{"id":30183,"date":"2026-05-29T00:00:00","date_gmt":"2026-05-29T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/?p=30183"},"modified":"2026-05-29T04:43:23","modified_gmt":"2026-05-29T04:43:23","slug":"geometrias-da-dissuasao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/geometrias-da-dissuasao\/","title":{"rendered":"Geometrias da dissuas\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A guerra dos EUA e de Israel contra o Ir\u00e3 reabriu uma quest\u00e3o incontorn\u00e1vel desde o in\u00edcio do genoc\u00eddio em Gaza: como compreender a atual reconfigura\u00e7\u00e3o do poder imperial na \u00c1sia Ocidental? Analogias com a diplomacia das canhoneiras do s\u00e9culo XIX podem capturar o aspecto teatral da agress\u00e3o, mas obscurecem seu car\u00e1ter hist\u00f3rico e institucional. Os ataques incessantes ao territ\u00f3rio iraniano\u2014que atingiram instala\u00e7\u00f5es militares, dep\u00f3sitos de combust\u00edvel, refinarias de petr\u00f3leo, uma usina de dessaliniza\u00e7\u00e3o de \u00e1gua e outras infraestruturas civis\u2014revelam um modelo de guerra que n\u00e3o visa atacar apenas as for\u00e7as armadas, mas o funcionamento b\u00e1sico do Estado. Hoje, os pr\u00f3prios alicerces da vida econ\u00f4mica e social est\u00e3o na mira do imp\u00e9rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 d\u00e9cadas, os EUA v\u00eam expandindo intensamente sua presen\u00e7a militar na regi\u00e3o: um arquip\u00e9lago de bases, instala\u00e7\u00f5es de radar, grupos de ataque de porta-avi\u00f5es e redes de vigil\u00e2ncia que se estende do Golfo P\u00e9rsico ao Mediterr\u00e2neo Oriental. Embora possa parecer uma ruptura repentina, a guerra iniciada por Trump e Netanyahu em 28 de fevereiro \u00e9, na verdade, o desfecho natural dessa longa campanha contra o Estado e a sociedade iranianos. San\u00e7\u00f5es, sabotagens, ataques cibern\u00e9ticos e opera\u00e7\u00f5es secretas nunca foram alternativas \u00e0 interven\u00e7\u00e3o militar direta, mas sua prepara\u00e7\u00e3o. A mesma sequ\u00eancia de eventos foi registrada no&nbsp; Iraque e na L\u00edbia,&nbsp; onde&nbsp; per\u00edodos de press\u00e3o constante tamb\u00e9m culminaram em ataques armados de grande escala. Primeiro o sufocamento, depois a destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No ensaio \u201c<em>Decolonizing Decolonization<\/em>\u201d, o historiador Frederick Cooper alertou que o discurso da descoloniza\u00e7\u00e3o induz \u00e0 falsa impress\u00e3o de que o poder imperial est\u00e1 recuando linearmente, quando o que vemos no mundo todo atualmente \u00e9 sua persist\u00eancia, reconstru\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o. Para Cooper, o conceito de \u201creimperializa\u00e7\u00e3o\u201d seria mais adequado para representar essa nova realidade.<a data-contents=\"Cooper, Frederick. 2025. \u201cDecolonizing Decolonization\u201d, (<)em(>)Comparative Studies in Society and History(<)\/em(>) 67, n.\u00ba 4 (2025): 891.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-1\" href=\"#footnote-list-1\">1<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Cooper, Frederick. 2025. \u201cDecolonizing Decolonization\u201d, (<)em(>)Comparative Studies in Society and History(<)\/em(>) 67, n.\u00ba 4 (2025): 891.<\/span> Essa tese, que parece cada vez mais plaus\u00edvel \u00e0 luz dos desdobramentos na \u00c1sia Ocidental desde outubro de 2023, reflete-se na recente trajet\u00f3ria do Ir\u00e3: um estudo de caso revelador tanto dos contornos do poder americano atual quanto dos mecanismos que o sustentam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que se segue \u00e9 um relato sobre o aparato imperial constru\u00eddo para minar a Rep\u00fablica Isl\u00e2mica, como ele deu origem \u00e0 doutrina de dissuas\u00e3o \u00fanica do pa\u00eds e como lan\u00e7ou as bases para o conflito atual. O exame dessa trajet\u00f3ria permite compreender at\u00e9 que ponto a subvers\u00e3o econ\u00f4mica e o poderio militar, longe de serem descont\u00ednuos, fazem parte de uma estrat\u00e9gia integrada que a pot\u00eancia hegem\u00f4nica utiliza para frustrar as aspira\u00e7\u00f5es de soberania e desenvolvimento em Estados que est\u00e3o fora do n\u00facleo capitalista. Os EUA transformaram sua posi\u00e7\u00e3o privilegiada nas redes financeiras e informacionais globais em um instrumento de poder coercitivo bruto, regulando o acesso do Ir\u00e3 \u00e0s condi\u00e7\u00f5es materiais necess\u00e1rias para sua pr\u00f3pria exist\u00eancia econ\u00f4mica. O Ir\u00e3, no entanto, tamb\u00e9m se valeu das interdepend\u00eancias da economia mundial contempor\u00e2nea para reagir contra seus oponentes e frustrar aspira\u00e7\u00f5es de mudan\u00e7a de regime.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Regimes de coer\u00e7\u00e3o<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Rep\u00fablica Isl\u00e2mica foi forjada no calor da revolu\u00e7\u00e3o e de uma guerra prolongada com o Iraque. A Revolu\u00e7\u00e3o de 1979 ocorreu num momento em que os processos formais de descoloniza\u00e7\u00e3o j\u00e1 estavam, em grande parte, conclu\u00eddos, e os Estados rec\u00e9m-independentes precisavam lidar com uma s\u00e9rie de restri\u00e7\u00f5es neocoloniais. Para muitos movimentos revolucion\u00e1rios da \u00e9poca, a Guerra Fria n\u00e3o foi uma disputa ideol\u00f3gica entre dois sistemas, mas uma reorganiza\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica na qual padr\u00f5es hist\u00f3ricos de competi\u00e7\u00e3o imperial persistiram.<a data-contents=\"Ver Westad, Odd Arne. 2007. (<)em(>)The Global Cold War: Third World Interventions and the Making of Our Times(<)\/em(>).Cambridge University Press. Chamberlin, Paul Thomas. 2018. (<)em(>)The Cold War\u2019s Killing Fields: Rethinking the Long Peace.(<)\/em(>) Haper Collins.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-2\" href=\"#footnote-list-2\">2<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Ver Westad, Odd Arne. 2007. (<)em(>)The Global Cold War: Third World Interventions and the Making of Our Times(<)\/em(>).Cambridge University Press. Chamberlin, Paul Thomas. 2018. (<)em(>)The Cold War\u2019s Killing Fields: Rethinking the Long Peace.(<)\/em(>) Haper Collins.<\/span> O paradigma do confronto bipolar n\u00e3o foi capaz de expressar o quanto o conflito global ainda era moldado por projetos rivais de domina\u00e7\u00e3o, tanto capitalistas quanto comunistas, que sufocavam e distorciam as ambi\u00e7\u00f5es mais radicais das sociedades rec\u00e9m-libertadas do dom\u00ednio colonial. \u00c0 medida que o debate sobre os limites e as contradi\u00e7\u00f5es do desenvolvimento p\u00f3s-colonial se intensificava no Norte e no Sul global, crescia o ceticismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s promessas emancipat\u00f3rias de liberta\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse contexto geopol\u00edtico conturbado, a recupera\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia pol\u00edtica era um elemento central do ethos governamental do Ir\u00e3 revolucion\u00e1rio. O slogan \u201cNem Oriente nem Ocidente\u201d sintetizava a busca por autodetermina\u00e7\u00e3o e soberania em meio \u00e0 rivalidade entre superpot\u00eancias e \u00e0s hierarquias duradouras do mundo p\u00f3s-colonial. As d\u00e9cadas seguintes, no entanto, evidenciaram os limites dessa abordagem. A autonomia era uma meta dif\u00edcil de se alcan\u00e7ar em um sistema internacional pautado por assimetrias financeiras e t\u00e9cnico-militares. A forma de poder imperial que emergiu nesse per\u00edodo\u2014suplantando modelos anteriores de governan\u00e7a colonial direta\u2014, baseada na articula\u00e7\u00e3o entre poder militar e coer\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, passou a determinar as condi\u00e7\u00f5es de participa\u00e7\u00e3o, com\u00e9rcio e acumula\u00e7\u00e3o em pa\u00edses como o Ir\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao designar o Golfo P\u00e9rsico como uma zona de interesse estrat\u00e9gico vital, a Doutrina Carter foi decisiva para a instaura\u00e7\u00e3o dessa nova forma de poder imperial, preparando o terreno para que a administra\u00e7\u00e3o de Reagan promovesse uma ampla expans\u00e3o naval, opera\u00e7\u00f5es de troca de bandeiras durante a Guerra dos Petroleiros e a normaliza\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a militar permanente dos EUA na regi\u00e3o.<a data-contents=\"Ver Jones, Toby Craig. 2012.\u201cAmerica, Oil, and War in the Middle East\u201d. (<)em(>)The Journal of American History(<)\/em(>) 99, n.\u00ba 1: 208\u201318. Keshavarzian, Arang. 2024 (<)em(>)Making Space for the Gulf: Histories of Regionalism and the Middle East.(<)\/em(>) Stanford University Press. Cap. 2.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-3\" href=\"#footnote-list-3\">3<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Ver Jones, Toby Craig. 2012.\u201cAmerica, Oil, and War in the Middle East\u201d. (<)em(>)The Journal of American History(<)\/em(>) 99, n.\u00ba 1: 208\u201318. Keshavarzian, Arang. 2024 (<)em(>)Making Space for the Gulf: Histories of Regionalism and the Middle East.(<)\/em(>) Stanford University Press. Cap. 2.<\/span> Esses desenvolvimentos culminaram na cria\u00e7\u00e3o do Comando Central dos Estados Unidos, que transformou o que antes era um conjunto de interven\u00e7\u00f5es discretas e contingentes em uma infraestrutura burocr\u00e1tica e operacional de proje\u00e7\u00e3o de for\u00e7a permanente em toda a regi\u00e3o.<a data-contents=\"Khalili, Laleh. 2021. (<)em(>)Sinews of War and Trade: Shipping and Capitalism in the Arabian Peninsula(<)\/em(>). Verso. p. 258.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-4\" href=\"#footnote-list-4\">4<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Khalili, Laleh. 2021. (<)em(>)Sinews of War and Trade: Shipping and Capitalism in the Arabian Peninsula(<)\/em(>). Verso. p. 258.<\/span> A militariza\u00e7\u00e3o foi, em parte, financiada pela pr\u00f3pria reciclagem dos petrod\u00f3lares \u00e1rabes pelo sistema financeiro estadunidense, processo que ajudou a consolidar a arquitetura financeira por meio da qual os EUA viriam posteriormente a exercer poder coercitivo sobre pa\u00edses como o Ir\u00e3.<a data-contents=\"Hanieh, Adam. 2011. (<)em(>)Capitalism and Class in the Gulf Arab States(<)\/em(>). Palgrave Macmillan. Cap. 2.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-5\" href=\"#footnote-list-5\">5<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Hanieh, Adam. 2011. (<)em(>)Capitalism and Class in the Gulf Arab States(<)\/em(>). Palgrave Macmillan. Cap. 2.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outros instrumentos coercitivos, como san\u00e7\u00f5es financeiras, jurisdi\u00e7\u00e3o extraterritorial, opera\u00e7\u00f5es de intelig\u00eancia e restri\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, passaram a compor um repert\u00f3rio de poder que permitia exercer press\u00e3o sem recorrer exclusivamente \u00e0 interven\u00e7\u00e3o militar direta. Ap\u00f3s o colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, esses instrumentos assumiram uma centralidade estrat\u00e9gica ainda maior. O efeito dessa abordagem, mais do que a simples degrada\u00e7\u00e3o das capacidades estatais de pa\u00edses perif\u00e9ricos, foi a sua reconfigura\u00e7\u00e3o. Quando um Estado sofre amea\u00e7as externas, \u00e9 comum que seus aparatos de seguran\u00e7a se expandam enquanto suas fun\u00e7\u00f5es de desenvolvimento, bem-estar e regulamenta\u00e7\u00e3o se deterioram.<a data-contents=\"Heydemann, Steven e Lynch, Marc (eds.). 2024. (<)em(>)Making Sense of the Arab State(<)\/em(>).(<)em(>) (<)\/em(>)University of Michigan Press.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-6\" href=\"#footnote-list-6\">6<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Heydemann, Steven e Lynch, Marc (eds.). 2024. (<)em(>)Making Sense of the Arab State(<)\/em(>).(<)em(>) (<)\/em(>)University of Michigan Press.<\/span><sup> <\/sup>A campanha contra o Ir\u00e3 provocou justamente esse desequil\u00edbrio, refor\u00e7ando institui\u00e7\u00f5es de controle e sobreviv\u00eancia e restringindo aquelas associadas \u00e0 coordena\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e \u00e0 presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os sociais. O pa\u00eds n\u00e3o sucumbiu \u00e0 press\u00e3o imperial, tampouco simplesmente resistiu a ela, mas passou por um processo de transforma\u00e7\u00e3o seletiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No linguajar convencional das rela\u00e7\u00f5es internacionais, o Ir\u00e3 \u00e9 frequentemente descrito como uma pot\u00eancia m\u00e9dia, dada a sua capacidade de exercer influ\u00eancia na regi\u00e3o imediata. Mas isso capta apenas um aspecto de sua complexa posi\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica. O Ir\u00e3 ocupa, na verdade, um lugar semiperif\u00e9rico no capitalismo global, combinando capacidade estatal e alcance regional relativamente fortes com uma depend\u00eancia persistente de infraestruturas financeiras, circuitos comerciais e sistemas tecnol\u00f3gicos controlados por pa\u00edses do Norte global. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, a tradicional dicotomia centro-periferia foi reconfigurada. Agora, Estados semiperif\u00e9ricos se encontram em uma situa\u00e7\u00e3o de autonomia desigual e condicionada: conseguem moldar desdobramentos regionais apesar de permanecerem extremamente vulner\u00e1veis \u00e0 coer\u00e7\u00e3o externa, particularmente no \u00e2mbito do com\u00e9rcio e das finan\u00e7as globais.<a data-contents=\"Panitch, Leo e Gindin, Sam. 2012. (<)em(>)The Making of Global Capitalism: The Political Economy of American Empire(<)\/em(>). Verso; Oatley, Thomas. 2015. (<)em(>)The Political Economy of American Hegemony: Buildups, Booms, and Busts(<)\/em(>). Cambridge University Press.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-7\" href=\"#footnote-list-7\">7<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Panitch, Leo e Gindin, Sam. 2012. (<)em(>)The Making of Global Capitalism: The Political Economy of American Empire(<)\/em(>). Verso; Oatley, Thomas. 2015. (<)em(>)The Political Economy of American Hegemony: Buildups, Booms, and Busts(<)\/em(>). Cambridge University Press.<\/span><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A arma econ\u00f4mica<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui, as san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas t\u00eam um papel crucial. Embora sejam tipicamente apresentadas como um instrumento de diplomacia ou um meio-termo entre a negocia\u00e7\u00e3o e o uso das for\u00e7as armadas, Nicholas Mulder nos lembra de suas verdadeiras origens hist\u00f3ricas. No entreguerras, as san\u00e7\u00f5es representavam uma intensifica\u00e7\u00e3o do conflito b\u00e9lico, estendendo sua viol\u00eancia \u00e0 pr\u00f3pria vida econ\u00f4mica. \u201cA arma econ\u00f4mica\u201d, escreve Mulder, \u201cera a ess\u00eancia da guerra total\u201d.<a data-contents=\"Mulder, Nicholas. 2022. (<)em(>)The Economic Weapon: The Rise of Sanctions as a Tool of Modern War(<)\/em(>). Yale University Press. p. 17. Ver tamb\u00e9m: Mulder, Nicholas. 2022. (<)em(>)The Economic Weapon: The Rise of Sanctions as a Tool of Modern War(<)\/em(>). Yale University Press. p. 17; Davis, Stuart e Ness, Immanuel (orgs.). 2022. (<)em(>)Sanctions as War: Anti-Imperialist Perspectives on American Geo-Economic Strategy. (<)\/em(>)Brill.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-8\" href=\"#footnote-list-8\">8<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Mulder, Nicholas. 2022. (<)em(>)The Economic Weapon: The Rise of Sanctions as a Tool of Modern War(<)\/em(>). Yale University Press. p. 17. Ver tamb\u00e9m: Mulder, Nicholas. 2022. (<)em(>)The Economic Weapon: The Rise of Sanctions as a Tool of Modern War(<)\/em(>). Yale University Press. p. 17; Davis, Stuart e Ness, Immanuel (orgs.). 2022. (<)em(>)Sanctions as War: Anti-Imperialist Perspectives on American Geo-Economic Strategy. (<)\/em(>)Brill.<\/span> As san\u00e7\u00f5es impostas ao Ir\u00e3 mostram como esse m\u00e9todo de coer\u00e7\u00e3o faz com que o conflito se espalhe por toda a sociedade e se torne uma condi\u00e7\u00e3o end\u00eamica, gerando instabilidade constante nas esferas monet\u00e1ria, produtiva e pol\u00edtica do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">San\u00e7\u00f5es contra a Rep\u00fablica Isl\u00e2mica emergiram praticamente em paralelo \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria ordem revolucion\u00e1ria. Em novembro de 1979, ap\u00f3s a crise dos ref\u00e9ns, o governo Carter congelou aproximadamente US$ 12 bilh\u00f5es em ativos iranianos mantidos em institui\u00e7\u00f5es financeiras americanas e imp\u00f4s um embargo comercial ao pa\u00eds. Mais do que mera rea\u00e7\u00e3o \u00e0 crise, essa foi a primeira etapa de uma estrat\u00e9gia mais ampla adotada por sucessivos governos americanos para salvaguardar interesses de atores financeiros e corporativos dos Estados Unidos.<a data-contents=\"Fayazmanesh, Sasan. 2008. (<)em(>)The United States and Iran: Sanctions, Wars and the Policy of Dual Containment(<)\/em(>). Routledge. p. 15.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-9\" href=\"#footnote-list-9\">9<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Fayazmanesh, Sasan. 2008. (<)em(>)The United States and Iran: Sanctions, Wars and the Policy of Dual Containment(<)\/em(>). Routledge. p. 15.<\/span> Nas d\u00e9cadas seguintes, as san\u00e7\u00f5es foram intensificadas, evoluindo de um conjunto de medidas relativamente direcionadas para uma estrat\u00e9gia de restri\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica completa, como evidenciou a pol\u00edtica de \u201cconten\u00e7\u00e3o dupla\u201d dirigida tanto ao Ir\u00e3 quanto ao Iraque.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As consequ\u00eancias devastadoras da \u201cconten\u00e7\u00e3o dupla\u201d tornaram-se particularmente evidentes no Iraque, onde san\u00e7\u00f5es abrangentes, respaldadas pela ONU ap\u00f3s a expuls\u00e3o das for\u00e7as iraquianas do Kuwait em 1991, provocaram escassez generalizada, colapso da infraestrutura e um sofrimento massivo da popula\u00e7\u00e3o civil. Embora o Programa Petr\u00f3leo por Alimentos de 1995 tenha possibilitado a canaliza\u00e7\u00e3o de receitas petrol\u00edferas limitadas para fins humanit\u00e1rios, tamb\u00e9m submeteu a sociedade iraquiana a novas formas de vigil\u00e2ncia e controle. Isso, por sua vez, favoreceu a forma\u00e7\u00e3o de economias informais e circuitos ocultos de poder, fortalecendo a\u00a0 corrup\u00e7\u00e3o, os esquemas de propina e as redes de contrabando: criando, em suma, uma disfun\u00e7\u00e3o sist\u00eamica generalizada. Posteriormente, o governo Clinton\u00a0 adotou uma vers\u00e3o refinada dessa abordagem contra o\u00a0 Ir\u00e3 por meio de uma s\u00e9rie de decretos que proibiam o com\u00e9rcio e o investimento e da promulga\u00e7\u00e3o, em 2016, da Lei de San\u00e7\u00f5es contra o Ir\u00e3 e a L\u00edbia, que ampliou o alcance das san\u00e7\u00f5es para al\u00e9m das fronteiras iranianas, visando empresas estrangeiras que investissem no setor energ\u00e9tico do pa\u00eds.<a data-contents=\"Narges Bajoghli et al.. 2024. (<)em(>)How Sanctions Work: Iran and the Impact of Economic Warfare(<)\/em(>). Stanford University Press, 58.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-10\" href=\"#footnote-list-10\">10<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Narges Bajoghli et al.. 2024. (<)em(>)How Sanctions Work: Iran and the Impact of Economic Warfare(<)\/em(>). Stanford University Press, 58.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora uma an\u00e1lise abrangente da pol\u00edtica de san\u00e7\u00f5es dos EUA esteja al\u00e9m do escopo deste ensaio,<a data-contents=\"Existe uma literatura robusta e crescente sobre o tema das san\u00e7\u00f5es e da guerra econ\u00f4mica no Ir\u00e3 p\u00f3s-revolucion\u00e1rio. Fayazmanesh op. cit.; Bajoghli, Narges et al.. 2024. (<)em(>)How Sanctions Work: Iran and the Impact of Economic Warfare(<)\/em(>). Stanford University Press. Farzanegan, Mohammad Reza e Batmanghelidj, Esfandyar. 2023. \u201cUnderstanding Economic Sanctions on Iran: A Survey\u201d. (<)em(>)The Economists\u2019 Voice(<)\/em(>) vol. 20, n.\u00ba 2: 197\u2013226.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-11\" href=\"#footnote-list-11\">11<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Existe uma literatura robusta e crescente sobre o tema das san\u00e7\u00f5es e da guerra econ\u00f4mica no Ir\u00e3 p\u00f3s-revolucion\u00e1rio. Fayazmanesh op. cit.; Bajoghli, Narges et al.. 2024. (<)em(>)How Sanctions Work: Iran and the Impact of Economic Warfare(<)\/em(>). Stanford University Press. Farzanegan, Mohammad Reza e Batmanghelidj, Esfandyar. 2023. \u201cUnderstanding Economic Sanctions on Iran: A Survey\u201d. (<)em(>)The Economists\u2019 Voice(<)\/em(>) vol. 20, n.\u00ba 2: 197\u2013226.<\/span> \u00e9 poss\u00edvel apontar um ponto de inflex\u00e3o crucial para a cria\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es que levaram \u00e0 guerra atual. A ado\u00e7\u00e3o das chamadas \u201csan\u00e7\u00f5es paralisantes\u201d pelo governo Obama representou uma mudan\u00e7a qualitativa em termos de l\u00f3gica e escala: o <em>Comprehensive Iran Sanctions, Accountability, and Divestment Act <\/em>(CISADA) de 2010 intensificou e ampliou o alcance das restri\u00e7\u00f5es. Por meio da amea\u00e7a de exclus\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es financeiras estrangeiras do mercado norte-americano, a legisla\u00e7\u00e3o estendeu as press\u00f5es coercitivas para muito al\u00e9m das rela\u00e7\u00f5es bilaterais. Essa mudan\u00e7a tornou-se plenamente evidente entre 2011 e 2012, quando os EUA passaram a classificar todo o sistema financeiro iraniano como um dom\u00ednio de atividades il\u00edcitas, amea\u00e7ando aplicar medidas punitivas a qualquer institui\u00e7\u00e3o que se envolvesse com ele. Bancos estrangeiros enfrentaram penalidades severas\u2014o BNP Paribas, por exemplo, recebeu uma multa bilion\u00e1ria\u2014e a legisla\u00e7\u00e3o americana passou a visar qualquer institui\u00e7\u00e3o financeira que realizasse transa\u00e7\u00f5es com o Banco Central do Ir\u00e3 <em>a n\u00e3o ser<\/em> que as importa\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo fossem reduzidas sob supervis\u00e3o dos Estados Unidos. A Uni\u00e3o Europeia, por sua vez, imp\u00f4s um embargo ao petr\u00f3leo, proibiu o seguro de cargas iranianas e congelou ativos do Banco Central. O isolamento do Ir\u00e3 se aprofundou ainda mais com a exclus\u00e3o dos bancos iranianos do sistema de mensagens financeiras SWIFT em 2012, provocando um aumento acentuado nos custos e na complexidade das transa\u00e7\u00f5es internacionais.<a data-contents=\"Harris, Kevan. 2020. \u201cOf Eggs and Stones: Foreign Sanctions and Domestic Political Economy in the Islamic Republic of Iran\u201d. Em Shih, Victor C. (ed.). 2020. (<)em(>)Economic Shocks and Authoritarian Stability: Duration, Financial Control, and Institutions(<)\/em(>), 86. University of Michigan Press.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-12\" href=\"#footnote-list-12\">12<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Harris, Kevan. 2020. \u201cOf Eggs and Stones: Foreign Sanctions and Domestic Political Economy in the Islamic Republic of Iran\u201d. Em Shih, Victor C. (ed.). 2020. (<)em(>)Economic Shocks and Authoritarian Stability: Duration, Financial Control, and Institutions(<)\/em(>), 86. University of Michigan Press.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O endurecimento dessas restri\u00e7\u00f5es financeiras n\u00e3o suprimiu a capacidade do Ir\u00e3 de conduzir algum com\u00e9rcio exterior, mas reconfigurou os canais por meio dos quais ele passou a ocorrer. Em vez de interromper as trocas, as san\u00e7\u00f5es as deslocaram para circuitos alternativos, mais fragmentados, indiretos e dif\u00edceis de monitorar. Um exemplo ilustrativo dessa din\u00e2mica surgiu logo ap\u00f3s a exclus\u00e3o do Ir\u00e3 do SWIFT. Privados do acesso aos canais financeiros convencionais, agentes iranianos passaram a recorrer a mecanismos de compensa\u00e7\u00e3o baseados em commodities. No com\u00e9rcio energ\u00e9tico com a Turquia, os pagamentos pelo g\u00e1s natural eram feitos em liras turcas e depositados em contas locais, posteriormente utilizadas para a compra de barras de ouro. As exporta\u00e7\u00f5es turcas de ouro para o Ir\u00e3 dispararam, alcan\u00e7ando US$ 1,8 bilh\u00e3o apenas em julho de 2012. \u00c0 medida que o escrut\u00ednio aumentava, essas transa\u00e7\u00f5es passaram a ser redirecionadas via Dubai, um tradicional centro de evas\u00e3o de san\u00e7\u00f5es. As exporta\u00e7\u00f5es turcas de ouro para os Emirados \u00c1rabes Unidos saltaram de US$ 7 milh\u00f5es em julho para US$ 1,9 bilh\u00e3o em agosto de 2012, com cerca de 36 toneladas transferidas em um \u00fanico m\u00eas. Grande parte desse ouro foi movimentada por meio de redes fragmentadas de transporte, explorando <a href=\"https:\/\/www.sup.org\/books\/politics\/busted-sanctions\/excerpt\/introduction\">brechas legais<\/a> nas regulamenta\u00e7\u00f5es alfandeg\u00e1rias, antes de ser reexportada para o Ir\u00e3 por meio de complexos circuitos comerciais e mar\u00edtimos. Como observa Bryan Early, epis\u00f3dios como este revelam tanto a capacidade adaptativa dos Estados sancionados quanto o papel crucial de agentes intermedi\u00e1rios externos\u2014inclusive de aliados formais da pot\u00eancia sancionadora\u2014na eros\u00e3o da efic\u00e1cia dessas restri\u00e7\u00f5es financeiras.<a data-contents=\"Early, Bryan R. 2015. (<)em(>)Busted Sanctions: Explaining Why Economic Sanctions Fail.(<)\/em(>) Stanford University Press. p. 1.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-13\" href=\"#footnote-list-13\">13<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Early, Bryan R. 2015. (<)em(>)Busted Sanctions: Explaining Why Economic Sanctions Fail.(<)\/em(>) Stanford University Press. p. 1.<\/span> <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em seu conjunto, as san\u00e7\u00f5es levaram a uma reestrutura\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o do Ir\u00e3 no sistema financeiro global. Al\u00e9m de impor limites a transa\u00e7\u00f5es ou setores espec\u00edficos, elas alteraram toda a infraestrutura de pagamentos transfronteiri\u00e7os, liquida\u00e7\u00f5es e interc\u00e2mbios financeiros. O controle exercido por Washington sobre a arquitetura financeira global\u2014redes centradas na compensa\u00e7\u00e3o em d\u00f3lares, no sistema de bancos correspondentes e em mecanismos regulat\u00f3rios amplamente controlados por institui\u00e7\u00f5es estadunidenses\u2014permitiu a imposi\u00e7\u00e3o de restri\u00e7\u00f5es de liquidez, a cria\u00e7\u00e3o de instabilidade cambial, a eleva\u00e7\u00e3o dos custos de transa\u00e7\u00e3o e a disrup\u00e7\u00e3o dos mecanismos de pagamento essenciais para o com\u00e9rcio internacional. Os EUA alavancaram sua autoridade jurisdicional sobre os n\u00f3s centrais do sistema financeiro global, fen\u00f4meno que Farrell e Newman caracterizam como uma estrat\u00e9gia de \u201cinterdepend\u00eancia armada\u201d.<a data-contents=\"Farrell, Henry e Newman, Abraham L. 2019.\u00a0 \u201cWeaponized Interdependence: How Global Economic Networks Shape State Coercion\u201d. (<)em(>)International Security(<)\/em(>) 44, n.\u00ba 1: 42\u201379.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-14\" href=\"#footnote-list-14\">14<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Farrell, Henry e Newman, Abraham L. 2019.\u00a0 \u201cWeaponized Interdependence: How Global Economic Networks Shape State Coercion\u201d. (<)em(>)International Security(<)\/em(>) 44, n.\u00ba 1: 42\u201379.<\/span> As san\u00e7\u00f5es passaram a funcionar menos como um instrumento diplom\u00e1tico e mais como uma t\u00e9cnica de governan\u00e7a, uma forma de \u201cimperialismo em rede\u201d.<a data-contents=\"Farrell e Newman, (<)em(>)Underground Empire(<)\/em(>), p. 15.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-15\" href=\"#footnote-list-15\">15<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Farrell e Newman, (<)em(>)Underground Empire(<)\/em(>), p. 15.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse tipo de poder em rede opera tanto por meio da<em> visibilidade <\/em>quanto da exclus\u00e3o. Farrell e Newman definem como \u201cefeito pan\u00f3ptico\u201d a forma como as infraestruturas de vigil\u00e2ncia e monitoramento, incorporadas aos sistemas financeiros globais, conferem aos EUA uma capacidade excepcional de monitorar transa\u00e7\u00f5es, rela\u00e7\u00f5es institucionais e fluxos monet\u00e1rios de todo o mundo. A atividade financeira conduzida por meio de sistemas globalmente integrados de mensagens, compensa\u00e7\u00e3o e liquida\u00e7\u00e3o est\u00e1 sujeita a uma rigorosa supervis\u00e3o regulat\u00f3ria, permitindo a identifica\u00e7\u00e3o de contrapartes, intermedi\u00e1rios e padr\u00f5es de troca. Isso d\u00e1 aos EUA condi\u00e7\u00f5es informacionais que possibilitam a interrup\u00e7\u00e3o seletiva.<a data-contents=\"Farrell e Newman 2019, p.46.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-16\" href=\"#footnote-list-16\">16<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Farrell e Newman 2019, p.46.<\/span> As transa\u00e7\u00f5es iranianas denominadas em d\u00f3lares, que dependem de redes de bancos correspondentes ou s\u00e3o mediadas por plataformas financeiras reguladas internacionalmente, permanecem dependentes de infraestruturas efetivamente controladas pelos Estados Unidos, o que as torna vulner\u00e1veis a pol\u00edticas como o congelamento de ativos ou a imposi\u00e7\u00e3o de san\u00e7\u00f5es secund\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para entidades iranianas e suas contrapartes estrangeiras, a participa\u00e7\u00e3o nos circuitos financeiros globais torna-se, assim, uma quest\u00e3o de conformidade antecipada: elas precisam adaptar seu comportamento para evitar os riscos associados \u00e0 desconex\u00e3o dos mecanismos centrais de compensa\u00e7\u00e3o e liquida\u00e7\u00e3o. A vigil\u00e2ncia e a exclus\u00e3o operam em conjunto, possibilitando o exerc\u00edcio de disciplinamento econ\u00f4mico sem a necessidade de interven\u00e7\u00e3o direta.<a data-contents=\"Farrell e Newman 2019, p.65.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-17\" href=\"#footnote-list-17\">17<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Farrell e Newman 2019, p.65.<\/span> \u201cMesmo quando isentas por raz\u00f5es humanit\u00e1rias\u201d, escreve Vira Ameli, \u201cempresas p\u00fablicas e privadas frequentemente optam por uma \u2018sobrerregula\u00e7\u00e3o\u2019 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s san\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias e secund\u00e1rias dos Estados Unidos, a fim de evitar o risco de puni\u00e7\u00e3o por violar as normas do Escrit\u00f3rio de Controle de Ativos Estrangeiros [<em>Office of Foreign Assets Control<\/em>, ou OFAC] e preservar suas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas com empresas americanas.\u201d<a data-contents=\"Ameli, Vira. 2023. \u201cUnilateral Sanctions as Sustainable Development Decelerators\u201d. Em Kirkham, Ksenia (ed.). (<)em(>)The Routledge Handbook of the Political Economy of Sanctions(<)\/em(>), 137. Routledge.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-18\" href=\"#footnote-list-18\">18<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Ameli, Vira. 2023. \u201cUnilateral Sanctions as Sustainable Development Decelerators\u201d. Em Kirkham, Ksenia (ed.). (<)em(>)The Routledge Handbook of the Political Economy of Sanctions(<)\/em(>), 137. Routledge.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Richard Nephew, um dos principais arquitetos da pol\u00edtica de san\u00e7\u00f5es dos EUA, que atuou no Conselho de Seguran\u00e7a Nacional do governo Obama como Diretor para Assuntos Iranianos antes de se tornar Coordenador Adjunto Principal para a Pol\u00edtica de San\u00e7\u00f5es no Departamento de Estado, fornece um relato revelador da estrat\u00e9gia subjacente \u00e0 guerra econ\u00f4mica contra o Ir\u00e3. Suas reflex\u00f5es sobre o CISADA merecem ser citadas em detalhe:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atrav\u00e9s dessa disposi\u00e7\u00e3o\u2014que foi\u00a0 arduamente negociada por representantes dos poderes Executivo e Legislativo desde 2009\u2014, os Estados Unidos ganharam o poder de bloquear o acesso de bancos estrangeiros ao sistema financeiro americano caso se constatasse que esses bancos processavam transa\u00e7\u00f5es <em>para institui\u00e7\u00f5es financeiras iranianas sancionadas pelos EUA ou para a Guarda Revolucion\u00e1ria Isl\u00e2mica<\/em>. <em>Com a expans\u00e3o da lista americana de bancos iranianos sancionados, o sistema financeiro internacional passou a operar sob o risco de que qualquer transa\u00e7\u00e3o com o Ir\u00e3 pudesse implicar a perda de acesso aos Estados Unidos<\/em>. Ainda que algumas institui\u00e7\u00f5es financeiras sem v\u00ednculos com os EUA pudessem sobreviver a isso sem grandes dificuldades, bancos multinacionais preocuparam-se com essa disposi\u00e7\u00e3o e aderiram \u00e0 corrida de entidades que abandonaram neg\u00f3cios com o Ir\u00e3. <em>A verdade nua e crua era que o Ir\u00e3 representava um mercado lucrativo, mas os EUA ainda mais. Simplesmente n\u00e3o fazia sentido econ\u00f4mico arriscar o acesso aos EUA pelas oportunidades existentes no Ir\u00e3<\/em>.\u201d<a data-contents=\"Nephew, Richard. 2018. Nephew, (<)em(>)The Art of Sanctions: A View from the Field(<)\/em(>).(<)em(>) (<)\/em(>)(Columbia University Press., 2018), pp. 77\u201378. Realce do autor.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-19\" href=\"#footnote-list-19\">19<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Nephew, Richard. 2018. Nephew, (<)em(>)The Art of Sanctions: A View from the Field(<)\/em(>).(<)em(>) (<)\/em(>)(Columbia University Press., 2018), pp. 77\u201378. Realce do autor.<\/span><sup> <\/sup>(grifo nosso)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Indicadores agregados s\u00e3o incapazes de captar integralmente o impacto dessas pol\u00edticas. As san\u00e7\u00f5es afetam os horizontes temporais do pa\u00eds-alvo, fazendo com que as decis\u00f5es de investimento se tornem arriscadas, a aquisi\u00e7\u00e3o de tecnologia incerta e o planejamento de longo prazo estruturalmente prejudicado. A volatilidade cambial, as press\u00f5es inflacion\u00e1rias e a fuga de capitais s\u00e3o caracter\u00edsticas intr\u00ednsecas de um regime de san\u00e7\u00f5es no qual a atividade econ\u00f4mica se torna cada vez mais subordinada \u00e0 gest\u00e3o de crises, enquanto estrat\u00e9gias produtivas d\u00e3o lugar a comportamentos especulativos e de sobreviv\u00eancia. Nessas condi\u00e7\u00f5es, todo o ambiente no qual atores econ\u00f4micos e for\u00e7as sociais mais amplas operam \u00e9 definido pela instabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essas rupturas macroecon\u00f4micas impulsionaram profundas reconfigura\u00e7\u00f5es sociais no Ir\u00e3. Como demonstra a an\u00e1lise de Ameli dos dados nacionais e do Banco Mundial, as\u00a0 san\u00e7\u00f5es foram intensificadas num momento em que o pa\u00eds havia alcan\u00e7ado redu\u00e7\u00f5es substanciais nas taxas de pobreza, que ca\u00edram de mais de 20% em 2000 para menos de 10% em 2010. Esse avan\u00e7o foi revertido em menos de uma d\u00e9cada, e cerca de 30% da popula\u00e7\u00e3o voltou a viver abaixo da linha de pobreza definida nacionalmente.<a data-contents=\"Ameli 2023. \u201cUnilateral Sanctions as Sustainable Development Decelerators\u201d. p. 140.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-20\" href=\"#footnote-list-20\">20<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Ameli 2023. \u201cUnilateral Sanctions as Sustainable Development Decelerators\u201d. p. 140.<\/span> A corros\u00e3o dos avan\u00e7os desenvolvimentistas n\u00e3o deve ser compreendida simplesmente como uma desacelera\u00e7\u00e3o c\u00edclica, mas como consequ\u00eancia de uma prolongada instabilidade cambial, de choques de pre\u00e7os e da deteriora\u00e7\u00e3o da renda real. Outro relato de Nephew, de 2012, explica como as press\u00f5es sist\u00eamicas se traduziram em impactos de grande repercuss\u00e3o pol\u00edtica e social:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naquele ano, apesar de os Estados Unidos n\u00e3o terem obstru\u00eddo a importa\u00e7\u00e3o de frango pelo Ir\u00e3, os pre\u00e7os deste produto triplicaram devido \u00e0 infla\u00e7\u00e3o provocada pelas san\u00e7\u00f5es, que foi agravada pela m\u00e1 gest\u00e3o da economia iraniana. \u00c9 poss\u00edvel que esse aumento tenha provocado, de uma s\u00f3 vez, mais frustra\u00e7\u00e3o do que anos de restri\u00e7\u00f5es financeiras. Isso porque a interfer\u00eancia das san\u00e7\u00f5es no abastecimento de frango coincidiu com importantes per\u00edodos festivos iranianos, nos quais a carne de frango \u00e9 um componente central. <a data-contents=\"Nephew 2018. (<)em(>)The Art of Sanctions.(<)\/em(>) p. 112.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-21\" href=\"#footnote-list-21\">21<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Nephew 2018. (<)em(>)The Art of Sanctions.(<)\/em(>) p. 112.<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As san\u00e7\u00f5es nunca foram capazes de provocar um colapso repentino e total. Seus efeitos sempre foram irregulares, cumulativos e sujeitos \u00e0 media\u00e7\u00e3o setorial e institucional. O Estado, por sua vez, continuou desempenhando um papel ativo na gest\u00e3o de crises. Mesmo sob restri\u00e7\u00f5es abrangentes, partes da economia iraniana demonstraram um alto grau de resili\u00eancia. Entre 2011 e 2015, auxiliado em parte pelas exporta\u00e7\u00f5es n\u00e3o petrol\u00edferas e pelos efeitos residuais de receitas petrol\u00edferas anteriores, o Ir\u00e3 conseguiu manter uma balan\u00e7a de pagamentos positiva.<a data-contents=\"Harris 2020, p. 73.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-22\" href=\"#footnote-list-22\">22<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Harris 2020, p. 73.<\/span> O programa de reformas nos subs\u00eddios implementado pelo governo Ahmadinejad em 2010, ap\u00f3s anos de debate interno, substituiu as extensas subven\u00e7\u00f5es ao setor energ\u00e9tico por transfer\u00eancias de renda quase universais, entregues diretamente \u00e0s fam\u00edlias. Esse sistema funcionou como um importante amortecedor no per\u00edodo\u00a0 subsequente de intensifica\u00e7\u00e3o das san\u00e7\u00f5es, ajudando a proteger os grupos de baixa renda e contribuindo para um decl\u00ednio mensur\u00e1vel da desigualdade: o \u00edndice de Gini caiu de cerca de 0,45 na d\u00e9cada de 2000 para aproximadamente 0,37 no in\u00edcio da d\u00e9cada de 2010.<a data-contents=\"Harris 2020, p. 90.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-23\" href=\"#footnote-list-23\">23<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Harris 2020, p. 90.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pol\u00edticas de expans\u00e3o do cr\u00e9dito e programas habitacionais apoiados pelo Estado tamb\u00e9m injetaram liquidez substancial na economia, tensionando a suposi\u00e7\u00e3o de que san\u00e7\u00f5es inevitavelmente geram austeridade. Mas o efeito amortecedor revelou-se ef\u00eamero. Embora as interven\u00e7\u00f5es redistributivas tenham mitigado o choque imediato e reduzido a desigualdade, n\u00e3o conseguiram compensar as consequ\u00eancias de longo prazo das san\u00e7\u00f5es, que, com o tempo, come\u00e7aram a exercer s\u00e9ria press\u00e3o sobre a capacidade produtiva e o sistema pol\u00edtico do Ir\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Ascens\u00e3o e queda do JCPOA<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi nesse contexto de resili\u00eancia parcial, em que press\u00f5es sist\u00eamicas coincidiram com uma capacidade de adapta\u00e7\u00e3o limitada, que o Plano de A\u00e7\u00e3o Conjunto Global [<em>Joint Comprehensive Plan of Action<\/em>, ou JCPOA] passou a dominar a agenda. As negocia\u00e7\u00f5es do acordo foram conduzidas pelo governo de centro-direita de Hassan Rouhani, eleito em 2013 com a promessa de aliviar as press\u00f5es econ\u00f4micas por meio da diplomacia e garantir o al\u00edvio das san\u00e7\u00f5es pela reabertura dos canais de di\u00e1logo com os EUA e a restaura\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es com a Uni\u00e3o Europeia. O mote de sua campanha eleitoral, de que \u201cas centr\u00edfugas [dos reatores nucleares] devem girar, mas a vida do povo e a economia tamb\u00e9m\u201d, capturou uma converg\u00eancia mais ampla entre diferentes fac\u00e7\u00f5es de poder do sistema pol\u00edtico iraniano que reconheciam que a estabiliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica havia se tornado uma necessidade pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A implementa\u00e7\u00e3o do acordo proporcionou ao Ir\u00e3 um al\u00edvio macroecon\u00f4mico genu\u00edno, ainda que breve. Impulsionado principalmente pela r\u00e1pida recupera\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo, o crescimento do PIB acelerou fortemente em 2016, ano seguinte \u00e0 assinatura do acordo, enquanto a infla\u00e7\u00e3o recuou para um patamar de um d\u00edgito pela primeira vez em anos. As press\u00f5es cambiais diminu\u00edram temporariamente, as receitas externas melhoraram e as expectativas de reintegra\u00e7\u00e3o parcial nos mercados globais alteraram o comportamento dos investidores e o sentimento econ\u00f4mico.<a data-contents=\"England, Andrew. 2026. \u201cHow Iran\u2019s Economic Pain Sparked Explosion of Unrest\u201d. (<)em(>)Financial Times(<)\/em(>), 12 de janeiro.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-24\" href=\"#footnote-list-24\">24<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">England, Andrew. 2026. \u201cHow Iran\u2019s Economic Pain Sparked Explosion of Unrest\u201d. (<)em(>)Financial Times(<)\/em(>), 12 de janeiro.<\/span> Embora essa recupera\u00e7\u00e3o tenha sido limitada e fortemente dependente dos hidrocarbonetos, ela ainda assim produziu importantes efeitos estabilizadores. O JCPOA criou condi\u00e7\u00f5es nas quais a amplia\u00e7\u00e3o do investimento estrangeiro, das trocas tecnol\u00f3gicas e dos fluxos comerciais e tur\u00edsticos parecia poss\u00edvel\u2014e talvez efetivamente avan\u00e7asse, caso o regime de al\u00edvio das san\u00e7\u00f5es tivesse sido preservado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A sobreviv\u00eancia do JCPOA, no entanto, dependia dos caprichos da Casa Branca, que se reservava o direito de revog\u00e1-lo por meio de decis\u00f5es executivas. Enquanto o al\u00edvio era concedido sob condi\u00e7\u00f5es muito restritas, as san\u00e7\u00f5es podiam ser reestabelecidas unilateralmente a um custo insignificante para os EUA. Isso continuou a afetar o panorama de investimentos no Ir\u00e3, tornando quaisquer compromissos de longo prazo de empresas multinacionais profundamente incertos. E, como os comentaristas mais c\u00e9ticos j\u00e1 suspeitavam, as capacidades coercitivas que nunca haviam sido verdadeiramente abandonadas sob o JCPOA foram reativadas quando Trump assumiu a Casa Branca em 2017. Sua pol\u00edtica de \u201cpress\u00e3o m\u00e1xima\u201d, iniciada com a sa\u00edda dos EUA do JCPOA no in\u00edcio de 2018, expandiu as san\u00e7\u00f5es da era Obama a um grau sem precedentes, voltando a atingir exporta\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo, transa\u00e7\u00f5es financeiras e um conjunto cada vez mais amplo de entidades privadas. <a data-contents=\"Demarais, Agathe. 2022. (<)em(>)Backfire: How Sanctions Reshape the World Against U.S. Interests(<)\/em(>). Columbia University Press, 2.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-25\" href=\"#footnote-list-25\">25<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Demarais, Agathe. 2022. (<)em(>)Backfire: How Sanctions Reshape the World Against U.S. Interests(<)\/em(>). Columbia University Press, 2.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tratava-se de uma diferen\u00e7a de grau, n\u00e3o de natureza. O retorno do Partido Republicano ao Executivo agravou problemas criados por administra\u00e7\u00f5es americanas anteriores: contra\u00e7\u00e3o das receitas petrol\u00edferas, desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial e alta dos pre\u00e7os. Ap\u00f3s o desmonte do JCPOA, em maio de 2018, as exporta\u00e7\u00f5es iranianas de petr\u00f3leo despencaram de aproximadamente 2,8 milh\u00f5es de barris di\u00e1rios para algo em torno de 300 mil em 2019, provocando uma queda dram\u00e1tica das receitas em moeda estrangeira. O rial sofreu uma forte desvaloriza\u00e7\u00e3o, enquanto a infla\u00e7\u00e3o se aproximou dos 40%, corroendo o poder de compra e intensificando as press\u00f5es distributivas sobre os setores dependentes de sal\u00e1rios. O congelamento de dezenas de bilh\u00f5es de d\u00f3lares em receitas petrol\u00edferas iranianas mantidas em institui\u00e7\u00f5es financeiras no exterior restringiu ainda mais o acesso \u00e0 liquidez externa, ampliando a instabilidade cambial e refor\u00e7ando a din\u00e2mica de crise.<a data-contents=\"England 2026.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-26\" href=\"#footnote-list-26\">26<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">England 2026.<\/span> O Estado iraniano responderia repetidamente a essas press\u00f5es por meio de medidas adaptativas destinadas a estabilizar a economia e sustentar os fluxos de receita. A resili\u00eancia n\u00e3o assumiu a forma de retra\u00e7\u00e3o, mas de reconfigura\u00e7\u00e3o. Agentes econ\u00f4micos iranianos redirecionaram o com\u00e9rcio para novos parceiros e produtos, aprofundando, em vez de abandonar, sua integra\u00e7\u00e3o \u00e0 economia global.<a data-contents=\"Batmanghelidj, Esfandyar. 2024. \u201cResistance Is Simple, Resilience Is Complex: Sanctions and the Composition of Iranian Trade\u201d. (<)em(>)Middle East Development Journal(<)\/em(>) 16, n.\u00ba 2: 220\u201338.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-27\" href=\"#footnote-list-27\">27<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Batmanghelidj, Esfandyar. 2024. \u201cResistance Is Simple, Resilience Is Complex: Sanctions and the Composition of Iranian Trade\u201d. (<)em(>)Middle East Development Journal(<)\/em(>) 16, n.\u00ba 2: 220\u201338.<\/span> Nesse sentido, adapta\u00e7\u00e3o e desgaste avan\u00e7aram lado a lado: tais respostas mitigaram colapsos imediatos, ao mesmo tempo em que consolidaram formas mais difusas e cumulativas de distor\u00e7\u00e3o tanto nas institui\u00e7\u00f5es estatais quanto na vida social.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Estatalidade assim\u00e9trica<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As san\u00e7\u00f5es n\u00e3o enfraqueceram o Estado de forma uniforme ou mecanicista. Como o pr\u00f3prio Nephew reconheceu implicitamente, a desorganiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica interage com estruturas j\u00e1 existentes de privil\u00e9gio, poder e vulnerabilidade. O prolongado isolamento financeiro do Ir\u00e3 acelerou a expans\u00e3o de redes econ\u00f4micas paraestatais e vinculadas aos aparatos de seguran\u00e7a, mais bem posicionadas para operar em canais restritos do com\u00e9rcio internacional. Pr\u00e1ticas de informaliza\u00e7\u00e3o, arbitragem e intermedia\u00e7\u00e3o rentista passaram a proliferar, redistribuindo riscos econ\u00f4micos enquanto consolidavam formas de governan\u00e7a cada vez mais opacas e intrincadas. O regime de san\u00e7\u00f5es produziu, de um lado, a eros\u00e3o da capacidade produtiva de base ampla; de outro, o fortalecimento de determinados grupos capazes de transformar escassez e volatilidade em fontes de lucro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O caso de Ali Ansari e do Banco Ayandeh ilustra bem essa din\u00e2mica. Ansari, um proeminente empres\u00e1rio iraniano cuja fam\u00edlia fundou o banco, foi sancionado pelo Reino Unido em outubro de 2025, em meio a alega\u00e7\u00f5es de que redes financeiras associadas ao Ayandeh teriam facilitado transa\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 Guarda Revolucion\u00e1ria. Ao mesmo tempo, reportagens investigativas sugeriam que Ansari possu\u00eda um extenso portf\u00f3lio imobili\u00e1rio na Europa, supostamente avaliado em centenas de milh\u00f5es de euros.<a data-contents=\"Healy, Euan e Dubois, Laura. 2026. \u201cSanctioned Iranian Banker Amassed \u20ac400mn European Property Empire\u201d. (<)em(>)Financial Times(<)\/em(>), 26 de janeiro. Bozorgmehr, Najmeh. 2025. \u201cIran Takes over Major Private Bank to Prevent Collapse\u201d. (<)em(>)Financial Times(<)\/em(>), 28 de outubro.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-28\" href=\"#footnote-list-28\">28<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Healy, Euan e Dubois, Laura. 2026. \u201cSanctioned Iranian Banker Amassed \u20ac400mn European Property Empire\u201d. (<)em(>)Financial Times(<)\/em(>), 26 de janeiro. Bozorgmehr, Najmeh. 2025. \u201cIran Takes over Major Private Bank to Prevent Collapse\u201d. (<)em(>)Financial Times(<)\/em(>), 28 de outubro.<\/span> A justaposi\u00e7\u00e3o \u00e9 reveladora: \u00e0 medida que o balan\u00e7o do Banco Ayandeh se deteriorava e milhares de correntistas iranianos enfrentavam a perspectiva de perder suas economias, a riqueza permanecia concentrada em redes financeiras politicamente conectadas, que continuavam a operar atrav\u00e9s das fronteiras e para al\u00e9m das restri\u00e7\u00f5es impostas pelas san\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso ajuda a explicar por que as san\u00e7\u00f5es raramente conseguem converter press\u00e3o econ\u00f4mica agregada em capitula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica: as elites estatais podem transferir os custos da desorganiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica para o restante da sociedade enquanto protegem a si pr\u00f3prias e seus aliados.<a data-contents=\"Pape, Robert A. 1997. \u201cWhy Economic Sanctions Do Not Work\u201d. (<)em(>)International Security(<)\/em(>) 22, n.\u00ba 2: 107; Pape, Robert A. 1998 \u201cWhy Economic Sanctions Still Do Not Work\u201d. (<)em(>)International Security(<)\/em(>) 23, n.\u00ba 1: 66\u201377.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-29\" href=\"#footnote-list-29\">29<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Pape, Robert A. 1997. \u201cWhy Economic Sanctions Do Not Work\u201d. (<)em(>)International Security(<)\/em(>) 22, n.\u00ba 2: 107; Pape, Robert A. 1998 \u201cWhy Economic Sanctions Still Do Not Work\u201d. (<)em(>)International Security(<)\/em(>) 23, n.\u00ba 1: 66\u201377.<\/span> No caso iraniano, observa-se precisamente essa din\u00e2mica de <em>estatalidade assim\u00e9trica<\/em>: atores inseridos em redes paraestatais e vinculadas aos aparatos de seguran\u00e7a disp\u00f5em de acesso diferenciado a divisas, circuitos informais de com\u00e9rcio e prote\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O resultado \u00e9 uma distribui\u00e7\u00e3o estruturalmente desigual tanto dos riscos quanto das oportunidades. A instabilidade financeira \u00e9 socializada por meio da infla\u00e7\u00e3o, da desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial e das perdas dos correntistas, enquanto agentes inseridos nessas redes opacas preservam a capacidade de manter e at\u00e9 de ampliar sua riqueza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O caso Ayandeh mostra como a volatilidade induzida pelas san\u00e7\u00f5es n\u00e3o simplesmente enfraquece o Estado, mas reorganiza a economia pol\u00edtica da crise de maneiras que fortalecem intermedi\u00e1rios operando na interse\u00e7\u00e3o entre finan\u00e7as e seguran\u00e7a. Ao faz\u00ea-lo, refor\u00e7a formas de governan\u00e7a menos transparentes e menos sujeitas ao escrut\u00ednio p\u00fablico. As san\u00e7\u00f5es tendem, assim, a consolidar pr\u00f3prias as estruturas elitistas que supostamente pretendem constranger.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pesquisas emp\u00edricas realizadas demonstram a magnitude dessa reestrutura\u00e7\u00e3o no Ir\u00e3. Segundo a an\u00e1lise de Mohammad Reza Farzanegan e Nader Habibi , as san\u00e7\u00f5es \u201clevaram a uma redu\u00e7\u00e3o m\u00e9dia anual de 17 pontos percentuais no tamanho da classe m\u00e9dia iraniana entre 2012 e 2019\u201d.<a data-contents=\"Farzanegan, Mohammad Reza e Habibi, Nader. 2025. \u201cThe Effect of International Sanctions on the Size of the Middle Class in Iran\u201d. (<)em(>)European Journal of Political Economy(<)\/em(>), 90, dezembro.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-30\" href=\"#footnote-list-30\">30<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Farzanegan, Mohammad Reza e Habibi, Nader. 2025. \u201cThe Effect of International Sanctions on the Size of the Middle Class in Iran\u201d. (<)em(>)European Journal of Political Economy(<)\/em(>), 90, dezembro.<\/span> Evid\u00eancias complementares indicam que, desde 2011, cerca de oito milh\u00f5es de pessoas deixaram a classe m\u00e9dia e passaram a integrar estratos de baixa renda, enquanto a popula\u00e7\u00e3o vivendo abaixo da linha da pobreza cresceu em mais de quatro milh\u00f5es.<a data-contents=\"Salehi-Isfahani, Djavad. 2022. \u201cImpact of Sanctions on Household Welfare and Employment\u201d. Em (<)em(>)Rethinking Iran: School of Advanced and International Studies(<)\/em(>); Bajoghli et al. 2024. (<)em(>)How Sanctions Work: Iran and the Impact of Economic Warfare(<)\/em(>), p.11.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-31\" href=\"#footnote-list-31\">31<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Salehi-Isfahani, Djavad. 2022. \u201cImpact of Sanctions on Household Welfare and Employment\u201d. Em (<)em(>)Rethinking Iran: School of Advanced and International Studies(<)\/em(>); Bajoghli et al. 2024. (<)em(>)How Sanctions Work: Iran and the Impact of Economic Warfare(<)\/em(>), p.11.<\/span> Esse quadro \u00e9 refor\u00e7ado por an\u00e1lises mais recentes do Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Desenvolvimento, segundo as quais o PIB per capita do Ir\u00e3 despencou de US$ 8 mil para US$ 5 mil entre 2012 e 2024.<a data-contents=\"Ameli 2023. \u201cUnilateral Sanctions as Sustainable Development Decelerators\u201d. p.137. Abdi afirma que o Ir\u00e3 registrou um decl\u00ednio de 400% no PIB entre 2011 e 2020. Abdi, Asma. 2026., \u201cEconomic Warfare, War Economy, and Gendered Circuits of Violence in Iran\u201d. Em Hozi\u0107, Aida A. e True, Jacqui. (<)em(>)War Economy: Gendered Circuits of Violence and Capital(<)\/em(>).\u00a0 Routledge. p.62.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-32\" href=\"#footnote-list-32\">32<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Ameli 2023. \u201cUnilateral Sanctions as Sustainable Development Decelerators\u201d. p.137. Abdi afirma que o Ir\u00e3 registrou um decl\u00ednio de 400% no PIB entre 2011 e 2020. Abdi, Asma. 2026., \u201cEconomic Warfare, War Economy, and Gendered Circuits of Violence in Iran\u201d. Em Hozi\u0107, Aida A. e True, Jacqui. (<)em(>)War Economy: Gendered Circuits of Violence and Capital(<)\/em(>).\u00a0 Routledge. p.62.<\/span> A instabilidade produzida pelas san\u00e7\u00f5es converteu-se em um mecanismo de reestratifica\u00e7\u00e3o social, comprimindo parcelas das camadas m\u00e9dias e intensificando as press\u00f5es sobre fam\u00edlias assalariadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse \u00e9 o contexto fundamental das ondas de protesto que come\u00e7aram a eclodir a partir de 2017\u201318. Grandes manifesta\u00e7\u00f5es nacionais irromperam no Ir\u00e3 em dezembro de 2017, novembro de 2019 e novamente durante o outono e o inverno de 2022\u201323, quando o movimento \u201cMulher, Vida, Liberdade\u201d foi formado. Novos levantes voltariam a ocorrer em janeiro de 2026 e seriam recebidos com uma repress\u00e3o estatal excepcionalmente violenta, na qual acredita-se que v\u00e1rios milhares de manifestantes tenham sido mortos\u2014a Human Rights Activists News Agency estima cerca de 7 mil v\u00edtimas\u2014, configurando um dos epis\u00f3dios mais sangrentos da hist\u00f3ria da Rep\u00fablica Isl\u00e2mica. Isso n\u00e3o significa que as mobiliza\u00e7\u00f5es possam ser reduzidas apenas a queixas econ\u00f4micas, mas a prolongada estagna\u00e7\u00e3o e a condi\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria da economia pol\u00edtica iraniana, aliadas ao aprofundamento da desigualdade e \u00e0 deteriora\u00e7\u00e3o da renda real, constitu\u00edram o pano de fundo para a recorr\u00eancia c\u00edclica dessas revoltas e a expans\u00e3o de sua base social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais uma vez, as palavras de Richard Nephew revelam que esse n\u00e3o foi um resultado acidental, mas parte do pr\u00f3prio desenho da pol\u00edtica de san\u00e7\u00f5es. \u201cMoeda forte\u201d, recorda ele, \u201csa\u00eda do pa\u00eds enquanto bens de luxo entravam, e come\u00e7aram a surgir relatos no Ir\u00e3 sobre o agravamento da desigualdade de renda e da infla\u00e7\u00e3o. Isso foi uma escolha, uma decis\u00e3o tomada com base na ideia de aumentar a press\u00e3o interna sobre o governo iraniano.\u201d<a data-contents=\"Nephew 2018. (<)em(>)The Art of Sanctions(<)\/em(>). p. 111.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-33\" href=\"#footnote-list-33\">33<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Nephew 2018. (<)em(>)The Art of Sanctions(<)\/em(>). p. 111.<\/span> O impacto das san\u00e7\u00f5es assume, assim, a forma de uma redistribui\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica da inseguran\u00e7a e das vantagens adaptativas no conjunto da sociedade. A aus\u00eancia de confronto militar aberto n\u00e3o significou a suspens\u00e3o do conflito, mas sua reorganiza\u00e7\u00e3o por meio de mecanismos econ\u00f4micos e financeiros cuja viol\u00eancia \u00e9 mais lenta, embora n\u00e3o menos consequente, e cujos efeitos s\u00e3o mais difusos, por\u00e9m mais duradouros: a reconfigura\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de classe, o fortalecimento das institui\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a, a degrada\u00e7\u00e3o da capacidade produtiva e a normaliza\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es permanentes de crise.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar das mudan\u00e7as ret\u00f3ricas e de limitadas iniciativas diplom\u00e1ticas, o governo Biden manteve o n\u00facleo do regime de san\u00e7\u00f5es intacto, deixando de enquadr\u00e1-lo como um conjunto de medidas emergenciais e passando a trat\u00e1-lo como instrumento convencional da pol\u00edtica externa americana, processo que Trump voltou a fortalecer em 2025. Isso corresponde a uma transforma\u00e7\u00e3o mais ampla no exerc\u00edcio do poder imperial, em que a coer\u00e7\u00e3o foi gradualmente rotinizada, desvinculada de crises espec\u00edficas e incorporada ao funcionamento cotidiano da ordem econ\u00f4mica global. Cada nova administra\u00e7\u00e3o estadunidense herda n\u00e3o apenas as pol\u00edticas de suas antecessoras, mas tamb\u00e9m um conjunto de capacidades infraestruturais cada vez mais isoladas da influ\u00eancia democr\u00e1tica e respons\u00e1veis por impor sofrimento agudo a na\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas e semiperif\u00e9ricas.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Dissuas\u00e3o, militariza\u00e7\u00e3o e sobreviv\u00eancia<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda que as san\u00e7\u00f5es tenham sido o principal componente econ\u00f4mico da campanha contra a Rep\u00fablica Isl\u00e2mica, a inten\u00e7\u00e3o nunca foi utiliz\u00e1-las isoladamente. A press\u00e3o financeira sempre esteve acompanhada da amea\u00e7a\u2014e da aplica\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica\u2014da for\u00e7a militar, com as fronteiras entre coer\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e interven\u00e7\u00e3o armada tornando-se cada vez mais difusas nos \u00faltimos anos. Desde o in\u00edcio da \u201cGuerra ao Terror\u201d, o Ir\u00e3 viu-se cercado pela expans\u00e3o da infraestrutura do imp\u00e9rio estadunidense. As invas\u00f5es e ocupa\u00e7\u00f5es do Afeganist\u00e3o em 2001 e do Iraque em 2003 posicionaram for\u00e7as dos EUA nas fronteiras oriental e ocidental do Ir\u00e3, enquanto os EUA consolidavam uma densa presen\u00e7a militar no Golfo P\u00e9rsico por meio de bases no Catar, Bahrein, Kuwait e nos Emirados \u00c1rabes Unidos. Grupos de ataque de porta-avi\u00f5es passaram a circular continuamente pelo Golfo e pelo Mar Ar\u00e1bico, enquanto sistemas de vigil\u00e2ncia e instala\u00e7\u00f5es de defesa antim\u00edsseis se multiplicavam, transformando a regi\u00e3o em uma das zonas mais militarizadas do planeta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Opera\u00e7\u00f5es israelenses tamb\u00e9m constitu\u00edram um componente central dessa estrat\u00e9gia h\u00edbrida. Ao longo das \u00faltimas duas d\u00e9cadas, cientistas e outros quadros ligados ao programa nuclear iraniano foram repetidamente alvo de campanhas de assassinato. As restri\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas foram complementadas com sabotagens industriais, opera\u00e7\u00f5es cibern\u00e9ticas\u2014como o ataque do v\u00edrus Stuxnet a instala\u00e7\u00f5es nucleares\u2014e constante infiltra\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os de intelig\u00eancia, submetendo o Estado iraniano a uma press\u00e3o estrat\u00e9gica cont\u00ednua. Foi sob essas condi\u00e7\u00f5es que a doutrina contempor\u00e2nea de dissuas\u00e3o do Ir\u00e3 come\u00e7ou a tomar forma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Guerra Ir\u00e3\u2013Iraque exp\u00f4s a vulnerabilidade aguda do Estado revolucion\u00e1rio diante de um ataque convencional conduzido por um advers\u00e1rio materialmente superior e mais bem armado, revelando tanto os limites das capacidades militares do Ir\u00e3 quanto as restri\u00e7\u00f5es impostas por seu relativo isolamento no sistema internacional. Os estrategistas iranianos, por\u00e9m, n\u00e3o buscaram apenas compensar essas fragilidades elevando os custos de uma interven\u00e7\u00e3o externa em um sentido estritamente reativo. Desenvolveram tamb\u00e9m uma doutrina de \u201cdefesa avan\u00e7ada\u201d, baseada no deslocamento do conflito para al\u00e9m das fronteiras iranianas. Isso envolveu cultivar rela\u00e7\u00f5es com atores armados aliados n\u00e3o estatais, expandir sua influ\u00eancia sobre os conflitos e espa\u00e7os estrat\u00e9gicos da regi\u00e3o e inserir a dissuas\u00e3o em redes transnacionais capazes de operar abaixo do limiar da guerra convencional.<a data-contents=\"Sadeghi-Boroujerdi, Eskandar. 2017. \u201cStrategic Depth, Counterinsurgency, and the Logic of Sectarianization: The Islamic Republic of Iran\u2019s Security Doctrine and Its Regional Implications\u201d. Em Hashemi, Nader e Postel, Danny. (<)em(>)Sectarianization: Mapping the New Politics of the Middle East(<)\/em(>).Oxford University Press. Sadeghi-Boroujerdi, Eskandar. 2025.\u00a0 \u201cIran and the \u2018Axis of Resistance\u2019: A Brief History\u201d. (<)em(>)Jadaliyya(<)\/em(>), 19 de maio. (<)a href='https:\/\/www.jadaliyya.com\/Details\/46685'(>)https:\/\/www.jadaliyya.com\/Details\/46685(<)\/a(>). Nasr, Vali. 2025. (<)em(>)Iran\u2019s Grand Strategy: A Political History(<)\/em(>). Princeton University Press.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-34\" href=\"#footnote-list-34\">34<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Sadeghi-Boroujerdi, Eskandar. 2017. \u201cStrategic Depth, Counterinsurgency, and the Logic of Sectarianization: The Islamic Republic of Iran\u2019s Security Doctrine and Its Regional Implications\u201d. Em Hashemi, Nader e Postel, Danny. (<)em(>)Sectarianization: Mapping the New Politics of the Middle East(<)\/em(>).Oxford University Press. Sadeghi-Boroujerdi, Eskandar. 2025.\u00a0 \u201cIran and the \u2018Axis of Resistance\u2019: A Brief History\u201d. (<)em(>)Jadaliyya(<)\/em(>), 19 de maio. (<)a href='https:\/\/www.jadaliyya.com\/Details\/46685'(>)https:\/\/www.jadaliyya.com\/Details\/46685(<)\/a(>). Nasr, Vali. 2025. (<)em(>)Iran\u2019s Grand Strategy: A Political History(<)\/em(>). Princeton University Press.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A guerra assim\u00e9trica n\u00e3o era apenas um substituto de segunda ordem para a for\u00e7a convencional, mas uma reconfigura\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica de como e onde o conflito seria travado, manobra que buscava externalizar o risco, fragmentar os ambientes operacionais dos advers\u00e1rios e tornar a escalada difusa, prolongada e dif\u00edcil de conter. As invas\u00f5es do Afeganist\u00e3o e do Iraque refor\u00e7aram a necessidade dessa virada estrat\u00e9gica. Embora o colapso do regime de Saddam Hussein tenha removido o principal rival regional do Ir\u00e3, tamb\u00e9m reconfigurou profundamente seu ambiente de seguran\u00e7a ao posicionar for\u00e7as dos EUA diretamente em seus flancos oriental e ocidental. Isso conferiu nova urg\u00eancia \u00e0 doutrina de defesa avan\u00e7ada, entendida como uma forma de moldar preventivamente o equil\u00edbrio regional de poder e for\u00e7ar qualquer confronto a se desenrolar simultaneamente em m\u00faltiplos \u00e2mbitos operacionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi nesse contexto que o Ir\u00e3 buscou constituir, em coordena\u00e7\u00e3o com seus aliados, aquilo que posteriormente seria chamado de \u201cEixo da Resist\u00eancia\u201d: uma rede relativamente flex\u00edvel de movimentos pol\u00edticos e organiza\u00e7\u00f5es armadas aliadas espalhadas pelo Iraque, S\u00edria, L\u00edbano, I\u00eamen e Palestina. O objetivo n\u00e3o era alcan\u00e7ar paridade militar com os EUA ou Israel, mas criar um ambiente dissuas\u00f3rio no qual os custos de um ataque direto se tornassem proibitivamente altos. A estrat\u00e9gia refletia a condi\u00e7\u00e3o de um Estado semiperif\u00e9rico e pot\u00eancia m\u00e9dia aspirante diante de uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as militares profundamente desfavor\u00e1vel, al\u00e9m de severas restri\u00e7\u00f5es fiscais. A dissuas\u00e3o n\u00e3o prometia vit\u00f3ria, mas era cuidadosamente calibrada para garantir a sobreviv\u00eancia do sistema isl\u00e2mico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Paralelamente a essa arquitetura regional, Teer\u00e3 investiu fortemente no desenvolvimento de m\u00edsseis, drones e estrat\u00e9gias de dissuas\u00e3o em camadas. As origens do programa iraniano de m\u00edsseis tamb\u00e9m remontam \u00e0 experi\u00eancia da Guerra Ir\u00e3\u2013Iraque, quando ataques iraquianos com m\u00edsseis provocaram grandes danos a cidades iranianas, levando os planejadores militares do pa\u00eds \u00e0 conclus\u00e3o de que a depend\u00eancia de fornecedores estrangeiros para sistemas avan\u00e7ados de armamentos era insustent\u00e1vel. Figuras como o comandante da Guarda Revolucion\u00e1ria Hassan Tehrani Moghaddam come\u00e7aram, ent\u00e3o, a lan\u00e7ar as bases do que se tornaria a principal capacidade dissuas\u00f3ria do Ir\u00e3, supervisionando a produ\u00e7\u00e3o de m\u00edsseis bal\u00edsticos\u2014incluindo os sistemas Shahab, Ghadr e Sejjil\u2014capazes de atingir alvos em toda a regi\u00e3o ampliada.<a data-contents=\"Bahgat, Gawdat e Ehteshami, Anoushiravan. 2021. (<)em(>)Defending Iran: From Revolutionary Guards to Ballistic Missiles(<)\/em(>). Cambridge University Press. Cap. 6.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-35\" href=\"#footnote-list-35\">35<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Bahgat, Gawdat e Ehteshami, Anoushiravan. 2021. (<)em(>)Defending Iran: From Revolutionary Guards to Ballistic Missiles(<)\/em(>). Cambridge University Press. Cap. 6.<\/span> A estrat\u00e9gia era simples: se o Ir\u00e3 n\u00e3o poderia igualar o poder militar convencional de seus advers\u00e1rios, ainda assim seria capaz de amea\u00e7ar infraestruturas cr\u00edticas e instala\u00e7\u00f5es militares ao longo do Golfo e do Mediterr\u00e2neo Oriental, elevando drasticamente os custos de um ataque para Israel e os EUA.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por quase duas d\u00e9cadas, essa estrat\u00e9gia obteve algum sucesso. Apesar das repetidas crises, dos ataques encobertos e da intensifica\u00e7\u00e3o das san\u00e7\u00f5es, a Rep\u00fablica Isl\u00e2mica evitou o destino do Iraque e da L\u00edbia. Sua rede de dissuas\u00e3o\u2014que combinava alian\u00e7as regionais, capacidade bal\u00edstica e potencial nuclear\u2014imp\u00f4s restri\u00e7\u00f5es reais ao processo decis\u00f3rio dos Estados Unidos e de Israel. Ainda assim, tratava-se de um equil\u00edbrio fr\u00e1gil e dependente de uma correla\u00e7\u00e3o regional de for\u00e7as permanentemente inst\u00e1vel e contestada. Esse equil\u00edbrio finalmente come\u00e7ou a se desfazer ap\u00f3s o 7 de outubro, quando a escalada da ofensiva israelense e o ataque sistem\u00e1tico a aliados iranianos enfraqueceram decisivamente o \u201cEixo\u201d que sustentava a posi\u00e7\u00e3o do Ir\u00e3 na \u00c1sia Ocidental. O Hezbollah, h\u00e1 muito considerado o mais importante aliado regional do Ir\u00e3, sofreu perdas severas em sua lideran\u00e7a e infraestrutura, enquanto a queda do regime de Bashar al-Assad na S\u00edria enfraqueceu ainda mais o corredor log\u00edstico e pol\u00edtico que ligava o Ir\u00e3 ao L\u00edbano. O que antes funcionava como uma rede distribu\u00edda de dissuas\u00e3o encontrava-se agora em processo de fragmenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em resposta a esse horizonte cada vez mais sombrio, o Ir\u00e3 adotou uma postura deliberadamente amb\u00edgua em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua estrat\u00e9gia nuclear: preservou capacidades de enriquecimento e continuou avan\u00e7ando em seu programa, mas sem embarcar na produ\u00e7\u00e3o efetiva de armas at\u00f4micas. O objetivo era ocupar a prec\u00e1ria posi\u00e7\u00e3o de um Estado no limite, mantendo certo grau de capacidade dissuas\u00f3ria e recusando-se a abrir m\u00e3o do que considerava um direito soberano ao enriquecimento nuclear para fins pac\u00edficos, ao mesmo tempo em que insistia em sua disposi\u00e7\u00e3o para negociar uma solu\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica. Para evitar uma guerra em grande escala, o pa\u00eds estava disposto a aceitar termos compar\u00e1veis ou talvez at\u00e9 mais rigorosos do que os do JCPOA.<a data-contents=\"\u201cPeace \u201cwithin Reach\u201d as Iran Agrees No Nuclear Material Stockpile: Oman FM\u201d. 2026. (<)em(>)Al Jazeera(<)\/em(>), 28 de fevereiro. https:\/\/www.aljazeera.com\/news\/2026\/2\/28\/peace-within-reach-as-iran-agrees-no-nuclear-material-stockpile-oman-fm.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-36\" href=\"#footnote-list-36\">36<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">\u201cPeace \u201cwithin Reach\u201d as Iran Agrees No Nuclear Material Stockpile: Oman FM\u201d. 2026. (<)em(>)Al Jazeera(<)\/em(>), 28 de fevereiro. https:\/\/www.aljazeera.com\/news\/2026\/2\/28\/peace-within-reach-as-iran-agrees-no-nuclear-material-stockpile-oman-fm.<\/span> Para Israel e muitos de seus aliados em Washington, no entanto, mesmo essa postura cuidadosamente calibrada era inaceit\u00e1vel. A mera possibilidade de que o Ir\u00e3, um dia, convertesse suas capacidades latentes em uma dissuas\u00e3o operacional era percebida por Israel como uma limita\u00e7\u00e3o\u2014ainda que modesta\u2014a seu suposto direito de dominar uma regi\u00e3o tratada, h\u00e1 muito, como sua reserva estrat\u00e9gica exclusiva. A lideran\u00e7a iraniana parece ter subestimado a ferocidade do ataque que sua estrat\u00e9gia amb\u00edgua acabaria por provocar.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Da Rising Lion \u00e0 Epic Fury<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A inflex\u00e3o decisiva ocorreu com a Opera\u00e7\u00e3o Rising Lion, um ataque surpresa israelense lan\u00e7ado em junho de 2025 que matou altos integrantes da lideran\u00e7a da Guarda Revolucion\u00e1ria e das For\u00e7as Armadas iranianas, al\u00e9m de uma d\u00fazia de cientistas nucleares. Em seguida, os EUA lan\u00e7aram a Opera\u00e7\u00e3o Midnight Hammer, ofensiva coordenada destinada a destruir as tr\u00eas principais instala\u00e7\u00f5es nucleares do Ir\u00e3. Mas, apesar da destrui\u00e7\u00e3o provocada pela Guerra dos Doze Dias, a campanha americano-israelense parecia estranhamente inconclusa. Em meio ao prec\u00e1rio cessar-fogo que se seguiu, tudo indicava que os agressores haviam lan\u00e7ado a primeira fase de um confronto mais amplo e, agora, se reorganizavam para um conflito prolongado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fase seguinte come\u00e7ou quando os EUA enviaram refor\u00e7os navais adicionais para a regi\u00e3o, incluindo o <em>USS Abraham Lincoln<\/em> e, posteriormente, o <em>USS Gerald R. Ford<\/em>. A escalada militar ocorreu paralelamente a um processo diplom\u00e1tico ativo: ap\u00f3s meses de impasses, negocia\u00e7\u00f5es indiretas entre autoridades americanas e iranianas, mediadas pelo Om\u00e3 e apoiadas pelo Catar e por interlocutores europeus, foram retomadas no in\u00edcio de 2026. Nas \u00faltimas semanas de fevereiro, as conversas j\u00e1 haviam produzido o que mediadores e participantes descreveram como \u201cavan\u00e7os concretos\u201d, incluindo discuss\u00f5es sobre limites ao enriquecimento de ur\u00e2nio, mecanismos ampliados de verifica\u00e7\u00e3o e um al\u00edvio gradual das san\u00e7\u00f5es, com novas negocia\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas em Viena j\u00e1 previstas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por\u00e9m, no \u00faltimo dia de fevereiro de 2026, o governo Trump interrompeu abruptamente as negocia\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas e mergulhou os EUA em mais uma guerra imperial na \u00c1sia Ocidental. A ofensiva, batizada de Opera\u00e7\u00e3o Epic Fury, foi acompanhada por declara\u00e7\u00f5es abertas de altas autoridades americanas em defesa de uma \u201cmudan\u00e7a de regime\u201d, al\u00e9m de apelos para que a popula\u00e7\u00e3o iraniana se levantasse contra o Estado. For\u00e7as israelenses e americanas lan\u00e7aram uma onda coordenada de ataques contra centenas de alvos militares, industriais e governamentais. A escala dos bombardeios foi sem precedentes: mais de mil alvos foram atingidos apenas nas primeiras vinte e quatro horas. Ataques orientados por informa\u00e7\u00f5es de intelig\u00eancia buscaram decapitar a lideran\u00e7a iraniana, na expectativa de que isso levasse ao r\u00e1pido colapso ou \u00e0 rendi\u00e7\u00e3o humilhante do regime, o que culminou na morte do L\u00edder Supremo, o Aiatol\u00e1 Ali Khamenei, ent\u00e3o com 86 anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A dimens\u00e3o tecnol\u00f3gica da opera\u00e7\u00e3o revelou as transforma\u00e7\u00f5es no car\u00e1ter da guerra contempor\u00e2nea. No centro disso, est\u00e1 o uso cada vez mais amplo, pelos EUA, de sistemas algor\u00edtmicos de intelig\u00eancia, incluindo o <em>Maven Smart System<\/em> da Palantir, que integra processamento massivo de dados, identifica\u00e7\u00e3o automatizada de alvos e an\u00e1lise do campo de batalha.<a data-contents=\"Copp, Tara et al.. 2026. \u201cAnthropic\u2019s AI Tool Claude Central to U.S. Campaign in Iran, amid a Bitter Feud\u201d. (<)em(>)The Washington Post(<)\/em(>), 4 de mar\u00e7o. https:\/\/www.washingtonpost.com\/technology\/2026\/03\/04\/anthropic-ai-iran-campaign\/#selection-237.0-1028.0.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-37\" href=\"#footnote-list-37\">37<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Copp, Tara et al.. 2026. \u201cAnthropic\u2019s AI Tool Claude Central to U.S. Campaign in Iran, amid a Bitter Feud\u201d. (<)em(>)The Washington Post(<)\/em(>), 4 de mar\u00e7o. https:\/\/www.washingtonpost.com\/technology\/2026\/03\/04\/anthropic-ai-iran-campaign\/#selection-237.0-1028.0.<\/span> Ao combinar dados de vigil\u00e2ncia, fluxos de intelig\u00eancia e an\u00e1lises preditivas, esses sistemas permitem a r\u00e1pida identifica\u00e7\u00e3o e prioriza\u00e7\u00e3o de alvos em um teatro operacional de enorme escala, capacidade com a qual uma pot\u00eancia semiperif\u00e9rica fortemente sancionada como o Ir\u00e3 dificilmente poderia competir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A intensidade dos bombardeios tamb\u00e9m evidenciou que a campanha se expandia muito al\u00e9m de objetivos estritamente militares. A guerra come\u00e7ou em 28 de fevereiro com um ataque \u00e0 escola prim\u00e1ria Shajareh Tayyebeh, em Minab, que matou ao menos 170 pessoas\u2014a maioria meninas entre sete e doze anos\u2014, ofensiva que m\u00faltiplas investiga\u00e7\u00f5es independentes atribu\u00edram a um m\u00edssil Tomahawk fabricado nos EUA. As principais sider\u00fargicas do pa\u00eds foram amplamente atingidas, com Benjamin Netanyahu vangloriando-se de ter destru\u00eddo 70% da capacidade iraniana de produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7o, enquanto grandes empresas farmac\u00eauticas, incluindo a Tofigh Darou, nas proximidades de Teer\u00e3, tamb\u00e9m foram bombardeadas. A Universidade de Tecnologia Sharif\u2014principal institui\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e de engenharia do pa\u00eds\u2014, assim como centros de pesquisa da Universidade Shahid Beheshti, da Universidade de Ci\u00eancia e Tecnologia do Ir\u00e3 e de pelo menos outras trinta institui\u00e7\u00f5es de ensino superior foram atingidos. A ponte suspensa B1, pr\u00f3xima a Teer\u00e3, foi bombardeada enquanto fam\u00edlias civis se reuniam nas proximidades para celebrar o Sizdah Bedar\u2014tradicional festival que marca o d\u00e9cimo terceiro dia do ano novo persa, no in\u00edcio da primavera, quando as fam\u00edlias saem de casa para passar o dia ao ar livre\u2014, matando ao menos oito pessoas. Em Teer\u00e3, o Pal\u00e1cio Golestan, o Grande Bazar, o Hospital Gandhi e diversos bairros residenciais tamb\u00e9m foram atingidos. Tomados em conjunto, esses ataques revelam uma campanha sistem\u00e1tica contra as bases materiais da vida econ\u00f4mica, social e cient\u00edfica iraniana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante muitos anos, o Ir\u00e3 buscou justamente evitar esse tipo de confronto. Por algum tempo, conseguiu faz\u00ea-lo. Mas o enfraquecimento do Eixo da Resist\u00eancia, a crescente assimetria tecnol\u00f3gica entre o Ir\u00e3 e o bloco de poder EUA-Israel e a vulnerabilidade estrutural de uma postura de limiar nuclear sem uma capacidade dissuas\u00f3ria plenamente operacional acabaram deixando a Rep\u00fablica Isl\u00e2mica exposta. O pa\u00eds n\u00e3o foi capaz de neutralizar as imensas capacidades militares, financeiras e tecnol\u00f3gicas de um sistema imperial determinado a impor sua vontade. Ainda assim, o confronto exp\u00f4s tanto os limites da estrat\u00e9gia de dissuas\u00e3o iraniana quanto os limites da pr\u00f3pria campanha imperial dirigida contra o pa\u00eds. Diante do que a lideran\u00e7a iraniana corretamente interpretou como um ataque existencial\u2014cujos objetivos declarados inclu\u00edam a mudan\u00e7a de regime e a elimina\u00e7\u00e3o de seu alto comando\u2014o Ir\u00e3 abandonou a conten\u00e7\u00e3o calculada que havia marcado sua postura durante d\u00e9cadas e passou a apostar na escalada horizontal, atacando bases americanas ao longo do Golfo, mirando infraestruturas energ\u00e9ticas regionais e fechando o Estreito de Ormuz. O que se seguiu n\u00e3o foi a r\u00e1pida capitula\u00e7\u00e3o esperada por Washington e Tel Aviv, mas um embate mais prolongado, custoso e consideravelmente mais dif\u00edcil de resolver.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar de toda a bravata e ret\u00f3rica belicosa, a Rep\u00fablica Isl\u00e2mica n\u00e3o colapsou. Ap\u00f3s d\u00e9cadas de dificuldades induzidas por san\u00e7\u00f5es e de press\u00e3o externa cont\u00ednua, n\u00e3o houve um levante das massas em resposta aos ataques. Em vez disso, o Estado iraniano demonstrou um not\u00e1vel grau de resili\u00eancia institucional, com a Guarda Revolucion\u00e1ria e seus aliados recusando-se a ceder \u00e0s exig\u00eancias americanas e aparentemente transferindo o poder, ap\u00f3s a morte do aiatol\u00e1 Ali Khamenei, para uma gera\u00e7\u00e3o mais jovem, em alguns casos mais militante, em outros mais criativa, de dirigentes.<a data-contents=\"Sadeghi-Boroujerdi, Eskandar. 2026. \u201cWar and Succession\u201d. Phenomenal World, 18 de mar\u00e7o.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-38\" href=\"#footnote-list-38\">38<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Sadeghi-Boroujerdi, Eskandar. 2026. \u201cWar and Succession\u201d. Phenomenal World, 18 de mar\u00e7o.<\/span> O \u201cmodelo venezuelano\u201d de decapita\u00e7\u00e3o da lideran\u00e7a seguido pela instala\u00e7\u00e3o de um sucessor complacente simplesmente n\u00e3o se materializou no Ir\u00e3, cujo aparato de seguran\u00e7a passou anos se preparando precisamente para esse tipo de ofensiva e disp\u00f5e de estruturas capilarizadas de comando e mecanismos de prote\u00e7\u00e3o contra golpes capazes de assegurar sua reprodu\u00e7\u00e3o institucional.<a data-contents=\"Valadbaygi, Kayhan. 2026. \u201cA ilus\u00e3o da Venezuela\u201d (<)em(>)Phenomenal World(<)\/em(>), 12 de mar\u00e7o.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-39\" href=\"#footnote-list-39\">39<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Valadbaygi, Kayhan. 2026. \u201cA ilus\u00e3o da Venezuela\u201d (<)em(>)Phenomenal World(<)\/em(>), 12 de mar\u00e7o.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo nessas circunst\u00e2ncias profundamente desfavor\u00e1veis, Teer\u00e3 continuou empregando sua estrat\u00e9gia de dissuas\u00e3o assim\u00e9trica. Os m\u00edsseis e os drones continuam sendo os principais meios pelos quais o pa\u00eds \u00e9 capaz de impor custos aos seus agressores e calibrar o n\u00edvel de escalada em toda a regi\u00e3o, amea\u00e7ando a infraestrutura energ\u00e9tica, as instala\u00e7\u00f5es militares e as redes log\u00edsticas de\u00a0 Estados do Golfo P\u00e9rsico que servem como bases avan\u00e7adas do poder americano. For\u00e7as iranianas passaram a atingir n\u00e3o apenas alvos militares, mas tamb\u00e9m embaixadas, instala\u00e7\u00f5es energ\u00e9ticas e infraestrutura digital, utilizando a desorganiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica como instrumento de dissuas\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais decisivamente, o Ir\u00e3 passou a exercer seu controle <em>de facto<\/em> sobre o Estreito de Ormuz, uma art\u00e9ria cr\u00edtica de circula\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas para o abastecimento energ\u00e9tico global, mas tamb\u00e9m para o transporte de diversas commodities industriais. Enquanto pa\u00edses do Golfo reduziram a produ\u00e7\u00e3o ou buscaram rotas alternativas, as exporta\u00e7\u00f5es iranianas foram mantidas, em alguns casos at\u00e9 mesmo excedendo os n\u00edveis pr\u00e9-guerra, ao passo que o tr\u00e1fego de petroleiros de pa\u00edses n\u00e3o alinhados a Teer\u00e3 passou a ser bloqueado pela amea\u00e7a de ataques com m\u00edsseis e drones. O resultado \u00e9 uma forma altamente seletiva de disrup\u00e7\u00e3o, na qual os fluxos n\u00e3o s\u00e3o interrompidos totalmente, mas filtrados de acordo com alinhamentos pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os efeitos se estendem muito al\u00e9m do petr\u00f3leo e do g\u00e1s. Como destacam an\u00e1lises recentes, o Estreito constitui um corredor vital para produtos qu\u00edmicos, metais e fertilizantes, produzindo efeitos em cascata sobre setores que v\u00e3o da ind\u00fastria de semicondutores e da manufatura avan\u00e7ada at\u00e9 a agricultura e a produ\u00e7\u00e3o de alimentos. Interrup\u00e7\u00f5es nas exporta\u00e7\u00f5es de h\u00e9lio do Catar, por exemplo, amea\u00e7am a fabrica\u00e7\u00e3o de semicondutores e equipamentos de diagn\u00f3stico por imagem, enquanto restri\u00e7\u00f5es ao transporte de enxofre e de seus derivados afetam tanto a produ\u00e7\u00e3o de chips quanto a extra\u00e7\u00e3o de minerais cr\u00edticos utilizados em baterias. De forma ainda mais significativa, interrup\u00e7\u00f5es no fluxo de ureia e am\u00f4nia, insumos essenciais para fertilizantes nitrogenados, podem reduzir a produtividade agr\u00edcola e elevar os pre\u00e7os dos alimentos por todo o planeta.<a data-contents=\"Conselho Editorial. 2026. \u201cThe Other Strait of Hormuz Shock\u201d.\u00a0 (<)em(>)Financial Times(<)\/em(>), 25 de mar\u00e7o.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-40\" href=\"#footnote-list-40\">40<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Conselho Editorial. 2026. \u201cThe Other Strait of Hormuz Shock\u201d.\u00a0 (<)em(>)Financial Times(<)\/em(>), 25 de mar\u00e7o.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso representa uma not\u00e1vel invers\u00e3o da l\u00f3gica que orientou a pol\u00edtica dos EUA nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas. Enquanto os Estados Unidos utilizaram seu controle sobre redes financeiras, jurisdi\u00e7\u00f5es legais e gargalos infraestruturais para regular o acesso iraniano aos mercados globais, o Ir\u00e3 agora explora sua posi\u00e7\u00e3o em um ponto de estrangulamento f\u00edsico da economia mundial para impor custos a seus advers\u00e1rios. O que antes constitu\u00eda uma arquitetura de constrangimento assim\u00e9trico adquiriu, em condi\u00e7\u00f5es de conflito aberto, um car\u00e1ter mais rec\u00edproco, ainda que profundamente desigual. As mesmas redes de interdepend\u00eancia\u00a0 que possibilitaram a proje\u00e7\u00e3o do poder econ\u00f4mico americano est\u00e3o agora expostas a disrup\u00e7\u00f5es em seus n\u00f3s materiais: rotas mar\u00edtimas, fluxos de commodities e corredores log\u00edsticos. A \u201cinterdepend\u00eancia armada\u201d j\u00e1 n\u00e3o se restringe ao dom\u00ednio das finan\u00e7as e da informa\u00e7\u00e3o, mas se estende tamb\u00e9m \u00e0 circula\u00e7\u00e3o de energia, mat\u00e9rias-primas e insumos industriais. Os instrumentos do imp\u00e9rio n\u00e3o foram neutralizados, mas parcialmente invertidos, revelando que at\u00e9 mesmo sistemas altamente assim\u00e9tricos de integra\u00e7\u00e3o global podem gerar formas compensat\u00f3rias de alavancagem coercitiva. Essas din\u00e2micas tamb\u00e9m apontam para uma tens\u00e3o estrutural na pr\u00f3pria arquitetura da interdepend\u00eancia armada. O uso excessivo da coer\u00e7\u00e3o financeira baseada no d\u00f3lar passou a produzir exatamente as rea\u00e7\u00f5es que buscava impedir, levando Estados-alvo\u2014e, cada vez mais, aliados dos pr\u00f3prios EUA\u2014a buscar sistemas alternativos de pagamento, novos arranjos monet\u00e1rios e circuitos log\u00edsticos paralelos.<a data-contents=\"Daniel Davies and Henry Farrell, \u201cThe US Dollar System as a Source of International Disorder,\u201d (<)em(>)Global (Dis)Order International Policy Programme(<)\/em(>), janeiro de 2026.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-41\" href=\"#footnote-list-41\">41<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Daniel Davies and Henry Farrell, \u201cThe US Dollar System as a Source of International Disorder,\u201d (<)em(>)Global (Dis)Order International Policy Programme(<)\/em(>), janeiro de 2026.<\/span> A eros\u00e3o da centralidade do d\u00f3lar ainda n\u00e3o atingiu um limiar cr\u00edtico, mas o ciclo de retroalimenta\u00e7\u00e3o entre escalada coercitiva e evas\u00e3o sist\u00eamica j\u00e1 est\u00e1 em movimento, e a explora\u00e7\u00e3o iraniana do Estreito de Ormuz constitui, at\u00e9 aqui, sua express\u00e3o f\u00edsica mais dram\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Imp\u00e9rio h\u00edbrido<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A trajet\u00f3ria do Ir\u00e3 sob press\u00e3o dos EUA n\u00e3o pode ser compreendida atrav\u00e9s das dicotomias habituais entre resili\u00eancia e colapso, vit\u00f3ria e derrota. A Rep\u00fablica Isl\u00e2mica nem foi incorporada a uma ordem regional liderada pelos EUA, nem acabou derrubada. Como, ent\u00e3o, avaliar os resultados do conflito neste momento? Agora que o Ir\u00e3 foi finalmente empurrado para a luta existencial que passou d\u00e9cadas tentando evitar, tudo indica que o longo processo de fortalecimento conduzido contra a campanha EUA-Israel ofereceu ao pa\u00eds resili\u00eancia suficiente para sobreviver \u00e0 decapita\u00e7\u00e3o de sua lideran\u00e7a pol\u00edtica e militar. Seja qual for o desfecho, a guerra n\u00e3o cumpriu a promessa fundamental de que a combina\u00e7\u00e3o entre desgaste econ\u00f4mico e bombardeio a\u00e9reo produziria um r\u00e1pido colapso do regime. A Epic Fury ficou aqu\u00e9m de seus objetivos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda assim, a sobreviv\u00eancia de Teer\u00e3 diante da ofensiva EUA-Israel est\u00e1 longe de representar um sucesso estrat\u00e9gico. Embora o Ir\u00e3 seja capaz de projetar poder consider\u00e1vel e impor danos reais a seus advers\u00e1rios, n\u00e3o disp\u00f5e da for\u00e7a material e institucional necess\u00e1ria para disputar qualquer forma de hegemonia regional, limita\u00e7\u00e3o agravada pela aus\u00eancia do elemento de dissuas\u00e3o nuclear e pela intensidade da inger\u00eancia imperial. Sua condi\u00e7\u00e3o atual \u00e9 a de resist\u00eancia sitiada. O Ir\u00e3 pode continuar resistindo \u00e0 ordem dominada pelos EUA, tanto no plano global quanto regional, mas essa resist\u00eancia imp\u00f5e custos imensos \u00e0 pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o e \u00e0 regi\u00e3o como um todo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Ir\u00e3 oferece hoje um retrato claro da vers\u00e3o contempor\u00e2nea do poder imperial americano. Ele j\u00e1 n\u00e3o depende necessariamente de ocupa\u00e7\u00e3o territorial ou tutela pol\u00edtica formal. Em vez de uma estrat\u00e9gia \u00fanica e uniforme, recorre a um amplo repert\u00f3rio de m\u00e9todos\u2014da exclus\u00e3o financeira ao ataque militar em larga escala\u2014concebidos para se refor\u00e7ar mutuamente na degrada\u00e7\u00e3o, fragmenta\u00e7\u00e3o e disciplinamento de Estados que se recusam \u00e0 subordina\u00e7\u00e3o. Se um pa\u00eds n\u00e3o pode ser plenamente assimilado \u00e0 esfera imperial, ao menos pode ser transformado em um espa\u00e7o de instabilidade e regress\u00e3o do desenvolvimento cr\u00f4nicas. A destrui\u00e7\u00e3o da infraestrutura nacional iraniana, de grandes sider\u00fargicas e complexos petroqu\u00edmicos \u00e0 ind\u00fastria farmac\u00eautica, passando por importantes centros de pesquisa do pa\u00eds, aponta para uma l\u00f3gica mais ampla de acumula\u00e7\u00e3o destrutiva e subdesenvolvimento induzido que \u00e9 cada vez mais central ao exerc\u00edcio contempor\u00e2neo do poder imperial, sustentado por uma economia de guerra permanente e, em certos momentos, articulado em termos explicitamente coloniais.<a data-contents=\"Esse ponto \u00e9 inspirado no trabalho seminal de Sara Roy sobre \u201cdesdesenvolvimento\u201d, que, por sua vez, dialoga e se apoia na longa e influente tradi\u00e7\u00e3o da teoria da depend\u00eancia, particularmente no que diz respeito \u00e0 rela\u00e7\u00e3o colonial de Israel com Gaza Strip. Ver Sara Roy, \u201cThe Gaza Strip: A Case of Economic De-Development\u201d, (<)em(>)Journal of Palestine Studies(<)\/em(>) 17, n\u00ba 1 (1987): 56\u201388. O argumento mais amplo acerca da destrui\u00e7\u00e3o como fun\u00e7\u00e3o sist\u00eamica da acumula\u00e7\u00e3o imperial inspira-se, em parte, na an\u00e1lise de Paul Baran sobre militarismo e desperd\u00edcio no capitalismo monopolista, especialmente em sua interpreta\u00e7\u00e3o de como os gastos militares e a economia de guerra permanente servem para absorver excedentes ao mesmo tempo em que sustentam as condi\u00e7\u00f5es coercitivas da extra\u00e7\u00e3o imperial. Ver The Political Economy of Growth (Monthly Review Press, 1957) e Monopoly Capital (Monthly Review Press, 1966).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-42\" href=\"#footnote-list-42\">42<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Esse ponto \u00e9 inspirado no trabalho seminal de Sara Roy sobre \u201cdesdesenvolvimento\u201d, que, por sua vez, dialoga e se apoia na longa e influente tradi\u00e7\u00e3o da teoria da depend\u00eancia, particularmente no que diz respeito \u00e0 rela\u00e7\u00e3o colonial de Israel com Gaza Strip. Ver Sara Roy, \u201cThe Gaza Strip: A Case of Economic De-Development\u201d, (<)em(>)Journal of Palestine Studies(<)\/em(>) 17, n\u00ba 1 (1987): 56\u201388. O argumento mais amplo acerca da destrui\u00e7\u00e3o como fun\u00e7\u00e3o sist\u00eamica da acumula\u00e7\u00e3o imperial inspira-se, em parte, na an\u00e1lise de Paul Baran sobre militarismo e desperd\u00edcio no capitalismo monopolista, especialmente em sua interpreta\u00e7\u00e3o de como os gastos militares e a economia de guerra permanente servem para absorver excedentes ao mesmo tempo em que sustentam as condi\u00e7\u00f5es coercitivas da extra\u00e7\u00e3o imperial. Ver The Political Economy of Growth (Monthly Review Press, 1957) e Monopoly Capital (Monthly Review Press, 1966).<\/span> A amea\u00e7a de Donald Trump de bombardear o Ir\u00e3 \u201cde volta \u00e0 Idade da Pedra, onde eles pertencem\u201d n\u00e3o \u00e9 uma aberra\u00e7\u00e3o, mas uma express\u00e3o brutal dessa l\u00f3gica mais profunda. H\u00edbrida em sua forma, cumulativa em seus efeitos e totalizante em seu alcance, a guerra imperial contempor\u00e2nea n\u00e3o se limita ao campo de batalha: ela se estende ao banco, ao porto, \u00e0 refinaria, ao hospital, ao lar e ao sistema de pagamentos. O processo em duas etapas permanece notavelmente consistente: primeiro sufocar, depois destruir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda assim, os efeitos dessa estrat\u00e9gia est\u00e3o longe de ser lineares ou plenamente control\u00e1veis. A campanha EUA-Israel imp\u00f4s danos imensos \u00e0 base industrial iraniana e custos severos \u00e0s classes m\u00e9dias e populares do pa\u00eds, degradando as perspectivas de longo prazo para o desenvolvimento nacional, mas n\u00e3o produziu a r\u00e1pida capitula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que esse tipo de press\u00e3o supostamente deveria provocar. Em vez disso, exp\u00f4s os limites da escalada coercitiva em um contexto estruturado pela interdepend\u00eancia. Mesmo continuando a operar atrav\u00e9s da destrui\u00e7\u00e3o e da domina\u00e7\u00e3o, o poder imperial encontrou dificuldades para converter for\u00e7a esmagadora em resultados pol\u00edticos decisivos, produzindo um equil\u00edbrio muito mais inst\u00e1vel e contestado do que seus formuladores pareciam antecipar. A arquitetura mais ampla da coer\u00e7\u00e3o baseada no d\u00f3lar enfrenta um conjunto distinto, embora relacionado, de limites. O controle exercido pelo Ir\u00e3 sobre o Estreito de Ormuz oferece uma ilustra\u00e7\u00e3o particularmente condensada dessa din\u00e2mica: a mesma interdepend\u00eancia que tornou o isolamento financeiro t\u00e3o eficaz tamb\u00e9m criou vulnerabilidades f\u00edsicas e econ\u00f4micas que um advers\u00e1rio suficientemente determinado \u00e9 capaz de explorar. A reimperializa\u00e7\u00e3o, ao que tudo indica, carrega suas pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A guerra dos EUA e de Israel contra o Ir\u00e3 reabriu uma quest\u00e3o incontorn\u00e1vel desde o in\u00edcio do genoc\u00eddio em Gaza: como compreender a atual reconfigura\u00e7\u00e3o do poder imperial na \u00c1sia Ocidental? Analogias com a diplomacia das canhoneiras do s\u00e9culo XIX podem capturar o aspecto teatral da agress\u00e3o, mas obscurecem seu car\u00e1ter hist\u00f3rico e institucional. 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