{"id":30177,"date":"2026-05-29T00:00:00","date_gmt":"2026-05-29T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/?p=30177"},"modified":"2026-05-29T03:28:58","modified_gmt":"2026-05-29T03:28:58","slug":"o-estado-e-sua-classe-trabalhadora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/o-estado-e-sua-classe-trabalhadora\/","title":{"rendered":"O Estado e sua classe trabalhadora"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em abril de 1989, movimentos pr\u00f3-democracia eclodiram por toda a China, um fen\u00f4meno at\u00e9 hoje pouco compreendido. Nas narrativas convencionais, intelectuais liberais e estudantes universit\u00e1rios de elite s\u00e3o frequentemente retratados como protagonistas principais, mas a verdade \u00e9 que milh\u00f5es de oper\u00e1rios e trabalhadores urbanos tamb\u00e9m participaram da mobiliza\u00e7\u00e3o, especialmente nas semanas finais. Inicialmente, muitos deles foram \u00e0s ruas apoiar os estudantes em greve de fome, mas logo come\u00e7aram a articular suas pr\u00f3prias concep\u00e7\u00f5es de democracia, defendendo a substitui\u00e7\u00e3o do sistema burocr\u00e1tico pela autogest\u00e3o dos trabalhadores. Criaram, nos locais de trabalho, organiza\u00e7\u00f5es independentes e democraticamente geridas, que passaram a publicar panfletos acusando a \u201cburocracia ditatorial stalinista\u201d de alimentar a espiral inflacion\u00e1ria e defendendo que a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o era colocar o controle sobre os bens de consumo nas m\u00e3os de seus pr\u00f3prios produtores. A ret\u00f3rica misturava o discurso da Revolu\u00e7\u00e3o Cultural com refer\u00eancias a v\u00e1rias outras revoltas hist\u00f3ricas. Um dos panfletos mais conhecidos convocava as massas a \u201ctomar as Bastilhas do s\u00e9culo XX\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre meados de maio e o in\u00edcio de junho daquele ano, esses setores da classe trabalhadora estavam na vanguarda das mobiliza\u00e7\u00f5es. Com a declara\u00e7\u00e3o da lei marcial e a marcha de regimentos militares em dire\u00e7\u00e3o a Pequim, um grande n\u00famero de cidad\u00e3os comuns se aglomerou nos arredores da cidade para impedir que as mobiliza\u00e7\u00f5es fossem suprimidas. Ergueram barricadas, formaram correntes humanas e levaram \u00e1gua e comida aos soldados, implorando que baixassem as armas. Protomil\u00edcias armadas foram formadas para monitorar o paradeiro dos militares e garantir a provis\u00e3o de servi\u00e7os p\u00fablicos cr\u00edticos. Oper\u00e1rios organizaram comit\u00eas de produ\u00e7\u00e3o, greves e sabotagens. Circularam rumores de uma greve geral. Pequim quase se tornou um territ\u00f3rio aut\u00f4nomo, n\u00e3o muito diferente dos sovietes auto-organizados e armados de Petrogrado nos meses entre as revolu\u00e7\u00f5es de fevereiro e outubro. Quando, na noite de 3 de junho, o Partido deu in\u00edcio \u00e0 rodada final de repress\u00e3o aos movimentos, os trabalhadores reagiram com pedras, pneus incendiados, coquet\u00e9is molotov e com seus pr\u00f3prios corpos. Centenas sacrificaram suas vidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Recuperar o car\u00e1ter oper\u00e1rio dos movimentos de 1989 lan\u00e7a uma nova luz sobre a hist\u00f3ria recente da China e modifica nossa compreens\u00e3o da conjuntura atual do pa\u00eds. Aquele momento marcou uma ruptura fundamental entre duas modalidades de pol\u00edtica de classes na China p\u00f3s-Mao, especialmente no que diz respeito \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre o Estado-partido e a classe trabalhadora industrial. Anteriormente, o compromisso pol\u00edtico oficial do Estado-partido com a manuten\u00e7\u00e3o do status social \u201csoberano\u201d dos trabalhadores, somado ao arranjo institucional da propriedade p\u00fablica socialista, tornava a classe trabalhadora uma for\u00e7a pol\u00edtico-econ\u00f4mica incontorn\u00e1vel, capaz de disputar o significado de \u201csocialismo\u201d em diversas dimens\u00f5es. Ap\u00f3s 1989, por\u00e9m, o Estado-partido mudou de rumo, desmantelando esses dois pilares da antiga ordem. Isso deu origem a uma nova classe trabalhadora industrial, muito mais pr\u00f3xima da imagem cl\u00e1ssica de um proletariado explorado em f\u00e1bricas diab\u00f3licas sob o chicote do mercado de trabalho e o despotismo dos interesses privados. Como se deu essa transi\u00e7\u00e3o? E de que maneira o processo de recomposi\u00e7\u00e3o de classes na China contempor\u00e2nea pode afetar as perspectivas de longo prazo dessa grande pot\u00eancia?<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Antes de 1989: trabalhadores indisciplinados, socialismo contestado<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s a morte de Mao Ts\u00e9-Tung, em 1976, a alta c\u00fapula da pol\u00edtica chinesa entrou em um per\u00edodo de disputa que resultou na ascens\u00e3o de Deng Xiaoping. Na tentativa de consolidar o apoio popular, a lideran\u00e7a do partido p\u00f3s-Mao reconheceu a import\u00e2ncia de angariar o consentimento dos trabalhadores industriais, considerados a \u201cclasse dominante\u201d na sociedade socialista. Dois aumentos salariais significativos foram implementados entre 1977 e 1979. O aparato de planejamento mitigou a \u00eanfase excessiva na acumula\u00e7\u00e3o de capital industrial, incentivando as f\u00e1bricas a destinar mais fundos para atender \u00e0s necessidades de consumo e subsist\u00eancia dos trabalhadores. Por um per\u00edodo, a lideran\u00e7a do Partido apresentou uma face reformista esclarecida, apoiando a reformula\u00e7\u00e3o cr\u00edtica do socialismo chin\u00eas\u2014o que, por sua vez, inspirou os trabalhadores comuns a ampliar horizontes, criticando o Estado-partido de maneiras antes impens\u00e1veis e imaginando futuros socialistas alternativos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O interesse pelo modelo de socialismo heterodoxo da Iugosl\u00e1via come\u00e7ou a transbordar dos c\u00edrculos intelectuais e de planejamento para os trabalhadores comuns. Enquanto o primeiro grupo buscava li\u00e7\u00f5es sobre como construir o socialismo de mercado, o segundo estava mais entusiasmado com o que via como um experimento radical de democracia oper\u00e1ria. No in\u00edcio de 1981, trabalhadores da F\u00e1brica de Caldeiras de Wuhan argumentaram que um comit\u00ea de gest\u00e3o eleito pelos trabalhadores, em vez da c\u00e9lula do Partido, deveria ser o \u00f3rg\u00e3o m\u00e1ximo de decis\u00e3o da empresa, perspectiva que ganhou for\u00e7a gra\u00e7as \u00e0 onda de greves e \u00e0 atividade sindical independente que varreu a Pol\u00f4nia no in\u00edcio da d\u00e9cada. Em poucas semanas, movimentos de base de trabalhadores chineses j\u00e1 faziam refer\u00eancia ao \u201cincidente polon\u00eas\u201d e vislumbravam a possibilidade de p\u00f4r em pr\u00e1tica sua pr\u00f3pria vers\u00e3o. Entre o final de 1980 e meados de 1981, <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/003935929090011A\">greves que exigiam sindicatos independentes<\/a> eclodiram em grandes cidades industriais, incluindo Xangai, Wuhan, Shenyang, Anshan, Harbin, Pequim, Chengdu e Taiyuan.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A lideran\u00e7a do Partido se contorceu para dar uma resposta. Sem a inten\u00e7\u00e3o de simplesmente tolerar que os trabalhadores conquistassem independ\u00eancia pol\u00edtica, mas incapaz de romper o v\u00ednculo socialista entre o Estado e a classe trabalhadora, acabou adotando uma estrat\u00e9gia de concess\u00e3o: a autonomia das empresas p\u00fablicas para administrar seus pr\u00f3prios assuntos financeiros foi ampliada e as institui\u00e7\u00f5es de gest\u00e3o oper\u00e1ria democr\u00e1tica foram fortalecidas, embora ainda dentro de par\u00e2metros que preservavam a autoridade das c\u00e9lulas do Partido. Os anos seguintes ficaram conhecidos como a \u201c<a href=\"https:\/\/academic.oup.com\/book\/35011\/chapter\/298764209\">era de ouro<\/a>\u201d dos Congressos de Quadros e Oper\u00e1rios (SWC ou <em>Staff and Workers\u2019 Congress, <\/em>em ingl\u00eas), \u00f3rg\u00e3os representativos que, desde 1949, todas as grandes empresas chinesas s\u00e3o obrigadas a formar. Muitos trabalhadores deles se utilizaram para gerir coletivamente quest\u00f5es pertinentes \u00e0 subsist\u00eancia material: distribui\u00e7\u00e3o de moradias, aloca\u00e7\u00e3o de oportunidades de emprego para seus filhos, sal\u00e1rios e b\u00f4nus, al\u00e9m da melhoria de servi\u00e7os de bem-estar, como cantinas, ber\u00e7\u00e1rios e cl\u00ednicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As pr\u00e1ticas de democracia oper\u00e1ria proporcionadas pelo contexto de abertura pol\u00edtica do in\u00edcio da era p\u00f3s-Mao tiveram um impacto material profundo. Durante uma reuni\u00e3o trimestral do Congresso de Quadros e Oper\u00e1rios na 12\u00aa F\u00e1brica de Algod\u00e3o de Xangai, representantes levantaram uma quest\u00e3o que n\u00e3o estava na pauta pr\u00e9-aprovada da reuni\u00e3o: a superlota\u00e7\u00e3o e m\u00e1 ventila\u00e7\u00e3o das casas de banho coletivas das trabalhadoras. Eram espa\u00e7os t\u00e3o apertados que, nos hor\u00e1rios de pico, cinco ou seis delas precisavam se espremer sob o mesmo chuveiro. Havia registros de oper\u00e1rias que desmaiavam nos vesti\u00e1rios. A lideran\u00e7a da f\u00e1brica sabia disso h\u00e1 anos, mas n\u00e3o fazia nada a respeito por sentir-se obrigada a priorizar a produtividade em detrimento das condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Desta vez, por\u00e9m, o Congresso aprovou uma resolu\u00e7\u00e3o sobre a amplia\u00e7\u00e3o e o reparo da casa de banho feminina, convocando os gerentes ao palco para esclarecer suas a\u00e7\u00f5es. No fim das contas, o pr\u00e9dio acabou sendo reformado e ampliado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, a era de ouro n\u00e3o durou muito. Essas pr\u00e1ticas irritavam cada vez mais formuladores de pol\u00edticas convencidos de que elas distra\u00edam as empresas p\u00fablicas do enfrentamento de quest\u00f5es mais urgentes, como o aumento de produtividade, e contribu\u00edam para uma crise fiscal persistente. O agravamento do caos econ\u00f4mico na Iugosl\u00e1via fez com que as autoridades chinesas abrissem os olhos para o \u201clado sombrio\u201d da democracia oper\u00e1ria. Em meados de 1984, isso culminou na revers\u00e3o da pol\u00edtica estatal que marginalizou as institui\u00e7\u00f5es de democracia oper\u00e1ria e concentrou os poderes gerenciais nas m\u00e3os dos diretores das f\u00e1bricas. A lideran\u00e7a do Partido ainda tentava se equilibrar na corda bamba: mesmo contr\u00e1ria \u00e0 democratiza\u00e7\u00e3o dos locais de trabalho, n\u00e3o podia ser vista como traidora do princ\u00edpio de que a soberania da sociedade socialista residia nos trabalhadores. Embora o \u00edmpeto de disciplin\u00e1-los fosse evidente no conte\u00fado da nova pol\u00edtica, a reorienta\u00e7\u00e3o precisava ser disfar\u00e7ada quanto \u00e0 forma. Essa brecha deu aos trabalhadores novas oportunidades de engajamento em meios inovadores, sutis e frequentemente surpreendentes de ativismo oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso acarretou uma situa\u00e7\u00e3o contradit\u00f3ria. Em alguns lugares, as autoridades estatais<a href=\"https:\/\/www.cambridge.org\/core\/journals\/international-review-of-social-history\/article\/accidentally-emboldened-industrial-workers-between-democracy-and-despotism-on-the-shop-floor-in-wuhan-china-19841985\/C3996DD55A6EEF542F20378E3900F754\"> incentivaram as f\u00e1bricas a eleger oper\u00e1rios <\/a>para cargos de dire\u00e7\u00e3o antes de impor reformas que concentrariam o poder gerencial. O objetivo das vota\u00e7\u00f5es, amplamente perform\u00e1ticas e controladas desde cima, era demonstrar que a iminente concentra\u00e7\u00e3o de autoridade tinha apoio popular. No entanto, em muitos casos, os trabalhadores desvirtuaram os processos eleitorais ou deles se utilizaram para fazer avan\u00e7ar suas pautas. Alguns dos que tentaram concorrer \u00e0s elei\u00e7\u00f5es tiveram candidaturas impugnadas pelo Estado, mas mesmo assim conduziram campanhas \u201cil\u00edcitas\u201d, realizando discursos p\u00fablicos e distribuindo panfletos aos colegas, o que frequentemente for\u00e7ava as autoridades a lidar com os problemas apontados. Outros desobedeceram \u00e0s orienta\u00e7\u00f5es de votar nos candidatos apoiados pelo Estado ou pressionaram pela destitui\u00e7\u00e3o de diretores de f\u00e1brica alguns meses ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es, insistindo que, se os trabalhadores os elegeram, eles tamb\u00e9m deveriam ter o poder de derrub\u00e1-los.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda assim, apesar desses momentos de contesta\u00e7\u00e3o, a segunda metade dos anos 1980 viu uma tend\u00eancia geral de aumento do despotismo gerencial e de concentra\u00e7\u00e3o de poder nas empresas p\u00fablicas urbanas da China. Os diretores das f\u00e1bricas tendiam a impor decis\u00f5es unilaterais sem consultar os trabalhadores; alguns anularam resolu\u00e7\u00f5es aprovadas pelo Congresso de Quadros e Oper\u00e1rios, enquanto outros adotaram estilos gerenciais punitivos, impondo multas aos trabalhadores por n\u00e3o atingirem as metas ou at\u00e9 mesmo por fazerem pausas para ir ao banheiro. Quadros sindicais denunciavam que muitos diretores desenvolveram um \u201ch\u00e1bito autocr\u00e1tico\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Experimentar uma democracia oper\u00e1ria relativamente robusta por alguns anos e subitamente perder esse poder foi, naturalmente, doloroso para muitos trabalhadores, o que levou a uma grande intensifica\u00e7\u00e3o das tens\u00f5es internas nas f\u00e1bricas. Al\u00e9m das greves espor\u00e1dicas, o descontentamento com os diretores gerou v\u00e1rias formas de resist\u00eancia cotidiana, algumas bastante criativas. Os trabalhadores eximiam-se de suas obriga\u00e7\u00f5es, desperdi\u00e7avam tempo, fofocavam, empilhavam m\u00f3veis na porta do diretor da f\u00e1brica ou at\u00e9 mesmo faziam protestos \u201csujos\u201d<a data-contents=\"&nbsp;N.E.: Em ingl\u00eas, \u201cdirty protest\u201d \u00e9 uma express\u00e3o originada por epis\u00f3dios hist\u00f3ricos, em particular nas pris\u00f5es da Irlanda do Norte, em que protestos envolviam a recusa a utilizar banheiros, por exemplo, com os presos urinando e defecando nas pr\u00f3prias celas e espalhando excrementos pelas paredes.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-1\" href=\"#footnote-list-1\">1<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">&nbsp;N.E.: Em ingl\u00eas, \u201cdirty protest\u201d \u00e9 uma express\u00e3o originada por epis\u00f3dios hist\u00f3ricos, em particular nas pris\u00f5es da Irlanda do Norte, em que protestos envolviam a recusa a utilizar banheiros, por exemplo, com os presos urinando e defecando nas pr\u00f3prias celas e espalhando excrementos pelas paredes.<\/span> no pr\u00f3prio espa\u00e7o de trabalho. No final dos anos 1980, tornou-se mais comum que trabalhadores partissem para a agress\u00e3o f\u00edsica contra diretores, muitos dos quais passaram a contratar seguran\u00e7as. Conter esse comportamento indisciplinado era bastante dif\u00edcil, tanto porque a demiss\u00e3o era um processo muito complicado sob o regime de propriedade socialista quanto em raz\u00e3o do significativo poder ideol\u00f3gico que o status de \u201csoberania\u201d dos trabalhadores representava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1989, portanto, a pol\u00edtica de classe industrial da China havia se tornado imensamente problem\u00e1tica. As tens\u00f5es no ch\u00e3o de f\u00e1brica atingiram um ponto de ebuli\u00e7\u00e3o, posto que as expectativas dos trabalhadores, condicionadas por d\u00e9cadas de luta socialista, n\u00e3o se alinhavam com o novo equil\u00edbrio de poder nas instala\u00e7\u00f5es produtivas, que agora pendia a favor dos diretores. Essa reconfigura\u00e7\u00e3o criou condi\u00e7\u00f5es particularmente f\u00e9rteis para o ativismo pol\u00edtico de massas entre setores da classe trabalhadora. Durante as semanas fat\u00eddicas de maio e junho, o descontentamento dos trabalhadores com condi\u00e7\u00f5es cotidianas escalou para uma cr\u00edtica fundamental \u00e0 burocracia do Estado-partido e resultou na articula\u00e7\u00e3o de uma vis\u00e3o que poderia ser chamada de \u201c<a href=\"https:\/\/jacobin.com\/2019\/06\/tiananmen-square-worker-organization-socialist-democracy\">democracia socialista<\/a>\u201d. A capacidade da lideran\u00e7a do partido p\u00f3s-Mao de manter o consentimento da classe trabalhadora industrial desmoronou de uma vez por todas.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Depois de 1989: o ocaso do trabalhador socialista<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No rescaldo da crise que abalou fundamentalmente o Estado-partido, a elite pol\u00edtica entrou em um per\u00edodo de profunda reflex\u00e3o sobre como reformar a economia pol\u00edtica chinesa. Isso levantou, inevitavelmente, a quest\u00e3o de como reestruturar tamb\u00e9m a pol\u00edtica de classes no setor industrial do pa\u00eds. Alguns dirigentes\u2014retroativamente rotulados como&nbsp; \u201cconservadores\u201d\u2014propuseram a redu\u00e7\u00e3o da autonomia econ\u00f4mica local, a imposi\u00e7\u00e3o de cadeias burocr\u00e1ticas de comando na gest\u00e3o econ\u00f4mica em todos os n\u00edveis e o emprego rigoroso do aparato repressivo do Estado-partido para punir \u201cpequenos crimes econ\u00f4micos\u201d, um termo t\u00e3o amplo que poderia ser aplicado a praticamente qualquer coisa. Tais medidas envolveriam um regime de terror n\u00e3o muito diferente do sistema militarizado de gest\u00e3o pol\u00edtica e industrial <a href=\"https:\/\/www.cambridge.org\/core\/journals\/social-science-history\/article\/rebellion-and-repression-in-china-19661971\/B9161C3E01C2FC7D991F91E94963575D\">estabelecido entre 1969 e 1971 para conter as mobiliza\u00e7\u00f5es<\/a> explosivas dos rebeldes no in\u00edcio da Revolu\u00e7\u00e3o Cultural. Por\u00e9m, para al\u00edvio da elite dirigente chinesa, as transforma\u00e7\u00f5es da economia global abriram caminho para uma solu\u00e7\u00e3o muito menos custosa, tanto em termos pol\u00edticos quanto sociais: o desmantelamento do regime socialista de propriedade e a ado\u00e7\u00e3o, sem aspas, do capitalismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ascens\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es capitalistas de propriedade acelerou ap\u00f3s 1992, quando Deng Xiaoping <a href=\"https:\/\/online.ucpress.edu\/as\/article\/33\/8\/739\/23060\/Deng-Xiaoping-s-Southern-Tour-Elite-Politics-in\">fez uma campanha altamente simb\u00f3lica<\/a> e amplamente divulgada em apoio ao capital estrangeiro e privado pelas zonas econ\u00f4micas especiais do Sudeste da China. O Estado-partido revogou as pol\u00edticas que at\u00e9 ent\u00e3o restringiam a escala do investimento estrangeiro e o tamanho das empresas privadas. Aproveitando o baixo custo da m\u00e3o de obra e dos recursos naturais, o capital estrangeiro moveu opera\u00e7\u00f5es de manufatura em massa para a China, ao passo que grandes empresas nacionais cresceram rapidamente. Como resultado, novos polos industriais pipocaram pela costa do pa\u00eds, atraindo <a href=\"https:\/\/www.cambridge.org\/core\/journals\/china-quarterly\/article\/abs\/from-organized-dependence-to-disorganized-despotism-changing-labour-regimes-in-chinese-factories\/34DD74098878289FBD4FFD0F854100C3\">milh\u00f5es de trabalhadores migrantes das zonas rurais<\/a> em busca de emprego. Ao contr\u00e1rio de muitos trabalhadores urbanos dos anos 1980, que desfrutavam de uma robusta seguran\u00e7a empregat\u00edcia e enxergavam a si pr\u00f3prios como membros relevantes de suas comunidades, os trabalhadores migrantes n\u00e3o eram mais que mera for\u00e7a bra\u00e7al, contratada em uma rela\u00e7\u00e3o puramente salarial, submetida a um mercado de trabalho desp\u00f3tico e, na maioria das vezes, sem qualquer garantia de condi\u00e7\u00f5es decentes de trabalho e vida\u2014ou mesmo pagamentos de sal\u00e1rios em dia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os empregados de empresas p\u00fablicas tamb\u00e9m passaram por mudan\u00e7as dram\u00e1ticas nas d\u00e9cadas de 1990 e 2000. O Estado-partido lan\u00e7ou uma das mais significativas campanhas de privatiza\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, com a maioria das empresas sendo vendidas para seus antigos diretores ou investidores externos, muitas vezes por meio de pr\u00e1ticas obscuras de financiamento e valora\u00e7\u00e3o. As empresas que permaneceram parcialmente p\u00fablicas foram, na maior parte das vezes, reestruturadas como empresas de capital aberto, sujeitas \u00e0s expectativas de valoriza\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es impostas pelo mercado de capitais. Essas reformas provocaram ondas de demiss\u00f5es em massa. <a href=\"https:\/\/www.cambridge.org\/us\/universitypress\/subjects\/politics-international-relations\/political-economy\/chinese-worker-after-socialism?format=HB&amp;isbn=9780521898874\">Milh\u00f5es de trabalhadores perderam seus empregos<\/a>, benef\u00edcios sociais e senso de pertencimento comunit\u00e1rio. Os que se mantiveram empregados passaram a ter, em sua maioria, arranjos muito mais prec\u00e1rios, envolvendo terceiriza\u00e7\u00e3o e subcontrata\u00e7\u00e3o. Alguns dos demitidos se juntaram aos trabalhadores migrantes nas novas f\u00e1bricas de superexplora\u00e7\u00e3o [<em>sweatshops<\/em>] da China costeira; outros lutaram para sobreviver nas economias em colapso de suas cidades natais, tornando-se diaristas, vendedores ambulantes, profissionais do sexo, catadores e pedintes. Embora o Estado-partido tenha conseguido, em grande medida, impor esse programa sem recorrer \u00e0 for\u00e7a f\u00edsica, a nova pol\u00edtica produziu um imenso sofrimento social que os aparatos repressivos eventualmente teriam de conter.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De acordo com estat\u00edsticas oficiais, a propor\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho urbana empregada em empresas p\u00fablicas caiu de 82% em 1991 para 27% em 2005. Embora seja dif\u00edcil dizer exatamente como se chegou a esses n\u00fameros, n\u00e3o h\u00e1 como negar a transforma\u00e7\u00e3o profunda da classe trabalhadora industrial chinesa, tanto em sua composi\u00e7\u00e3o social quanto em seu car\u00e1ter pol\u00edtico. Embora os trabalhadores chineses nunca tenham realmente alcan\u00e7ado a condi\u00e7\u00e3o de \u201csoberania\u201d nos anos 1980, o compromisso oficial do Estado-partido com esse ideal permitiu que imaginassem novas possibilidades pol\u00edticas e lutassem por sua concretiza\u00e7\u00e3o. Desde a d\u00e9cada de 1990, em contraste, o discurso oficial da ind\u00fastria e as pol\u00edticas p\u00fablicas trataram os trabalhadores como pouco mais do que vendedores de m\u00e3o de obra em troca de sal\u00e1rio, uma perspectiva positivada <a href=\"https:\/\/www.cambridge.org\/core\/journals\/international-labor-and-working-class-history\/article\/changes-of-chinese-labor-policy-and-labor-legislation-in-the-context-of-market-transition\/6624ACDAA0C46B6E30C72E030470AD33\">pela Lei do Trabalho de 1995<\/a>. Sob este arranjo, o capital conseguiu manter o custo do trabalho em n\u00edveis artificialmente baixos, consolidando o status da China como a \u201c<em>sweatshop<\/em> do mundo\u201d por mais de duas d\u00e9cadas (embora a fuga do capital manufatureiro da China tenha acelerado desde o final da d\u00e9cada de 2010). O custo humano desse regime de trabalho pode ser observado em trag\u00e9dias como o inc\u00eandio na f\u00e1brica de brinquedos Zhili em 1993, que matou 87 pessoas, e a s\u00e9rie de suic\u00eddios cometidos por trabalhadores da f\u00e1brica Foxconn em Shenzhen ao longo de quatro meses de 2010.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os trabalhadores continuaram resistindo a essa configura\u00e7\u00e3o capitalista da pol\u00edtica de classes do setor industrial. <a href=\"https:\/\/www.ucpress.edu\/books\/against-the-law\/paper\">Pesquisas documentam<\/a> meticulosamente greves e protestos envolvendo tanto os trabalhadores que enfrentam demiss\u00f5es em processos de privatiza\u00e7\u00e3o de empresas quanto aqueles que demandam melhores condi\u00e7\u00f5es salariais e benef\u00edcios nas <em>sweatshops<\/em> privadas da costa chinesa. No entanto, o horizonte pol\u00edtico que orienta a imagina\u00e7\u00e3o e as estrat\u00e9gias de resist\u00eancia foi radicalmente alterado. A tradu\u00e7\u00e3o de queixas concretas em uma cr\u00edtica sistem\u00e1tica \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de trabalho e \u00e0 sociedade em geral tornou-se muito mais dif\u00edcil. Sem um arcabou\u00e7o institucional que garantisse seguran\u00e7a aos trabalhadores e reconhecesse oper\u00e1rios e diretores como membros mais ou menos iguais, ao menos formalmente, das comunidades de trabalho, a resist\u00eancia sindical tornou-se espor\u00e1dica e fragmentada. Conflitos no ch\u00e3o de f\u00e1brica, centrados no equil\u00edbrio de poder cotidiano entre trabalhadores e diretores, tornaram-se mais difusos. A classe trabalhadora n\u00e3o representa mais o tipo de amea\u00e7a pol\u00edtico-econ\u00f4mica \u00e0 elite dirigente que representava nos anos 1980.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Reavaliando a \u201creforma de mercado\u201d da China<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tanto na literatura acad\u00eamica quanto no imagin\u00e1rio popular\u2014na China e fora dela\u2014o conceito de \u201c<a href=\"https:\/\/www.routledge.com\/How-China-Escaped-Shock-Therapy-The-Market-Reform-Debate\/Weber\/p\/book\/9781032008493\">reforma de mercado<\/a>\u201d tem sido empregado para caracterizar a trajet\u00f3ria da economia pol\u00edtica chinesa na era p\u00f3s-Mao. De acordo com essa vers\u00e3o, a hist\u00f3ria da transi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da China foi de um sistema em que as atividades econ\u00f4micas eram conduzidas sob planejamento estatal, e comandadas de cima para baixo, para outro em que os agentes econ\u00f4micos ganharam maior liberdade para coordenar as opera\u00e7\u00f5es por meio de mecanismos de mercado: a passagem de uma \u201ceconomia planificada\u201d para uma \u201ceconomia de mercado\u201d. Neste paradigma, a tend\u00eancia mais evidente \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de mais esferas de atividade de mercado fora do controle estatal e, por isso, os objetos t\u00edpicos de an\u00e1lise s\u00e3o <a href=\"https:\/\/www.hup.harvard.edu\/books\/9780674050204\">comerciantes e empreendedores locais<\/a>, <a href=\"https:\/\/cup.columbia.edu\/book\/made-in-hong-kong\/9780231184854\/\">capitalistas<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.hup.harvard.edu\/books\/9780674971134\">especialistas<\/a> estrangeiros, <a href=\"https:\/\/cup.columbia.edu\/book\/markets-with-bureaucratic-characteristics\/9780231560467\/\">tecnocratas econ\u00f4micos<\/a>, entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, essa eleva\u00e7\u00e3o da \u201creforma de mercado\u201d \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de conceito-chave reduz a diferen\u00e7a significativa entre dois tipos de pol\u00edtica de classes industrial que surgiram na China p\u00f3s-Mao: o per\u00edodo indisciplinado pr\u00e9-1989 e o arranjo mais contido que se seguiu. Embora v\u00e1rias medidas das d\u00e9cadas de 1970, 1980, 1990 e 2000 possam ser designadas como reformas de mercado, elas operaram sob par\u00e2metros muito diferentes em termos de pol\u00edtica de classes e rela\u00e7\u00f5es de propriedade. Quanto a estas, a transforma\u00e7\u00e3o decisiva n\u00e3o foi simplesmente a expans\u00e3o da esfera de mercado, mas o rompimento dos la\u00e7os entre os trabalhadores industriais e os meios de produ\u00e7\u00e3o, que at\u00e9 ent\u00e3o podiam ser objeto de reivindica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em algum grau. Reconhecer a transi\u00e7\u00e3o descont\u00ednua entre essas duas modalidades de pol\u00edtica de classes no setor industrial demonstra que a hist\u00f3ria da reforma p\u00f3s-Mao e da ascens\u00e3o econ\u00f4mica da China foi desordenada e tumultuada, e n\u00e3o linear ou teleol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As implica\u00e7\u00f5es dessa diferencia\u00e7\u00e3o para a economia pol\u00edtica contempor\u00e2nea da China e sua posi\u00e7\u00e3o como pot\u00eancia mundial s\u00e3o imensas. Na \u00faltima d\u00e9cada, \u00e0 medida que o crescimento impulsionado pelas exporta\u00e7\u00f5es perdeu for\u00e7a tanto em raz\u00e3o das guerras comerciais quanto da concorr\u00eancia de outros pa\u00edses do Sul global, onde a m\u00e3o de obra \u00e9 ainda mais barata, a economia chinesa come\u00e7ou a desacelerar. Muitos analistas, na China e no mundo angl\u00f3fono, <a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/analysis\/repressing-labor-empowering-china\/\">argumentam<\/a> que a estrat\u00e9gia de crescimento do pa\u00eds deve mudar de rumo e focar no consumo interno. No entanto, apesar do compromisso formal do governo chin\u00eas de impulsionar o consumo interno e de medidas pol\u00edticas um tanto cosm\u00e9ticas, como a distribui\u00e7\u00e3o de cupons de desconto e vale-presentes, a <a href=\"https:\/\/thediplomat.com\/2025\/02\/the-big-myth-about-chinas-low-consumption\/\">demanda interna continua fraca<\/a>. O processo hist\u00f3rico descrito aqui nos ajuda a entender esse dilema. O decl\u00ednio radical do poder dos trabalhadores chineses desde a d\u00e9cada de 1990 significa que a for\u00e7a pol\u00edtica que poderia ter resistido aos interesses da elite do capitalismo de Estado\u2014pressionando o governo a implementar mecanismos robustos e abrangentes de redistribui\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica\u2014n\u00e3o existe mais. Em vez disso, vemos uma combina\u00e7\u00e3o viciosa entre um regime de trabalho altamente repressivo e um consumo dom\u00e9stico insuficiente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em raz\u00e3o da desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, para manter as margens de lucro, in\u00fameras empresas intensificaram o ritmo de trabalho e espremeram ainda mais os custos. N\u00edveis cada vez mais insuport\u00e1veis de explora\u00e7\u00e3o, precariedade e mobilidade social descendente se disseminaram tanto nos setores oper\u00e1rios quanto nos gerenciais. Isso acarretou um not\u00e1vel aumento do sentimento anticapitalista nos \u00faltimos anos, acompanhado de uma nostalgia pelo passado socialista da China, especialmente entre estudantes e jovens trabalhadores que n\u00e3o viveram aquele per\u00edodo. No entanto, os trabalhadores chineses ainda carecem de canais institucionais para dar voz \u00e0s suas demandas coletivas, \u00e0 medida que o espa\u00e7o para a organiza\u00e7\u00e3o sindical continua a diminuir sob o governo de Xi Jinping. Essa contradi\u00e7\u00e3o entre um aumento no antagonismo de classe e a aus\u00eancia de um meio para express\u00e1-lo pode ser dif\u00edcil de conter. A transforma\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de classes industrial na China na virada dos anos 1990 continua a moldar os desafios do pa\u00eds at\u00e9 hoje.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em abril de 1989, movimentos pr\u00f3-democracia eclodiram por toda a China, um fen\u00f4meno at\u00e9 hoje pouco compreendido. 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