimentos produtivos. O corredor Jalisco\u2013Nuevo Le\u00f3n seria um candidato natural para um projeto-piloto: concentra atividades a montante com RCA superior a 20 em tr\u00eas subsistemas distintos, localiza-se a menos de 1.200 quil\u00f4metros dos polos de montagem e, apesar disso, n\u00e3o apresenta v\u00ednculos de fornecimento claramente identific\u00e1veis nos dados de com\u00e9rcio. O instrumento poderia ser implementado como um procedimento harmonizado no \u00e2mbito do Comit\u00ea de Facilita\u00e7\u00e3o do Com\u00e9rcio do USMCA, sem necessidade de reabrir o texto do tratado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O segundo caminho busca enfrentar o problema da concentra\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica da produ\u00e7\u00e3o, que cria depend\u00eancias estruturais dentro do pr\u00f3prio bloco. No caso dos conversores est\u00e1ticos, elevar os requisitos de conte\u00fado regional tende a agravar o problema, for\u00e7ando os montadores a depender de uma base produtiva territorial j\u00e1 excessivamente estreita. O instrumento apropriado seria um mecanismo de qualifica\u00e7\u00e3o preferencial para investimentos em capacidade produtiva de conversores em estados e prov\u00edncias atualmente ausentes desse mapa industrial, como Coahuila, Ohio e Ont\u00e1rio, ampliando a base produtiva antes que os novos requisitos de origem se tornem obrigat\u00f3rios. Esse mecanismo poderia ser estruturado como um plano de a\u00e7\u00e3o setorial no \u00e2mbito do Artigo 32.10 do acordo, incorporando a implementa\u00e7\u00e3o gradual que o secret\u00e1rio de Economia do M\u00e9xico, Marcelo Ebrard, definiu como condi\u00e7\u00e3o para a revis\u00e3o do tratado em janeiro de 2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O terceiro caminho seria voltado para enfrentar as depend\u00eancias tecnol\u00f3gicas e os gargalos estrat\u00e9gicos. No caso dos circuitos processadores industriais, nenhum polo produtivo do bloco disp\u00f5e hoje de capacidade em escala suficiente. Aplicar requisitos mais rigorosos de conte\u00fado regional j\u00e1 em 2026 significaria penalizar importa\u00e7\u00f5es para as quais n\u00e3o existe uma alternativa vi\u00e1vel dentro da Am\u00e9rica do Norte. A abordagem mais adequada seria excluir explicitamente os circuitos processadores industriais de qualquer endurecimento das regras de origem at\u00e9 que exista produ\u00e7\u00e3o regional comprovada, vinculando uma futura revis\u00e3o a metas de capacidade produtiva efetivamente alcan\u00e7adas, e n\u00e3o a uma data no calend\u00e1rio. Isso exigiria uma nota interpretativa ao Anexo 4-B do acordo, negociada bilateralmente entre Estados Unidos e M\u00e9xico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quais s\u00e3o as perspectivas de ado\u00e7\u00e3o dessas mudan\u00e7as nas negocia\u00e7\u00f5es de julho? A certifica\u00e7\u00e3o port\u00e1til \u00e9 o instrumento que enfrenta menor resist\u00eancia pol\u00edtica, justamente porque n\u00e3o imp\u00f5e custos significativos a nenhuma das partes. J\u00e1 a estrat\u00e9gia gradual para os conversores exigiria um novo entendimento bilateral entre M\u00e9xico e Estados Unidos. Por sua vez, o enfrentamento do d\u00e9ficit tecnol\u00f3gico por meio da exclus\u00e3o dos semicondutores das regras de origem provavelmente encontraria pouca oposi\u00e7\u00e3o substantiva, uma vez que os tr\u00eas governos compartilham o mesmo problema estrutural.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em \u00faltima inst\u00e2ncia, um bloco comercial que integra a montagem final, mas n\u00e3o os elos intermedi\u00e1rios da cadeia produtiva, incorre em custos que v\u00e3o muito al\u00e9m do com\u00e9rcio. O que est\u00e1 em jogo \u00e9 a pr\u00f3pria capacidade produtiva e tecnol\u00f3gica da regi\u00e3o. Na cadeia de bombas e v\u00e1lvulas, os subsistemas eletr\u00f4nicos de controle\u2014conversores de pot\u00eancia, m\u00f3dulos de controle e circuitos integrados\u2014s\u00e3o projetados, aperfei\u00e7oados e mantidos em centros industriais localizados em Shenzhen, Penang e Hsinchu. Os trabalhadores das plantas de montagem em Monterrey ou Ciudad Ju\u00e1rez interagem apenas com o subsistema pronto, sem contato com seus processos de desenvolvimento, seus ciclos de aperfei\u00e7oamento ou os problemas t\u00e9cnicos que surgem ao longo da produ\u00e7\u00e3o. O aprendizado tecnol\u00f3gico que impulsiona os ganhos de produtividade permanece onde o componente \u00e9 concebido e fabricado, n\u00e3o onde o produto final \u00e9 montado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma nova onda de subs\u00eddios industriais, apoiada pelos governos dos Estados Unidos, M\u00e9xico e Canad\u00e1, pode estimular a cria\u00e7\u00e3o de ativos produtivos de grande escala. Mas, se uma f\u00e1brica de semicondutores financiada pelo CHIPS Act operar no Arizona enquanto as fabricantes de bombas industriais em Ohio continuarem importando seus circuitos de controle de Taiwan, o efeito multiplicador desses investimentos ser\u00e1 limitado. Empregos diretos ser\u00e3o criados, mas os encadeamentos produtivos a montante permanecer\u00e3o ausentes. Isso torna os subs\u00eddios politicamente fr\u00e1geis. Sem elos intermedi\u00e1rios regionais, os incentivos p\u00fablicos financiam capacidade instalada, mas n\u00e3o constroem um ecossistema industrial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A depend\u00eancia norte-americana de circuitos processadores e conversores n\u00e3o \u00e9 apenas um dado comercial. Trata-se de uma vari\u00e1vel estrat\u00e9gica que condiciona a capacidade da regi\u00e3o de sustentar seu modelo de integra\u00e7\u00e3o diante de press\u00f5es externas e tens\u00f5es geopol\u00edticas. Um bloco que exporta produtos finais, mas depende de terceiros para os subsistemas que lhes d\u00e3o suporte, encontra-se em posi\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade em qualquer negocia\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ou pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A revis\u00e3o do USMCA em 2026, portanto, est\u00e1 longe de ser uma mera formalidade. Ela ocorre em um momento em que os subs\u00eddios j\u00e1 foram concedidos, os investimentos j\u00e1 foram realizados e os gargalos nos insumos cr\u00edticos permanecem sem solu\u00e7\u00e3o. Os mecanismos capazes de enfrentar parte desse problema j\u00e1 existem no pr\u00f3prio acordo, assim como existem os atores com mandato para negoci\u00e1-los. A janela de oportunidade para faz\u00ea-lo se fecha em julho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde 2024, a Am\u00e9rica do Norte registra uma corrida de investimentos industrais. 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