{"id":30236,"date":"2026-05-29T00:00:00","date_gmt":"2026-05-29T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/?p=30236"},"modified":"2026-05-29T03:28:35","modified_gmt":"2026-05-29T03:28:35","slug":"china-globa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/china-globa\/","title":{"rendered":"China Global"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 medida que os EUA parecem recuar de sua posi\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica global, distanciando-se das institui\u00e7\u00f5es multilaterais que ajudaram a criar, travando guerras militares mal planejadas contra advers\u00e1rios e guerras econ\u00f4micas mutuamente destrutivas contra aliados, a quest\u00e3o do poder da China no cen\u00e1rio mundial ganhou destaque. Internamente, a economia chinesa\u2014que j\u00e1 responde por 20% do PIB global\u2014continua em expans\u00e3o e est\u00e1 prestes a ingressar no grupo dos pa\u00edses de alta renda. A China \u00e9 a superpot\u00eancia industrial mundial e ostenta um <a href=\"https:\/\/foreignpolicy.com\/2025\/12\/12\/china-trade-surplus-economics-trump-policy\/\">super\u00e1vit comercial<\/a> de US$ 1 trilh\u00e3o. Em 2025, respondeu por quase 30% do valor agregado da <a href=\"https:\/\/www.china-briefing.com\/news\/china-manufacturing-industry-tracker\/\">ind\u00fastria global<\/a>. No plano internacional, emergiu como uma competidora de peso, e o \u201cespectro da China\u201d \u00e9 frequentemente invocado conforme as preocupa\u00e7\u00f5es com o decl\u00ednio estadunidense aumentam. Grande parte dessa proeza se deve \u00e0 crescente estrat\u00e9gia de infraestrutura e desenvolvimento econ\u00f4mico internacional adotada por Pequim. Lan\u00e7ada oficialmente em 2013, a Iniciativa Cintur\u00e3o e Rota j\u00e1 mobilizou um total acumulado de US$ 1,4 trilh\u00e3o em 150 pa\u00edses, por meio de empr\u00e9stimos e investimentos voltados principalmente \u00e0 infraestrutura f\u00edsica na \u00c1sia, \u00c1frica e Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos \u00faltimos anos, a China passou a impulsionar uma nova fase da Iniciativa, focada em tecnologias verdes e energias renov\u00e1veis. Em 2024, o pa\u00eds investiu US$ 340 bilh\u00f5es em manufatura verde dom\u00e9stica e, ao longo dos \u00faltimos tr\u00eas anos, o investimento estrangeiro direto em tecnologias limpas alcan\u00e7ou uma escala sem precedentes. Como <a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/interviews\/the-belt-and-road-2-0\/\">observa<\/a> Mathias Larsen, em valores corrigidos pela infla\u00e7\u00e3o, os investimentos estrangeiros superam com ampla margem os US$ 200 bilh\u00f5es do Plano Marshall. Tim Sahay <a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/interviews\/the-belt-and-road-2-0\/\">relata<\/a> que \u201cdesde 2011, empresas chinesas comprometeram mais de US$ 227 bilh\u00f5es em 461 projetos de manufatura verde em 54 pa\u00edses, com 88% do investimento ocorrendo apenas desde 2022\u201d. Esse novo movimento tem sido descrito como a Cintur\u00e3o e Rota 2.0.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao analisar a ascens\u00e3o da China no cen\u00e1rio internacional, o alcance e a escala de seus investimentos externos costumam atrair a maior parte da aten\u00e7\u00e3o. Mas o projeto global chin\u00eas n\u00e3o se limita \u00e0 esfera pol\u00edtico-econ\u00f4mica. A lideran\u00e7a do pa\u00eds na transi\u00e7\u00e3o verde do mundo em desenvolvimento constitui apenas uma das dimens\u00f5es de uma agenda desenvolvimentista muito mais ampla e multifacetada. A China global \u00e9 um projeto de poder estatal que vai muito al\u00e9m da transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, envolvendo tamb\u00e9m mudan\u00e7as normativas e epistemol\u00f3gicas. Como veremos, a China inaugurou novos padr\u00f5es de governan\u00e7a global e regimes de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento. Em todas essas frentes, ela n\u00e3o atua sozinha, mas em parceria com pa\u00edses que recebem seus investimentos. Essa perspectiva contrasta com as leituras que retratam a China como um mon\u00f3lito autossuficiente, capaz de impor sua vontade ao restante do mundo e operar acima das cabe\u00e7as dos pa\u00edses do Sul global submetidos \u00e0 sua influ\u00eancia, ao mesmo tempo em que apagam o papel desempenhado pelo pr\u00f3prio Sul na ascens\u00e3o chinesa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em vez de recorrer a ju\u00edzos ret\u00f3ricos que ora glorificam, ora demonizam a rela\u00e7\u00e3o da China com o Sul global, este ensaio destaca arenas de disputa-chave que demandam uma investiga\u00e7\u00e3o emp\u00edrica aprofundada. Examinar as engrenagens e consequ\u00eancias dessas disputas \u00e9 essencial para compreender a natureza da rela\u00e7\u00e3o entre a China e o Sul. Determinar se essa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 um caso de \u201cdesenvolvimento descolonial\u201d\u2014capaz de produzir resultados mais justos, equitativos e emancipat\u00f3rios do que aqueles associados \u00e0 influ\u00eancia ocidental\u2014ou uma nova forma de colonialismo, baseada em uma hegemonia renov\u00e1vel que, ainda assim, forja novas cadeias de depend\u00eancia, exige um estudo concreto das din\u00e2micas que articulam a China global e o Sul global.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Transi\u00e7\u00e3o verde, geopol\u00edtica e reindustrializa\u00e7\u00e3o<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A China emergiu como l\u00edder incontest\u00e1vel da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica em escala global. Sua pr\u00f3pria economia \u00e9 cada vez mais impulsionada pela energia limpa, tornando-a o primeiro grande \u201c<a href=\"https:\/\/www.ft.com\/content\/013e8a27-ade5-48ed-8f2e-ffbf70cc508c\">eletroestado<\/a>\u201d do mundo. O pa\u00eds tamb\u00e9m se tornou o principal produtor e exportador de tecnologias limpas para a \u00c1frica, \u00c1sia e Am\u00e9rica Latina, regi\u00f5es em que as elites pol\u00edticas v\u00eam reimaginando projetos nacionais de desenvolvimento baseados em redes el\u00e9tricas, pain\u00e9is solares, baterias e ve\u00edculos el\u00e9tricos fabricados pelos chineses. Grande parte das an\u00e1lises sobre esse processo enfatiza os imperativos chineses e ignora as demandas e aspira\u00e7\u00f5es desenvolvimentistas dos governos do Sul global, que v\u00eam elaborando suas pr\u00f3prias vis\u00f5es de reindustrializa\u00e7\u00e3o, mobilidade verde e fortalecimento do conte\u00fado nacional nas cadeias produtivas de energias renov\u00e1veis. Pa\u00edses como Qu\u00eania e Bangladesh, que j\u00e1 utilizam tecnologias limpas importadas da China, est\u00e3o anos-luz \u00e0 frente do Ocidente na transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica verde. Coletivamente, o Sul global demonstra grande ambi\u00e7\u00e3o nesse campo: n\u00e3o apenas para alcan\u00e7ar o Ocidente, mas para saltar para outro regime energ\u00e9tico. Se forem bem-sucedidos, a atual ordem pol\u00edtico-econ\u00f4mica global, baseada em petroqu\u00edmicos e combust\u00edveis f\u00f3sseis, poder\u00e1 ser profundamente transformada\u2014o que representaria mais um impulso estrat\u00e9gico para a China.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que agora se descreve como transi\u00e7\u00e3o verde \u00e9 uma oportunidade hist\u00f3rica para os pa\u00edses do Sul atingirem suas pr\u00f3prias metas clim\u00e1ticas e ambientais. E, mais do que isso, \u00e9 uma base para oferecer energia acess\u00edvel a setores industriais h\u00e1 muito prejudicados por d\u00e9ficits energ\u00e9ticos e possibilitar mobilidade e consumo a cidad\u00e3os que aspiram a padr\u00f5es mais elevados de bem-estar. A reindustrializa\u00e7\u00e3o baseada na agrega\u00e7\u00e3o de valor \u00e0s cadeias produtivas ocupa posi\u00e7\u00e3o central nas agendas nacionais de desenvolvimento. D\u00e9cadas de neoliberalismo, privatiza\u00e7\u00e3o de minas e terras, al\u00e9m da atrofia das capacidades e fun\u00e7\u00f5es do Estado, levaram \u00e0 \u201cprimariza\u00e7\u00e3o\u201d de muitas economias. Agora, muitos desses pa\u00edses buscam aproveitar suas vantagens naturais em minerais cr\u00edticos n\u00e3o tanto para integrar suas economias \u00e0s cadeias globais de valor organizadas por multinacionais ocidentais, mas para construir suas pr\u00f3prias cadeias produtivas nacionais. Isso envolve desde a extra\u00e7\u00e3o e o beneficiamento mineral at\u00e9 a manufatura de componentes e a montagem final de produtos verdes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se o crescimento das cadeias globais de commodities na d\u00e9cada de 1990 foi impulsionado pelo capital transnacional e pela ideologia dominante do neoliberalismo, o desenvolvimentismo de hoje \u00e9 um projeto liderado pelo Estado e influenciado por transforma\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas e pelo <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S0305750X24002286?casa_token=G24vdAKSYUYAAAAA:7OI0QeyKY9pquaGbefR6Sz2HVttJ-Wpn-xkZyxMz2boSpEYeyfpfADN5ScBCH_bjm3tqu9_9gg\">nacionalismo de recursos<\/a>. E, em vez de cadeias produtivas dispersas globalmente, os governos buscam internalizar essas estruturas em seus pr\u00f3prios territ\u00f3rios nacionais. Desde antes da Covid-19, isso j\u00e1 vinha favorecendo estrat\u00e9gias corporativas de produ\u00e7\u00e3o verticalmente integrada tanto nos <a href=\"https:\/\/www.bloomberg.com\/opinion\/articles\/2022-01-12\/supply-chain-woes-are-convincing-ceos-to-bring-back-vertical-integration\">Estados Unidos<\/a> quanto na <a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/analysis\/byd\/\">China<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No contexto dessa produ\u00e7\u00e3o verticalmente integrada, o capital estrangeiro ainda \u00e9 muito procurado, mas alguns Estados do Sul global v\u00eam <a href=\"https:\/\/blogs.lse.ac.uk\/businessreview\/2026\/03\/02\/the-new-critical-minerals-race-why-the-us-china-rivalry-will-be-decided-in-the-global-south\/\">reafirmando<\/a> seu mandato desenvolvimentista. \u00c9 o caso da Indon\u00e9sia, onde o presidente Joko Widodo <a href=\"https:\/\/www.csis.org\/blogs\/charting-geoeconomics\/indonesian-industrialization-downstreaming-value-chain\">proibiu<\/a>, em 2020, a exporta\u00e7\u00e3o de produtos de n\u00edquel n\u00e3o processados. Da mesma forma, no Brasil, o Partido dos Trabalhadores lan\u00e7ou a<a href=\"https:\/\/www.gov.br\/planalto\/en\/latest-news\/2024\/01\/brazil-launches-new-industrial-policy-with-development-goals-and-measures-up-to-2033\"> Nova Ind\u00fastria Brasil<\/a> em 2024, que inclui uma pol\u00edtica para a industrializa\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica do l\u00edtio. O presidente da Z\u00e2mbia, Hakainde Hichilema, impulsionado pela corrida global por minerais cr\u00edticos, aposta em uma posi\u00e7\u00e3o muito mais forte para os governos africanos nas negocia\u00e7\u00f5es com investidores. A forma como os governos do Sul global continuar\u00e3o explorando essa nova vantagem ser\u00e1 decisiva. Se esses pa\u00edses se limitarem a competir por investimento por meio de pol\u00edticas de concess\u00e3o como isen\u00e7\u00f5es fiscais, cess\u00e3o gratuita de terras e legisla\u00e7\u00f5es trabalhistas permissivas, sem exigir compromissos de localiza\u00e7\u00e3o produtiva e transfer\u00eancia de tecnologia, os ganhos desenvolvimentistas da transi\u00e7\u00e3o verde ser\u00e3o bastante limitados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse processo, a China ocupa uma posi\u00e7\u00e3o contradit\u00f3ria. Ao longo da \u00faltima d\u00e9cada, encontrei muitos funcion\u00e1rios p\u00fablicos e formuladores de pol\u00edticas na Z\u00e2mbia, no Brasil e na Indon\u00e9sia que admiram profundamente a trajet\u00f3ria chinesa: seus avan\u00e7os extraordin\u00e1rios em crescimento econ\u00f4mico, gera\u00e7\u00e3o de riqueza, redu\u00e7\u00e3o da pobreza, capacidade de governan\u00e7a e desenvolvimento tecnol\u00f3gico. Tornando essa experi\u00eancia ainda mais atraente, a China oferece a esses pa\u00edses solu\u00e7\u00f5es completas, desde a concep\u00e7\u00e3o e o financiamento at\u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de projetos de infraestrutura, acompanhadas de uma sedutora ideologia de parceria de desenvolvimento \u201cSul-Sul\u201d, em contraste com a rela\u00e7\u00e3o condescendente de \u201cdoadores-benefici\u00e1rios\u201d inerente \u00e0 ajuda ao desenvolvimento ocidental. N\u00e3o se deve esquecer, contudo, que a China tamb\u00e9m possui seu pr\u00f3prio projeto de integra\u00e7\u00e3o vertical na produ\u00e7\u00e3o de tecnologias renov\u00e1veis, tanto dentro quanto fora de suas fronteiras. Assim como ocorreu na primeira fase da Iniciativa Cintur\u00e3o e Rota, a exporta\u00e7\u00e3o de capacidade excedente, a garantia de acesso a minerais cr\u00edticos e a mercados locais e regionais constituem motores centrais dessa estrat\u00e9gia. Nesse sentido, o risco de que a China acabe se tornando uma concorrente predat\u00f3ria para os pa\u00edses do Sul global que buscam consolidar suas pr\u00f3prias cadeias nacionais de suprimento verde n\u00e3o pode ser subestimado. Resta saber se esses pa\u00edses estar\u00e3o dispostos\u2014e ser\u00e3o capazes\u2014de impor pol\u00edticas de conte\u00fado nacional que obriguem investidores chineses a estabelecer opera\u00e7\u00f5es produtivas locais, ou se ficar\u00e3o restritos \u00e0 montagem local de componentes importados da China.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O hist\u00f3rico chin\u00eas de obten\u00e7\u00e3o de transfer\u00eancia de tecnologia em troca de acesso ao mercado, especialmente na ind\u00fastria automobil\u00edstica, pode oferecer um modelo adapt\u00e1vel. H\u00e1 pesquisas que demonstram que o investimento estrangeiro chin\u00eas apoiado pelo Estado \u00e9 bastante <a href=\"https:\/\/www.cambridge.org\/core\/services\/aop-cambridge-core\/content\/view\/EF96B906259809C00B6B3DEC30E1243A\/S0305741025000025a.pdf\/adaptive_governance_at_work_how_chinese_state_actors_respond_to_overseas_pushback_on_the_belt_and_road_initiative.pdf\">sens\u00edvel<\/a> a demandas locais. Minha pr\u00f3pria <a href=\"https:\/\/press.uchicago.edu\/ucp\/books\/book\/chicago\/S\/bo22657847.html\">pesquisa<\/a> na Z\u00e2mbia mostra que a defini\u00e7\u00e3o abrangente de \u201clucro\u201d adotada pelo capital estatal chin\u00eas\u2014que envolve n\u00e3o apenas retornos financeiros, mas acesso a minerais e influ\u00eancia pol\u00edtica\u2014torna suas empresas menos vol\u00e1teis e menos propensas \u00e0 fuga de capitais do que outros investidores e, portanto, mais abertas a negociar com o Estado anfitri\u00e3o. Agora, os pa\u00edses em desenvolvimento com grandes mercados internos e controle sobre minerais cr\u00edticos ser\u00e3o capazes de aproveitar este momento de disputa geopol\u00edtica em torno das cadeias produtivas para reequilibrar sua rela\u00e7\u00e3o com a China? Essa n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de capacidade burocr\u00e1tica. O realinhamento de poder e de interesses entre classes dominantes j\u00e1 consolidadas ter\u00e1 impacto decisivo na forma como os pa\u00edses do Sul se relacionar\u00e3o com Pequim. Na Indon\u00e9sia, por exemplo, pesquisadores <a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/full\/10.1080\/01436597.2025.2465514\">relatam<\/a> que \u201cinteresses olig\u00e1rquicos, enriquecidos e fortalecidos pelo boom do n\u00edquel dominado pela China e, consequentemente, pouco interessados em endurecer salvaguardas ambientais, sociais e de governan\u00e7a (ESG, na sigla em ingl\u00eas), encontraram aliados no aparato estatal mais amplo.\u201d As formas pelas quais elites pol\u00edtico-econ\u00f4micas de outros pa\u00edses v\u00eam concebendo o papel de suas economias na transi\u00e7\u00e3o verde permanecem pouco compreendidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em tudo isso, tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio compreender melhor o papel do trabalho. Os trabalhadores devem esperar maior ou menor poder de barganha nessa nova economia pol\u00edtica da reindustrializa\u00e7\u00e3o descarbonizada? Relatos do Parque Industrial de Morowali, na Indon\u00e9sia\u2014um dos principais polos do projeto de verticaliza\u00e7\u00e3o da cadeia do n\u00edquel do pa\u00eds, fortemente financiado por capital chin\u00eas\u2014<a href=\"https:\/\/journal.austrodemika.org\/index.php\/ijsps\/article\/view\/136\">apontam<\/a> para uma hist\u00f3ria demasiadamente familiar de degrada\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho, acidentes fatais e conflitos tanto na minera\u00e7\u00e3o quanto no processamento industrial. Ainda n\u00e3o est\u00e1 claro se as novas f\u00e1bricas de ve\u00edculos el\u00e9tricos da BYD na Bahia, no Nordeste brasileiro e em Subang, em Java Ocidental, inaugurar\u00e3o um novo regime produtivo baseado em diferentes qualifica\u00e7\u00f5es de trabalho, com poss\u00edveis consequ\u00eancias para o poder de barganha sindical. Durante a constru\u00e7\u00e3o da planta na Bahia, a BYD foi <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/trabalho-e-emprego\/pt-br\/noticias-e-conteudo\/2025\/junho\/byd-e-autuada-por-submeter-trabalhadores-chineses-a-condicoes-analogas-a-escravidao-na-bahia\">autuada<\/a> por submeter trabalhadores chineses a condi\u00e7\u00f5es an\u00e1logas \u00e0 escravid\u00e3o. Com a planta agora em opera\u00e7\u00e3o, como ser\u00e1 moldada a pol\u00edtica no ch\u00e3o de f\u00e1brica? Diante da precariza\u00e7\u00e3o global do trabalho, os trabalhadores do Sul global precisar\u00e3o do apoio de seus pr\u00f3prios governos para alcan\u00e7ar um equil\u00edbrio mais favor\u00e1vel nas rela\u00e7\u00f5es de classe durante a transi\u00e7\u00e3o verde. Diversos estudos apontam a falta de fiscaliza\u00e7\u00e3o das leis trabalhistas pelos pa\u00edses anfitri\u00f5es como principal fator de degrada\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Ser\u00e1 importante observar se pa\u00edses do Sul global ser\u00e3o pressionados eleitoralmente a se alinhar aos interesses de suas pr\u00f3prias classes trabalhadoras ou n\u00e3o. O discurso chin\u00eas de solidariedade Sul-Sul e desenvolvimento mutuamente ben\u00e9fico pode se revelar bastante superficial caso o poder de barganha dos trabalhadores n\u00e3o avance.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Reconfigurando as regras da governan\u00e7a global<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existe uma dimens\u00e3o menos material, mas n\u00e3o menos fundamental, do desenvolvimento que tamb\u00e9m \u00e9 central para o estreitamento dos v\u00ednculos entre a China e o Sul global: a transforma\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es e normas da governan\u00e7a global. Foi na Confer\u00eancia Afro-Asi\u00e1tica de Bandung, em 1955, que a China assumiu pela primeira vez um papel de lideran\u00e7a, articulando uma vis\u00e3o anti-imperialista e anti-hegem\u00f4nica de uma ordem mundial mais justa e igualit\u00e1ria. A ascens\u00e3o da China como uma pot\u00eancia econ\u00f4mica de primeira grandeza ao longo das \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas finalmente lhe conferiu peso suficiente nas institui\u00e7\u00f5es internacionais para alterar as regras do jogo. Da regula\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria internacional e do financiamento ao desenvolvimento \u00e0 defini\u00e7\u00e3o de direitos humanos e padr\u00f5es de ciberseguran\u00e7a, a China tem atuado em alian\u00e7a com pa\u00edses do Sul \u201ccom ideais semelhantes\u201d para alterar as normas globais\u2014ainda que de forma desigual e incompleta. H\u00e1 aqui um paradoxo dif\u00edcil de ignorar: apesar de suas tend\u00eancias autocr\u00e1ticas e repressivas no plano dom\u00e9stico, a China tem desempenhado um papel cooperativo no cen\u00e1rio internacional, defendendo mudan\u00e7as que muitos considerariam progressistas em \u00e1reas-chave da governan\u00e7a global. Alguns exemplos ajudam a iluminar tanto o alcance quanto as ambiguidades desse processo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde os anos 1980, a Rep\u00fablica Popular da China lidera os esfor\u00e7os de pa\u00edses de renda m\u00e9dia e em desenvolvimento por uma ordem econ\u00f4mica mundial mais equilibrada no Banco Mundial e no Fundo Monet\u00e1rio Internacional. A China evoluiu de mera \u201ctomadora de regras\u201d nas institui\u00e7\u00f5es de Bretton Woods para uma esp\u00e9cie de \u201ccontestadora de regras\u201d e, mais recentemente, de \u201cformuladora de regras\u201d, inclusive por meio da constru\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es alternativas \u00e0quelas lideradas pelo Ocidente. Como <a href=\"https:\/\/www.cambridge.org\/core\/elements\/china-and-the-global-economic-order\/FE61967972F25A4F79B0E537B1685930\">demonstram<\/a> Kevan Gallagher e Gregory Chin, os esfor\u00e7os chineses em defesa da antiga reivindica\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses do Sul global por maior representa\u00e7\u00e3o no FMI foram, em grande medida, bem-sucedidos. Diversas mudan\u00e7as institucionais ocorreram nesse processo. Os direitos de voto dos membros do Sul foram ampliados e a cesta de moedas que comp\u00f5e os Direitos Especiais de Saque (DES) tornou-se mais diversificada. Al\u00e9m disso, o pagamento de empr\u00e9stimos passou, em alguns casos, a poder ser realizado por meio de commodities, recursos naturais ou fornecimento de energia do pa\u00eds mutu\u00e1rio, em vez de apenas em dinheiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Banco Mundial, a concorr\u00eancia exercida pelas pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es financeiras chinesas for\u00e7ou a institui\u00e7\u00e3o a encurtar os prazos de aprova\u00e7\u00e3o de projetos e a voltar a priorizar investimentos em infraestrutura. A China tamb\u00e9m criou e ajudou a criar bancos multilaterais de desenvolvimento paralelos, fora das institui\u00e7\u00f5es de Bretton Woods. O Banco Asi\u00e1tico de Investimento em Infraestrutura (AIIB, na sigla em ingl\u00eas) e o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB, na sigla em ingl\u00eas) s\u00e3o dois exemplos em que os padr\u00f5es ambientais, sociais e de governan\u00e7a n\u00e3o s\u00e3o impostos externamente, mas definidos de acordo com as especificidades de cada pa\u00eds. Em contraste com o modelo hier\u00e1rquico de Bretton Woods, os pa\u00edses do BRICS concordaram em conceder poder de voto igualit\u00e1rio a cada membro-fundador do NDB. Al\u00e9m disso, essas institui\u00e7\u00f5es buscam reduzir a centralidade do d\u00f3lar como moeda de refer\u00eancia cont\u00e1bil. Em um plano mais conceitual, os bancos multilaterais de desenvolvimento liderados pela China v\u00eam promovendo uma mudan\u00e7a de enfoque: de uma agenda centrada na redu\u00e7\u00e3o da pobreza para um modelo de desenvolvimento internacional orientado pelo crescimento econ\u00f4mico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na<a href=\"https:\/\/academic.oup.com\/ia\/article\/100\/6\/2419\/7852688\"> governan\u00e7a cibern\u00e9tica<\/a>, a China emergiu como uma formuladora de normas incipiente, buscando ativamente desafiar um modelo de governan\u00e7a fortemente dominado por interesses ocidentais. Tamb\u00e9m nesse campo, sua atua\u00e7\u00e3o tem sido recebida com entusiasmo por diversos governos do Sul global, atentos ao risco de que o colonialismo de dados se consolide como uma nova forma de extrativismo. Um conjunto de princ\u00edpios define a posi\u00e7\u00e3o chinesa. O primeiro \u00e9 o da \u201csoberania cibern\u00e9tica\u201d, entendida como extens\u00e3o da soberania territorial: cada Estado soberano teria o direito de decidir seus pr\u00f3prios caminhos de desenvolvimento digital, bem como os modelos de regula\u00e7\u00e3o da internet e pol\u00edticas p\u00fablicas para o ciberespa\u00e7o, livres de interfer\u00eancia estrangeira. Em segundo lugar, a China defende uma abordagem multilateral, centrada nos Estados e nas Na\u00e7\u00f5es Unidas, para a governan\u00e7a do ciberespa\u00e7o. Essa vis\u00e3o contrasta com o modelo transnacional e multissetorial promovido por muitos pa\u00edses ocidentais\u2014baseado na atua\u00e7\u00e3o conjunta de empresas, sociedade civil e atores privados\u2014, que Pequim enxerga como uma amea\u00e7a \u00e0 soberania cibern\u00e9tica. Uma terceira posi\u00e7\u00e3o normativa enfatiza a necessidade de equilibrar seguran\u00e7a nacional, de um lado, e desenvolvimento de uma economia digital competitiva e de mercados de dados, de outro. Trata-se de uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 securitiza\u00e7\u00e3o liderada pelos Estados Unidos e \u00e0 politiza\u00e7\u00e3o da governan\u00e7a digital chinesa no contexto ocidental. Na pr\u00e1tica, a China ampliou a <a href=\"https:\/\/academic.oup.com\/ia\/article-abstract\/97\/4\/1143\/6301885?redirectedFrom=fulltext&amp;login=false\">presen\u00e7a estrat\u00e9gica<\/a> em organismos internacionais de padroniza\u00e7\u00e3o j\u00e1 estabelecidos, como a Uni\u00e3o Internacional de Telecomunica\u00e7\u00f5es (UIT), a Organiza\u00e7\u00e3o Internacional de Padroniza\u00e7\u00e3o (ISO, na sigla em ingl\u00eas) e a Comiss\u00e3o Eletrot\u00e9cnica Internacional (IEC, na sigla em ingl\u00eas). Ao mesmo tempo, desde 2014, o pa\u00eds organiza sua pr\u00f3pria plataforma multilateral, a Confer\u00eancia Mundial da Internet, realizada em Wuzhen, numa tentativa de articular e difundir normas preferenciais entre os pa\u00edses do BRICS e outros pa\u00edses em desenvolvimento. O financiamento estatal tamb\u00e9m permitiu que empresas chinesas apresentassem propostas robustas de padroniza\u00e7\u00e3o em diversas organiza\u00e7\u00f5es internacionais, incluindo a pr\u00f3pria UIT da ONU. J\u00e1 o projeto da Rota da Seda Digital, liderado pela China e atualmente envolvendo cerca de 80 pa\u00edses, oferece a Pequim um canal para promover normas cibern\u00e9ticas e padr\u00f5es t\u00e9cnicos preferenciais, como o protocolo IPv6 de nova gera\u00e7\u00e3o para servi\u00e7os de internet.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No interior das Na\u00e7\u00f5es Unidas, a China vem tentando <a href=\"https:\/\/www.thebritishacademy.ac.uk\/publications\/towards-a-un-with-chinese-characteristics-heralding-shifts-in-multilateral-order\/\">reformular<\/a> a l\u00f3gica, o conte\u00fado e a pr\u00f3pria din\u00e2mica de poder do multilateralismo. Em contraste com a maior parte dos pa\u00edses ocidentais, Pequim enxerga o sistema ONU como uma plataforma intergovernamental, com menor autonomia para a burocracia das Na\u00e7\u00f5es Unidas e um papel mais marginal para organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais. A China e seus aliados ideologicamente pr\u00f3ximos t\u00eam liderado, cada vez mais, as cr\u00edticas ao conte\u00fado normativo liberal da concep\u00e7\u00e3o de ordem global da ONU, estruturada em torno de tr\u00eas pilares interligados: seguran\u00e7a, direitos humanos e desenvolvimento. Nesse contexto, Pequim tem defendido a primazia do Estado\u2014isto \u00e9, a ideia de que cabe aos Estados nacionais a responsabilidade principal pela prote\u00e7\u00e3o de seus cidad\u00e3os\u2014em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 no\u00e7\u00e3o de que a ONU deva exercer esse papel por meio da doutrina da \u201cResponsabilidade de Proteger\u201d (R2P). Em 2023, a China assinou uma carta ao lado do chamado \u201cGrupo de Amigos em Defesa da Carta das Na\u00e7\u00f5es Unidas\u201d, na qual a R2P foi descrita como uma doutrina \u201ccontroversa e divisiva\u201d. No campo dos direitos humanos, a China tamb\u00e9m conseguiu articular, mais uma vez com o apoio de um \u201c<a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/full\/10.1080\/14754835.2023.2193971#d1e403\">Grupo de Pa\u00edses Afins<\/a>\u201d formado por cerca de cinquenta membros, em sua maioria do Sul global, a aprova\u00e7\u00e3o de uma <a href=\"https:\/\/www.xinhuanet.com\/english\/2017-06\/23\/c_136387460.htm\">resolu\u00e7\u00e3o<\/a> que sustenta que os padr\u00f5es de direitos humanos devem ser plurais e relativos. Na pr\u00e1tica, a nova defini\u00e7\u00e3o passa a incluir o direito coletivo ao desenvolvimento econ\u00f4mico, e n\u00e3o apenas os direitos pol\u00edticos, civis e sociais individuais tradicionalmente enfatizados pelo Ocidente. Quanto \u00e0 din\u00e2mica geral de poder dentro da ONU, diversos estudiosos observam que os pa\u00edses do Sul tendem a apoiar a amplia\u00e7\u00e3o do papel da China\u2014ou, ao menos, evitam expressar cr\u00edticas abertas\u2014, ao mesmo tempo em que buscam participar ativamente de iniciativas patrocinadas por Pequim. Entre elas, destaca-se a Iniciativa para o Desenvolvimento Global (GDI), cujo \u201cGrupo de Amigos\u201d j\u00e1 re\u00fane oitenta Estados-membros das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Uma ONU reformulada, marcada pelo progressivo afastamento de Washington e pelo fortalecimento da participa\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses em desenvolvimento sob lideran\u00e7a chinesa, representaria uma transforma\u00e7\u00e3o profunda do multilateralismo contempor\u00e2neo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em suma, a China caminha para se tornar uma pot\u00eancia revisionista na ordem mundial. O pa\u00eds promove a soberania estatal em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 hegemonia dos Estados Unidos; a primazia do Estado em vez do multilateralismo baseado em \u201c<em>stakeholders<\/em>\u201d; um modelo de desenvolvimento orientado pelo crescimento econ\u00f4mico, e n\u00e3o pela redu\u00e7\u00e3o da pobreza e pelo empoderamento; alternativas do Sul global em contraste com normas ocidentais; e o pluralismo em lugar do universalismo. Em meio a tudo isso, permanece a quest\u00e3o de saber se as \u201calternativas\u201d oferecidas pela China efetivamente produzir\u00e3o resultados melhores para os pa\u00edses envolvidos. E aqui n\u00e3o se trata de uma resposta simples, de sim ou n\u00e3o. Um exemplo ilustrativo \u00e9 a <a href=\"https:\/\/carnegieendowment.org\/research\/2025\/08\/a-new-world-cop-on-the-beat-chinas-internal-security-outreach-under-the-global-security-initiative?lang=en\">Iniciativa de Seguran\u00e7a Global<\/a> anunciada por Xi Jinping em 2022. Uma das \u201cTr\u00eas Grandes Iniciativas\u201d\u2014ao lado da Iniciativa para o Desenvolvimento Global e da Iniciativa para a Civiliza\u00e7\u00e3o Global\u2014, ela prev\u00ea a amplia\u00e7\u00e3o da atua\u00e7\u00e3o internacional das ag\u00eancias chinesas de seguran\u00e7a interna junto a parceiros do Sul global, al\u00e9m da cria\u00e7\u00e3o de uma arquitetura bilateral e multilateral de treinamento e coopera\u00e7\u00e3o policial e de aplica\u00e7\u00e3o da lei. Como parte de uma ofensiva diplom\u00e1tica coordenada no campo da seguran\u00e7a n\u00e3o militar, a iniciativa busca difundir normas, padr\u00f5es e pr\u00e1ticas preferenciais da China como \u201cuma alternativa \u00e0 ordem de seguran\u00e7a liderada pelo Ocidente\u201d\u2014em parte justamente porque evita confront\u00e1-la diretamente. Muitos, no entanto, duvidam que esse modelo chin\u00eas de seguran\u00e7a represente uma melhora em rela\u00e7\u00e3o ao status quo.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Disputa epist\u00eamica<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m das agendas pol\u00edtico-econ\u00f4micas e normativas, tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel identificar a emerg\u00eancia de um novo regime de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento impulsionado pela China, mas constru\u00eddo com participa\u00e7\u00e3o ativa de pesquisadores do Sul global. Dentro e fora da China, um grande n\u00famero de centros de pesquisa regionais, redes internacionais e confer\u00eancias vem produzindo novas narrativas sobre o desenvolvimento global, supostamente ancoradas em uma perspectiva descolonial fundada em uma alian\u00e7a Sul-Sul. Trata-se de um desafio impl\u00edcito \u00e0 colonialidade do Ocidente e \u00e0 hierarquia epist\u00eamica vigente, que privilegia o conhecimento produzido nos pa\u00edses ocidentais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde sua cria\u00e7\u00e3o, em 2011, o projeto chin\u00eas de \u201c<a href=\"https:\/\/rgs-ibg.onlinelibrary.wiley.com\/doi\/full\/10.1111\/tran.70027\">escrever o mundo<\/a>\u201d (<em>world writing<\/em>) impulsionou a cria\u00e7\u00e3o de<a href=\"https:\/\/www.scmp.com\/news\/china\/diplomacy\/article\/3344091\/why-chinese-universities-are-ditching-language-degrees-strategic-regional-expertise\"> 450 programas de estudos regionais e de \u00e1rea<\/a> em quase duzentas universidades, mobilizando cerca de 20 mil docentes com o objetivo de desenvolver e difundir uma compreens\u00e3o chinesa do mundo. Em paralelo a grandes eventos diplom\u00e1ticos\u2014como o F\u00f3rum de Coopera\u00e7\u00e3o China-\u00c1frica e a C\u00fapula dos Objetivos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel da ONU\u2014, Pequim tamb\u00e9m lan\u00e7ou institutos de pesquisa dedicados aos estudos internacionais. Disciplinas como geografia, rela\u00e7\u00f5es internacionais e estudos do desenvolvimento est\u00e3o na linha de frente desse esfor\u00e7o de projetar a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento chinesa no cen\u00e1rio global. Historicamente, os estudos do desenvolvimento foram um campo caracter\u00edstico das institui\u00e7\u00f5es ocidentais no contexto da p\u00f3s-descoloniza\u00e7\u00e3o e da Guerra Fria. Foi esse campo que formulou os pr\u00f3prios conceitos, t\u00e9cnicas e pr\u00e1ticas do \u201cdesenvolvimento\u201d e do \u201cmundo em desenvolvimento\u201d. Agora, pesquisadores chineses enxergam a Iniciativa Cintur\u00e3o e Rota como uma <a href=\"https:\/\/www.geog.com.cn\/CN\/10.11821\/dlxb202212010\">oportunidade hist\u00f3rica<\/a> para a China construir sua pr\u00f3pria narrativa e seu pr\u00f3prio corpo de conhecimento sobre desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre as institui\u00e7\u00f5es emblem\u00e1ticas dessa nova fase est\u00e3o o Instituto de Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Sul-Sul da Escola Nacional de Desenvolvimento da Universidade de Pequim, fundado por Justin Yifu Lin, ex-economista-chefe do Banco Mundial, e o Centro Internacional de Conhecimento para o Desenvolvimento, ligado ao Centro de Pesquisa para o Desenvolvimento do Conselho de Estado chin\u00eas. Abaixo dessas institui\u00e7\u00f5es de alcance nacional, existem ainda centros de segundo e terceiro n\u00edvel, vinculados a minist\u00e9rios, universidades e \u00e1reas espec\u00edficas de formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas. A maior parte dessas institui\u00e7\u00f5es, orientadas de cima para baixo e fortemente voltadas \u00e0 formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas, foi criada ao longo da \u00faltima d\u00e9cada. Um pesquisador <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/abs\/pii\/S0962629821001128\">descreveu<\/a> seu objetivo como \u201ctraduzir a experi\u00eancia chinesa em produtos concretos de conhecimento e contribuir com a sabedoria chinesa e solu\u00e7\u00f5es chinesas para os desafios do desenvolvimento global\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A transmiss\u00e3o desse conhecimento para o mundo em desenvolvimento assume diversas formas. Em primeiro lugar, \u00e0 semelhan\u00e7a do <a href=\"https:\/\/yalebooks.yale.edu\/book\/9780300119749\/imperial-nature\/\">Banco Mundial<\/a>, que utiliza semin\u00e1rios e workshops para difundir sua pr\u00f3pria vis\u00e3o de desenvolvimento, a China promove programas de capacita\u00e7\u00e3o voltados \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas inspiradas na sua experi\u00eancia. Segundo uma <a href=\"https:\/\/www.atlanticcouncil.org\/in-depth-research-reports\/report\/a-global-south-with-chinese-characteristics\/\">investiga\u00e7\u00e3o<\/a>, entre 1981 e 2009, Pequim recebeu 120 mil participantes do Sul global, distribu\u00eddos em 4 mil programas que abrangiam cerca de 20 \u00e1reas distintas. Com o sucesso inicial, essas iniciativas se expandiram ao longo da d\u00e9cada seguinte, aumentando tanto o n\u00famero de programas quanto de participantes: entre 2013 e 2018, mais de 200 mil pessoas participaram de aproximadamente 7 mil iniciativas. Com dura\u00e7\u00e3o variando de um a 60 dias e frequentemente incluindo visitas t\u00e9cnicas e viagens \u00e0 China com todas as despesas pagas, esses programas abordaram um amplo espectro de pr\u00e1ticas de governan\u00e7a chinesas: gest\u00e3o portu\u00e1ria, aplica\u00e7\u00e3o internacional do BeiDou (o sistema chin\u00eas de navega\u00e7\u00e3o por sat\u00e9lite), tecnologias de blockchain e seguran\u00e7a da informa\u00e7\u00e3o, o papel dos <em>think tanks<\/em> na implementa\u00e7\u00e3o da Iniciativa Cintur\u00e3o e Rota, pol\u00edticas para minorias \u00e9tnicas, gest\u00e3o de novas m\u00eddias, administra\u00e7\u00e3o populacional, gest\u00e3o universit\u00e1ria, bem-estar social e cidades inteligentes. Independentemente do tema, a ideologia do Partido Comunista Chin\u00eas e seu modelo de governan\u00e7a autorit\u00e1ria s\u00e3o apresentados como elementos centrais de sua efic\u00e1cia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A produ\u00e7\u00e3o de conhecimento tamb\u00e9m se d\u00e1 por outros meios. A China copatrocina grandes confer\u00eancias acad\u00eamicas internacionais <a href=\"https:\/\/chinastan.org\/2026\/02\/18\/6th-chinaandmiddleeast\/\">anuais<\/a> e <a href=\"https:\/\/redalc-china.org\/actividades\/seminarios-internacionales-bianuales\/\">semestrais<\/a> em parceria com institui\u00e7\u00f5es da \u00c1sia Central, da \u00cdndia e da Am\u00e9rica Latina. Al\u00e9m disso, surgiram diversas <a href=\"https:\/\/www.peterlang.com\/series\/bri\">cole\u00e7\u00f5es de livros<\/a> <a href=\"https:\/\/chinastan.org\/2025\/09\/08\/routledge-series-on-eurasian-geopolitics\/\">publicadas<\/a> por editoras acad\u00eamicas de l\u00edngua inglesa que enfatizam explicitamente perspectivas ligadas \u00e0 China, \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o Sul-Sul, \u00e0 Iniciativa Cintur\u00e3o e Rota e at\u00e9 mesmo ao pensamento de Xi Jinping. Um exemplo \u00e9 a parceria entre a Rede Acad\u00eamica da Am\u00e9rica Latina e do Caribe sobre a China (Red ALC-China) e a Universidade Renmin, que oferecem conjuntamente um <a href=\"https:\/\/redalc-china.org\/noticias-y-eventos\/2025-curso-implicaciones-globales-del-socialismo-con-caracteristicas-chinas-en-la-nueva-era\/\">curso<\/a> online de dez horas sobre as \u201cImplica\u00e7\u00f5es Globais do Socialismo com Caracter\u00edsticas Chinesas na Nova Era\u201d, com o objetivo declarado de aprofundar a compreens\u00e3o do pensamento de Xi Jinping.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto n\u00e3o houver uma an\u00e1lise sistem\u00e1tica do conte\u00fado desse novo corpo de conhecimento, ainda n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel avaliar sua novidade te\u00f3rica e validade. Isso, por\u00e9m, n\u00e3o impediu que alguns celebrassem prematuramente a contribui\u00e7\u00e3o chinesa. Em estreita sintonia com a ideologia oficial chinesa\u2014embora publicados em ve\u00edculos acad\u00eamicos respeit\u00e1veis em l\u00edngua inglesa\u2014, alguns pesquisadores sustentam que a Iniciativa Cintur\u00e3o e Rota constitui uma forma de \u201c<a href=\"https:\/\/link.springer.com\/article\/10.1007\/s11442-018-1520-y\">globaliza\u00e7\u00e3o inclusiva<\/a>\u201d. A chamada \u201c<a href=\"https:\/\/www.belfercenter.org\/publication\/rise-chinas-harmony-oriented-diplomacy\">diplomacia da harmonia<\/a>\u201d \u00e9 apresentada como o n\u00facleo de uma <a href=\"https:\/\/academic.oup.com\/ia\/article\/98\/5\/1788\/6686623\">teoria chinesa das rela\u00e7\u00f5es internacionais<\/a>, na qual o conceito pol\u00edtico tradicional de <a href=\"https:\/\/www.jstor.org\/stable\/48726996\"><em>tianxia<\/em><\/a> (\u201ctudo sob o c\u00e9u\u201d) apontaria para \u201co mundo descolonizado e p\u00f3s-racial imaginado pelos pensadores descoloniais do Sul global\u201d. As perguntas que devemos dirigir a essas formula\u00e7\u00f5es s\u00e3o as mesmas que deveriam orientar toda pesquisa cient\u00edfica: suas afirma\u00e7\u00f5es se baseiam em conceitos v\u00e1lidos, evid\u00eancias emp\u00edricas consistentes e metodologias rigorosas?<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Hegemonia descolonial?<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses tr\u00eas elementos centrais do projeto de poder chin\u00eas\u2014material, normativo e epist\u00eamico\u2014correspondem precisamente ao conceito gramsciano de hegemonia: uma forma de domina\u00e7\u00e3o baseada n\u00e3o apenas na concess\u00e3o de interesses materiais, mas tamb\u00e9m na lideran\u00e7a moral e intelectual. O fato de a China desenvolver essas tr\u00eas dimens\u00f5es de seu projeto n\u00e3o por cima dos pa\u00edses do Sul global, mas com sua participa\u00e7\u00e3o ativa, talvez diga muito sobre a for\u00e7a dessa hegemonia. Ainda assim, h\u00e1 muito trabalho a ser feito para avaliar o car\u00e1ter da China contempor\u00e2nea. Como representante do Sul global, Pequim procura apresentar seu projeto como descolonial, mas permanece em aberto se essa caracteriza\u00e7\u00e3o de fato se sustenta. Afinal, pertencer ao Sul n\u00e3o constitui garantia contra novas formas de colonialidade, como deixam claro os exemplos da \u00cdndia na Caxemira, da R\u00fassia na Ucr\u00e2nia e da pr\u00f3pria China em Xinjiang e Hong Kong. Adotar a linguagem da descolonialidade, invocar um passado de vitimiza\u00e7\u00e3o sob o imperialismo ocidental ou reivindicar formas alternativas de epistemologia e pertencimento ind\u00edgena n\u00e3o significa, necessariamente, que novas formas de depend\u00eancia n\u00e3o possam ser produzidas. Na verdade, a pr\u00f3pria identidade \u201csulista\u201d pode acabar funcionando como uma cobertura conveniente para um novo modelo de colonialidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao avaliar o car\u00e1ter da China global contempor\u00e2nea, \u00e9 essencial olhar n\u00e3o apenas para os fluxos de investimento, nem para as declara\u00e7\u00f5es de pol\u00edticos, comentaristas e elites. At\u00e9 agora, houve uma not\u00e1vel escassez de aten\u00e7\u00e3o acad\u00eamica voltada a documentar e avaliar os impactos concretos da Iniciativa Cintur\u00e3o e Rota sobre os povos e comunidades ao redor do mundo afetados por ela desde 2013. Mesmo no campo dos Estudos sobre a China Global\u2014do qual participo como observador e pesquisador desde seu surgimento, h\u00e1 cerca de duas d\u00e9cadas\u2014, esse trabalho tem sido profundamente insuficiente. Talvez essa aus\u00eancia revele algo do pr\u00f3prio poder discursivo de Pequim, capaz de difundir uma perspectiva centrada na \u201cprimazia do Estado\u201d, princ\u00edpio que a China tamb\u00e9m promove em suas pr\u00e1ticas de coopera\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento e nas propostas de governan\u00e7a global.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A tarefa daqui em diante ser\u00e1 dedicar mais pesquisa emp\u00edrica e an\u00e1lises minuciosas aos impactos da China global tal como s\u00e3o vividos pelas comunidades diretamente afetadas por ela. Os resultados do desenvolvimento n\u00e3o podem ser medidos apenas em termos de PIB ou das agendas das elites estatais, mas tamb\u00e9m a partir do que efetivamente melhora\u2014ou n\u00e3o\u2014a vida daqueles que atravessam essas transforma\u00e7\u00f5es. Somente ent\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel avaliar que tipo de hegemonia a nova China global vem construindo: se ela \u00e9 capaz de mitigar as diversas desigualdades que persistem tanto no interior dos pa\u00edses do Sul global quanto entre o Sul e o Norte, ou se sua nova hegemonia em torno das energias renov\u00e1veis acabar\u00e1 reproduzindo din\u00e2micas de depend\u00eancia j\u00e1 muito familiares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0 medida que os EUA parecem recuar de sua posi\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica global, distanciando-se das institui\u00e7\u00f5es multilaterais que ajudaram a criar, travando guerras militares mal planejadas contra advers\u00e1rios e guerras econ\u00f4micas mutuamente destrutivas contra aliados, a quest\u00e3o do poder da China no cen\u00e1rio mundial ganhou destaque. 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