{"id":30875,"date":"2026-05-29T00:00:00","date_gmt":"2026-05-29T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/?p=30875"},"modified":"2026-05-29T03:29:35","modified_gmt":"2026-05-29T03:29:35","slug":"cronicas-do-declinio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/cronicas-do-declinio\/","title":{"rendered":"Cr\u00f4nicas do decl\u00ednio"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cH\u00e1 muita ru\u00edna em uma na\u00e7\u00e3o\u201d, disse certa vez Adam Smith para tranquilizar seus compatriotas brit\u00e2nicos em um momento de derrota.<a data-contents=\"Wood, John Cunningham (ed.). 1983\u20131984. (<)em(>)Adam Smith: Critical Assessments(<)\/em(>). Londres: Croom Helm, p. 9\" class=\"footnote\" id=\"footnote-1\" href=\"#footnote-list-1\">1<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Wood, John Cunningham (ed.). 1983\u20131984. (<)em(>)Adam Smith: Critical Assessments(<)\/em(>). Londres: Croom Helm, p. 9<\/span> Mas quanta, exatamente? As elites pol\u00edticas estadunidenses v\u00eam se fazendo essa pergunta periodicamente h\u00e1 sessenta anos. Em intervalos irregulares, vozes \u00e0 esquerda e \u00e0 direita voltam a anunciar o progn\u00f3stico do decl\u00ednio americano. O que essa s\u00e9rie de previs\u00f5es furadas nos ensina? Os arautos do desastre est\u00e3o condenados ao erro ou simplesmente chegaram cedo demais?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na edi\u00e7\u00e3o do inverno de 1988-1989 da revista <em>Foreign Affairs<\/em>, \u00e0s v\u00e9speras da consolida\u00e7\u00e3o da nova ordem unipolar, o cientista pol\u00edtico Samuel Huntington se debru\u00e7ou sobre a quest\u00e3o no ensaio \u201c<em>The US\u2014Decline or Renewal?\u201d<\/em> Apesar da vit\u00f3ria iminente na Guerra Fria, aquele era um per\u00edodo de profunda ansiedade para o capitalismo estadunidense. O mal-estar da \u00e9poca foi sintetizado pelo candidato democrata \u00e0 Presid\u00eancia Paul Tsongas: \u201cA Guerra Fria acabou. O Jap\u00e3o e a Alemanha venceram.\u201d<a data-contents=\"Lichtenstein, Nelson. 2023. \u201cBill Clinton&#8217;s Failure.\u201d Princeton University Press, 13 de setembro. https:\/\/press.princeton.edu\/ideas\/bill-clintons-failure.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-2\" href=\"#footnote-list-2\">2<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Lichtenstein, Nelson. 2023. \u201cBill Clinton&#8217;s Failure.\u201d Princeton University Press, 13 de setembro. https:\/\/press.princeton.edu\/ideas\/bill-clintons-failure.<\/span> Huntington rejeitava esse derrotismo. Para dissipar os temores do momento, lembrava aos leitores que epis\u00f3dios semelhantes de p\u00e2nico em rela\u00e7\u00e3o ao decl\u00ednio dos EUA vinham se repetindo desde os anos 1950, em sucessivas ondas simbolizadas pelo Sputnik, pelo Vietn\u00e3, pela crise energ\u00e9tica e, agora, no fim da d\u00e9cada de 1980, pelo Jap\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em cada um desses epis\u00f3dios, o decl\u00ednio anunciado n\u00e3o se concretizou. Em retrospecto, \u00e9 f\u00e1cil reconhecer essas fantasias e proje\u00e7\u00f5es pelo que realmente eram. Quem ainda se lembra de best-sellers como <em>The Coming War with Japan<\/em>?<a data-contents=\"Friedman, George e Meredith LeBard. 1991. (<)em(>)The Coming War With Japan(<)\/em(>). New York: St. Martin\u2019s Press\" class=\"footnote\" id=\"footnote-3\" href=\"#footnote-list-3\">3<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Friedman, George e Meredith LeBard. 1991. (<)em(>)The Coming War With Japan(<)\/em(>). New York: St. Martin\u2019s Press<\/span> Mas, embora rejeitasse a tese do decl\u00ednio, Huntington se recusava a tratar os declinistas com condenscend\u00eancia: mesmo temores equivocados mereciam ser levados a s\u00e9rio. De fato, os EUA haviam sobrevivido a in\u00fameros diagn\u00f3sticos supostamente terminais, mas at\u00e9 um hipocontr\u00edaco, defendia ele, pode se beneficiar de visitas regulares ao m\u00e9dico. Teria a rep\u00fablica imperial perdurado <em>sem <\/em>os ataques de p\u00e2nico recorrentes? Seria poss\u00edvel que um discurso alucinat\u00f3rio (Khrushchev nos enterrar\u00e1<a data-contents=\"N.E.: \u201cN\u00f3s os enterraremos\u201d \u00e9 uma (<)a href='https:\/\/time.com\/archive\/6804927\/foreign-news-we-will-bury-you\/'(>)afirma\u00e7\u00e3o(<)\/a(>) atribu\u00edda ao l\u00edder sovi\u00e9tico Nikita Khruschev. Ela teria sido dita a diplomatas ocidentais em uma recep\u00e7\u00e3o na embaixada polonesa em Moscou em novembro de 1956. A frase foi alvo de pol\u00eamicas a respeito de uma (<)a href='https:\/\/web.archive.org\/web\/20160603154555\/https:\/\/www.aulibrary.au.edu\/multim1\/ABAC_Pub\/Galaxy-The-English-Department-Journal\/n2-6-2013.pdf'(>)poss\u00edvel m\u00e1-compreens\u00e3o(<)\/a(>) por parte dos estadunidenses, que teriam a interpretado como uma amea\u00e7a de ataque nuclear, enquanto (<)a href='https:\/\/books.google.com.br\/books?id=rw61VDID7U4C&amp;pg=PA630&amp;redir_esc=y#v=onepage&amp;q&amp;f=false'(>)comentadores(<)\/a(>) argumentaram que a declara\u00e7\u00e3o deveria ser compreendida em chave marxista, no sentido de que o sistema comunista sobreviveria historicamente \u00e0 morte do capitalismo\" class=\"footnote\" id=\"footnote-4\" href=\"#footnote-list-4\">4<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">N.E.: \u201cN\u00f3s os enterraremos\u201d \u00e9 uma (<)a href='https:\/\/time.com\/archive\/6804927\/foreign-news-we-will-bury-you\/'(>)afirma\u00e7\u00e3o(<)\/a(>) atribu\u00edda ao l\u00edder sovi\u00e9tico Nikita Khruschev. Ela teria sido dita a diplomatas ocidentais em uma recep\u00e7\u00e3o na embaixada polonesa em Moscou em novembro de 1956. A frase foi alvo de pol\u00eamicas a respeito de uma (<)a href='https:\/\/web.archive.org\/web\/20160603154555\/https:\/\/www.aulibrary.au.edu\/multim1\/ABAC_Pub\/Galaxy-The-English-Department-Journal\/n2-6-2013.pdf'(>)poss\u00edvel m\u00e1-compreens\u00e3o(<)\/a(>) por parte dos estadunidenses, que teriam a interpretado como uma amea\u00e7a de ataque nuclear, enquanto (<)a href='https:\/\/books.google.com.br\/books?id=rw61VDID7U4C&amp;pg=PA630&amp;redir_esc=y#v=onepage&amp;q&amp;f=false'(>)comentadores(<)\/a(>) argumentaram que a declara\u00e7\u00e3o deveria ser compreendida em chave marxista, no sentido de que o sistema comunista sobreviveria historicamente \u00e0 morte do capitalismo<\/span>) acabasse produzindo sua pr\u00f3pria realidade (a continuidade da primazia americana)?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era precisamente essa a conclus\u00e3o de Huntington: o poder estrutural dos EUA havia perdurado n\u00e3o apesar dos pessimistas, mas por causa deles. Em suas palavras, \u201cos declinistas t\u00eam um papel indispens\u00e1vel na preven\u00e7\u00e3o do que prev\u00eaem\u201d.<a data-contents=\"Huntington, Samuel P.. 1988. \u201c(<)em(>)The US\u2014Decline or Renewal?(<)\/em(>)\u201d. Foreign Affairs, 1\u00ba de novembro. https:\/\/www.foreignaffairs.com\/united-states\/us-decline-or-renewal.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-5\" href=\"#footnote-list-5\">5<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Huntington, Samuel P.. 1988. \u201c(<)em(>)The US\u2014Decline or Renewal?(<)\/em(>)\u201d. Foreign Affairs, 1\u00ba de novembro. https:\/\/www.foreignaffairs.com\/united-states\/us-decline-or-renewal.<\/span> O padr\u00e3o se repetia ao longo das sucessivas ondas de discurso p\u00f3s-Sputnik e dava margem a uma previs\u00e3o astutamente confiante: \u201cenquanto a popula\u00e7\u00e3o estiver periodicamente convencida de que o pa\u00eds est\u00e1 prestes a entrar em decl\u00ednio, \u00e9 improv\u00e1vel que os Estados Unidos entrem em decl\u00ednio\u201d.<a data-contents=\"Huntington 1988. &#8220;Decline or Renewal&#8221;\" class=\"footnote\" id=\"footnote-6\" href=\"#footnote-list-6\">6<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Huntington 1988. &#8220;Decline or Renewal&#8221;<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Plat\u00e3o chamaria esse fen\u00f4meno de \u201cnobre mentira\u201d, uma das formas mais antigas de racionaliza\u00e7\u00e3o. O eleitorado estadunidense precisava ser persuadido da possibilidade de decl\u00ednio de seu pa\u00eds para que apoiasse pol\u00edticas de renova\u00e7\u00e3o. E a quem caberia enganar o p\u00fablico para seu pr\u00f3prio bem? De forma mais imediata, os declinistas. Mas, por tr\u00e1s deles, deveria haver algu\u00e9m capaz de inflar conscientemente o discurso da crise. Pode soar c\u00ednico, mas parece apropriado no caso de Huntington, que certa vez relembrou saudosamente aos leitores de sua contribui\u00e7\u00e3o para o relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Trilateral sobre \u201cA Crise da Democracia\u201d de 1973, quando observou que Truman \u201cconseguiu governar o pa\u00eds com a coopera\u00e7\u00e3o de um n\u00famero relativamente pequeno de advogados e banqueiros de Wall Street\u201d<a data-contents=\"Crozier, Michel, Samuel P. Huntington e Joji Watanuki. 1975. (<)em(>)The Crisis of Democracy: Report on the Governability of Democracies to the Trilateral Commission(<)\/em(>).(<)em(>) (<)\/em(>)Nova York: New York University Press.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-7\" href=\"#footnote-list-7\">7<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Crozier, Michel, Samuel P. Huntington e Joji Watanuki. 1975. (<)em(>)The Crisis of Democracy: Report on the Governability of Democracies to the Trilateral Commission(<)\/em(>).(<)em(>) (<)\/em(>)Nova York: New York University Press.<\/span>\u2014uma rara admiss\u00e3o das fontes do poder pol\u00edtico no S\u00e9culo Americano. Se um radical escrevesse a mesma frase, seria imediatamente crucificado pela falta de sutileza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Chame isso de cinismo ou reducionismo, a perspectiva de Huntington h\u00e1 muito tempo \u00e9 lugar-comum em Cambridge, Manhattan e Washington. Cita\u00e7\u00f5es semelhantes vindas de homens muito mais poderosos do que ele podem ser reproduzidas indefinidamente. Ferdinand Eberstadt, banqueiro de investimentos e arquiteto da ordem do p\u00f3s-guerra, pioneiro do Conselho de Seguran\u00e7a Nacional e da Ag\u00eancia Central de Intelig\u00eancia (CIA), dizia que \u201co pa\u00eds sempre foi governado por crises\u201d. E acrescentava: \u201cna aus\u00eancia de uma crise vis\u00edvel, era preciso cri\u00e1-la para que as coisas fossem feitas\u201d.<a data-contents=\"Kofsky, Frank. 1993. (<)em(>)Harry S. Truman and the War Scare of 1948: A Successful Campaign to Deceive the Nation(<)\/em(>).(<)em(>) (<)\/em(>)Nova York: St. Martin&#8217;s Press, p. 10.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-8\" href=\"#footnote-list-8\">8<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Kofsky, Frank. 1993. (<)em(>)Harry S. Truman and the War Scare of 1948: A Successful Campaign to Deceive the Nation(<)\/em(>).(<)em(>) (<)\/em(>)Nova York: St. Martin&#8217;s Press, p. 10.<\/span> Entre os c\u00edrculos do poder, esse tipo de racioc\u00ednio era praticamente uma piada interna. Em mar\u00e7o de 1950, um congressista da Nova Inglaterra disse ao Secret\u00e1rio de Estado Dean Acheson que n\u00e3o seria poss\u00edvel vender a ideia do rearmamento para a Guerra Fria \u201csem alguma crise dom\u00e9stica\u201d. Caso \u201cStalin n\u00e3o cumpra seu papel de auxiliar na precipita\u00e7\u00e3o de crises\u201d, Acheson n\u00e3o deveria \u201chesitar em cri\u00e1-las ele mesmo\u201d.<a data-contents=\"Casey, Steven. 2005. \u201cSelling NSC-68: The Truman Administration, Public Opinion, and the Politics of Mobilization, 1950\u201351\u201d, Diplomatic History 29, n.\u00ba 4: 655\u2013690.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-9\" href=\"#footnote-list-9\">9<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Casey, Steven. 2005. \u201cSelling NSC-68: The Truman Administration, Public Opinion, and the Politics of Mobilization, 1950\u201351\u201d, Diplomatic History 29, n.\u00ba 4: 655\u2013690.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e7ada ao poder ao lado de George W. Bush em 2000, a ex-Conselheira de Seguran\u00e7a Nacional Condoleezza Rice observou que os EUA \u201ctinham extrema dificuldade em definir seu \u2018interesse nacional\u2019 na aus\u00eancia do poder sovi\u00e9tico\u201d.<a data-contents=\"Rice, Condoleezza. 2000. \u201cPromoting the National Interest: Exercising Power Without Arrogance\u201d, (<)em(>)Chicago Tribune(<)\/em(>), 31 de dezembro. Reimpresso no Washington File do Departamento de Estado dos EUA, 4 de janeiro de 2001, https:\/\/usinfo.org\/wf-archive\/2001\/010104\/epf406.htm.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-10\" href=\"#footnote-list-10\">10<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Rice, Condoleezza. 2000. \u201cPromoting the National Interest: Exercising Power Without Arrogance\u201d, (<)em(>)Chicago Tribune(<)\/em(>), 31 de dezembro. Reimpresso no Washington File do Departamento de Estado dos EUA, 4 de janeiro de 2001, https:\/\/usinfo.org\/wf-archive\/2001\/010104\/epf406.htm.<\/span> Pendurou, ent\u00e3o, um retrato de Acheson em seu gabinete e esperou. O radicalismo isl\u00e2mico pouco interessava a uma soviet\u00f3loga de forma\u00e7\u00e3o como Rice, at\u00e9 que, de repente, provocou \u201cum daqueles grandes terremotos que esclarecem e explicitam tudo\u201d.<a data-contents=\"Robin, Corey. 2017. (<)em(>)The Reactionary Mind: Conservatism from Edmund Burke to Donald Trump(<)\/em(>). 2\u00aa ed. Nova York: Oxford University Press, p. 207.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-11\" href=\"#footnote-list-11\">11<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Robin, Corey. 2017. (<)em(>)The Reactionary Mind: Conservatism from Edmund Burke to Donald Trump(<)\/em(>). 2\u00aa ed. Nova York: Oxford University Press, p. 207.<\/span> As ru\u00ednas em Manhattan viraram mat\u00e9ria-prima para uma nova crise e, prometeu Rice, para mais um s\u00e9culo em que a \u00fanica superpot\u00eancia do mundo seria capaz de \u201ctransformar status quo vol\u00e1teis que j\u00e1 n\u00e3o servem aos nossos interesses\u201d.<a data-contents=\"Rice, Condoleezza. 2005. \u201cThe Promise of Democratic Peace\u201d, (<)em(>)Washington Post(<)\/em(>), 11 de dezembro. Reimpresso pelo Departamento de Estado dos EUA, https:\/\/2001-2009.state.gov\/secretary\/rm\/2005\/57888.htm.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-12\" href=\"#footnote-list-12\">12<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Rice, Condoleezza. 2005. \u201cThe Promise of Democratic Peace\u201d, (<)em(>)Washington Post(<)\/em(>), 11 de dezembro. Reimpresso pelo Departamento de Estado dos EUA, https:\/\/2001-2009.state.gov\/secretary\/rm\/2005\/57888.htm.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, por mais eloquentes que sejam esses epis\u00f3dios descarados de cinismo, eles t\u00eam pouco a dizer se tudo o que extrairmos for a percep\u00e7\u00e3o de que elites pol\u00edticas e econ\u00f4micas manipularam, ou at\u00e9 mesmo fabricaram, narrativas de crise e decl\u00ednio. A quest\u00e3o central, hoje, \u00e9 saber se desta vez \u00e9 diferente.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A hist\u00f3ria do decl\u00ednio segundo Huntington, 1958-1988<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estudos de casos s\u00e3o a melhor forma de rastrear as complexas intera\u00e7\u00f5es entre o discurso declinista e a realidade do decl\u00ednio. A genealogia de Huntington come\u00e7a no final da d\u00e9cada de 1950, quando muitas elites ocidentais temiam que o crescimento relativamente acelerado da renda nacional sovi\u00e9tica pudesse implicar um rebaixamento dos EUA enquanto pot\u00eancia. Em retrospecto, essa cren\u00e7a no crescimento sovi\u00e9tico se mostrou infundada, mas o desempenho dos EUA nesse per\u00edodo foi, de fato, insuficiente. Entre meados de 1953 e meados de 1958, a produ\u00e7\u00e3o industrial e o n\u00edvel de emprego no setor privado recuaram. Durante toda a era Eisenhower, o PIB real per capita cresceu pouco mais de 1% ao ano.<a data-contents=\"U.S. Bureau of Labor Statistics. s.d. &#8220;All Employees, Total Private&#8221;. FRED Economic Data, Federal Reserve Bank of St. Louis. Acesso em 19 de maio de 2026.&nbsp; https:\/\/fred.stlouisfed.org\/series\/USPRIV; U.S. Bureau of Economic Analysis. s.d. &#8220;Real Gross Domestic Product Per Capita&#8221;. FRED Economic Data, Federal Reserve Bank of St. Louis. Acesso em 19 de maio de 2026. https:\/\/fred.stlouisfed.org\/series\/A939RX0Q048SBEA; Board of Governors of the Federal Reserve System (US). s.d. &#8220;Industrial Production: Total Index&#8221;. FRED Economic Data, Federal Reserve Bank of St. Louis. Acesso em 19 de maio de 2026. https:\/\/fred.stlouisfed.org\/series\/INDPRO.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-13\" href=\"#footnote-list-13\">13<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">U.S. Bureau of Labor Statistics. s.d. &#8220;All Employees, Total Private&#8221;. FRED Economic Data, Federal Reserve Bank of St. Louis. Acesso em 19 de maio de 2026.&nbsp; https:\/\/fred.stlouisfed.org\/series\/USPRIV; U.S. Bureau of Economic Analysis. s.d. &#8220;Real Gross Domestic Product Per Capita&#8221;. FRED Economic Data, Federal Reserve Bank of St. Louis. Acesso em 19 de maio de 2026. https:\/\/fred.stlouisfed.org\/series\/A939RX0Q048SBEA; Board of Governors of the Federal Reserve System (US). s.d. &#8220;Industrial Production: Total Index&#8221;. FRED Economic Data, Federal Reserve Bank of St. Louis. Acesso em 19 de maio de 2026. https:\/\/fred.stlouisfed.org\/series\/INDPRO.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 4 de outubro de 1957, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica lan\u00e7ou o primeiro sat\u00e9lite artificial da hist\u00f3ria. A imagem do Sputnik, impulsionado por uma vers\u00e3o modificada de um m\u00edssil bal\u00edstico intercontinental, permitiu ao discurso declinista apresentar o desafio tecnoecon\u00f4mico sovi\u00e9tico como uma amea\u00e7a direta \u00e0 seguran\u00e7a f\u00edsica dos cidad\u00e3os americanos. Naquele mesmo momento, a economia dos EUA entrava na pior recess\u00e3o desde os anos 1930. Aproveitando a conjuntura, o Senador de Washington Henry \u201cScoop\u201d Jackson, importante lideran\u00e7a liberal do Partido Democrata e aliado da Boeing, reivindicou uma \u201cSemana Nacional da Vergonha e do Perigo\u201d.<a data-contents=\"Brzezinski, Matthew. 2007. (<)em(>)Red Moon Rising: Sputnik and the Hidden Rivalries That Ignited the Space Age(<)\/em(>). Nova York: Times Books, p. 297\" class=\"footnote\" id=\"footnote-14\" href=\"#footnote-list-14\">14<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Brzezinski, Matthew. 2007. (<)em(>)Red Moon Rising: Sputnik and the Hidden Rivalries That Ignited the Space Age(<)\/em(>). Nova York: Times Books, p. 297<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As aparentemente intermin\u00e1veis \u00e1reas de fragilidade relativa catalogadas pelo lan\u00e7amento do Sputnik\u2014crescimento econ\u00f4mico, gastos com pesquisa e desenvolvimento, investimento em educa\u00e7\u00e3o, taxas de forma\u00e7\u00e3o em engenharia e assim por diante\u2014serviam como argumentos para que a na\u00e7\u00e3o levasse a s\u00e9rio sua posi\u00e7\u00e3o no mundo. O p\u00e2nico do Sputnik<em> <\/em>foi o trampolim necess\u00e1rio para impulsionar o crescimento econ\u00f4mico, as compras militares e os investimentos p\u00fablicos ancorados no aparato de defesa. E, de quebra, essa s\u00edntese pol\u00edtica ainda ajudava a bloquear alternativas social-democr\u00e1ticas mais inc\u00f4modas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O lan\u00e7amento do Sputnik foi, evidentemente, um acontecimento real, e o crescimento econ\u00f4mico dos EUA era, de fato, relativamente lento. Mas para alimentar a narrativa hist\u00e9rica da crise, detalhes fundamentais foram ocultados, exagerados ou distorcidos. A express\u00e3o mais clara dessa engana\u00e7\u00e3o descarada foi a chamada \u201clacuna de m\u00edsseis\u201d, que John F. Kennedy instrumentalizou em sua campanha pela retomada democrata do poder em 1960. De acordo com v\u00e1rios \u201cespecialistas\u201d alinhados ao Partido Democrata, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica em breve teria 1.500 m\u00edsseis bal\u00edsticos intercontinentais (ICBMs, na sigla em ingl\u00eas), em compara\u00e7\u00e3o com apenas 130 nos EUA. Internamente, no entanto, a CIA estimava que os sovi\u00e9ticos teriam cerca de uma d\u00fazia de ICBMs. Hoje sabemos que esse n\u00famero era ainda menor. Mesmo na \u00e9poca, Eisenhower tinha consci\u00eancia de que a lacuna de m\u00edsseis era uma fantasia conveniente, raz\u00e3o pela qual reagiu \u00e0 derrota republicana em 1960 com um discurso que criticava o que chamou de complexo industrial-militar. E o pr\u00f3prio Kennedy, se algum dia realmente acreditou na exist\u00eancia da lacuna, logo passou a suspeitar (em suas pr\u00f3prias palavras) que \u201cparece que n\u00f3s, alguns de n\u00f3s, distorcemos os fatos e criamos um mito\u201d.<a data-contents=\"John F. Kennedy Presidential Library and Museum. 2002. &#8220;New Tapes: JFK Questioned Value of Nuclear Build-Up&#8221; press release. 6 de fevereiro. https:\/\/www.jfklibrary.org\/about-us\/news-and-press\/press-releases\/new-tapes-jfk-questioned-value-of-nuclear-build-up.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-15\" href=\"#footnote-list-15\">15<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">John F. Kennedy Presidential Library and Museum. 2002. &#8220;New Tapes: JFK Questioned Value of Nuclear Build-Up&#8221; press release. 6 de fevereiro. https:\/\/www.jfklibrary.org\/about-us\/news-and-press\/press-releases\/new-tapes-jfk-questioned-value-of-nuclear-build-up.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A combina\u00e7\u00e3o do golpe de propaganda sovi\u00e9tico com a recess\u00e3o nos EUA tornou-se a chave da pol\u00edtica americana p\u00f3s-1958. Mas o que realmente estava em jogo nesse labirinto de espelhos? Segundo o historiador Julian Zelizer, o \u201cobjetivo\u201d do mito da lacuna de m\u00edsseis era \u201ca revitaliza\u00e7\u00e3o do internacionalismo liberal\u201d.<a data-contents=\"Zelizer, Julian E.. 2007. &#8220;When Liberals Were Hawks: Liberal Militarism, The Republican Right, and the Cold War&#8221;. Paper apresentado na Annual Meeting of the Society for Historians of American Foreign Relations (SHAFR).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-16\" href=\"#footnote-list-16\">16<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Zelizer, Julian E.. 2007. &#8220;When Liberals Were Hawks: Liberal Militarism, The Republican Right, and the Cold War&#8221;. Paper apresentado na Annual Meeting of the Society for Historians of American Foreign Relations (SHAFR).<\/span> No plano dom\u00e9stico, a vit\u00f3ria seria medida pelo crescimento da produ\u00e7\u00e3o: a estagna\u00e7\u00e3o generalizada que assombrou a d\u00e9cada de 1950 foi substitu\u00edda pelo boom ininterrupto da d\u00e9cada de 1960. A partir desse estudo de caso, Huntington formulou duas hip\u00f3teses importantes. A primeira dizia respeito \u00e0 utilidade do declinismo exagerado para assegurar apoio pol\u00edtico \u00e0 renova\u00e7\u00e3o do poder nacional. A segunda tratava do car\u00e1ter \u201cautolimitante\u201d dos cortes no or\u00e7amento militar, posto que os efeitos econ\u00f4micos de qualquer retra\u00e7\u00e3o mais dr\u00e1stica poderiam \u201cdar origem a press\u00f5es e demandas pol\u00edticas potencialmente atendidas por um aumento nos gastos militares\u201d.<a data-contents=\"Huntington, Samuel P.. 1961. (<)em(>)The Common Defense: Strategic Programs in National Politics(<)\/em(>). New York: Columbia University Press.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-17\" href=\"#footnote-list-17\">17<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Huntington, Samuel P.. 1961. (<)em(>)The Common Defense: Strategic Programs in National Politics(<)\/em(>). New York: Columbia University Press.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As f\u00f3rmulas b\u00e1sicas do capitalismo da Guerra Fria perduraram at\u00e9 1968, quando os vietcongues e os mercados internacionais de c\u00e2mbio expuseram os limites desse arranjo entre pol\u00edtica interna e externa. Poucas semanas ap\u00f3s a Ofensiva do Tet, \u201cmultiplicaram-se os relatos de hot\u00e9is, companhias a\u00e9reas e casas de c\u00e2mbio europeias se recusando a aceitar pagamentos em d\u00f3lares\u201d.<a data-contents=\"Coombs, Charles A.. 1976. (<)em(>)The Arena of International Finance(<)\/em(>). Nova York: John Wiley &amp; Sons, p. 168.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-18\" href=\"#footnote-list-18\">18<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Coombs, Charles A.. 1976. (<)em(>)The Arena of International Finance(<)\/em(>). Nova York: John Wiley &amp; Sons, p. 168.<\/span> Medidas de emerg\u00eancia\u2014incluindo uma pausa nos bombardeios e a ren\u00fancia de Lyndon Johnson\u2014estancaram o sangramento. Mas a crise de confian\u00e7a no poder e na solv\u00eancia dos Estados Unidos persistiu, levando ao fim do padr\u00e3o ouro-d\u00f3lar em 1971.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A longa desacelera\u00e7\u00e3o de meados dos anos 1970, que levou dezenas de milh\u00f5es ao desemprego em todo o mundo capitalista, fez muita gente s\u00e9ria falar em uma nova depress\u00e3o. Enquanto isso, nacionalistas de recursos naturais liderados pela OPEP passaram a desafiar os fundamentos da ordem econ\u00f4mica internacional. As expropria\u00e7\u00f5es atingiram n\u00edveis recordes, enquanto consultorias empresariais tentavam prever o local da pr\u00f3xima revolu\u00e7\u00e3o por meio de computadores com cart\u00f5es perfurados (principais candidatos: Rod\u00e9sia, Nig\u00e9ria, Turquia, L\u00edbano, El Salvador, L\u00edbia, Portugal, It\u00e1lia, Argentina e Zaire). \u201c\u00c9 o fim do d\u00f3lar como moeda internacional\u201d, declarou Charles Kindleberger.<a data-contents=\"Mehrling, Perry. 2022. (<)em(>)Money and Empire: Charles P. Kindleberger and the Dollar System(<)\/em(>). Cambridge: Cambridge University Press, p. 155.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-19\" href=\"#footnote-list-19\">19<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Mehrling, Perry. 2022. (<)em(>)Money and Empire: Charles P. Kindleberger and the Dollar System(<)\/em(>). Cambridge: Cambridge University Press, p. 155.<\/span> No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980, dentre os livros de n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o mais vendidos estavam <em>Crisis Investing <\/em>e <em>The Coming Currency Collapse.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tudo isso era uma grande dor de cabe\u00e7a, e era extremamente complicado imaginar como superar esses problemas dentro da pol\u00edtica democr\u00e1tica estadunidense, atribulada por for\u00e7as como o \u201cneo-isolacionismo\u201d de direita e o antimilitarismo liberal. Nixon e Kissinger tentaram lidar com as complica\u00e7\u00f5es internacionais declarando que \u201ca era das superpot\u00eancias est\u00e1 chegando ao fim\u201d.<a data-contents=\"Kissinger, Henry A.. 2003. &#8220;Central Issues of American Foreign Policy&#8221;. Em (<)em(>)Foreign Relations of the United States, 1969\u20131976, vol. I, Foundations of Foreign Policy, 1969\u20131972(<)\/em(>). Smith, Louis J. e Herschler, David H. (eds.). Washington, D.C.: Government Printing Office, Document 4. https:\/\/history.state.gov\/historicaldocuments\/frus1969-76v01\/d4\" class=\"footnote\" id=\"footnote-20\" href=\"#footnote-list-20\">20<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Kissinger, Henry A.. 2003. &#8220;Central Issues of American Foreign Policy&#8221;. Em (<)em(>)Foreign Relations of the United States, 1969\u20131976, vol. I, Foundations of Foreign Policy, 1969\u20131972(<)\/em(>). Smith, Louis J. e Herschler, David H. (eds.). Washington, D.C.: Government Printing Office, Document 4. https:\/\/history.state.gov\/historicaldocuments\/frus1969-76v01\/d4<\/span> Jimmy Carter gabava-se de que os EUA tinham finalmente se libertado daquele \u201cmedo desmedido do comunismo que outrora nos levou\u201d<a data-contents=\"Carter, Jimmy. 1977. &#8220;Address at Commencement Exercises at the University of Notre Dame.&#8221; Em (<)em(>)The American Presidency Project(<)\/em(>). Peters, Gerhard e Woolley, John T. (eds.). 22 de maio https:\/\/www.presidency.ucsb.edu\/documents\/address-commencement-exercises-the-university-notre-dame.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-21\" href=\"#footnote-list-21\">21<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Carter, Jimmy. 1977. &#8220;Address at Commencement Exercises at the University of Notre Dame.&#8221; Em (<)em(>)The American Presidency Project(<)\/em(>). Peters, Gerhard e Woolley, John T. (eds.). 22 de maio https:\/\/www.presidency.ucsb.edu\/documents\/address-commencement-exercises-the-university-notre-dame.<\/span> a desastres como o Vietn\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante do enfraquecimento do militarismo globalista, uma influente coaliz\u00e3o de elites se mobilizou para ressuscitar a ideia de uma amea\u00e7a sovi\u00e9tica clara e iminente. \u201cPrecisamos de um Pearl Harbor para nos despertar\u201d, escreveu em 1977 o neoguerreiro frio Eugene Rostow.<a data-contents=\"Gibbs, David N.. 2024. (<)em(>)Revolt of the Rich: How the Politics of the 1970s Widened America&#8217;s Class Divide(<)\/em(>). New York: Columbia University Press.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-22\" href=\"#footnote-list-22\">22<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Gibbs, David N.. 2024. (<)em(>)Revolt of the Rich: How the Politics of the 1970s Widened America&#8217;s Class Divide(<)\/em(>). New York: Columbia University Press.<\/span> Alguns anos depois, Rostow e seus companheiros do Comit\u00ea sobre o Perigo Iminente inundariam jornais e comiss\u00f5es do Congresso com a alega\u00e7\u00e3o fantasiosa de que a Revolu\u00e7\u00e3o Iraniana era o tiro de largada de uma nova ofensiva sovi\u00e9tica. Na aus\u00eancia de um verdadeiro Yamamoto, qualquer coisa serve de Pearl Harbor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O p\u00e2nico da Segunda Guerra Fria foi cultivado por um grupo bipartid\u00e1rio que inclu\u00eda democratas como Samuel Huntington. Mas seu maior benefici\u00e1rio foi Reagan, que chegou ao poder com ideias vagas sobre estrat\u00e9gia e fortes compromissos com os interesses dom\u00e9sticos do complexo industrial-militar. De acordo com William Niskanen, o economista de Reagan, o or\u00e7amento da defesa havia se tornado \u201cpouco mais do que um apanhado de solicita\u00e7\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias de cada ramo das For\u00e7as Armadas\u201d.<a data-contents=\"Collins, Robert M.. 2000. (<)em(>)More: The Politics of Economic Growth in Postwar America(<)\/em(>). Nova York: Oxford University Press, p. 202.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-23\" href=\"#footnote-list-23\">23<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Collins, Robert M.. 2000. (<)em(>)More: The Politics of Economic Growth in Postwar America(<)\/em(>). Nova York: Oxford University Press, p. 202.<\/span> Mas at\u00e9 a hist\u00f3ria oficial publicada pelo Gabinete do Secret\u00e1rio de Defesa sofreu para apresentar argumentos favor\u00e1veis ao rearmamento:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi uma rea\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria e apropriada \u00e0 amea\u00e7a sovi\u00e9tica? Ou foi apenas uma forma de satisfazer os interesses do complexo industrial-militar? Ou um pouco de cada?<a data-contents=\"Keefer, Edward C.. 2023. (<)em(>)Caspar Weinberger and the U.S. Military Buildup, 1981\u20131985(<)\/em(>). Secretaries of Defense Historical Series, vol. X. Washington, D.C.: Historical Office, Office of the Secretary of Defense, p. 3\" class=\"footnote\" id=\"footnote-24\" href=\"#footnote-list-24\">24<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Keefer, Edward C.. 2023. (<)em(>)Caspar Weinberger and the U.S. Military Buildup, 1981\u20131985(<)\/em(>). Secretaries of Defense Historical Series, vol. X. Washington, D.C.: Historical Office, Office of the Secretary of Defense, p. 3<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda menos plaus\u00edvel do que a Guerra Fria requentada era a ideia de que o Jap\u00e3o representasse uma amea\u00e7a \u00e0 seguran\u00e7a nacional dos EUA. Um dos est\u00edmulos para o ensaio de Huntington foi o inesperado best-seller do historiador Paul Kennedy, <em>The Rise and Fall of the Great Powers<\/em>, cujo argumento era que os EUA haviam reca\u00eddo em um padr\u00e3o familiar de expans\u00e3o imperial fiscalmente ruinosa. O verdadeiro vencedor seria o Jap\u00e3o, cuja liberdade em rela\u00e7\u00e3o aos custos militares lhe havia possibilitado conquistar, um ap\u00f3s o outro, mercados civis ao redor do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vale a pena relembrar a extens\u00e3o e a irracionalidade do p\u00e2nico em torno do Jap\u00e3o. Era rid\u00edculo sugerir que um pa\u00eds desarmado e dependente representasse uma amea\u00e7a \u00e0 seguran\u00e7a de qualquer pessoa nos Estados Unidos. (Isso n\u00e3o impediu que magnatas do Vale do Sil\u00edcio, como Robert Noyce, da Intel, alertassem que \u201celes querem cortar nossos pesco\u00e7os\u201d<a data-contents=\"Bylinsky, Gene. 1978. &#8220;The Japanese Spies in Silicon Valley&#8221;. (<)em(>)Fortune(<)\/em(>), 27 de fevereiro, 74\u201379. Um trecho do artigo foi citado em 1983 numa (<)a href='https:\/\/www.google.com\/books\/edition\/Building_and_sustaining_the_economic_rec\/ZfUUAAAAYAAJ?hl=en&amp;gbpv=1&amp;dq=%E2%80%9CThey+are+out+to+slit+our+throats.%E2%80%9D&amp;pg=PA323&amp;printsec=frontcover'(>)sess\u00e3o do Congresso(<)\/a(>) para o Subcommittee on Domestic Monetary Policy.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-25\" href=\"#footnote-list-25\">25<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Bylinsky, Gene. 1978. &#8220;The Japanese Spies in Silicon Valley&#8221;. (<)em(>)Fortune(<)\/em(>), 27 de fevereiro, 74\u201379. Um trecho do artigo foi citado em 1983 numa (<)a href='https:\/\/www.google.com\/books\/edition\/Building_and_sustaining_the_economic_rec\/ZfUUAAAAYAAJ?hl=en&amp;gbpv=1&amp;dq=%E2%80%9CThey+are+out+to+slit+our+throats.%E2%80%9D&amp;pg=PA323&amp;printsec=frontcover'(>)sess\u00e3o do Congresso(<)\/a(>) para o Subcommittee on Domestic Monetary Policy.<\/span>) Tentativas for\u00e7adas de redefinir o Jap\u00e3o como um enclave sovi\u00e9tico apenas real\u00e7avam a incongru\u00eancia da narrativa. No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980, a Toshiba vendeu oito m\u00e1quinas de controle num\u00e9rico \u00e0 URSS, contornando deliberadamente as restri\u00e7\u00f5es de exporta\u00e7\u00e3o impostas pelos EUA. Supostamente, essas sofisticadas fresadoras poderiam ser usadas na fabrica\u00e7\u00e3o de parafusos para propulsores de submarinos. Certamente, alegou o Pent\u00e1gono, n\u00e3o era coincid\u00eancia que a marinha sovi\u00e9tica tivesse acabado de alcan\u00e7ar um avan\u00e7o inesperado na redu\u00e7\u00e3o do ru\u00eddo de seus submarinos nucleares.<a data-contents=\"Chapman, Bert. 2013. (<)em(>)Export Controls: A Contemporary History(<)\/em(>). Lanham, MD: University Press of America, p. 263.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-26\" href=\"#footnote-list-26\">26<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Chapman, Bert. 2013. (<)em(>)Export Controls: A Contemporary History(<)\/em(>). Lanham, MD: University Press of America, p. 263.<\/span> Logo depois, \u00e9 claro, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica deixaria de existir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Huntington rejeitava confiantemente a ideia de que o Jap\u00e3o fosse, ou pudesse se tornar, um concorrente pr\u00f3ximo dos EUA. A pot\u00eancia industrial asi\u00e1tica ainda carecia de uma ideologia universalmente atraente. Mesmo na frente econ\u00f4mica, o modelo de crescimento japon\u00eas mostrava sinais de queda em seus rendimentos, enquanto os EUA haviam sustentado uma participa\u00e7\u00e3o relativamente est\u00e1vel no PIB mundial e nas exporta\u00e7\u00f5es da d\u00e9cada de 1960 at\u00e9 a d\u00e9cada de 1980. Huntington tamb\u00e9m desprezava a ideia de que \u201co decl\u00ednio decorre do imperialismo e do militarismo\u201d.<a data-contents=\"Huntington 1988, \u201cDecline or Renewal&#8221;, p. 86.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-27\" href=\"#footnote-list-27\">27<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Huntington 1988, \u201cDecline or Renewal&#8221;, p. 86.<\/span> Estudioso dos anos 1950, ele sabia que, muitas vezes, o oposto era verdadeiro. De qualquer forma, mesmo no auge da Segunda Guerra Fria, o or\u00e7amento de defesa dos EUA respondia por bem menos de 10% do PIB.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo assim, no final da d\u00e9cada, Huntington concluiu que o p\u00e2nico declinista era necess\u00e1rio para levar os estadunidenses a enfrentar os desafios reais, mas remedi\u00e1veis, que tinham diante de si. O problema estava no carrinho de compras, e n\u00e3o nas armas: \u201co consumismo, e n\u00e3o o militarismo, \u00e9 a amea\u00e7a \u00e0 for\u00e7a americana.\u201d<a data-contents=\"Huntington 1988, \u201cDecline or Renewal&#8221;, p. 88.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-28\" href=\"#footnote-list-28\">28<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Huntington 1988, \u201cDecline or Renewal&#8221;, p. 88.<\/span> A participa\u00e7\u00e3o do consumo no PIB havia, de fato, disparado na d\u00e9cada de 1980 (embora Huntington n\u00e3o mencionasse que esse consumo excessivo era altamente concentrado nas classes abastadas). Nesse aspecto, o Jap\u00e3o parecia ter vantagem, pois o consumo representava apenas 67% do seu PIB, em compara\u00e7\u00e3o com 78% nos EUA. Sempre foi dif\u00edcil convencer as pessoas de que elas viviam bem demais, raz\u00e3o pela qual uma pequena crise talvez fosse exatamente o rem\u00e9dio prescrito.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Da &#8220;crise&#8221; \u00e0 Crise, 1988-2016<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A anatomia huntintoniana do declinismo foi transmitida como heran\u00e7a intelectual de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o entre as elites estadunidenses. At\u00e9 bem pouco tempo atr\u00e1s, essas elites ainda recorriam a Huntington para se tranquilizar. Em 2014, o ex-conselheiro de Seguran\u00e7a Nacional de Obama, Tom Donilon, observou que o declinismo recorrente \u201cfaz parte do nosso DNA e ajuda a impulsionar nossa renova\u00e7\u00e3o\u201d. Citando diretamente o artigo de Huntington na<em> Foreign Affairs<\/em>, afirmou: \u201cenquanto a popula\u00e7\u00e3o for periodicamente convencida de que o pa\u00eds est\u00e1 prestes a entrar em decl\u00ednio, \u00e9 improv\u00e1vel que os Estados Unidos entrem em decl\u00ednio\u201d. Qualquer desafio real\u2014a fraca recupera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s 2008, o Tea Party, Piketty, a China\u2014poderia ser tratado com doses homeop\u00e1ticas de ret\u00f3rica da crise.<a data-contents=\"Donilon, Thomas. 2014. &#8220;The Landon Lecture.&#8221; (<)em(>)Landon Lecture Series(<)\/em(>), (<)em(>)Kansas State University(<)\/em(>). Manhattan: KS, 15 de abril. (<)a href='https:\/\/www.k-state.edu\/landon\/speakers\/thomas-donilon\/transcript.html'(>)\u00a0https:\/\/www.k-state.edu\/landon\/speakers\/thomas-donilon\/transcript.html(<)\/a(>).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-29\" href=\"#footnote-list-29\">29<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Donilon, Thomas. 2014. &#8220;The Landon Lecture.&#8221; (<)em(>)Landon Lecture Series(<)\/em(>), (<)em(>)Kansas State University(<)\/em(>). Manhattan: KS, 15 de abril. (<)a href='https:\/\/www.k-state.edu\/landon\/speakers\/thomas-donilon\/transcript.html'(>)\u00a0https:\/\/www.k-state.edu\/landon\/speakers\/thomas-donilon\/transcript.html(<)\/a(>).<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2016, por\u00e9m, Hillary Clinton perdeu as elei\u00e7\u00f5es para Donald Trump e a confian\u00e7a nesse imagin\u00e1rio de resili\u00eancia americana passou a ser um problema geracional para a pol\u00edtica das elites. O choque foi profundo. Somada \u00e0 inesperada ascens\u00e3o de Bernie Sanders nas prim\u00e1rias democratas, a vit\u00f3ria de Trump passou a ser interpretada como uma crise de legitimidade do capitalismo liberal e, em particular, de sua variante globalizada. Jake Sullivan, o prot\u00e9g\u00e9e linha-dura de Clinton, ficou encarregado de examinar os escombros da campanha e concluiu que a vit\u00f3ria de Trump \u201crefletia o esgotamento do modelo econ\u00f4mico p\u00f3s-Guerra Fria\u201d, como se n\u00e3o houvesse sinais de alerta anteriores.<a data-contents=\"Hughes, Chris. 2025. (<)em(>)Marketcrafters: The 100-Year Struggle to Shape the American Economy(<)\/em(>). New York: Avid Reader Press, p. 296\" class=\"footnote\" id=\"footnote-30\" href=\"#footnote-list-30\">30<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Hughes, Chris. 2025. (<)em(>)Marketcrafters: The 100-Year Struggle to Shape the American Economy(<)\/em(>). New York: Avid Reader Press, p. 296<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conforme tentamos desvendar o significado pol\u00edtico do discurso declinista, vale retomar o ponto em que Huntington havia parado e recordar as transforma\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas da economia americana que precederam essa nova onda de declinismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que estava acontecendo na d\u00e9cada de 1980, quando Huntington podia desprezar t\u00e3o facilmente temores de fragilidade econ\u00f4mica? Por um lado, o dinamismo japon\u00eas tinha evaporado e j\u00e1 n\u00e3o parecia existir qualquer amea\u00e7a real \u00e0 supremacia econ\u00f4mica dos EUA. Al\u00e9m da fraqueza dos concorrentes, o crescimento relativamente forte da economia do pa\u00eds sustentou alega\u00e7\u00f5es de uma revitaliza\u00e7\u00e3o industrial. Segundo o historiador Robert Brenner, ap\u00f3s 1986, \u201co setor manufatureiro dos EUA e, com ele, a economia privada do pa\u00eds como um todo alcan\u00e7aram uma recupera\u00e7\u00e3o impressionante da lucratividade e do dinamismo\u201d. No final dos anos 1990, o investimento em capital fixo das empresas americanas ultrapassou os picos da \u201cera de ouro\u201d pr\u00e9-Reagan.<a data-contents=\"U.S. Bureau of Economic Analysis. s.d.. &#8220;Private Nonresidential Fixed Investment\/Gross Domestic Product,&#8221; (<)em(>)FRED Economic Data, Federal Reserve Bank of St. Louis(<)\/em(>). Acesso em 19 de maio de 2026. https:\/\/fred.stlouisfed.org\/graph\/?g=1W4E1.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-31\" href=\"#footnote-list-31\">31<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">U.S. Bureau of Economic Analysis. s.d.. &#8220;Private Nonresidential Fixed Investment\/Gross Domestic Product,&#8221; (<)em(>)FRED Economic Data, Federal Reserve Bank of St. Louis(<)\/em(>). Acesso em 19 de maio de 2026. https:\/\/fred.stlouisfed.org\/graph\/?g=1W4E1.<\/span> Junto \u00e0 euforia especulativa e \u00e0s fraudes da d\u00e9cada, indicadores mais tradicionais, como o investimento empresarial, forneciam uma base concreta para o boom.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao mesmo tempo, a base industrial americana havia sido radicalmente reestruturada de maneira relativamente bem-sucedida. Ningu\u00e9m negava que a desindustrializa\u00e7\u00e3o da d\u00e9cada de 1980 tivesse sido disruptiva. De acordo com a Brookings, as perdas repentinas de empregos nesse per\u00edodo \u201csuperaram de longe qualquer outra onda de demiss\u00f5es na hist\u00f3ria recente dos Estados Unidos\u201d. Ainda assim, seus efeitos foram altamente concentrados, afetando principalmente dois setores (sider\u00fargico e automotivo) e algumas dezenas de condados (de um total de mais de 3 mil em todo o pa\u00eds).<a data-contents=\"Feyrer, James Donald, Bruce Sacerdote e Ariel Dora Stern. 2007. \u201cDid the Rust Belt Become Shiny? A Study of Cities and Counties That Lost Steel and Auto Jobs in the 1980s\u201d, (<)em(>)Brookings-Wharton Papers on Urban Affairs(<)\/em(>). https:\/\/dx.doi.org\/10.1353\/urb.2007.0005.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-32\" href=\"#footnote-list-32\">32<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Feyrer, James Donald, Bruce Sacerdote e Ariel Dora Stern. 2007. \u201cDid the Rust Belt Become Shiny? A Study of Cities and Counties That Lost Steel and Auto Jobs in the 1980s\u201d, (<)em(>)Brookings-Wharton Papers on Urban Affairs(<)\/em(>). https:\/\/dx.doi.org\/10.1353\/urb.2007.0005.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ind\u00fastria pesada nunca se recuperou totalmente, mas vers\u00f5es impressionistas da hist\u00f3ria da desindustrializa\u00e7\u00e3o acabaram obscurecendo a profundidade da reestrutura\u00e7\u00e3o que ocorreu ap\u00f3s o fundo do po\u00e7o da era Reagan. Ao longo da d\u00e9cada de 1990, quase 300 mil postos de trabalho foram criados no setor automotivo dos EUA. Esses novos empregos n\u00e3o surgiram nos mesmos lugares de antes nem ofereceram o mesmo grau de estabilidade aos trabalhadores, tampouco levaram \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de sindicatos poderosos. Mas, do ponto de vista de um gestor do capitalismo estadunidense ou de um acionista de alguma das tr\u00eas grandes montadoras, era dif\u00edcil ver sinais de fracasso nisso. Hist\u00f3rias semelhantes de racionaliza\u00e7\u00e3o orientada pelo lucro e pela recupera\u00e7\u00e3o parcial poderiam ser contadas sobre os setores sider\u00fargico e de maquin\u00e1rios ap\u00f3s 1982. Para a pol\u00edtica das elites, no entanto, os impactos geracionais desse deslocamento\u2014e seu lugar na hist\u00f3ria do discurso declinista\u2014s\u00f3 se tornariam plenamente vis\u00edveis em 2016.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais decisiva do que a reestrutura\u00e7\u00e3o das velhas ind\u00fastrias foi a supremacia americana na manufatura de alta tecnologia. No livro <em>The Making of Global Capitalism<\/em>, Leo Panitch e Sam Gindin observam que, no fim dos anos 1990, \u201c35% da produ\u00e7\u00e3o mundial de alta tecnologia ocorria dentro dos Estados Unidos\u201d.<a data-contents=\"Dentro dos EUA, ou seja, \u201csem contar a extensa produ\u00e7\u00e3o de alta tecnologia das multinacionais americanas no exterior\u201d. Panitch, Leo e Gindin, Sam. 2012. (<)em(>)The Making of Global Capitalism: The Political Economy of American Empire(<)\/em(>). Londres: Verso, p. 190.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-33\" href=\"#footnote-list-33\">33<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Dentro dos EUA, ou seja, \u201csem contar a extensa produ\u00e7\u00e3o de alta tecnologia das multinacionais americanas no exterior\u201d. Panitch, Leo e Gindin, Sam. 2012. (<)em(>)The Making of Global Capitalism: The Political Economy of American Empire(<)\/em(>). Londres: Verso, p. 190.<\/span> O Jap\u00e3o e a Alemanha, supostos benefici\u00e1rios de uma pol\u00edtica industrial esclarecida, respondiam por 21% e 6%, respectivamente (a Uni\u00e3o Europeia como um todo representava 24%). Uma d\u00e9cada depois da \u00faltima escalada da Guerra Fria de Reagan, \u201cos EUA respondiam por 77% das vendas globais do setor aeroespacial, 75% de todas as vendas de computadores e equipamentos de escrit\u00f3rio, 91% das vendas de software e 62% das vendas farmac\u00eauticas\u201d.<a data-contents=\"Panitch e Gindin 2012, \u201cThe Making of Global Capitalism\u201d(<)em(>).(<)\/em(>)\" class=\"footnote\" id=\"footnote-34\" href=\"#footnote-list-34\">34<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Panitch e Gindin 2012, \u201cThe Making of Global Capitalism\u201d(<)em(>).(<)\/em(>)<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante das fragilidades da tese declinista (como formulada por Huntington) e da prosperidade evidente da era de Bill Clinton, os antideclinistas n\u00e3o encontraram grandes dificuldades para conquistar territ\u00f3rio. Em 1998\u2014ao contr\u00e1rio de 1988, 1978, 1968, 1958 e 1948\u2014, nenhuma pol\u00edtica dom\u00e9stica de crise parecia estar em vigor. Aproveitando essa brecha, parte do discurso das elites passou da complac\u00eancia ao del\u00edrio, especialmente entre os economistas. \u201cEssa expans\u00e3o vai durar para sempre\u201d, afirmou Rudi Dornbusch, do MIT. Paul Krugman declarou que bons economistas poderiam discordar sobre quest\u00f5es como \u201ca import\u00e2ncia do lado da demanda\u201d. Janet Yellen e Alan Blinder especularam sobre um futuro sem d\u00edvida p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas enquanto a ret\u00f3rica da elite se tornava surpreendentemente isenta do alarmismo da crise, sinais reais de tens\u00e3o econ\u00f4mica come\u00e7avam a se acumular. Mesmo antes de 2008, as estat\u00edsticas de produtividade j\u00e1 deixavam claro que a d\u00e9cada de 1990 havia sido uma anomalia, e n\u00e3o um novo e fabuloso normal. Segundo o Bureau of Labor Statistics, a desacelera\u00e7\u00e3o da produtividade tornou-se \u201cuma refuta\u00e7\u00e3o imediata da ideia popular . . . de que hav\u00edamos entrado em uma nova era\u201d.<a data-contents=\"Sprague, Shawn. 2021. \u201cThe U.S. Productivity Slowdown: An Economy-Wide and Industry-Level Analysis\u201d, (<)em(>)Monthly Labor Review(<)\/em(>), abril. https:\/\/www.bls.gov\/opub\/mlr\/2021\/article\/the-us-productivity-slowdown-the-economy-wide-and-industry-level-analysis.htm\" class=\"footnote\" id=\"footnote-35\" href=\"#footnote-list-35\">35<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Sprague, Shawn. 2021. \u201cThe U.S. Productivity Slowdown: An Economy-Wide and Industry-Level Analysis\u201d, (<)em(>)Monthly Labor Review(<)\/em(>), abril. https:\/\/www.bls.gov\/opub\/mlr\/2021\/article\/the-us-productivity-slowdown-the-economy-wide-and-industry-level-analysis.htm<\/span> Na manufatura, a estagna\u00e7\u00e3o era vis\u00edvel n\u00e3o apenas no emprego, mas tamb\u00e9m na produ\u00e7\u00e3o. Entre 1975 e 2000, o \u00edndice de produ\u00e7\u00e3o industrial desse setor mais do que dobrou. J\u00e1 entre 2000 e 2025, a produ\u00e7\u00e3o total recuou<em> <\/em>ligeiramente. Nos setores de alta tecnologia, o excesso de capacidade instalada resultou em investimentos fracos e cortes de custos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As primeiras duas d\u00e9cadas e meia do s\u00e9culo XXI foram pouco generosas com os sonhos otimistas dos anos 1990. Ficou claro que os democratas neoliberais que diziam ter revitalizado a ind\u00fastria dos EUA estavam errados. Em 2018, Jake Sullivan, o prot\u00e9g\u00e9e de Clinton, j\u00e1 considerava oportuno afirmar que a produ\u00e7\u00e3o no setor de defesa \u201cconstitui a \u00fanica base industrial nacional dos Estados Unidos\u201d.<a data-contents=\"Ahmed, Salman, Karan Bhatia, Wendy Cutler, David Gordon, Jennifer Harris, Edward Hill, Douglas Lute, Daniel M. Price, William Shkurti, Christopher Smart, Fran Stewart, Jake Sullivan, Ashley J. Tellis e Tom Wyler. 2018. (<)em(>)U.S. Foreign Policy for the Middle Class: Perspectives from Ohio(<)\/em(>). Washington, D.C.: Carnegie Endowment for International Peace, 10 de dezembro. https:\/\/carnegieendowment.org\/research\/2018\/12\/us-foreign-policy-for-the-middle-class-perspectives-from-ohio\" class=\"footnote\" id=\"footnote-36\" href=\"#footnote-list-36\">36<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Ahmed, Salman, Karan Bhatia, Wendy Cutler, David Gordon, Jennifer Harris, Edward Hill, Douglas Lute, Daniel M. Price, William Shkurti, Christopher Smart, Fran Stewart, Jake Sullivan, Ashley J. Tellis e Tom Wyler. 2018. (<)em(>)U.S. Foreign Policy for the Middle Class: Perspectives from Ohio(<)\/em(>). Washington, D.C.: Carnegie Endowment for International Peace, 10 de dezembro. https:\/\/carnegieendowment.org\/research\/2018\/12\/us-foreign-policy-for-the-middle-class-perspectives-from-ohio<\/span> A press\u00e3o dos acionistas terminou por desestabilizar as pr\u00f3prias empresas que sustentaram a supremacia americana. A General Electric, fundada em 1892, deixou de existir em 2024. Naquele mesmo ano, Adam Tooze p\u00f4de se referir sem controv\u00e9rsia ao \u201cfato de que a Boeing j\u00e1 n\u00e3o consegue fabricar avi\u00f5es seguros, ou de que a Intel j\u00e1 n\u00e3o consegue produzir chips de ponta\u201d, e perguntar: \u201cSe voc\u00ea atua na manufatura de alta complexidade, por que estaria nos Estados Unidos?\u201d<a data-contents=\"Christophers, Brett e Adam Tooze. 2025. \u201cMarket Failure: The Climate Crisis and the Limits of Capitalism\u201d, moderado por Kate Aronoff. (<)em(>)Dissent(<)\/em(>), 28 de fevereiro. https:\/\/dissentmagazine.org\/online_articles\/market-failure\/\" class=\"footnote\" id=\"footnote-37\" href=\"#footnote-list-37\">37<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Christophers, Brett e Adam Tooze. 2025. \u201cMarket Failure: The Climate Crisis and the Limits of Capitalism\u201d, moderado por Kate Aronoff. (<)em(>)Dissent(<)\/em(>), 28 de fevereiro. https:\/\/dissentmagazine.org\/online_articles\/market-failure\/<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Da perspectiva huntingtoniana, o ac\u00famulo de evid\u00eancias concretas do decl\u00ednio americano fez com que os fundamentos da l\u00f3gica revivalista do declinismo mudassem profundamente. A din\u00e2mica de autorrenova\u00e7\u00e3o descrita por Huntington dependia de dois elementos: \u201ca abertura de seu sistema pol\u00edtico e a competitividade de sua economia\u201d. Hoje, ambos os pilares est\u00e3o abalados. Se a ret\u00f3rica da \u201ccrise\u201d come\u00e7a a dar lugar a uma efetiva crise econ\u00f4mica e pol\u00edtica, a rela\u00e7\u00e3o tra\u00e7ada por Huntington entre o discurso declinista e a realidade da renova\u00e7\u00e3o estadunidense talvez j\u00e1 n\u00e3o seja mais sustent\u00e1vel. O ac\u00famulo vis\u00edvel de d\u00e9cadas de desestrutura\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, somado a uma avalanche de crises internas e externas irradiadas de Washington, imp\u00f5e a quest\u00e3o: ser\u00e1 que a \u201cnobre mentira\u201d declinista ainda \u00e9 capaz de produzir seu efeito estabilizador?<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Um s\u00e9culo de vergonha e perigo?<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A resposta a essa pergunta provavelmente depende da forma&nbsp; como se define sucesso. Mesmo uma deteriora\u00e7\u00e3o cont\u00ednua e descontrolada dos EUA pode ser compat\u00edvel com sua persist\u00eancia enquanto polo mais forte de um mundo multipolar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As conquistas da China no campo da produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o se converter\u00e3o em hegemonia automaticamente, a menos que o Partido Comunista Chin\u00eas desenvolva uma ideologia globalmente atraente e enfrente as profundas contradi\u00e7\u00f5es existentes dentro da pr\u00f3pria sociedade. Na d\u00e9cada de 1920, os EUA produziam 85% dos autom\u00f3veis do mundo, mas ainda precisaram da Depress\u00e3o, do New Deal e de outra Guerra Mundial para integrar sua classe trabalhadora e construir uma nova ordem mundial. Os mesmos princ\u00edpios se aplicam \u00e0 dimens\u00e3o militar: as humilha\u00e7\u00f5es sofridas no Golfo P\u00e9rsico demonstram que os EUA n\u00e3o s\u00e3o onipotentes, mas, enquanto outros pa\u00edses permanecerem militarmente inferiores ao complexo EUA-OTAN-Israel-OEA, n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para que os EUA n\u00e3o possam desfrutar de um dom\u00ednio sem onipot\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De toda forma, j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel afirmar o seguinte: independentemente de os EUA permanecerem ou n\u00e3o dominantes em algum sentido, suas pretens\u00f5es hegem\u00f4nicas t\u00eam se tornado cada vez menos convincentes. A aplica\u00e7\u00e3o banal da pol\u00edtica de crise, seja qual for sua efic\u00e1cia eleitoral ou burocr\u00e1tica, simplesmente n\u00e3o \u00e9 capaz de restaurar o estado de coisas anterior a 2016 ou a 2000. Esse trem partiu junto com Joe Biden. Mais ainda, os pr\u00f3prios instrumentos pol\u00edticos do declinismo tendem a acelerar a eros\u00e3o dos dois pilares identificados por Huntington. Isso \u00e9 incontest\u00e1vel no que diz respeito \u00e0 abertura pol\u00edtica: a virada securit\u00e1ria do p\u00f3s-2020 ficar\u00e1 para sempre associada \u00e0 repress\u00e3o bipartid\u00e1ria contra residentes nos Estados Unidos, de Hamilton Hall<a data-contents=\"N.E.: Hamilton Hall \u00e9 um edificio da Universidade do Columbia, em Nova York, ocupado por estudantes ativistas pr\u00f3-Palestina em 2025. Em (<)a href='https:\/\/www.bbc.com\/news\/articles\/c0rz4eqx4g7o'(>)resposta(<)\/a(>) \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o, a Universidade suspendeu e expulsou alunos participantes e o governo Trump cortou cerca de US$ 400 milh\u00f5es do financiamento federal de Columbia.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-38\" href=\"#footnote-list-38\">38<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">N.E.: Hamilton Hall \u00e9 um edificio da Universidade do Columbia, em Nova York, ocupado por estudantes ativistas pr\u00f3-Palestina em 2025. Em (<)a href='https:\/\/www.bbc.com\/news\/articles\/c0rz4eqx4g7o'(>)resposta(<)\/a(>) \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o, a Universidade suspendeu e expulsou alunos participantes e o governo Trump cortou cerca de US$ 400 milh\u00f5es do financiamento federal de Columbia.<\/span> \u00e0s Cidades G\u00eameas,<a data-contents=\"N.E.: As Cidades G\u00eameas [ou Twin Cities], Minneapolis e Saint Paul, s\u00e3o cidades do estado de Minnesota que foram alvo da Opera\u00e7\u00e3o Metro Surge do Servi\u00e7o de Imigra\u00e7\u00e3o e Controle de Aduanas dos Estados Unidos [Immigration and Customs Enforcement ou ICE], resultando na morte dos cidad\u00e3os estadunidenses Ren\u00e9e Good e Alex Pretti.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-39\" href=\"#footnote-list-39\">39<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">N.E.: As Cidades G\u00eameas [ou Twin Cities], Minneapolis e Saint Paul, s\u00e3o cidades do estado de Minnesota que foram alvo da Opera\u00e7\u00e3o Metro Surge do Servi\u00e7o de Imigra\u00e7\u00e3o e Controle de Aduanas dos Estados Unidos [Immigration and Customs Enforcement ou ICE], resultando na morte dos cidad\u00e3os estadunidenses Ren\u00e9e Good e Alex Pretti.<\/span> passando pelo CECOT.<a data-contents=\"N.E.: CECOT, ou Centro de Confinamiento del Terrorismo \u00e9 um pres\u00eddio de seguran\u00e7a m\u00e1xima instalado em El Salvador em 2022. No come\u00e7o de 2025, o Secret\u00e1rio de Estado Marco Rubio selou um (<)a href='https:\/\/noticias.uol.com.br\/ultimas-noticias\/afp\/2025\/02\/03\/rubio-diz-que-el-salvador-aceitara-receber-presos-americanos.htm'(>)acordo(<)\/a(>) com o governo de El Salvador para enviar \u201cimigrantes e criminosos\u201d presos nos Estados Unidos ao Centro.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-40\" href=\"#footnote-list-40\">40<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">N.E.: CECOT, ou Centro de Confinamiento del Terrorismo \u00e9 um pres\u00eddio de seguran\u00e7a m\u00e1xima instalado em El Salvador em 2022. No come\u00e7o de 2025, o Secret\u00e1rio de Estado Marco Rubio selou um (<)a href='https:\/\/noticias.uol.com.br\/ultimas-noticias\/afp\/2025\/02\/03\/rubio-diz-que-el-salvador-aceitara-receber-presos-americanos.htm'(>)acordo(<)\/a(>) com o governo de El Salvador para enviar \u201cimigrantes e criminosos\u201d presos nos Estados Unidos ao Centro.<\/span> A mesma coisa vale para a esfera econ\u00f4mica, na qual o novo vocabul\u00e1rio ferozmente bipartid\u00e1rio da pol\u00edtica orientada pela seguran\u00e7a nacional produziu uma d\u00e9cada de protecionismo aventureiro, culminando no \u201cDia da Liberta\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O atual caleidosc\u00f3pio de discursos declinistas transforma os escombros acumulados da guerra de classes dom\u00e9stica nos Estados Unidos, da destrui\u00e7\u00e3o imperial e da competi\u00e7\u00e3o com a China em uma vertiginosa sucess\u00e3o de diagn\u00f3sticos e prescri\u00e7\u00f5es. Enquanto intelectuais do America First defendem um decl\u00ednio administrado no <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2026\/05\/03\/opinion\/iran-us-empire.html\">New York Times<\/a>, multiplicam-se ecos suprapartid\u00e1rios da \u201cSemana da Vergonha e do Perigo\u201d de Scoop Jackson. Mas os declinistas de hoje parecem menos capazes do que nunca de produzir uma nova era de renova\u00e7\u00e3o. E, em uma \u00e9poca de convuls\u00f5es tect\u00f4nicas globais, tentar contornar a crise por meio de triangula\u00e7\u00f5es pol\u00edticas n\u00e3o funciona: os \u00faltimos anos da pol\u00edtica estadunidense mostram que isso agrava ainda mais a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cH\u00e1 muita ru\u00edna em uma na\u00e7\u00e3o\u201d, disse certa vez Adam Smith para tranquilizar seus compatriotas brit\u00e2nicos em um momento de derrota. Mas quanta, exatamente? 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