{"id":30151,"date":"2026-05-29T00:00:00","date_gmt":"2026-05-29T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/?p=30151"},"modified":"2026-05-29T12:18:46","modified_gmt":"2026-05-29T12:18:46","slug":"dominancia-do-dolar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/dominancia-do-dolar\/","title":{"rendered":"A domin\u00e2ncia do d\u00f3lar"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos pilares centrais da ordem global nos \u00faltimos setenta anos tem sido a lideran\u00e7a econ\u00f4mica estadunidense e o uso do d\u00f3lar como principal meio de troca, reserva de valor e unidade de conta do sistema internacional. Essa fun\u00e7\u00e3o global da moeda nunca esteve isenta de dificuldades.  Desde o fim de Bretton Woods e o Choque Nixon, estudiosos como Robert Triffin e Susan Strange j\u00e1 apontavam os custos dom\u00e9sticos e internacionais da domin\u00e2ncia do d\u00f3lar. O debate foi reacendido ap\u00f3s a crise financeira global de 2008: enquanto alguns analistas alertavam que a crescente politiza\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar poderia impulsionar uma transi\u00e7\u00e3o gradual para um sistema monet\u00e1rio multipolar, outros continuavam enfatizando a for\u00e7a institucional da moeda e a aus\u00eancia de alternativas cr\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os recentes conflitos geopol\u00edticos apenas exacerbaram as d\u00favidas sobre o futuro da hegemonia dos EUA e de sua moeda. Lideran\u00e7as pol\u00edticas imprevis\u00edveis, guerras comerciais e a eclos\u00e3o de conflitos armados na Europa e no Oriente M\u00e9dio inauguraram uma nova era para o sistema global e alimentaram previs\u00f5es crescentes de desdolariza\u00e7\u00e3o. Tudo isso se acelerou no segundo mandato de Trump, que parece empenhado em abalar os fundamentos da centralidade do d\u00f3lar. O recuo em rela\u00e7\u00e3o aos mercados abertos, a pol\u00edtica fiscal err\u00e1tica, os confrontos ruidosos com o Federal Reserve e as amea\u00e7as de reduzir o pagamento sobre t\u00edtulos do Tesouro detidos por estrangeiros representam uma ruptura significativa de Washington com o status quo. Um ainda especulativo \u201c<a href=\"https:\/\/www.hudsonbaycapital.com\/documents\/FG\/hudsonbay\/research\/638199_A_Users_Guide_to_Restructuring_the_Global_Trading_System.pdf\" type=\"link\" id=\"https:\/\/www.hudsonbaycapital.com\/documents\/FG\/hudsonbay\/research\/638199_A_Users_Guide_to_Restructuring_the_Global_Trading_System.pdf\">Acordo de Mar-a-Lago<\/a>\u201d, concebido por Stephen Miran\u2014recentemente nomeado para o Conselho de Governadores do Fed\u2014, prop\u00f5e enfraquecer deliberadamente o d\u00f3lar como forma de impulsionar a ind\u00fastria dom\u00e9stica e reduzir d\u00e9ficits comerciais. Embora seja improv\u00e1vel que o plano venha a se concretizar, o simples fato de ele ter sido articulado por figuras pr\u00f3ximas ao presidente j\u00e1 constitui uma amea\u00e7a \u00e0 credibilidade e \u00e0 confiabilidade da moeda americana.<a data-contents=\"Bonadio, B., Huo, Z., Kang, E., Levchenko, A. A., Pandalai-Nayar, N., Toma, H., e Topalova,P. 2025. \u201c(<)em(>)Playing with Blocs: Quantifying Decoupling(<)\/em(>)\u201d. (<)em(>)IMF Working Paper(<)\/em(>), WP\/25\/263; Carney, M. 2026. (<)a href='https:\/\/www.pm.gc.ca\/en\/news\/speeches\/2026\/01\/20\/principled-and-pragmatic-canadas-path-prime-minister-carney-addresses'(>)\u201cPrincipled and pragmatic: Canada\u2019s path\u201d Prime Minister Carney addresses the World Economic Forum Annual Meeting\u201d(<)\/a(>). Discurso no F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial, 20 de janeiro de 2026.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-1\" href=\"#footnote-list-1\">1<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Bonadio, B., Huo, Z., Kang, E., Levchenko, A. A., Pandalai-Nayar, N., Toma, H., e Topalova,P. 2025. \u201c(<)em(>)Playing with Blocs: Quantifying Decoupling(<)\/em(>)\u201d. (<)em(>)IMF Working Paper(<)\/em(>), WP\/25\/263; Carney, M. 2026. (<)a href='https:\/\/www.pm.gc.ca\/en\/news\/speeches\/2026\/01\/20\/principled-and-pragmatic-canadas-path-prime-minister-carney-addresses'(>)\u201cPrincipled and pragmatic: Canada\u2019s path\u201d Prime Minister Carney addresses the World Economic Forum Annual Meeting\u201d(<)\/a(>). Discurso no F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial, 20 de janeiro de 2026.<\/span> Ao mesmo tempo, as interven\u00e7\u00f5es militares dos EUA seguem produzindo turbul\u00eancias na economia global. A mais recente delas levou Teer\u00e3 a praticamente fechar o Estreito de Ormuz, reacendendo especula\u00e7\u00f5es sobre um eventual petroyuan ou mesmo sobre a cria\u00e7\u00e3o de uma moeda do BRICS.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os registros hist\u00f3ricos sugerem, no entanto, que a substitui\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar n\u00e3o ser\u00e1 tarefa simples. Ao longo dos \u00faltimos dois s\u00e9culos, houve apenas uma transi\u00e7\u00e3o entre moedas internacionais hegem\u00f4nicas. Ela ocorreu no p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial, quando o d\u00f3lar superou a libra esterlina como principal moeda do com\u00e9rcio internacional e como principal ativo de reserva dos bancos centrais nacionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi no s\u00e9culo XIX que a libra consolidou sua predomin\u00e2ncia como unidade de conta, reserva de valor e meio de troca. Isso foi poss\u00edvel gra\u00e7as ao compromisso cr\u00edvel da moeda brit\u00e2nica com a paridade ouro, ao alcance global do com\u00e9rcio e dos investimentos brit\u00e2nicos, \u00e0 proeza dos servi\u00e7os financeiros de Londres e, em momentos de aperto, ao apoio providencial das elites banc\u00e1rias francesas e russas. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, a posi\u00e7\u00e3o dominante da economia dos EUA e o decl\u00ednio relativo da Gr\u00e3-Bretanha como pot\u00eancia global, no contexto da descoloniza\u00e7\u00e3o, suscitaram previs\u00f5es semelhantes \u00e0s de hoje em rela\u00e7\u00e3o ao d\u00f3lar. Mas o enfraquecimento da hegemonia brit\u00e2nica, por si s\u00f3, n\u00e3o foi suficiente para viabilizar a transi\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria global observada em meados do s\u00e9culo XX. Foi necess\u00e1rio um esfor\u00e7o coordenado entre os bancos centrais das principais economias industrializadas para administrar a retirada gradual da libra esterlina.<a data-contents=\"Schenk, C. 2010. (<)em(>)The Decline of Sterling; managing the retreat of an international currency(<)\/em(>). Cambridge: Cambridge University Press.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-2\" href=\"#footnote-list-2\">2<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Schenk, C. 2010. (<)em(>)The Decline of Sterling; managing the retreat of an international currency(<)\/em(>). Cambridge: Cambridge University Press.<\/span> Uma ampla rede de coopera\u00e7\u00e3o entre bancos centrais\u2014por meio de cr\u00e9ditos e linhas de swap\u2014, somada \u00e0s garantias brit\u00e2nicas sobre o valor em d\u00f3lar das reservas em libra detidas por bancos centrais nacionais, permitiu um decl\u00ednio mais suave e previs\u00edvel da libra durante a d\u00e9cada de 1960.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 medida que o d\u00f3lar consolidava sua posi\u00e7\u00e3o como principal meio de troca internacional, durante a maior parte dos anos 1960, sua atratividade como reserva de valor precisou ser sustentada por interven\u00e7\u00f5es coordenadas nos mercados para preservar sua paridade com o ouro. Uma ruptura prejudicial entre a libra esterlina e o d\u00f3lar s\u00f3 p\u00f4de ser evitada gra\u00e7as a uma rede de apoio multilateral cuidadosamente orquestrada em meio a um compromisso comum com a estabiliza\u00e7\u00e3o do sistema monet\u00e1rio internacional durante a Guerra Fria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O atual momento geopol\u00edtico certamente apresenta sinais de decl\u00ednio hegem\u00f4nico que lembram os da Gr\u00e3-Bretanha em meados do s\u00e9culo XX. Mas esses sinais, isoladamente, talvez n\u00e3o sejam suficientes para desmantelar um sistema monet\u00e1rio complexo, estratificado e genuinamente global, constru\u00eddo cuidadosamente ao longo de d\u00e9cadas. Desde 2008, se houve coopera\u00e7\u00e3o entre os principais bancos centrais do mundo, o objetivo foi assegurar o acesso ao d\u00f3lar por meio das linhas de swap do Federal Reserve. No contexto atual, \u00e9 dif\u00edcil imaginar os Estados Unidos apoiando ativamente uma transi\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria nos moldes do que a Gr\u00e3-Bretanha fez no p\u00f3s-guerra. Por mais que as fissuras no sistema do d\u00f3lar possam estar se aprofundando, em \u00faltima an\u00e1lise, a moeda pode se mostrar mais resiliente do que a hegemonia pol\u00edtica dos EUA.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Ascens\u00e3o coordenada<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora, em retrospecto, a ascens\u00e3o do d\u00f3lar possa parecer inevit\u00e1vel, ela exigiu nada menos do que uma reorganiza\u00e7\u00e3o da economia mundial. Na d\u00e9cada de 1940, o sistema monet\u00e1rio internacional foi desenhado em Bretton Woods com o d\u00f3lar como \u00e2ncora do regime de taxas de c\u00e2mbio fixas. Isso incentivou os pa\u00edses a manter reservas cambiais denominadas em d\u00f3lar em seus bancos centrais para proteger o valor externo de suas moedas. A pr\u00f3pria pol\u00edtica brit\u00e2nica tamb\u00e9m favoreceu essa transi\u00e7\u00e3o. Em 1957, o Tesouro brit\u00e2nico introduziu novos controles cambiais sobre a libra no financiamento comercial entre terceiros, numa tentativa de desestimular sua circula\u00e7\u00e3o internacional. Somadas aos controles sobre as taxas de juros dom\u00e9sticas pagas sobre dep\u00f3sitos tanto nos Estados Unidos quanto no Reino Unido, essas restri\u00e7\u00f5es incentivaram os bancos londrinos a recorrer ao d\u00f3lar como principal moeda dos servi\u00e7os comerciais e financeiros internacionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os demais candidatos \u00e0 sucess\u00e3o monet\u00e1ria\u2014Alemanha e Jap\u00e3o\u2014resistiram \u00e0s press\u00f5es externas para internacionalizar suas moedas, priorizando estrat\u00e9gias industriais dom\u00e9sticas. Os mercados de capitais de Nova York cresceram rapidamente, mas o mercado internacional banc\u00e1rio e cambial de Londres continuou liderando o sistema financeiro global, em grande medida gra\u00e7as ao influxo de institui\u00e7\u00f5es financeiras estadunidenses e europeias. Na d\u00e9cada de 1960, o mercado de eurod\u00f3lares em Londres consolidou o d\u00f3lar como meio de troca transfronteiri\u00e7o e unidade de conta internacional, enquanto a pr\u00f3pria arquitetura do sistema monet\u00e1rio internacional estabelecia a moeda como o principal ativo das reservas cambiais globais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sistema global de pagamentos tamb\u00e9m foi transformado para acomodar o papel internacional do d\u00f3lar. A expans\u00e3o do mercado offshore de d\u00f3lares em Londres, no fim dos anos 1960, aumentou dramaticamente o volume de pagamentos internacionais em d\u00f3lar, criando gargalos entre os bancos correspondentes respons\u00e1veis por processar essas opera\u00e7\u00f5es em Nova York.<a data-contents=\"Schenk, C. 2021. \u201c(<)em(>)The development of international correspondent banking in the USA 1970-79(<)\/em(>)\u201d. Global Correspondent Banking 1870-2000, Working Paper 1.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-3\" href=\"#footnote-list-3\">3<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Schenk, C. 2021. \u201c(<)em(>)The development of international correspondent banking in the USA 1970-79(<)\/em(>)\u201d. Global Correspondent Banking 1870-2000, Working Paper 1.<\/span> Em 1970, a New York Clearing House lan\u00e7ou um sistema computadorizado pioneiro para a compensa\u00e7\u00e3o de pagamentos internacionais em d\u00f3lar: o Clearing House Interbank Payments System (CHIPS). A plataforma tornou muito mais \u00e1geis e eficientes os processos de compensa\u00e7\u00e3o e liquida\u00e7\u00e3o de pagamentos em d\u00f3lar para bancos do mundo inteiro, por meio de suas institui\u00e7\u00f5es correspondentes em Nova York. Nenhum outro centro financeiro possu\u00eda uma infraestrutura compar\u00e1vel, e o acesso ao sistema era restrito aos membros da New York Clearing House, o que refor\u00e7ava a posi\u00e7\u00e3o privilegiada dos grandes bancos americanos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1969, os bancos brit\u00e2nicos chegaram a considerar a cria\u00e7\u00e3o, em Londres, de um sistema equivalente de compensa\u00e7\u00e3o em d\u00f3lar. Acabaram concluindo, por\u00e9m, que os principais benef\u00edcios da iniciativa tenderiam a retornar aos grandes bancos de Nova York, dada a posi\u00e7\u00e3o dominante do CHIPS, e o projeto foi abandonado. O equivalente brit\u00e2nico em libra, o Clearing House Automated Payment System (CHAPS), s\u00f3 seria introduzido em 1984. Inicialmente controlado pelos pr\u00f3prios bancos, o sistema foi assumido pelo Banco da Inglaterra em 2017.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Criar um sistema de compensa\u00e7\u00e3o e liquida\u00e7\u00e3o transfronteiri\u00e7a e multimoedas, por\u00e9m, revelou-se muito mais complexo do que a compensa\u00e7\u00e3o global em d\u00f3lar centralizada em Nova York. Diferen\u00e7as jur\u00eddicas e operacionais, al\u00e9m do elevado risco de liquida\u00e7\u00e3o entre mercados e fusos hor\u00e1rios distintos, dificultavam enormemente a constru\u00e7\u00e3o de um sistema unificado. A fal\u00eancia do banco alem\u00e3o de m\u00e9dio porte Herstatt, em 1974, mostrou como uma sofisticada rede de pagamentos globais permanecia suscet\u00edvel a rupturas abruptas. As autoridades alem\u00e3s fecharam o Herstatt enquanto os bancos correspondentes de Nova York ainda estavam operando, deixando diversas institui\u00e7\u00f5es sem os recursos que esperavam receber como compensa\u00e7\u00e3o por pagamentos j\u00e1 realizados sob instru\u00e7\u00f5es do banco alem\u00e3o. O risco de liquida\u00e7\u00e3o agravado pelas diferen\u00e7as de fuso hor\u00e1rio, que ficou conhecido como \u201cRisco Herstatt\u201d, levou mais de vinte anos para ser resolvido, justamente num per\u00edodo em que o volume global de pagamentos (e, portanto, o montante de recursos expostos) crescia vertiginosamente.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Os bancos privados entram em campo<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1977, um grupo de bancos com atua\u00e7\u00e3o internacional lan\u00e7ou o sistema SWIFT, que permitia a troca informatizada de mensagens banc\u00e1rias relacionadas a pagamentos.<a data-contents=\"Scott, S. e Zachariadis, M. 2014. (<)em(>)The Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication (SWIFT): cooperative governance for network innovation, standards, and community.(<)\/em(>) Routledge.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-4\" href=\"#footnote-list-4\">4<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Scott, S. e Zachariadis, M. 2014. (<)em(>)The Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication (SWIFT): cooperative governance for network innovation, standards, and community.(<)\/em(>) Routledge.<\/span> O SWIFT gradualmente substituiu o sistema Telex, que era lento, trabalhoso e sujeito a erros. Ainda assim, os atrasos na liquida\u00e7\u00e3o faziam com que os bancos permanecessem expostos a elevados n\u00edveis de risco caso uma contraparte quebrasse ao longo do dia da transa\u00e7\u00e3o ou caso o sistema operacional sofresse alguma falha. A confian\u00e7a entre as institui\u00e7\u00f5es continuava sendo um elemento fundamental para a livre circula\u00e7\u00e3o de capitais. O verdadeiro desafio era criar um sistema capaz de compensar continuamente, em escala global, os pagamentos de entrada e sa\u00edda ao longo do dia, de modo que apenas o saldo l\u00edquido final precisasse ser compensado ao fim do processo. O SWIFT ajudou a racionalizar a comunica\u00e7\u00e3o entre bancos, mas n\u00e3o resolveu o problema do risco associado \u00e0 conclus\u00e3o das transa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tanto o CHIPS quanto o SWIFT foram concebidos e implementados pelos grandes bancos internacionais, servindo tamb\u00e9m aos seus interesses como guardi\u00f5es da infraestrutura financeira global. Os servi\u00e7os do SWIFT, por exemplo, chegaram \u00e0 Am\u00e9rica do Sul antes da \u00c1frica ou do Oriente M\u00e9dio, em fun\u00e7\u00e3o da localiza\u00e7\u00e3o dos servidores nos Estados Unidos. Novos membros precisavam pagar taxas elevadas de ades\u00e3o e garantir um volume m\u00ednimo de tr\u00e1fego de mensagens, o que colocava bancos e pa\u00edses com menor fluxo de pagamentos em clara desvantagem. A \u00c1frica do Sul foi o \u00fanico pa\u00eds africano conectado ao SWIFT nos anos 1980, apesar das san\u00e7\u00f5es contra o apartheid, que se aplicavam ao com\u00e9rcio, mas n\u00e3o aos pagamentos. O fato de as grandes institui\u00e7\u00f5es financeiras dos pa\u00edses mais ricos continuarem sendo as principais benefici\u00e1rias da arquitetura global de pagamentos j\u00e1 estava embutido na pr\u00f3pria forma como esses sistemas foram desenhados pelos bancos na d\u00e9cada de 1970.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O desenvolvimento de um sistema multilateral de compensa\u00e7\u00e3o e liquida\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m foi deixado a cargo do setor privado. A partir de meados dos anos 1980, grupos concorrentes de bancos na Europa, nos Estados Unidos e no Canad\u00e1 tentaram desenvolver mecanismos capazes de operar de forma robusta entre diferentes jurisdi\u00e7\u00f5es e resistentes \u00e0 eventual quebra de um ou mais grandes participantes.<a data-contents=\"Schenk, C. 2023. \u201c(<)a href='https:\/\/link.springer.com\/chapter\/10.1007\/978-3-031-26482-5_17'(>)From telegraph to Tether: challenges in the global payments system and the struggle between private and public interests(<)\/a(>)\u201d. Em Aliber, R.Z., Gudmundsson, M. e Zoega, G. (eds.) (<)em(>)Fault Lines after COVID-19(<)\/em(>), Routledge.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-5\" href=\"#footnote-list-5\">5<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Schenk, C. 2023. \u201c(<)a href='https:\/\/link.springer.com\/chapter\/10.1007\/978-3-031-26482-5_17'(>)From telegraph to Tether: challenges in the global payments system and the struggle between private and public interests(<)\/a(>)\u201d. Em Aliber, R.Z., Gudmundsson, M. e Zoega, G. (eds.) (<)em(>)Fault Lines after COVID-19(<)\/em(>), Routledge.<\/span> Em 1990, os bancos centrais das principais economias industrializadas estabeleceram padr\u00f5es m\u00ednimos para esses sistemas, numa tentativa de garantir maior resili\u00eancia ao conjunto das transa\u00e7\u00f5es. Mas seus esfor\u00e7os para convencer os bancos a levarem a s\u00e9rio os riscos associados \u00e0s exposi\u00e7\u00f5es cambiais transfronteiri\u00e7as ca\u00edram, em grande medida, em ouvidos moucos.<a data-contents=\"As Normas de Lamfalussy foram estabelecidas pelos bancos centrais do G10 na reuni\u00e3o do Comit\u00ea de Sistemas de Pagamentos e Liquida\u00e7\u00e3o no Banco de Compensa\u00e7\u00f5es Internacionais, em Basileia.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-6\" href=\"#footnote-list-6\">6<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">As Normas de Lamfalussy foram estabelecidas pelos bancos centrais do G10 na reuni\u00e3o do Comit\u00ea de Sistemas de Pagamentos e Liquida\u00e7\u00e3o no Banco de Compensa\u00e7\u00f5es Internacionais, em Basileia.<\/span> Somente em 1997 os bancos conseguiram convergir para um \u00fanico arranjo, criando o Continuous Linked Settlement (CLS). Ainda assim, seriam necess\u00e1rios mais cinco anos at\u00e9 que o mecanismo come\u00e7asse efetivamente a operar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 importante notar que o CLS processa pagamentos em apenas um n\u00famero limitado de moedas. Isso significa que a maior parte das moedas do mundo permanece exclu\u00edda de seus mecanismos de mitiga\u00e7\u00e3o de risco: para a maioria delas, as transa\u00e7\u00f5es ainda precisam passar pelo d\u00f3lar americano ou assumir o risco de liquida\u00e7\u00e3o fora do sistema. Embora o n\u00famero de moedas integradas ao CLS tenha mais do que dobrado (atualmente s\u00e3o dezoito), muitas continuam de fora, incluindo o renminbi (RMB) chin\u00eas. O acesso ao CLS tamb\u00e9m \u00e9 rigidamente controlado. Entre os milhares de bancos com atua\u00e7\u00e3o internacional ao redor do mundo, apenas setenta e seis possuem participa\u00e7\u00e3o direta no sistema.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Uma moeda na encruzilhada<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mundo j\u00e1 come\u00e7ou a se afastar do d\u00f3lar? O papel internacional da moeda costuma ser medido por sua participa\u00e7\u00e3o nas reservas cambiais globais. Como mostra a Figura 1, a fatia do d\u00f3lar nas reservas oficialmente registradas atualmente gira em torno de 60%, patamar que permanece est\u00e1vel h\u00e1 cerca de trinta anos.<a data-contents=\"A China n\u00e3o divulgou a composi\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria de suas reservas at\u00e9 2015, portanto, os dados podem subestimar a participa\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-7\" href=\"#footnote-list-7\">7<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">A China n\u00e3o divulgou a composi\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria de suas reservas at\u00e9 2015, portanto, os dados podem subestimar a participa\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar.<\/span> Sob esse crit\u00e9rio, seria poss\u00edvel argumentar que j\u00e1 vivemos, h\u00e1 d\u00e9cadas, em um sistema monet\u00e1rio multipolar. Bancos centrais e Tesouros ao redor do mundo j\u00e1 administram carteiras diversificadas de ativos, que incluem ouro, diferentes moedas nacionais e at\u00e9 criptomoedas. Embora mudan\u00e7as nessas carteiras ainda possam provocar instabilidade, \u00e9 importante reconhecer que esse sistema diversificado tem se mostrado relativamente equilibrado ao longo de d\u00e9cadas. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"933\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart1-pt-d-4-1-933x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-31655\" srcset=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart1-pt-d-4-1-933x1024.png 933w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart1-pt-d-4-1-273x300.png 273w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart1-pt-d-4-1-768x843.png 768w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart1-pt-d-4-1-1400x1536.png 1400w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart1-pt-d-4-1-1867x2048.png 1867w\" sizes=\"auto, (max-width: 933px) 100vw, 933px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como meio de troca, por\u00e9m, o d\u00f3lar continua sendo muito mais dominante. Em 2025, os mercados cambiais globais registraram um volume m\u00e9dio di\u00e1rio de US$ 9,5 trilh\u00f5es em transa\u00e7\u00f5es, das quais cerca de 90% envolveram o d\u00f3lar em uma das pontas da opera\u00e7\u00e3o. Assim como no caso das reservas internacionais, a Figura 2 revela uma not\u00e1vel estabilidade ao longo dos \u00faltimos trinta anos, ainda que acompanhada por alguma retra\u00e7\u00e3o das transa\u00e7\u00f5es em euro e por um leve aumento da participa\u00e7\u00e3o do renminbi, em parte influenciado pelas oscila\u00e7\u00f5es cambiais. O d\u00f3lar \u00e9 utilizado como meio de troca de duas maneiras. Em primeiro lugar, ele funciona amplamente como unidade de conta em contratos e, portanto, como refer\u00eancia para a liquida\u00e7\u00e3o de pagamentos financeiros e comerciais. Em segundo lugar, o d\u00f3lar atua como moeda intermedi\u00e1ria na convers\u00e3o entre outras duas moedas quando n\u00e3o existe um mercado suficientemente l\u00edquido para realizar diretamente essa troca bilateral. Esse papel de \u201cmoeda-ve\u00edculo\u201d \u00e9 uma caracter\u00edstica estrutural dos pr\u00f3prios mercados financeiros.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"933\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart2-pt-d-3-1-933x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-31659\" srcset=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart2-pt-d-3-1-933x1024.png 933w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart2-pt-d-3-1-273x300.png 273w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart2-pt-d-3-1-768x843.png 768w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart2-pt-d-3-1-1400x1536.png 1400w, https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/chart2-pt-d-3-1-1867x2048.png 1867w\" sizes=\"auto, (max-width: 933px) 100vw, 933px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A crescente politiza\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar parece ter amea\u00e7ado essa estabilidade. O Ir\u00e3, por exemplo vem sendo alvo recorrente de sucessivas rodadas de san\u00e7\u00f5es financeiras americanas desde a d\u00e9cada de 1970. Ap\u00f3s os atentados de 11 de setembro, o Tesouro dos Estados Unidos emitiu secretamente intima\u00e7\u00f5es ao SWIFT para obter dados que permitissem rastrear pagamentos ligados a suspeitos de terrorismo, pr\u00e1tica que s\u00f3 veio a p\u00fablico em 2006, desencadeando um impasse jur\u00eddico com a Uni\u00e3o Europeia, j\u00e1 que o SWIFT tem sede em Bruxelas. Como resposta, o sistema abriu um servidor na Su\u00ed\u00e7a para oferecer aos clientes formas de evitar que seus dados fossem armazenados nos Estados Unidos. Em 2012, bancos iranianos foram desconectados do SWIFT e, em 2022, v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es financeiras da R\u00fassia e da Bielorr\u00fassia sofreram exclus\u00e3o semelhante, numa tentativa de tornar mais custoso o envio e o recebimento de recursos por parte de seus clientes. Bancos tamb\u00e9m foram proibidos de fornecer servi\u00e7os de correspond\u00eancia banc\u00e1ria a entidades sancionadas, dificultando o uso do d\u00f3lar e do euro na liquida\u00e7\u00e3o de pagamentos comerciais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">San\u00e7\u00f5es desse tipo empurram as transa\u00e7\u00f5es para circuitos mais tortuosos e caros, justamente para evitar o uso do d\u00f3lar ou das moedas de outras entidades pol\u00edticas sancionadoras, como o Reino Unido e a Uni\u00e3o Europeia. A vulnerabilidade \u00e0s san\u00e7\u00f5es dos EUA tamb\u00e9m levou diversos pa\u00edses a desenvolver sistemas alternativos de pagamentos, como o China Interbank Payment System (CIPS), lan\u00e7ado em 2015 para promover o uso internacional do renminbi na liquida\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio. Em mar\u00e7o deste ano, o Ir\u00e3 bloqueou a navega\u00e7\u00e3o pelo Estreito de Ormuz, afetando de maneira mais imediata o com\u00e9rcio chin\u00eas e alimentando <a href=\"https:\/\/www.dbresearch.com\/PROD\/IE-PROD\/PDFVIEWER.calias?pdfViewerPdfUrl=PROD0000000000622186&amp;rwnode=REPORT\" type=\"link\" id=\"https:\/\/www.dbresearch.com\/PROD\/IE-PROD\/PDFVIEWER.calias?pdfViewerPdfUrl=PROD0000000000622186&amp;rwnode=REPORT\">rumores<\/a> de que Teer\u00e3 abriria exce\u00e7\u00f5es para o petr\u00f3leo pago em yuan.<a data-contents=\"N.E.: \u201cRenminbi\u201d (RMB) \u00e9 o nome oficial da moeda chinesa, enquanto \u201cyuan\u201d corresponde \u00e0 sua unidade de conta. Em geral, \u201crenminbi\u201d \u00e9 mais utilizado em contextos institucionais e financeiros, ao passo que \u201cyuan\u201d aparece com mais frequ\u00eancia em refer\u00eancia a pre\u00e7os, c\u00e2mbio e transa\u00e7\u00f5es comerciais.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-8\" href=\"#footnote-list-8\">8<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">N.E.: \u201cRenminbi\u201d (RMB) \u00e9 o nome oficial da moeda chinesa, enquanto \u201cyuan\u201d corresponde \u00e0 sua unidade de conta. Em geral, \u201crenminbi\u201d \u00e9 mais utilizado em contextos institucionais e financeiros, ao passo que \u201cyuan\u201d aparece com mais frequ\u00eancia em refer\u00eancia a pre\u00e7os, c\u00e2mbio e transa\u00e7\u00f5es comerciais.<\/span> Somado \u00e0s restri\u00e7\u00f5es impostas aos pagamentos ligados ao petr\u00f3leo russo, um movimento desse tipo poderia come\u00e7ar a enfraquecer a predomin\u00e2ncia do d\u00f3lar na precifica\u00e7\u00e3o e liquida\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio global de petr\u00f3leo. Quanto maior o n\u00famero de agentes econ\u00f4micos que utilizam determinada moeda em um mercado, mais \u00fatil ela se torna. Essas din\u00e2micas tamb\u00e9m incentivam a converg\u00eancia em torno de uma \u00fanica moeda ou de um pequeno grupo de moedas-chave.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas a politiza\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar, por si s\u00f3, n\u00e3o \u00e9 novidade. J\u00e1 em 1951, justamente no momento em que a moeda consolidava sua ascens\u00e3o, o governo dos Estados Unidos congelou ativos e pagamentos em d\u00f3lar de entidades chinesas associadas ao Partido Comunista. Como a Gr\u00e3-Bretanha n\u00e3o restringiu o uso da libra pela China naquele momento, a moeda brit\u00e2nica acabou ganhando maior utilidade e relev\u00e2ncia no com\u00e9rcio chin\u00eas. Mas, embora o uso da libra tenha aumentado em fun\u00e7\u00e3o dessas tens\u00f5es geopol\u00edticas, isso n\u00e3o alterou de maneira significativa a posi\u00e7\u00e3o predominante do d\u00f3lar no sistema internacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ouro n\u00e3o rende juros e possui oferta limitada; o yuan permanece parcialmente submetido a controles de capital; e o euro segue sendo uma moeda sem uma pol\u00edtica fiscal comum. <a data-contents=\"Para uma discuss\u00e3o recente a respeito, consulte Eichengreen, Barry. 2026. (<)em(>)Money beyond borders: global currencies from Croesus to crypto(<)\/em(>). Princeton: Princeton University Press.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-9\" href=\"#footnote-list-9\">9<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Para uma discuss\u00e3o recente a respeito, consulte Eichengreen, Barry. 2026. (<)em(>)Money beyond borders: global currencies from Croesus to crypto(<)\/em(>). Princeton: Princeton University Press.<\/span> Para sustentar uma moeda internacional, s\u00e3o necess\u00e1rios mercados financeiros profundos e l\u00edquidos, nos quais os detentores de ativos tenham confian\u00e7a de que poder\u00e3o entrar e sair rapidamente com baixo custo. Moedas internacionais s\u00e3o, de fato, extremamente \u00fateis: operadores financeiros e comerciais preferem utilizar uma moeda amplamente aceita por uma grande variedade de contrapartes. Mas, sem um desenvolvimento mais profundo da infraestrutura global de pagamentos, torna-se dif\u00edcil ampliar sua utiliza\u00e7\u00e3o para al\u00e9m de determinado limite.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na realidade, a infraestrutura de pagamentos dos Estados Unidos parece hoje ainda mais robusta do que antes. Os pagamentos internacionais denominados em d\u00f3lar continuam crescendo. Desde a imposi\u00e7\u00e3o de san\u00e7\u00f5es contra os pagamentos ligados \u00e0 R\u00fassia, a participa\u00e7\u00e3o de mensagens do SWIFT denominadas em d\u00f3lar subiu de cerca de 40% nos quatro anos anteriores a 2022\u2014mais do que o dobro da participa\u00e7\u00e3o do euro, seu principal rival\u2014para 58% em janeiro de 2026.<a data-contents=\"SWIFT RMB Tracker. 2026. (<)a href='https:\/\/www.swift.com\/sites\/default\/files\/files\/rmb-tracker_february-2026.pdf'(>)Innovative MyStandards technology from SWIFT fast tracks ISO 20022 onboarding(<)\/a(>). Acesso em 7 de mar\u00e7o de 2026. Os dados excluem pagamentos intra-UE. A segunda moeda mais proeminente \u00e9 o euro, com cerca de 14% das mensagens em janeiro de 2026.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-10\" href=\"#footnote-list-10\">10<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">SWIFT RMB Tracker. 2026. (<)a href='https:\/\/www.swift.com\/sites\/default\/files\/files\/rmb-tracker_february-2026.pdf'(>)Innovative MyStandards technology from SWIFT fast tracks ISO 20022 onboarding(<)\/a(>). Acesso em 7 de mar\u00e7o de 2026. Os dados excluem pagamentos intra-UE. A segunda moeda mais proeminente \u00e9 o euro, com cerca de 14% das mensagens em janeiro de 2026.<\/span> Embora a China seja uma das principais pot\u00eancias comerciais do mundo, o renminbi \u00e9 utilizado em apenas uma parcela \u00ednfima dos pagamentos transfronteiri\u00e7os: atualmente, cerca de 3%, dos quais at\u00e9 75% s\u00e3o iniciados em Hong Kong, regi\u00e3o administrativa especial sob soberania chinesa. Sua pr\u00f3pria infraestrutura de pagamentos, o CIPS, ainda depende do SWIFT. S\u00f3 recentemente o sistema come\u00e7ou a desenvolver sua pr\u00f3pria rede de mensagens, numa tentativa de conquistar maior independ\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s estruturas controladas pelos Estados Unidos. Embora mais bancos estrangeiros tenham aderido ao CIPS nos \u00faltimos anos, a esmagadora maioria dos participantes continua sendo composta por bancos chineses e suas subsidi\u00e1rias espalhadas pelo mundo. Isso significa que, ao menos por enquanto, a infraestrutura de pagamentos baseada no RMB n\u00e3o representa uma concorrente s\u00e9ria \u00e0quela organizada em torno do d\u00f3lar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2009 e novamente em julho de 2025, o Banco Popular da China tentou contornar essas limita\u00e7\u00f5es promovendo o uso dos Direitos Especiais de Saque (SDRs, na sigla em ingl\u00eas) do Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI) como alternativa a uma moeda internacional vinculada exclusivamente aos Estados Unidos. Mas o SDR, que concede aos pa\u00edses o direito de acessar moedas convers\u00edveis por meio do FMI, \u00e9 um instrumento complexo. Como seu valor \u00e9 definido a partir de uma cesta ponderada de cinco moedas, o SDR acaba refletindo c\u00e1lculos pol\u00edticos e entraves burocr\u00e1ticos, e n\u00e3o apenas din\u00e2micas estritamente \u201cde mercado\u201d, o que tem dificultado os esfor\u00e7os para transform\u00e1-lo em um substituto efetivo do d\u00f3lar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As criptomoedas podem parecer outra poss\u00edvel fonte de instabilidade para o d\u00f3lar, e o uso de stablecoins, especialmente para pagamentos, cresceu rapidamente nos \u00faltimos anos.<a data-contents=\"Auer, R., Lewrick U., e Paulick, J. 2025. \u201cDeFiying gravity? An empirical analysis of cross-border Bitcoin, Ether and stablecoin flows\u201d. (<)em(>)BIS Working Paper(<)\/em(>), n.\u00ba 1265.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-11\" href=\"#footnote-list-11\">11<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Auer, R., Lewrick U., e Paulick, J. 2025. \u201cDeFiying gravity? An empirical analysis of cross-border Bitcoin, Ether and stablecoin flows\u201d. (<)em(>)BIS Working Paper(<)\/em(>), n.\u00ba 1265.<\/span> Elas oferecem maior anonimato aos usu\u00e1rios e n\u00e3o precisam passar pelos sistemas de compensa\u00e7\u00e3o sediados em Nova York. O Tether, por exemplo, \u00e9 a stablecoin mais utilizada e de maior capitaliza\u00e7\u00e3o no mercado, mas seu valor \u00e9 integralmente lastreado em ativos denominados em d\u00f3lar, o que faz com que permane\u00e7a estruturalmente atrelado \u00e0 moeda estadunidense. Nesse sentido, o crescimento das stablecoins acaba aumentando a demanda por ativos em d\u00f3lar e refor\u00e7ando seu papel indireto nas transa\u00e7\u00f5es internacionais em vez de substitu\u00ed-lo. Os esfor\u00e7os para construir um sistema funcional de moedas digitais de bancos centrais para pagamentos transfronteiri\u00e7os tamb\u00e9m t\u00eam esbarrado em obst\u00e1culos ligados \u00e0 interoperabilidade e \u00e0 harmoniza\u00e7\u00e3o jur\u00eddica. O mBridge est\u00e1 entre os projetos mais avan\u00e7ados, reunindo os bancos centrais de Hong Kong, China, Tail\u00e2ndia e Emirados \u00c1rabes Unidos, mas ainda se encontra em est\u00e1gio inicial de desenvolvimento.<a data-contents=\"At\u00e9 novembro de 2025, somente cerca de 4 mil pagamentos haviam sido (<)a href='https:\/\/www.atlanticcouncil.org\/blogs\/econographics\/what-to-watch-as-china-prepares-its-digital-yuan-for-prime-time\/'(>)registrados(<)\/a(>) como conclu\u00eddos, totalizando US$ 55 bilh\u00f5es. O primeiro pagamento governamental direto foi realizado em novembro de 2025 entre os Emirados \u00c1rabes Unidos e a China.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-12\" href=\"#footnote-list-12\">12<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">At\u00e9 novembro de 2025, somente cerca de 4 mil pagamentos haviam sido (<)a href='https:\/\/www.atlanticcouncil.org\/blogs\/econographics\/what-to-watch-as-china-prepares-its-digital-yuan-for-prime-time\/'(>)registrados(<)\/a(>) como conclu\u00eddos, totalizando US$ 55 bilh\u00f5es. O primeiro pagamento governamental direto foi realizado em novembro de 2025 entre os Emirados \u00c1rabes Unidos e a China.<\/span> <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em setenta anos de crises e transforma\u00e7\u00f5es da ordem global, o d\u00f3lar demonstrou not\u00e1vel resili\u00eancia diante das mudan\u00e7as de rumo da pol\u00edtica estadunidense, das transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e das fric\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas. A distribui\u00e7\u00e3o global das reservas cambiais e das transa\u00e7\u00f5es nos mercados de c\u00e2mbio manteve uma estabilidade extraordin\u00e1ria ao longo de mais de trinta anos, inclusive no atual contexto de crescente desarranjo geopol\u00edtico. Ainda que o imp\u00e9rio americano apresente sinais cada vez mais evidentes de fragmenta\u00e7\u00e3o, o decl\u00ednio do d\u00f3lar est\u00e1 longe de ser inevit\u00e1vel. Na aus\u00eancia de alternativas vi\u00e1veis e sem uma coordena\u00e7\u00e3o intensa entre pot\u00eancias regionais e globais, o status internacional da moeda estadunidense (e o sistema global de pagamentos que a sustenta) pode durar muito mais do que o esperado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reflex\u00f5es sobre o poss\u00edvel fim da domin\u00e2ncia internacional do 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