{"id":30815,"date":"2026-05-29T00:00:00","date_gmt":"2026-05-29T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/?p=30815"},"modified":"2026-06-03T19:37:06","modified_gmt":"2026-06-03T19:37:06","slug":"alerta-de-suicidio-imperial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/entrevistas-br\/alerta-de-suicidio-imperial\/","title":{"rendered":"Alerta de suic\u00eddio imperial"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos \u00faltimos dezoito meses, os Estados Unidos lan\u00e7aram bombas sobre Ir\u00e3, Venezuela, S\u00edria, I\u00eamen, Som\u00e1lia, Nig\u00e9ria, Iraque e o Mar do Caribe, ao mesmo tempo em que amea\u00e7aram mobilizar tropas para uma s\u00e9rie de outros pa\u00edses, incluindo M\u00e9xico, Col\u00f4mbia e Cuba. Essa expans\u00e3o b\u00e9lica em escala global\u2014somada aos conflitos comerciais e \u00e0s crises energ\u00e9ticas que desorganizaram cadeias de suprimento vitais\u2014colocou em xeque a durabilidade e a racionalidade do imperialismo americano. Mas que tipo de imp\u00e9rio \u00e9 o estadunidense? O protecionismo beligerante de Trump representa uma ruptura com a hegemonia americana ou a reconstitui\u00e7\u00e3o de uma era anterior de domina\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesta entrevista, Herman Mark Schwartz situa o imp\u00e9rio americano em perspectiva hist\u00f3rica e comparada. Dialogando com debates da economia pol\u00edtica internacional, Schwartz analisa a centralidade do d\u00f3lar, os limites da produ\u00e7\u00e3o e do crescimento dos EUA e a persist\u00eancia do poder militar estadunidense ao longo do \u00faltimo s\u00e9culo. Historicamente, argumenta Schwartz, os imp\u00e9rios dependeram de formas de coopera\u00e7\u00e3o entre centro e periferia\u2014e\u00a0\u00e9 precisamente essa necess\u00e1ria colabora\u00e7\u00e3o que a agressividade global de Trump amea\u00e7a desarticular.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Herman Mark Schwartz \u00e9 Professor Em\u00e9rito de Pol\u00edtica da Universidade da Virg\u00ednia. Historiador econ\u00f4mico, sua obra investiga as rela\u00e7\u00f5es entre poder estatal e poder de mercado. Seu livro <em>States Versus Markets<\/em>, atualmente na quinta edi\u00e7\u00e3o (2026), examina as transforma\u00e7\u00f5es da rela\u00e7\u00e3o entre Estado e mercado no contexto da globaliza\u00e7\u00e3o e das crises econ\u00f4micas. J\u00e1 <em>Subprime Nation: American Power, Global Capital, and the Housing Bubble<\/em> (2009) analisa o colapso do mercado imobili\u00e1rio estadunidense em sua articula\u00e7\u00e3o com as finan\u00e7as globais. Maria Fernanda Sikorski e Jack Gross, editores da PW, entrevistaram Schwartz em maio de 2026, pouco mais de dois meses ap\u00f3s o in\u00edcio da prolongada guerra EUA-Israel contra o Ir\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Entrevista com Herman Mark Schwartz<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">Maria Fernanda Sikorski<\/span>: Comecemos pelo b\u00e1sico: o que \u00e9 um imp\u00e9rio?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">Herman Mark Schwartz<\/span>: Tendemos a imaginar os imp\u00e9rios como um conjunto de rela\u00e7\u00f5es de poder que podem ser desenhadas em um mapa, colorindo a extens\u00e3o territorial do Imp\u00e9rio Romano ou do Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico. Essa vis\u00e3o pressup\u00f5e fronteiras relativamente n\u00edtidas: tudo o que fica fora da \u00e1rea colorida estaria, portanto, fora do imp\u00e9rio. Acho que essa \u00e9 uma compreens\u00e3o fundamentalmente equivocada de como os imp\u00e9rios funcionam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o humana \u00e9, em grande medida, uma hist\u00f3ria dos imp\u00e9rios: forma\u00e7\u00f5es sociais de larga escala que mobilizam enormes volumes de recursos e exercem controle sobre outros seres humanos, seja organizando o trabalho, seja regulando comportamentos em fun\u00e7\u00e3o de objetivos imperiais. Na raiz disso est\u00e1 a conex\u00e3o entre viol\u00eancia e com\u00e9rcio\u2014entre Estados e mercados. Historicamente, todos os imp\u00e9rios nasceram do controle de fluxos comerciais de longa dist\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estados interessados em expandir a capacidade arrecadat\u00f3ria frequentemente descobriam que a estrat\u00e9gia mais eficiente e lucrativa era controlar o com\u00e9rcio de longa dist\u00e2ncia e a circula\u00e7\u00e3o de bens de luxo. A escassez fazia desses bens fontes valiosas de receitas e, crucialmente, permitia a extra\u00e7\u00e3o de recursos das elites. Mercadorias de consumo universal\u2014sobretudo o sal\u2014tornavam-se extraordinariamente lucrativas quando submetidas ao controle centralizado do Estado. Mas a principal amea\u00e7a \u00e0 autoridade central nos grandes imp\u00e9rios provinha das elites internas, e o controle sobre os bens de luxo era uma das maneiras mais eficientes de drenar recursos dessas camadas, geralmente resistentes \u00e0 tributa\u00e7\u00e3o. Era essa a l\u00f3gica dos sistemas de tributos: ao controlar o com\u00e9rcio externo, o Estado garantia acesso a bens escassos e utilizava sua distribui\u00e7\u00e3o tanto para arrecadar riqueza quanto para manter influ\u00eancia sobre potenciais rivais internos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em segundo lugar, h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o estreita entre o com\u00e9rcio de longa dist\u00e2ncia e o poder pol\u00edtico. Imp\u00e9rios n\u00e3o s\u00e3o necessariamente, nem uniformemente, governados por d\u00e9spotas. Na verdade, como demonstrou Michael Mann, o despotismo \u00e9 bastante ineficiente. Imp\u00e9rios duradouros se sustentam por meio de rela\u00e7\u00f5es de coopera\u00e7\u00e3o entre as elites do centro e as elites de sociedades subordinadas. Mas diferentes elites negociam diferentes tipos de acordo, e \u00e9 justamente a\u00ed que a estrutura do imp\u00e9rio se torna mais n\u00edtida. No topo, est\u00e3o o centro imperial e suas elites: isso \u00e9 hierarquia. Mais abaixo, quanto maior a proximidade com o centro, mais favor\u00e1veis s\u00e3o os arranjos feitos pelas elites: isso \u00e9 heterogeneidade. E, por fim, \u00e9 o centro que determina os termos do com\u00e9rcio, da distribui\u00e7\u00e3o e da ordem pol\u00edtica: isso \u00e9 assimetria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se olharmos para o Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico do s\u00e9culo XIX, fica claro que ele operava por meio de diferentes camadas de integra\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o. Algumas regi\u00f5es eram administradas de forma desp\u00f3tica e tecnicamente faziam parte do n\u00facleo do imp\u00e9rio. Outras, como os dom\u00ednios aut\u00f4nomos e as col\u00f4nias de povoamento branco, desfrutavam de condi\u00e7\u00f5es muito mais vantajosas, recebendo volumes desproporcionais de capital e maiores graus de autonomia. Depois havia as col\u00f4nias da Coroa, sob controle administrativo direto. O Sul da \u00c1sia era governado de maneira muito mais violenta, mas ainda assim havia ades\u00e3o das elites dom\u00e9sticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais abaixo na hierarquia da soberania estavam os protetorados, onde leis, moedas e idiomas locais continuavam existindo, mas cujas rela\u00e7\u00f5es com o imp\u00e9rio eram mediadas pela l\u00edngua, pela legisla\u00e7\u00e3o e pela moeda do centro imperial. As cinco maiores zonas n\u00e3o brancas do Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico\u2014\u00cdndias Ocidentais, Estabelecimentos dos Estreitos, \u00cdndia, \u00c1frica Oriental e \u00c1frica Ocidental\u2014operavam com moedas pr\u00f3prias lastreadas em prata, que circulavam apenas dentro de suas respectivas \u00e1reas monet\u00e1rias. Esse arranjo restringia a cria\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito e reprimia o investimento nesses territ\u00f3rios. A conversibilidade dessas moedas em libras esterlinas dependia de bancos privados brit\u00e2nicos e de <em>currency boards<\/em> locais, institui\u00e7\u00f5es monet\u00e1rias coloniais que emitiam moeda exclusivamente contra reservas depositadas em Londres. A pr\u00f3pria arquitetura desse sistema foi imposta pelo centro imperial, que definiu tanto a transi\u00e7\u00e3o dos bancos privados para os <em>currency boards<\/em> quanto o padr\u00e3o monet\u00e1rio baseado em prata, e n\u00e3o em ouro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa \u00e9 a l\u00f3gica geral dos imp\u00e9rios. As formas hist\u00f3ricas que eles assumem, contudo, variam conforme se expandem as tecnologias sociais e a capacidade estatal de mobilizar trabalho e recursos. Foi isso que permitiu a passagem de formas de domina\u00e7\u00e3o predominantemente desp\u00f3ticas para formas de poder infraestrutural. Isso explica as enormes diferen\u00e7as entre o Imp\u00e9rio dos EUA e os anteriores. Primeiro, ele se sustenta em uma escala in\u00e9dita de cria\u00e7\u00e3o end\u00f3gena de cr\u00e9dito offshore, muito mais ampla do que aquela existente sob a hegemonia brit\u00e2nica. Segundo, a capacidade destrutiva da guerra moderna cresceu exponencialmente. Terceiro, as corpora\u00e7\u00f5es transnacionais passaram a atuar como canais de difus\u00e3o de capacidades produtivas, acelerando o <em>catch-up<\/em> econ\u00f4mico da periferia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sob a l\u00f3gica do desenvolvimento desigual e combinado, o desafio central de todo n\u00facleo imperial consiste em preservar a assimetria entre centro e periferia: em outras palavras, manter uma vantagem decisiva na mobiliza\u00e7\u00e3o de recursos e na produ\u00e7\u00e3o de poder. Nas condi\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas, por\u00e9m, essa dist\u00e2ncia tende a diminuir num ritmo muito mais acelerado do que em \u00e9pocas anteriores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">Jack Gross<\/span>: Qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre Estados e imp\u00e9rios?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">HMS<\/span>: Se o primeiro ponto era que o mapa n\u00e3o \u00e9 o territ\u00f3rio, o segundo \u00e9 que, por uma s\u00e9rie de raz\u00f5es, \u00e9 falsa a no\u00e7\u00e3o de que a Paz de Vestf\u00e1lia (1648) colocou o mundo em uma trajet\u00f3ria de transi\u00e7\u00e3o dos antigos imp\u00e9rios agr\u00e1rios para um sistema moderno de Estados soberanos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Historicamente, o fim dos imp\u00e9rios formais\u2014mesmo dentro da estrutura vestfaliana\u2014\u00e9 extremamente recente. Eu estava vivo quando alguns dos \u00faltimos pa\u00edses foram descolonizados. E, quando observamos os imp\u00e9rios, a heterogeneidade \u00e9 fundamental. Sempre existem zonas de soberania parcial e governan\u00e7a em camadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muitos dos lugares que hoje chamamos de Estados ocupam, na pr\u00e1tica, essa mesma posi\u00e7\u00e3o essencialmente semissoberana. A Europa possui mais soberania local e autonomia jur\u00eddica do que muitas regi\u00f5es, mas, militarmente, \u00e9 claramente semissoberana e monetariamente ocupa um degrau abaixo do Federal Reserve e do sistema offshore do d\u00f3lar. A Europa tamb\u00e9m continua repleta de bases militares americanas, assim como o Jap\u00e3o e a Coreia do Sul. E isso tamb\u00e9m \u00e9 assim\u00e9trico: voc\u00ea n\u00e3o encontra bases militares alem\u00e3s nos EUA.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que convencionalmente descrevemos como Estados soberanos s\u00e3o, na verdade, componentes de um sistema imperial mais amplo, diferenciados por graus variados de autonomia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">JG<\/span>: Como a produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o das elites e das camadas gerenciais se encaixam nessa vis\u00e3o, tanto historicamente quanto no presente?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">HMS<\/span>: Antes de tudo, vale dizer que nenhum sistema de poder opera de forma perfeitamente ordenada. Historicamente, quando um centro incorporava uma periferia ao sistema imperial, isso envolvia algum tipo de troca, fosse incluindo entidades pol\u00edticas semissoberanas nos ganhos do com\u00e9rcio, fosse concedendo-lhes maior autonomia e poder pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso frequentemente se dava por meio de casamentos entre elites. As dinastias chinesas administravam rivais por meio de alian\u00e7as din\u00e1sticas, incorporando elites fronteiri\u00e7as a rela\u00e7\u00f5es de coopera\u00e7\u00e3o com o centro imperial. O Imp\u00e9rio Romano, por sua vez, operava como um gradiente de integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica centrado no Mediterr\u00e2neo: quanto mais distante do centro, mais fr\u00e1gil se tornava a integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e maior era a import\u00e2ncia relativa dos bens de luxo em rela\u00e7\u00e3o aos bens b\u00e1sicos. A distribui\u00e7\u00e3o desses produtos ajudava a manter as elites das fronteiras vinculadas ao centro imperial. J\u00e1 no Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico, para al\u00e9m das col\u00f4nias de povoamento branco, o elemento decisivo era o acesso aos mercados de capitais de Londres, que permitia aos propriet\u00e1rios de terra na Argentina ou nos Estados Unidos acumular riqueza. As elites locais prosperavam justamente por sua integra\u00e7\u00e3o \u00e0s redes financeiras imperiais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No caso dos Estados Unidos, h\u00e1 diversos mecanismos semelhantes de barganha pol\u00edtica. Os EUA constru\u00edram uma coaliz\u00e3o em torno dos direitos de propriedade intelectual ao mobilizar empresas europeias dos setores farmac\u00eautico e tecnol\u00f3gico para pressionar seus governos a garantir a aplica\u00e7\u00e3o desses direitos\u2014condi\u00e7\u00e3o essencial para a rentabilidade dessas firmas. A prote\u00e7\u00e3o militar oferecida pelos EUA \u00e0 Europa, ao Jap\u00e3o e \u00e0 Coreia do Sul tamb\u00e9m serve para integrar essas elites \u00e0 ordem imperial americana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que costuma desestabilizar sistemas imperiais n\u00e3o s\u00e3o revoltas abertas, mas tens\u00f5es internas desses pactos. Na Idade M\u00e9dia, um dos problemas cl\u00e1ssicos era a isen\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria da aristocracia. Foi isso que tornou o Estado espanhol t\u00e3o fr\u00e1gil no auge de seu imp\u00e9rio. A Coroa brit\u00e2nica, por sua vez, tamb\u00e9m se enfraqueceu quando a aristocracia, por meio do Parlamento, ganhou controle sobre a tributa\u00e7\u00e3o. O paradoxo \u00e9 que essas estrat\u00e9gias acabavam corroendo a pr\u00f3pria estrutura imperial da qual dependia a seguran\u00e7a das elites, deixando o sistema exposto \u00e0 press\u00e3o de pot\u00eancias rivais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, elites evitam pagar impostos nos Estados Unidos e em todo o mundo. A redu\u00e7\u00e3o das al\u00edquotas corporativas e o avan\u00e7o das privatiza\u00e7\u00f5es v\u00eam esvaziando a capacidade dos Estados. A principal amea\u00e7a ao sistema n\u00e3o parte dos camponeses nem dos trabalhadores, mas justamente das camadas de elite cuja coopera\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria para mant\u00ea-lo funcionando.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando os pr\u00f3prios quadros estatais perdem de vista sua fun\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, outros problemas emergem. Eles podem come\u00e7ar a priorizar interesses privados em detrimento de interesses coletivos de classe. Tamb\u00e9m podem simplesmente errar na leitura da conjuntura ou permanecer presos a rotinas burocr\u00e1ticas incompat\u00edveis com a realidade do momento. As perdas militares dos EUA no Golfo s\u00e3o um exemplo disso. Estruturadas em torno de sistemas de armas caros e sofisticados, as For\u00e7as Armadas americanas ainda n\u00e3o perceberam que drones e intelig\u00eancia artificial tornaram a prote\u00e7\u00e3o da infraestrutura e da log\u00edstica uma quest\u00e3o central. Mesmo depois de tr\u00eas anos de guerra de drones na Ucr\u00e2nia, continuam operando segundo as mesmas rotinas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">MFS<\/span>: Em que momento voc\u00ea diria que os EUA se tornaram um imp\u00e9rio? E esse imp\u00e9rio est\u00e1 em decl\u00ednio?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">HMS<\/span>: Nos s\u00e9culos XVIII e XIX, os Estados Unidos faziam parte da fronteira imperial. As elites locais cooperavam com o centro imperial brit\u00e2nico at\u00e9 que, evidentemente, lan\u00e7aram a Revolu\u00e7\u00e3o Americana. Mark Agno argumenta que, j\u00e1 naquele momento, essas elites imaginavam a constru\u00e7\u00e3o de um imp\u00e9rio na Am\u00e9rica do Norte: faziam planos para expulsar franceses, espanh\u00f3is, mexicanos e popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, ao mesmo tempo em que buscavam estabelecer acordos com o Canad\u00e1 e com o pr\u00f3prio Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ascens\u00e3o dos Estados Unidos \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de hegemonia global foi produto de duas guerras mundiais, que neutralizaram diversos concorrentes, e da Guerra Fria, que empurrou seu \u00fanico potencial rival para uma posi\u00e7\u00e3o inferior. Historicamente, a domina\u00e7\u00e3o imperial depende da capacidade de mobilizar viol\u00eancia de forma eficaz. Mas compreender o funcionamento concreto dos imp\u00e9rios exige decompor as diferentes fontes de poder e examinar os mecanismos espec\u00edficos pelos quais a domina\u00e7\u00e3o \u00e9 reproduzida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Susan Strange \u00e9 a principal refer\u00eancia aqui. Sua grande contribui\u00e7\u00e3o foi mostrar que as rela\u00e7\u00f5es internacionais, mais do que um dom\u00ednio centrado exclusivamente na for\u00e7a militar e na geoestrat\u00e9gia, constituem um subconjunto daquilo que hoje chamamos de economia pol\u00edtica internacional. A capacidade de mobilizar recursos precede e condiciona o exerc\u00edcio da viol\u00eancia. Strange tamb\u00e9m se recusava a reduzir o poder a uma \u00fanica dimens\u00e3o e argumentava que o imp\u00e9rio americano se sustenta em quatro formas de poder estrutural: produtivo, financeiro, cognitivo e militar. Isso \u00e9 particularmente \u00fatil para pensar sistemas imperiais, j\u00e1 que diferentes formas de poder predominam em zonas subordinadas distintas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No plano produtivo, embora as empresas americanas permane\u00e7am muito mais lucrativas do que as chinesas, a produ\u00e7\u00e3o material j\u00e1 \u00e9 amplamente dominada pela China. Em contrapartida, o fato do d\u00f3lar continuar sendo a principal unidade de conta do cr\u00e9dito global\u2014isto \u00e9, a express\u00e3o do poder financeiro americano\u2014aponta na dire\u00e7\u00e3o oposta: bancos n\u00e3o americanos criam mais cr\u00e9dito em d\u00f3lar nos mercados offshore do que os pr\u00f3prios bancos dos EUA no mercado dom\u00e9stico. Isso ainda constitui uma imensa fonte de poder infraestrutural para os Estados Unidos. No campo do conhecimento, as universidades americanas j\u00e1 foram as melhores do mundo, mas v\u00eam sendo sistematicamente enfraquecidas pela pol\u00edtica federal. Militarmente, os EUA seguem como a \u00fanica pot\u00eancia com alcance verdadeiramente global, mantendo uma condi\u00e7\u00e3o de \u201csemidomin\u00e2ncia\u201d. Ainda assim, a eros\u00e3o de sua capacidade de dissuas\u00e3o e de sua superioridade estrat\u00e9gica imp\u00f5e limites cada vez maiores aos tipos de guerra que o pa\u00eds pode sustentar.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O d\u00f3lar e o imp\u00e9rio<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">JG<\/span>: Voc\u00ea tem argumentado contra a vis\u00e3o convencional de um sistema monet\u00e1rio internacional estruturado em torno da moeda soberana e proposto, no lugar, aquilo que chama de \u201cvis\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito\u201d. Poderia explicar melhor essa distin\u00e7\u00e3o e como ela altera nossa compreens\u00e3o da centralidade do d\u00f3lar?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">HMS<\/span>: Mais uma vez: bancos n\u00e3o americanos criam mais cr\u00e9dito denominado em d\u00f3lar offshore do que os bancos americanos criam domesticamente. Isso \u00e9 um fato. Tamb\u00e9m \u00e9 um fato que os EUA operam com d\u00e9ficit em conta corrente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A interpreta\u00e7\u00e3o desses fatos depende do modelo monet\u00e1rio e da teoria do dinheiro e do cr\u00e9dito que se adota. A vis\u00e3o da moeda soberana corresponde \u00e0 abordagem tradicional dos manuais de economia. Ela trata o dinheiro como um ativo puro, e n\u00e3o como um instrumento inscrito em balan\u00e7os patrimoniais que possui um passivo correspondente. Essa vis\u00e3o emerge de uma narrativa hist\u00f3rica na qual agentes privados escolhem o ouro como meio de troca e passam a deposit\u00e1-lo em bancos, que ent\u00e3o o emprestam na forma de cr\u00e9dito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mesma l\u00f3gica produz o modelo dos fundos emprest\u00e1veis. Primeiro v\u00eam as poupan\u00e7as, e ent\u00e3o os bancos simplesmente intermedeiam essas poupan\u00e7as para tomadores. Projetada para o sistema financeiro global, essa concep\u00e7\u00e3o implica que poupan\u00e7as dom\u00e9sticas s\u00e3o transferidas de pa\u00edses superavit\u00e1rios para pa\u00edses deficit\u00e1rios. O problema \u00e9 que ela aponta para os indicadores de poder errados: moeda e reservas cambiais em vez da capacidade efetiva de cria\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa vis\u00e3o tradicional trata a poupan\u00e7a como a base do cr\u00e9dito, mas ignora de onde essa pr\u00f3pria poupan\u00e7a surgiu. A renda original que depois se transforma em poupan\u00e7a \u00e9 criada pelo cr\u00e9dito. Ela \u00e9 gerada por empresas que tomaram dinheiro emprestado a curto ou longo prazo para comprar insumos, incluindo sal\u00e1rios. O sistema financeiro n\u00e3o \u00e9 composto por cofres cheios de dinheiro, mas por uma rede de balan\u00e7os interconectados na qual o cr\u00e9dito \u00e9 criado em parte pelos bancos centrais, em parte pelos bancos privados e, decisivamente, criado do nada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso se chama de cria\u00e7\u00e3o end\u00f3gena de cr\u00e9dito. Quando bancos concedem empr\u00e9stimos, eles n\u00e3o est\u00e3o simplesmente redistribuindo poupan\u00e7as existentes. Est\u00e3o criando simultaneamente dois registros cont\u00e1beis: o empr\u00e9stimo aparece como ativo e o dep\u00f3sito correspondente na conta do tomador como passivo. O dinheiro nasce do pr\u00f3prio ato de emprestar. Esses balan\u00e7os est\u00e3o articulados em cadeias complexas. Um banco americano pode conceder cr\u00e9dito a uma subsidi\u00e1ria nas Ilhas Cayman, que ent\u00e3o empresta \u00e0 Petrobras, que por sua vez financia um fornecedor local.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que isso significa para a centralidade e o poder do d\u00f3lar? No sistema offshore do d\u00f3lar, bancos n\u00e3o americanos criam enormes volumes de cr\u00e9dito denominado em d\u00f3lar, embora n\u00e3o estejam sediados nos Estados Unidos. Isso \u00e9 decisivo porque, quando as crises eclodem\u2014e, como argumenta Hyman Minsky, crises financeiras tendem precisamente a emergir de longos per\u00edodos de estabilidade\u2014, os ativos dos bancos passam a valer menos do que seus passivos. Nessa situa\u00e7\u00e3o, os bancos podem quebrar ou ser socorridos. Mas existe apenas uma institui\u00e7\u00e3o capaz de fornecer d\u00f3lares em \u00faltima inst\u00e2ncia: o Federal Reserve, atrav\u00e9s de linhas de swap. Os pr\u00f3prios bancos n\u00e3o conseguem simplesmente criar mais d\u00f3lares, porque isso exigiria expandir simultaneamente ativos e passivos em seus balan\u00e7os, e a crise consiste exatamente no fato de que os ativos existentes j\u00e1 perderam valor em rela\u00e7\u00e3o aos passivos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 justamente aqui que se percebe por que desagregar as diferentes fontes de poder \u00e9 essencial para compreender os mecanismos concretos da domina\u00e7\u00e3o imperial. A posi\u00e7\u00e3o de cada banco central na hierarquia do sistema global de cr\u00e9dito determina seu acesso \u00e0 liquidez em d\u00f3lar em per\u00edodos de crise. Isso \u00e9 hierarquia. Alguns pa\u00edses desfrutam de acesso privilegiado aos d\u00f3lares americanos. No n\u00facleo interno do imp\u00e9rio encontram-se o Banco da Inglaterra, o Banco Central Europeu, o Banco Nacional Su\u00ed\u00e7o, o Banco do Jap\u00e3o e o Banco do Canad\u00e1, todos dotados de acesso irrestrito e ilimitado \u00e0s linhas de swap do Federal Reserve. Em caso de turbul\u00eancia, podem obter d\u00f3lares facilmente usando suas pr\u00f3prias moedas como garantia. Em um n\u00edvel inferior est\u00e3o nove pa\u00edses com acesso incondicional, por\u00e9m limitado, ao Fed: Singapura, Coreia do Sul, M\u00e9xico, Brasil, Dinamarca, Noruega, Su\u00e9cia, Austr\u00e1lia e Nova Zel\u00e2ndia. S\u00e3o economias consideradas estrategicamente importantes para os Estados Unidos e que, por isso, recebem acesso garantido \u00e0 liquidez em d\u00f3lar em volumes restritos, normalmente entre US$ 30 e US$ 60 bilh\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para o restante dos pa\u00edses, as condi\u00e7\u00f5es tornam-se significativamente mais r\u00edgidas. O acesso a d\u00f3lares passa pelo mecanismo de recompra de t\u00edtulos da FIMA (a <em>repo facility<\/em> da <em>Foreign and International Monetary Authorities<\/em>), atrav\u00e9s do qual bancos centrais podem trocar temporariamente t\u00edtulos do Tesouro americano ou ativos hipotec\u00e1rios dos EUA por liquidez em d\u00f3lar. A limita\u00e7\u00e3o \u00e9 simples: sem t\u00edtulos do Tesouro americano, n\u00e3o h\u00e1 acesso algum; e a quantidade dispon\u00edvel para empr\u00e9stimo depende diretamente do volume desses ativos em posse do pa\u00eds. Isso \u00e9 heterogeneidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A camada mais baixa da hierarquia \u00e9 ocupada pelos pa\u00edses que sequer possuem t\u00edtulos do Tesouro americano e precisam implorar por ajuda ao FMI e a outras institui\u00e7\u00f5es multilaterais. A assimetria atravessa todas essas rela\u00e7\u00f5es porque, em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00e9 sempre o Federal Reserve quem dita as regras. O Tesouro americano pode utilizar o acesso a resgates financeiros para extrair concess\u00f5es dos sistemas semissoberanos situados em posi\u00e7\u00f5es inferiores da hierarquia global. Durante a crise financeira asi\u00e1tica, por exemplo, os EUA condicionaram o acesso aos pacotes de resgate \u00e0 abertura do sistema financeiro sul-coreano, permitindo que institui\u00e7\u00f5es financeiras americanas adquirissem participa\u00e7\u00f5es em empresas coreanas e expandissem suas atividades de cr\u00e9dito no pa\u00eds. A mesma coisa ocorreu com o M\u00e9xico na crise de 1994.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Toda essa arquitetura s\u00f3 se torna intelig\u00edvel quando o dinheiro deixa de ser concebido como um estoque fixo de poupan\u00e7a pr\u00e9via e passa a ser entendido como um sistema de cria\u00e7\u00e3o end\u00f3gena de cr\u00e9dito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">MFS<\/span>: Como voc\u00ea avalia a posi\u00e7\u00e3o atual do d\u00f3lar na economia global? O retorno de Trump ao poder alterou sua vis\u00e3o sobre a possibilidade de uma mudan\u00e7a no papel do d\u00f3lar no sistema financeiro internacional? E, caso essa transforma\u00e7\u00e3o venha a ocorrer, o que caracterizaria um ponto de inflex\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">HMS<\/span>: H\u00e1 hoje muita especula\u00e7\u00e3o em torno do decl\u00ednio do d\u00f3lar. Isso resulta, sobretudo, da fragmenta\u00e7\u00e3o dos outros tr\u00eas pilares do poder estrutural identificados por Susan Strange. Ainda assim, o d\u00f3lar permanece como um componente relativamente est\u00e1vel dessa arquitetura de poder, e, no m\u00e9dio prazo, n\u00e3o vejo raz\u00f5es para esperar mudan\u00e7as muito profundas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As previs\u00f5es sobre o decl\u00ednio do d\u00f3lar costumam se basear na redu\u00e7\u00e3o de sua participa\u00e7\u00e3o nas reservas cambiais formais ou na leve queda de seu valor frente a outras moedas. Mas esses indicadores s\u00e3o menos importantes do que a quest\u00e3o do cr\u00e9dito. Nos \u00faltimos 25 anos, cerca de 60% do com\u00e9rcio mundial foi faturado em d\u00f3lares, enquanto aproximadamente 80% das liquida\u00e7\u00f5es internacionais ocorreram na moeda americana. Isso significa que, mesmo quando uma transa\u00e7\u00e3o \u00e9 denominada em ienes, ela frequentemente continua sendo liquidada em d\u00f3lares. Trata-se de um padr\u00e3o extraordinariamente est\u00e1vel h\u00e1 pelo menos um quarto de s\u00e9culo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre 60% e 70% dos empr\u00e9stimos realizados offshore por bancos e mercados de t\u00edtulos seguem denominados em d\u00f3lares, e quase metade das opera\u00e7\u00f5es globais de c\u00e2mbio envolve a moeda americana\u2014o que, na pr\u00e1tica, significa quase todas, j\u00e1 que cada transa\u00e7\u00e3o cambial envolve duas moedas. Esse quadro permaneceu est\u00e1vel ao longo do governo Trump, embora seja poss\u00edvel que a guerra contra o Ir\u00e3 produza alguma mudan\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O PIB dos EUA corresponde a cerca de 25% do PIB mundial, mas a participa\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar nos fluxos globais de transa\u00e7\u00f5es \u00e9 quase tr\u00eas vezes superior a isso. O euro, em contraste, possui um peso muito mais proporcional ao tamanho da economia europeia. Se quisermos considerar seriamente a hip\u00f3tese da desdolariza\u00e7\u00e3o, talvez seja preciso come\u00e7ar perguntando como o d\u00f3lar alcan\u00e7ou uma posi\u00e7\u00e3o t\u00e3o dominante como moeda global.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando a Segunda Guerra Mundial devastou a Europa e o Jap\u00e3o, essas zonas econ\u00f4micas tornaram-se dependentes dos Estados Unidos para sua reconstru\u00e7\u00e3o, que exigia grandes volumes de importa\u00e7\u00f5es de alimentos, petr\u00f3leo e m\u00e1quinas. Para administrar essa situa\u00e7\u00e3o, em 1950, a Europa criou a Uni\u00e3o Europeia de Pagamentos (EPU, na sigla em ingl\u00eas). A pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o da EPU havia sido exigida pelos EUA como condi\u00e7\u00e3o para o recebimento da ajuda do Plano Marshall. O sistema permitia que os pa\u00edses europeus evitassem super\u00e1vits comerciais entre si, o que poderia ser deflacion\u00e1rio, acumulando cr\u00e9ditos na pr\u00f3pria Uni\u00e3o e realizando liquida\u00e7\u00f5es peri\u00f3dicas atrav\u00e9s de uma unidade comum de conta que, na pr\u00e1tica, todos reconheciam como o d\u00f3lar. Foi nesse contexto que o d\u00f3lar se consolidou como a moeda dominante da reconstru\u00e7\u00e3o do p\u00f3s-guerra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pouco depois, os controles cambiais e de capitais come\u00e7aram a desaparecer, assim como a pr\u00f3pria EPU. Bancos europeus passaram ent\u00e3o a expandir suas atividades para o exterior\u2014ainda n\u00e3o existia um mercado europeu unificado\u2014e a conceder empr\u00e9stimos denominados em d\u00f3lares. Esse foi um dos elementos decisivos para o surgimento do mercado de eurod\u00f3lares em meados da d\u00e9cada de 1950. Mais tarde, os choques do petr\u00f3leo aprofundaram ainda mais essa din\u00e2mica, j\u00e1 que o petr\u00f3leo tamb\u00e9m era precificado em d\u00f3lares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O resultado foi a consolida\u00e7\u00e3o de um sistema global em que os balan\u00e7os patrimoniais ao redor do mundo s\u00e3o massivamente denominados em d\u00f3lar. O outro lado disso \u00e9 que os demais pa\u00edses costumam depender de super\u00e1vits comerciais, porque a demanda dom\u00e9stica \u00e9 insuficiente e seus modelos de crescimento s\u00e3o orientados por exporta\u00e7\u00f5es. No entanto, se os pa\u00edses superavit\u00e1rios convertessem esses d\u00f3lares em moeda local, suas taxas de c\u00e2mbio se valorizariam frente ao d\u00f3lar, corroendo justamente esses super\u00e1vits. A solu\u00e7\u00e3o encontrada foi reciclar d\u00f3lares em ativos financeiros, expandindo continuamente balan\u00e7os denominados na moeda americana. Enquanto as elites continuarem lucrando com exporta\u00e7\u00f5es para o mercado americano e com a manuten\u00e7\u00e3o de ativos denominados em d\u00f3lar, por que romperiam com esse sistema?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">JG<\/span>: H\u00e1 cerca de um ano, a imprensa financeira estava obcecada em tentar encontrar uma l\u00f3gica para as pol\u00edticas econ\u00f4micas do governo Trump, em grande medida a partir das interpreta\u00e7\u00f5es dos textos de Stephen Miran, que argumenta que a centralidade do d\u00f3lar produz fragilidades econ\u00f4micas para os Estados Unidos, na medida em que d\u00e9ficits persistentes e um d\u00f3lar sobrevalorizado estariam minando a ind\u00fastria do pa\u00eds. Voc\u00ea argumenta, por\u00e9m, que essas caracter\u00edsticas n\u00e3o constituem fraquezas, mas sim condi\u00e7\u00f5es estruturais da hegemonia do d\u00f3lar. Como entender, ent\u00e3o, a vis\u00e3o da administra\u00e7\u00e3o Trump?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">HMS<\/span>: Existe uma certa coer\u00eancia operacional no que Trump est\u00e1 fazendo, mas n\u00e3o h\u00e1 uma estrat\u00e9gia propriamente dita. Miran e Trump consideram a desindustrializa\u00e7\u00e3o um problema e querem combinar tarifas com um d\u00f3lar mais fraco para revert\u00ea-la. Tamb\u00e9m gostariam de reduzir o d\u00e9ficit comercial. Mas o restante das pol\u00edticas da administra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 compat\u00edvel com esses objetivos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os governos Johnson e Nixon enfrentaram uma preocupa\u00e7\u00e3o semelhante e desenvolveram uma grande estrat\u00e9gia para lidar com ela. No fim dos anos 1960 e in\u00edcio dos anos 1970, os Estados Unidos come\u00e7aram a registrar d\u00e9ficits comerciais e em conta corrente, algo percebido como prejudicial ao emprego industrial americano. Estava claro que o d\u00e9ficit comercial resultava do <em>catching up<\/em> produtivo da Europa e do Jap\u00e3o na manufatura mec\u00e2nica. Esses pa\u00edses conseguiam produzir os mesmos tipos de autom\u00f3veis, mas a pre\u00e7os mais baixos, porque pagavam sal\u00e1rios inferiores. Isso s\u00f3 era poss\u00edvel porque sua produtividade havia praticamente alcan\u00e7ado os n\u00edveis americanos; no caso do Jap\u00e3o nos anos 1970, a produtividade na produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7o e autom\u00f3veis chegou inclusive a superar a dos EUA\u2014ali\u00e1s, esse \u00e9 justamente o padr\u00e3o t\u00edpico dos imp\u00e9rios sobre o qual falamos antes: as periferias eventualmente alcan\u00e7am o centro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em resposta, o choque Nixon combinou uma tarifa de 10% com uma desvaloriza\u00e7\u00e3o de 10% do d\u00f3lar, restaurando temporariamente o equil\u00edbrio externo americano. Mas a estrat\u00e9gia mais ampla foi al\u00e9m disso. O governo aceitou que os Estados Unidos j\u00e1 n\u00e3o eram capazes de dominar os segmentos industriais de menor valor agregado\u2014especialmente setores como a\u00e7o e autom\u00f3veis, onde os sindicatos eram mais fortes. A op\u00e7\u00e3o foi abandonar a disputa direta com Jap\u00e3o e Europa nesses setores e voltar-se contra os sindicatos dom\u00e9sticos. Nos anos 1970, ent\u00e3o, os EUA reorientaram tanto sua economia dom\u00e9stica quanto a economia global em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s novas tecnologias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A estrat\u00e9gia consistia em reposicionar os Estados Unidos em torno de setores nos quais o pa\u00eds preservava lideran\u00e7a tecnol\u00f3gica. A chamada \u201cGuerra contra o C\u00e2ncer\u201d, por exemplo, acabou funcionando como um gigantesco programa de investimento em biotecnologia. Houve investimentos maci\u00e7os em eletr\u00f4nica e ind\u00fastria farmac\u00eautica, acompanhados de mudan\u00e7as profundas no regime de propriedade intelectual, tanto dom\u00e9stico quanto internacional. A Suprema Corte reconheceu a possibilidade de patentear entidades biol\u00f3gicas in\u00e9ditas, enquanto o Congresso aprovou legisla\u00e7\u00f5es que tornaram os softwares protegidos por direitos autorais. Novas formas de propriedade foram criadas e generalizadas globalmente justamente nos setores em que os EUA eram ou poderiam vir a ser competitivos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fortalecimento dos direitos autorais favoreceu Hollywood e a ind\u00fastria de software; patentes mais r\u00edgidas em biotecnologia impulsionaram as exporta\u00e7\u00f5es farmac\u00eauticas; e a liberaliza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola consolidou a domin\u00e2ncia agroindustrial americana, cada vez mais vinculada \u00e0 biotecnologia. Paralelamente, os EUA reorganizaram sua estrat\u00e9gia militar, abandonando o modelo mec\u00e2nico herdado da Segunda Guerra Mundial em favor de uma doutrina de alta tecnologia baseada em muni\u00e7\u00f5es inteligentes, semicondutores e processamento digital de sinais. O objetivo era preservar a superioridade tecnol\u00f3gica reduzindo a necessidade de grandes contingentes militares, recorrendo cada vez mais a aliados e for\u00e7as proxy para fornecer m\u00e3o de obra militar em campo. Isso constitu\u00eda uma estrat\u00e9gia coerente, algo ausente no caso de Trump.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma nova estrat\u00e9gia relativamente integrada emergiu durante os anos Obama, diante de press\u00f5es estruturais crescentes: o enorme d\u00e9ficit comercial com a China e a depend\u00eancia de importa\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo que, em 2008, j\u00e1 representavam quase metade do d\u00e9ficit comercial americano. Obama ent\u00e3o promove uma reorienta\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica para a \u00c1sia e busca reorganizar a economia em torno da eletrifica\u00e7\u00e3o solar e do modelo de ve\u00edculos el\u00e9tricos hoje dominado pela China. Simultaneamente, enfraquece a capacidade da OMC de arbitrar disputas comerciais, j\u00e1 que a China vinha utilizando os pr\u00f3prios mecanismos da organiza\u00e7\u00e3o tanto para ampliar seu acesso a mercados externos quanto para proteger seu mercado dom\u00e9stico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Obama articulava uma estrat\u00e9gia relativamente coerente entre tecnologia, poder militar e d\u00e9ficit comercial. Foi tamb\u00e9m nesse per\u00edodo que o fracking foi fortemente expandido, convertendo os EUA de grandes importadores em exportadores de petr\u00f3leo e g\u00e1s. \u00c0 medida que o petr\u00f3leo deixa de ser uma vulnerabilidade estrat\u00e9gica para os EUA, a assimetria se intensifica: Europa, Jap\u00e3o e China permanecem dependentes de energia importada, enquanto os Estados Unidos j\u00e1 n\u00e3o dependem nem mesmo do petr\u00f3leo do Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 por isso que o retorno de Trump ao Oriente M\u00e9dio \u00e9 t\u00e3o ca\u00f3tico. N\u00e3o h\u00e1 coer\u00eancia alguma do ponto de vista da constru\u00e7\u00e3o de novas tecnologias e capacidades econ\u00f4micas. Sua pol\u00edtica corr\u00f3i as bases institucionais da lideran\u00e7a tecnol\u00f3gica americana ao atacar universidades, pesquisa p\u00fablica e financiamento cient\u00edfico. Institui\u00e7\u00f5es como a Funda\u00e7\u00e3o Nacional da Ci\u00eancia, os Institutos Nacionais de Sa\u00fade e os bra\u00e7os de pesquisa vinculados \u00e0 CIA, ao Departamento de Defesa e ao Departamento de Agricultura desempenharam um papel central na constru\u00e7\u00e3o do sistema tecnol\u00f3gico americano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pol\u00edtica de Trump \u00e9 incoerente: um passo adiante na quest\u00e3o comercial, dez passos atr\u00e1s em todo o restante. Se a estrat\u00e9gia consiste apenas em observar a taxa de c\u00e2mbio do d\u00f3lar ou o volume de reservas cambiais como medidas do poder americano, ent\u00e3o ela est\u00e1 olhando para os indicadores errados. Desde que Nixon retirou os EUA de Bretton Woods, as taxas de c\u00e2mbio flutuam continuamente. Ainda assim, em meio a todas essas oscila\u00e7\u00f5es, o d\u00f3lar preservou sua posi\u00e7\u00e3o dominante. A taxa de c\u00e2mbio \u00e9 uma quest\u00e3o secund\u00e1ria. A quest\u00e3o decisiva \u00e9: qual moeda serve de unidade de conta para a cria\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito?<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Ciclos de crescimento global<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">MFS<\/span>: A \u00faltima d\u00e9cada de debates e reorienta\u00e7\u00f5es de pol\u00edtica econ\u00f4mica nos Estados Unidos pode ser vista como uma rea\u00e7\u00e3o ao reconhecimento de um decl\u00ednio do poder produtivo americano. Voc\u00ea argumenta, por\u00e9m, de forma contraintuitiva, que o auge desse poder coincidiu com a pr\u00f3pria desindustrializa\u00e7\u00e3o, \u00e0 medida que as empresas passaram a estruturar suas estrat\u00e9gias de acumula\u00e7\u00e3o em torno de cadeias globais de produ\u00e7\u00e3o protegidas por regimes robustos de propriedade intelectual, concentrando nos EUA uma parcela desproporcional dos lucros. Como entender a rela\u00e7\u00e3o entre globaliza\u00e7\u00e3o, propriedade intelectual como estrat\u00e9gia de lucro apoiada juridicamente pelo Estado americano e o conceito de \u201cpoder produtivo\u201d formulado por Susan Strange?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">HMS<\/span>: Lembre-se de que Susan Strange argumentava que o imp\u00e9rio americano se sustentava sobre quatro pilares estruturais: dom\u00ednio da produ\u00e7\u00e3o, do cr\u00e9dito, do conhecimento e do poder militar. No plano produtivo, o que ocorreu foi um esvaziamento da manufatura americana impulsionado por din\u00e2micas veblenianas. Thorstein Veblen argumentava que aquilo que chamava de \u201cind\u00fastria\u201d, isto \u00e9, capacidade produtiva concreta e progresso t\u00e9cnico, estava em tens\u00e3o permanente com aquilo que chamava de \u201cneg\u00f3cio\u201d, ou seja, a l\u00f3gica da rentabilidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em linhas gerais, a <a href=\"https:\/\/uva.theopenscholar.com\/files\/documents\/franchise.pdf\">raz\u00e3o<\/a> pela qual chegamos a uma situa\u00e7\u00e3o em que empresas americanas concentram <a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/analysis\/manufacturing-stagnation\/\">lucros sem produ\u00e7\u00e3o<\/a>, enquanto empresas chinesas concentram produ\u00e7\u00e3o com margens reduzidas \u00e9 que as firmas dos EUA responderam \u00e0s grandes convuls\u00f5es trabalhistas e aos choques macroecon\u00f4micos das d\u00e9cadas de 1960 e 1970 expulsando de suas estruturas o m\u00e1ximo poss\u00edvel de capital f\u00edsico e trabalho. Paralelamente, transformaram-se cada vez mais em propriet\u00e1rias de ativos de propriedade intelectual\u2014patentes, direitos autorais, registros de marca e <em>branding<\/em>\u2014e passaram a pressionar por regimes mais r\u00edgidos de prote\u00e7\u00e3o desses direitos. A Disney, por exemplo, garantiu a dura\u00e7\u00e3o dos direitos autorais do Mickey Mouse por 105 anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O resultado foi uma extraordin\u00e1ria concentra\u00e7\u00e3o de lucros em determinadas empresas americanas. As firmas dos EUA capturam uma parcela desproporcional dos lucros globais e, dentro desse grupo, as empresas baseadas em propriedade intelectual concentram uma fatia ainda maior. Embora os Estados Unidos representem cerca de 25% do PIB mundial, suas empresas absorvem aproximadamente 35% dos lucros corporativos globais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apple e Nike controlam suas cadeias produtivas inteiras, mas num sentido <em>de facto<\/em>, e n\u00e3o <em>de jure<\/em>. A Nike basicamente projeta t\u00eanis e vende emo\u00e7\u00f5es; outras empresas fabricam seus produtos. A Apple desenvolve software e design de chips, enquanto a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 terceirizada: a TSMC fabrica os principais chips, Samsung e STM produzem mem\u00f3ria e girosc\u00f3pios, e a Hon Hai realiza a montagem final. Na base dessas cadeias, as empresas enfrentam intensa press\u00e3o competitiva para reduzir pre\u00e7os e, consequentemente, operam com margens muito estreitas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A produ\u00e7\u00e3o foi globalizada, mas isso significou, na pr\u00e1tica, concentra\u00e7\u00e3o dos lucros nos Estados Unidos e da atividade produtiva na China. Esses padr\u00f5es tendem a se refor\u00e7ar mutuamente. Quanto mais a manufatura se concentra na China, mais as empresas s\u00e3o atra\u00eddas por sua profunda rede de fornecedores. E quanto mais lucrativas se tornam as empresas americanas baseadas em propriedade intelectual, mais capital estrangeiro flui para adquirir participa\u00e7\u00e3o nesses lucros, elevando o valor de suas a\u00e7\u00f5es e tornando a terceiriza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o o modelo \u201c\u00f3bvio\u201d a ser seguido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso produziu consequ\u00eancias geopol\u00edticas importantes. De forma intuitiva, tendemos a imaginar que quem fabrica det\u00e9m o poder\u2014algo que continua sendo verdade, em \u00faltima inst\u00e2ncia, do ponto de vista militar. Mas, numa economia capitalista, o elemento central \u00e9 a rentabilidade. O Estado americano cooperou tacitamente com a transfer\u00eancia da produ\u00e7\u00e3o para o exterior, sobretudo ao refor\u00e7ar globalmente as prote\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas da propriedade intelectual, protegendo as empresas que terceirizavam internacionalmente sua produ\u00e7\u00e3o. O acordo TRIPS da OMC foi decisivo para permitir que firmas americanas desses setores alcan\u00e7assem n\u00edveis extraordin\u00e1rios de lucratividade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como todo processo social, isso tamb\u00e9m produziu contradi\u00e7\u00f5es. O Estado americano abriu caminho para a globaliza\u00e7\u00e3o das empresas e garantiu \u00e0s firmas dos EUA controle sobre grande parte da produ\u00e7\u00e3o mundial e uma parcela desproporcional dos lucros globais. Mas esse mesmo processo tamb\u00e9m acelerou a desindustrializa\u00e7\u00e3o, com consequ\u00eancias pol\u00edticas dom\u00e9sticas e implica\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas profundamente negativas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">JG<\/span>: A neo-schumpeteriana Carlota Perez argumenta que houve cinco revolu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas desde a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, incluindo a atual \u201cEra da Informa\u00e7\u00e3o\u201d, iniciada por volta de 1971, que talvez esteja se aproximando de um ponto de esgotamento, embora tenha sido central para a estrat\u00e9gia de crescimento baseada na propriedade intelectual. Uma nova onda schumpeteriana de expans\u00e3o estaria surgindo no horizonte, impulsionada pelas tecnologias verdes ou pela intelig\u00eancia artificial? E o que isso pode significar para a distribui\u00e7\u00e3o global de poder e para a pr\u00f3pria configura\u00e7\u00e3o da economia mundial?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">HMS<\/span>: Tenho uma resposta muito longa para essa pergunta na forma de um <a href=\"https:\/\/americanaffairsjournal.org\/2024\/11\/will-ai-generate-a-new-schumpeterian-growth-wave\">artigo<\/a> escrito com Yussef Robinson. Quando publicamos esse texto, est\u00e1vamos cautelosamente otimistas de que j\u00e1 existiam bases pol\u00edticas para uma sexta revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, raz\u00e3o pela qual nos concentramos sobretudo na subst\u00e2ncia de uma poss\u00edvel nova onda de crescimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Schumpeter argumentava que o capitalismo n\u00e3o evolui em dire\u00e7\u00e3o a um estado de equil\u00edbrio, mas atrav\u00e9s de sucessivas, ainda que n\u00e3o autom\u00e1ticas, ondas de crescimento e estagna\u00e7\u00e3o. Cada nova onda emergiria em resposta ao esgotamento dos recursos relativamente baratos que sustentavam a fase anterior e envolveria cinco elementos in\u00e9ditos: uma nova fonte de energia, um novo meio de transporte, uma nova tecnologia de produ\u00e7\u00e3o de uso geral, novos bens industriais ou de consumo de massa derivados dessa tecnologia e uma nova forma de organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o\u2014ou, como prefiro chamar, um novo modo de controle e explora\u00e7\u00e3o do trabalho. Os neo-schumpeterianos, como Carlota Perez, acrescentaram ainda um sexto elemento: uma nova forma de regula\u00e7\u00e3o macroecon\u00f4mica capaz de restabelecer o equil\u00edbrio entre oferta e demanda.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A atual ou quinta onda de crescimento centrada em tecnologias de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o foi estruturada em torno de chips e software, digitaliza\u00e7\u00e3o, combust\u00edveis f\u00f3sseis, eletr\u00f4nicos de consumo, internet, al\u00e9m da profunda desintegra\u00e7\u00e3o vertical e globaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e daquilo que costuma ser chamado de pol\u00edtica macroecon\u00f4mica neoliberal. Essa onda est\u00e1 claramente esgotada. O custo de produ\u00e7\u00e3o de uma \u00fanica porta l\u00f3gica semicondutora voltou a subir ap\u00f3s quase cinquenta anos de queda cont\u00ednua; o or\u00e7amento global de carbono foi praticamente exaurido; os smartphones j\u00e1 saturaram o mercado consumidor; n\u00e3o h\u00e1 mais tempo dispon\u00edvel para expandir o consumo de redes sociais; e a governan\u00e7a neoliberal <a href=\"https:\/\/uva.theopenscholar.com\/files\/hermanschwartz\/files\/stagnation.pdf\">produziu<\/a> crises financeiras recorrentes e desigualdades extremas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Qualquer nova onda de expans\u00e3o precisar\u00e1 superar esses limites estruturais. A energia n\u00e3o f\u00f3ssil certamente ocuparia uma posi\u00e7\u00e3o central nesse novo arranjo. Isso talvez\u2014e enfatizo o talvez\u2014pudesse assumir a forma de energias renov\u00e1veis como fonte de eletricidade barata; eletrifica\u00e7\u00e3o dos transportes; intelig\u00eancia artificial e bioengenharia baseada em CRISPR-Cas como novas tecnologias de uso geral, com a IA aplicada sobretudo \u00e0 rob\u00f3tica e ao design de prote\u00ednas, mais do que aos atuais modelos conversacionais de linguagem; al\u00e9m de um retorno \u00e0 produ\u00e7\u00e3o verticalmente integrada. Mas \u00e9 justamente nesse ponto que as incertezas come\u00e7am. Como seria uma forma de explora\u00e7\u00e3o do trabalho capaz de se sustentar pol\u00edtica e macroeconomicamente nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas? Como seriam reorganizadas as redes globais de com\u00e9rcio e finan\u00e7as? Quais inova\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas poderiam sustentar a rentabilidade da mesma forma que os regimes de propriedade intelectual sustentaram a onda das tecnologias da informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o? E, finalmente, o que poder\u00e1 transformar\u2014ou substituir\u2014o atual imp\u00e9rio global americano baseado em finan\u00e7as e cadeias globais de suprimento?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o essas as quest\u00f5es que estruturam os atuais conflitos multilaterais em escala global: a disputa entre produtores tradicionais de combust\u00edveis f\u00f3sseis e produtores de energia renov\u00e1vel; o antagonismo entre Estados Unidos e China e, em sentido mais amplo, entre Norte e Sul globais; o conflito entre propriet\u00e1rios e trabalhadores; e as tens\u00f5es entre refugiados provenientes de futuras zonas de desastre clim\u00e1tico e popula\u00e7\u00f5es instaladas em regi\u00f5es relativamente protegidas. Evidentemente, mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas podem abrir caminho para transforma\u00e7\u00f5es na estrutura global de poder. A produ\u00e7\u00e3o de baterias e drones j\u00e1 est\u00e1 criando novas formas de capacidade militar; substitutos bioengenheirados para fibras e pl\u00e1sticos tendem a corroer o sistema petroagroindustrial; e assim por diante. Mas se eu tivesse respostas definitivas para essas quest\u00f5es, estaria conversando com meu corretor, n\u00e3o com voc\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 onde estou disposto a especular, consigo imaginar um mundo composto por economias regionais relativamente desconectadas, operando com moedas regionais em vez do d\u00f3lar, submetidas a algum grau de press\u00e3o deflacion\u00e1ria em raz\u00e3o da queda acentuada do custo dos bens manufaturados e marcado por fric\u00e7\u00f5es militares ocasionais nas zonas de contato entre regi\u00f5es. Algo que combinaria tra\u00e7os das chamadas Grandes Depress\u00f5es de 1876\u20131879 e dos anos 1930, ainda que com uma depress\u00e3o menos profunda e, espero, formas menos revanchistas de militariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Poder militar<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">JG<\/span>: Segundo estimativas do <em>Stockholm International Peace Research Institute<\/em>, os gastos militares globais alcan\u00e7aram os n\u00edveis mais altos j\u00e1 registrados. Nunca houve tamanha expans\u00e3o simult\u00e2nea dos diferentes complexos militar-industriais em competi\u00e7\u00e3o, ainda que os Estados Unidos sigam ocupando com folga a posi\u00e7\u00e3o dominante. O que mudou\u2014ou n\u00e3o\u2014na natureza do poder militar e em seu papel na competi\u00e7\u00e3o imperial contempor\u00e2nea?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">HMS<\/span>: Os gastos e a capacidade militar jamais deixaram de ser um pilar central do poder imperial. Mas existem algumas diferen\u00e7as importantes hoje em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo cl\u00e1ssico da hegemonia americana. Em primeiro lugar, temos conflitos militares abertos nas fronteiras do n\u00facleo do sistema: a invas\u00e3o russa da Ucr\u00e2nia e a guerra dos EUA contra o Ir\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 claro que, ao longo da hegemonia americana, houve golpes de Estado, manipula\u00e7\u00e3o eleitoral, corrup\u00e7\u00e3o, opera\u00e7\u00f5es policiais, drones e guerras conduzidas com diferentes graus de visibilidade. Mas isso \u00e9 qualitativamente distinto de lan\u00e7ar paraquedistas sobre um aeroporto nos arredores de Kiev e mover colunas de tanques atrav\u00e9s de fronteiras disputadas. E isso, por sua vez, \u00e9 diferente de destruir praticamente toda a infraestrutura militar iraniana para, supostamente, obter um acordo que o governo Obama j\u00e1 havia alcan\u00e7ado em 2015. Portanto, eu n\u00e3o diria que o gasto militar era menos importante no passado recente; o que mudou \u00e9 que sua centralidade se tornou muito mais expl\u00edcita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso \u00e9 particularmente relevante num contexto em que o governo Trump desvalorizou radicalmente o poder militar americano de tr\u00eas maneiras. A primeira foi o consumo acelerado de estoques de muni\u00e7\u00e3o equivalentes a cerca de uma d\u00e9cada de produ\u00e7\u00e3o, ou seja, algo que provavelmente levar\u00e1 outros dez anos para ser recomposto. A segunda \u00e9 que a administra\u00e7\u00e3o corroeu a reputa\u00e7\u00e3o do poder militar americano ao demonstrar que os alvos de uma ofensiva dos EUA s\u00e3o capazes de responder com sistemas relativamente simples e baratos. Uma das express\u00f5es que circulam hoje \u00e9 que os americanos est\u00e3o \u201cusando Ferraris para derrubar frisbees\u201d, ou seja, empregando m\u00edsseis de milh\u00f5es de d\u00f3lares para derrubar drones de alguns milhares de d\u00f3lares. A insurg\u00eancia passou a ser capaz de impor custos materiais concretos ao imp\u00e9rio em termos de sistemas de armas: toda a infraestrutura de radares no Golfo foi destru\u00edda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A terceira \u00e9 que a capacidade de dissuas\u00e3o foi praticamente dissolvida. Os gastos militares est\u00e3o aumentando porque os sul-coreanos perceberam que os iranianos conseguiram destruir os interceptadores dos quais dependeriam para neutralizar um m\u00edssil norte-coreano com ogiva nuclear. Os interceptadores americanos remanescentes tamb\u00e9m se mostram vulner\u00e1veis a sistemas de armas baratos, que a China pode produzir em escala massiva. Como resultado, est\u00e1 em curso um planejamento de expans\u00e3o maci\u00e7a da produ\u00e7\u00e3o militar em diversos pa\u00edses. O Jap\u00e3o, por exemplo, passou a legalizar a exporta\u00e7\u00e3o de armamentos ofensivos como forma de desenvolver sua pr\u00f3pria ind\u00fastria b\u00e9lica e integrar atores regionais ao seu sistema militar. O Canad\u00e1 tamb\u00e9m come\u00e7a a apontar na mesma dire\u00e7\u00e3o com seu novo <a href=\"https:\/\/www.pm.gc.ca\/en\/news\/news-releases\/2026\/02\/17\/prime-minister-carney-launches-canadas-first-defence-industrial\">plano de rearmamento voltado para a Uni\u00e3o Europeia<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os pa\u00edses est\u00e3o pensando cada vez mais seriamente em armas nucleares. Sob Biden, os Estados Unidos poderiam ter sido muito mais agressivos no fornecimento de armamentos de longo alcance \u00e0 Ucr\u00e2nia, mas evitaram faz\u00ea-lo por receio, entre outros fatores, das capacidades nucleares russas. Em vez disso, Washington prefere confrontar pot\u00eancias n\u00e3o nucleares, como fez na L\u00edbia, no Ir\u00e3 e no Iraque. Todos os incentivos estrat\u00e9gicos atualmente apontam para o desenvolvimento de capacidades de dissuas\u00e3o nuclear.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Falando de forma um pouco provocativa, a maioria dos pa\u00edses \u00e9 perfeitamente capaz de construir armas nucleares. Israel as possui. A \u00c1frica do Sul praticamente chegou a desenvolv\u00ea-las antes de encerrar seu programa. Brasil e Argentina avan\u00e7aram at\u00e9 a metade do caminho. A tecnologia remonta aos anos 1940; o principal obst\u00e1culo \u00e9 obter ur\u00e2nio enriquecido em quantidade suficiente. Francamente, hoje, seria quase insensato n\u00e3o buscar esse tipo de capacidade. E isso \u00e9 profundamente assustador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">MFS<\/span>: Ao longo da conversa discutimos momentos em que os Estados Unidos reconfiguraram a ordem global, como no p\u00f3s-guerra e nos anos 1970. Hoje, muitos interpretam o governo Trump como um agente de transforma\u00e7\u00e3o da ordem mundial em termos aparentemente autodestrutivos\u2014voc\u00ea mesmo chegou a descrever esse processo como potencialmente <a href=\"https:\/\/bsky.app\/hashtag\/empiresuicidewatch\">suicida<\/a>. Ao mesmo tempo, por\u00e9m, essas demonstra\u00e7\u00f5es de for\u00e7a parecem reafirmar o car\u00e1ter sem paralelo do poder americano. At\u00e9 que ponto uma \u00fanica administra\u00e7\u00e3o pode corroer estruturas imperiais t\u00e3o profundamente consolidadas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">HMS<\/span>: Imp\u00e9rios normalmente n\u00e3o colapsam por causa de agress\u00f5es externas. Eles entram em colapso por alguma forma de suic\u00eddio. Retomando a discuss\u00e3o sobre as elites, Trump \u00e9 um exemplo extremo de um quadro dirigente que passa a pensar na pr\u00f3pria riqueza e nos pr\u00f3prios interesses imediatos em detrimento da reprodu\u00e7\u00e3o do sistema como um todo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas at\u00e9 que ponto a tentativa de reconfigurar a ordem mundial \u00e9 apenas resultado de Trump? As tentativas de reorganizar a ordem internacional em torno de uma nova inflex\u00e3o hist\u00f3rica claramente antecedem sua chegada ao poder, assim como as pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es que tornaram poss\u00edvel sua vit\u00f3ria eleitoral. Trump n\u00e3o criou esse ponto de inflex\u00e3o, mas suas a\u00e7\u00f5es certamente moldar\u00e3o seus desdobramentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em termos imperiais, contudo, trata-se de um processo de longa dura\u00e7\u00e3o. Os efeitos da deteriora\u00e7\u00e3o do sistema universit\u00e1rio americano, por exemplo, ser\u00e3o sentidos ao longo de d\u00e9cadas, n\u00e3o de semanas. Embora a credibilidade militar dos EUA tenha sido seriamente danificada, o pa\u00eds continua sendo a \u00fanica pot\u00eancia com capacidade log\u00edstica e sistemas de comando e controle capazes de sustentar uma guerra global. \u00c9 poss\u00edvel que o \u201cImperador Louco\u201d desapare\u00e7a, outro governo seja eleito e algum grau de restaura\u00e7\u00e3o ocorra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como argumenta Edward Luttwak em seu livro sobre o Imp\u00e9rio Bizantino, a ess\u00eancia da estrat\u00e9gia bizantina era simples: n\u00e3o entre em guerras que voc\u00ea n\u00e3o pode vencer, porque elas acabar\u00e3o destruindo o pr\u00f3prio imp\u00e9rio. O livro foi escrito, em grande medida, como um aviso \u00e0s elites americanas de defesa e pol\u00edtica externa durante a Guerra do Iraque. O caso do Ir\u00e3 hoje \u00e9 ainda mais irracional. Parte do problema reside no pr\u00f3prio Trump, um l\u00edder err\u00e1tico e irrespons\u00e1vel, mas a conjuntura atual tamb\u00e9m expressa as press\u00f5es exercidas por for\u00e7as sociais poderosas ao seu redor: a ind\u00fastria do petr\u00f3leo, o complexo industrial-militar, os falc\u00f5es anti-Ir\u00e3 e assim por diante. Por isso, considero justific\u00e1vel falar em um imp\u00e9rio sob vigil\u00e2ncia suicida: as elites no centro est\u00e3o minando ativamente os alicerces do poder americano.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Economia pol\u00edtica internacional e poder imperial dos EUA<\/p>\n","protected":false},"author":44,"featured_media":31180,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[733],"tags":[],"issue":[997],"newsletter":[],"region":[1009,1279,1177,1039],"sector":[],"theme":[1108,1087],"series":[],"class_list":["post-30815","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas-br","issue-edicao-1-poder-americano","region-america-do-norte","region-estados-unidos-2","region-eua-pt-br","region-global-pt-br","theme-historia-economica","theme-macroeconomia"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with 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