{"id":30927,"date":"2026-05-29T00:00:00","date_gmt":"2026-05-29T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/?p=30927"},"modified":"2026-06-05T17:10:47","modified_gmt":"2026-06-05T17:10:47","slug":"mercadores-da-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/mercadores-da-guerra\/","title":{"rendered":"Mercadores da guerra"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1934, um comit\u00ea do Senado dos EUA presidido pelo republicano Gerald Nye deu in\u00edcio a 18 meses de audi\u00eancias sobre a ind\u00fastria armamentista dom\u00e9stica, investigando os enormes lucros obtidos com a Primeira Guerra Mundial em meio a especula\u00e7\u00f5es de que os \u201cmercadores da morte\u201d poderiam em breve arrastar os Estados Unidos para outro grande conflito. A investiga\u00e7\u00e3o canalizava um discurso popular da \u00e9poca, segundo o qual industriais ricos\u2014executivos de empresas como DuPont, J. P. Morgan e Pratt &amp; Whitney\u2014estimulavam deliberadamente antagonismos interestatais para ampliar suas margens de lucro. \u201cO fabricante de armas ascendeu e se tornou poderoso\u201d, observava um estudo influente naquele per\u00edodo, \u201ca ponto de hoje constituir um dos fatores mais perigosos nos assuntos mundiais, um obst\u00e1culo \u00e0 paz, um promotor da guerra.\u201d At\u00e9 mesmo o <em>Wall Street Journal<\/em>, em defesa do comit\u00ea Nye, denunciou o \u201csistema perverso que permite e incentiva homens a explorar comercialmente a animosidade entre povos vizinhos\u201d.<a data-contents=\"Engelbrecht, H.C.;Hanighen, F.C. 1934. (<)em(>)&nbsp;Merchants of Death: A Study of the International Armaments Industry,(<)\/em(>) p. 9. \u201cPrivate Traffic in Arms,\u201d (<)em(>)Wall Street Journal(<)\/em(>), Sep. 8, 1934, p. 6.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-1\" href=\"#footnote-list-1\">1<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Engelbrecht, H.C.;Hanighen, F.C. 1934. (<)em(>)&nbsp;Merchants of Death: A Study of the International Armaments Industry,(<)\/em(>) p. 9. \u201cPrivate Traffic in Arms,\u201d (<)em(>)Wall Street Journal(<)\/em(>), Sep. 8, 1934, p. 6.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A no\u00e7\u00e3o de que interesses privados criam volatilidade global nunca deixou de circular, mas ganhou nova relev\u00e2ncia \u00e0 medida que os gastos militares mundiais atingiram o recorde hist\u00f3rico de US$ 2,9 trilh\u00f5es no ano passado, beneficiando fabricantes de armas que v\u00e3o da israelense Elbit Systems e das \u201cBig Five\u201d americanas\u2014Boeing, Northrop Grumman, Lockheed Martin e RTX Corporation\u2014\u00e0 alem\u00e3 Rheinmetall e \u00e0 brit\u00e2nica BAE Systems.<a data-contents=\"O valor refere-se a 2025, com base nos pre\u00e7os e taxas de c\u00e2mbio de 2025. (<)a href='https:\/\/www.sipri.org\/databases\/milex'(>)Banco de Dados de Despesas Militares do SIPRI 2026(<)\/a(>) (em 27 de abril de 2026). Os valores no par\u00e1grafo a seguir est\u00e3o em pre\u00e7os correntes (nominais), convertidos \u00e0 taxa de c\u00e2mbio do ano em quest\u00e3o, a partir desta fonte. Os valores nas se\u00e7\u00f5es subsequentes sobre exporta\u00e7\u00f5es e classifica\u00e7\u00f5es de empresas s\u00e3o provenientes da (<)a href='https:\/\/www.sipri.org\/databases\/armsindustry'(>)Base de Dados da Ind\u00fastria de Armas do SIPRI(<)\/a(>), consultada em dezembro de 2025, e da (<)a href='https:\/\/armstransfers.sipri.org\/ArmsTransfer\/'(>)Base de Dados de Transfer\u00eancia de Armas do SIPRI(<)\/a(>).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-2\" href=\"#footnote-list-2\">2<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">O valor refere-se a 2025, com base nos pre\u00e7os e taxas de c\u00e2mbio de 2025. (<)a href='https:\/\/www.sipri.org\/databases\/milex'(>)Banco de Dados de Despesas Militares do SIPRI 2026(<)\/a(>) (em 27 de abril de 2026). Os valores no par\u00e1grafo a seguir est\u00e3o em pre\u00e7os correntes (nominais), convertidos \u00e0 taxa de c\u00e2mbio do ano em quest\u00e3o, a partir desta fonte. Os valores nas se\u00e7\u00f5es subsequentes sobre exporta\u00e7\u00f5es e classifica\u00e7\u00f5es de empresas s\u00e3o provenientes da (<)a href='https:\/\/www.sipri.org\/databases\/armsindustry'(>)Base de Dados da Ind\u00fastria de Armas do SIPRI(<)\/a(>), consultada em dezembro de 2025, e da (<)a href='https:\/\/armstransfers.sipri.org\/ArmsTransfer\/'(>)Base de Dados de Transfer\u00eancia de Armas do SIPRI(<)\/a(>).<\/span> Militantes pacifistas t\u00eam raz\u00e3o ao apontar que a d\u00e9cada de 2020 vem sendo bastante pr\u00f3spera para os mercadores da morte, que apostam na prolonga\u00e7\u00e3o da destrui\u00e7\u00e3o em Gaza, no Ir\u00e3, na Ucr\u00e2nia, no Sud\u00e3o e outros lugares e contam com equipes de lobistas empenhadas em manter gestores p\u00fablicos ao redor do mundo em constante estado de prepara\u00e7\u00e3o para a guerra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, ainda que a express\u00e3o \u201ccomplexo industrial-militar\u201d tenha sido cunhada para alertar que esses especuladores da guerra poderiam capturar o Estado e subordinar a pol\u00edtica p\u00fablica aos interesses privados, esse enquadramento tende a obscurecer o profundo entrela\u00e7amento entre poder p\u00fablico e poder privado na ind\u00fastria armamentista global contempor\u00e2nea. O crescimento da ind\u00fastria b\u00e9lica n\u00e3o pode ser atribu\u00eddo simplesmente \u00e0 a\u00e7\u00e3o de empresas privadas agindo em benef\u00edcio pr\u00f3prio. Os mercados militares s\u00e3o moldados pelos pr\u00f3prios Estados, tanto como clientes quanto como propriet\u00e1rios. Mapear os maiores complexos industrial-militares do mundo, suas rela\u00e7\u00f5es m\u00fatuas e suas estruturas sobrepostas de propriedade corporativa demonstra que sua expans\u00e3o \u00e9, em \u00faltima an\u00e1lise, sustentada pelas pr\u00f3prias fun\u00e7\u00f5es violentas do exer\u00edcio de governan\u00e7a estatal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse exerc\u00edcio tamb\u00e9m ajuda a iluminar como o poder militar est\u00e1 distribu\u00eddo em escala global. Os Estados Unidos s\u00e3o, de longe, o maior gastador militar, produtor b\u00e9lico e exportador de armas do mundo, <a href=\"https:\/\/www.sipri.org\/publications\/2025\/sipri-fact-sheets\/trends-world-military-expenditure-2024\" type=\"link\" id=\"https:\/\/www.sipri.org\/publications\/2025\/sipri-fact-sheets\/trends-world-military-expenditure-2024\">respondendo<\/a> por mais de um ter\u00e7o dos gastos militares globais (que superaram a marca de US$ 1 trilh\u00e3o  em 2024) e por 42% de todas as exporta\u00e7\u00f5es de armamentos. Ainda assim, a economia militar global tamb\u00e9m \u00e9 composta por outros atores capazes de influenciar a quantidade e a variedade de armas produzidas, compradas, vendidas e empregadas nos campos de batalha. A China \u00e9 o segundo maior gastador militar do mundo. Embora permane\u00e7a muito atr\u00e1s dos Estados Unidos (US$ 335 bilh\u00f5es), seus gastos militares cresceram todos os anos <a href=\"https:\/\/www.sipri.org\/media\/press-release\/2025\/unprecedented-rise-global-military-expenditure-european-and-middle-east-spending-surges\" type=\"link\" id=\"https:\/\/www.sipri.org\/media\/press-release\/2025\/unprecedented-rise-global-military-expenditure-european-and-middle-east-spending-surges\">ao longo de tr\u00eas d\u00e9cadas<\/a>, representando hoje cerca de 12% do total mundial. Em terceiro lugar est\u00e1 a R\u00fassia, que, desde a invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia, transformou-se em uma economia de guerra, mais do que dobrando seus gastos militares, que saltaram de US$ 69 bilh\u00f5es em 2016 para <a href=\"https:\/\/www.sipri.org\/media\/press-release\/2025\/unprecedented-rise-global-military-expenditure-european-and-middle-east-spending-surges\" type=\"link\" id=\"https:\/\/www.sipri.org\/media\/press-release\/2025\/unprecedented-rise-global-military-expenditure-european-and-middle-east-spending-surges\">US$ 190 bilh\u00f5es<\/a> em 2025, patamar equivalente a 6,3% do PIB do \u00faltimo ano e o maior j\u00e1 registrado <a href=\"https:\/\/www.chathamhouse.org\/2025\/07\/russias-struggle-modernize-its-military-industry\" type=\"link\" id=\"https:\/\/www.chathamhouse.org\/2025\/07\/russias-struggle-modernize-its-military-industry\">desde a Guerra Fria<\/a>. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pot\u00eancias regionais tamb\u00e9m est\u00e3o se militarizando. O Ir\u00e3 demonstrou ser um advers\u00e1rio militar formid\u00e1vel para Israel e os Estados Unidos, enquanto \u00cdndia e Ar\u00e1bia Saudita consolidam suas posi\u00e7\u00f5es como os maiores importadores de armas do mundo. Esses pa\u00edses integram um grupo mais amplo, que inclui os Emirados \u00c1rabes Unidos (EAU) e a Turquia, atualmente empenhado em alcan\u00e7ar autossufici\u00eancia militar por meio de desenvolvimento industrial e tecnol\u00f3gico voltado \u00e0 produ\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica de armamentos. S\u00e3o Estados que mobilizam aparatos militares internacionalizados de maneira desigual contra popula\u00e7\u00f5es subordinadas\u2014os caxemires, os iemenitas, os curdos\u2014ou desenvolvem redes de importa\u00e7\u00e3o de armamentos que escapam  ao controle do imp\u00e9rio americano. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Rastrear a produ\u00e7\u00e3o e a circula\u00e7\u00e3o global de armamentos revela que as guerras que devastam diferentes regi\u00f5es do planeta est\u00e3o estruturalmente interligadas. Israel e os EUA colaboram na campanha contra Gaza, Ir\u00e3 e L\u00edbano que, por sua vez, utilizam armas fornecidas por outros pa\u00edses do Ocidente; o Ir\u00e3 tenta se defender buscando o apoio dos Houthis, do Hezbollah e do Hamas; a R\u00fassia ataca a Ucr\u00e2nia e envia armas ao Ir\u00e3 em troca de tecnologia de drones; a Ucr\u00e2nia desenvolveu contramedidas r\u00e1pidas e baratas contra a R\u00fassia e as exporta para os Estados do Golfo; os EAU, um dos atores centrais na guerra do I\u00eamen, tamb\u00e9m sustenta as For\u00e7as de Apoio R\u00e1pido no Sud\u00e3o; e assim por diante. Essa trama de rela\u00e7\u00f5es militares e estrat\u00e9gicas torna a atribui\u00e7\u00e3o de responsabilidade difusa e dif\u00edcil. Para compreender mais de perto esses conflitos entrela\u00e7ados, podemos examinar, um a um, os gigantes da ind\u00fastria armamentista mundial.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O Atl\u00e2ntico Norte<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim como os Estados Unidos s\u00e3o, de longe, o maior gastador militar do planeta, suas empresas tamb\u00e9m dominam amplamente esse setor. <a href=\"https:\/\/www.sipri.org\/publications\/2025\/sipri-fact-sheets\/sipri-top-100-arms-producing-and-military-services-companies-2024\" type=\"link\" id=\"https:\/\/www.sipri.org\/publications\/2025\/sipri-fact-sheets\/sipri-top-100-arms-producing-and-military-services-companies-2024\">Trinta e nove<\/a> das cem maiores fabricantes de armas do mundo t\u00eam sede nos EUA e respondem por 49% da receita total do grupo. As gigantes da ind\u00fastria armamentista mundial s\u00e3o empresas de capital aberto. Captam recursos do p\u00fablico e de investidores institucionais por meio de ofertas p\u00fablicas iniciais (IPOs, na sigla em ingl\u00eas), geralmente negociam em bolsas de valores e est\u00e3o sujeitas a obriga\u00e7\u00f5es de transpar\u00eancia p\u00fablica. A maior parte de suas a\u00e7\u00f5es pertence a investidores institucionais. Empresas de gest\u00e3o de ativos controlam 74% da Lockheed Martin. Seu maior investidor\u2014detentor de 34,5 milh\u00f5es de a\u00e7\u00f5es\u2014\u00e9 a State Street Corporation, multinacional estadunidense de servi\u00e7os financeiros. Os maiores acionistas individuais eram executivos da pr\u00f3pria companhia, como o CEO James Taiclet, o ex-diretor financeiro Jesus Malave e a diretora de neg\u00f3cios Stephanie C. Hill. Em maio de 2025, Taiclet sozinho detinha 68.070 a\u00e7\u00f5es.<a data-contents=\"Lockheed Martin Corporation. 2025. (<)em(>)Proxy Statement(<)\/em(>). Os dados sobre a participa\u00e7\u00e3o institucional s\u00e3o da MarketBeat.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-3\" href=\"#footnote-list-3\">3<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Lockheed Martin Corporation. 2025. (<)em(>)Proxy Statement(<)\/em(>). Os dados sobre a participa\u00e7\u00e3o institucional s\u00e3o da MarketBeat.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A aparente separa\u00e7\u00e3o entre a ind\u00fastria b\u00e9lica privada e o setor p\u00fablico beneficia ambos os lados. Quando empresas de armamentos s\u00e3o questionadas sobre o motivo e a forma como suas armas s\u00e3o utilizadas em viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos, recorrem \u00e0s regulamenta\u00e7\u00f5es governamentais de exporta\u00e7\u00e3o de armas. Quando governos s\u00e3o pressionados a divulgar detalhes sobre produtos e opera\u00e7\u00f5es dessas empresas, alegam tratar-se de segredos comerciais que n\u00e3o t\u00eam autoriza\u00e7\u00e3o para divulgar. A separa\u00e7\u00e3o entre a esfera p\u00fablica e privada na propriedade das empresas permite que atores de ambos os lados desviem o escrut\u00ednio e diluam responsabilidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A propriedade n\u00e3o estatal da ind\u00fastria armamentista, contudo, esconde sua profunda depend\u00eancia do Estado. A maior parte das vendas de empresas estadunidenses destina-se ao pr\u00f3prio governo do pa\u00eds. Quase tr\u00eas quartos dos US$ 75 bilh\u00f5es em vendas da Lockheed Martin em 2025 ocorreram no mercado dom\u00e9stico, e o quarto restante foi direcionado principalmente \u00e0 Ar\u00e1bia Saudita e \u00e0 Ucr\u00e2nia. A empresa encerrou 2025 com um volume recorde de encomendas acumuladas, pr\u00f3ximo de US$ 194 bilh\u00f5es. As fabricantes de armas t\u00eam acesso direto aos recursos estatais por meio dos or\u00e7amentos p\u00fablicos de defesa. Nos Estados Unidos, quase metade do or\u00e7amento discricion\u00e1rio federal \u00e9 destinada ao Departamento de Defesa\u2014ou melhor, da Guerra\u2014, e mais da metade desses gastos \u00e9 canalizada para ind\u00fastrias militares. No ano fiscal de 2021, <a href=\"https:\/\/costsofwar.watson.brown.edu\/sites\/default\/files\/papers\/Peltier-2023-We-Get-What-We-Pay-For-FINAL.pdf\" type=\"link\" id=\"https:\/\/costsofwar.watson.brown.edu\/sites\/default\/files\/papers\/Peltier-2023-We-Get-What-We-Pay-For-FINAL.pdf\">30% dos recursos<\/a> para contratos p\u00fablicos do Departamento de Defesa foram distribu\u00eddos entre as cinco gigantes do setor armamentista do pa\u00eds: Lockheed Martin, Boeing, Raytheon, General Dynamics e Northrop Grumman.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"744\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart4-pt-d-2-744x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-31567\" style=\"aspect-ratio:0.7264966967103321;width:775px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart4-pt-d-2-744x1024.png 744w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart4-pt-d-2-218x300.png 218w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart4-pt-d-2-768x1057.png 768w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart4-pt-d-2-1116x1536.png 1116w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart4-pt-d-2-1488x2048.png 1488w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart4-pt-d-2-scaled.png 1860w\" sizes=\"auto, (max-width: 744px) 100vw, 744px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O setor armamentista \u00e9 integrado <a href=\"https:\/\/www.sipri.org\/publications\/2020\/sipri-insights-peace-and-security\/mapping-international-presence-worlds-largest-arms-companies\" type=\"link\" id=\"https:\/\/www.sipri.org\/publications\/2020\/sipri-insights-peace-and-security\/mapping-international-presence-worlds-largest-arms-companies\">internacionalmente<\/a> em diferentes n\u00edveis: companhias sediadas em um pa\u00eds controlam subsidi\u00e1rias no exterior respons\u00e1veis pela fabrica\u00e7\u00e3o de armas ou componentes e pela presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o. Empresas dos EUA t\u00eam presen\u00e7a em Israel, Jap\u00e3o, Coreia do Sul e Taiwan, entre outros. A subsidi\u00e1ria da brit\u00e2nica BAE Systems, a BAE Systems Inc., \u00e9 sediada nos EUA, e o conglomerado como um todo vende tanto ou mais para o Departamento de Defesa estadunidense do que para o Minist\u00e9rio da Defesa brit\u00e2nico. Essa internacionaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 fruto do per\u00edodo p\u00f3s-Guerra Fria, quando fus\u00f5es e aquisi\u00e7\u00f5es, joint ventures, subcontrata\u00e7\u00f5es e acordos de transfer\u00eancia de tecnologia facilitaram a consolida\u00e7\u00e3o de uma ind\u00fastria transatl\u00e2ntica em meio \u00e0 redu\u00e7\u00e3o (tempor\u00e1ria) dos or\u00e7amentos militares governamentais ap\u00f3s a queda da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pa\u00edses europeus mant\u00eam rela\u00e7\u00f5es estreitas com as empresas armamentistas dos EUA, embora o conte\u00fado dessas rela\u00e7\u00f5es seja variado. O Reino Unido incentivou a privatiza\u00e7\u00e3o e a internacionaliza\u00e7\u00e3o de sua ind\u00fastria militar, enquanto na Europa continental a propriedade estatal continua mais comum:  a Thales (15\u00aa maior empresa de armas do mundo em 2024, com US$ 11,8 bilh\u00f5es em receitas) tem 25% das a\u00e7\u00f5es controladas pelo Estado franc\u00eas; a Leonardo (13\u00aa colocada, com US$ 13,8 bilh\u00f5es) \u00e9 30% de propriedade do Estado italiano; e a Navantia (na modesta 88\u00aa posi\u00e7\u00e3o, com US$ 1.3 bilh\u00e3o em receitas) pertence integralmente ao Estado espanhol. E, ainda que as compras governamentais de defesa, os gastos militares e as pol\u00edticas de exporta\u00e7\u00e3o de armas continuem sendo temas nacionais, a pr\u00f3pria Uni\u00e3o Europeia (UE) tamb\u00e9m desempenha um papel importante para o setor. O bloco tem impulsionado a militariza\u00e7\u00e3o por meio do Fundo Europeu de Defesa, criado em 2021, bem como da Estrat\u00e9gia Industrial Europeia de Defesa e do Programa Europeu para a Ind\u00fastria de Defesa, adotados em 2024. A UE tamb\u00e9m utilizou o Mecanismo Europeu para a Paz para financiar o envio de armas \u00e0 Ucr\u00e2nia, reembolsando Estados-membros pelos envios de armamentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Impulsionada em parte pela guerra na Ucr\u00e2nia e em parte pela instabilidade dos compromissos dos Estados Unidos com a OTAN, a Uni\u00e3o Europeia vem buscando expandir dramaticamente sua ind\u00fastria militar. As exporta\u00e7\u00f5es de armas dos pa\u00edses-membros <a href=\"https:\/\/www.sipri.org\/media\/press-release\/2026\/global-arms-flows-jump-nearly-10-cent-european-demand-soars\" type=\"link\" id=\"https:\/\/www.sipri.org\/media\/press-release\/2026\/global-arms-flows-jump-nearly-10-cent-european-demand-soars\">cresceram 36%<\/a> entre os per\u00edodos 2016\u201320 e 2021\u201325, passando a representar 28% do total global neste \u00faltimo intervalo. Em 2025, os maiores exportadores de armas da Europa\u2014Fran\u00e7a, Alemanha, It\u00e1lia e Espanha\u2014respondiam por um volume equivalente a quase dois ter\u00e7os das exporta\u00e7\u00f5es americanas, enquanto 84% das exporta\u00e7\u00f5es da Uni\u00e3o Europeia eram destinadas a pa\u00edses fora do bloco. O volume exportado pela UE permanece quatro vezes superior ao da R\u00fassia e cinco vezes maior que o da China, consolidando o bloco como um dos principais fornecedores globais de armamentos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"550\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart2-pt-d-1-3-550x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-31570\" style=\"width:618px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart2-pt-d-1-3-550x1024.png 550w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart2-pt-d-1-3-161x300.png 161w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart2-pt-d-1-3-768x1429.png 768w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart2-pt-d-1-3-826x1536.png 826w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart2-pt-d-1-3-1101x2048.png 1101w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart2-pt-d-1-3-scaled.png 1376w\" sizes=\"auto, (max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">China<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A internacionaliza\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio de armas \u00e9 muito menos pronunciada na China, cuja ind\u00fastria militar mant\u00e9m uma orienta\u00e7\u00e3o predominantemente nacional e \u00e9 organizada em torno de empresas estatais. A defesa \u00e9 um dos sete setores estrat\u00e9gicos sobre os quais o governo chin\u00eas exerce controle total.<a data-contents=\"B\u00e9raud-Sudreau, L; Nouwens, M. 2021. \u201c(<)a href='https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/abs\/10.1080\/10242694.2019.1632536'(>)Weighing Giants: Taking Stock of the Expansion of China\u2019s Defence Industry(<)\/a(>),\u201d (<)em(>)Defense and Peace Economics(<)\/em(>), v. 32, n. 2.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-4\" href=\"#footnote-list-4\">4<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">B\u00e9raud-Sudreau, L; Nouwens, M. 2021. \u201c(<)a href='https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/abs\/10.1080\/10242694.2019.1632536'(>)Weighing Giants: Taking Stock of the Expansion of China\u2019s Defence Industry(<)\/a(>),\u201d (<)em(>)Defense and Peace Economics(<)\/em(>), v. 32, n. 2.<\/span> A iniciativa Made in China 2025 ampliou os investimentos em manufatura de alta tecnologia, identificando a <a href=\"https:\/\/journals.sagepub.com\/doi\/full\/10.1177\/10245294251336510\" type=\"link\" id=\"https:\/\/journals.sagepub.com\/doi\/full\/10.1177\/10245294251336510\">constru\u00e7\u00e3o naval e a ind\u00fastria aeroespacial<\/a> como dois dos dez setores priorit\u00e1rios. Desde 2025, dirigentes ligados ao complexo militar-industrial v\u00eam <a href=\"https:\/\/jamestown.org\/xi-jinping-has-further-boosted-the-military-industrial-group-of-china\/\" type=\"link\" id=\"https:\/\/jamestown.org\/xi-jinping-has-further-boosted-the-military-industrial-group-of-china\/\">ganhando<\/a> relev\u00e2ncia crescente dentro do Partido Comunista Chin\u00eas. O mais recente Plano Quinquenal de Pequim, anunciado em mar\u00e7o de 2026, inclui novas <a href=\"https:\/\/jamestown.org\/new-five-year-plan-could-boost-pla-combat-power\/\" type=\"link\" id=\"https:\/\/jamestown.org\/new-five-year-plan-could-boost-pla-combat-power\/\">se\u00e7\u00f5es<\/a> voltadas \u00e0 moderniza\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia e da governan\u00e7a militar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde o per\u00edodo 2016\u201320, a China ampliou suas exporta\u00e7\u00f5es de armamentos em 11%: 77% delas destinam-se \u00e0 \u00c1sia e \u00e0 Oceania, enquanto 13% seguem para a \u00c1frica. Na \u00c1frica Subsaariana, a China responde por 17% das importa\u00e7\u00f5es de armas, aproximando-se dos Estados Unidos, respons\u00e1veis por 19%.<a data-contents=\"Mathew, G. et al. 2026. \u201cTrends in International Arms Transfers, 2025,\u201d (<)em(>)SIPRI Fact Sheet(<)\/em(>), March.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-5\" href=\"#footnote-list-5\">5<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Mathew, G. et al. 2026. \u201cTrends in International Arms Transfers, 2025,\u201d (<)em(>)SIPRI Fact Sheet(<)\/em(>), March.<\/span> Empresas como a Norinco e a Aviation Industry Corporation of China t\u00eam alcance internacional significativo, tendo consolidado alian\u00e7as militares de longa data com Camboja e Paquist\u00e3o, ao mesmo tempo em que cultivam novas rela\u00e7\u00f5es em outras partes da \u00c1sia e da Europa. O principal cliente das exporta\u00e7\u00f5es chinesas \u00e9 o Paquist\u00e3o, para o qual Pequim transferiu um amplo arsenal que inclui ca\u00e7as, fragatas, tanques, m\u00edsseis e drones armados. Assim como ocorre com as importa\u00e7\u00f5es indianas provenientes da R\u00fassia, parte dos armamentos paquistaneses \u00e9 montada a partir de kits ou produzida domesticamente sob licen\u00e7a chinesa. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As subsidi\u00e1rias chinesas localizadas no Ocidente, por sua vez, concentram-se sobretudo em tecnologias civis com potencial aplica\u00e7\u00e3o militar, muito provavelmente em uma tentativa de obter acesso a tecnologias de dupla utiliza\u00e7\u00e3o. Alguns analistas sustentam que o car\u00e1ter excessivamente burocr\u00e1tico e avesso ao risco das estatais chinesas reduz os incentivos \u00e0 concorr\u00eancia.<a data-contents=\"Bitzinger, R. A. 2016. \u201c(<)a href='https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/abs\/10.1080\/01402390.2016.1221819'(>)Reforming China\u2019s defense industry(<)\/a(>),\u201d (<)em(>)Journal of Strategic Studies(<)\/em(>), vol. 39, n. 5-6.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-6\" href=\"#footnote-list-6\">6<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Bitzinger, R. A. 2016. \u201c(<)a href='https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/abs\/10.1080\/01402390.2016.1221819'(>)Reforming China\u2019s defense industry(<)\/a(>),\u201d (<)em(>)Journal of Strategic Studies(<)\/em(>), vol. 39, n. 5-6.<\/span> Sob o governo de Xi Jinping, as estatais passaram por um processo parcial de <a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/abs\/10.1080\/01495933.2022.2039011\" type=\"link\" id=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/abs\/10.1080\/01495933.2022.2039011\">privatiza\u00e7\u00e3o<\/a> em busca de novas fontes de capital, por meio da venda de <a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/abs\/10.1080\/01402390.2016.1221819\" type=\"link\" id=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/abs\/10.1080\/01402390.2016.1221819\">a\u00e7\u00f5es de subsidi\u00e1rias<\/a> nas bolsas de Xangai, Shenzhen e Hong Kong. Essa privatiza\u00e7\u00e3o parcial tamb\u00e9m contribuiu para a forma\u00e7\u00e3o de uma <a href=\"https:\/\/global.oup.com\/academic\/product\/the-oxford-handbook-of-geoeconomics-and-economic-statecraft-9780197673546?cc=gb&amp;lang=en&amp;\" type=\"link\" id=\"https:\/\/global.oup.com\/academic\/product\/the-oxford-handbook-of-geoeconomics-and-economic-statecraft-9780197673546?cc=gb&amp;lang=en&amp;\">base de fornecimento mais h\u00edbrida<\/a>, composta n\u00e3o apenas por empresas militares estatais, mas tamb\u00e9m por gigantes de alta tecnologia como Huawei e Lenovo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"759\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart3-pt-d-3-759x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-31573\" style=\"width:739px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart3-pt-d-3-759x1024.png 759w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart3-pt-d-3-222x300.png 222w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart3-pt-d-3-768x1037.png 768w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart3-pt-d-3-1138x1536.png 1138w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart3-pt-d-3-1517x2048.png 1517w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart3-pt-d-3-scaled.png 1896w\" sizes=\"auto, (max-width: 759px) 100vw, 759px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">R\u00fassia<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim como a China, a base industrial armamentista da R\u00fassia possui orienta\u00e7\u00e3o predominantemente nacional e est\u00e1 localizada dentro de suas pr\u00f3prias fronteiras, enquanto a coopera\u00e7\u00e3o t\u00e9cnico-militar do pa\u00eds com empresas do Atl\u00e2ntico Norte \u00e9 praticamente inexistente. Sua ind\u00fastria b\u00e9lica \u00e9 quase inteiramente estatal, e o governo mant\u00e9m forte \u00eanfase no desenvolvimento dom\u00e9stico de armamentos. Isso \u00e9, em parte, consequ\u00eancia das restri\u00e7\u00f5es impostas pelos pa\u00edses ocidentais ao investimento estrangeiro direto, bem como das san\u00e7\u00f5es aplicadas contra empresas russas desde a anexa\u00e7\u00e3o da Crimeia, em 2014.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A R\u00fassia tamb\u00e9m possui, <a href=\"https:\/\/www.sipri.org\/publications\/2020\/sipri-insights-peace-and-security\/mapping-international-presence-worlds-largest-arms-companies\" type=\"link\" id=\"https:\/\/www.sipri.org\/publications\/2020\/sipri-insights-peace-and-security\/mapping-international-presence-worlds-largest-arms-companies\">segundo relatos<\/a>, entidades de produ\u00e7\u00e3o militar na \u00cdndia, no Cazaquist\u00e3o e no Vietn\u00e3, seus maiores compradores de armamentos. A indiana Hindustan Aeronautics Limited mant\u00e9m parcerias industriais com empresas russas por meio de joint ventures. Ainda assim, entre os maiores exportadores globais de armas, a R\u00fassia \u00e9 a \u00fanica cuja participa\u00e7\u00e3o nas exporta\u00e7\u00f5es totais est\u00e1 em decl\u00ednio, caindo de 21% no per\u00edodo 2016\u201320 para apenas 6,8% entre 2021\u201325. A \u00cdndia continua sendo um importante comprador de armamentos russos porque <a href=\"https:\/\/www.csis.org\/analysis\/guns-and-oil-continuity-and-change-russia-india-relations\" type=\"link\" id=\"https:\/\/www.csis.org\/analysis\/guns-and-oil-continuity-and-change-russia-india-relations\">adquiriu da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica<\/a> a maior parte de suas principais plataformas militares, consideradas estrat\u00e9gicas para um eventual confronto com China e Paquist\u00e3o. No entanto, desde o in\u00edcio dos anos 2000, Nova D\u00e9li passou a recorrer cada vez mais a fornecedores estadunidenses e europeus. Parte de seus armamentos consiste em sistemas montados a partir de kits importados ou produzidos sob licen\u00e7a na \u00cdndia, como os ca\u00e7as MiG e Sukhoi. A queda das exporta\u00e7\u00f5es russas tamb\u00e9m reflete mudan\u00e7as nos padr\u00f5es de importa\u00e7\u00e3o de pa\u00edses como Arg\u00e9lia, China e Egito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A R\u00fassia possui <a href=\"https:\/\/papers.ssrn.com\/sol3\/Delivery.cfm?abstractid=1311223\" type=\"link\" id=\"https:\/\/papers.ssrn.com\/sol3\/Delivery.cfm?abstractid=1311223\">tr\u00eas tipos<\/a> de empresas militares estatais: sociedades por a\u00e7\u00f5es, que permitem o investimento privado; empresas unit\u00e1rias, que seguem um modelo herdado da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica no qual os ativos pertencem integralmente ao Estado e cabe \u00e0 companhia somente administr\u00e1-los; e corpora\u00e7\u00f5es estatais. Desde 2010, o fortalecimento do controle de Vladimir Putin sobre o Estado ampliou tamb\u00e9m seu poder sobre o setor militar. Por meio da Comiss\u00e3o Industrial-Militar, Putin <a href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/publication\/381596908_Geoeconomics_Varieties_of_Capitalism_and_Great_Power_Competition_United_States_China_and_Russia\" type=\"link\" id=\"https:\/\/www.researchgate.net\/publication\/381596908_Geoeconomics_Varieties_of_Capitalism_and_Great_Power_Competition_United_States_China_and_Russia\">centralizou<\/a> e expandiu a propriedade estatal da ind\u00fastria de defesa, neutralizou disputas internas entre empresas e burocracias estatais e assumiu o papel de principal mediador e \u00e1rbitro das grandes decis\u00f5es do setor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A guerra da R\u00fassia contra a Ucr\u00e2nia apenas aprofundou o controle estatal sobre sua ind\u00fastria militar, com algumas empresas, consideradas \u201cprivatizadas ilegalmente\u201d, sendo reincorporadas \u00e0 propriedade p\u00fablica pela for\u00e7a. Assim como ocorre nas empresas privadas, as companhias estatais russas tamb\u00e9m s\u00e3o orientadas pela obten\u00e7\u00e3o de lucro, tendo o Estado como <a href=\"https:\/\/www.versobooks.com\/en-gb\/products\/781-russia-without-putin\" type=\"link\" id=\"https:\/\/www.versobooks.com\/en-gb\/products\/781-russia-without-putin\">principal acionista<\/a> e benefici\u00e1rio de dividendos. Apesar dessa estrutura, a maior parte das empresas russas n\u00e3o \u00e9 lucrativa: at\u00e9 mesmo grandes corpora\u00e7\u00f5es estatais reportam perdas significativas e reclamam da insufici\u00eancia de receitas.<a data-contents=\"Boul\u00e8gue, M. 2025. \u201c(<)a href='https:\/\/www.chathamhouse.org\/sites\/default\/files\/2025-07\/2025-07-21-russia-struggle-modernize-military-industry-boulegue.pdf'(>)Russia\u2019s struggle to modernize its military industry(<)\/a(>)\u201d. (<)em(>)Chatham House(<)\/em(>), research paper.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-7\" href=\"#footnote-list-7\">7<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Boul\u00e8gue, M. 2025. \u201c(<)a href='https:\/\/www.chathamhouse.org\/sites\/default\/files\/2025-07\/2025-07-21-russia-struggle-modernize-military-industry-boulegue.pdf'(>)Russia\u2019s struggle to modernize its military industry(<)\/a(>)\u201d. (<)em(>)Chatham House(<)\/em(>), research paper.<\/span> <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Rostec\u2014corpora\u00e7\u00e3o estatal composta por centenas de empresas dos setores militar, de engenharia e farmac\u00eautico, incluindo a lend\u00e1ria Kalashnikov Concern\u2014arrecada anualmente entre US$ 21 bilh\u00f5es e US$ 25 bilh\u00f5es de diversas fontes: contratos governamentais de compras militares, exporta\u00e7\u00f5es de armamentos, venda de mat\u00e9rias-primas e subs\u00eddios estatais. A Rostec controla cerca de 75% de toda a produ\u00e7\u00e3o militar-industrial russa, o que lhe confere um monop\u00f3lio de facto, raz\u00e3o pela qual foi classificada pelo Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI) como a s\u00e9tima maior empresa armamentista do mundo em 2024.<a data-contents=\"Krome, N. 2022. &#8220;(<)a href='https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/full\/10.1080\/09668136.2021.1988905'(>)State Corporate Governance in Russia(<)\/a(>),&#8221; (<)em(>)Europe-Asia Studies(<)\/em(>), v. 74, n. 8.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-8\" href=\"#footnote-list-8\">8<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Krome, N. 2022. &#8220;(<)a href='https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/full\/10.1080\/09668136.2021.1988905'(>)State Corporate Governance in Russia(<)\/a(>),&#8221; (<)em(>)Europe-Asia Studies(<)\/em(>), v. 74, n. 8.<\/span> <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O diretor-geral da Rostec, <a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/article\/business\/sanctioned-chemezov-runs-conglomerate-with-many-foreign-partners-idUSL2N0NK08F\/\" type=\"link\" id=\"https:\/\/www.reuters.com\/article\/business\/sanctioned-chemezov-runs-conglomerate-with-many-foreign-partners-idUSL2N0NK08F\/\">Sergei Chemezov<\/a>, \u00e9 conhecido como um dos tr\u00eas homens mais poderosos da R\u00fassia e integra o c\u00edrculo mais pr\u00f3ximo de Vladimir Putin. Os dois se conheceram na Alemanha Oriental nos anos 1980, enquanto trabalhavam para a KGB. Chemezov chegou \u00e0 Rostec vindo da ag\u00eancia estatal de exporta\u00e7\u00e3o de armas Rosoboroneksport, em 2007. Nas palavras de Nicole Krome, a Rosoboroneksport \u201cfunciona como a vaca leiteira da Rostec\u201d, fornecendo uma fonte cont\u00ednua de receitas para o conglomerado estatal.<a data-contents=\"Ibid.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-9\" href=\"#footnote-list-9\">9<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Ibid.<\/span> O pr\u00f3prio Chemezov n\u00e3o possui participa\u00e7\u00e3o acion\u00e1ria na Rostec, que pertence integralmente ao governo russo, mas o vazamento dos Pandora Papers revelou a extens\u00e3o de sua fortuna: ele e sua fam\u00edlia acumularam mais de US$ 400 milh\u00f5es em ativos registrados por meio de uma <a href=\"https:\/\/www.occrp.org\/en\/project\/the-pandora-papers\/a-family-affair-how-the-relatives-of-a-russian-state-companys-ceo-got-rich\" type=\"link\" id=\"https:\/\/www.occrp.org\/en\/project\/the-pandora-papers\/a-family-affair-how-the-relatives-of-a-russian-state-companys-ceo-got-rich\">rede de empresas offshore<\/a> nos setores imobili\u00e1rio, banc\u00e1rio e petrol\u00edfero, em sua maioria formalmente vinculados ao nome de sua enteada. Embora tenham sido alvo de san\u00e7\u00f5es em 2014, Chemezov e sua fam\u00edlia continuam <a href=\"https:\/\/trap.org.ua\/en\/publications\/empire-of-war-chemezov-s-rostec-turned-russia-into-a-weapons-factory\/\" type=\"link\" id=\"https:\/\/trap.org.ua\/en\/publications\/empire-of-war-chemezov-s-rostec-turned-russia-into-a-weapons-factory\/\">controlando<\/a> elementos estrat\u00e9gicos da economia militar russa, frequentemente por meio de estruturas flex\u00edveis de propriedade e sob a apar\u00eancia de projetos civis.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Pot\u00eancias regionais<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, diversas pot\u00eancias regionais de menor porte tamb\u00e9m buscam ampliar sua influ\u00eancia por meio do com\u00e9rcio de armas. Segundo o <a href=\"https:\/\/www.sipri.org\/visualizations\/2025\/sipri-top-100-arms-producing-and-military-services-companies-world-2024\" type=\"link\" id=\"https:\/\/www.sipri.org\/visualizations\/2025\/sipri-top-100-arms-producing-and-military-services-companies-world-2024\">SIPRI<\/a>, em 2024, nove das cem maiores empresas armamentistas do mundo tinham sede no Oriente M\u00e9dio, o maior n\u00famero j\u00e1 registrado para a regi\u00e3o. Dessas, tr\u00eas estavam sediadas em Israel, cinco na Turquia e uma nos Emirados \u00c1rabes Unidos. Os sistemas de drones turcos ajudaram a impulsionar as exporta\u00e7\u00f5es militares do pa\u00eds, mas as empresas turcas produzem uma ampla gama de equipamentos b\u00e9licos, de ve\u00edculos blindados e corvetas a muni\u00e7\u00f5es de precis\u00e3o e baterias de uso militar. Na Turquia, a expans\u00e3o militar trouxe <a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/full\/10.1080\/14702436.2025.2472705\" type=\"link\" id=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/full\/10.1080\/14702436.2025.2472705\">grandes benef\u00edcios<\/a> para as elites pol\u00edticas, menos por seus resultados pr\u00e1ticos do que por sua capacidade de alimentar sentimentos nacionalistas. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"785\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart1-pt-d-1-1-785x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-31579\" style=\"width:683px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart1-pt-d-1-1-785x1024.png 785w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart1-pt-d-1-1-230x300.png 230w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart1-pt-d-1-1-768x1002.png 768w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart1-pt-d-1-1-1178x1536.png 1178w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart1-pt-d-1-1-1570x2048.png 1570w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart1-pt-d-1-1-scaled.png 1963w\" sizes=\"auto, (max-width: 785px) 100vw, 785px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os pa\u00edses do Golfo t\u00eam buscado, de maneira semelhante, alcan\u00e7ar maior autonomia estrat\u00e9gica por meio de estrat\u00e9gias militares dom\u00e9sticas. O conglomerado EDGE Group, sediado em Abu Dhabi, e a Saudi Arabian Military Industries (SAMI), s\u00e3o <a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/full\/10.1080\/14751798.2025.2549197\" type=\"link\" id=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/full\/10.1080\/14751798.2025.2549197\">campe\u00f5es nacionais apoiados pelo Estado<\/a> e dependentes de joint ventures com empresas estrangeiras. O EDGE foi recentemente classificado na trig\u00e9sima s\u00e9tima posi\u00e7\u00e3o entre as cem maiores empresas armamentistas do mundo pelo SIPRI. Em ambos os pa\u00edses, os compromissos com a diversifica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica t\u00eam impulsionado uma expans\u00e3o significativa da produ\u00e7\u00e3o de tecnologias militares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar desses esfor\u00e7os, o Golfo continua dependente do Ocidente. BAE Systems, L3Harris Technologies, Lockheed Martin e Raytheon possuem unidades de produ\u00e7\u00e3o na Ar\u00e1bia Saudita, enquanto outras empresas utilizam a regi\u00e3o para manuten\u00e7\u00e3o e reparos. De fato, um ter\u00e7o das subsidi\u00e1rias internacionais da Lockheed Martin est\u00e1 localizado no Oriente M\u00e9dio. T\u00e3o pr\u00f3ximos s\u00e3o os la\u00e7os com Israel, por exemplo, que o CEO da Lockheed <a href=\"https:\/\/www.timesofisrael.com\/liveblog_entry\/israeli-envoy-to-us-claims-israels-f35i-jets-now-have-range-extending-fuel-tanks\/\">teria dito<\/a> ao embaixador israelense em Washington que  \u201ca experi\u00eancia operacional acumulada com o uso do F-35 em Gaza, no Ir\u00e3, no L\u00edbano e no I\u00eamen vale bilh\u00f5es para minha empresa.\u201d Na Ar\u00e1bia Saudita, a Lockheed Martin agora tem uma joint venture com a SAMI para fabricar helic\u00f3pteros localmente, equipamentos que Riad vinha comprando diretamente dos EUA desde a d\u00e9cada de 1980.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u00cdndia \u00e9 outro exemplo de ind\u00fastria militar em expans\u00e3o composta majoritariamente por corpora\u00e7\u00f5es estatais. Em 2026, quarenta e uma f\u00e1bricas de armamentos administradas pelo governo foram centralizadas em apenas sete empresas estatais subordinadas ao Minist\u00e9rio da Defesa.<a data-contents=\"Rossiter, A. 2019. \u201c(<)a href='https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/full\/10.1080\/14702436.2019.1685880'(>)Making arms in India? Examining New Delhi\u2019s renewed drive for defence-industrial indigenization(<)\/a(>),\u201d (<)em(>)Defense Studies(<)\/em(>), v. 19, n. 4.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-10\" href=\"#footnote-list-10\">10<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Rossiter, A. 2019. \u201c(<)a href='https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/full\/10.1080\/14702436.2019.1685880'(>)Making arms in India? Examining New Delhi\u2019s renewed drive for defence-industrial indigenization(<)\/a(>),\u201d (<)em(>)Defense Studies(<)\/em(>), v. 19, n. 4.<\/span> A autossufici\u00eancia militar \u00e9 um objetivo declarado da estrat\u00e9gia de desenvolvimento indiana ao menos desde a iniciativa Make in India, lan\u00e7ada em 2014. O Grupo Adani Group, liderado por Gautam Adani\u2014aliado pr\u00f3ximo de Narendra Modi\u2014ocupa posi\u00e7\u00e3o central nesse processo de industrializa\u00e7\u00e3o militar. O conglomerado mant\u00e9m parcerias com a israelense Elbit Systems, a Israel Weapon Industries (IWI) e a francesa Thales Group (parcialmente controlada pelo Estado franc\u00eas), para citar alguns exemplos. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os la\u00e7os militares cada vez mais estreitos entre \u00cdndia e Israel v\u00eam atraindo crescente escrut\u00ednio. A \u00cdndia normalizou e estabeleceu rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com Israel nos anos 1990, mas foi apenas em 2017 que os dois pa\u00edses formalizaram sua \u201cparceria estrat\u00e9gica\u201d, envolvendo desenvolvimento conjunto de armamentos e transfer\u00eancia de tecnologia para a \u00cdndia. Se antes Israel ocupava a posi\u00e7\u00e3o de fornecedor e a \u00cdndia a de receptora, hoje a rela\u00e7\u00e3o parece mais com uma parceria de <a href=\"https:\/\/newint.org\/arms\/2025\/partners-power-israel-india-and-arms-trade\" type=\"link\" id=\"https:\/\/newint.org\/arms\/2025\/partners-power-israel-india-and-arms-trade\">desenvolvimento e produ\u00e7\u00e3o conjuntos<\/a>. A exporta\u00e7\u00e3o de drones fabricados em Hyderabad pela Adani-Elbit Advanced Systems India para Israel, certamente, pesou bastante na decis\u00e3o do governo Modi de <a href=\"https:\/\/progressive.international\/wire\/2024-05-21-indias-refusal-to-back-un-arms-embargo-on-israel-may-be-linked-to-adani-drone-exports\/en\/\" type=\"link\" id=\"https:\/\/progressive.international\/wire\/2024-05-21-indias-refusal-to-back-un-arms-embargo-on-israel-may-be-linked-to-adani-drone-exports\/en\/\">se abster<\/a>, em 2024, na vota\u00e7\u00e3o de uma resolu\u00e7\u00e3o do Conselho de Direitos Humanos das Na\u00e7\u00f5es Unidas que defendia um cessar-fogo imediato em Gaza e um embargo de armas contra Israel. <\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Um mundo agofado em armas<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Que conclus\u00f5es podem ser extra\u00eddas desse panorama da ind\u00fastria armamentista global? Apesar de todas as formas pelas quais o imp\u00e9rio americano possa aparentar estar em decl\u00ednio\u2014seja em termos pol\u00edticos, estrat\u00e9gicos ou ideol\u00f3gicos\u2014, seu aparato militar ainda \u00e9 o mais amplo, mais bem financiado e mais sofisticado do mundo. Os Estados Unidos continuam sendo, de longe, o maior gastador militar, produtor b\u00e9lico e exportador de armas do planeta. Os efeitos de sua ind\u00fastria se fazem sentir globalmente, n\u00e3o apenas porque armas fabricadas por empresas dos EUA est\u00e3o sendo utilizadas para chover destrui\u00e7\u00e3o sobre cidades, vilarejos e povoados, de Gaza a Minab e Kismayo, mas tamb\u00e9m porque as pr\u00f3prias empresas sediadas nos Estados Unidos possuem subsidi\u00e1rias e opera\u00e7\u00f5es espalhadas pelo mundo, al\u00e9m de dependerem de componentes produzidos em in\u00fameros pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas os Estados Unidos n\u00e3o s\u00e3o o \u00fanico motor da atual corrida global \u00e0 militariza\u00e7\u00e3o, nem a \u00fanica pot\u00eancia beligerante. Os gastos militares chineses ainda permanecem muito inferiores aos americanos, mas Pequim vem expandindo rapidamente seus arsenais a\u00e9reo, terrestre e naval, ao mesmo tempo em que amplia suas exporta\u00e7\u00f5es, sobretudo ao Paquist\u00e3o. Seus investimentos no porto de Khalifa, nos Emirados \u00c1rabes Unidos, incluem acesso militar, mesmo enquanto os EAU s\u00e3o parceiros externos de empresas estadunidenses. A invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia aprofundou ainda mais a militariza\u00e7\u00e3o russa, enquanto a \u00cdndia, um dos maiores importadores de armas do mundo, permanece o principal mercado para armamentos russos. Ar\u00e1bia Saudita, Emirados \u00c1rabes Unidos, \u00cdndia e Turquia tamb\u00e9m v\u00eam ampliando sua produ\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica, na tentativa de garantir maior autonomia em um mundo marcado por alian\u00e7as cada vez mais inst\u00e1veis. E, embora sejam as aventuras imperiais dos EUA que indiscutivelmente provoquem a maior destrui\u00e7\u00e3o em escala global, R\u00fassia, China, \u00cdndia, Israel, Ar\u00e1bia Saudita e Turquia tamb\u00e9m direcionam seus arsenais crescentes contra popula\u00e7\u00f5es subordinadas em suas respectivas esferas de influ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em uma ind\u00fastria armamentista global profundamente interconectada, alian\u00e7as e responsabilidades tornaram-se difusas. Quem lucra e quem det\u00e9m a propriedade intelectual nas joint ventures entre empresas sauditas ou emiradenses e companhias sediadas nos Estados Unidos? Quais controles estatais de exporta\u00e7\u00e3o se aplicam \u00e0 transfer\u00eancia de armas produzidas por essas parcerias? Essas quest\u00f5es aparentemente t\u00e9cnicas possuem implica\u00e7\u00f5es profundas para o futuro dos conflitos globais e para qualquer perspectiva de regula\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio internacional de armamentos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1934, um comit\u00ea do Senado dos EUA presidido pelo republicano Gerald Nye deu in\u00edcio a 18 meses de audi\u00eancias sobre a ind\u00fastria armamentista dom\u00e9stica, investigando os enormes lucros obtidos com a Primeira Guerra Mundial em meio a especula\u00e7\u00f5es de que os \u201cmercadores da morte\u201d poderiam em breve arrastar os Estados Unidos para outro grande 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