{"id":32611,"date":"2026-06-16T12:58:07","date_gmt":"2026-06-16T12:58:07","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/?p=32611"},"modified":"2026-06-16T13:13:22","modified_gmt":"2026-06-16T13:13:22","slug":"reinvencao-modelo-colombiano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/reinvencao-modelo-colombiano\/","title":{"rendered":"A reinven\u00e7\u00e3o do modelo colombiano"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A presid\u00eancia de Gustavo Petro chegar\u00e1 ao fim em agosto deste ano, ap\u00f3s quatro anos de mandato. Sua vit\u00f3ria nas elei\u00e7\u00f5es de 2022 representou uma ruptura significativa na hist\u00f3ria pol\u00edtica da Col\u00f4mbia, h\u00e1 muito dominada por uma elite conservadora e moldada pela contrainsurg\u00eancia, pelo extrativismo e pela estreita parceria do pa\u00eds com os Estados Unidos. Ex-guerrilheiro do M-19 e cr\u00edtico de longa data da trajet\u00f3ria econ\u00f4mica colombiana, Petro prometeu romper com aquilo que <a href=\"https:\/\/docs.google.com\/document\/d\/159vWyUmdCyHQ0OywA8QOE9HXzO-DLyUNaIsIBVlPAIw\/edit?tab=t.0\">frequentemente denunciava<\/a> como o \u201cmodelo neoliberal\u201d do pa\u00eds: um sistema consolidado ao longo de quatro d\u00e9cadas que, <a href=\"https:\/\/x.com\/petrogustavo\/status\/1936253341962572217\">segundo ele<\/a>, havia \u201cproduzido profunda desigualdade, destru\u00eddo o tecido social e alimentado a viol\u00eancia\u201d. Sua agenda inclu\u00eda ambiciosas reformas previdenci\u00e1ria, trabalhista, agr\u00e1ria e da sa\u00fade, mas seu projeto pol\u00edtico ia al\u00e9m da soma dessas medidas. Petro construiu sua carreira denunciando os v\u00ednculos entre pol\u00edticos, grandes propriet\u00e1rios de terra, grupos paramilitares, traficantes de drogas e multinacionais estrangeiras que sustentam o padr\u00e3o extrativista colombiano, o que ele chama\u00a0 de \u201ceconomia da morte\u201d. Seu objetivo no governo foi tentar reorientar o <a href=\"https:\/\/colombiaone.com\/2026\/03\/26\/colombia-report-changing-economic-model\/\">modelo de desenvolvimento<\/a> do pa\u00eds em dire\u00e7\u00e3o a uma \u201ceconomia da vida\u201d, afastando-o da depend\u00eancia de combust\u00edveis f\u00f3sseis, da economia il\u00edcita e da expropria\u00e7\u00e3o de terras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora sua plataforma representasse uma ruptura profunda com d\u00e9cadas de pol\u00edtica colombiana, as propostas de Petro n\u00e3o eram revolucion\u00e1rias. Longe de defender um salto rumo ao socialismo do s\u00e9culo XXI, seu objetivo era reduzir as desigualdades, ampliar a inclus\u00e3o pol\u00edtica e garantir os direitos civis consagrados pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1991. Na noite de sua elei\u00e7\u00e3o, Petro chegou a <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=YEbSse5WGhE\">afirmar<\/a> a seus apoiadores que a meta era \u201cdesenvolver o capitalismo\u201d no pa\u00eds. Influenciado por uma interpreta\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria colombiana que dialoga com os debates sobre depend\u00eancia e modos de produ\u00e7\u00e3o que marcaram a Am\u00e9rica Latina em meados do s\u00e9culo XX, Petro argumentava que a Col\u00f4mbia permanecia presa a uma estrutura \u201cpr\u00e9-moderna\u201d e \u201cfeudal\u201d, que precisava ser superada antes de qualquer transforma\u00e7\u00e3o mais profunda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As dificuldades enfrentadas por Petro no exerc\u00edcio do poder evidenciaram os limites de governar por meio de institui\u00e7\u00f5es forjadas durante o per\u00edodo neoliberal\u2014um dilema que extrapola as fronteiras de seu pa\u00eds. No caso colombiano, por\u00e9m, h\u00e1 um elemento particular: a hist\u00f3rica separa\u00e7\u00e3o entre a formula\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e a disputa pol\u00edtica. Esse arranjo \u00e9, em grande medida, heran\u00e7a da <em>la Violencia <\/em>e da forma\u00e7\u00e3o tecnocr\u00e1tica singular que emergiu desse per\u00edodo, respons\u00e1vel por blindar quest\u00f5es econ\u00f4micas do debate democr\u00e1tico e por inscrever pilares da governan\u00e7a neoliberal em uma Constitui\u00e7\u00e3o que continua desfrutando de ampla legitimidade popular.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O projeto de Petro surgiu em um pa\u00eds cuja transi\u00e7\u00e3o ao neoliberalismo foi gradual, produzindo uma rea\u00e7\u00e3o mais moderada do que em outras partes da Am\u00e9rica Latina, onde reformas mais abruptas desencadearam movimentos antineoliberais que ajudaram a levar ao poder os governos da Onda Rosa. Al\u00e9m disso, a esquerda colombiana teve de enfrentar um processo de reestrutura\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica profundamente entrela\u00e7ado ao conflito armado e \u00e0 ascens\u00e3o do paramilitarismo, fatores que, em conjunto, reprimiram violentamente a oposi\u00e7\u00e3o popular. Nesse sentido, a presid\u00eancia de Petro deve ser entendida n\u00e3o apenas como uma ruptura simb\u00f3lica, mas como um teste dos limites e possibilidades de quatro anos de um governo progressista num pa\u00eds sem qualquer experi\u00eancia pr\u00e9via de governo de esquerda, cujas institui\u00e7\u00f5es foram moldadas por d\u00e9cadas de reformas neoliberais e com um violento hist\u00f3rico de repress\u00e3o a movimentos sociais.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se as elei\u00e7\u00f5es presidenciais forem tomadas como o \u00fanico crit\u00e9rio para avaliar o sucesso de Petro, \u00e9 f\u00e1cil concluir que seu projeto n\u00e3o reuniu apoio suficiente para resistir a uma ofensiva da direita amplamente financiada. O fato de Iv\u00e1n Cepeda, seu sucessor escolhido, ter ficado atr\u00e1s do populista de extrema direita e narcoadvogado Abelardo de la Espriella no primeiro turno levou muitos cr\u00edticos a desqualificar sua experi\u00eancia no poder. Ainda assim, mesmo que a extrema direita retorne ao poder\u2014um cen\u00e1rio sugerido pelas pesquisas, mas longe de ser inevit\u00e1vel\u2014, a experi\u00eancia da esquerda no governo deixar\u00e1 marcas duradouras na Col\u00f4mbia e na regi\u00e3o, muito al\u00e9m desses quatro anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A guinada da Col\u00f4mbia em dire\u00e7\u00e3o a uma agenda explicitamente redistributiva e antiextrativista desperta tamanho receio entre seus advers\u00e1rios justamente porque produziu resultados concretos. Petro deixa o governo com uma economia est\u00e1vel e \u00edndices de aprova\u00e7\u00e3o relativamente <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/mundo\/articles\/cx21xzrr4xro\">altos<\/a> para um presidente em fim de mandato. Isso foi poss\u00edvel gra\u00e7as a uma estrat\u00e9gia centrada nas classes populares, cujas condi\u00e7\u00f5es de vida <a href=\"https:\/\/www.almaplus.tv\/noticias\/43924\/colombia-alcanza-hito--m%C3%A1s-ciudadanos-en-clase-media-que-en\">melhoraram significativamente<\/a> em decorr\u00eancia de uma s\u00e9rie de reformas de grande alcance nos sistemas trabalhista e previdenci\u00e1rio, da valoriza\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo, de uma redistribui\u00e7\u00e3o de terras sem precedentes e de <a href=\"https:\/\/www.lasillavacia.com\/silla-nacional\/petro-pone-de-cabeza-la-inversion-regional-a-mas-municipios-sin-grandes-proyectos\/\">investimentos<\/a> nas regi\u00f5es perif\u00e9ricas do pa\u00eds. Mas, para al\u00e9m desses avan\u00e7os materiais, h\u00e1 um desafio ainda mais profundo ao status quo: Petro conseguiu p\u00f4r em xeque o controle tecnocr\u00e1tico das elites sobre pol\u00edticas que, durante d\u00e9cadas, serviram aos seus interesses. Ao faz\u00ea-lo, recolocou a quest\u00e3o de classe no centro do debate pol\u00edtico e abriu espa\u00e7o para novas formas de organiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Da substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es \u00e0 liberaliza\u00e7\u00e3o<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria singular do conflito armado colombiano, sem paralelo na regi\u00e3o, est\u00e1 intimamente ligada a outra caracter\u00edstica marcante da trajet\u00f3ria do pa\u00eds: o car\u00e1ter tecnocr\u00e1tico da formula\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica econ\u00f4mica, consolidado durante a chamada \u201cdemocracia pactuada\u201d da Frente Nacional. A Frente Nacional, coaliz\u00e3o que estabeleceu a altern\u00e2ncia entre liberais e conservadores no poder, surgiu depois de <em>la Violencia<\/em>, a brutal guerra civil que assolou o pa\u00eds entre 1948 e 1958 e deixou pelo menos 200 mil mortos. O pacto permitiu que as elites colombianas evitassem enfrentar os desafios estruturais do modelo econ\u00f4mico vigente, marcado por um setor agr\u00edcola de baixa produtividade e por uma inser\u00e7\u00e3o desfavor\u00e1vel na economia mundial, baseada na exporta\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias-primas e na importa\u00e7\u00e3o de produtos manufaturados. Essa posi\u00e7\u00e3o gerava desequil\u00edbrios recorrentes no balan\u00e7o comercial e limitava o desenvolvimento industrial do pa\u00eds. Os desafios do desenvolvimento econ\u00f4mico colombiano eram enormes. Expandir a economia, integrar as regi\u00f5es perif\u00e9ricas e enfrentar desigualdades regionais e \u00e9tnicas profundamente enraizadas n\u00e3o eram apenas formas de fortalecer o modelo capitalista de desenvolvimento\u2014um objetivo compartilhado por grande parte da Am\u00e9rica Latina durante a Guerra Fria diante do avan\u00e7o das esquerdas\u2014, mas tamb\u00e9m instrumentos expl\u00edcitos para conter a viol\u00eancia que devastava o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse per\u00edodo, a Col\u00f4mbia seguiu uma trajet\u00f3ria distinta da adotada por pa\u00edses como Brasil e Argentina, que apostaram em estrat\u00e9gias mais ambiciosas de industrializa\u00e7\u00e3o acelerada. Sua vers\u00e3o da industrializa\u00e7\u00e3o por substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es foi mais flex\u00edvel e menos intervencionista. O modelo continuou fortemente dependente das receitas de exporta\u00e7\u00f5es de caf\u00e9 para financiar o desenvolvimento e, embora tenha garantido crescimento econ\u00f4mico relativamente est\u00e1vel, n\u00e3o produziu transforma\u00e7\u00f5es estruturais significativas. Num contexto ainda marcado pelas feridas de la Violencia, quest\u00f5es distributivas fundamentais eram consideradas politicamente explosivas. A d\u00e9cada de conflito generalizado tinha ra\u00edzes n\u00e3o apenas em disputas partid\u00e1rias, mas tamb\u00e9m em embates em torno da propriedade da terra. Em meados dos anos 1960, esse modelo econ\u00f4mico come\u00e7ava a mostrar seus limites: o reduzido tamanho do mercado interno e a persistente depend\u00eancia externa restringiam suas possibilidades de expans\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1966, quando os pre\u00e7os internacionais do caf\u00e9\u2014respons\u00e1vel ent\u00e3o por cerca de 80% das receitas de exporta\u00e7\u00e3o do pa\u00eds\u2014despencaram, a Col\u00f4mbia mergulhou numa crise de balan\u00e7o de pagamentos. O presidente Carlos Lleras Restrepo recusou a exig\u00eancia do Fundo Monet\u00e1rio Internacional de promover uma forte desvaloriza\u00e7\u00e3o do peso como condi\u00e7\u00e3o para a concess\u00e3o de um empr\u00e9stimo de estabiliza\u00e7\u00e3o, por consider\u00e1-la politicamente invi\u00e1vel e uma afronta \u00e0 soberania nacional. No lugar, adotou um ajuste mais gradual e controlado, que instituiu um regime cambial de minidesvaloriza\u00e7\u00f5es sucessivas. O resultado n\u00e3o foi uma liberaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica propriamente dita, mas sim uma estrat\u00e9gia h\u00edbrida e pragm\u00e1tica, que reconhecia os limites da substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es como motor do desenvolvimento sem, contudo, abandonar a prote\u00e7\u00e3o aos setores industriais considerados estrat\u00e9gicos.<a data-contents=\"Carlos E. Ju\u00e1rez, \u201cTrade and Development Policies in Colombia: Export Promotion and Outward Orientation, 1967-1992,\u201d (<)em(>)Studies in Comparative International Development (<)\/em(>)(Primavera de 1993, Vol. 28, No. 3), 80.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-1\" href=\"#footnote-list-1\">1<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Carlos E. Ju\u00e1rez, \u201cTrade and Development Policies in Colombia: Export Promotion and Outward Orientation, 1967-1992,\u201d (<)em(>)Studies in Comparative International Development (<)\/em(>)(Primavera de 1993, Vol. 28, No. 3), 80.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse epis\u00f3dio \u00e9 revelador da economia pol\u00edtica que ent\u00e3o se consolidava na Col\u00f4mbia. Lleras conseguiu resistir \u00e0 exig\u00eancia politicamente mais custosa do FMI sem abrir m\u00e3o do acesso ao financiamento internacional, que considerava indispens\u00e1vel ao desenvolvimento do pa\u00eds. A posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica da Col\u00f4mbia durante a Guerra Fria foi decisiva para esse desfecho: preservar a estabilidade do governo da Frente Nacional era uma prioridade dos Estados Unidos. O equil\u00edbrio alcan\u00e7ado por Lleras refletia o consenso constru\u00eddo ap\u00f3s <em>la<\/em> <em>Violencia<\/em>, que privilegiava a modera\u00e7\u00e3o e a estabilidade em detrimento do enfrentamento das desigualdades estruturais nos planos dom\u00e9stico e internacional. Nesse contexto, a manuten\u00e7\u00e3o da estabilidade macroecon\u00f4mica tornou-se uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica fundamental. A tarefa de controlar a infla\u00e7\u00e3o, evitar novas crises de balan\u00e7o de pagamentos e transmitir confian\u00e7a aos credores internacionais foi delegada a uma elite que tratava a gest\u00e3o econ\u00f4mica como uma quest\u00e3o t\u00e9cnica, e n\u00e3o como mat\u00e9ria de debate e decis\u00e3o democr\u00e1tica. A estabilidade macroecon\u00f4mica coexistia, assim, com tens\u00f5es sociais crescentes, alimentadas pela concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria e pelos intensos fluxos migrat\u00f3rios para centros urbanos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No final da d\u00e9cada de 1970, quando a infla\u00e7\u00e3o se aproximava de 30%, fortes oscila\u00e7\u00f5es nos pre\u00e7os internacionais do caf\u00e9 produziram um boom tempor\u00e1rio das exporta\u00e7\u00f5es, inundando a economia colombiana de divisas. Mas, ao valorizar o peso, em vez de impulsionar o desenvolvimento industrial esse influxo de recursos alimentou a infla\u00e7\u00e3o e reduziu ainda mais a competitividade da ind\u00fastria nacional. A expans\u00e3o da economia ilegal nesse mesmo per\u00edodo\u2014primeiro com a maconha e, posteriormente, com a coca\u00edna\u2014agravou essas distor\u00e7\u00f5es, direcionando capitais il\u00edcitos para a compra de terras e para o mercado imobili\u00e1rio urbano, aprofundando din\u00e2micas especulativas.<a data-contents=\"Forrest Hylton, (<)em(>)Evil Hour in Colombia(<)\/em(>) (Londres: Verso, 2006)\" class=\"footnote\" id=\"footnote-2\" href=\"#footnote-list-2\">2<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Forrest Hylton, (<)em(>)Evil Hour in Colombia(<)\/em(>) (Londres: Verso, 2006)<\/span> A resposta do Estado foi criar o que ficou conhecido como <em>la ventanilla siniestra<\/em> (\u201ca janela sinistra\u201d), um mecanismo que permitia converter d\u00f3lares em pesos sem a necessidade de comprovar sua origem. A medida facilitou a absor\u00e7\u00e3o de recursos il\u00edcitos pela economia formal, ajudando a estabilizar a moeda e refor\u00e7ar as reservas internacionais. Isso contribuiu para que a Col\u00f4mbia escapasse da crise da d\u00edvida que atingiu grande parte da Am\u00e9rica Latina ap\u00f3s 1982. Al\u00e9m disso, mesmo em meio \u00e0 explos\u00e3o da viol\u00eancia associada ao narcotr\u00e1fico nos anos 1980, a Col\u00f4mbia conseguiu preservar sua imagem, particularmente entre investidores internacionais, de um pa\u00eds fiscalmente respons\u00e1vel e comprometido com a estabilidade macroecon\u00f4mica\u2014reputa\u00e7\u00e3o que se tornaria uma de suas marcas registradas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi nesse contexto que o neoliberalismo tomou forma na Col\u00f4mbia: n\u00e3o como uma imposi\u00e7\u00e3o repentina, mas como uma reorienta\u00e7\u00e3o gradual, ao longo de d\u00e9cadas, da estrat\u00e9gia de desenvolvimento do pa\u00eds. Esse processo foi moldado por uma gest\u00e3o tecnocr\u00e1tica da economia e sustentado por um consenso bipartid\u00e1rio entre as elites que perdurou mesmo ap\u00f3s o encerramento formal da Frente Nacional, em 1974. Embora a Col\u00f4mbia n\u00e3o tenha experimentado os epis\u00f3dios de hiperinfla\u00e7\u00e3o ou as graves crises da d\u00edvida que marcaram grande parte da Am\u00e9rica Latina, em meados da d\u00e9cada de 1980 o peso estava sobrevalorizado, as exporta\u00e7\u00f5es perdiam competitividade, o mercado interno dava sinais de esgotamento e as fontes de financiamento externo se retra\u00edam \u00e0 medida que investidores abandonavam os mercados emergentes em raz\u00e3o da crise da d\u00edvida regional. Ao final da d\u00e9cada, o governo de Virgilio Barco passou a implementar um programa mais expl\u00edcito de \u201cmoderniza\u00e7\u00e3o\u201d econ\u00f4mica, cujo objetivo era expor gradualmente a economia nacional \u00e0 concorr\u00eancia internacional por meio da redu\u00e7\u00e3o de barreiras protecionistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primeira rodada de liberaliza\u00e7\u00e3o na Col\u00f4mbia, portanto, n\u00e3o seguiu a trajet\u00f3ria cl\u00e1ssica dos programas de ajuste associados ao FMI e \u00e0s chamadas terapias de choque aplicadas \u00e0s economias em crise. Em vez disso, assumiu <a href=\"https:\/\/www.oecd.org\/content\/dam\/oecd\/en\/publications\/reports\/2001\/08\/the-economics-and-politics-of-transition-to-an-open-market-economy-colombia_g1gh13b1\/9789264194977-en.pdf\">contornos pr\u00f3prios<\/a> e se desenrolou sob a justificativa de que o pa\u00eds passava por uma adapta\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tica \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es da economia global.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Da liberaliza\u00e7\u00e3o \u00e0 crise dos anos 1990<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s d\u00e9cadas de liberaliza\u00e7\u00e3o gradual sob um modelo h\u00edbrido de substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es, a Col\u00f4mbia entrou em uma nova fase sob o governo de C\u00e9sar Gaviria, que acelerou as reformas de mercado por meio da <em>apertura econ\u00f3mica<\/em>. Essa inflex\u00e3o, mais uma vez, n\u00e3o surgiu como resposta a uma crise da d\u00edvida ou a epis\u00f3dios de hiperinfla\u00e7\u00e3o, mas sim a uma crise pol\u00edtica. No final da d\u00e9cada de 1980, a incapacidade de ampliar a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica por vias institucionais, as tens\u00f5es entre os governos regionais e o poder central e a dificuldade do Congresso em aprovar reformas significativas, somadas \u00e0 escalada da viol\u00eancia promovida tanto pelos cart\u00e9is quanto pelas guerrilhas, alimentaram uma percep\u00e7\u00e3o generalizada de deteriora\u00e7\u00e3o institucional e uma profunda crise de legitimidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Iniciou-se, ent\u00e3o, um per\u00edodo de reconfigura\u00e7\u00e3o pol\u00edtica marcado pela desmobiliza\u00e7\u00e3o de grupos guerrilheiros como o M-19 e pela convoca\u00e7\u00e3o de uma Assembleia Constituinte encarregada de elaborar a <a href=\"https:\/\/www.constituteproject.org\/constitution\/Colombia_2013?lang=en\">Constitui\u00e7\u00e3o de 1991<\/a>. O texto constitucional \u00e9 celebrado at\u00e9 hoje por ter ampliado direitos civis e culturais\u2014especialmente ao reconhecer os direitos territoriais coletivos de comunidades afro-colombianas e ind\u00edgenas, bem como o princ\u00edpio da consulta pr\u00e9via\u2014, al\u00e9m de fortalecer garantias sociais e ambientais. Ainda assim, para grande parte da esquerda colombiana\u2014incluindo Gustavo Petro, eleito para o Congresso ap\u00f3s deixar a pris\u00e3o como parte do processo de paz com o M-19\u2014, a Constitui\u00e7\u00e3o de 1991 <a href=\"https:\/\/x.com\/petrogustavo\/status\/1769738144667013613\">representa<\/a> um projeto democr\u00e1tico cujas promessas foram apenas parcialmente concretizadas. De fato, o amplo respaldo pol\u00edtico e social \u00e0 nova Constitui\u00e7\u00e3o conferiu legitimidade \u00e0s profundas transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas tamb\u00e9m introduzidas por ela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Constitui\u00e7\u00e3o de 1991 institucionalizou o neoliberalismo ao incorporar mecanismos de governan\u00e7a econ\u00f4mica orientados pelo mercado \u00e0 pr\u00f3pria arquitetura do Estado colombiano. O texto consagrou inequivocamente a propriedade privada e a concorr\u00eancia como princ\u00edpios organizadores da vida econ\u00f4mica. Entre outras medidas, imp\u00f4s <a href=\"https:\/\/www.elespectador.com\/judicial\/corte-constitucional-tumba-parte-del-pnd-sobre-compra-de-tierras-expres\/\">limites rigorosos<\/a> \u00e0 capacidade do Estado de desapropriar terras e determinou o pagamento de indeniza\u00e7\u00f5es em valores de mercado mesmo em casos de propriedades improdutivas. Quest\u00f5es econ\u00f4micas passaram a ser cada vez mais deslocadas para o \u00e2mbito jur\u00eddico, submetidas \u00e0 arbitragem da Corte Constitucional. Esse processo reduziu o espa\u00e7o de delibera\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e blindou decis\u00f5es centrais da pol\u00edtica econ\u00f4mica de press\u00f5es populares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma das mudan\u00e7as constitucionais mais relevantes foi a independ\u00eancia do banco central. O artigo 371 formalizou a autonomia do <em>Banco de la Rep\u00fablica<\/em> e definiu a estabilidade de pre\u00e7os como seu principal mandato. A medida alinhou a Col\u00f4mbia \u00e0 ortodoxia econ\u00f4mica predominante \u00e0 \u00e9poca, segundo a qual a infla\u00e7\u00e3o deveria ser tratada como um problema t\u00e9cnico administrado por especialistas, e n\u00e3o por representantes eleitos. A justificativa era refor\u00e7ar a credibilidade do pa\u00eds perante investidores internacionais e institui\u00e7\u00f5es financeiras.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A reestrutura\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica avan\u00e7ou em paralelo a essas transforma\u00e7\u00f5es institucionais. O mercado de trabalho foi flexibilizado por meio de reformas que ampliaram a contrata\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria e normalizaram v\u00ednculos empregat\u00edcios de curta dura\u00e7\u00e3o. O sistema previdenci\u00e1rio e o setor educacional passaram por novas rodadas de privatiza\u00e7\u00e3o, a seguridade social foi reestruturada e setores estrat\u00e9gicos, como sa\u00fade e <a href=\"https:\/\/journals.sagepub.com\/doi\/10.1177\/19427786251400320\">telecomunica\u00e7\u00f5es<\/a>, foram desregulamentados, desencadeando <a href=\"https:\/\/www.upi.com\/Archives\/1993\/04\/14\/Quarter-million-Colombians-strike-over-privatization-plan\/2604734760000\/\">amplos protestos sociais<\/a>. Em grande medida, as consequ\u00eancias dessas reformas na Col\u00f4mbia foram semelhantes \u00e0s observadas no restante da Am\u00e9rica Latina: a privatiza\u00e7\u00e3o da previd\u00eancia n\u00e3o conseguiu ampliar significativamente o acesso ao sistema nem frear o <a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/analysis\/the-paradox-of-reform\/\">cont\u00ednuo crescimento<\/a> dos gastos p\u00fablicos. O aumento da viol\u00eancia contra dirigentes e militantes sindicais <a href=\"https:\/\/www.amnesty.org\/es\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/amr230152007en.pdf\">reduziu<\/a> os n\u00edveis de sindicaliza\u00e7\u00e3o. Cortes or\u00e7ament\u00e1rios <a href=\"https:\/\/www.counterpunch.org\/2018\/11\/20\/remaking-the-common-good-the-crisis-of-public-higher-education-in-colombia\/\">obrigaram<\/a> muitas universidades p\u00fablicas a reduzir servi\u00e7os ou interromper atividades. A reforma da sa\u00fade ampliou a cobertura, mas tamb\u00e9m provocou restri\u00e7\u00f5es de financiamento e fortaleceu o papel de intermedi\u00e1rios privados, contribuindo para a <a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/full\/10.1080\/13501763.2025.2578283#d1e381\">deteriora\u00e7\u00e3o<\/a> das condi\u00e7\u00f5es de atendimento tanto para pacientes quanto para trabalhadores do setor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O eixo central da <em>apertura econ\u00f3mica<\/em> foi a liberaliza\u00e7\u00e3o comercial que desmantelou os remanescentes do modelo de substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es. As tarifas m\u00e9dias de importa\u00e7\u00e3o foram drasticamente reduzidas, de 38,3% para 11,7%, enquanto a exig\u00eancia de licen\u00e7as de importa\u00e7\u00e3o caiu de cerca de metade dos produtos para apenas 3%. Na esteira dessa abertura, as exporta\u00e7\u00f5es cresceram modestamente, enquanto as importa\u00e7\u00f5es dispararam, ampliando o d\u00e9ficit em conta corrente. Ao mesmo tempo, a desregulamenta\u00e7\u00e3o dos mercados de capitais e a elimina\u00e7\u00e3o dos controles cambiais em janeiro de 1991 provocaram uma r\u00e1pida entrada de capitais estrangeiros, que passaram de uma modesta sa\u00edda l\u00edquida em 1990 para ingressos de US$ 2,7 bilh\u00f5es em 1992. Esse influxo de recursos n\u00e3o se direcionou aos setores produtivos, mas, combinado com crit\u00e9rios de cr\u00e9dito mais flex\u00edveis, alimentou um boom de cr\u00e9dito e do mercado imobili\u00e1rio. O resultado foi a acelera\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o e uma forte eleva\u00e7\u00e3o da taxa de juros, que saltou de cerca de 4% para quase 20% entre 1992 e 1995.<a data-contents=\"Carlos Eduardo Hernandez e Edwin L\u00f3pez, \u201cColombia during the Financial Crisis of the Late 1990s,\u201d em (<)em(>)Encyclopedia of Financial Crises(<)\/em(>), ed. Sara Hsu, (Elgar, 2023)\" class=\"footnote\" id=\"footnote-3\" href=\"#footnote-list-3\">3<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Carlos Eduardo Hernandez e Edwin L\u00f3pez, \u201cColombia during the Financial Crisis of the Late 1990s,\u201d em (<)em(>)Encyclopedia of Financial Crises(<)\/em(>), ed. Sara Hsu, (Elgar, 2023)<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como resultado da <em>apertura<\/em>, a Col\u00f4mbia integrou-se mais profundamente aos circuitos financeiros globais e, consequentemente, \u00e0 sua volatilidade. Essa vulnerabilidade ficou evidente em 1999, quando o pa\u00eds enfrentou a mais grave crise econ\u00f4mica desde a d\u00e9cada de 1930. A liberaliza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m contribuiu para intensificar o conflito armado. Os deslocamentos sociais provocados pelas reformas e o crescimento do emprego informal favoreceram a expans\u00e3o de um proletariado precarizado que passou a fornecer recrutas tanto para as guerrilhas quanto para os grupos paramilitares, ambos financiados pela crescente economia do narcotr\u00e1fico.<a data-contents=\"Nazih Richani,\u201cThe Political Economy of Violence: The War-System in Colombia,\u201d (<)em(>)Journal of Interamerican Studies and World Affairs (<)\/em(>)39 (2): 37\u201381 (1997).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-4\" href=\"#footnote-list-4\">4<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Nazih Richani,\u201cThe Political Economy of Violence: The War-System in Colombia,\u201d (<)em(>)Journal of Interamerican Studies and World Affairs (<)\/em(>)39 (2): 37\u201381 (1997).<\/span> Foi nesse contexto que o presidente Andr\u00e9s Pastrana (1998\u20132002) iniciou negocia\u00e7\u00f5es de paz com as For\u00e7as Revolucion\u00e1rias da Col\u00f4mbia. As FARC <a href=\"https:\/\/www.academia.edu\/36809927\/_Buscando_La_Salida_Menos_Dolorosa_al_Conflicto_The_Internal_Dynamics_of_the_FARC_and_the_Future_of_Peace_in_Colombia?sm=a&amp;rhid=40078477370\">denunciavam<\/a> o neoliberalismo como uma trai\u00e7\u00e3o \u00e0 soberania colombiana e uma das causas do empobrecimento da popula\u00e7\u00e3o. Em seu lugar, defendiam a redistribui\u00e7\u00e3o de renda, a reforma agr\u00e1ria, a amplia\u00e7\u00e3o dos gastos sociais, o controle estatal sobre setores estrat\u00e9gicos da economia e o fim do pagamento da d\u00edvida externa. O di\u00e1logo com essa vis\u00e3o alternativa de desenvolvimento, contudo, teve vida curta.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 medida que Pastrana buscava apoio externo para fortalecer a capacidade estatal e ampliar os investimentos sociais, o desenvolvimento colombiano tornou-se cada vez mais subordinado \u00e0s prioridades de seguran\u00e7a dos Estados Unidos. O que come\u00e7ou como uma proposta voltada para enfrentar as causas sociais do conflito armado e da produ\u00e7\u00e3o de coca\u2014originalmente apresentada por Pastrana como um \u201cPlano Marshall\u201d para a Col\u00f4mbia\u2014acabou se transformando no Plano Col\u00f4mbia, um amplo pacote de assist\u00eancia militar e uma estrat\u00e9gia de seguran\u00e7a centrada no combate \u00e0s guerrilhas e ao narcotr\u00e1fico. A ajuda estadunidense, que somaria cerca de US$ 10 bilh\u00f5es, estava condicionada \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o de reformas de mercado e \u00e0 privatiza\u00e7\u00e3o de setores econ\u00f4micos, refor\u00e7ando a associa\u00e7\u00e3o entre liberaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e pol\u00edtica de seguran\u00e7a. \u00c0 medida que o combate aos narcotraficantes e \u00e0s guerrilhas colombianas foi incorporado \u00e0 Guerra ao Terror, a ideia de que a inseguran\u00e7a tinha ra\u00edzes sociais desapareceu gradualmente do centro do debate pol\u00edtico. Em seu lugar consolidou-se uma linguagem baseada na ordem p\u00fablica e na atra\u00e7\u00e3o de investimentos, que alcan\u00e7aria seu auge durante o governo de \u00c1lvaro Uribe.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Neoliberalismo na guerra, neoliberalismo na paz<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u201ceconomia da morte\u201d colombiana, como Petro a descreve, <a href=\"https:\/\/x.com\/petrogustavo\/status\/1936253341962572217?s=20\">sustentada<\/a> pelo \u201cpetr\u00f3leo, pelo carv\u00e3o e pela coca\u00edna\u201d, consolidou-se durante o governo de \u00c1lvaro Uribe. A trajet\u00f3ria da Col\u00f4mbia nesse per\u00edodo contrastou fortemente com a de grande parte da Am\u00e9rica Latina. Enquanto os governos progressistas da Onda Rosa\u2014na Bol\u00edvia, no Equador, na Venezuela, no Brasil, na Argentina e em outros pa\u00edses\u2014aproveitaram o <a href=\"https:\/\/therealnews.com\/venezuela-the-epicenter-of-the-pink-tide-and-now-of-the-right-wing-rollback\">boom de commodities<\/a> para ampliar os gastos sociais, Uribe combinou um programa de estabilidade macroecon\u00f4mica com militariza\u00e7\u00e3o e reformas de mercado. O resultado foi crescimento sem redistribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A elei\u00e7\u00e3o de Uribe em 2002, que rompeu o tradicional duop\u00f3lio entre liberais e conservadores, aprofundou a associa\u00e7\u00e3o entre seguran\u00e7a p\u00fablica e liberaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica por meio de seu projeto pol\u00edtico populista, o <a href=\"http:\/\/google.com\/url?q=https:\/\/www.phenomenalworld.org\/analysis\/colombias-new-right\/&amp;sa=D&amp;source=docs&amp;ust=1778795643404866&amp;usg=AOvVaw2Pa0E0DM9MoJFWqWEc_K7Y\">uribismo<\/a>. Traficantes de drogas e paramilitares \u201cindependentes\u201d, frequentemente ligados a setores do Estado, expulsaram camponeses de suas terras, que posteriormente foram incorporadas \u00e0 expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio. Esse processo foi facilitado por uma s\u00e9rie de leis favor\u00e1veis aos grandes propriet\u00e1rios rurais que violavam direitos constitucionais de comunidades locais.<a data-contents=\"Cristina Rojas, \u201cColombia\u2019s Neoliberal Regime of Governance: Securitization by Dispossession\u201d, em Laura MacDonald e Arne Ruckert, eds., (<)em(>)Post-Neoliberalism in the Americas.(<)\/em(>)\" class=\"footnote\" id=\"footnote-5\" href=\"#footnote-list-5\">5<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Cristina Rojas, \u201cColombia\u2019s Neoliberal Regime of Governance: Securitization by Dispossession\u201d, em Laura MacDonald e Arne Ruckert, eds., (<)em(>)Post-Neoliberalism in the Americas.(<)\/em(>)<\/span> Os paramilitares tamb\u00e9m desempenharam um papel central na expans\u00e3o da extra\u00e7\u00e3o de recursos como petr\u00f3leo, carv\u00e3o e bananas por multinacionais estrangeiras. Ao proteger infraestruturas estrat\u00e9gicas de ataques guerrilheiros e assassinar lideran\u00e7as comunit\u00e1rias que resistiam aos deslocamentos for\u00e7ados e \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o ambiental, contribu\u00edram para consolidar esse modelo de desenvolvimento. O movimento sindical, j\u00e1 fragilizado por d\u00e9cadas de viol\u00eancia, foi ainda mais enfraquecido. A taxa de sindicaliza\u00e7\u00e3o despencou, enquanto milhares de sindicalistas foram assassinados entre os anos 1990 e meados dos anos 2000\u2014muitas vezes, tamb\u00e9m nesse caso, por grupos paramilitares a servi\u00e7o de grandes empresas multinacionais. Paralelamente, reformas aprovadas durante o governo Uribe ampliaram a flexibiliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho.<a data-contents=\"Ver Jasmin Hristov, (<)em(>)Paramilitarism and Neoliberalism(<)\/em(>) (Londres: Pluto Press, 2017)\" class=\"footnote\" id=\"footnote-6\" href=\"#footnote-list-6\">6<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Ver Jasmin Hristov, (<)em(>)Paramilitarism and Neoliberalism(<)\/em(>) (Londres: Pluto Press, 2017)<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar da viol\u00eancia que o acompanhou, o modelo de crescimento militarizado e orientado \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es garantiu a <a href=\"https:\/\/www.latimes.com\/archives\/la-xpm-2006-may-29-fg-colombia29-story.html\">reelei\u00e7\u00e3o<\/a> de Uribe e impulsionou um per\u00edodo de forte expans\u00e3o econ\u00f4mica. Entre 2003 e 2013, o PIB per capita colombiano quadruplicou, enquanto investimentos estrangeiros aflu\u00edam para os setores de minera\u00e7\u00e3o, energia e agroneg\u00f3cio, beneficiados pelas garantias de \u201cseguran\u00e7a\u201d e pela redu\u00e7\u00e3o dos royalties proporcionadas pelo uribismo. Ao mesmo tempo, a privatiza\u00e7\u00e3o avan\u00e7ou nos setores banc\u00e1rio, de telecomunica\u00e7\u00f5es, energia, sa\u00fade e previd\u00eancia, provocando uma redu\u00e7\u00e3o do emprego no setor p\u00fablico. Os acordos de livre com\u00e9rcio firmados com os Estados Unidos e o Canad\u00e1 em 2006 e 2008 fortaleceram mecanismos de prote\u00e7\u00e3o ao investimento e de arbitragem internacional, ao mesmo tempo em que refor\u00e7aram a posi\u00e7\u00e3o tradicional da Col\u00f4mbia na divis\u00e3o internacional do trabalho como exportadora de mat\u00e9rias-primas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As elites dom\u00e9sticas e muitos observadores internacionais viam a Col\u00f4mbia da era Uribe como um caso de sucesso. Esse crescimento econ\u00f4mico, por\u00e9m, teve um custo elevado para amplos setores da popula\u00e7\u00e3o, incluindo afro-colombianos, povos ind\u00edgenas, camponeses e sindicalistas, frequentemente tratados como amea\u00e7as \u00e0 ordem estabelecida e exclu\u00eddos da vida pol\u00edtica. Em vez de enfrentar as ra\u00edzes estruturais do conflito, o modelo de desenvolvimento de Uribe contribuiu para aprofund\u00e1-las, reduzindo o espa\u00e7o para projetos alternativos de organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O projeto neoliberal avan\u00e7ou para uma nova etapa sob o governo de Juan Manuel Santos, que assumiu a presid\u00eancia em 2010. Rompendo com Uribe, Santos retomou as negocia\u00e7\u00f5es com as FARC, processo que culminaria nos Acordos de Paz assinados em Havana em 2016. Mas, por mais hist\u00f3rica que tenha sido essa conquista, os acordos n\u00e3o podem ser dissociados dos objetivos econ\u00f4micos aos quais tamb\u00e9m serviram. As negocia\u00e7\u00f5es ocorreram num momento em que os limites do modelo extrativista se tornavam evidentes diante da forte queda dos pre\u00e7os internacionais do petr\u00f3leo. O governo Santos apresentou a paz como uma forma de restaurar a confian\u00e7a dos investidores e integrar os territ\u00f3rios afetados pelo conflito \u00e0 economia global. Como o pr\u00f3prio Santos argumentava, a paz permitiria que a Col\u00f4mbia se tornasse um pa\u00eds \u201cnormal\u201d para o desenvolvimento capitalista. Nesse sentido, os Acordos de Paz estenderam ao campo p\u00f3s-conflito a ordem neoliberal consolidada durante o uribismo: preservaram as estruturas institucionais e distributivas que haviam sustentado d\u00e9cadas de viol\u00eancia enquanto abriram novos espa\u00e7os para a extra\u00e7\u00e3o de recursos e a acumula\u00e7\u00e3o de capital.<a data-contents=\"Hylton, Forrest e Aaron Tauss. 2016. \u201cPeace in Colombia: A New Growth Strategy: Colombia\u2019s Peace Deal Is a Remarkable Achievement, but Its Economic Implications Are Troubling.\u201d (<)em(>)NACLA Report on the Americas(<)\/em(>) 48 (3)\" class=\"footnote\" id=\"footnote-7\" href=\"#footnote-list-7\">7<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Hylton, Forrest e Aaron Tauss. 2016. \u201cPeace in Colombia: A New Growth Strategy: Colombia\u2019s Peace Deal Is a Remarkable Achievement, but Its Economic Implications Are Troubling.\u201d (<)em(>)NACLA Report on the Americas(<)\/em(>) 48 (3)<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As tens\u00f5es entre seguran\u00e7a, neoliberalismo e reforma social atingiram um ponto de ruptura durante o governo de Iv\u00e1n Duque (2018\u20132022). Em 2019, sua administra\u00e7\u00e3o apresentou um pacote de reformas trabalhistas, tribut\u00e1rias e previdenci\u00e1rias\u2014conhecido como <em>paquetazo<\/em>\u2014que buscava reduzir o sal\u00e1rio m\u00ednimo, privatizar parte da previd\u00eancia p\u00fablica e diminuir os impostos pagos por multinacionais, ao mesmo tempo em que ampliava a carga tribut\u00e1ria sobre trabalhadores e setores m\u00e9dios da popula\u00e7\u00e3o. A oposi\u00e7\u00e3o a essa agenda convergiu, em novembro de 2019, em uma greve nacional que mobilizou cerca de 1,5 milh\u00e3o de pessoas. O movimento reuniu organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e camponesas\u2014historicamente os grupos mais afetados pela repress\u00e3o estatal e pelas reformas neoliberais\u2014com estudantes e movimentos sindicais em torno de uma contesta\u00e7\u00e3o mais ampla ao modelo econ\u00f4mico vigente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O <em>estallido social<\/em> contribuiu para repolitizar o modelo neoliberal, recolocando as quest\u00f5es econ\u00f4micas no centro do debate p\u00fablico. Para al\u00e9m da crise desencadeada pela pandemia, as <a href=\"https:\/\/jacobin.com\/2021\/06\/colombia-ivan-duque-government-neoliberalism-protest-general-strike\">reivindica\u00e7\u00f5es<\/a> dos manifestantes eram indissoci\u00e1veis das d\u00e9cadas de liberaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, acordos de livre com\u00e9rcio e desenvolvimento extrativista. A elei\u00e7\u00e3o de Gustavo Petro em 2022 pode ser compreendida como a express\u00e3o institucional de um ciclo mais longo de mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e contesta\u00e7\u00e3o social. Sua chegada ao poder, por\u00e9m, trouxe consigo uma quest\u00e3o que definiria os rumos do novo governo: seria poss\u00edvel que uma administra\u00e7\u00e3o surgida de um contexto de mobiliza\u00e7\u00e3o popular em massa efetivamente desafiasse uma ordem econ\u00f4mica que havia sobrevivido \u00e0 crise, \u00e0 guerra e \u00e0 paz, e que estava profundamente inscrita na pr\u00f3pria arquitetura institucional colombiana?<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Construindo a Economia da Vida<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Petro delineou sua ambiciosa agenda de transforma\u00e7\u00e3o no <a href=\"https:\/\/www.dnp.gov.co\/plan-nacional-desarrollo\/pnd-2022-2026\">Plano Nacional de Desenvolvimento<\/a>, documento segundo o qual cada governo local define suas prioridades e estabelece os mecanismos para financi\u00e1-las. O plano rejeitava o modelo econ\u00f4mico predominante na Col\u00f4mbia em favor de uma vis\u00e3o do pa\u00eds como uma \u201cPot\u00eancia Mundial da Vida\u201d. Elaborado a partir de um processo sem precedentes de participa\u00e7\u00e3o cidad\u00e3, o projeto buscava reorientar a economia para longe das exporta\u00e7\u00f5es extrativistas e il\u00edcitas\u2014vistas como motores do conflito armado, da degrada\u00e7\u00e3o ambiental e do poder das multinacionais\u2014e em dire\u00e7\u00e3o a um modelo centrado na agricultura familiar, no turismo, na amplia\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o e na eleva\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios e das aposentadorias. No centro dessa agenda estavam propostas de reestrutura\u00e7\u00e3o dos sistemas de sa\u00fade e previd\u00eancia e reformas nas \u00e1reas trabalhista e agr\u00e1ria, que seriam financiadas por uma ampla reformula\u00e7\u00e3o do sistema tribut\u00e1rio. O governo argumentava que o aumento do investimento p\u00fablico reduziria a depend\u00eancia da economia il\u00edcita, fortaleceria a demanda dom\u00e9stica, promoveria um crescimento mais equilibrado e contribuiria para enfrentar as causas estruturais do conflito armado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos primeiros meses de mandato, Petro contou com o apoio de amplas coaliz\u00f5es no Congresso e no pr\u00f3prio gabinete para avan\u00e7ar sua agenda. A nomea\u00e7\u00e3o de tecnocratas moderados sinalizava uma tentativa de conduzir as reformas por meio das institui\u00e7\u00f5es existentes, privilegiando a negocia\u00e7\u00e3o em vez da ruptura e transmitindo aos investidores a mensagem de que a tradicional prud\u00eancia fiscal colombiana seria preservada. Amparado por uma fr\u00e1gil maioria parlamentar, o governo aprovou duas medidas centrais em seu primeiro ano. A primeira foi uma lei que autorizava negocia\u00e7\u00f5es com grupos armados, abrindo caminho para a estrat\u00e9gia de \u201cPaz Total\u201d de Petro. A segunda foi a <a href=\"https:\/\/www.as-coa.org\/articles\/understanding-petro-governments-tax-reform\">reforma tribut\u00e1ria<\/a> de novembro de 2022, concebida para arrecadar cerca de US$ 5 bilh\u00f5es destinados ao financiamento da ambiciosa agenda social da administra\u00e7\u00e3o por meio de um imposto sobre grandes fortunas e da tributa\u00e7\u00e3o dos lucros das empresas de petr\u00f3leo e g\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda circunscrito ao arcabou\u00e7o institucional que inicialmente buscou preservar, Petro apresentou ao Congresso, em mar\u00e7o de 2023, projetos de reforma trabalhista, previdenci\u00e1ria e da sa\u00fade. As propostas tinham como objetivo reverter d\u00e9cadas de privatiza\u00e7\u00e3o e de eros\u00e3o dos direitos trabalhistas iniciadas nos anos 1990, durante o governo Gaviria\u2014paradoxalmente, no mesmo per\u00edodo em que muitos desses direitos eram formalmente consagrados pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1991. Entre as tr\u00eas iniciativas, a reforma da sa\u00fade consolidou-se como a principal batalha pol\u00edtica do governo. Em abril de 2023, a disputa em torno do projeto desfez a coaliz\u00e3o que sustentava Petro no Congresso e levou a uma ampla reforma ministerial, marcando o fim de sua estrat\u00e9gia inicial de promover mudan\u00e7as por meio da negocia\u00e7\u00e3o e do consenso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m dos obst\u00e1culos pol\u00edticos, o governo tamb\u00e9m enfrentava severas restri\u00e7\u00f5es fiscais. Quando Petro assumiu a presid\u00eancia, a economia colombiana j\u00e1 havia se recuperado da contra\u00e7\u00e3o provocada pela pandemia, mas a infla\u00e7\u00e3o permanecia elevada, atingindo 13,1%, enquanto o d\u00e9ficit fiscal representava 5,3% do PIB. Embora inferior ao pico registrado em 2020\u2014em grande medida gra\u00e7as \u00e0 alta dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo\u2014, esse cen\u00e1rio dificultava os esfor\u00e7os para ampliar os gastos p\u00fablicos, especialmente porque o governo projetava uma redu\u00e7\u00e3o gradual das receitas provenientes da extra\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis f\u00f3sseis como parte de sua estrat\u00e9gia de transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica. Sua margem de manobra era ainda mais limitada pelo fato de que cerca de 85% do or\u00e7amento nacional estava <a href=\"https:\/\/www.scotiabank.com\/content\/dam\/scotiabank\/sub-brands\/scotiabank-economics\/english\/documents\/latam-insights\/lataminsights20250616.pdf\">comprometido<\/a> com despesas obrigat\u00f3rias com previd\u00eancia social, servi\u00e7o da d\u00edvida e programas definidos por obriga\u00e7\u00e3o legal. A situa\u00e7\u00e3o se agravou ainda no primeiro semestre de 2023, quando a Corte Constitucional anulou uma disposi\u00e7\u00e3o importante da reforma tribut\u00e1ria aprovada pelo governo, tornando ainda <a href=\"https:\/\/bti-project.org\/en\/reports\/country-report\/COL\">mais dif\u00edcil<\/a> fechar a lacuna de arrecada\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses reveses levaram Petro a adotar uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica mais confrontacional. O presidente passou a se dirigir cada vez mais diretamente \u00e0 sua base de apoio, <a href=\"https:\/\/www.elcolombiano.com\/colombia\/en-tiempos-de-crisis-petro-vuelve-al-balcon-en-busqueda-de-apoyos-LF21241947\">discursando<\/a> para multid\u00f5es da varanda da Casa de Nari\u00f1o e defendendo a realiza\u00e7\u00e3o de referendos sobre reformas que permaneciam bloqueadas no Congresso. Seus cr\u00edticos o acusaram de enveredar pelo populismo\u2014historicamente estigmatizado na pol\u00edtica colombiana\u2014e de tentar contornar os canais institucionais ao buscar meios de pressionar ou superar a resist\u00eancia parlamentar. A sa\u00edda dos setores mais moderados do gabinete, em especial do ministro da Fazenda Jos\u00e9 Antonio Ocampo, alimentou preocupa\u00e7\u00f5es de que a disciplina fiscal (e, com ela, a credibilidade internacional da Col\u00f4mbia e a estabilidade do peso) tamb\u00e9m pudesse ser abandonada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda assim, mesmo ap\u00f3s o colapso da coaliz\u00e3o governista, a administra\u00e7\u00e3o conseguiu aprovar uma vers\u00e3o negociada da reforma previdenci\u00e1ria. A medida ampliou a cobertura para cerca de <a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/analysis\/the-paradox-of-reform\/#footnote-38\">2,5 milh\u00f5es de idosos<\/a> colombianos que anteriormente n\u00e3o recebiam qualquer benef\u00edcio. O projeto fortaleceu as contribui\u00e7\u00f5es ao Colpensiones, o sistema p\u00fablico de previd\u00eancia; <a href=\"https:\/\/www.larepublica.co\/economia\/todo-lo-que-debe-saber-sobre-la-reforma-pensional-4168610\">permitiu<\/a> que mulheres com filhos se aposentassem mais cedo; e criou novos benef\u00edcios para pais e m\u00e3es de crian\u00e7as com defici\u00eancia. Apesar desses avan\u00e7os, as concess\u00f5es exigidas pelas negocia\u00e7\u00f5es pol\u00edticas impediram mudan\u00e7as mais profundas. A idade m\u00ednima de aposentadoria, por exemplo, permaneceu inalterada. Al\u00e9m disso, as garantias constitucionais que protegem os direitos dos fundos privados de pens\u00e3o tornavam invi\u00e1vel <a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/analysis\/the-paradox-of-reform\/\">qualquer tentativa de nacionaliza\u00e7\u00e3o<\/a>, limitando significativamente o alcance da reforma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi, por\u00e9m, a aprova\u00e7\u00e3o da reforma trabalhista que melhor ilustrou a mudan\u00e7a de estrat\u00e9gia do governo ap\u00f3s a perda de sua coaliz\u00e3o parlamentar. Apresentado originalmente em 2022, mas rejeitado duas vezes pelo Congresso, o projeto foi retomado gra\u00e7as \u00e0 press\u00e3o social cont\u00ednua,\u00a0 estimulada pelo pr\u00f3prio governo, e acabou <a href=\"https:\/\/apnews.com\/article\/colombia-labor-law-petro-leftwing-reform-economy-investment-workers-unions-15f07e39efcf11f459e6aaf60f4a01b8\">aprovado<\/a> em junho de 2025. A legisla\u00e7\u00e3o tornou o c\u00f3digo trabalhista colombiano mais protetivo, <a href=\"https:\/\/www.lasillavacia.com\/silla-nacional\/claves-de-la-reforma-laboral-que-pasa-a-ultimo-debate-en-el-senado\/?eType=EmailBlastContent&amp;eId=4959b02c-7412-4be8-b3ba-22afd3ac7a38\">estabelecendo<\/a> a jornada de oito horas, ampliando a remunera\u00e7\u00e3o para trabalho aos domingos e feriados, proibindo a renova\u00e7\u00e3o indefinida de contratos tempor\u00e1rios, reconhecendo direitos e benef\u00edcios para trabalhadores de aplicativos de entrega e criando mecanismos pioneiros de apoio a <a href=\"https:\/\/www.icbf.gov.co\/noticias\/gobierno-nacional-avanza-en-la-formalizacion-laboral-de-madres-comunitarias-sustitutas-y\">cuidadores comunit\u00e1rios<\/a>. Embora Petro tenha sido obrigado a fazer concess\u00f5es ao longo das negocia\u00e7\u00f5es, a reforma trouxe maior estabilidade para uma for\u00e7a de trabalho marcada por n\u00edveis extremamente elevados de <a href=\"https:\/\/oecdcogito.blog\/2025\/05\/14\/can-colombia-turn-the-corner-on-informal-work\/#:~:text=In%20Colombia%2C%20most%20workers%20don,or%20contribute%20to%20social%20security.?eType=EmailBlastContent&amp;eId=4959b02c-7412-4be8-b3ba-22afd3ac7a38\">informalidade<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A reforma agr\u00e1ria\u2014uma das promessas centrais da campanha de Petro\u2014encontrou obst\u00e1culos ainda mais profundos. As fortes garantias constitucionais \u00e0 propriedade privada limitaram significativamente a capacidade do governo de redistribuir terras ao campesinato, medida considerada essencial para enfrentar a persistente instabilidade nas \u00e1reas rurais. Como resultado, a administra\u00e7\u00e3o passou a depender principalmente da <a href=\"https:\/\/www.elespectador.com\/colombia-20\/paz-y-memoria\/reforma-agraria-de-petro-lo-que-viene-en-2023-para-acuerdo-con-fedegan-y-tierras-de-la-sae\/?outputType=amp\">compra de terras<\/a> de grandes propriet\u00e1rios, estrat\u00e9gia que, segundo seus <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2025\/09\/03\/under-petro-colombia-advances-agrarian-reform-but-faces-violence-and-structural-resistance\/\">cr\u00edticos<\/a>, arriscava legitimar padr\u00f5es hist\u00f3ricos de expropria\u00e7\u00e3o violenta associados ao conflito armado colombiano.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o fundi\u00e1ria est\u00e1 t\u00e3o profundamente ligada ao conflito que a \u201cReforma Rural Integral\u201d (RRI) constituiu o <a href=\"https:\/\/portalparalapaz.gov.co\/explicacion-puntos-del-acuerdo\/\">primeiro ponto<\/a> dos Acordos de Paz firmados com as FARC em 2016, compromisso que Petro prometeu implementar ap\u00f3s <a href=\"https:\/\/razonpublica.com\/la-gestion-tierras-la-reforma-rural-integral-2017-2022\/\">anos<\/a> de ina\u00e7\u00e3o estatal. Sua interpreta\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre a situa\u00e7\u00e3o do campo, o modelo econ\u00f4mico colombiano e o conflito armado converge amplamente com os princ\u00edpios da RRI, que <a href=\"https:\/\/portalparalapaz.gov.co\/rri\/\">defendia<\/a> a transforma\u00e7\u00e3o estrutural do meio rural, a redu\u00e7\u00e3o da pobreza, o fortalecimento da economia camponesa por meio do investimento p\u00fablico, abordagens alternativas para os cultivos il\u00edcitos e a formaliza\u00e7\u00e3o da posse da terra. O governo alcan\u00e7ou avan\u00e7os relevantes nessa agenda. Entre eles, destacam-se a amplia\u00e7\u00e3o da <a href=\"https:\/\/colombiasupport.net\/2023\/07\/guaranteeing-the-rights-of-the-campesinos-and-the-farmers-thats-total-peace-jhenifer-mojica-minister-of-agriculture\/\">prote\u00e7\u00e3o jur\u00eddica<\/a> aos camponeses, a cria\u00e7\u00e3o de uma <a href=\"https:\/\/upra.gov.co\/es-co\/sala-de-prensa\/noticias\/colombia-supera-197.000-hectareas-declaradas-appa\">justi\u00e7a agr\u00e1ria especializada<\/a>, a prioriza\u00e7\u00e3o da <a href=\"https:\/\/upra.gov.co\/es-co\/sala-de-prensa\/noticias\/colombia-supera-197.000-hectareas-declaradas-appa\">produ\u00e7\u00e3o<\/a> de alimentos e do <a href=\"https:\/\/jacobin.com\/2024\/01\/gustavo-petro-green-transition-mining-fossil-fuels-amazon\">uso<\/a> sustent\u00e1vel da terra, al\u00e9m da <a href=\"https:\/\/razonpublica.com\/la-gestion-tierras-gobierno-del-cambio\/\">distribui\u00e7\u00e3o<\/a> de mais de um milh\u00e3o de hectares a v\u00edtimas do conflito armado. Ainda assim, os resultados ficaram muito <a href=\"https:\/\/razonpublica.com\/la-gestion-tierras-gobierno-del-cambio\/\">aqu\u00e9m<\/a> das metas estabelecidas tanto pela Reforma Rural Integral quanto pelo pr\u00f3prio Plano Nacional de Desenvolvimento. A experi\u00eancia evidenciou, mais uma vez, as dificuldades de promover transforma\u00e7\u00f5es profundas no campo colombiano por meio dos canais institucionais existentes.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Mudando as regras do jogo<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para al\u00e9m da agenda de reformas dom\u00e9sticas, Petro tornou-se uma voz cada vez mais influente no cen\u00e1rio internacional, articulando o modelo de desenvolvimento colombiano a uma cr\u00edtica mais ampla da ordem global. Desde seu <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=1T46oAkrydg\">discurso<\/a> na Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas em 2022, quando alertou que o carv\u00e3o e o petr\u00f3leo poderiam \u201cextinguir toda a humanidade\u201d, at\u00e9 a <a href=\"https:\/\/news.mongabay.com\/short-article\/2025\/11\/colombia-bans-all-new-oil-and-mining-projects-in-its-amazon\/\">proibi\u00e7\u00e3o<\/a> de novos projetos extrativistas na Amaz\u00f4nia, Petro tem apresentado a crise clim\u00e1tica como insepar\u00e1vel das quest\u00f5es de desenvolvimento, soberania e desigualdade global. Ele tamb\u00e9m esteve entre os <a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/full\/10.1080\/0377919X.2025.2457884#abstract\">primeiros<\/a> l\u00edderes mundiais a denunciar o genoc\u00eddio em Gaza, condenando o que classificou como terrorismo israelense, suspendendo compras de armamentos e rompendo rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com Israel. Para Petro, tanto Gaza quanto a crise clim\u00e1tica s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es de uma mesma ordem internacional disfuncional, respons\u00e1vel por manter pa\u00edses como a Col\u00f4mbia presos a uma posi\u00e7\u00e3o subordinada na economia global e dependentes do extrativismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Petro passou a confrontar n\u00e3o apenas as institui\u00e7\u00f5es financeiras dom\u00e9sticas, mas tamb\u00e9m as pr\u00f3prias regras que estruturam a economia internacional. As tentativas de limitar sua decis\u00e3o de proibir, em junho de 2024, as <a href=\"https:\/\/nacla.org\/colombia-challenges-israeli-impunity-from-above-and-below\/?eType=EmailBlastContent&amp;eId=b6d55c9a-feaa-47cf-8704-e75f9778d965\">exporta\u00e7\u00f5es de carv\u00e3o para Israel<\/a> evidenciaram como a soberania colombiana \u00e9 restringida pela intera\u00e7\u00e3o entre os acordos de livre com\u00e9rcio, o poder das corpora\u00e7\u00f5es multinacionais e os tribunais internacionais de arbitragem. Desde ent\u00e3o, o presidente tem <a href=\"https:\/\/www.presidencia.gov.co\/prensa\/Paginas\/Palabras-del-presidente-Gustavo-Petro-Urrego-en-la-Primera-Cumbre-de-Financiamiento-para-las-Transiciones-250724.aspx\">defendido<\/a> que as preocupa\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias e ambientais devem prevalecer sobre as obriga\u00e7\u00f5es impostas por tratados comerciais. Com base nesse argumento, promoveu o cancelamento do acordo de livre com\u00e9rcio entre Col\u00f4mbia e Israel e buscou renegociar o tratado comercial com os Estados Unidos para incluir tarifas sobre ve\u00edculos com altas emiss\u00f5es de carbono. No final de mar\u00e7o, Petro anunciou que a Col\u00f4mbia deixaria o sistema de Solu\u00e7\u00e3o de Controv\u00e9rsias entre Investidores e Estados (ISDS, na sigla em ingl\u00eas), mecanismo que permite que empresas estrangeiras processem governos em tribunais internacionais por pol\u00edticas p\u00fablicas que afetem seus lucros. A medida foi apresentada como uma forma de defender simultaneamente a soberania colombiana e a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica global.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Longe de se limitar ao plano ret\u00f3rico, essas iniciativas demonstraram a disposi\u00e7\u00e3o de Petro de romper com os Estados Unidos que, historicamente, foram o mais importante aliado militar, econ\u00f4mico e pol\u00edtico da Col\u00f4mbia. Seu confronto direto com as regras que organizam a ordem internacional, envolvendo direitos humanos, livre com\u00e9rcio e as tens\u00f5es entre ambos, representou uma ruptura marcante em um pa\u00eds cujos governantes tradicionalmente privilegiaram a manuten\u00e7\u00e3o do acesso a essas estruturas, em vez de buscar sua transforma\u00e7\u00e3o em bases mais equitativas. Nesse sentido, Petro afastou-se de um padr\u00e3o que remonta ao menos ao breve embate de Carlos Lleras Restrepo com o FMI, em 1966, quando os limites da contesta\u00e7\u00e3o colombiana \u00e0 ordem econ\u00f4mica internacional logo se tornaram evidentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A centralidade da transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica no novo modelo econ\u00f4mico proposto por Petro torna essa experi\u00eancia ainda mais decisiva. Sua passagem pelo governo sugere, de fato, que abandonar a depend\u00eancia dos combust\u00edveis f\u00f3sseis dentro da ordem econ\u00f4mica internacional vigente pode ser uma tarefa extraordinariamente dif\u00edcil. Ao tentar responder se um pa\u00eds de renda m\u00e9dia e dependente da exporta\u00e7\u00e3o de commodities pode combinar transi\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica e redistribui\u00e7\u00e3o de renda sem romper com a ordem existente, Petro constatou que, embora o sucesso esteja longe de ser garantido, ele dificilmente ser\u00e1 alcan\u00e7ado sem desafiar estruturas mais amplas de poder no plano dom\u00e9stico e internacional. Trata-se de uma experi\u00eancia sem precedentes em uma regi\u00e3o onde governos progressistas historicamente financiaram seus programas mais ambiciosos de redistribui\u00e7\u00e3o justamente por meio da expans\u00e3o de atividades extrativistas. Nesse sentido, a aposta de Petro n\u00e3o consiste apenas em transformar a economia colombiana, mas tamb\u00e9m em testar os limites pol\u00edticos e econ\u00f4micos de uma estrat\u00e9gia de desenvolvimento p\u00f3s-extrativista em um pa\u00eds perif\u00e9rico.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Petronomics<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O embate de Petro com os princ\u00edpios tradicionais que regem a ordem internacional constitui apenas uma dimens\u00e3o desse conflito mais amplo. Na tentativa de reorientar efetivamente o modelo de desenvolvimento colombiano, seu governo tamb\u00e9m passou a desafiar as ortodoxias macroecon\u00f4micas que estruturam o debate econ\u00f4mico no pa\u00eds h\u00e1 d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um exemplo emblem\u00e1tico foi a valoriza\u00e7\u00e3o de 23% do sal\u00e1rio m\u00ednimo decretada pelo presidente no final de 2025. Depois que a Corte Constitucional <a href=\"https:\/\/colombiaone.com\/2026\/02\/13\/colombia-council-state-temporarily-suspends-minimum-wage-increase\/\">suspendeu<\/a> a medida sob o argumento de que ela carecia de fundamenta\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica suficiente, Petro respondeu <a href=\"https:\/\/colombiaone.com\/2026\/02\/16\/colombia-minimum-wage-increase-petro-called-mobilization\/\">convocando<\/a> mobiliza\u00e7\u00f5es em todo o pa\u00eds. O governo procurou justificar a pol\u00edtica n\u00e3o em termos estritamente tecnocr\u00e1ticos ou jur\u00eddicos, mas como a implementa\u00e7\u00e3o de um \u201csal\u00e1rio vital\u201d, capaz de melhorar concretamente as condi\u00e7\u00f5es de vida da classe trabalhadora colombiana. Em 19 de fevereiro de 2026, Petro assinou um novo decreto renovando o reajuste, que permanece em vigor. At\u00e9 o momento, os <a href=\"https:\/\/colombiaone.com\/2025\/12\/30\/colombia-reactions-2026-minimum-wage-increase\/\">temores<\/a> de que a medida provocasse uma disparada da infla\u00e7\u00e3o, aumento do desemprego ou dificuldades generalizadas para pequenas empresas n\u00e3o se concretizaram. N\u00e3o houve uma espiral entre sal\u00e1rios e pre\u00e7os, e o pr\u00f3prio diretor do Banco Central C\u00e9sar Giraldo chegou a <a href=\"https:\/\/colombiaone.com\/2026\/01\/23\/colombia-central-bank-minimum-wage-hike-not-driving-inflation-growth\/\">afirmar<\/a> que o aumento salarial n\u00e3o foi um fator determinante da infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O epis\u00f3dio enfraquece a ideia de que h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica e inevit\u00e1vel entre aumentos salariais e press\u00f5es inflacion\u00e1rias, sugerindo que os efeitos dessa din\u00e2mica dependem do contexto econ\u00f4mico e dos fatores que impulsionam a infla\u00e7\u00e3o. Essa posi\u00e7\u00e3o colocou Petro em <a href=\"https:\/\/www.bloomberg.com\/news\/articles\/2026-03-31\/colombia-raises-rates-as-petro-s-minister-walks-out-in-protest\">rota de colis\u00e3o<\/a> com a pol\u00edtica de juros do Banco Central. O governo argumenta que taxas mais elevadas tendem a desestimular o consumo e o investimento, sobretudo quando a infla\u00e7\u00e3o decorre de fatores externos, como o aumento dos custos de energia. A autoridade monet\u00e1ria, por sua vez, tem <a href=\"https:\/\/colombiaone.com\/2026\/04\/01\/colombia-all-out-conflict-government-central-bank\/\">defendido<\/a> seu mandato de controle da infla\u00e7\u00e3o e advertido que Petro amea\u00e7a comprometer sua independ\u00eancia institucional, h\u00e1 muito considerada um dos pilares da credibilidade econ\u00f4mica colombiana. Essa credibilidade tamb\u00e9m teria sido colocada \u00e0 prova pela decis\u00e3o do governo de suspender, em junho de 2025, a regra fiscal que limitava a rela\u00e7\u00e3o entre d\u00edvida p\u00fablica e PIB, com o objetivo de ampliar os gastos p\u00fablicos. A medida levou ao <a href=\"https:\/\/www.bloomberg.com\/news\/articles\/2026-04-08\/colombia-downgraded-by-s-p-ratings-amid-growing-fiscal-concerns\">rebaixamento<\/a> da Col\u00f4mbia por ag\u00eancias de classifica\u00e7\u00e3o de risco da categoria de grau de investimento para a de ativo especulativo. A disposi\u00e7\u00e3o do governo em correr esse risco fora de um contexto de crise econ\u00f4mica representou uma ruptura particularmente significativa com um consenso consolidado ao longo de d\u00e9cadas, segundo o qual preservar a confian\u00e7a dos investidores era uma prioridade quase intoc\u00e1vel da pol\u00edtica econ\u00f4mica colombiana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora a cobertura da imprensa frequentemente tenha se concentrado no estilo dram\u00e1tico e eventualmente imprevis\u00edvel de Petro, o cen\u00e1rio macroecon\u00f4mico colombiano permanece notavelmente est\u00e1vel. Um relat\u00f3rio publicado em mar\u00e7o de 2026 pelo think tank Vida\u2014e <a href=\"https:\/\/colombiaone.com\/2026\/03\/26\/colombia-report-changing-economic-model\/\">divulgado<\/a> pelo pr\u00f3prio presidente\u2014sustenta que o pa\u00eds est\u00e1 gradualmente se afastando da depend\u00eancia dos combust\u00edveis f\u00f3sseis e das exporta\u00e7\u00f5es tradicionais em dire\u00e7\u00e3o a um \u201cnovo modelo\u201d, uma <em>econom\u00eda para la vida<\/em> que incorpora muitas das ideias delineadas no Plano Nacional de Desenvolvimento. Embora transforma\u00e7\u00f5es estruturais dessa magnitude exijam tempo, o relat\u00f3rio destacou indicadores recentes considerados promissores: o crescimento econ\u00f4mico e a infla\u00e7\u00e3o retornaram aos n\u00edveis observados antes da pandemia, o desemprego caiu para o m\u00ednimo hist\u00f3rico de 9% e cerca de 2,1 milh\u00f5es de pessoas deixaram a pobreza entre 2022 e 2024. Para al\u00e9m dos resultados destacados pelo relat\u00f3rio, contudo, persistem preocupa\u00e7\u00f5es de longo prazo relacionadas ao impacto fiscal da redu\u00e7\u00e3o das receitas petrol\u00edferas, ao agravamento do desequil\u00edbrio comercial e ao peso do servi\u00e7o da d\u00edvida externa. Essas quest\u00f5es provavelmente ocupar\u00e3o um lugar central na agenda econ\u00f4mica do pr\u00f3ximo governo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais do que qualquer reforma espec\u00edfica, o que emergiu sob Petro foi uma vis\u00e3o macroecon\u00f4mica alternativa. Trata-se de uma abordagem que rompe com d\u00e9cadas de ortodoxia ao priorizar emprego, sal\u00e1rios e investimento p\u00fablico em detrimento dos imperativos do controle inflacion\u00e1rio, da austeridade fiscal e da preserva\u00e7\u00e3o da confian\u00e7a dos investidores. Embora muitos cr\u00edticos tenham classificado essa orienta\u00e7\u00e3o como \u201cpolarizadora\u201d, seus defensores a veem como uma corre\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria a d\u00e9cadas em que a gest\u00e3o tecnocr\u00e1tica da economia\u2014favor\u00e1vel a uma estreita elite dirigente e voltada a satisfazer investidores e institui\u00e7\u00f5es financeiras internacionais, frequentemente \u00e0s custas das condi\u00e7\u00f5es de vida da maioria dos colombianos\u2014foi apresentada como mero bom senso econ\u00f4mico. Petro tamb\u00e9m deixou claro que institui\u00e7\u00f5es como o Banco Central, a Corte Constitucional e a pr\u00f3pria regra fiscal n\u00e3o s\u00e3o inst\u00e2ncias neutras, mas pol\u00edticas. Essa realidade \u00e9 reconhecida, ainda que por raz\u00f5es opostas, por figuras como De la Espriella, que <a href=\"https:\/\/www.infobae.com\/colombia\/2026\/06\/04\/abelardo-de-la-espriella-aseguro-que-el-salario-minimo-no-puede-reducirse-y-petro-respondio-el-problema-no-es-que-baje\/\">argumenta<\/a> que a pol\u00edtica salarial teria escapado de seus limites institucionais e precisaria ser protegida do \u201cpopulismo\u201d pela atua\u00e7\u00e3o do Banco Central. Nesse sentido, o principal legado de Petro talvez n\u00e3o resida apenas nas reformas que conseguiu aprovar, mas em ter devolvido \u00e0 arena pol\u00edtica quest\u00f5es econ\u00f4micas que, durante d\u00e9cadas, foram apresentadas como mat\u00e9rias exclusivamente t\u00e9cnicas.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Legado<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora Petro n\u00e3o tenha conseguido superar plenamente os limites da governan\u00e7a neoliberal e da ortodoxia econ\u00f4mica ao longo de seus quatro anos de mandato, seu governo promoveu melhorias significativas nas condi\u00e7\u00f5es de vida das classes populares colombianas. Implementou reformas importantes nos sistemas de educa\u00e7\u00e3o, previd\u00eancia e trabalho, buscando reverter um processo de privatiza\u00e7\u00e3o em curso desde o in\u00edcio dos anos 1990; promoveu aumentos expressivos dos sal\u00e1rios; e conduziu um per\u00edodo de estabilidade econ\u00f4mica sem recorrer de forma intensiva ao extrativismo: uma novidade no repert\u00f3rio recente dos governos de esquerda da regi\u00e3o.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais importante ainda, Petro conseguiu desmontar a apar\u00eancia de neutralidade que envolveu a gest\u00e3o tecnocr\u00e1tica da economia por d\u00e9cadas. Sua experi\u00eancia no poder oferece li\u00e7\u00f5es relevantes para outros l\u00edderes do Sul global. Entre elas, a de que avan\u00e7os dessa natureza s\u00f3 foram poss\u00edveis por meio da mobiliza\u00e7\u00e3o popular, do enfrentamento \u00e0s ortodoxias macroecon\u00f4micas\u2014insistindo que a redistribui\u00e7\u00e3o pode preceder e impulsionar o crescimento\u2014e da disposi\u00e7\u00e3o de recorrer, ou ao menos sinalizar a possibilidade de recorrer, a reformas institucionais profundas, incluindo a elabora\u00e7\u00e3o de uma nova Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa postura levou muitos cr\u00edticos a acusar Petro de tend\u00eancias <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/en\/the-authoritarian-drift-of-gustavo-petro\/\">antidemocr\u00e1ticas<\/a>. A proposta de convocar uma nova Assembleia Constituinte, em particular, tornou-se um <a href=\"https:\/\/www.lasillavacia.com\/podcasts\/huevos-revueltos-con-politica\/cepeda-la-constituyente-y-los-votos-de-centro\/\">fardo<\/a> pol\u00edtico para Iv\u00e1n Cepeda durante sua campanha presidencial. No entanto, essas iniciativas surgiram como resposta aos limites impostos \u00e0 reforma pela natureza contradit\u00f3ria da Constitui\u00e7\u00e3o de 1991, que combinou a amplia\u00e7\u00e3o de direitos sociais e democr\u00e1ticos com a consolida\u00e7\u00e3o de pilares centrais da ordem neoliberal. Ainda assim, sua proposta de enfrentar essas contradi\u00e7\u00f5es por meio de um referendo sobre uma nova Constitui\u00e7\u00e3o foi amplamente interpretada n\u00e3o como uma tentativa de efetivar os direitos sociais prometidos pelo texto constitucional, mas como uma tentativa de concentra\u00e7\u00e3o de poder por parte de um Executivo frustrado pela resist\u00eancia de um Congresso pouco perme\u00e1vel \u00e0 mudan\u00e7a. A controv\u00e9rsia em torno dessa proposta foi tamanha que Cepeda acabou <a href=\"https:\/\/elpais.com\/america-colombia\/elecciones-presidenciales\/2026-06-04\/ivan-cepeda-se-desmarca-definitivamente-de-una-constituyente-es-el-momento-de-la-concertacion.html\">abandonando<\/a> o projeto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo que Cepeda seja derrotado no segundo turno das elei\u00e7\u00f5es e a esquerda n\u00e3o consiga permanecer no poder, a experi\u00eancia de Petro sugere que governar em favor dos setores mais vulner\u00e1veis da sociedade, inclusive por meio de decretos, pode constituir um projeto politicamente popular. \u00c0 medida que o presidente passou a desafiar de forma mais aberta os limites institucionais impostos ao Executivo em nome de pol\u00edticas redistributivas, seus \u00edndices de aprova\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/www.americasquarterly.org\/article\/the-resurgence-of-gustavo-petro-and-the-colombian-left\/\">voltaram a crescer<\/a>. Sua trajet\u00f3ria tamb\u00e9m revela que reverter os avan\u00e7os do neoliberalismo \u00e9 uma tarefa complexa, que exige a formula\u00e7\u00e3o de novos princ\u00edpios macroecon\u00f4micos, o enfrentamento de restri\u00e7\u00f5es institucionais tanto no plano dom\u00e9stico quanto internacional e a prioriza\u00e7\u00e3o de preocupa\u00e7\u00f5es sociais, humanit\u00e1rias e ambientais em detrimento da l\u00f3gica da rentabilidade. Ao definir seu projeto pol\u00edtico como a constru\u00e7\u00e3o de uma <em>econom\u00eda para la vida<\/em>, Petro articulou de maneira particularmente poderosa esses diferentes elementos de sua cr\u00edtica ao neoliberalismo e sintetizou os riscos e as potencialidades de seu sucesso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Col\u00f4mbia continua sendo um pa\u00eds marcado pelo conflito armado, pela desigualdade e pela pobreza. Ainda assim, o governo Petro foi mais longe do que qualquer lideran\u00e7a colombiana recente tanto no diagn\u00f3stico quanto na tentativa de corrigir uma ordem econ\u00f4mica que, por d\u00e9cadas, produziu viol\u00eancia social e ambiental em larga escala. Ao faz\u00ea-lo, Petro tornou mais vis\u00edveis e agudas as contradi\u00e7\u00f5es da sociedade colombiana e, nesse sentido, alterou profundamente o terreno da disputa pol\u00edtica. Independentemente de quem assuma a presid\u00eancia em agosto, o pr\u00f3ximo governo atuar\u00e1 em um contexto diferente, no qual o car\u00e1ter pol\u00edtico das decis\u00f5es econ\u00f4micas passou a ser explicitamente reconhecido. Qualquer que seja o vencedor da elei\u00e7\u00e3o, ter\u00e1 diante de si o desafio de preservar ou aprofundar os avan\u00e7os sociais conquistados sob as mesmas restri\u00e7\u00f5es estruturais enfrentadas por Petro. Alternativamente, poder\u00e1 buscar reverter as reformas implementadas: movimento que representaria um retorno expl\u00edcito \u00e0 \u201ceconomia da morte\u201d denunciada pelo presidente e arriscaria provocar uma ampla rea\u00e7\u00e3o social.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Qualquer que seja o vencedor da elei\u00e7\u00e3o, ter\u00e1 diante de si o desafio de preservar ou aprofundar os avan\u00e7os sociais conquistados sob as mesmas restri\u00e7\u00f5es estruturais enfrentadas por Petro. 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