{"id":30782,"date":"2026-05-29T00:00:00","date_gmt":"2026-05-29T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/?p=30782"},"modified":"2026-05-28T18:48:41","modified_gmt":"2026-05-28T18:48:41","slug":"doutrinas-monroe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/doutrinas-monroe\/","title":{"rendered":"Doutrinas Monroe"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em mar\u00e7o, Donald Trump reuniu l\u00edderes da Am\u00e9rica Latina e do Caribe em seu resort de golfe em Doral, Miami, para realizar a c\u00fapula inaugural \u201cEscudo das Am\u00e9ricas\u201d. O encontro buscava estabelecer uma nova coaliz\u00e3o para combater o \u201cnarco-terrorismo\u201d e desmantelar os cart\u00e9is de drogas que se tornaram um bicho-pap\u00e3o constantemente evocado pelo mandat\u00e1rio estadunidense. Em meio \u00e0 renovada agress\u00e3o militar dos EUA, o evento atraiu 12 chefes de Estado reacion\u00e1rios, ansiosos por se alinharem \u00e0 agenda regional de Washington. Estiveram presentes Javier Milei, da Argentina; Daniel Noboa, do Equador; Nayib Bukele, de El Salvador; e Jos\u00e9 Antonio Kast, do Chile, bem como os presidentes de direita da Bol\u00edvia, Paraguai, Panam\u00e1, Honduras, Costa Rica, Guiana e Rep\u00fablica Dominicana, e o primeiro-ministro de Trinidad e Tobago.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O grupo reafirmou os princ\u00edpios de seguran\u00e7a continental estabelecidos pelo chamado Corol\u00e1rio Trump, a mais recente Estrat\u00e9gia de Seguran\u00e7a Nacional e a nova Coaliz\u00e3o Anticartel das Am\u00e9ricas. A \u201cDoutrina Donroe\u201d apresentada nessas declara\u00e7\u00f5es n\u00e3o passa da mais recente manifesta\u00e7\u00e3o das reivindica\u00e7\u00f5es de longa data dos EUA de dom\u00ednio regional na aus\u00eancia de hegemonia\u2014uma reformula\u00e7\u00e3o exagerada da Doutrina Monroe e do Destino Manifesto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Examinamos essa nova doutrina \u00e0 luz de seus antecessores hist\u00f3ricos: o monroismo, a Pol\u00edtica de Boa Vizinhan\u00e7a, a contra-insurg\u00eancia da Guerra Fria e o pan-americanismo neoliberal. Argumentamos que cada uma dessas manifesta\u00e7\u00f5es do imperialismo dos EUA encontrou antagonismo cont\u00ednuo, enraizado em um padr\u00e3o de longa data de resist\u00eancia latino-americana, desde o integracionismo de Sim\u00f3n Bol\u00edvar at\u00e9 o anti-imperialismo revolucion\u00e1rio de Jos\u00e9 Mart\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa compara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica revela uma s\u00e9rie de continuidades substantivas na natureza do imperialismo dos EUA na Am\u00e9rica Latina: tomada de decis\u00e3o unilateral, uma l\u00f3gica de seguran\u00e7a nacional, militariza\u00e7\u00e3o e coer\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica t\u00eam se manifestado de diversas formas desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Mas tamb\u00e9m revela um importante conjunto de rupturas: acima de tudo, uma disposi\u00e7\u00e3o de desmantelar a pr\u00f3pria estrutura das institui\u00e7\u00f5es regionais que os EUA manipularam por tanto tempo. Isso, por sua vez, reflete uma novidade na composi\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia latino-americana\u2014ou seja, os limites de uma vis\u00e3o contra-hegem\u00f4nica coerente apresentada pelos atores regionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Juntos, esses \u00e2ngulos ajudam a esclarecer a supremacia contempor\u00e2nea dos EUA sob a Doutrina Donroe, que marca um novo per\u00edodo do imperialismo hemisf\u00e9rico dos EUA. A vis\u00e3o de Trump de uma geografia realinhada por meio de uma \u201cGrande Am\u00e9rica do Norte\u201d revive e redireciona ideologias centen\u00e1rias fundamentais para o pr\u00f3prio pan-americanismo. A tarefa que temos, ent\u00e3o, \u00e9 propor como as agendas anti-imperialistas poderiam reivindicar um novo horizonte para a \u201cNuestra Am\u00e9rica\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Legados contradit\u00f3rios<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em seu discurso de 1904 perante o Congresso, Theodore Roosevelt falou como herdeiro de um novo imp\u00e9rio. Com o fim da Guerra Hispano-Americana, os Estados Unidos consolidaram-se como uma pot\u00eancia caribenha. O discurso de Roosevelt articulou a fus\u00e3o de duas ideologias imperiais: a Doutrina Monroe e a Doutrina do Destino Manifesto (1845). A primeira, proferida pelo presidente Monroe em 1823, rejeitou o controle imperial europeu sobre o Hemisf\u00e9rio Ocidental e, ao faz\u00ea-lo, reivindicou-o para a esfera de influ\u00eancia dos EUA. A segunda legitimou a expans\u00e3o territorial dos Estados Unidos como um mandato hist\u00f3rico. A converg\u00eancia doutrin\u00e1ria articulada por Roosevelt lan\u00e7ou as bases para uma proje\u00e7\u00e3o continental que combinava princ\u00edpios de defesa hemisf\u00e9rica com pr\u00e1ticas de domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois que a Espanha perdeu o controle de Cuba em meio \u00e0 luta pela independ\u00eancia, os EUA colocaram a ilha sob ocupa\u00e7\u00e3o militar. Logo em seguida, tomaram Porto Rico, que estabeleceram como depend\u00eancia colonial, bem como as Filipinas e Guam, mantidas como territ\u00f3rios n\u00e3o incorporados. Esse per\u00edodo de imperialismo foi caracterizado pelo exerc\u00edcio aberto e unilateral da agress\u00e3o dos EUA.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa forma de imperialismo levou a d\u00e9cadas de intensa resist\u00eancia. Em sua<a href=\"https:\/\/albamovimientos.net\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Carta-de-Jamaica-Bolivar-S.pdf\"> Carta da Jamaica<\/a>, de 1815, Sim\u00f3n Bol\u00edvar prop\u00f4s uma uni\u00e3o das na\u00e7\u00f5es latino-americanas rec\u00e9m-independentes. Em 1826, o Congresso do Panam\u00e1, organizado por Bol\u00edvar, clamava por uma uni\u00e3o hispano-americana para resistir \u00e0 pol\u00edtica pan-americanista de Washington. Quando a primeira C\u00fapula Pan-Americana no estilo Monroe ocorreu em Washington em 1890, Jos\u00e9 Mart\u00ed ganhou destaque em todas as Am\u00e9ricas. Seu ensaio seminal de 1891, \u201c<a href=\"https:\/\/bibliotecavirtual.clacso.org.ar\/ar\/libros\/osal\/osal27\/14Marti.pdf\">Nuestra Am\u00e9rica<\/a>\u201d, foi amplamente lido em todo o continente, tornando-se a base para movimentos anticolonialistas e de soberania popular que buscavam construir a unidade regional contra o novo agressor imperial do Norte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O v\u00ednculo co-constitutivo entre imperialismo e resist\u00eancia \u00e9 essencial para a hist\u00f3ria das Am\u00e9ricas,<a data-contents=\"Casanova, Pablo Gonz\u00e1lez. 1985. (<)em(>)Imperialismo y liberaci\u00f3n: Una introducci\u00f3n a la historia contempor\u00e1nea de Am\u00e9rica Latina(<)\/em(>). M\u00e9xico, D.F.: Siglo XXI Editores. Preciado, Jaime. 2023.&nbsp; \u201cEl panamericanismo: instrumento geopol\u00edtico para la implementaci\u00f3n de la Doctrina Monroe\u201d. Em: (<)em(>)La Doctrina Monroe contra Am\u00e9rica Latina y el Caribe (1823\u20132023): dos siglos de agresiones, intervenciones e injerencia(<)\/em(>). ed. Carlos Oliva Campos. Caracas: Monte \u00c1vila Editores Latinoamericana. Morgenfeld, Leandro. 2023. (<)em(>)Nuestra Am\u00e9rica frente a la doctrina Monroe: 200 a\u00f1os de disputas(<)\/em(>). Buenos Aires: CLACSO.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-1\" href=\"#footnote-list-1\">1<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Casanova, Pablo Gonz\u00e1lez. 1985. (<)em(>)Imperialismo y liberaci\u00f3n: Una introducci\u00f3n a la historia contempor\u00e1nea de Am\u00e9rica Latina(<)\/em(>). M\u00e9xico, D.F.: Siglo XXI Editores. Preciado, Jaime. 2023.&nbsp; \u201cEl panamericanismo: instrumento geopol\u00edtico para la implementaci\u00f3n de la Doctrina Monroe\u201d. Em: (<)em(>)La Doctrina Monroe contra Am\u00e9rica Latina y el Caribe (1823\u20132023): dos siglos de agresiones, intervenciones e injerencia(<)\/em(>). ed. Carlos Oliva Campos. Caracas: Monte \u00c1vila Editores Latinoamericana. Morgenfeld, Leandro. 2023. (<)em(>)Nuestra Am\u00e9rica frente a la doctrina Monroe: 200 a\u00f1os de disputas(<)\/em(>). Buenos Aires: CLACSO.<\/span> definida por cinco per\u00edodos hist\u00f3ricos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table has-medium-font-size\"><table><tbody><tr><td><strong>Per\u00edodo hist\u00f3rico<\/strong><\/td><td><strong>Orienta\u00e7\u00e3o do pan-americanismo<\/strong><\/td><td><strong>Princ\u00edpios doutrin\u00e1rios do imperialismo<\/strong><\/td><td><strong>Resist\u00eancia latino-americana<\/strong><\/td><\/tr><tr><td rowspan=\"2\"><strong>Primeiro Per\u00edodo (1776\u20131933)<\/strong><\/td><td>Pan-americanismo fundacional (1776\u20131880)<\/td><td>Destino Manifesto<br>&nbsp;<br>Doutrina Monroe<\/td><td>Projeto Bolivariano:&nbsp;Carta da Jamaica<br>&nbsp;<br>Congresso do Panam\u00e1<\/td><\/tr><tr><td>Pan-americanismo imperial (1881\u20131933)<\/td><td>Primeira Confer\u00eancia Pan-Americana\u00a0<br><br>Corol\u00e1rio Roosevelt \u00e0 Doutrina Monroe<\/td><td>Legado de Jos\u00e9 Mart\u00ed<br><br>Pensamento anti-imperialista<br><br>Nuestra Am\u00e9rica<\/td><\/tr><tr><td><strong>Segundo Per\u00edodo (1934\u20131953)<\/strong><\/td><td>Pan-americanismo da \u201cboa vizinhan\u00e7a\u201d<\/td><td>Pol\u00edtica de \u201cboa vizinhan\u00e7a\u201d e \u201csolidariedade hemisf\u00e9rica\u201d<br><br>Dom\u00ednio pol\u00edtico e militar: TIAR \u2014 esfera militar; OEA: rela\u00e7\u00f5es interamericanas; BID: desenvolvimentismo e endividamento<\/td><td>Forma\u00e7\u00e3o da alian\u00e7a desenvolvimentista dos regimes populistas contra a burguesia imperialista<\/td><\/tr><tr><td><strong>Terceiro Per\u00edodo (1954\u20131980)<\/strong><\/td><td>Pan-americanismo da seguran\u00e7a nacional<\/td><td>Doutrina de Seguran\u00e7a Nacional<br><br>Pol\u00edtica de contrainsurg\u00eancia e antirrevolucion\u00e1ria:\u00a0 Escola das Am\u00e9ricas e Opera\u00e7\u00e3o Condor<br><br>Conten\u00e7\u00e3o anticomunista<br><br>Alian\u00e7a para o Progresso<\/td><td>Triunfo da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana e surgimento dos movimentos de liberta\u00e7\u00e3o nacional<br><br>Anti-imperialismo revolucion\u00e1rio e popular<br><br>Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<br><br>Triunfo da Revolu\u00e7\u00e3o Sandinista na Nicar\u00e1gua<br><br>Levantes revolucion\u00e1rios e contra-insurg\u00eancia na Am\u00e9rica Central<\/td><\/tr><tr><td><strong>Quarto Per\u00edodo (1981\u20132020)<\/strong><\/td><td>Pan-americanismo neoliberal<\/td><td>Neoliberaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es internacionais<br><br>Consenso de Washington<br><br>C\u00fapula das Am\u00e9ricas<br><br>A ALCA como pan-americanismo multilateral<br>Acordos de livre com\u00e9rcio (ALCs) e ALCs sub-regionais como estrat\u00e9gia de pan-americanismo unilateral<br><br>Cria\u00e7\u00e3o do Comando Norte<\/td><td>Ciclo de agita\u00e7\u00e3o social de 1989 (Caracazo) a 2001 (Que se vayan todos)<br><br>Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana<br><br>Levante Zapatista<br><br>F\u00f3rum Social Mundial e Alian\u00e7a Social Continental<br><br>Ciclo de governos progressistas<\/td><\/tr><tr><td><strong>Quinto Per\u00edodo (2021\u20132026\u2026)<\/strong><\/td><td>A crise do pan-americanismo liberal e a supremacia unilateral trumpista<\/td><td>Tornar a Am\u00e9rica Grande Novamente<br><br>A Am\u00e9rica em Primeiro Lugar<br><br>Corol\u00e1rio Trump-Rubio<br><br>Doutrina Donroe<br><br>Interven\u00e7\u00e3o militar na Venezuela<br><br>\u201cEscudo das Am\u00e9ricas\u201d<br><br>Grande Am\u00e9rica do Norte<\/td><td>Eixo Brasil-Col\u00f4mbia-M\u00e9xico contra o unilateralismo dos EUA<br><br>Frente Mundial Antifascista<br><br>Movimentos da ALBA<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><figcaption class=\"wp-element-caption\">Fonte: Trabalho do autor baseado em Preciado, Jaime A.. 2023. \u201cEl panamericanismo: instrumento geopol\u00edtico para la implementaci\u00f3n de la Doctrina Monroe\u201d. Em Campos, Carlos Oliva (ed.) <em>&nbsp;La Doctrina Monroe contra Am\u00e9rica Latina y el Caribe (1823-2023): dos siglos de agresiones, intervenciones e injerencia<\/em>. Caracas: Monte \u00c1vila Editores Latinoamericana, 71\u2013114.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O imperialismo estadunidense, portanto, n\u00e3o \u00e9 simplesmente uma atividade unilateral de domina\u00e7\u00e3o. Ele \u00e9 sempre contestado e remodelado pelos movimentos de resist\u00eancia.<a data-contents=\"Correa, J.. 2020. Panamericanismo versus latinoamericanismo: tensi\u00f3n geopol\u00edtica y civilizacional. (<)em(>)Analecta Pol\u00edtica(<)\/em(>), 10(19), 56-76.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-2\" href=\"#footnote-list-2\">2<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Correa, J.. 2020. Panamericanismo versus latinoamericanismo: tensi\u00f3n geopol\u00edtica y civilizacional. (<)em(>)Analecta Pol\u00edtica(<)\/em(>), 10(19), 56-76.<\/span> O pan-americanismo manifesta-se, por vezes, pela <em>diplomacia das canhoneiras<\/em>\u2014expressa em processos intervencionistas violentos que inclu\u00edram invas\u00f5es, derrubadas de governos<em>,<\/em> e anexa\u00e7\u00f5es territoriais<em>\u2014<\/em>e, por vezes, pela <em>diplomacia da cenoura<\/em>\u2014que se baseia na negocia\u00e7\u00e3o, em tratados e num sistema de endividamento. Essas duas facetas do imperialismo estadunidense constituem arsenais distintos que podem ser direcionados a diferentes atores, muitas vezes durante o mesmo per\u00edodo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma nova fase do imperialismo dos Estados Unidos seria lan\u00e7ada por Franklin D. Roosevelt em 1933. Com a Pol\u00edtica de \u201cBoa Vizinhan\u00e7a\u201d, Washington buscou rela\u00e7\u00f5es mais amig\u00e1veis, recuou das interven\u00e7\u00f5es militares e iniciou a coopera\u00e7\u00e3o hemisf\u00e9rica, incluindo os primeiros \u00f3rg\u00e3os multilaterais que viriam a formar a base do nascente sistema interamericano. O per\u00edodo ampliou uma plataforma de controle militar por meio do Tratado Interamericano de Assist\u00eancia Rec\u00edproca (TIAR, 1947) e das dez Confer\u00eancias Pan-Americanas realizadas antes de 1954. A cria\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os diplom\u00e1ticos que alegavam apoiar a governan\u00e7a democr\u00e1tica, como a Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos em 1948, funcionou efetivamente como um meio de conten\u00e7\u00e3o anticomunista e de isolamento de pa\u00edses e movimentos que se opunham \u00e0 hegemonia dos EUA.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa fase do imperialismo estadunidense tamb\u00e9m refletiu uma nova gera\u00e7\u00e3o de movimentos de resist\u00eancia. Foi durante esse per\u00edodo que surgiram movimentos nacionais-populares em toda a Am\u00e9rica Latina e no Caribe, em oposi\u00e7\u00e3o a burguesias nacionais e oligarquias apoiadas pelos Estados Unidos e pela Europa. Ao mesmo tempo, desenvolveu-se um processo de integra\u00e7\u00e3o social que buscava proteger e fortalecer os mercados sociais,<a data-contents=\"Dussel, Enrique. 2006.(<)em(>) 20 tesis de pol\u00edtica(<)\/em(>). Mexico: Siglo XXI \/ Centro de Cooperaci\u00f3n Regional para la Educaci\u00f3n de Adultos en Am\u00e9rica Latina y el Caribe, 93.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-3\" href=\"#footnote-list-3\">3<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Dussel, Enrique. 2006.(<)em(>) 20 tesis de pol\u00edtica(<)\/em(>). Mexico: Siglo XXI \/ Centro de Cooperaci\u00f3n Regional para la Educaci\u00f3n de Adultos en Am\u00e9rica Latina y el Caribe, 93.<\/span> ou o que Cardoso e Faletto denominaram \u201calian\u00e7a desenvolvimentista\u201d entre os industriais e os setores oper\u00e1rios e populares. A for\u00e7a avassaladora desses movimentos imp\u00f4s a necessidade de uma coopera\u00e7\u00e3o multilateral, por receio de provocar uma revolta ainda maior.<a data-contents=\"Cardoso, Fernando Henrique; Faletto, Enzo. 2007 Depend\u00eancia e desenvolvimento na Am\u00e9rica Latina: ensaio de interpreta\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica. Rio de Janeiro: Zahar\" class=\"footnote\" id=\"footnote-4\" href=\"#footnote-list-4\">4<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Cardoso, Fernando Henrique; Faletto, Enzo. 2007 Depend\u00eancia e desenvolvimento na Am\u00e9rica Latina: ensaio de interpreta\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica. Rio de Janeiro: Zahar<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, o apelo \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o acabou mais uma vez levando \u00e0 viol\u00eancia unilateral. Com a intensifica\u00e7\u00e3o da Guerra Fria, as autoridades governamentais dos EUA n\u00e3o podiam mais correr o risco de dar a impress\u00e3o de soberania regional. O Golpe de Estado de 1954 na Guatemala foi logo seguido pela tentativa de invas\u00e3o de Cuba em 1961; a recupera\u00e7\u00e3o do Canal do Panam\u00e1 ap\u00f3s a revolta pela soberania em 1964; o golpe de Estado contra o governo de Jo\u00e3o Goulart no Brasil naquele mesmo ano; a interven\u00e7\u00e3o militar na Rep\u00fablica Dominicana em 1965; o assassinato de Ernesto \u201cChe\u201d Guevara na Bol\u00edvia em 1967; o golpe contra Salvador Allende no Chile em 1973; e a Opera\u00e7\u00e3o Condor na Argentina em 1975.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O estabelecimento de uma infraestrutura militar pan-continental logo se tornou um mecanismo-chave de controle. A cria\u00e7\u00e3o do Comando de Defesa do Caribe durante a Segunda Guerra Mundial foi fundamental para isso. O objetivo era controlar o Canal do Panam\u00e1, monitorar o Caribe e coordenar miss\u00f5es militares na Am\u00e9rica Latina. Al\u00e9m disso, foi criada a Escola das Am\u00e9ricas, um centro de treinamento que lan\u00e7ou as bases para o imperialismo de contra-insurg\u00eancia. Em 1963, surgiu o Comando Sul (SOUTHCOM) com o objetivo de conter o comunismo e a revolta popular, e expandir os compromissos de contra-insurg\u00eancia consagrados na Doutrina de Seguran\u00e7a Nacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O legado dessas ag\u00eancias continua a moldar as alian\u00e7as militares continentais de hoje. \u00c9 importante ressaltar que a resist\u00eancia eficaz da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana se tornou uma inspira\u00e7\u00e3o para v\u00e1rios movimentos de liberta\u00e7\u00e3o nacional e lutas guerrilheiras. E foi nesse cen\u00e1rio insurgente que os princ\u00edpios anti-imperialistas mais significativos do s\u00e9culo\u2014o internacionalismo e a promo\u00e7\u00e3o de um humanismo revolucion\u00e1rio\u2014amadureceram em amplas esferas intelectuais, jornal\u00edsticas e art\u00edsticas por toda a Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi em resposta a esses movimentos que surgiu mais um per\u00edodo imperialista. Com Ronald Reagan como presidente dos Estados Unidos, iniciou-se uma nova fase do pan-americanismo neoliberal, sintetizando um Estado \u201cm\u00ednimo\u201d com \u00eanfase na \u201cseguran\u00e7a nacional\u201d.<a data-contents=\"Gonzalez Casanova, Pablo. 1990. \u201cLa teor\u00eda del Estado y la crisis mundial\u201d. Em Casanova, Pablo Gonz\u00e1lez (coord.). (<)em(>)El Estado en Am\u00e9rica Latina. Teor\u00eda y pr\u00e1ctica(<)\/em(>). M\u00e9xico, D.F.: Siglo XXI Editores \/ Universidad de las Naciones Unidas, 19.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-5\" href=\"#footnote-list-5\">5<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Gonzalez Casanova, Pablo. 1990. \u201cLa teor\u00eda del Estado y la crisis mundial\u201d. Em Casanova, Pablo Gonz\u00e1lez (coord.). (<)em(>)El Estado en Am\u00e9rica Latina. Teor\u00eda y pr\u00e1ctica(<)\/em(>). M\u00e9xico, D.F.: Siglo XXI Editores \/ Universidad de las Naciones Unidas, 19.<\/span> O Estado de seguran\u00e7a m\u00ednima justificou interven\u00e7\u00f5es em v\u00e1rias partes do mundo, particularmente no Caribe e na Am\u00e9rica Central. Com o objetivo de refor\u00e7ar seu dom\u00ednio nas Am\u00e9ricas, o governo de George H. W. Bush prop\u00f4s a Iniciativa das Am\u00e9ricas em 1990 e uma s\u00e9rie de c\u00fapulas bianuais a partir de 1992, como parte das novas agendas p\u00f3s-Guerra Fria. O governo Clinton deu continuidade a essa virada neoliberal ao promover o Acordo de Livre Com\u00e9rcio da Am\u00e9rica do Norte (NAFTA) e a \u00c1rea de Livre Com\u00e9rcio das Am\u00e9ricas (ALCA), que George W. Bush havia adotado como prioridades hemisf\u00e9ricas. Somaram-se a isso as nove C\u00fapulas das Am\u00e9ricas realizadas entre 1994 e 2022.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar da \u00eanfase no com\u00e9rcio e nos mercados, o pan-americanismo neoliberal foi acompanhado por uma agenda de seguran\u00e7a cada vez mais unilateral. Em 2002, foi criado o Comando Norte dos EUA (NORTHCOM) em resposta aos ataques de 11 de setembro de 2001,<a data-contents=\"Sob essa estrutura, as duas esferas de controle geoestrat\u00e9gico definidas pelo SOUTHCOM e pelo NORTHCOM integraram o continente \u00e0 estrat\u00e9gia global de combate ao terrorismo e \u00e0 conceitua\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos como uma pot\u00eancia unilateral que assume o papel de \u201cpol\u00edcia global\u201d.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-6\" href=\"#footnote-list-6\">6<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Sob essa estrutura, as duas esferas de controle geoestrat\u00e9gico definidas pelo SOUTHCOM e pelo NORTHCOM integraram o continente \u00e0 estrat\u00e9gia global de combate ao terrorismo e \u00e0 conceitua\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos como uma pot\u00eancia unilateral que assume o papel de \u201cpol\u00edcia global\u201d.<\/span> incorporando o M\u00e9xico<a data-contents=\"\u00c9 importante ressaltar que, em 2025, o deputado republicano Ken Calver apresentou um projeto de lei para excluir o M\u00e9xico do Comando Norte e transferir sua jurisdi\u00e7\u00e3o para o Comando Sul, embora a proposta n\u00e3o tenha ganhado for\u00e7a.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-7\" href=\"#footnote-list-7\">7<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">\u00c9 importante ressaltar que, em 2025, o deputado republicano Ken Calver apresentou um projeto de lei para excluir o M\u00e9xico do Comando Norte e transferir sua jurisdi\u00e7\u00e3o para o Comando Sul, embora a proposta n\u00e3o tenha ganhado for\u00e7a.<\/span> como parte da zona de seguran\u00e7a priorit\u00e1ria diante das amea\u00e7as transnacionais, bem como o lan\u00e7amento da guerra global contra o terrorismo e a reorganiza\u00e7\u00e3o da luta contra o tr\u00e1fico de drogas em escala regional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante desse cen\u00e1rio, um novo ciclo de protestos sociais foi iniciado. Ele teve in\u00edcio em 1989 com o \u201cCaracazo\u201d na Venezuela, a Campanha Continental pelos 500 Anos de Resist\u00eancia Ind\u00edgena, Negra e Popular em 1990 e uma enxurrada de movimentos sociais antiglobaliza\u00e7\u00e3o, como os zapatistas em Chiapas e o F\u00f3rum Social Mundial de 2001 em Porto Alegre.<a data-contents=\"Bringel, Breno e Cabezas, Almudena. 2014. \u201cGeopol\u00edtica de los movimientos sociales latinoamericanos: espacialidades, ciclos de contestaci\u00f3n y horizonte de posibilidades\u201d. Em Coronado. J. (coord.). (<)em(>)Anuario de la integraci\u00f3n latinoamericana y caribe\u00f1a(<)\/em(>), 323-342. Guadalajara: Universidad de Guadalajara \/ University Press of the South New Orleans \/ Ediciones de la Noche.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-8\" href=\"#footnote-list-8\">8<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Bringel, Breno e Cabezas, Almudena. 2014. \u201cGeopol\u00edtica de los movimientos sociales latinoamericanos: espacialidades, ciclos de contestaci\u00f3n y horizonte de posibilidades\u201d. Em Coronado. J. (coord.). (<)em(>)Anuario de la integraci\u00f3n latinoamericana y caribe\u00f1a(<)\/em(>), 323-342. Guadalajara: Universidad de Guadalajara \/ University Press of the South New Orleans \/ Ediciones de la Noche.<\/span> Por mais de uma d\u00e9cada, foi constru\u00edda uma rede regional de dissid\u00eancia, uma fonte de <a href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/publication\/368646657_Geopolitica_critica_de_los_multilateralismos_e_interpelaciones_desde_la_potencia_social_glocal_Miradas_cardinales_desde_America_Latina_y_el_Caribe_en_un_contexto_de_crisis_pandemica\">multilateralismo social<\/a> que marcou a resist\u00eancia ao pan-americanismo em geral e ao neoliberalismo em particular.<a data-contents=\"A revolta zapatista de 1994 tornou-se um marco global para a resist\u00eancia antiglobaliza\u00e7\u00e3o ao se opor ao Acordo de Livre Com\u00e9rcio da Am\u00e9rica do Norte (NAFTA), enquanto a Alian\u00e7a Social Continental (ASC), que surgiu no final da d\u00e9cada de 1990, ampliou uma coaliz\u00e3o social transnacional contra o neoliberalismo e em defesa da justi\u00e7a social. Al\u00e9m disso, as C\u00fapulas dos Povos floresceram, juntamente com poderosos movimentos ind\u00edgenas, afrodescendentes e de mulheres em todo o continente.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-9\" href=\"#footnote-list-9\">9<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">A revolta zapatista de 1994 tornou-se um marco global para a resist\u00eancia antiglobaliza\u00e7\u00e3o ao se opor ao Acordo de Livre Com\u00e9rcio da Am\u00e9rica do Norte (NAFTA), enquanto a Alian\u00e7a Social Continental (ASC), que surgiu no final da d\u00e9cada de 1990, ampliou uma coaliz\u00e3o social transnacional contra o neoliberalismo e em defesa da justi\u00e7a social. Al\u00e9m disso, as C\u00fapulas dos Povos floresceram, juntamente com poderosos movimentos ind\u00edgenas, afrodescendentes e de mulheres em todo o continente.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Venezuela bolivariana, epicentro estrat\u00e9gico de uma geopol\u00edtica contra-hegem\u00f4nica voltada para a integra\u00e7\u00e3o regional, conquistou um apoio popular significativo em v\u00e1rios pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina. A implos\u00e3o da ALCA em 2005 foi contrabalan\u00e7ada pela cria\u00e7\u00e3o de importantes institui\u00e7\u00f5es regionais aut\u00f4nomas em rela\u00e7\u00e3o ao sistema pan-americano, como a Uni\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Sul-Americanas e a Alian\u00e7a Bolivariana para os Povos da Nossa Am\u00e9rica \u2013 Tratado de Com\u00e9rcio dos Povos (ALBA-TCP), que reuniram governos e movimentos populares em uma nova fase regional anti-imperialista e de autonomia \u201csul-latino-americana\u201d que \u201cenfraqueceu\u201d substancialmente o alcance da Doutrina Monroe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa onda de resist\u00eancia suscitou uma resposta do agressor do Norte. Em<a href=\"https:\/\/2009-2017.state.gov\/secretary\/remarks\/2013\/11\/217680.htm\"> 2013<\/a>, o ent\u00e3o secret\u00e1rio de Estado John Kerry declarou o fim da Doutrina Monroe, anunciando o in\u00edcio de uma nova era de coopera\u00e7\u00e3o. Ecoando as declara\u00e7\u00f5es de Roosevelt na d\u00e9cada de 1930, Kerry apresentou uma vis\u00e3o de igualdade regional na qual os pa\u00edses adeririam \u201cn\u00e3o a uma doutrina, mas \u00e0s decis\u00f5es que tomamos como parceiros\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A proje\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica bolivariana, a crescente influ\u00eancia do Brasil e a for\u00e7a ascendente da autodetermina\u00e7\u00e3o regional contra a perspectiva de uma multipolaridade liderada pelos EUA deram in\u00edcio a um novo ciclo da Nuestra Am\u00e9rica. Em 2010, foi criada a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), incluindo notavelmente Cuba. Sob esse consenso pol\u00edtico, a regi\u00e3o foi declarada zona de paz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por\u00e9m, na d\u00e9cada de 2010, a crise da esquerda pol\u00edtica e a ascens\u00e3o da extrema direita na Am\u00e9rica Latina levaram ao colapso da integra\u00e7\u00e3o proposta pela Nuestra Am\u00e9rica. Hoje, assistimos a um renascimento vigoroso do imperialismo do s\u00e9culo XX: uma fus\u00e3o da Doutrina Monroe e do Destino Manifesto que lembra o mandato de Theodore Roosevelt. Essa vers\u00e3o do imperialismo representa um poder hegem\u00f4nico em crise, agarrando-se a uma unipolaridade sob a supremacia militarista. Diferentemente de qualquer uma de suas vers\u00f5es anteriores, o dom\u00ednio expl\u00edcito dos EUA sobre o hemisf\u00e9rio ocidental hoje mina a pr\u00f3pria estrutura institucional pan-americana que eles constru\u00edram ao longo dos \u00faltimos dois s\u00e9culos.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A quinta fase do imperialismo estadunidense<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2016, Donald Trump come\u00e7ou a delinear seu projeto pol\u00edtico-ideol\u00f3gico sob o lema \u201cMake America Great Again\u201d (Tornar a Am\u00e9rica Grande Novamente). Com posi\u00e7\u00f5es anti-imigra\u00e7\u00e3o e nacionalistas, o primeiro governo de Trump rejeitou o multilateralismo comercial\u2014nomeadamente o Acordo Estados Unidos-M\u00e9xico-Canad\u00e1 (USMCA) e a Parceria Transpac\u00edfica (TPP)\u2014, ao qual atribuiu a culpa pela perda de empregos na ind\u00fastria nos Estados Unidos.<a data-contents=\"Tovar Ruiz, Juan. 2018. \u201cLa doctrina Trump en pol\u00edtica exterior: fundamentos, rupturas y continuidades\u201d. (<)em(>)Revista CIDOB d\u2019Afers Internacionals(<)\/em(>). 120, 264.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-10\" href=\"#footnote-list-10\">10<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Tovar Ruiz, Juan. 2018. \u201cLa doctrina Trump en pol\u00edtica exterior: fundamentos, rupturas y continuidades\u201d. (<)em(>)Revista CIDOB d\u2019Afers Internacionals(<)\/em(>). 120, 264.<\/span> A virada para uma doutrina ortodoxa de seguran\u00e7a nacional e o crescente nacionalismo levaram o governo a adotar gradualmente os princ\u00edpios fundamentais da Doutrina Monroe para definir sua rela\u00e7\u00e3o com a Am\u00e9rica Latina e o Caribe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na<a href=\"https:\/\/trumpwhitehouse.archives.gov\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/NSS-Final-12-18-2017-0905.pdf\"> Estrat\u00e9gia de Seguran\u00e7a Nacional<\/a> de 2017, o Hemisf\u00e9rio Ocidental apareceu como uma prioridade relativamente secund\u00e1ria na hierarquia geogr\u00e1fica da pol\u00edtica externa, mas a estrat\u00e9gia apontou o tr\u00e1fico de drogas como uma prioridade central. O documento destacou o papel crescente da China na regi\u00e3o por meio de investimentos e empr\u00e9stimos impulsionados pelo Estado. Enquanto isso, considerou a pol\u00edtica da R\u00fassia de apoiar seus aliados radicais\u2014Cuba e Venezuela\u2014como fracassada e anacr\u00f4nica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora a proje\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica pan-americana durante o governo de Joe Biden tenha representado uma breve pausa nessa estrat\u00e9gia, o retorno de Donald Trump \u00e0 Casa Branca marcou o in\u00edcio de uma fase que aprofundou os princ\u00edpios ideol\u00f3gicos da doutrina \u201cAmerica First\u201d. Essa turbul\u00eancia interna est\u00e1 ligada a um retorno expl\u00edcito aos princ\u00edpios da Doutrina Monroe e a uma proje\u00e7\u00e3o imperialista supremacista. A<a href=\"https:\/\/www.whitehouse.gov\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/2025-National-Security-Strategy.pdf\"> Estrat\u00e9gia de Seguran\u00e7a Nacional<\/a> dos EUA para 2025, ao contr\u00e1rio da de 2017, posicionou o Hemisf\u00e9rio Ocidental como a regi\u00e3o priorit\u00e1ria dentro da proje\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica dos EUA:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s anos de neglig\u00eancia, os Estados Unidos reafirmar\u00e3o e aplicar\u00e3o a Doutrina Monroe para restaurar a supremacia dos EUA no Hemisf\u00e9rio Ocidental e proteger nosso territ\u00f3rio nacional e o acesso a \u00e1reas geogr\u00e1ficas estrat\u00e9gicas em toda a regi\u00e3o. Impediremos que concorrentes de fora do hemisf\u00e9rio posicionem for\u00e7as ou outros meios de amea\u00e7a, possuam ou controlem ativos estrategicamente vitais em nosso hemisf\u00e9rio. Este \u201cCorol\u00e1rio Trump\u201d \u00e0 Doutrina Monroe \u00e9 uma restaura\u00e7\u00e3o sensata e poderosa do poder e das prioridades dos EUA, em conson\u00e2ncia com os interesses de seguran\u00e7a do pa\u00eds.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O chamado \u201cCorol\u00e1rio Trump\u201d visa restabelecer princ\u00edpios hist\u00f3ricos no \u00e2mbito do ambicioso quadro da \u201cDoutrina Monroe\u201d, que tem um duplo objetivo: \u201crecrutar\u201d aliados j\u00e1 estabelecidos no hemisf\u00e9rio para controlar a migra\u00e7\u00e3o, conter o fluxo de drogas e fortalecer a estabilidade e a seguran\u00e7a tanto em terra quanto no mar; e \u201cexpandir\u201d por meio do cultivo e fortalecimento de novas alian\u00e7as, ao mesmo tempo em que refor\u00e7a o apelo dos Estados Unidos como parceiro preferencial em economia e seguran\u00e7a no hemisf\u00e9rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso marca o in\u00edcio da quinta etapa de um imperialismo norte-americano que, ao mesmo tempo em que exacerba o legado hist\u00f3rico das fases mais agressivas do expansionismo e do intervencionismo dos EUA, tamb\u00e9m delas se desloca ao minar as institui\u00e7\u00f5es pan-americanas existentes e suplant\u00e1-las por novos \u00f3rg\u00e3os orientados por personalidades e alinhados com a estrutura ideol\u00f3gica da extrema direita. Essa fase tem buscado o unilateralismo imperial em vez do consenso ou da coordena\u00e7\u00e3o regional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A<a href=\"https:\/\/www.jornada.com.mx\/noticia\/2026\/01\/10\/opinion\/la-nueva-era-imperial-de-eujoseph-stiglitz\"> nova fase do imperialismo<\/a> inaugurou uma era p\u00f3s-pan-americana, em conson\u00e2ncia com o decl\u00ednio dos dogmas da hegemonia neoliberal e dos princ\u00edpios do Consenso de Washington. Sua abordagem estrat\u00e9gica \u00e9 coercitiva, manifestando-se na completa externaliza\u00e7\u00e3o da migra\u00e7\u00e3o e na persegui\u00e7\u00e3o e expuls\u00e3o das comunidades de imigrantes nos EUA. Essas pol\u00edticas internas amea\u00e7am minar os fundamentos b\u00e1sicos da cidadania americana, mantendo-se leais a um nacionalismo fascista defendido pelo MAGA. Nesta quinta fase, os EUA s\u00e3o uma<a href=\"https:\/\/www.cfr.org\/articles\/first-maga-national-security-strategy\"> superpot\u00eancia iliberal<\/a> que acelerou uma crise de hegemonia global ao desmantelar suas alian\u00e7as estrat\u00e9gicas, como a OTAN, subordinar a pol\u00edtica externa \u00e0 pol\u00edtica de guerra de Israel e suplantar a estrutura institucional multilateral da ONU por meio de entidades como o Conselho da Paz. Por exemplo, o plano de reconstru\u00e7\u00e3o da Faixa de Gaza, ap\u00f3s os horrores do genoc\u00eddio, tem sido promovido por figuras do mundo dos neg\u00f3cios com la\u00e7os pessoais estreitos com o pr\u00f3prio Trump.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na Am\u00e9rica Latina e no Caribe, o caminho imperial tem sido caracterizado por um cerco pol\u00edtico, econ\u00f4mico e militar com aspira\u00e7\u00f5es expansionistas. A premissa da doutrina agora est\u00e1 clara: quem dominar o Grande Caribe dominar\u00e1 o cora\u00e7\u00e3o do Hemisf\u00e9rio Ocidental. O presidente venezuelano Nicol\u00e1s Maduro tornou-se o bode expiat\u00f3rio usado pelo Pent\u00e1gono para justificar uma militariza\u00e7\u00e3o abrangente do Grande Caribe.<a href=\"https:\/\/www.emol.com\/noticias\/Internacional\/2026\/01\/02\/1187431\/cronologia-ataques-lanchas-eeuu-venezuela.html\"> Campanhas de bombardeio<\/a> no Caribe e no Pac\u00edfico colombiano destru\u00edram mais de<a href=\"https:\/\/www.jornada.com.mx\/noticia\/2026\/02\/17\/mundo\/eu-mata-a-11-presuntos-narcotraficantes-en-nuevos-ataques-contra-lanchas-en-el-caribe-y-el-pacifico\"> 45 embarca\u00e7\u00f5es<\/a> n\u00e3o identificadas entre setembro de 2025 e mar\u00e7o de 2026, resultando na morte extrajudicial de pelo menos<a href=\"https:\/\/www.vanguardia.com\/mundo\/2026\/02\/23\/ataque-contra-una-lancha-deja-tres-muertos-tras-operativo-de-estados-unidos\/\"> 150<\/a> pessoas. Somou-se a isso uma campanha de assalto militar focada na<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2026\/jan\/07\/russia-submarine-escort-shadow-fleet-tanker-us-sanctions\"> apreens\u00e3o de petroleiros<\/a>, com o objetivo de estabelecer controle de fato sobre as \u00e1guas do Caribe e outras \u00e1reas internacionais ao longo do Atl\u00e2ntico para interromper os fluxos de energia entre a Venezuela e seus principais parceiros energ\u00e9ticos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A interven\u00e7\u00e3o militar de 3 de janeiro na Venezuela ocorreu nesse contexto, com o objetivo central de assumir o controle do setor energ\u00e9tico no Grande Caribe, redirecionar o capital petrol\u00edfero das principais reservas mundiais por meio de reformas estruturais, conter uma revolta social em grande escala no pa\u00eds, reestruturar as cadeias de comando do regime governamental (sem uma transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica) e reverter as rela\u00e7\u00f5es com a R\u00fassia, a China e o Ir\u00e3. O isolamento e o colapso planejado do regime cubano\u2014culminando com a suspens\u00e3o abrupta do<a href=\"https:\/\/www.sela.org\/petrocaribe-integracion-energetica-de-nuevo-tipo\/\"> Petrocaribe<\/a>\u2014fazem parte de uma estrat\u00e9gia brutal de<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/es\/analisis\/cuba-bajo-asedio\/\"> sufocamento energ\u00e9tico<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mudan\u00e7a doutrin\u00e1ria hemisf\u00e9rica ficou evidente nas a\u00e7\u00f5es do governo neste ano. Durante a<a href=\"https:\/\/www.southcom.mil\/MEDIA\/NEWS-ARTICLES\/Article\/4404842\/hegseth-calls-for-military-unity-across-western-hemisphere-at-inaugural-defense\"> Confer\u00eancia de Chefes de Defesa do Hemisf\u00e9rio Ocidental<\/a> em fevereiro, o Secret\u00e1rio de Guerra dos EUA, Pete Hegseth, exortou os chefes de defesa e altos l\u00edderes militares de 34 pa\u00edses do hemisf\u00e9rio a se unirem para deter \u201catores mal-intencionados\u201d. \u201d Na primeira<a href=\"https:\/\/larouchepub.com\/spanish\/actualidades\/2026\/03\/0307-hegs-desvel-plan-guer-hemisf.html\"> \u201cConfer\u00eancia das Am\u00e9ricas contra os Cart\u00e9is<\/a>\u201d, Hegseth<a href=\"https:\/\/thefederalist.com\/2026\/03\/05\/hegseth-partners-with-17-countries-to-fight-narcoterrorists-in-western-hemisphere\/\"> referiu-se<\/a> a advers\u00e1rios que amea\u00e7am a seguran\u00e7a e a geografia compartilhada do continente ao tentarem deslocar \u201ca rela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica \u2018Norte-Sul\u2019\u201d, o que \u201cexclui os Estados Unidos e outras na\u00e7\u00f5es ocidentais, mas inclui pot\u00eancias n\u00e3o ocidentais e outros advers\u00e1rios\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hegseth delineou um mapa estrat\u00e9gico que rejeita a no\u00e7\u00e3o do Sul global em favor de uma<a href=\"https:\/\/thefederalist.com\/2026\/03\/05\/hegseth-partners-with-17-countries-to-fight-narcoterrorists-in-western-hemisphere\/\"> Grande Am\u00e9rica do Norte<\/a>. Ele afirmou ainda: \u201cTodas as na\u00e7\u00f5es e territ\u00f3rios soberanos ao norte do Equador, da Groenl\u00e2ndia ao Equador e do Alasca \u00e0 Guiana, n\u00e3o fazem parte do \u2018Sul global\u2019. Eles formam nosso per\u00edmetro de seguran\u00e7a imediato nesta grande vizinhan\u00e7a em que todos vivemos. Cada um desses pa\u00edses faz fronteira com o Atl\u00e2ntico Norte ou o Pac\u00edfico Norte.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nessa linha, o secret\u00e1rio de Guerra de Trump reafirmou sua perspectiva fundamentalista sobre a geografia e a cultura ocidentais ao definir a Grande Am\u00e9rica do Norte como \u201cna\u00e7\u00f5es crist\u00e3s sob a prote\u00e7\u00e3o de Deus\u201d, reivindicando uma \u201cheran\u00e7a compartilhada\u201d. Esta quinta fase do imperialismo est\u00e1, portanto, enraizada em uma ideologia de seguran\u00e7a nacional continental e determinismo geogr\u00e1fico expansionista. Nesta fase, a Am\u00e9rica Latina e o Caribe s\u00e3o subordinados e submetidos a um realinhamento global.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"705\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart1-pt-d-5-705x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-31556\" style=\"aspect-ratio:0.6889424733034791;width:832px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart1-pt-d-5-705x1024.png 705w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart1-pt-d-5-207x300.png 207w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart1-pt-d-5-768x1115.png 768w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart1-pt-d-5-1058x1536.png 1058w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart1-pt-d-5-1411x2048.png 1411w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart1-pt-d-5-scaled.png 1764w\" sizes=\"auto, (max-width: 705px) 100vw, 705px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O mapa geopol\u00edtico da &#8220;Grande Am\u00e9rica do Norte&#8221;<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nessa redefini\u00e7\u00e3o do hemisf\u00e9rio como a Grande Am\u00e9rica do Norte, o nacionalismo autorit\u00e1rio do governo Trump passou a se orientar para o exerc\u00edcio de uma diplomacia transacional baseada em amea\u00e7as e negocia\u00e7\u00f5es. Essas amea\u00e7as se concretizaram por meio de pol\u00edticas fiscais agressivas e incentivos ao endividamento, com o objetivo de coagir a coopera\u00e7\u00e3o militar, influenciar processos eleitorais e incentivar pol\u00edticas de seguran\u00e7a e anti-imigra\u00e7\u00e3o. Como resultado, existe agora um potencial maior para a interven\u00e7\u00e3o dos EUA na Am\u00e9rica Latina, justificada pela amea\u00e7a do narcoterrorismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesta nova etapa do imperialismo, podemos identificar um novo mapa geopol\u00edtico que se desdobra em quatro dimens\u00f5es. A primeira descreve como a tecnologia e a m\u00eddia t\u00eam sido utilizadas para naturalizar uma vis\u00e3o de expans\u00e3o territorial que se baseia no legado da Doutrina Monroe. Aqui, o nacionalismo econ\u00f4mico se fundiu com o aumento do poder detido por<a href=\"https:\/\/time.com\/7221154\/rise-of-americas-broligarchy\/\"> oligop\u00f3lios tecnol\u00f3gicos e corporativos<\/a> que controlam dados, plataformas, redes e algoritmos.<strong> <\/strong>As principais infraestruturas de m\u00eddia e seus propriet\u00e1rios, muitas vezes grandes doadores de Trump, impulsionam um aparato ideol\u00f3gico que tem sustentado um discurso de cerco anexionista. Imagin\u00e1rios geopol\u00edticos imperiais, como a renova\u00e7\u00e3o do \u201cTio Sam\u201d, refletem os princ\u00edpios hist\u00f3ricos de expans\u00e3o e interven\u00e7\u00e3o enraizados na pol\u00edtica do \u201cgrande bast\u00e3o\u201d e na diplomacia das canhoneiras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A segunda dimens\u00e3o dessa manobra geopol\u00edtica se manifesta na busca pelo controle dos recursos naturais. A<a href=\"https:\/\/www.state.gov\/translations\/spanish\/reunion-ministerial-sobre-minerales-criticos-2026\"> Reuni\u00e3o Ministerial sobre Minerais Cr\u00edticos<\/a>, convocada em fevereiro de 2026 pelo Departamento de Estado dos EUA, \u00e9 um exemplo disso. O encontro teve por objetivo redefinir os termos de acesso aos recursos naturais e aumentar o controle sobre o mercado global. Com o Panam\u00e1 como um istmo estrat\u00e9gico que liga a Europa ao Pac\u00edfico e a regi\u00e3o apresentando um<a href=\"https:\/\/latinoamericana.wiki.br\/es\/entradas\/g\/geopolitica\"> \u201cpotencial relativo de autossufici\u00eancia<\/a>\u201d, segundo Cece\u00f1a, o controle sobre a Am\u00e9rica Latina poderia garantir \u00e0 pot\u00eancia hegem\u00f4nica uma posi\u00e7\u00e3o de relativa invulnerabilidade. A regi\u00e3o<a href=\"https:\/\/repositorio.cepal.org\/server\/api\/core\/bitstreams\/c76a7a2f-5dc9-4eb6-b7e8-1cf98ab85e4d\/content\"> abriga<\/a><a href=\"https:\/\/www.cepal.org\/es\/enfoques\/minerales-criticos-la-transicion-energetica-la-electromovilidad-oportunidades-desarrollo\"> quase<\/a> 20% das reservas mundiais de petr\u00f3leo, 25% dos metais estrat\u00e9gicos e mais de 30% das florestas prim\u00e1rias do mundo.<a data-contents=\"No que diz respeito aos minerais cr\u00edticos, det\u00e9m quase 47% das reservas mundiais de l\u00edtio, 36,6% das reservas de cobre, 34,5% das reservas de prata, 23,8% das reservas de grafite natural, 20,6% das reservas de estanho, 18,8% das reservas de ferro, 16,7% das reservas de terras raras e 15,7% das reservas de n\u00edquel. Produz mais de 50% da prata mundial, 37% do cobre, 36% do molibd\u00eanio, 37% do l\u00edtio, 20% do estanho e do zinco e 16% do ferro.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-11\" href=\"#footnote-list-11\">11<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">No que diz respeito aos minerais cr\u00edticos, det\u00e9m quase 47% das reservas mundiais de l\u00edtio, 36,6% das reservas de cobre, 34,5% das reservas de prata, 23,8% das reservas de grafite natural, 20,6% das reservas de estanho, 18,8% das reservas de ferro, 16,7% das reservas de terras raras e 15,7% das reservas de n\u00edquel. Produz mais de 50% da prata mundial, 37% do cobre, 36% do molibd\u00eanio, 37% do l\u00edtio, 20% do estanho e do zinco e 16% do ferro.<\/span> Al\u00e9m disso, a pr\u00f3pria Venezuela det\u00e9m 17,5% das reservas mundiais de petr\u00f3leo. O \u201cTri\u00e2ngulo do L\u00edtio\u201d, formado por Argentina, Bol\u00edvia e Chile, possui a maior concentra\u00e7\u00e3o de recursos de l\u00edtio do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com o Chile e a Bol\u00edvia se inclinando para a direita em 2025, mais pa\u00edses latino-americanos aderiram a um eixo alinhado a Washington, o que pode representar um rev\u00e9s para a China na regi\u00e3o.<a data-contents=\"O Chile e o Peru mant\u00eam uma posi\u00e7\u00e3o de destaque como l\u00edderes mundiais na produ\u00e7\u00e3o de cobre, enquanto o Brasil, a Jamaica e a Guiana ocupam um lugar significativo na produ\u00e7\u00e3o e nas reservas de bauxita (alum\u00ednio).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-12\" href=\"#footnote-list-12\">12<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">O Chile e o Peru mant\u00eam uma posi\u00e7\u00e3o de destaque como l\u00edderes mundiais na produ\u00e7\u00e3o de cobre, enquanto o Brasil, a Jamaica e a Guiana ocupam um lugar significativo na produ\u00e7\u00e3o e nas reservas de bauxita (alum\u00ednio).<\/span> O Brasil, no entanto, manteve um papel estrat\u00e9gico que poderia servir de contrapeso \u00e0 pol\u00edtica de dom\u00ednio imperial. O pa\u00eds possui reservas essenciais de n\u00edquel, cobalto, terras raras e grafite, e a postura soberanista de Lula, a participa\u00e7\u00e3o do Brasil no bloco BRICS+ e o papel da China como principal parceiro comercial do Brasil poderiam desafiar os objetivos hemisf\u00e9ricos dos EUA.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A terceira dimens\u00e3o da estrat\u00e9gia geopol\u00edtica dos EUA pode ser observada no com\u00e9rcio. As tarifas foram transformadas em arma e fizeram parte de uma estrat\u00e9gia diplom\u00e1tico-transacional para obrigar os pa\u00edses a reorientar suas pol\u00edticas de seguran\u00e7a, promover mudan\u00e7as ideol\u00f3gicas internas e limitar o acesso a \u00e1reas estrat\u00e9gicas no hemisf\u00e9rio. Isso faz parte de um discurso mais amplo de \u201cAmerica First\u201d e da guerra contra o narcoterrorismo, mas, na pr\u00e1tica, tem como alvo a presen\u00e7a comercial, os investimentos e os projetos de infraestrutura da China na regi\u00e3o. O Canal do Panam\u00e1 \u00e9 um exemplo disso. No ano passado, o governo panamenho cedeu \u00e0 press\u00e3o dos EUA para<a href=\"https:\/\/www.dw.com\/es\/panam%C3%A1-hace-equilibrio-entre-estados-unidos-y-china\/a-76123827\"> revogar a concess\u00e3o<\/a> concedida a uma empresa sediada em Hong Kong que operava dois portos no Canal desde 1997.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A estrat\u00e9gia tarif\u00e1ria assumiu uma forma espec\u00edfica na Am\u00e9rica Latina. Trump e sua equipe t\u00eam conduzido negocia\u00e7\u00f5es com cada chefe de Estado, condicionadas ao grau de subordina\u00e7\u00e3o existente e ao alinhamento com o dom\u00ednio dos EUA. As tarifas se tornaram uma alavanca de press\u00e3o pol\u00edtica para garantir concess\u00f5es em acordos comerciais e intervir em assuntos pol\u00edticos internos. Em julho de 2025, por exemplo, o governo amea\u00e7ou<a href=\"https:\/\/elpais.com\/internacional\/2025-07-10\/lula-responde-con-aranceles-reciprocos-al-tarifazo-de-trump-por-el-juicio-a-bolsonaro.html\"> impor uma tarifa de 50% sobre as importa\u00e7\u00f5es do Brasil<\/a> a fim de pressionar o pa\u00eds a<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/mundo\/articles\/c5y87n57mrzo\"> desistir<\/a> dos processos judiciais contra Jair Bolsonaro pelo papel na<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/mundo\/articles\/c5y87n57mrzo\"> tentativa de<\/a> golpe entre 2022 e 2023. No \u00e2mbito comercial, um conjunto de<a href=\"https:\/\/www.whitehouse.gov\/fact-sheets\/2025\/11\/fact-sheet-president-donald-j-trump-announces-historic-trade-deals-with-western-hemisphere-trading-partners\/\"> acordos comerciais e de investimento<\/a> entre os EUA e Guatemala, Argentina, Equador e El Salvador foi anunciado em novembro de 2025, concedendo acesso espec\u00edfico ao mercado dos EUA.<a data-contents=\"Sempre sujeito a avalia\u00e7\u00f5es peri\u00f3dicas que n\u00e3o dependam de acordos comerciais anteriores \u2014 tais como o CAFTA-DR ou acordos de livre com\u00e9rcio assinados anteriormente.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-13\" href=\"#footnote-list-13\">13<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Sempre sujeito a avalia\u00e7\u00f5es peri\u00f3dicas que n\u00e3o dependam de acordos comerciais anteriores \u2014 tais como o CAFTA-DR ou acordos de livre com\u00e9rcio assinados anteriormente.<\/span> Trump recorreu \u00e0 Lei de Poderes Econ\u00f4micos de Emerg\u00eancia Internacional (<a href=\"https:\/\/uscode.house.gov\/view.xhtml?path=\/prelim@title50\/chapter35&amp;edition=prelim\">IEEPA<\/a>) para reajustar as prioridades comerciais de acordo com quest\u00f5es de seguran\u00e7a e imigra\u00e7\u00e3o.<a data-contents=\"Uma disposi\u00e7\u00e3o, ali\u00e1s, que se mostra altamente vulner\u00e1vel(<)a href='https:\/\/www.dw.com\/es\/supremo-de-eeuu-declara-ilegales-los-aranceles-impuestos-por-trump\/a-76065075'(>) \u00e0 luz da(<)\/a(>) recente(<)a href='https:\/\/www.dw.com\/es\/supremo-de-eeuu-declara-ilegales-los-aranceles-impuestos-por-trump\/a-76065075'(>) decis\u00e3o da Suprema Corte dos EUA(<)\/a(>), que determinou que o presidente excedeu sua autoridade ao impor uma s\u00e9rie de tarifas que perturbaram o com\u00e9rcio global.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-14\" href=\"#footnote-list-14\">14<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Uma disposi\u00e7\u00e3o, ali\u00e1s, que se mostra altamente vulner\u00e1vel(<)a href='https:\/\/www.dw.com\/es\/supremo-de-eeuu-declara-ilegales-los-aranceles-impuestos-por-trump\/a-76065075'(>) \u00e0 luz da(<)\/a(>) recente(<)a href='https:\/\/www.dw.com\/es\/supremo-de-eeuu-declara-ilegales-los-aranceles-impuestos-por-trump\/a-76065075'(>) decis\u00e3o da Suprema Corte dos EUA(<)\/a(>), que determinou que o presidente excedeu sua autoridade ao impor uma s\u00e9rie de tarifas que perturbaram o com\u00e9rcio global.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A atua\u00e7\u00e3o pessoal do presidente Trump tamb\u00e9m se manifestou no novo quadro condicional para a obten\u00e7\u00e3o de empr\u00e9stimos por meio do Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI). Na Argentina, Trump<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/es\/analisis\/el-milagro-y-la-motosierra\/\"> apoiou abertamente<\/a> o partido de Javier Milei nas elei\u00e7\u00f5es intermedi\u00e1rias de 2025, sob a amea\u00e7a de<a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/es\/2025\/10\/29\/espanol\/mundo\/trump-elecciones-argentina.html\"> cancelar<\/a> um pacote de ajuda econ\u00f4mica de US$ 20 bilh\u00f5es por meio do FMI. Os EUA tamb\u00e9m pressionaram o FMI a conceder empr\u00e9stimos ao Equador (US$ 6,5 bilh\u00f5es) e a El Salvador (US$ 2 bilh\u00f5es), solidificando la\u00e7os com aliados estrat\u00e9gicos subordinados a esse novo esquema de endividamento hemisf\u00e9rico e ao<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/es\/analisis\/modelo-oligarquico-neoliberal\/\"> modelo olig\u00e1rquico neoliberal<\/a>. Da mesma forma, Trump expressou apoio ao candidato conservador Nasry Asfura, do Partido Nacional, nas<a href=\"https:\/\/www.trtespanol.com\/article\/c089dbbd2ded\"> elei\u00e7\u00f5es hondurenhas<\/a> de 2025 e pressionou a autoridade eleitoral a reverter os resultados desfavor\u00e1veis ao \u201cseu candidato\u201d, amea\u00e7ando retirar todo o apoio ao pa\u00eds centro-americano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto isso, em meio aos bombardeios extrajudiciais dos EUA no Caribe, Trump perdoou<a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/es\/2025\/11\/30\/espanol\/estados-unidos\/trump-narcotrafico-joh-maduro.html\"> Juan Orlando Hern\u00e1ndez<\/a>, o ex-presidente hondurenho que cumpre uma pena de 40 anos por tr\u00e1fico de drogas e lavagem de dinheiro nos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por fim, a quarta dimens\u00e3o da interven\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica dos EUA pode ser vista nas alian\u00e7as militares com governos subordinados que se alinharam ao Corol\u00e1rio Trump. O foco na migra\u00e7\u00e3o e na seguran\u00e7a reflete a alarmante guinada fascista no<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/es\/analisis\/regimen-de-imposicio\/\"> paradigma interno<\/a> dos EUA de fiscaliza\u00e7\u00e3o da imigra\u00e7\u00e3o, conduzida por meio da CBP e do ICE.<a data-contents=\"De acordo com a(<)a href='https:\/\/www.aclutx.org\/cbp-fatal-encounters-tracker\/'(>) ACLU Texas(<)\/a(>), at\u00e9 mar\u00e7o de 2026, foram registradas 367 mortes no total, das quais 78 eram de menores de idade e 51 de cidad\u00e3os americanos ou residentes permanentes legais; 62 ocorreram durante a deten\u00e7\u00e3o; 16 foram causadas por policiais fora de servi\u00e7o; 23 estavam relacionadas ao muro da fronteira; 119 resultaram de persegui\u00e7\u00f5es de ve\u00edculos pela Patrulha de Fronteira; e 6 foram causadas por tiroteios transfronteiri\u00e7os.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-15\" href=\"#footnote-list-15\">15<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">De acordo com a(<)a href='https:\/\/www.aclutx.org\/cbp-fatal-encounters-tracker\/'(>) ACLU Texas(<)\/a(>), at\u00e9 mar\u00e7o de 2026, foram registradas 367 mortes no total, das quais 78 eram de menores de idade e 51 de cidad\u00e3os americanos ou residentes permanentes legais; 62 ocorreram durante a deten\u00e7\u00e3o; 16 foram causadas por policiais fora de servi\u00e7o; 23 estavam relacionadas ao muro da fronteira; 119 resultaram de persegui\u00e7\u00f5es de ve\u00edculos pela Patrulha de Fronteira; e 6 foram causadas por tiroteios transfronteiri\u00e7os.<\/span> Uma maior coopera\u00e7\u00e3o em mat\u00e9ria de seguran\u00e7a e uma presen\u00e7a refor\u00e7ada das for\u00e7as armadas dos EUA ficaram evidentes na j\u00e1 mencionada Confer\u00eancia das Am\u00e9ricas contra os Cart\u00e9is e na iniciativa \u201cEscudo das Am\u00e9ricas\u201d.<a data-contents=\"De acordo com o mais recente(<)a href='https:\/\/www.southcom.mil\/Portals\/7\/Documents\/Posture%20Statements\/2025_SOUTHCOM_Posture_Statement_FINAL.pdf?ver=5L0oh0wyNgJ2_qzelc6wKQ%3d%3d'(>) Relat\u00f3rio do SOUTHCOM(<)\/a(>) sobre Seguran\u00e7a Hemisf\u00e9rica, um montante regional consolidado de US$ 985 milh\u00f5es foi alocado entre 2021 e 2024 durante o governo Biden.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-16\" href=\"#footnote-list-16\">16<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">De acordo com o mais recente(<)a href='https:\/\/www.southcom.mil\/Portals\/7\/Documents\/Posture%20Statements\/2025_SOUTHCOM_Posture_Statement_FINAL.pdf?ver=5L0oh0wyNgJ2_qzelc6wKQ%3d%3d'(>) Relat\u00f3rio do SOUTHCOM(<)\/a(>) sobre Seguran\u00e7a Hemisf\u00e9rica, um montante regional consolidado de US$ 985 milh\u00f5es foi alocado entre 2021 e 2024 durante o governo Biden.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As alian\u00e7as mencionadas t\u00eam origem em uma longa hist\u00f3ria de imperialismo e interven\u00e7\u00e3o militar dos Estados Unidos no hemisf\u00e9rio. Sob press\u00e3o tarif\u00e1ria, o M\u00e9xico concordou em cooperar com os EUA em rela\u00e7\u00e3o a a\u00e7\u00f5es militares contra os cart\u00e9is de drogas. Embora o governo mexicano tenha procurado preservar a soberania territorial e o controle sobre a seguran\u00e7a nacional, ele tem cedido gradualmente \u00e0 press\u00e3o dos EUA. Em fevereiro de 2025, o governo de Claudia Sheinbaum atendeu imediatamente ao pedido do governo dos EUA de refor\u00e7ar a seguran\u00e7a da fronteira norte,<a href=\"https:\/\/elpais.com\/mexico\/2025-02-05\/asi-ha-repartido-sheinbaum-a-10000-militares-en-la-frontera-entre-mexico-y-estados-unidos.html?utm_source=copilot.com\"> mobilizando 10 mil<\/a> membros da Guarda Nacional e do Ex\u00e9rcito, al\u00e9m dos 32 mil membros da Guarda Nacional j\u00e1 designados para tarefas de imigra\u00e7\u00e3o. Enquanto isso, entre 2025 e 2026, o M\u00e9xico<a href=\"https:\/\/english.elpais.com\/international\/2025-08-13\/mexico-extradites-26-cartel-members-to-the-us-under-the-promise-they-will-not-face-death-penalty.html\"> transferiu<\/a> mais de 90 l\u00edderes do tr\u00e1fico de drogas para os Estados Unidos sem um processo de extradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao sobrepor mapas de mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-militar, expans\u00e3o comercial dos EUA e acesso a recursos naturais, podemos ver a disputa geopol\u00edtica que impulsiona a proje\u00e7\u00e3o de poder dos EUA. Sob esse quadro hemisf\u00e9rico, cada territ\u00f3rio subsequente se torna um campo de batalha.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Criatividade anti-imperialista<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta quinta etapa do imperialismo norte-americano n\u00e3o apenas reaviva antigos mecanismos de domina\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m p\u00f5e \u00e0 prova os marcos de refer\u00eancia atrav\u00e9s dos quais a Am\u00e9rica Latina historicamente concebeu sua emancipa\u00e7\u00e3o. A criatividade pol\u00edtica e intelectual n\u00e3o pode limitar-se a denunciar o intervencionismo. Pelo contr\u00e1rio, exige uma releitura estrat\u00e9gica da longa tradi\u00e7\u00e3o latino-americanista, que, longe de ser um repert\u00f3rio nost\u00e1lgico, constitui um campo vivo de produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e pr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O anti-imperialismo de hoje deve ser atualizado diante de novas formas de poder: financeiriza\u00e7\u00e3o coercitiva, extrativismo expandido, militariza\u00e7\u00e3o orientada pela seguran\u00e7a e a captura social das plataformas digitais. A tradi\u00e7\u00e3o anti-imperialista que se estende de Bol\u00edvar e Mart\u00ed at\u00e9 as experi\u00eancias mais recentes de coopera\u00e7\u00e3o latino-americana sugere que a unidade n\u00e3o \u00e9 um dado adquirido, mas uma constru\u00e7\u00e3o repleta de conflitos. Exige vontade pol\u00edtica organizada, coes\u00e3o social e uma imagina\u00e7\u00e3o institucional inovadora que defenda o multilateralismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pan-americanismo dominado pelos EUA hoje \u00e9 claramente incapaz de oferecer um quadro leg\u00edtimo para a coopera\u00e7\u00e3o hemisf\u00e9rica. O que foi historicamente apresentado como um modelo de integra\u00e7\u00e3o tornou-se um mecanismo de subordina\u00e7\u00e3o seletiva, agora radicalizado sob a \u201cDoutrina Donroe\u201d. Isso levanta quest\u00f5es fundamentais: como podemos construir um horizonte anti-imperialista ao nos depararmos com uma nova forma de imperialismo\u2014que se manifesta n\u00e3o apenas por meio da ocupa\u00e7\u00e3o territorial, mas tamb\u00e9m por meio de redes financeiras, plataformas digitais e cadeias de abastecimento globais? O que significa \u201cNuestra Am\u00e9rica\u201d hoje?<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"953\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart2-pt-d-3-1024x953.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-31559\" style=\"aspect-ratio:1.0745105940028878;width:879px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart2-pt-d-3-1024x953.png 1024w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart2-pt-d-3-300x279.png 300w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart2-pt-d-3-768x715.png 768w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart2-pt-d-3-1536x1430.png 1536w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart2-pt-d-3-2048x1906.png 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cNuestra Am\u00e9rica\u201d n\u00e3o pode ser reduzida a um imagin\u00e1rio abstrato baseado em identidade. Deve, ao contr\u00e1rio, ser traduzida em projetos concretos de integra\u00e7\u00e3o, justi\u00e7a social e soberania. A CELAC \u00e9 o melhor exemplo disso. Al\u00e9m disso, as posturas de distintos governos latino-americanos revelam diferen\u00e7as nas concep\u00e7\u00f5es estatais de criatividade anti-imperialista. Nicol\u00e1s Maduro, Gustavo Petro, Claudia Sheinbaum e Luiz In\u00e1cio Lula da Silva denunciaram, em diferentes graus, o retorno da l\u00f3gica intervencionista hemisf\u00e9rica dos Estados Unidos. Essas posi\u00e7\u00f5es ajudam a manter viva uma cr\u00edtica governamental ao imperialismo e a afirmar uma vis\u00e3o de<a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2026\/01\/18\/opinion\/lula-venezuela-trump.html\"> hemisf\u00e9rio que pertence a todos n\u00f3s<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A unidade, tamb\u00e9m, n\u00e3o pode mais se limitar a alian\u00e7as entre Estados. Ela deve representar um movimento entre os povos e as lutas populares, incluindo aquelas lideradas por grupos ind\u00edgenas e afrodescendentes. O<a href=\"https:\/\/horizontemultipolar.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/MANIFIESTO-DE-CARACAS-2.pdf\"> Manifesto de Caracas<\/a> de 2025, movimentos transnacionais como a caravana de solidariedade \u201cNuestra Am\u00e9rica\u201d contra o bloqueio energ\u00e9tico a Cuba em 2026 e mobiliza\u00e7\u00f5es contra interven\u00e7\u00f5es militares s\u00e3o express\u00f5es da criatividade anti-imperialista na sociedade civil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essas pr\u00e1ticas n\u00e3o apenas contestam a imagina\u00e7\u00e3o imperial, mas tamb\u00e9m conectam as lutas locais com horizontes globais de resist\u00eancia popular anti-imperialista e antifascista. O desafio central dessa criatividade anti-imperialista renovada \u00e9 articular um projeto capaz de confrontar o imperialismo em transforma\u00e7\u00e3o. Nessa tens\u00e3o entre mem\u00f3ria e reinven\u00e7\u00e3o, entre fragmenta\u00e7\u00e3o e unidade, reside a possibilidade de um novo ciclo hist\u00f3rico para a Nuestra Am\u00e9rica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Tradu\u00e7\u00e3o: Hugo Fanton<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A geopol\u00edtica do imperialismo em Nuestra Am\u00e9rica<\/p>\n","protected":false},"author":441,"featured_media":31224,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[730],"tags":[],"issue":[997],"newsletter":[],"region":[1012],"sector":[],"theme":[1102,1093],"series":[],"class_list":["post-30782","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-analises","issue-edicao-1-poder-americano","region-america-latina-e-caribe","theme-geopolitica","theme-guerra-seguranca"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.9 - 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