{"id":30299,"date":"2026-05-29T00:00:00","date_gmt":"2026-05-29T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/?p=30299"},"modified":"2026-05-29T03:21:30","modified_gmt":"2026-05-29T03:21:30","slug":"o-mercado-da-soberania","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/o-mercado-da-soberania\/","title":{"rendered":"O mercado da soberania"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2025, Brasil e Estados Unidos protagonizaram um in\u00e9dito incidente diplom\u00e1tico. Uma s\u00e9rie de medidas coercitivas impostas por Donald Trump \u00e0 maior economia da Am\u00e9rica Latina inaugurou meses de tens\u00e3o entre os pa\u00edses. As a\u00e7\u00f5es inclu\u00edram tentativas de interfer\u00eancia pol\u00edtica, san\u00e7\u00f5es contra autoridades e revoga\u00e7\u00e3o de vistos de membros do Executivo e do Judici\u00e1rio, al\u00e9m da mais expressiva: o tarifa\u00e7o de 50% contra produtos brasileiros exportados aos EUA. O que pretendia ser uma demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a econ\u00f4mica e um exerc\u00edcio aberto de hegemonia, no entanto, viria a expor as rachaduras que amea\u00e7am os pilares do imp\u00e9rio. As idas e vindas da agress\u00e3o comercial contra o Brasil ilustram o equ\u00edvoco da estrat\u00e9gia trumpista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os poss\u00edveis impactos das tarifas sobre o desempenho econ\u00f4mico do Brasil causaram forte temor inicial e rea\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica explosiva. Mesmo assim, Lula n\u00e3o cedeu \u00e0s amea\u00e7as de Trump. O que se seguiu foi um r\u00e1pido ciclo acomodat\u00edcio, marcado pela compensa\u00e7\u00e3o da queda nas exporta\u00e7\u00f5es para os EUA pela reorienta\u00e7\u00e3o para outros mercados. Em vez de imposi\u00e7\u00e3o imperial, a investida estadunidense e a rea\u00e7\u00e3o brasileira apontam na dire\u00e7\u00e3o oposta: a debilidade do exerc\u00edcio de poder pela pot\u00eancia hegem\u00f4nica global na regi\u00e3o que, segundo sua pr\u00f3pria Estrat\u00e9gia de Seguran\u00e7a Nacional, est\u00e1 submetida \u00e0 \u201cdoutrina Donroe\u201d. As tarifas falharam econ\u00f4mica e politicamente: em 2025, as exporta\u00e7\u00f5es brasileiras bateram recorde, Bolsonaro foi preso pela trama golpista e o Brasil n\u00e3o foi submetido \u00e0 tutela de Washington.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O descompasso entre expectativa e realidade na agress\u00e3o de Trump exige repensar o lugar do Brasil nas din\u00e2micas geopol\u00edticas globais. A investida ocorreu em uma conjuntura bastante distinta de outros epis\u00f3dios de press\u00e3o comercial (e militar) dos EUA na regi\u00e3o. Nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas, as rela\u00e7\u00f5es internacionais do Brasil mudaram significativamente. O per\u00edodo democr\u00e1tico foi marcado pelo apoio ao multilateralismo, incentivo \u00e0 integra\u00e7\u00e3o regional e coopera\u00e7\u00e3o com outros pa\u00edses do Sul global. No com\u00e9rcio, a China tomou a posi\u00e7\u00e3o dos EUA como principal parceiro econ\u00f4mico, a \u00c1sia e o Mercosul ganharam destaque como destino de exporta\u00e7\u00f5es e o pa\u00eds adotou uma estrat\u00e9gia ativa e consistente de diversifica\u00e7\u00e3o de parceiros. Nesse contexto, o tarifa\u00e7o acelerou uma reorienta\u00e7\u00e3o que j\u00e1 estava em curso, refor\u00e7ando a capacidade do Brasil de absorver choques externos sem convergir para Washington e aproximando o pa\u00eds de parceiros mais est\u00e1veis, antigos e novos.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Tr\u00eas d\u00e9cadas de com\u00e9rcio exterior<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A economia brasileira foi profundamente transformada desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o. A ditadura militar havia promovido um processo de industrializa\u00e7\u00e3o financiado por endividamento externo e marcado por protecionismo, forte concentra\u00e7\u00e3o de renda e repress\u00e3o \u00e0s classes trabalhadoras. As vit\u00f3rias eleitorais de Fernando Collor em 1989 e de Fernando Henrique Cardoso em 1994 e 1998 promoveram uma inflex\u00e3o na agenda econ\u00f4mica e alinharam o pa\u00eds ao programa neoliberal. O per\u00edodo registrou uma acelerada abertura comercial, um amplo programa de privatiza\u00e7\u00f5es e incentivos ao capital estrangeiro, al\u00e9m da ado\u00e7\u00e3o de um plano de estabiliza\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria para responder ao rescaldo inflacion\u00e1rio da ditadura. Em conjunto, esses eventos expuseram a ind\u00fastria nacional a novas vulnerabilidades. A valoriza\u00e7\u00e3o cambial barateou importa\u00e7\u00f5es e a abertura comercial ampliou significativamente a concorr\u00eancia. O pa\u00eds perdeu o dinamismo econ\u00f4mico anteriormente alcan\u00e7ado e passou a registrar d\u00e9ficits comerciais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A isso somou-se a entrada da China no com\u00e9rcio internacional. Nos anos 2000, a alta significativa dos pre\u00e7os de commodities afetou positivamente o com\u00e9rcio exterior brasileiro: a riqueza em recursos naturais e terras cultiv\u00e1veis e a necessidade de recomposi\u00e7\u00e3o da balan\u00e7a comercial consolidaram o Brasil como fornecedor-chave. Ironicamente, a ado\u00e7\u00e3o do Consenso de Washington nos anos 1990 abriu espa\u00e7o para a ascens\u00e3o da parceria com a China na d\u00e9cada seguinte. A partir de 2001, o Brasil voltou a registrar super\u00e1vits comerciais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas as mudan\u00e7as no perfil produtivo brasileiro implicaram mais do que uma nova era de protagonismo da China na balan\u00e7a comercial: nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, o com\u00e9rcio exterior do pa\u00eds passou por um verdadeiro giro, marcado tamb\u00e9m pelo decl\u00ednio da import\u00e2ncia dos EUA e outros pa\u00edses do G7 e pela amplia\u00e7\u00e3o significativa das rela\u00e7\u00f5es com outras partes do mundo. A transi\u00e7\u00e3o do eixo comercial do Atl\u00e2ntico para o Pac\u00edfico e a busca ativa por novos mercados tiveram particular destaque ao longo dos governos liderados pelo Partido dos Trabalhadores, sob a ag\u00eancia de uma pol\u00edtica externa \u201cativa e altiva\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em outras palavras, entre 1990 e 2025, houve uma mudan\u00e7a estrutural na inser\u00e7\u00e3o internacional do Brasil. Em 1990, os EUA eram o destino de quase um quarto de tudo o que o Brasil exportava em valor\u201424,6%\u2014, enquanto a China absorvia apenas 1,2%. Dez anos depois, em 2000, o quadro ainda era basicamente o mesmo: os EUA lideravam com 24,3% e a China respondia por 2% do total exportado. No final da primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI, o cen\u00e1rio se inverteu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2010, a participa\u00e7\u00e3o da China saltou para 15,3%, ultrapassando a dos EUA, cuja parcela caiu para 9,7%. Os anos seguintes consolidaram essa tend\u00eancia: em 2015, a China j\u00e1 havia atingido uma participa\u00e7\u00e3o de 18,8% nas exporta\u00e7\u00f5es e, em 2025, figurava como destino dominante dos produtos brasileiros no mundo, com quase 29% do total. A parcela das exporta\u00e7\u00f5es com destino para os EUA, por sua vez, foi de 12,9% em 2015, 12% em 2024 e, em 2025, ap\u00f3s o tarifa\u00e7o, caiu para 10,8%. Os dados do Comtrade\/ONU revelam tamb\u00e9m o crescimento das rela\u00e7\u00f5es comerciais com outros parceiros ao longo do per\u00edodo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"798\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart1-pt-d-3-1-798x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-31595\" srcset=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart1-pt-d-3-1-798x1024.png 798w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart1-pt-d-3-1-234x300.png 234w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart1-pt-d-3-1-768x986.png 768w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart1-pt-d-3-1-1196x1536.png 1196w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart1-pt-d-3-1-1595x2048.png 1595w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart1-pt-d-3-1-scaled.png 1994w\" sizes=\"auto, (max-width: 798px) 100vw, 798px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o houve simplesmente uma \u201cguinada\u201d do Brasil para a China. O boom de commodities elevou a demanda global como um todo, e v\u00e1rios pa\u00edses passaram a importar mais do Brasil: em 1990, as exporta\u00e7\u00f5es tinham 161 destinos; em 2000, o n\u00famero aumentou para 201; e, em 2025, foram registrados 215 compradores. Superar os 200 destinos significa que o Brasil se relaciona com quase todo o universo de parceiros econ\u00f4micos reconhecidos internacionalmente, o que inclui, al\u00e9m de Estados soberanos, territ\u00f3rios independentes e zonas aduaneiras separadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ascens\u00e3o da China na pauta exportadora esteve diretamente relacionada \u00e0 tomada da posi\u00e7\u00e3o anteriormente ocupada pelos EUA e por outros membros do G7, como Jap\u00e3o, Alemanha e It\u00e1lia. O gr\u00e1fico abaixo, que compara as exporta\u00e7\u00f5es do Brasil para diferentes destinos em 1990, 2000 e 2025, ilustra esse movimento. A evolu\u00e7\u00e3o temporal da participa\u00e7\u00e3o dos dez maiores compradores e do \u201cresto do mundo\u201d no total das exporta\u00e7\u00f5es do Brasil indica, ainda, a virada do Atl\u00e2ntico para o Pac\u00edfico e o crescimento da import\u00e2ncia da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"894\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart4-pt-d-1-2-894x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-31602\" srcset=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart4-pt-d-1-2-894x1024.png 894w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart4-pt-d-1-2-262x300.png 262w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart4-pt-d-1-2-768x880.png 768w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart4-pt-d-1-2-1341x1536.png 1341w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart4-pt-d-1-2-1788x2048.png 1788w\" sizes=\"auto, (max-width: 894px) 100vw, 894px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em meados dos anos 2010, a desacelera\u00e7\u00e3o da China, a queda dos pre\u00e7os internacionais e a crise interna no Brasil reduziram o valor das exporta\u00e7\u00f5es, comprimiram as importa\u00e7\u00f5es e levaram \u00e0 perda de participa\u00e7\u00e3o relativa do pa\u00eds no com\u00e9rcio global. Mas esse choque foi compensado por uma estrat\u00e9gia diplom\u00e1tica e comercial ativa, com o Brasil buscando novos mercados no Oriente M\u00e9dio, no Sudeste Asi\u00e1tico, na \u00c1frica e na pr\u00f3pria Am\u00e9rica Latina. Desde a pandemia e o in\u00edcio da guerra na Ucr\u00e2nia, a demanda por produtos brasileiros registrou um aumento significativo. O perfil <a href=\"https:\/\/www.mckinsey.com\/mgi\/our-research\/geopolitics-and-the-geometry-of-global-trade\">geopoliticamente mais neutro<\/a> do pa\u00eds e o movimento global de prote\u00e7\u00e3o de cadeias de suprimento fizeram com que o Brasil emergisse como um fornecedor seguro em um cen\u00e1rio cada vez mais inst\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A defesa brasileira do \u201cn\u00e3o alinhamento ativo\u201d e de organismos e sistemas multilaterais de com\u00e9rcio, portanto, encontra lastro econ\u00f4mico na redu\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia comercial em rela\u00e7\u00e3o ao centro hegem\u00f4nico do capitalismo global e na capacidade de absor\u00e7\u00e3o de choques em rela\u00e7\u00f5es bilaterais por meio da expans\u00e3o do com\u00e9rcio para outros lugares. Para al\u00e9m da depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 China, que responde atualmente por quase um ter\u00e7o do total das exporta\u00e7\u00f5es, o Brasil soube navegar em um mercado global mais fragmentado, ampliando as parcerias em n\u00famero e escopo geogr\u00e1fico.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O vaiv\u00e9m das tarifas<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde a campanha para o segundo mandato, as tarifas ocuparam um lugar central no discurso de Donald Trump sobre pol\u00edtica externa. Se a promessa j\u00e1 era incongruente\u2014a guerra comercial promovida por Trump em seu primeiro governo, de alcance muito menor, mostrou que as tarifas foram quase integralmente <a href=\"https:\/\/www.econstor.eu\/bitstream\/10419\/336744\/1\/1949664651.pdf\">repassadas<\/a> aos importadores e consumidores estadunidenses\u2014, a execu\u00e7\u00e3o se mostrou ca\u00f3tica. Em fevereiro de 2025, no mesmo ato em que imp\u00f4s uma sobretaxa de 10% \u00e0 China, o presidente anunciou tarifas de 25% contra o M\u00e9xico e o Canad\u00e1, ambos signat\u00e1rios do USMCA, acordo negociado pelo pr\u00f3prio Trump em 2018. Mas o passo seguinte da nova pol\u00edtica comercial seria ainda mais disruptivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2 de abril de 2025, Trump anunciou, com fanfarra, o \u201cDia da Liberta\u00e7\u00e3o\u201d. Foi como se o programa <em>The Price is Right<\/em> tivesse chegado a Washington, <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/us-news\/2025\/apr\/02\/trump-tariffs-white-house-sketch\">reportou<\/a> o <em>Guardian<\/em>. Uma question\u00e1vel ret\u00f3rica sobre d\u00e9ficits comerciais justificou a imposi\u00e7\u00e3o de uma tarifa de 34% \u00e0 China, 20% \u00e0 Uni\u00e3o Europeia e 46% ao Vietn\u00e3. A medida entraria em vigor em uma semana. Mas, na manh\u00e3 de 9 de abril, Trump anunciou a suspens\u00e3o das tarifas por 90 dias, per\u00edodo no qual todos os exportadores estariam sujeitos \u00e0 taxa de 10%. Nascia, assim, o empreendimento de \u201c90 acordos em 90 dias\u201d: o governo do republicano narrou a primeira \u201camarelada\u201d tarif\u00e1ria como uma estrat\u00e9gia de press\u00e3o para que os pa\u00edses afetados firmassem acordos bilaterais favor\u00e1veis aos EUA. Decorridos os noventa dias, em 9 de julho de 2025, a manobra j\u00e1 se mostrava essencialmente<a href=\"https:\/\/www.cfr.org\/articles\/trade-deals-need-more-ninety-days\"> falha <\/a>(mesmo no fim de 2025, o sucesso ainda era <a href=\"https:\/\/www.politico.com\/news\/2025\/06\/12\/trump-wanted-90-deals-in-90-days-instead-hes-finding-wins-where-he-can-00403638\">question\u00e1vel<\/a>). A Casa Branca, ent\u00e3o, <a href=\"https:\/\/cepr.org\/system\/files\/publication-files\/296107-world_war_trade_conflict_containment_and_the_emergent_world_trading_order.pdf\">arriscou<\/a> um <a href=\"https:\/\/www.npr.org\/2025\/07\/07\/nx-s1-5407873\/trump-tariff-rates-trade\">terceiro plano<\/a>: o das \u201ccartas tarif\u00e1rias\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil saiu praticamente ileso do Dia da Liberta\u00e7\u00e3o, submetido apenas \u00e0 al\u00edquota universal de 10%. Com a sobretaxa de outros parceiros comerciais dos EUA, houve at\u00e9 quem apontasse para uma abertura de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2025\/04\/anuncio-de-trump-e-alivio-para-o-brasil-e-oportunidade-para-manufaturados-dizem-especialistas.shtml\">oportunidades<\/a> para a economia brasileira, que poderia se valer da guerra comercial global para melhorar sua posi\u00e7\u00e3o no mercado estadunidense. Alguns setores da economia chegaram a sinalizar uma potencial \u201cvit\u00f3ria\u201d: entre janeiro e junho de 2025, as exporta\u00e7\u00f5es de <a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/markets\/commodities\/brazil-coffee-exporters-glimpse-opportunity-amidst-us-tariffs-2025-04-08\/\">caf\u00e9<\/a> para os EUA cresceram 40%, enquanto as de <a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/world\/china\/brazil-april-beef-exports-us-soar-despite-new-tariffs-beef-lobby-says-2025-05-08\/\">carne<\/a> dobraram. Caf\u00e9 e carne ocupavam, respectivamente, o terceiro e o quarto lugar na lista de produtos brasileiros mais vendidos para o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O otimismo durou pouco: noventa dias depois, o cen\u00e1rio se inverteu. Em 9 de julho de 2025, a carta tarif\u00e1ria do Brasil foi entregue. Trump comunicou \u00e0 Presid\u00eancia brasileira que todas as exporta\u00e7\u00f5es destinadas aos EUA seriam sobretaxadas em 40% a partir de 1\u00ba de agosto, totalizando um encargo de 50%. Tratava-se, ent\u00e3o, da maior tarifa imposta em todo o mundo. Quaisquer supostas oportunidades criadas em abril foram <a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/world\/americas\/meatpackers-rethink-beef-exports-us-after-trump-tariffs-industry-lobby-says-2025-07-15\/\">suspensas<\/a>. Em tr\u00eas meses, o Brasil passou de potencial vencedor da guerra tarif\u00e1ria a maior perdedor.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"632\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart2-pt-d-2-1-632x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-31605\" srcset=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart2-pt-d-2-1-632x1024.png 632w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart2-pt-d-2-1-185x300.png 185w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart2-pt-d-2-1-768x1243.png 768w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart2-pt-d-2-1-949x1536.png 949w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart2-pt-d-2-1-1265x2048.png 1265w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart2-pt-d-2-1-scaled.png 1581w\" sizes=\"auto, (max-width: 632px) 100vw, 632px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A particularidade do caso brasileiro n\u00e3o parou por a\u00ed. Desta vez, a principal justificativa das restri\u00e7\u00f5es comerciais era pol\u00edtica, e n\u00e3o econ\u00f4mica: para Trump, o ex-presidente Jair Bolsonaro sofria persegui\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a brasileira. Para al\u00e9m do tarifa\u00e7o, isso embasou medidas como a revoga\u00e7\u00e3o de vistos para autoridades brasileiras e a san\u00e7\u00e3o, com base na lei Magnitsky, contra Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e relator do processo que levaria Bolsonaro \u00e0 cadeia pouco tempo depois.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/economia\/noticia\/2025\/07\/09\/carta-de-trump-leia-integra-do-texto-que-alega-motivos-politicos-e-comerciais-para-tarifa-de-50percent-brasil.ghtml\">carta<\/a> de julho de 2025, Trump apresentou tr\u00eas motivos para a agress\u00e3o comercial. Em primeiro lugar, falou da suposta \u201cca\u00e7a \u00e0s bruxas\u201d contra Bolsonaro. Em seguida, mencionou a amea\u00e7a do Brasil \u00e0s \u201celei\u00e7\u00f5es livres\u201d e \u00e0 \u201cliberdade de express\u00e3o\u201d do povo estadunidense\u2014o texto rotulava medidas regulat\u00f3rias de redes sociais como \u201cordens de censura\u201d. O terceiro motivo, enfim, dizia respeito \u00e0 rela\u00e7\u00e3o comercial entre os pa\u00edses que, de acordo com Trump, estaria \u201clonge de ser rec\u00edproca\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Imediatamente, Lula divulgou uma <a href=\"https:\/\/agenciagov.ebc.com.br\/noticias\/202507\/nota-lula-sobre-taxacao-trump\">nota<\/a> afirmando que \u201co Brasil \u00e9 um pa\u00eds soberano com institui\u00e7\u00f5es independentes\u201d e que o processo contra os envolvidos na tentativa de golpe de Estado de janeiro de 2023 era de compet\u00eancia exclusiva do Judici\u00e1rio brasileiro. O documento desmentia, ainda, a alega\u00e7\u00e3o de que os EUA teriam um d\u00e9ficit comercial com o Brasil: de acordo com a pr\u00f3pria <a href=\"https:\/\/www.census.gov\/foreign-trade\/balance\/c3510.html\">Casa Branca<\/a>, desde 2008, a balan\u00e7a comercial entre os dois pa\u00edses \u00e9 favor\u00e1vel aos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A <a href=\"https:\/\/www.ft.com\/content\/a4078c2b-3f59-4711-95b6-f20bfd69bc91?emailId=28e277fe-f73e-4278-9656-0b0c9fea5700&amp;segmentId=13b7e341-ed02-2b53-e8c0-d9cb59be8b3b\">in\u00e9dita<\/a> motiva\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para as tarifas recebeu, num primeiro momento, maior aten\u00e7\u00e3o. Na ocasi\u00e3o, Paul Krugman <a href=\"https:\/\/paulkrugman.substack.com\/p\/trumps-dictator-protection-program\">questionou<\/a> o efeito da medida: \u201cas exporta\u00e7\u00f5es para os EUA representam menos de 2% do PIB do Brasil. Ser\u00e1 que Trump realmente imagina que pode usar tarifas para intimidar uma na\u00e7\u00e3o gigantesca, que nem sequer depende muito do mercado americano, a ponto de lev\u00e1-la a abandonar a democracia?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o tema econ\u00f4mico passou logo a dominar as <a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/world\/americas\/brazil-has-few-exit-routes-trump-tariff-feels-less-pain-2025-07-10\/\">discuss\u00f5es.<\/a> Representantes da ind\u00fastria nacional <a href=\"https:\/\/valor.globo.com\/empresas\/noticia\/2025\/07\/15\/consenso-e-negociar-tarifas-com-eua-e-nao-aplicar-reciprocidade-agora-diz-abit.ghtml\">defenderam<\/a> a negocia\u00e7\u00e3o da suspens\u00e3o do tarifa\u00e7o, ressaltando a interdepend\u00eancia dos mercados dos pa\u00edses. Entidades empresariais dos EUA, n\u00e3o \u00e0 toa, juntaram-se ao pleito: quem efetivamente suporta o \u00f4nus s\u00e3o os importadores dos EUA, que repassam os custos aos consumidores do pa\u00eds. A <em>US Chamber of Commerce<\/em> <a href=\"https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/economia\/macroeconomia\/gigante-americana-entra-em-campo-e-defende-negociacao-com-brasil\/\">destacou<\/a> que \u201cmais de 6.500 pequenos neg\u00f3cios nos Estados Unidos dependem de produtos importados do Brasil, enquanto 3.900 empresas americanas investem no pa\u00eds. O Brasil \u00e9 um dos dez principais mercados para as exporta\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos e o destino de aproximadamente US$ 60 bilh\u00f5es em bens e servi\u00e7os americanos todos os anos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Inicialmente, havia esperan\u00e7a de que o Brasil conseguiria adiar a data de in\u00edcio das tarifas. No final de julho, no entanto, a equipe de Lula passou a lidar diretamente com a possibilidade de n\u00e3o haver acordo. Um fundo tempor\u00e1rio de cr\u00e9dito para os setores afetados come\u00e7ou a ser desenhado. O Minist\u00e9rio da Fazenda anunciou um plano de conting\u00eancia e o governo <a href=\"https:\/\/valor.globo.com\/brasil\/noticia\/2025\/07\/21\/brasil-vai-trabalhar-para-diversificar-parceiros-comerciais-apos-tarifaco-diz-rui-costa.ghtml\">declarou<\/a> que trabalharia para diversificar ainda mais os parceiros comerciais e fortalecer o multilateralismo. Lula <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2025\/07\/lula-diz-que-guerra-tarifaria-contra-os-eua-so-comeca-quando-der-resposta-a-trump.shtml\">reafirmou<\/a> estar aberto ao di\u00e1logo: \u201cse Trump quiser, a nossa rela\u00e7\u00e3o ser\u00e1 a melhor poss\u00edvel\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">&#8220;Trump fez Lula great again&#8221;<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para a popula\u00e7\u00e3o estadunidense, a decis\u00e3o de Trump de elevar o pre\u00e7o das importa\u00e7\u00f5es brasileiras foi inoportuna. Antes mesmo da tarifa de 50% entrar em vigor, o mercado interno dos Estados Unidos j\u00e1 sentia o impacto inflacion\u00e1rio em produtos que integram a cesta de consumo da maioria das fam\u00edlias: caf\u00e9 e suco de laranja. Em 2024, o Brasil forneceu mais da metade de todo o suco de laranja comercializado nos EUA e 30% dos gr\u00e3os de caf\u00e9 importados pelo pa\u00eds. O an\u00fancio de Trump fez com que o pre\u00e7o de ambas as commodities <a href=\"https:\/\/www.investopedia.com\/orange-juice-coffee-prices-could-rise-trump-brazil-tariffs-11774093\">disparasse<\/a> no mercado interno. Na semana seguinte ao envio da carta ao Brasil, os pre\u00e7os do suco de laranja congelado para entrega futura j\u00e1 haviam subido 10% e os do caf\u00e9, 6%.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Politicamente, naquele momento, Lula foi quem mais se beneficiou. Desde o boom de commodities, a pauta exportadora do pa\u00eds n\u00e3o fazia t\u00e3o bem para a imagem do presidente. \u201c<a href=\"https:\/\/veja.abril.com.br\/coluna\/thomas-traumann\/trump-fez-lula-great-again\/\">Trump fez Lula great again<\/a>\u201d, afirmou um colunista da Veja, revista notoriamente conservadora. Pesquisas de opini\u00e3o <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/cvg14jje1ydo\">confirmaram<\/a> os ganhos.<a data-contents=\"A Atlas\/Bloomberg, realizada entre 11 e 13 de julho, (<)a href='https:\/\/noticias.uol.com.br\/politica\/ultimas-noticias\/2025\/07\/15\/aprovacao-de-lula-cresce-acima-da-margem-atlas.htm'(>)revelou(<)\/a(>) um crescimento da aprova\u00e7\u00e3o e uma redu\u00e7\u00e3o da desaprova\u00e7\u00e3o do presidente em rela\u00e7\u00e3o ao m\u00eas anterior. A Genial\/Quaest, realizada entre 10 e 14 de julho, (<)a href='https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2025\/07\/quaest-avaliacao-de-lula-tem-oscilacao-favoravel-agora-com-40-de-negativo-e-28-de-positivo.shtml'(>)apontou(<)\/a(>) no mesmo sentido.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-1\" href=\"#footnote-list-1\">1<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">A Atlas\/Bloomberg, realizada entre 11 e 13 de julho, (<)a href='https:\/\/noticias.uol.com.br\/politica\/ultimas-noticias\/2025\/07\/15\/aprovacao-de-lula-cresce-acima-da-margem-atlas.htm'(>)revelou(<)\/a(>) um crescimento da aprova\u00e7\u00e3o e uma redu\u00e7\u00e3o da desaprova\u00e7\u00e3o do presidente em rela\u00e7\u00e3o ao m\u00eas anterior. A Genial\/Quaest, realizada entre 10 e 14 de julho, (<)a href='https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2025\/07\/quaest-avaliacao-de-lula-tem-oscilacao-favoravel-agora-com-40-de-negativo-e-28-de-positivo.shtml'(>)apontou(<)\/a(>) no mesmo sentido.<\/span> Nos <a href=\"https:\/\/www.washingtonpost.com\/world\/2025\/07\/20\/trump-brazil-bolsonaro-lula-bullying-tariff\/\">termos<\/a> do <em>Washington Post<\/em>, \u201co Papai Noel chegou mais cedo para Lula, e o presente foi enviado por Trump\u201d. Enquanto setores progressistas se uniram ao redor de Lula, na oposi\u00e7\u00e3o, o efeito n\u00e3o poderia ter sido pior. Chamadas como \u201c<a href=\"https:\/\/valor.globo.com\/politica\/noticia\/2025\/07\/14\/direita-ja-admite-pulverizar-candidaturas-em-2026.ghtml\">rea\u00e7\u00e3o a Trump amplia racha de aliados de Bolsonaro<\/a>\u201d e \u201c<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2025\/07\/trump-expoe-custo-de-bolsonaro-para-a-direita.shtml\">Trump exp\u00f5e custo de Bolsonaro para a direita<\/a>\u201d foram publicadas repetidas vezes nos principais ve\u00edculos de m\u00eddia do pa\u00eds. As pesquisas de opini\u00e3o tamb\u00e9m <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2025\/07\/quaest-eleitores-de-direita-que-desaprovam-tarifaco-de-trump-superam-os-que-aprovam.shtml\">apontaram<\/a> o impacto negativo do tarifa\u00e7o entre eleitores da direita. Nos EUA, a atitude de Trump foi <a href=\"https:\/\/apublica.org\/2025\/08\/trump-sinks-in-opinion-polls-while-imposing-tariffs-on-brazil\/\">desaprovada<\/a> pela opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A op\u00e7\u00e3o de Lula por n\u00e3o ceder e buscar o di\u00e1logo foi bem-sucedida. O primeiro sinal veio j\u00e1 na ordem executiva de 30 de julho de 2025, que formalizou a aplica\u00e7\u00e3o do tarifa\u00e7o sobre o Brasil, mas incluiu uma lista de 694 exce\u00e7\u00f5es que contemplava <a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/economia\/noticia\/2025-07\/excecoes-do-tarifaco-representam-434-do-valor-exportado-aos-eua\">43,3% das exporta\u00e7\u00f5es<\/a> brasileiras. Produtos como combust\u00edveis, min\u00e9rios, aeronaves civis e fertilizantes foram poupados do tarifa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A tens\u00e3o diplom\u00e1tica poderia atingir o \u00e1pice em setembro, quando o STF julgaria a trama golpista. No dia 11 daquele m\u00eas, Bolsonaro foi condenado a 27 anos e tr\u00eas meses de pris\u00e3o. Caiu por terra o que havia sido, de acordo com Trump, o objetivo maior da ado\u00e7\u00e3o das tarifas. Mas, em vez de um recrudescimento das rela\u00e7\u00f5es, o que se viu foi uma inflex\u00e3o estadunidense.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 23 de setembro, durante a Assembleia Geral da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), Trump relatou em seu discurso a \u201c\u00f3tima qu\u00edmica\u201d que sentiu ao se encontrar rapidamente com Lula nos bastidores. No dia 6 de outubro, os dois se falaram por telefone e iniciaram negocia\u00e7\u00f5es formais para o al\u00edvio das tarifas. Em 20 de novembro, ap\u00f3s uma <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/economia\/noticia\/2025\/11\/13\/apos-reuniao-rubio-foto-mauro-vieira.ghtml\">reuni\u00e3o<\/a> entre Mauro Vieira e Marco Rubio em Washington, a lista de isen\u00e7\u00f5es \u00e0 sobretaxa de 40% foi <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/c9939d703eno\">ampliada<\/a>: um adicional de 269 produtos retornou ao patamar-base de 10%, incluindo caf\u00e9, suco de laranja e carne. Na ocasi\u00e3o, o <em>New York Times<\/em> <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2025\/11\/24\/world\/americas\/trump-bolsonaro-arrest.html\">anunciou<\/a>: \u201cO Brasil desafiou Trump e venceu\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um novo desdobramento, de alcance global, ocorreu em fevereiro de 2026, quando a Suprema Corte dos EUA declarou inconstitucional o uso da Lei de Poderes Econ\u00f4micos de Emerg\u00eancia Internacional (IEEPA, na sigla em ingl\u00eas) para a imposi\u00e7\u00e3o de tarifas. A decis\u00e3o derrubou o tarifa\u00e7o, mas a resposta de Donald Trump foi imediata: amparando-se no Trade Act of 1974, o presidente instituiu uma nova tarifa global de 10%.<a data-contents=\"Enquanto este texto \u00e9 editado, a batalha judicial segue, (<)a href='https:\/\/www.nytimes.com\/2025\/02\/20\/us\/politics\/supreme-court-trump-tariffs.html?searchResultPosition=1'(>)e novamente as tarifas foram derrubadas pela Suprema Corte(<)\/a(>).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-2\" href=\"#footnote-list-2\">2<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Enquanto este texto \u00e9 editado, a batalha judicial segue, (<)a href='https:\/\/www.nytimes.com\/2025\/02\/20\/us\/politics\/supreme-court-trump-tariffs.html?searchResultPosition=1'(>)e novamente as tarifas foram derrubadas pela Suprema Corte(<)\/a(>).<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O cen\u00e1rio voltou a se assemelhar ao de abril de 2025, com o Brasil em vantagem na compara\u00e7\u00e3o global. Os produtos sobretaxados em 40% agora estariam sujeitos apenas aos 10% globais. Mas a lista de isen\u00e7\u00f5es \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es brasileiras, que <a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/internacional\/noticia\/2025-07\/confira-lista-de-quase-700-produtos-que-nao-serao-taxados-pelos-eua\">inclui itens importantes<\/a> na pauta exportadora do Brasil para os EUA, como petr\u00f3leo, combust\u00edveis, min\u00e9rios e aeronaves civis, seguiu vigente. Enquanto aliados como o Jap\u00e3o e a Uni\u00e3o Europeia entraram em um limbo comercial por terem cedido ao acossamento trumpista e fechado acordos bilaterais desfavor\u00e1veis, o Brasil recuperou a competitividade em rela\u00e7\u00e3o aos concorrentes sem aceitar nenhuma das exig\u00eancias de Trump.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O vaiv\u00e9m de um ano de tarifa\u00e7o revela elementos econ\u00f4micos e pol\u00edticos centrais das rela\u00e7\u00f5es internacionais na fase atual do capitalismo global. O decl\u00ednio da import\u00e2ncia dos EUA na pauta exportadora do Brasil explica a limita\u00e7\u00e3o dos efeitos da pol\u00edtica tarif\u00e1ria de Trump sobre a balan\u00e7a comercial da maior economia da Am\u00e9rica Latina. Longe de submeter o Brasil a seus interesses, Trump acelerou ainda mais essa tend\u00eancia. A leitura dos dados do com\u00e9rcio exterior brasileiro n\u00e3o apenas corrobora essa hip\u00f3tese, como sugere um reposicionamento mais amplo do pa\u00eds, que ultrapassa o aumento da participa\u00e7\u00e3o chinesa e aponta para uma reconfigura\u00e7\u00e3o profunda da sua inser\u00e7\u00e3o na economia global.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O mundo como alternativa<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar do tamanho e da import\u00e2ncia como fornecedor mundial, o Brasil tem uma economia bastante fechada. Em 2025, as exporta\u00e7\u00f5es totais atingiram o recorde hist\u00f3rico de US$ 348,7 bilh\u00f5es, um crescimento de 3,5% em rela\u00e7\u00e3o a 2024. Ainda assim, representaram apenas cerca de 17% do PIB do pa\u00eds, um patamar baixo para par\u00e2metros internacionais. Segundo o Banco Mundial, em 2024, as exporta\u00e7\u00f5es responderam por 30% do PIB global, 25% do PIB da Am\u00e9rica Latina e 50% do PIB da OCDE.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O tarifa\u00e7o teve impacto, \u00e9 claro, sobre as exporta\u00e7\u00f5es do Brasil para os EUA, que registraram em 2025 a maior queda desde a pandemia, com uma <a href=\"https:\/\/portalibre.fgv.br\/system\/files\/divulgacao\/releases\/2026-01\/ICOMEX_FGV_Press%20release_Janeiro2026.pdf\">retra\u00e7\u00e3o de 6,6%<\/a> em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior. Enquanto isso, as <a href=\"https:\/\/www.amcham.com.br\/pesquisas-e-estudos\/monitor-do-comercio-brasil-eua-janeiro-dezembro-2025?categoria=comerciointernacional\">exporta\u00e7\u00f5es<\/a> para a China cresceram 6%, para a Uni\u00e3o Europeia 3,2% e para o Mercosul 26,6%. No <a href=\"https:\/\/www.amcham.com.br\/pesquisas-e-estudos\/monitor-do-comercio-brasil-eua-janeiro-a-marco-2026?categoria=comerciointernacional\">primeiro trimestre de 2026<\/a>, os EUA tiveram a menor participa\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie hist\u00f3rica nas vendas brasileiras. O total em valor recuou 18,7% na compara\u00e7\u00e3o com o mesmo per\u00edodo de 2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2024 e 2025, exporta\u00e7\u00f5es do Brasil para os EUA n\u00e3o responderam por mais de 2% do PIB do pa\u00eds. A exposi\u00e7\u00e3o da economia brasileira ao mercado estadunidense \u00e9 limitada. Choques comerciais bilaterais podem ter impactos setoriais, mas tendem a n\u00e3o ter efeitos macroecon\u00f4micos significativos. O crescimento recorde das exporta\u00e7\u00f5es no ano do tarifa\u00e7o mostra como o principal impacto da agress\u00e3o de Trump foi intensificar a estrat\u00e9gia de diversifica\u00e7\u00e3o do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A compara\u00e7\u00e3o do desempenho comercial do Brasil na primeira metade de 2025 (antes das tarifas) e na segunda (ap\u00f3s as tarifas) ilustra esse movimento. Nos primeiros sete meses de 2025, as vendas para os EUA cresceram 4,8%; nos \u00faltimos cinco, tiveram varia\u00e7\u00e3o negativa de 21,3%. Para a China, as exporta\u00e7\u00f5es recuaram em 6,6% nos primeiros sete meses e aumentaram 29,8% nos \u00faltimos cinco. As exporta\u00e7\u00f5es para <a href=\"https:\/\/www.fticonsulting.com\/insights\/reports\/tariffs-accelerated-brazils-export-diversification\">outros destinos<\/a>, especialmente para pa\u00edses da \u00c1sia, da \u00c1frica e do Oriente M\u00e9dio, tamb\u00e9m cresceram. As vendas para o Marrocos aumentaram 62% e para a \u00cdndia, 52,9%, por exemplo. O gr\u00e1fico abaixo mostra as varia\u00e7\u00f5es das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras para os EUA, a China e o mundo entre 2024 e 2025.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"953\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart3-pt-d-1-1-953x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-31608\" style=\"width:760px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart3-pt-d-1-1-953x1024.png 953w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart3-pt-d-1-1-279x300.png 279w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart3-pt-d-1-1-768x826.png 768w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart3-pt-d-1-1-1429x1536.png 1429w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart3-pt-d-1-1-1905x2048.png 1905w\" sizes=\"auto, (max-width: 953px) 100vw, 953px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O tarifa\u00e7o n\u00e3o afetou negativamente as exporta\u00e7\u00f5es do Brasil. Ao contr\u00e1rio, o pa\u00eds se esquivou de potenciais perdas por meio de outros mercados. Entre agosto e dezembro, a China, sozinha, havia <a href=\"https:\/\/www.fticonsulting.com\/insights\/reports\/tariffs-accelerated-brazils-export-diversification\">absorvido<\/a> 37% do com\u00e9rcio impactado pela sobretaxa dos EUA. Grande parte desse volume teve rela\u00e7\u00e3o com a <a href=\"https:\/\/valor.globo.com\/opiniao\/assis-moreira\/coluna\/geopolitica-brasil-e-a-geometria-do-comercio-mundial.ghtml\">substitui\u00e7\u00e3o<\/a> chinesa de commodities anteriormente importadas dos Estados Unidos. Em resumo, o rescaldo da guerra comercial de Trump contra o Brasil esteve longe de ser catastr\u00f3fico. No plano dom\u00e9stico, o governo brasileiro alcan\u00e7ou um grau incomum de coes\u00e3o entre for\u00e7as pol\u00edticas e econ\u00f4micas, a ponto de isolar a oposi\u00e7\u00e3o de direita em torno do tema e garantir a Luiz In\u00e1cio Lula da Silva os mais altos \u00edndices de aprova\u00e7\u00e3o do ano. No plano externo, o pa\u00eds reafirmou a soberania nacional como princ\u00edpio orientador de sua inser\u00e7\u00e3o internacional, algo que sequer as pot\u00eancias europeias conseguiram sustentar com a mesma consist\u00eancia. Para os EUA, se um dos motores da \u201cdoutrina Donroe\u201d era reduzir a relev\u00e2ncia da China nas Am\u00e9ricas, o tarifa\u00e7o fez justamente o contr\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 importante ressaltar que, apesar dos efeitos macroecon\u00f4micos terem sido amplamente amenizados, em alguns setores, a estrat\u00e9gia de compensar a queda nas exporta\u00e7\u00f5es para os EUA pela diversifica\u00e7\u00e3o de mercados n\u00e3o foi exitosa. Segundo o <a href=\"https:\/\/portalibre.fgv.br\/system\/files\/2026-04\/icomex_fgv_press_release_abril2026rev_lia.pdf\">Icomex<\/a> de mar\u00e7o de 2026, \u201cEntre os 28 setores analisados, 24 registraram recuo nas exporta\u00e7\u00f5es entre o primeiro trimestre de 2026 e o de 2025. Entre esses, 15 registraram varia\u00e7\u00e3o positiva nas exporta\u00e7\u00f5es para o resto do mundo e recuaram nas vendas para os Estados Unidos, enquanto 9 registraram queda para os Estados Unidos e o mundo. Quatro setores aumentaram as vendas para os Estados Unidos\u201d.<a data-contents=\"Os relat\u00f3rios mais recentes da Ancham, que cobrem o com\u00e9rcio bilateral entre (<)a href='https:\/\/www.amcham.com.br\/pesquisas-e-estudos\/monitor-do-comercio-brasil-eua-janeiro-dezembro-2025?categoria=comerciointernacional'(>)janeiro e dezembro de 2025(<)\/a(>) e j(<)a href='https:\/\/www.amcham.com.br\/pesquisas-e-estudos\/monitor-do-comercio-brasil-eua-janeiro-a-marco-2026?categoria=comerciointernacional'(>)aneiro a mar\u00e7o de 2026(<)\/a(>), oferecem mais detalhes sobre as din\u00e2micas setoriais desde o tarifa\u00e7o.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-3\" href=\"#footnote-list-3\">3<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Os relat\u00f3rios mais recentes da Ancham, que cobrem o com\u00e9rcio bilateral entre (<)a href='https:\/\/www.amcham.com.br\/pesquisas-e-estudos\/monitor-do-comercio-brasil-eua-janeiro-dezembro-2025?categoria=comerciointernacional'(>)janeiro e dezembro de 2025(<)\/a(>) e j(<)a href='https:\/\/www.amcham.com.br\/pesquisas-e-estudos\/monitor-do-comercio-brasil-eua-janeiro-a-marco-2026?categoria=comerciointernacional'(>)aneiro a mar\u00e7o de 2026(<)\/a(>), oferecem mais detalhes sobre as din\u00e2micas setoriais desde o tarifa\u00e7o.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil se esfor\u00e7ou para aliviar esses impactos setoriais. Um dos principais mecanismos foi a cria\u00e7\u00e3o do programa Brasil Soberano, gerenciado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social (BNDES). Trata-se de uma linha de financiamento destinada a exportadores impactados. Em 2025, os <a href=\"https:\/\/valor.globo.com\/financas\/noticia\/2026\/03\/17\/desembolsos-do-bndes-atingem-r-1697-bilhoes-em-2025-alta-de-27percent-ante-2024.ghtml\">desembolsos totais<\/a> da institui\u00e7\u00e3o atingiram R$ 169,7 bilh\u00f5es, um crescimento de 27% em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior. Desse montante, o <a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/economia\/noticia\/2026-03\/bndes-defende-novo-plano-brasil-soberano-para-ajudar-exportadoras\">Brasil Soberano<\/a> foi respons\u00e1vel por R$ 19,5 bilh\u00f5es\u2014mais da metade do aumento\u2014destinados a 676 empresas. Em 2026, uma <a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/economia\/noticia\/2026-03\/governo-destina-r-15-bi-setores-afetados-por-crises-internacionais\">nova linha de cr\u00e9dito<\/a> de apoio a setores afetados por crises globais foi criada.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O sentido da soberania<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O desfecho incerto da \u201cera p\u00f3s-Guerra Fria\u201d e os resqu\u00edcios cada vez mais fr\u00e1geis do Consenso de Washington trouxeram a quest\u00e3o da soberania para o centro da pol\u00edtica dom\u00e9stica em todo o mundo, inclusive no Brasil. Apesar do favorecimento pol\u00edtico que o ataque de Trump deu a Lula, muitos outros fatores incidem sobre o cen\u00e1rio pol\u00edtico, e, embora a tentativa de intervir no julgamento de Jair Bolsonaro tenha fracassado, o bolsonarismo seguir\u00e1 como principal advers\u00e1rio nas elei\u00e7\u00f5es de outubro. A polariza\u00e7\u00e3o entre uma postura ativa e altiva e uma associa\u00e7\u00e3o subordinada aos Estados Unidos voltar\u00e1 a se refletir nas urnas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na lideran\u00e7a da corrida eleitoral est\u00e3o, de um lado, a extrema direita representada por Fl\u00e1vio Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente e igualmente entusiasta de Trump; de outro, o lulismo, em busca de mais um mandato presidencial com a plataforma de defesa da democracia e do multilateralismo. Fl\u00e1vio Bolsonaro j\u00e1 est\u00e1 tecnicamente empatado com Lula nas pesquisas de inten\u00e7\u00e3o de voto. Ainda que as reviravoltas no com\u00e9rcio internacional possam indicar que haveria base material para o apoio de variados setores da economia a Lula, outras quest\u00f5es estar\u00e3o em jogo. A <a href=\"https:\/\/journals.sagepub.com\/doi\/abs\/10.1177\/0094582X261426297?_gl=1*pai7l1*_up*MQ..*_ga*MjAyMzMwOTA4NS4xNzczODQxODQ2*_ga_60R758KFDG*czE3NzM4NDE4NDYkbzEkZzEkdDE3NzM4NDE4NTAkajU2JGwwJGg0NzIyMjYyNjk.\">domin\u00e2ncia financeira, os conflitos distributivos<\/a>, as altas taxas de juros, os aumentos no custo de vida e os n\u00edveis elevad\u00edssimos de endividamento familiar s\u00e3o algumas delas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O vaiv\u00e9m pol\u00edtico interno e externo indica que muito se passar\u00e1 at\u00e9 outubro. De todo modo, a an\u00e1lise dos impactos da pol\u00edtica tarif\u00e1ria de Trump sobre a economia brasileira d\u00e1 algumas pistas sobre o atual momento hist\u00f3rico. Primeiro, mais do que uma demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a, a ofensiva comercial dos EUA ilustrou o decl\u00ednio do poder imperial sobre o Brasil. Segundo, ainda que o crescimento da import\u00e2ncia chinesa na balan\u00e7a comercial brasileira seja relevante, ele n\u00e3o explica sozinho a resili\u00eancia aos ataques dos EUA: o \u00eaxito vai al\u00e9m das rela\u00e7\u00f5es bilaterais e aponta para a capacidade de operar fora de um eixo \u00fanico de depend\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O caso brasileiro sugere que a constru\u00e7\u00e3o de uma ordem multipolar n\u00e3o depende exclusivamente da emerg\u00eancia de novas pot\u00eancias, mas tamb\u00e9m da amplia\u00e7\u00e3o da margem de manobra de pa\u00edses intermedi\u00e1rios. O erro de c\u00e1lculo de Washington n\u00e3o foi apenas econ\u00f4mico, mas geopol\u00edtico: a\u00e7\u00f5es coercitivas s\u00e3o cada vez mais limitadas em uma ordem internacional na qual pot\u00eancias m\u00e9dias conseguem resistir sem se alinhar. Nesse sentido, a defesa do multilateralismo n\u00e3o \u00e9 simplesmente um <a href=\"https:\/\/www.aljazeera.com\/video\/talk-to-al-jazeera\/2025\/7\/13\/brazils-fm-is-brics-anti-west\">artif\u00edcio ret\u00f3rico<\/a> da diplomacia brasileira. Ela tem base material no reposicionamento internacional do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que estar\u00e1 em jogo nas elei\u00e7\u00f5es deste ano n\u00e3o \u00e9 apenas escolha entre dois projetos de governo, mas tamb\u00e9m entre duas formas de inser\u00e7\u00e3o internacional. A disputa eleitoral entre subordina\u00e7\u00e3o e multilateralismo se sustenta em condi\u00e7\u00f5es materiais concretas, demonstradas didaticamente pelo epis\u00f3dio do tarifa\u00e7o. A li\u00e7\u00e3o \u00e9 que soberania n\u00e3o \u00e9 um conceito abstrato, tampouco mera promessa eleitoreira. \u00c9, ao contr\u00e1rio, a efetiva capacidade de resistir, decidir e negociar sob press\u00e3o. E isso tamb\u00e9m estar\u00e1 em disputa nas urnas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tarifa\u00e7o indica decl\u00ednio da domin\u00e2ncia comercial dos EUA sobre o Brasil<\/p>\n","protected":false},"author":223,"featured_media":31194,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[730],"tags":[762,775,765],"issue":[997],"newsletter":[],"region":[1012,1203],"sector":[],"theme":[1081,1102],"series":[],"class_list":["post-30299","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-analises","tag-brasil","tag-economia-pt-br","tag-longform-pt-br","issue-edicao-1-poder-americano","region-america-latina-e-caribe","region-brasil-pt-br","theme-comercio","theme-geopolitica"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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