{"id":30011,"date":"2026-04-16T18:57:29","date_gmt":"2026-04-16T18:57:29","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/uncategorized\/republicas-da-soja\/"},"modified":"2026-05-28T20:05:06","modified_gmt":"2026-05-28T20:05:06","slug":"republicas-da-soja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/republicas-da-soja\/","title":{"rendered":"Rep\u00fablicas da soja"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No in\u00edcio deste ano, na Amaz\u00f4nia brasileira, uma coaliz\u00e3o de 14 grupos ind\u00edgenas<a href=\"https:\/\/sumauma.com\/en\/retomar-o-rio-o-levante-indigena-contra-a-venda-do-tapajos\/\"> se levantou<\/a> contra um<a href=\"https:\/\/www2.camara.leg.br\/legin\/fed\/decret\/2025\/decreto-12600-28-agosto-2025-797894-publicacaooriginal-176238-pe.html\"> decreto<\/a> que previa a privatiza\u00e7\u00e3o da hidrovia que liga os munic\u00edpios de Itaituba e Santar\u00e9m, no Par\u00e1, bem como contra um<a href=\"https:\/\/www.gov.br\/portos-e-aeroportos\/pt-br\/assuntos\/noticias\/2026\/01\/edital-para-dragagem-no-rio-tapajos-pa-preve-r-74-8-milhoes-de-investimentos\"> projeto p\u00fablico<\/a> de dragagem do rio Tapaj\u00f3s. A gigante global de commodities Cargill controla portos em ambas as cidades, que funcionam como pontos-chave da infraestrutura log\u00edstica por meio da qual a soja cultivada na floresta tropical e no cerrado \u00e9 enviada para os mercados globais, principalmente da Europa e do Norte da \u00c1frica. Em 2022, cerca de 13% de toda a soja exportada do Brasil pela Cargill foi embarcada em Santar\u00e9m, incluindo quase<a href=\"https:\/\/trase.earth\/explore\/supply-chain\/brazil\/soy\"> dois ter\u00e7os<\/a> dos gr\u00e3os cultivados na floresta tropical.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O <a href=\"https:\/\/sumauma.com\/retomar-o-rio-o-levante-indigena-contra-a-venda-do-tapajos\/\">levante ind\u00edgena<\/a> come\u00e7ou com um<a href=\"https:\/\/sumauma.com\/en\/retomar-o-rio-o-levante-indigena-contra-a-venda-do-tapajos\/\"> <\/a>acampamento em frente a um terminal da Cargill em Santar\u00e9m e com a exig\u00eancia de que o governo cancelasse a privatiza\u00e7\u00e3o e a drenagem do rio Tapaj\u00f3s. As comunidades alegaram que os planos, sobre os quais n\u00e3o haviam sido consultadas, representavam uma amea\u00e7a direta tanto aos seus meios de subsist\u00eancia quanto \u00e0 rica biodiversidade da regi\u00e3o, arriscando a libera\u00e7\u00e3o do merc\u00fario acumulado no leito do rio. No auge, o acampamento contava com mais de mil pessoas. Ap\u00f3s pouco mais de um m\u00eas, o governo concordou em atender \u00e0s demandas. A <a href=\"https:\/\/sumauma.com\/en\/quando-a-imprensa-conta-mais-sobre-si-mesma-do-que-sobre-os-fatos\/\">grande imprensa<\/a> ficou horrorizada.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O epis\u00f3dio traz \u00e0 tona o papel cr\u00edtico desempenhado pelas corpora\u00e7\u00f5es multinacionais nos conflitos em torno da Amaz\u00f4nia. Ao analisar o boom da soja sul-americana no bioma e al\u00e9m, as maneiras pelas quais a concentra\u00e7\u00e3o corporativa em uma das principais atividades de exporta\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o contribuiu tanto para a ascens\u00e3o de um bloco de agroneg\u00f3cio de extrema direita quanto para as mobiliza\u00e7\u00f5es populares em defesa do meio ambiente come\u00e7am a ficar mais claras. Na <a href=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/battlefield-amazonia-2\/\">Meridional de fevereiro<\/a>, discuti como pol\u00edticas orientadas \u00e0 \u201cconserva\u00e7\u00e3o da terra\u201d ajudaram a criar as condi\u00e7\u00f5es para o bolsonarismo<em>. <\/em>Aqui, debaterei outro fator crucial na din\u00e2mica pol\u00edtica da Am\u00e9rica do Sul: as rela\u00e7\u00f5es de poder no interior das cadeias de suprimento.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>O capital na Amaz\u00f4nia<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O interesse do capital global pela floresta tropical n\u00e3o \u00e9 novidade. Na d\u00e9cada de 1920, por exemplo, Henry Ford comprou uma enorme \u00e1rea de terra no bioma, \u00e0 qual deu o nome de<a href=\"https:\/\/us.macmillan.com\/books\/9780312429621\/fordlandia\/\"> Fordl\u00e2ndia<\/a>, e esperava transform\u00e1-la em uma planta\u00e7\u00e3o de seringueiras para obter a mat\u00e9ria-prima necess\u00e1ria \u00e0 fabrica\u00e7\u00e3o dos pneus de seus carros produzidos em massa. Mas a import\u00e2ncia relativa do investimento estrangeiro variou ao longo do tempo. Pesquisadores cr\u00edticos que examinam a regi\u00e3o costumam argumentar que seria equivocado coloc\u00e1-lo no centro da an\u00e1lise, j\u00e1 que os principais problemas da Amaz\u00f4nia decorrem de fatores pol\u00edticos e econ\u00f4micos dom\u00e9sticos. \u201cO papel do capital internacional na gera\u00e7\u00e3o do desmatamento na Amaz\u00f4nia tem sido relativamente menor\u201d, escreveram Susanna Hecht e Alexander Cockburn em<a href=\"https:\/\/press.uchicago.edu\/ucp\/books\/book\/chicago\/F\/bo10387801.html\"> <em>The Fate of the Forest<\/em><\/a>, em 1990. Posteriormente, Hetch criticou as tentativas de associar o desmatamento \u00e0 demanda internacional por carne bovina. \u201cA chamada<a href=\"https:\/\/www.jstor.org\/stable\/1312340\"> conex\u00e3o do hamb\u00farguer<\/a>\u201d, argumentou ela, \u201csimplesmente n\u00e3o se aplica ao contexto amaz\u00f4nico atual.\u201d (A literatura daquele per\u00edodo sobre essa quest\u00e3o foi<a href=\"https:\/\/www.cambridge.org\/core\/journals\/journal-of-latin-american-studies\/article\/abs\/politics-of-amazonian-deforestation\/028DC6DF741EF57136DB1DE8310974FB\"> resumida<\/a> por Andrew Hurrell.)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas, no entanto, a situa\u00e7\u00e3o mudou radicalmente. A reestrutura\u00e7\u00e3o da economia mundial em torno da China tornou a Am\u00e9rica do Sul um importante fornecedor de commodities prim\u00e1rias para a produ\u00e7\u00e3o global e redefiniu o papel das corpora\u00e7\u00f5es transnacionais na regi\u00e3o, inclusive na floresta tropical. H\u00e1 uma s\u00e9rie de esfor\u00e7os not\u00e1veis de mapear esse fen\u00f4meno empiricamente. Uma<a href=\"https:\/\/eartharxiv.org\/repository\/view\/12041\/\"> estimativa recente<\/a> indica que 56% do desmatamento da Amaz\u00f4nia impulsionado por planta\u00e7\u00f5es de soja entre 2020 e 2022 pode ser atribu\u00eddo ao consumo internacional, e n\u00e3o ao dom\u00e9stico. Em um<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.gloenvcha.2018.09.008\"> artigo de 2018<\/a>, Victor Galaz e seus coautores argumentaram que os principais fatores da mudan\u00e7a no uso da terra na floresta tropical s\u00e3o a produ\u00e7\u00e3o de soja e de carne bovina, e que essas duas atividades econ\u00f4micas s\u00e3o dominadas por apenas 8 corpora\u00e7\u00f5es: 4 gigantes do com\u00e9rcio de gr\u00e3os (ADM, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus, conhecidas como ABCD), a<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2016.1146705\"> maior<\/a> produtora privada de soja do mundo (a brasileira Amaggi) e tr\u00eas empresas brasileiras de processamento de carne (JBS, Marfrig e Minerva). Galaz et al. tamb\u00e9m demonstraram que muitas dessas empresas est\u00e3o intimamente ligadas \u00e0s 16 institui\u00e7\u00f5es financeiras mais envolvidas em atividades que amea\u00e7am biomas cr\u00edticos para o clima do planeta, e especialmente \u00e0s \u201c<em>big three<\/em>\u201d da gest\u00e3o de ativos (BlackRock, Vanguard e State Street, todas com sede nos EUA).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A conex\u00e3o da ADM, da Bunge e da Minerva com essas 16 empresas financeiras ocorre principalmente por meio da participa\u00e7\u00e3o acion\u00e1ria, enquanto no caso da JBS e da Marfrig, a \u201cinflu\u00eancia latente dos investidores\u201d opera predominantemente por meio da d\u00edvida. (As tr\u00eas empresas restantes\u2014Amaggi, Cargill e Louis Dreyfus\u2014s\u00e3o de capital fechado, o que significa que os dados sobre seu entrela\u00e7amento com o capital financeiro s\u00e3o limitados.) A <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.gloenvcha.2018.09.008\">conclus\u00e3o<\/a> dos autores \u00e9 contundente: \u201cas \u2018gigantes financeiras\u2019, por meio de seu poder comum de participa\u00e7\u00e3o acion\u00e1ria, t\u00eam uma influ\u00eancia potencial anteriormente ignorada, mas consider\u00e1vel, nas empresas que moldam biomas cr\u00edticos para a estabilidade do sistema clim\u00e1tico.\u201d No ano passado, pesquisadores da University College London e da Universidade de Exeter foram ainda mais longe,<a href=\"https:\/\/papers.ssrn.com\/sol3\/papers.cfm?abstract_id=5119116\"> rastreando os fluxos financeiros<\/a>\u2014abrangendo empr\u00e9stimos e emiss\u00f5es de a\u00e7\u00f5es e de d\u00edvida\u2014direcionados a 24 corpora\u00e7\u00f5es, incluindo as oito empresas mencionadas acima, que foram \u201cassociadas a mudan\u00e7as significativas no uso da terra e \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o\u201d na Amaz\u00f4nia brasileira entre 2014 e 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O enfoque acad\u00eamico tamb\u00e9m se traduz, vez ou outra, em esfor\u00e7os para que essas corpora\u00e7\u00f5es transnacionais mudem suas pr\u00e1ticas. Em 2019, um <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1038\/s41559-019-0978-z\">grupo de 21<\/a> proeminentes pesquisadores prop\u00f4s \u201campliar o foco da \u2018responsabilidade social corporativa\u2019 para a \u2018gest\u00e3o corporativa da biosfera\u2019\u201d, defendendo \u201cuma nova l\u00f3gica empresarial voltada a orientar e preservar a resili\u00eancia da biosfera em benef\u00edcio do bem-estar humano\u201d. Outros<a href=\"https:\/\/wwfint.awsassets.panda.org\/downloads\/wwf_gfri_ucl-iipp-tipping-point-2025.pdf\"> apelaram aos bancos centrais e reguladores financeiros<\/a>, argumentando que \u00e9 de sua compet\u00eancia lidar com a degrada\u00e7\u00e3o do ecossistema, uma vez que ela \u201crepresenta riscos sist\u00eamicos crescentes para os sistemas econ\u00f4micos e financeiros\u201d. Restringir uma \u201cparte substancial\u201d dos fluxos financeiros a empresas que amea\u00e7am os pontos de inflex\u00e3o da Amaz\u00f4nia brasileira e das turfeiras indon\u00e9sias \u201cexigiria apenas coordena\u00e7\u00e3o entre um n\u00famero relativamente pequeno de centros financeiros\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A esperan\u00e7a impl\u00edcita nessa literatura ecoa<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/archive\/hilferding\/1910\/finkap\/ch25.htm\"> a observa\u00e7\u00e3o de Rudolf Hilferding<\/a> de que a concentra\u00e7\u00e3o provocada pelo capital financeiro poderia ser aproveitada para superar o pr\u00f3prio capitalismo. \u201cTomar posse de seis grandes bancos de Berlim\u201d, escreveu ele em 1910 em <em>O Capital Financeiro<\/em>, \u201csignificaria tomar posse das esferas mais importantes da ind\u00fastria de grande escala e facilitaria enormemente as fases iniciais da pol\u00edtica socialista\u201d\u2014exceto que o objetivo aqui n\u00e3o \u00e9 mais instaurar o socialismo, mas simplesmente preservar um planeta habit\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>N\u00e3o pode venc\u00ea-los? Junte-se a eles<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A expectativa de que os bancos centrais pudessem vir ao resgate diante do agravamento da crise clim\u00e1tica se baseava, ao que tudo indica, em uma conjuntura passageira, que chegou ao<a href=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/o-senso-comum-anti-clima\/\"> fim<\/a> com o retorno de Donald Trump \u00e0 Casa Branca no ano passado. Ainda assim, mesmo que esse impulso tivesse sido bem-sucedido, ele poderia ter produzido efeitos colaterais complexos. Como<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/14693062.2025.2482104\"> argumentou<\/a> Yannis Dafermos, \u201cas tentativas do setor financeiro privado de se proteger dos riscos clim\u00e1ticos\u201d\u2014e as tentativas das autoridades monet\u00e1rias de pression\u00e1-lo a faz\u00ea-lo\u2014podem agravar a injusti\u00e7a no financiamento clim\u00e1tico, aumentando os custos de endividamento enfrentados pelos pa\u00edses do Sul Global e aprofundando sua vulnerabilidade financeira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pesquisas sobre o papel do capital global na crise clim\u00e1tica devem, portanto, considerar os impactos da concentra\u00e7\u00e3o corporativa na pol\u00edtica em n\u00edvel nacional, investigando as alian\u00e7as constru\u00eddas por corpora\u00e7\u00f5es transnacionais com elites dom\u00e9sticas e as poss\u00edveis formas de resist\u00eancia que elas podem encontrar. Vista por esse prisma, a trajet\u00f3ria do boom da soja na Am\u00e9rica do Sul oferece pistas importantes. Desde o final da d\u00e9cada de 2010, a Am\u00e9rica do Sul \u00e9 respons\u00e1vel por mais da metade da produ\u00e7\u00e3o global de soja e por quase dois ter\u00e7os das exporta\u00e7\u00f5es globais da commodity. Em 2024, Argentina, Brasil e Paraguai<a href=\"https:\/\/atlas.hks.harvard.edu\/explore\/treemap?year=2024&amp;view=markets&amp;exporter=group-1&amp;product=product-HS92-753\"> representaram<\/a> 61% de todas as exporta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os dados disponibilizados pelo<a href=\"https:\/\/trase.earth\/\"> Trase.earth<\/a> deixam clara a predomin\u00e2ncia das gigantes do com\u00e9rcio de gr\u00e3os nas exporta\u00e7\u00f5es de soja do Brasil e da Argentina, como mostram as figuras abaixo. (Os dados<a href=\"https:\/\/trase.earth\/\"> incluem<\/a> a soja e \u201co equivalente bruto dos subprodutos comercializados\u201d, ou seja, \u201cfarelo e \u00f3leo de soja convertidos em toneladas equivalentes de soja\u201d.) As estat\u00edsticas para o Brasil come\u00e7am em 2004, quando as empresas da ABCD respondiam por 48,2% do total exportado em toneladas. Em 2009, sua participa\u00e7\u00e3o atingiu o pico de 59,8%, antes de cair gradualmente nos anos seguintes, chegando a 42,2% em 2022\u2014a informa\u00e7\u00e3o mais recente dispon\u00edvel. Apesar da queda, as quatro companhias permaneceram no controle de uma parcela expressiva de um mercado em franca expans\u00e3o: em 2022, as exporta\u00e7\u00f5es totalizaram 93,7 milh\u00f5es de toneladas de soja, contra 36,2 milh\u00f5es em 2004. Os dados relativos \u00e0 Argentina se restringem ao per\u00edodo entre 2015 e 2019 e mostram que a participa\u00e7\u00e3o das empresas do ABCD oscilou entre um quarto e um ter\u00e7o do total. A inclus\u00e3o de uma quinta gigante do com\u00e9rcio de commodities, a Glencore, eleva essa fatia para mais de 40%.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/chart1-pt-d-2-scaled.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-30013\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/chart2-pt-d-1-scaled.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-30016\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fundadas no s\u00e9culo XIX ou no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, as empresas ABCD viram sua influ\u00eancia global crescer na virada do mil\u00eanio, em paralelo \u00e0 expans\u00e3o da negocia\u00e7\u00e3o de contratos futuros de commodities. Jennifer Clapp<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2022.2129013\"> argumentou<\/a> que essa financeiriza\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio de commodities lhes permitiu \u201cexercer um enorme poder na defini\u00e7\u00e3o de sistemas alimentares\u201d. Lucrando com a volatilidade que provocou<a href=\"https:\/\/www.penguin.co.uk\/books\/440353\/the-world-for-sale-by-javier-blas-and-jack-farchy\/9781847942678\"> fome e rebeli\u00f5es populares<\/a> ao redor do mundo, essas corpora\u00e7\u00f5es eram conhecidas, segundo<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2014.993625\"> Gustavo de Oliveira e Mindi Schneider<\/a>, por \u201credirecionar navios em alto-mar para obter ganhos marginais sobre grandes volumes e especular nos mercados futuros com base em informa\u00e7\u00f5es privilegiadas decorrentes do controle de fatias significativas de mercados pouco transparentes\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na Am\u00e9rica do Sul, o dom\u00ednio dessas empresas foi estabelecido na d\u00e9cada de 1990 por meio da<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2015.1129496\"> onda de aquisi\u00e7\u00f5es<\/a> que fez parte do processo de neoliberaliza\u00e7\u00e3o. Ao aprofundarem a subordina\u00e7\u00e3o dos produtores de soja, elas iniciaram um processo cumulativo que refor\u00e7ou ainda mais seu controle. Comprimiram os pre\u00e7os pagos aos produtores e os empurraram a <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2016.1146705\">combinar<\/a> o uso intensivo de herbicidas com sementes geneticamente modificadas, \u201cpara evitar descontos no momento da entrega, aprofundando a esteira tecnol\u00f3gica e a depend\u00eancia dos agricultores de financiamento\u201d. No in\u00edcio dos anos 2000, passaram a<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2014.993625\"> controlar<\/a> \u201ctoda a log\u00edstica de transporte\u2026 bem como os terminais portu\u00e1rios, navios de carga e unidades de processamento que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, transformavam a soja em farelo e \u00f3leo vegetal\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O grande capital sul-americano n\u00e3o ofereceu muita resist\u00eancia a essa tend\u00eancia. No Brasil, a Amaggi manteve sua posi\u00e7\u00e3o de poder, controlando mais de<a href=\"https:\/\/trase.earth\/\"> 8%<\/a> das exporta\u00e7\u00f5es de soja do pa\u00eds em 2022 e cerca de<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2016.1146705\"> 1,6%<\/a> das \u00e1reas cultivadas em meados da d\u00e9cada de 2010, em parte por meio da coordena\u00e7\u00e3o com as grandes transnacionais. A empresa estabeleceu<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2016.1146705\"> joint ventures<\/a> com a Bunge e a Dreyfus e obteve financiamento da Mitsui (uma grande <em>trader<\/em> japonesa). Tamb\u00e9m exerceu influ\u00eancia pol\u00edtica significativa: seu propriet\u00e1rio,<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2023.2301440\"> Blairo Maggi<\/a>, foi governador do Mato Grosso entre 2003 e 2010, principal estado produtor de soja do Brasil, senador entre 2011 e 2016 e ministro da Agricultura entre 2016 e 2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na Argentina, os impostos sobre as exporta\u00e7\u00f5es de soja in natura fortaleceram grandes grupos agroindustriais nacionais que produzem \u00f3leo de soja, permitindo-lhes manter uma participa\u00e7\u00e3o nas exporta\u00e7\u00f5es totais semelhante \u00e0 das empresas ABCD (ver figura acima). Entre 2015 e 2019, as tr\u00eas maiores corpora\u00e7\u00f5es argentinas (Vicentin, AGD e Perez Companc) controlaram de um quarto a um ter\u00e7o do total das exporta\u00e7\u00f5es. (Envolvida em uma s\u00e9rie de esc\u00e2ndalos ap\u00f3s 2019, a Vicentin acabaria sendo resgatada por um empres\u00e1rio argentino com o<a href=\"https:\/\/batimes.com.ar\/news\/economy\/grassi-clears-hurdle-to-take-over-distressed-soy-giant.phtml\"> apoio da Cargill<\/a>.)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O capital estatal chin\u00eas representou um desafio mais significativo. Ap\u00f3s a chamada \u201ccrise da soja de 2004\u201d na China, quando uma mudan\u00e7a repentina no pre\u00e7o global da commodity levou v\u00e1rias processadoras chinesas \u00e0 fal\u00eancia, as empresas ABCD viram seu controle sobre o mercado chin\u00eas disparar. Em resposta, o governo priorizou a expans\u00e3o de corpora\u00e7\u00f5es chinesas, especialmente a COFCO, em uma disputa que ficou conhecida como \u201c<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2022.2054701\">batalha dos gr\u00e3os<\/a>\u201d. (Veja o<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2022.2054701\"> relato<\/a> detalhado de Tomaz Fares.) Os efeitos acabaram chegando \u00e0 Am\u00e9rica do Sul: no Brasil, a COFCO come\u00e7ou a exportar soja em 2005 e, desde 2014, passou a responder por uma fatia entre 5% e 8% das exporta\u00e7\u00f5es totais; na Argentina, sua participa\u00e7\u00e3o foi ainda maior, em torno de 10% entre 2015 e 2019. Parte relevante da queda, ap\u00f3s 2009, da participa\u00e7\u00e3o das empresas do ABCD no Brasil se explica pela ascens\u00e3o da COFCO. Ainda assim, essa mudan\u00e7a nas fatias de mercado pode exagerar o tamanho do desafio real. Inicialmente tratada com \u201c<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2022.2054701\">hostilidade particular<\/a>\u201d pelas empresas ABCD, que buscavam \u201cmanter seu controle oligopolista sobre as exporta\u00e7\u00f5es de soja\u201d, a COFCO foi for\u00e7ada a construir alian\u00e7as com as corpora\u00e7\u00f5es tradicionais, chegando a firmar um acordo preferencial com a ADM. Se n\u00e3o pode venc\u00ea-los, junte-se a eles.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Concentra\u00e7\u00e3o corporativa e a pol\u00edtica sul-americana<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 improv\u00e1vel que a ascens\u00e3o da COFCO traga concorr\u00eancia efetiva ao setor, limitando-se a aumentar de quatro para cinco o n\u00famero de empresas que comandam o oligops\u00f4nio da soja sul-americana. Dado o foco dessas companhias em processamento, comercializa\u00e7\u00e3o e log\u00edstica, o processo material de cultivo da soja continua a ser realizado por uma multid\u00e3o de agricultores, grandes e pequenos. Uma<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2016.1146705\"> pequena minoria<\/a> det\u00e9m vastas extens\u00f5es de terras agr\u00edcolas e consegue preservar algum grau de autonomia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s gigantes do com\u00e9rcio. Estimativas com dados de<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2016.1146705\"> meados da d\u00e9cada de 2010<\/a> indicavam que sete gigantescas empresas de gest\u00e3o agr\u00edcola\u2014<em>pools de siembra<\/em>, como s\u00e3o chamadas na Argentina\u2014controlavam quase 7% de todos os hectares plantados com soja na Argentina, no Brasil e no Paraguai. Somente no Brasil, cinco delas (incluindo a Amaggi) representavam cerca de 5% da \u00e1rea plantada de soja.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, por maiores que sejam, essas s\u00e3o as exce\u00e7\u00f5es. A imensa maioria dos produtores de soja \u00e9 significativamente menor, incluindo um grande contingente de m\u00e9dios e pequenos agricultores que, devido \u00e0 sua escala, est\u00e3o profundamente subordinados ao oligops\u00f4nio comercial. N\u00e3o apenas s\u00e3o tomadores de pre\u00e7o, como perderam a maior parte do controle de suas pr\u00f3prias opera\u00e7\u00f5es. \u201cA natureza e a \u2018autonomia da agricultura\u2019 s\u00e3o cada vez mais disciplinadas e estruturadas por formas externas de gest\u00e3o, baseadas na aplica\u00e7\u00e3o de pacotes tecnol\u00f3gicos e na log\u00edstica de servi\u00e7os agr\u00edcolas\u201d,<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2016.1146705\"> escreveram<\/a> Oliveira e Hecht. Na Argentina, essa transforma\u00e7\u00e3o da agricultura \u00e9 chamada de <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/dech.12362\"><em>sojizaci\u00f3n<\/em><\/a>, caracterizada por \u201cn\u00edveis mais elevados de capitaliza\u00e7\u00e3o, mecaniza\u00e7\u00e3o, investimento estrangeiro e economias de escala\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A base pol\u00edtica representada por essa multid\u00e3o de agricultores, ligada ao setor mais din\u00e2mico das economias da regi\u00e3o, poderia, em princ\u00edpio, ter sido mobilizada contra o oligops\u00f4nio, exigindo uma organiza\u00e7\u00e3o diferente da cadeia de suprimento. Mas, em vez disso, grupos rurais subordinados, desconfiados dos governos de centro-esquerda que presidiram a consolida\u00e7\u00e3o do oligops\u00f4nio comercial, viraram-se bruscamente para a direita. No Brasil, esses produtores de soja radicalizados ascenderam nas associa\u00e7\u00f5es estaduais do setor at\u00e9 hegemonizar a pol\u00edtica rural em escala nacional, fornecendo a Bolsonaro uma base eleitoral fundamental. Esse processo marcou o surgimento do que Caio Pompeia denomina <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2023.2301440\">agrobolsonarismo<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um desenvolvimento semelhante pode ser identificado na Argentina. Em 2008, quando o governo de Cristina Kirchner tentou aumentar os impostos sobre as exporta\u00e7\u00f5es de soja, foi derrotado de forma contundente por uma grande coaliz\u00e3o, em um conflito que ficou conhecido como <em>crise del campo<\/em>. Diana C\u00f3rdoba e seus coautores<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/dech.12362\"> descreveram<\/a> a <em>crise<\/em> como um \u201cprotesto rural de escala sem precedentes, no qual interesses rurais diversos e historicamente fragmentados se uniram em uma mobiliza\u00e7\u00e3o que durou meses\u201d. E seguiram:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Propriet\u00e1rios de terras, empreiteiros, trabalhadores, transportadores e outros atores rurais\u2014representando a elite agr\u00e1ria, pequenos produtores e a classe trabalhadora rural\u2014atuaram conjuntamente, utilizando caminh\u00f5es e maquin\u00e1rio agr\u00edcola para montar bloqueios em estradas rurais e interromper a circula\u00e7\u00e3o de produtos agr\u00edcolas (e de outros bens) em toda a principal regi\u00e3o produtiva do pa\u00eds.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alguns autores<a href=\"https:\/\/www.redalyc.org\/journal\/522\/52273389003\/52273389003.pdf\"> argumentaram<\/a> que as origens do movimento de direita na Argentina\u2014primeiro com a elei\u00e7\u00e3o de Mauricio Macri em 2015, depois com a vit\u00f3ria de Javier Milei em 2023\u2014podem ser encontradas justamente nessa crise de 2008. Tanto na Argentina quanto no Brasil, portanto, a transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica liderada pelas gigantes do com\u00e9rcio de gr\u00e3os aumentou a vulnerabilidade externa dos pa\u00edses ao mesmo tempo em que lan\u00e7ou as bases de uma pol\u00edtica antidemocr\u00e1tica. Esses exemplos recentes da hist\u00f3ria sul-americana mostram que a concentra\u00e7\u00e3o corporativa no <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2022.2129013\">sistema agroalimentar global<\/a> n\u00e3o apenas amea\u00e7a a seguran\u00e7a alimentar e intensifica as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, mas tamb\u00e9m enfraquece as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. Quando os grupos ind\u00edgenas enfrentaram a Cargill no in\u00edcio deste ano, n\u00e3o eram apenas seus meios de subsist\u00eancia que estavam em jogo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No in\u00edcio deste ano, na Amaz\u00f4nia brasileira, uma coaliz\u00e3o de 14 grupos ind\u00edgenas se levantou contra um decreto que previa a privatiza\u00e7\u00e3o da hidrovia que liga os munic\u00edpios de Itaituba e Santar\u00e9m, no Par\u00e1, bem como contra um projeto p\u00fablico de dragagem do rio Tapaj\u00f3s. 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