{"id":29317,"date":"2026-05-29T00:00:00","date_gmt":"2026-05-29T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/uncategorized\/mundo-em-carne-viva\/"},"modified":"2026-05-29T12:21:29","modified_gmt":"2026-05-29T12:21:29","slug":"futuro-do-sul-global","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/entrevistas-br\/futuro-do-sul-global\/","title":{"rendered":"Qual o futuro do Sul global?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os primeiros meses de 2026 testemunharam uma escalada sem precedentes da viol\u00eancia imperial. Os Estados Unidos sequestraram o presidente venezuelano Nicol\u00e1s Maduro, amea\u00e7aram invadir a Groenl\u00e2ndia, intensificaram o cerco contra Cuba, deram sinal verde para a continuidade do genoc\u00eddio na Palestina e iniciaram\u2014com Israel\u2014uma guerra contra o Ir\u00e3 que, entre bombardeios e cessar-fogos descumpridos, atingiu escolas e hospitais, destruiu infraestruturas cr\u00edticas em todo Golfo P\u00e9rsico e interrompeu o fluxo de navios na via mar\u00edtima respons\u00e1vel pelo transporte de um quinto de todo o petr\u00f3leo comercializado no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O aprofundamento da turbul\u00eancia global foi o tema desta entrevista com Celso Amorim. Os editores da PW, Maria Fernanda Sikorski e Hugo Fanton, discutiram com o principal conselheiro internacional de Lula o futuro dos organismos multilaterais criados no p\u00f3s-guerra, os dilemas estrat\u00e9gicos das pot\u00eancias m\u00e9dias diante do acirramento da competi\u00e7\u00e3o global e as transforma\u00e7\u00f5es na postura internacional dos Estados Unidos. Realizada em 10 de fevereiro em Bras\u00edlia e atualizada em 4 de mar\u00e7o para incluir uma reflex\u00e3o sobre os ataques contra o Ir\u00e3, a conversa traz uma perspectiva do Brasil e do Sul global acerca das rupturas e continuidades geopol\u00edticas atuais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Celso Amorim \u00e9 uma figura central da diplomacia e das rela\u00e7\u00f5es internacionais brasileiras h\u00e1 mais de tr\u00eas d\u00e9cadas. Foi ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores no governo Itamar Franco, em 1993, e posteriormente representante permanente do Brasil na Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Voltou ao cargo de chanceler com a chegada de Lula \u00e0 Presid\u00eancia, em 2003, permanecendo nele at\u00e9 2010, antes de ser nomeado ministro da Defesa por Dilma Rousseff. Atualmente, \u00e9 assessor-chefe da Assessoria Especial da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Entrevista com Celso Amorim<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">Maria Sikorski<\/span>: Como o senhor interpreta os acontecimentos recentes no Oriente M\u00e9dio e a escalada da press\u00e3o exercida pelos Estados Unidos e por Israel sobre o Ir\u00e3 neste momento? Quais objetivos estrat\u00e9gicos Washington e Tel Aviv buscam alcan\u00e7ar com essa ofensiva? Quem tende a se beneficiar e quais podem ser seus impactos globais?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">Celso Amorim<\/span>: Os ataques ao Ir\u00e3, bem como a resposta iraniana \u00e0 ofensiva dos Estados Unidos e de Israel, representam um agravamento significativo das tens\u00f5es regionais em um contexto internacional j\u00e1 marcado por graves instabilidades. A retra\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o para o di\u00e1logo e a crescente centralidade da for\u00e7a como instrumento pol\u00edtico s\u00e3o lament\u00e1veis. Em um curto intervalo, passou-se de sinais de progresso em conversas indiretas a uma opera\u00e7\u00e3o militar de grande escala. As consequ\u00eancias dessa ofensiva ainda s\u00e3o dif\u00edceis de mensurar, mas \u00e9 pouco plaus\u00edvel supor que ela ter\u00e1 resultados r\u00e1pidos ou de baixo custo, considerando as dimens\u00f5es demogr\u00e1ficas, hist\u00f3ricas e pol\u00edticas do Ir\u00e3. Os danos provavelmente n\u00e3o ficar\u00e3o contidos a um pa\u00eds ou regi\u00e3o, e eu n\u00e3o excluiria um cen\u00e1rio em que v\u00e1rios conflitos possam se interconectar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">Hugo Fanton<\/span>: Qual o significado geopol\u00edtico e diplom\u00e1tico do assassinato do chefe de Estado do Ir\u00e3, o Aiatol\u00e1 Ali Khamenei?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">CA<\/span>: O assassinato de um chefe de Estado ou de governo constitui uma viola\u00e7\u00e3o grave do direito internacional. Geopoliticamente, o deslocamento do conflito para o plano da elimina\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as tende a ampliar a instabilidade. No plano diplom\u00e1tico, compromete as possibilidades de interlocu\u00e7\u00e3o ao abalar a confian\u00e7a entre as partes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">MS<\/span>: O senhor descreveu a interven\u00e7\u00e3o militar dos Estados Unidos na Venezuela como um evento \u201ctragicamente surreal\u201d e alertou para o risco de um mundo cada vez menos regido por regras e previsibilidade. Mais de um m\u00eas ap\u00f3s o sequestro do presidente Nicol\u00e1s Maduro, as institui\u00e7\u00f5es internacionais criadas no p\u00f3s-guerra ainda n\u00e3o apresentaram uma resposta concreta ou coordenada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso evidencia uma tens\u00e3o fundamental entre os interesses estrat\u00e9gicos de cada pa\u00eds e os princ\u00edpios do multilateralismo. O sequestro de um chefe de Estado de um pa\u00eds soberano representa um estado de exce\u00e7\u00e3o global, em que a for\u00e7a substituiu definitivamente a diplomacia, ou ainda h\u00e1 alguma possibilidade de sobreviv\u00eancia da velha ordem do p\u00f3s-guerra?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">CA<\/span>: Este \u00e9 o pior momento para o di\u00e1logo internacional desde que passei a ocupar posi\u00e7\u00f5es de maior responsabilidade na vida p\u00fablica\u2014n\u00e3o falo do in\u00edcio da minha carreira diplom\u00e1tica, quando ainda n\u00e3o acompanhava esses processos de perto, mas do per\u00edodo em que estive diretamente envolvido na formula\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa. A situa\u00e7\u00e3o que vivemos hoje n\u00e3o preserva sequer o rito da hipocrisia nos termos de La Rochefoucauld, que dizia que \u201ca hipocrisia \u00e9 o tributo que o v\u00edcio paga \u00e0 virtude\u201d. Nem isso permanece: age-se simplesmente porque se tem for\u00e7a para agir. Considero o que aconteceu injustific\u00e1vel. \u00c9 uma viola\u00e7\u00e3o do direito internacional em seu sentido mais antigo, o do direito das gentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os pa\u00edses sempre guerrearam entre si, mas mesmo em contextos de guerra n\u00e3o se agia dessa maneira. Dentro de uma l\u00f3gica ainda reconhec\u00edvel de confronto entre Estados, podia ocorrer, por exemplo, a morte de um monarca em combate. Mas o que foi feito agora \u00e9 verdadeiramente surreal. N\u00e3o estou defendendo Nicol\u00e1s Maduro, nem afirmando que ele esteja certo. A quest\u00e3o aqui \u00e9 outra. As imagens e a forma como tudo ocorreu lembram muito mais o que se viu no caso de Saddam Hussein do que qualquer epis\u00f3dio recente das rela\u00e7\u00f5es internacionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A experi\u00eancia pol\u00edtica ensina que \u00e9 poss\u00edvel buscar brechas, promover mudan\u00e7as graduais, tentar influenciar os acontecimentos, mas n\u00e3o se pode ignorar a realidade. E a realidade, hoje, \u00e9 esta. A quest\u00e3o, portanto, \u00e9 como lidar com ela, e esse \u00e9 um desafio para o qual ainda n\u00e3o temos uma resposta plenamente definida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voc\u00ea mencionou, com raz\u00e3o, a aus\u00eancia de uma rea\u00e7\u00e3o mais firme do sistema multilateral. Mas \u00e9 preciso lembrar que o pr\u00f3prio sistema multilateral foi moldado ao final da Segunda Guerra Mundial em torno das grandes pot\u00eancias vencedoras e continua condicionado por essa estrutura. Cada uma delas atua at\u00e9 o limite de seus pr\u00f3prios interesses. Nenhuma est\u00e1 disposta, ao menos por enquanto, a assumir o risco de um confronto direto com aquela que ainda \u00e9\u2014e provavelmente continuar\u00e1 sendo por muito tempo\u2014a maior pot\u00eancia militar do mundo. Isso torna o momento atual particularmente perigoso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando fal\u00e1vamos em multipolaridade, imagin\u00e1vamos uma ordem internacional mais flex\u00edvel, talvez at\u00e9 o que poder\u00edamos chamar de \u201cmultipolaridade aberta\u201d. Mas o que vemos agora \u00e9 uma transforma\u00e7\u00e3o do conceito de multipolaridade, que vem sendo gradualmente confundido com uma l\u00f3gica de \u00e1reas de influ\u00eancia. Grandes pot\u00eancias, como R\u00fassia e China, condenaram verbalmente o que aconteceu com a Venezuela, mas nada de concreto foi feito. N\u00e3o houve sequer a apresenta\u00e7\u00e3o de uma resolu\u00e7\u00e3o ao Conselho de Seguran\u00e7a que, ainda que pudesse ser derrotada, teria ao menos permitido explicitar posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vivemos em um mundo muito dif\u00edcil, n\u00e3o h\u00e1 como esconder isso. H\u00e1 duas d\u00e9cadas, eu dizia que viv\u00edamos em um mundo de oportunidades. Hoje, vivemos em um mundo de dificuldades. Essas dificuldades se intensificaram significativamente diante da crueza que passou a marcar a pol\u00edtica externa norte-americana recente, orientada de maneira expl\u00edcita pela l\u00f3gica do interesse e sustentada por uma filosofia impl\u00edcita. N\u00e3o preciso citar o que todos j\u00e1 citaram, Tuc\u00eddides e por a\u00ed vai.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">HF<\/span>: Como o Brasil, que historicamente tem defendido solu\u00e7\u00f5es pac\u00edficas para controv\u00e9rsias e apostado no multilateralismo como instrumento central de sua pol\u00edtica externa, pode ou deve agir num contexto como esse?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">CA<\/span>: N\u00e3o h\u00e1 uma resposta simples. O Brasil deve continuar trabalhando pela multipolaridade. \u00c9 por isso que sempre reagi com certa cautela ao conceito de \u201chemisf\u00e9rio\u201d. N\u00e3o por raz\u00f5es geogr\u00e1ficas, que evidentemente existem, mas porque \u00e9 curioso falar em \u201chemisf\u00e9rio ocidental\u201d como categoria pol\u00edtica quando n\u00e3o h\u00e1 equivalente real de \u201chemisf\u00e9rio oriental\u201d. N\u00e3o vejo nisso qualquer determinismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil deve manter boas rela\u00e7\u00f5es com os Estados Unidos: isso \u00e9 evidente e dispensa maiores explica\u00e7\u00f5es. Mas, ao mesmo tempo, n\u00e3o pode deixar de cultivar rela\u00e7\u00f5es s\u00f3lidas com a China, a R\u00fassia e outros pa\u00edses. Para poder fazer pondera\u00e7\u00f5es, \u00e9 necess\u00e1rio preservar canais de di\u00e1logo com todos os lados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se ouvirmos certos discursos recentes sobre a R\u00fassia, por exemplo, percebe-se que muitas vezes n\u00e3o havia sequer disposi\u00e7\u00e3o inicial para o di\u00e1logo. N\u00e3o estou dizendo que o Brasil tenha sido respons\u00e1vel por mudar essa postura, mas \u00e9 importante que existam vozes capazes de insistir na necessidade de conversar. Fico satisfeito ao ver, por exemplo, iniciativas recentes de di\u00e1logo europeu\u2014como a visita de autoridades francesas \u00e0 R\u00fassia\u2014que apontam nessa dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vivemos uma realidade com aspectos profundamente negativos, mas tamb\u00e9m um momento em que as tens\u00f5es aparecem sem media\u00e7\u00f5es. \u00c9 um mundo, por assim dizer, em carne viva. Talvez nunca tenhamos experimentado uma situa\u00e7\u00e3o internacional t\u00e3o desnuda\u2014e isso, ao mesmo tempo em que aumenta os riscos, tamb\u00e9m elimina as fantasias sobre o funcionamento real da pol\u00edtica internacional. \u00c9 um mundo sem ilus\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso tem consequ\u00eancias diretas para o Brasil. Hoje, mesmo setores da sociedade que tradicionalmente n\u00e3o se interessavam por temas estrat\u00e9gicos ou de defesa passaram a refletir sobre essas quest\u00f5es. O pa\u00eds precisa desenvolver uma pol\u00edtica de defesa s\u00e9ria, n\u00e3o para enfrentar grandes pot\u00eancias\u2014jamais teremos capacidade de confrontar militarmente pa\u00edses como os Estados Unidos, a R\u00fassia ou a China\u2014, mas para dispor de uma capacidade real de dissuas\u00e3o. \u00c9 fundamental que qualquer ator externo saiba que uma eventual agress\u00e3o implicaria custos e danos relevantes. N\u00e3o \u00e9 uma tarefa simples, como os acontecimentos na Venezuela demonstram. Ainda assim, \u00e9 um esfor\u00e7o necess\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao mesmo tempo, o Brasil deve continuar contribuindo para a constru\u00e7\u00e3o de uma ordem internacional multipolar mais equilibrada, capaz de permitir rela\u00e7\u00f5es externas baseadas na autonomia e n\u00e3o em alinhamentos ideol\u00f3gicos autom\u00e1ticos. Talvez seja esse o caminho: combinar capacidade dissuas\u00f3ria com atua\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica em favor de um sistema internacional mais aberto e cooperativo. Agora, se me perguntarem se h\u00e1 garantias de sucesso, a resposta honesta \u00e9 n\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 certezas. Estamos lidando com um momento hist\u00f3rico profundamente incerto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">MS<\/span>: O senhor \u00e9 uma das principais vozes em defesa da coopera\u00e7\u00e3o regional na Am\u00e9rica Latina e, em particular, na Am\u00e9rica do Sul. Mas no momento em que as tens\u00f5es internacionais crescem dia a dia e a regi\u00e3o volta a ser alvo de press\u00f5es externas, a Am\u00e9rica Latina se encontra profundamente fragmentada. Considerando que a estrat\u00e9gia de defesa do Brasil \u00e9, h\u00e1 d\u00e9cadas, pensada em articula\u00e7\u00e3o com a coopera\u00e7\u00e3o regional\u2014com iniciativas como o Conselho de Defesa Sul-Americano, por exemplo\u2014, como essa fragmenta\u00e7\u00e3o afeta o pensamento estrat\u00e9gico brasileiro hoje?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">CA<\/span>: H\u00e1 muito tempo n\u00e3o vejo um momento t\u00e3o pouco favor\u00e1vel para a Am\u00e9rica Latina como um todo, e especialmente para a Am\u00e9rica do Sul. Ainda assim, \u00e9 preciso continuar trabalhando. N\u00e3o existe uma impossibilidade pr\u00e9via de dialogar ou cooperar com governos que pensam de maneira diferente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tivemos, por exemplo, uma rela\u00e7\u00e3o de coopera\u00e7\u00e3o bastante s\u00f3lida com o presidente colombiano \u00c1lvaro Uribe. Curiosamente, quando foi assinado o Tratado Constitutivo da UNASUL, o \u00fanico chefe de Estado que n\u00e3o compareceu foi o do Uruguai, Tabar\u00e9 V\u00e1zquez, que era politicamente pr\u00f3ximo de n\u00f3s; mesmo assim, enviou seu vice-presidente. Uribe, por sua vez, esteve presente e n\u00e3o houve maiores dificuldades. As diverg\u00eancias surgiram posteriormente, sobretudo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do Conselho de Defesa Sul-Americano, porque a Col\u00f4mbia tendia a misturar os conceitos de defesa externa e seguran\u00e7a interna, enquanto nossa vis\u00e3o era distinta. Apesar disso, tratava-se de uma diverg\u00eancia solucion\u00e1vel\u2014e foi superada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Conselho acabou sendo criado e contribuiu, inclusive, para reduzir tens\u00f5es em momentos delicados, como nas crises entre Col\u00f4mbia e Equador e entre Col\u00f4mbia e Venezuela. No marco mais amplo da UNASUL, tamb\u00e9m atuamos em situa\u00e7\u00f5es de crise interna, como na Bol\u00edvia, sempre a pedido das pr\u00f3prias autoridades locais, pois jamais intervir\u00edamos sem convite. Portanto, n\u00e3o h\u00e1 impossibilidade de di\u00e1logo com lideran\u00e7as que tenham vis\u00f5es diferentes, desde que exista disposi\u00e7\u00e3o para conversar. O que se torna mais dif\u00edcil \u00e9 sustentar processos de integra\u00e7\u00e3o quando as vis\u00f5es de mundo divergem profundamente, n\u00e3o apenas em termos de pol\u00edtica interna, mas tamb\u00e9m quanto a alian\u00e7as internacionais e orienta\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda assim, n\u00e3o devemos interromper o esfor\u00e7o. Continuaremos fazendo o que for poss\u00edvel. Como se costuma dizer, a pol\u00edtica \u00e9 a arte do poss\u00edvel, mas n\u00e3o apenas de aceitar seus limites. Trata-se tamb\u00e9m de ampliar o espa\u00e7o do poss\u00edvel, aproximando-o, tanto quanto se possa, do ideal, sabendo que esse ideal jamais ser\u00e1 plenamente alcan\u00e7ado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">HF<\/span>: O senhor considera que o projeto de integra\u00e7\u00e3o latino-americana ou sul-americana continua sendo decisivo para a inser\u00e7\u00e3o internacional do Brasil? Qual \u00e9 o papel estrat\u00e9gico da integra\u00e7\u00e3o regional em um momento geopol\u00edtico em que as \u00e1reas de influ\u00eancia regionais parecem ganhar novamente centralidade, com os Estados Unidos, por exemplo, retomando refer\u00eancias \u00e0 Doutrina Monroe?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">CA<\/span>: Isso \u00e9 algo que o Brasil n\u00e3o pode aceitar. Tenho a percep\u00e7\u00e3o\u2014ainda que possa estar enganado\u2014de que os Estados Unidos tratam o Brasil com certo grau de cautela, em raz\u00e3o de sua dimens\u00e3o territorial e populacional e de seu potencial econ\u00f4mico e energ\u00e9tico. Precisamos ter plena consci\u00eancia desse lugar. O Brasil n\u00e3o pode adotar uma pol\u00edtica externa marcada, como se dizia no passado, por \u201cvira-latismo\u201d. Esse n\u00e3o \u00e9, nem ser\u00e1, o papel do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acredito que, em rela\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses vizinhos, o Brasil deve sempre buscar manter boas rela\u00e7\u00f5es. O pr\u00f3prio presidente demonstrou isso recentemente, por exemplo, em sua viagem ao Panam\u00e1: a disposi\u00e7\u00e3o de dialogar independentemente de afinidades ideol\u00f3gicas. Evidentemente, h\u00e1 diferentes n\u00edveis de relacionamento. Uma coisa \u00e9 a proximidade pessoal; outra \u00e9 a conviv\u00eancia respeitosa entre Estados, baseada na cordialidade e no reconhecimento m\u00fatuo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil deve procurar manter com seus vizinhos algo mais do que simples cordialidade. Quando essa disposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o existe do outro lado, por\u00e9m, n\u00e3o cabe insistir indefinidamente; \u00e9 preciso permitir que cada pa\u00eds encontre seu pr\u00f3prio caminho. Em geral, esse distanciamento tamb\u00e9m acaba sendo prejudicial para eles, j\u00e1 que o Brasil representa um mercado importante e um parceiro natural na regi\u00e3o. Por isso, \u00e9 fundamental ter paci\u00eancia. A paci\u00eancia \u00e9 uma virtude indispens\u00e1vel na pol\u00edtica internacional\u2014e apenas lideran\u00e7as com vis\u00e3o estrat\u00e9gica, como o presidente Lula, compreendem a import\u00e2ncia de agir dessa forma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora, voc\u00eas mencionaram Cuba, e eu n\u00e3o quero me omitir nesse ponto. O que est\u00e1 acontecendo ali \u00e9 profundamente tr\u00e1gico. N\u00e3o se trata simplesmente de pressionar ou substituir um governo. As san\u00e7\u00f5es impostas n\u00e3o recaem apenas sobre um regime, mas sobre um povo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao mesmo tempo, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil saber como lidar com uma situa\u00e7\u00e3o como essa. O pr\u00f3prio Brasil disp\u00f5e hoje de poucos instrumentos concretos para ajudar, porque o grau de interdepend\u00eancia do sistema financeiro internacional \u00e9 tal que praticamente qualquer transa\u00e7\u00e3o acaba passando por mecanismos sujeitos \u00e0 jurisdi\u00e7\u00e3o americana e, portanto, a san\u00e7\u00f5es. A mesma coisa ocorre com o petr\u00f3leo, com a Petrobras. Ficamos, assim, fortemente limitados. Ainda assim, considero que essa quest\u00e3o precisa ser objeto de reflex\u00e3o internacional mais ampla, porque n\u00e3o diz respeito apenas a Cuba. O precedente criado pode ter consequ\u00eancias graves para toda a regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Independentemente das simpatias ou discord\u00e2ncias pol\u00edticas que se possa ter, a trajet\u00f3ria hist\u00f3rica de Cuba \u00e9 pr\u00f3pria: houve uma revolu\u00e7\u00e3o, os invasores foram expelidos. Pode-se discutir, e muitos discutem, os erros e limita\u00e7\u00f5es do sistema pol\u00edtico que se consolidou a partir dali. Mas n\u00e3o \u00e9 matando um povo de fome com san\u00e7\u00f5es e isolamento que a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ser\u00e1 alterada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O G77 chegou a discutir a ado\u00e7\u00e3o de uma resolu\u00e7\u00e3o sobre o tema, mas esse tipo de decis\u00e3o depende de consenso entre os membros. Pelo que acompanhei, um ou dois pa\u00edses da pr\u00f3pria Am\u00e9rica do Sul acabaram impedindo a forma\u00e7\u00e3o desse consenso. Isso \u00e9 lament\u00e1vel, porque a condena\u00e7\u00e3o de san\u00e7\u00f5es unilaterais foi, historicamente, um dos pontos de converg\u00eancia duradouros entre os pa\u00edses da regi\u00e3o. Ver essa unidade se enfraquecer \u00e9 realmente preocupante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">HF<\/span>: Seria poss\u00edvel pensar na constru\u00e7\u00e3o de um mecanismo regional de apoio emergencial, envolvendo o M\u00e9xico, por exemplo, para enfrentar essa situa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">CA<\/span>: N\u00e3o sei dizer. O pr\u00f3prio M\u00e9xico enfrenta desafios significativos. Temos grande admira\u00e7\u00e3o pela presidenta Cl\u00e1udia Scheinbaum, mas cada pa\u00eds tamb\u00e9m precisa lidar com suas pr\u00f3prias prioridades internas e, quando a pr\u00f3pria seguran\u00e7a est\u00e1 em jogo, \u00e9 dif\u00edcil assumir iniciativas dessa natureza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De todo modo, lembro-me de ter dito certa vez a parlamentares americanos que, em certo sentido, os Estados Unidos j\u00e1 perderam a guerra que iniciaram contra Cuba h\u00e1 mais de sessenta anos. O regime n\u00e3o foi derrubado. Agora trata-se de destruir o povo, porque n\u00e3o h\u00e1 alternativa ali. A quest\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 simplesmente a substitui\u00e7\u00e3o de um governo por outro,&nbsp; como ocorre em outros contextos pol\u00edticos da regi\u00e3o. No caso cubano, trata-se de uma realidade hist\u00f3rica muito espec\u00edfica, em que as alternativas percebidas s\u00e3o extremamente limitadas: ou a continuidade do sistema atual ou o retorno a uma situa\u00e7\u00e3o anterior \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o vou usar todas as palavras que j\u00e1 ouvi para descrever o tempo do Batista, uma mistura de cassino com coisas piores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">HF<\/span>: Nos primeiros governos Lula e no governo Dilma, o senhor formulou e frequentemente descreveu a pol\u00edtica externa brasileira como \u201caltiva e ativa\u201d. Mais recentemente, surgiu o termo \u201cn\u00e3o alinhamento ativo\u201d. H\u00e1, entre essas duas formula\u00e7\u00f5es, uma mudan\u00e7a de princ\u00edpio ou de orienta\u00e7\u00e3o conceitual, ou s\u00e3o apenas concep\u00e7\u00f5es distintas para um mesmo posicionamento internacional? E quais seriam as implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas dessas diferen\u00e7as?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">CA<\/span>: N\u00e3o creio que haja grandes mudan\u00e7as conceituais entre uma formula\u00e7\u00e3o e outra. Talvez haja maior precis\u00e3o em uma do que na outra. Mas devo dizer que a express\u00e3o \u201caltiva e ativa\u201d n\u00e3o nasceu de uma elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica profunda, mas de uma necessidade circunstancial. Em 2003, quando o presidente Lula anunciava minha nomea\u00e7\u00e3o, havia outros ministros presentes, e eu sabia que n\u00e3o poderia fazer uma exposi\u00e7\u00e3o longa, precisava dizer algo em quatro ou cinco minutos, no m\u00e1ximo. Procurei, ent\u00e3o, sintetizar qual seria a orienta\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa do novo governo. Tentei identificar a principal diferen\u00e7a que ela teria em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica externa conduzida no governo de Fernando Henrique Cardoso. N\u00e3o se trata de uma mudan\u00e7a radical, ao menos no plano conceitual\u2014na pr\u00e1tica, isso pode ser discutido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A diferen\u00e7a fundamental era que o Brasil n\u00e3o se subordinaria a agendas definidas externamente\u2014a ALCA \u00e9 um exemplo evidente\u2014e, ao mesmo tempo, adotaria uma postura mais proativa na rela\u00e7\u00e3o com outros pa\u00edses em desenvolvimento. Da\u00ed a ideia de uma pol\u00edtica externa ao mesmo tempo altiva e ativa: altiva no sentido de preservar autonomia decis\u00f3ria, e ativa no sentido de ampliar iniciativas e parcerias internacionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fui embaixador durante o governo Fernando Henrique Cardoso e n\u00e3o tenho qualquer queixa pessoal\u2014pelo contr\u00e1rio, tenho admira\u00e7\u00e3o por ele. Frequentemente, por\u00e9m, as instru\u00e7\u00f5es que recebia apontavam nessa dire\u00e7\u00e3o: agir com cautela e evitar iniciativas que pudessem gerar atritos desnecess\u00e1rios com os Estados Unidos ou a Uni\u00e3o Europeia. Ainda que n\u00e3o formulada de maneira expl\u00edcita, essa era, no fundo, a orienta\u00e7\u00e3o predominante. A pol\u00edtica externa que passamos a conduzir no governo Lula foi um pouco mais altiva nesse aspecto. E mais ativa, porque se a recomenda\u00e7\u00e3o anterior era evitar o protagonismo, agora, seguir\u00edamos uma pol\u00edtica externa definida por n\u00f3s mesmos o tanto quanto poss\u00edvel, sempre com realismo, naturalmente, porque todos sabem que existem assimetrias e influ\u00eancias internacionais, mas sem receio de tomar iniciativas pr\u00f3prias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 no primeiro ano e meio do governo Lula, fortalecemos o Mercosul, avan\u00e7amos no acordo entre o Mercosul e a Comunidade Andina (que posteriormente daria origem \u00e0 UNASUL), ampliamos significativamente a presen\u00e7a brasileira na \u00c1frica, com in\u00fameras visitas presidenciais, e realizamos a C\u00fapula Am\u00e9rica do Sul\u2013Pa\u00edses \u00c1rabes (ASPA).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era, portanto, uma pol\u00edtica externa ativa, com protagonismo, que n\u00e3o temia se envolver em temas considerados sens\u00edveis. Havia, por exemplo, a grave crise venezuelana, marcada inclusive pela tentativa de golpe em 2002\u2014que, \u00e9 justo reconhecer, tamb\u00e9m havia sido condenada pelo governo Fernando Henrique\u2014, mas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 qual o Brasil passou a exercer um papel mais direto de media\u00e7\u00e3o e apoio \u00e0 estabilidade regional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A express\u00e3o \u201cn\u00e3o alinhamento ativo\u201d foi formulada pelo chileno Carlos Ominami. Participei, inclusive, da primeira reuni\u00e3o que ele organizou sobre o tema. Na ocasi\u00e3o, comentei que ficava muito satisfeito com a escolha do termo, porque ele acabava reunindo duas tradi\u00e7\u00f5es da pol\u00edtica externa brasileira: no passado, tivemos uma pol\u00edtica de n\u00e3o alinhamento autom\u00e1tico e, mais tarde, formulamos a ideia de uma diplomacia altiva e ativa. De certo modo, o conceito de n\u00e3o alinhamento ativo combina esses dois elementos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda assim, n\u00e3o se trata de uma doutrina r\u00edgida. Muitas vezes se afirma que o Brasil \u00e9 um pa\u00eds ocidental\u2014e, sob certos aspectos, talvez seja\u2014, mas o Brasil tamb\u00e9m \u00e9 um pa\u00eds do Sul. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, nossa orienta\u00e7\u00e3o deve ser guiada pelos interesses nacionais em cada circunst\u00e2ncia concreta. Em algumas quest\u00f5es, votaremos ao lado dos Estados Unidos; em outras, poderemos convergir com a China. Essa \u00e9, precisamente, a l\u00f3gica do n\u00e3o alinhamento ativo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">HF<\/span>: Numa conjuntura t\u00e3o contenciosa como a atual, o senhor acredita que ainda h\u00e1 espa\u00e7o para uma pol\u00edtica de n\u00e3o alinhamento ativo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">CA<\/span>: O tempo dir\u00e1. O Brasil continua seguindo esse caminho. Em 2024, no contexto da guerra na Ucr\u00e2nia, quando ningu\u00e9m falava em di\u00e1logo, articulamos com a China um documento conjunto propondo a abertura de um espa\u00e7o internacional para di\u00e1logo pol\u00edtico e a rejei\u00e7\u00e3o de uma escalada militar. Hoje, vemos at\u00e9 pa\u00edses europeus reconhecerem que qualquer solu\u00e7\u00e3o duradoura precisa levar em conta realidades geopol\u00edticas b\u00e1sicas, como o fato de que a R\u00fassia continuar\u00e1 sendo parte da Europa. Esse reconhecimento demorou a surgir. Naquele momento, Brasil e China buscaram justamente estimular essa reflex\u00e3o. Diria, inclusive, que a iniciativa partiu em grande medida do Brasil, que era mais frequentemente solicitado a desempenhar esse papel de interlocu\u00e7\u00e3o, embora tenhamos encontrado na China grande receptividade intelectual e pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir desse entendimento, contribu\u00edmos para a cria\u00e7\u00e3o de um Grupo de Amigos da Paz nas Na\u00e7\u00f5es Unidas, voltado \u00e0 promo\u00e7\u00e3o do di\u00e1logo. Portanto, creio que ainda h\u00e1 espa\u00e7o para esse tipo de atua\u00e7\u00e3o. Evidentemente, o contexto mudou. Essa iniciativa ocorreu antes do retorno de Donald Trump, cujo governo tem dado pouca aten\u00e7\u00e3o a esse tipo de esfor\u00e7o multilateral. O mundo, por\u00e9m, est\u00e1 passando por transforma\u00e7\u00f5es profundas, possivelmente compar\u00e1veis apenas \u00e0s mudan\u00e7as ocorridas no rescaldo das guerras mundiais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, o sistema internacional come\u00e7a a sentir os efeitos de uma realidade em que os Estados Unidos j\u00e1 n\u00e3o exercem a mesma posi\u00e7\u00e3o incontest\u00e1vel de pot\u00eancia dominante. Trata-se, sem atribuir qualquer ju\u00edzo de valor ao termo, de um momento verdadeiramente revolucion\u00e1rio, cuja dire\u00e7\u00e3o final ainda \u00e9 incerta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse cen\u00e1rio, o Brasil procura manter sua linha de atua\u00e7\u00e3o. O fortalecimento do BRICS, cuja origem remonta ao primeiro governo Lula, \u00e9 parte dessa estrat\u00e9gia. O banco do BRICS permanece ativo, e seguimos buscando mecanismos de coopera\u00e7\u00e3o que ampliem as possibilidades de a\u00e7\u00e3o em um mundo cada vez mais complexo\u2014muito distinto daquele que encontrei quando fui ministro das Rela\u00e7\u00f5es exteriores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">MS<\/span>: Em que medida a formula\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica externa \u201caltiva e ativa\u201d tamb\u00e9m representou uma redefini\u00e7\u00e3o da forma como o Brasil buscava se posicionar diante de Washington?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">CA<\/span>: Em 2002, por exemplo, o Brasil tomou a iniciativa de criar o chamado Grupo de Pa\u00edses Amigos da Venezuela. Foi uma proposta do presidente Lula que permitiu reunir, de um lado, pa\u00edses que mantinham maior simpatia pelo governo venezuelano e, de outro, atores importantes como os pr\u00f3prios Estados Unidos. O objetivo era justamente criar um espa\u00e7o de media\u00e7\u00e3o capaz de preservar o di\u00e1logo em meio \u00e0 grave crise pol\u00edtica que o pa\u00eds atravessava.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pessoa com quem eu mais conversava sobre esse tema era o ent\u00e3o secret\u00e1rio de Estado norte-americano, Colin Powell. Eu estava muito preocupado com a necessidade de manter o di\u00e1logo pol\u00edtico na Venezuela, sobretudo porque o referendo revogat\u00f3rio come\u00e7ava a se delinear como uma poss\u00edvel sa\u00edda institucional para a crise. Havia tamb\u00e9m a quest\u00e3o da presen\u00e7a de observadores internacionais\u2014naquele per\u00edodo, a OEA ainda desfrutava de um grau de credibilidade maior do que viria a ter no per\u00edodo de Luis Almagro. Quer\u00edamos assegurar legitimidade internacional ao processo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em meio \u00e0quela grande tens\u00e3o, tentei convencer o presidente Ch\u00e1vez da import\u00e2ncia dessas garantias. Ao mesmo tempo, soube que Roger Noriega, um assessor norte-americano, faria declara\u00e7\u00f5es no Senado dos Estados Unidos que poderiam agravar ainda mais a situa\u00e7\u00e3o. Por coincid\u00eancia, eu estava em Nova York e telefonei diretamente para Colin Powell, pedindo que verificasse o teor da interven\u00e7\u00e3o, porque Ch\u00e1vez era extremamente sens\u00edvel a qualquer sinal externo que pudesse ser interpretado como inger\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Num primeiro momento, Powell n\u00e3o compreendeu bem o pedido e respondeu que n\u00e3o tinha controle sobre os senadores americanos. Expliquei ent\u00e3o que n\u00e3o me referia aos senadores, mas ao representante do pr\u00f3prio governo que faria o depoimento. O que aconteceu em seguida foi algo bastante incomum na pr\u00e1tica diplom\u00e1tica. Powell encaminhou previamente o texto da interven\u00e7\u00e3o que seria apresentada ao Congresso para que pud\u00e9ssemos examin\u00e1-lo. Em muitos anos de diplomacia, raramente se v\u00ea um gesto desse tipo, sobretudo na rela\u00e7\u00e3o entre pa\u00edses de peso t\u00e3o distinto. Isso demonstra o n\u00edvel de di\u00e1logo e coopera\u00e7\u00e3o que existia naquele momento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Poderia citar v\u00e1rios outros exemplos. Ainda sob o governo Bush, o Brasil foi convidado a participar da Confer\u00eancia de An\u00e1polis, apesar das cr\u00edticas internas de que estar\u00edamos mantendo uma interlocu\u00e7\u00e3o excessiva com os pa\u00edses \u00e1rabes. Estive cinco vezes na Palestina, mas tamb\u00e9m visitei Israel em diversas ocasi\u00f5es, e o presidente Lula foi o primeiro chefe de Estado brasileiro a realizar uma visita oficial a Israel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na Confer\u00eancia de An\u00e1polis, realizada em 2007, o Brasil foi convidado, ao lado da \u00cdndia e da \u00c1frica do Sul\u2014salvo engano, os \u00fanicos pa\u00edses em desenvolvimento n\u00e3o predominantemente mu\u00e7ulmanos presentes\u2014, o que refletia o reconhecimento internacional do papel equilibrado que o pa\u00eds buscava desempenhar no di\u00e1logo entre diferentes regi\u00f5es e atores. J\u00e1 durante o governo Barack Obama, vou me limitar aos dois anos em que atuei como chanceler, porque posteriormente assumi o Minist\u00e9rio da Defesa. Mantivemos uma rela\u00e7\u00e3o normal; surgiu, \u00e9 verdade, o grave epis\u00f3dio da espionagem, mas, no plano pessoal, n\u00e3o tive com Obama o mesmo grau de proximidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O principal epis\u00f3dio daquele per\u00edodo foi nossa coopera\u00e7\u00e3o em temas como o Haiti, ainda que limitada, e sobretudo a quest\u00e3o iraniana. Curiosamente, ao observar os acontecimentos atuais, tenho a impress\u00e3o de que a hist\u00f3ria, de certa forma, se repete\u2014ainda que hoje em circunst\u00e2ncias mais graves. Naquele momento, o pr\u00f3prio governo americano solicitou que o Brasil intercedesse junto ao Ir\u00e3. N\u00f3s o fizemos. O processo levou v\u00e1rios meses, como \u00e9 natural em negocia\u00e7\u00f5es dessa natureza, mas ao final alcan\u00e7amos exatamente os termos que haviam sido previamente indicados pelos Estados Unidos como aceit\u00e1veis. Ainda assim, posteriormente, os Estados Unidos recuaram e optaram por levar a quest\u00e3o \u00e0 vota\u00e7\u00e3o no Conselho de Seguran\u00e7a das Na\u00e7\u00f5es Unidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi um momento dif\u00edcil. Mesmo assim, o epis\u00f3dio n\u00e3o comprometeu a rela\u00e7\u00e3o bilateral. Poucos meses depois, durante a Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas, mantivemos contatos absolutamente normais: estavam presentes Bill Clinton e Hillary Clinton, que inclusive me convidaram para encontros naquele contexto. Isso demonstra que, apesar das diverg\u00eancias pontuais, o di\u00e1logo bilateral permaneceu aberto e funcional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">MS<\/span>: Esse \u00e9 o retrato de d\u00e9cadas de protagonismo na pol\u00edtica externa brasileira. O senhor foi ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores no Brasil durante os governos de Itamar Franco e Lula da Silva 1 e 2, ministro da Defesa durante o governo de Dilma Rousseff e agora \u00e9 Chefe da Assessoria Especial da Presid\u00eancia no terceiro mandato de Lula. Ou seja, esteve diretamente envolvido na formula\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa brasileira enquanto Bill Clinton, George W. Bush, Barack Obama, Joe Biden e Donald Trump presidiram os Estados Unidos. Quais foram as principais mudan\u00e7as na rela\u00e7\u00e3o bilateral entre os pa\u00edses nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">CA<\/span>: A maior mudan\u00e7a que vejo desde que fui ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores pela primeira vez, no governo de Itamar Franco no Brasil e de Bill Clinton nos Estados Unidos, \u00e9 do ponto de vista comercial. Na d\u00e9cada de 1990, os Estados Unidos eram o maior parceiro comercial do Brasil e respondiam por cerca de 25% das nossas exporta\u00e7\u00f5es. Hoje, essa participa\u00e7\u00e3o caiu para cerca de 12%. Isso representa uma grande mudan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os EUA continuam sendo, evidentemente, um parceiro comercial muito importante\u2014ainda s\u00e3o o segundo maior pa\u00eds individualmente considerado. Houve um momento em que a Argentina chegou a se aproximar dessa posi\u00e7\u00e3o. Mas, hoje, a dist\u00e2ncia do segundo colocado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 China \u00e9 muito grande, o que naturalmente produz uma percep\u00e7\u00e3o diferente da rela\u00e7\u00e3o bilateral. Ainda assim, os Estados Unidos mant\u00eam uma enorme influ\u00eancia cultural. Todos ficam felizes quando um filme brasileiro \u00e9 premiado em Cannes, mas a verdadeira como\u00e7\u00e3o nacional ocorre quando ganha o Oscar. Isso revela a persist\u00eancia de uma hegemonia cultural norte-americana extremamente forte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Politicamente, houve alguma oscila\u00e7\u00e3o. Em termos estritamente conceituais, considerando os governos nos quais servi, houve em geral maior afinidade com administra\u00e7\u00f5es democratas nos EUA. Na pr\u00e1tica, contudo, mantivemos uma rela\u00e7\u00e3o muito positiva com o presidente Bush e, apesar dos desafios, buscamos preservar uma rela\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tica com o presidente Trump.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">MS<\/span>: Qual o papel do BRICS nesse contexto? Que balan\u00e7o o senhor faz da atua\u00e7\u00e3o recente do grupo e quais s\u00e3o, hoje, as possibilidades reais de coopera\u00e7\u00e3o entre seus membros, inclusive como bloco, para apoiar determinadas agendas internacionais?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">CA<\/span>: A exist\u00eancia do BRICS \u00e9 extremamente importante. Como qualquer mecanismo internacional, o grupo tem imperfei\u00e7\u00f5es\u2014sempre haver\u00e1 debates sobre quais pa\u00edses deveriam ou n\u00e3o ter sido inclu\u00eddos, ou sobre o ritmo e a forma de sua amplia\u00e7\u00e3o. Essas s\u00e3o quest\u00f5es naturais e vari\u00e1veis. De todo modo, creio que a decis\u00e3o de expandir o BRICS foi correta em princ\u00edpio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 pa\u00edses relevantes\u2014como a Indon\u00e9sia, entre outros\u2014cuja participa\u00e7\u00e3o refor\u00e7a a representatividade do grupo. Evidentemente, quanto maior o n\u00famero de membros, maior a diversidade de interesses e, consequentemente, mais complexa se torna a tomada de decis\u00f5es. De certo modo, ampliar a representatividade tende a reduzir a efic\u00e1cia operacional imediata. Ainda assim, avalio que o balan\u00e7o \u00e9 positivo. O simples fato de o grupo existir, reunir-se regularmente e manter canais permanentes de di\u00e1logo j\u00e1 constitui um elemento de peso no cen\u00e1rio internacional. Mesmo quando h\u00e1 posi\u00e7\u00f5es cautelosas ou aus\u00eancias pontuais, permanece a percep\u00e7\u00e3o de que se trata de uma articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica real, capaz de atuar quando necess\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa avalia\u00e7\u00e3o, ali\u00e1s, n\u00e3o \u00e9 apenas nossa. Analistas e pensadores pol\u00edticos nos Estados Unidos, na Europa e em outras regi\u00f5es reconhecem que o BRICS se consolidou como um polo relevante de coordena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">MS<\/span>: A busca por mecanismos alternativos ao d\u00f3lar tornou-se uma quest\u00e3o de seguran\u00e7a econ\u00f4mica e pol\u00edtica para os pa\u00edses do Sul global? Qual o papel do BRICS nisso?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">CA<\/span>: A quest\u00e3o da desdolariza\u00e7\u00e3o pode estar relacionada ao BRICS, mas n\u00e3o se limita a ele. N\u00e3o sou economista, mas, pelo que acompanho, trata-se de um processo que j\u00e1 vem ocorrendo gradualmente. Afinal, uma moeda internacional \u00e9, essencialmente, uma quest\u00e3o de confian\u00e7a. Quando surge a percep\u00e7\u00e3o de que essa moeda pode ser utilizada como instrumento pol\u00edtico, seja para fins pr\u00f3prios, seja para restringir transa\u00e7\u00f5es entre terceiros, os pa\u00edses naturalmente come\u00e7am a buscar alternativas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso n\u00e3o significa que veremos, de um dia para o outro, o fim da centralidade do d\u00f3lar. N\u00e3o creio em mudan\u00e7as abruptas dessa natureza. No entanto, j\u00e1 se observa a China promovendo o renminbi como moeda de reserva internacional, algo que, em certa medida, come\u00e7a a ocorrer. O euro tamb\u00e9m desempenhou parcialmente esse papel e, recentemente, voltou a ganhar espa\u00e7o. Al\u00e9m disso, muitos pa\u00edses passaram a aumentar suas reservas em ouro, justamente como forma de diversifica\u00e7\u00e3o diante de uma poss\u00edvel eros\u00e3o da confian\u00e7a nas moedas de refer\u00eancia tradicionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Portanto, trata-se de um fen\u00f4meno real, ainda que gradual. Uma desdolariza\u00e7\u00e3o declarada ou repentina seria extremamente complexa, dada a densidade das rela\u00e7\u00f5es financeiras e comerciais globais. O mais prov\u00e1vel \u00e9 um processo progressivo de diversifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Paradoxalmente, a pr\u00f3pria eros\u00e3o das regras internacionais contribui para esse movimento. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fragilizar seletivamente normas do sistema internacional e, ao mesmo tempo, esperar que a confian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es, inclusive monet\u00e1rias, permane\u00e7a intacta. A forma como san\u00e7\u00f5es e instrumentos financeiros v\u00eam sendo utilizados tende inevitavelmente a afetar a percep\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a associada ao d\u00f3lar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Algo semelhante ocorre em outras \u00e1reas da pol\u00edtica internacional. No conflito entre R\u00fassia e Ucr\u00e2nia, por exemplo, permanece o debate sobre as origens mais amplas da crise: o que causou a guerra foi a expans\u00e3o da OTAN, o golpe de 2014 ou a deteriora\u00e7\u00e3o progressiva do ambiente de seguran\u00e7a europeu? Isso demonstra como conflitos complexos raramente t\u00eam causas \u00fanicas e como, em \u00faltima inst\u00e2ncia, torna-se necess\u00e1rio buscar uma paz poss\u00edvel, ainda que imperfeita. No plano econ\u00f4mico, a l\u00f3gica \u00e9 parecida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No passado, muitos criticaram a decis\u00e3o brasileira de n\u00e3o aderir \u00e0 ALCA. Naquele momento, os Estados Unidos e a Uni\u00e3o Europeia concentravam parcelas semelhantes do nosso com\u00e9rcio exterior, cerca de um quarto cada. Caso a ALCA tivesse sido implementada, o grau de depend\u00eancia brasileira em rela\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos poderia hoje ser muito maior. Isso significa que medidas como aumentos tarif\u00e1rios ou restri\u00e7\u00f5es comerciais produzem impactos mais limitados do que produziriam em um cen\u00e1rio de maior concentra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em outras palavras, a estrat\u00e9gia de diversifica\u00e7\u00e3o, associada \u00e0 ideia de multipolaridade, n\u00e3o \u00e9 apenas uma formula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica abstrata. Ela constitui um elemento concreto de resili\u00eancia econ\u00f4mica e de autonomia estrat\u00e9gica para o Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">HF<\/span>: Nesse contexto, o BRICS pode ser entendido como um espa\u00e7o de diversifica\u00e7\u00e3o e de coordena\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica entre pa\u00edses que buscam uma ordem internacional mais equilibrada?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">CA<\/span>: O BRICS contribui, de fato, para o fortalecimento de uma ordem internacional mais multipolar. Quando comparamos f\u00f3runs como o G7 e o G20, isso fica claro. A diferen\u00e7a n\u00e3o est\u00e1 apenas na presen\u00e7a dos pa\u00edses do BRICS, evidentemente, mas no grau mais amplo de diversidade que o G20 incorpora. O pr\u00f3prio presidente Bush teve a percep\u00e7\u00e3o, especialmente no contexto da crise financeira internacional, de que seria necess\u00e1rio ampliar o espa\u00e7o de coordena\u00e7\u00e3o global. O G20 surgiu justamente como uma inst\u00e2ncia mais representativa, capaz de reunir economias desenvolvidas e emergentes em torno de solu\u00e7\u00f5es comuns.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 claro que o G20 poderia evoluir. Seria desej\u00e1vel ampliar a representa\u00e7\u00e3o africana, por exemplo. Um pa\u00eds como o Egito, por exemplo, certamente deveria estar presente. O mesmo vale para a Nig\u00e9ria, o pa\u00eds mais populoso da \u00c1frica e uma das maiores na\u00e7\u00f5es de popula\u00e7\u00e3o negra do mundo. Independentemente das avalia\u00e7\u00f5es que se fa\u00e7am sobre seus governos ou n\u00edveis de estabilidade, sua presen\u00e7a contribuiria para tornar o f\u00f3rum mais representativo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Servi por muitos anos nas Na\u00e7\u00f5es Unidas e sempre defendi, como continuo defendendo, a reforma do Conselho de Seguran\u00e7a. No entanto, considero mais prov\u00e1vel que essa transforma\u00e7\u00e3o ocorra de fora para dentro, impulsionada pela evolu\u00e7\u00e3o de mecanismos multilaterais mais amplos, e n\u00e3o pela vontade isolada de um ator espec\u00edfico. \u00c9 nesse contexto que o G20 se torna particularmente relevante e, dentro dele, os pa\u00edses do BRICS desempenham um papel importante ao ampliar a pluralidade das discuss\u00f5es e contribuir para uma governan\u00e7a internacional mais equilibrada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">HF<\/span>: Na \u00faltima reuni\u00e3o do F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial, o presidente Donald Trump voltou a defender uma reorganiza\u00e7\u00e3o da governan\u00e7a global sob lideran\u00e7a norte-americana e orientada pelo princ\u00edpio da for\u00e7a. O contraponto de Mark Carney repercutiu mundo afora, ao argumentar que a velha ordem internacional chegou ao fim e o momento atual imp\u00f5e novos dilemas \u00e0s chamadas \u201cpot\u00eancias m\u00e9dias\u201d. Quais seriam hoje as op\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas para as pot\u00eancias m\u00e9dias?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">CA<\/span>: Pot\u00eancias m\u00e9dias s\u00e3o aquelas que n\u00e3o t\u00eam bomba at\u00f4mica\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil estabeleceu em sua pr\u00f3pria Constitui\u00e7\u00e3o que toda atividade nuclear deve se destinar exclusivamente a fins pac\u00edficos. Portanto, a posse de armas nucleares n\u00e3o faz parte\u2014nem acredito que deva fazer\u2014do nosso projeto nacional. Isso n\u00e3o significa, contudo, renunciar \u00e0 capacidade de defesa. O Brasil precisa desenvolver meios de dissuas\u00e3o que tornem mais dif\u00edcil a repeti\u00e7\u00e3o de epis\u00f3dios como o que vimos na Venezuela ou como o que est\u00e1 acontecendo em Cuba, independentemente da origem da amea\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o se trata de apontar um pa\u00eds espec\u00edfico, mas de reconhecer que a seguran\u00e7a internacional continua sendo regida, em \u00faltima inst\u00e2ncia, pela percep\u00e7\u00e3o de custos e riscos. A ideia de um mundo unipolar, que durante certo per\u00edodo pareceu predominante, j\u00e1 n\u00e3o corresponde mais \u00e0 realidade. Mesmo os Estados Unidos sabem disso. Entre o conceito e a realidade h\u00e1 sempre dist\u00e2ncia, mas, do ponto de vista estrutural, caminhamos para uma ordem mais multipolar. O grande risco \u00e9 que essa multipolaridade venha a se confundir com uma l\u00f3gica de \u00e1reas de influ\u00eancia. Isso \u00e9 algo que o Brasil n\u00e3o pode aceitar. Um pa\u00eds com rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas diversificadas\u2014cerca de 35% do com\u00e9rcio com a China e pouco mais de 12% com os Estados Unidos\u2014n\u00e3o pode ser enquadrado dentro de uma esfera exclusiva de influ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 tamb\u00e9m por essa raz\u00e3o que evito utilizar categorias como \u201chemisf\u00e9rio\u201d em sentido pol\u00edtico. O Brasil n\u00e3o pode ser reduzido a uma identidade geopol\u00edtica \u00fanica. Somos parte do Sul global, embora profundamente marcados por m\u00faltiplas influ\u00eancias culturais\u2014europeias, africanas, ind\u00edgenas, \u00e1rabes, entre outras. A pol\u00edtica externa brasileira precisa refletir essa pluralidade e preservar autonomia de julgamento, evitando reproduzir vis\u00f5es importadas que n\u00e3o correspondem plenamente \u00e0 nossa realidade hist\u00f3rica e social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">MS<\/span>: Quando o senhor foi ministro da Defesa, afirmou diversas vezes que h\u00e1 um v\u00ednculo indissoci\u00e1vel entre a estrat\u00e9gia nacional de defesa e a estrat\u00e9gia nacional de desenvolvimento. No fim do ano passado, defendeu a eleva\u00e7\u00e3o dos investimentos em defesa para cerca de 2% do PIB. Poderia explicar o que essa proposta significaria em termos militares, econ\u00f4micos e pol\u00edticos para o Brasil?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">CA<\/span>: Essa \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o que j\u00e1 defendia quando fui ministro da Defesa\u2014ainda que n\u00e3o se tratasse, naquele momento, de uma pol\u00edtica formal de governo, pois dependeria de decis\u00f5es institucionais mais amplas. Diante da conjuntura internacional atual, me parece natural que o Brasil amplie seus investimentos em defesa. Mas \u00e9 importante deixar claro: esse aumento deve ser orientado sobretudo para investimento e para a manuten\u00e7\u00e3o das capacidades adquiridas, e n\u00e3o simplesmente para a expans\u00e3o de despesas correntes\u2014hoje, uma parcela muito elevada do or\u00e7amento de defesa brasileiro \u00e9 destinada a folhas de pagamento e aposentadorias. N\u00e3o cabe a mim definir tecnicamente quais programas espec\u00edficos deveriam receber prioridade; essa \u00e9 a responsabilidade do ministro da Defesa e dos comandos militares. O que posso dizer \u00e9 que o Brasil apresenta defici\u00eancias relevantes em diversas \u00e1reas tecnol\u00f3gicas e operacionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando mencionei pela primeira vez a meta de investimentos pr\u00f3ximos a 2% do PIB, procurei apenas estabelecer um par\u00e2metro razo\u00e1vel de compara\u00e7\u00e3o internacional. \u00c0 \u00e9poca, fiz uma m\u00e9dia aproximada entre pa\u00edses do BRICS e outras economias relevantes. O Brasil n\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds envolvido em conflitos diretos nem enfrenta amea\u00e7as militares imediatas compar\u00e1veis \u00e0s de regi\u00f5es como o Oriente M\u00e9dio ou o Indo-Pac\u00edfico. Por isso, 2% do PIB me parece um patamar equilibrado: suficiente para garantir capacidade de dissuas\u00e3o. A l\u00f3gica \u00e9 essencialmente defensiva. O submarino de propuls\u00e3o nuclear \u00e9 um exemplo disso. Sua principal vantagem n\u00e3o \u00e9 ofensiva, mas dissuas\u00f3ria: a capacidade de permanecer longos per\u00edodos submerso e n\u00e3o detectado, dificultando qualquer tentativa de proje\u00e7\u00e3o militar contra o territ\u00f3rio nacional ou suas \u00e1reas mar\u00edtimas estrat\u00e9gicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que ocorreu recentemente na Venezuela ainda n\u00e3o est\u00e1 totalmente claro para mim. N\u00e3o sei exatamente onde se deram as falhas, mas \u00e9 evidente que elas existiram. Ao mesmo tempo, \u00e9 preciso reconhecer que certas pot\u00eancias disp\u00f5em hoje de capacidades extremamente avan\u00e7adas nas \u00e1reas de guerra eletr\u00f4nica e cibern\u00e9tica, e \u00e9 natural que outros grandes atores internacionais estejam desenvolvendo instrumentos semelhantes. A quest\u00e3o central passa a ser: como um pa\u00eds como o Brasil pode se defender nesse tipo de cen\u00e1rio?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O objetivo \u00e9 evitar que o Brasil se torne um pa\u00eds estruturalmente vulner\u00e1vel. E isso ganha ainda mais relev\u00e2ncia quando consideramos nossos recursos estrat\u00e9gicos. H\u00e1 dados de que o Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras e minerais cr\u00edticos, insumos essenciais para tecnologias avan\u00e7adas, transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e sistemas de defesa modernos. Naturalmente, esse patrim\u00f4nio desperta interesse internacional. N\u00e3o se trata de teorias ou de imagina\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica: recursos estrat\u00e9gicos sempre atra\u00edram aten\u00e7\u00e3o externa ao longo da hist\u00f3ria. Por isso, o Brasil precisa, em primeiro lugar, desenvolver uma pol\u00edtica nacional clara para minerais cr\u00edticos, algo que j\u00e1 come\u00e7a a ser discutido no \u00e2mbito do governo, mas tamb\u00e9m precisa dispor de meios adequados para proteger esses ativos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em um eventual cen\u00e1rio de tens\u00e3o internacional entre terceiros, no qual o acesso a minerais estrat\u00e9gicos brasileiros se torne relevante, o pa\u00eds deve ser capaz de defender seus interesses e sua soberania. Esse \u00e9 apenas um exemplo, mas ilustra um ponto mais amplo: defesa nacional, desenvolvimento tecnol\u00f3gico e seguran\u00e7a econ\u00f4mica passaram a ser dimens\u00f5es insepar\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">HF<\/span>: Para finalizar, qual \u00e9 a sua avalia\u00e7\u00e3o da proposta do Conselho da Paz promovida pelo presidente Trump?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">CA<\/span>: Prefiro me ater \u00e0s posi\u00e7\u00f5es j\u00e1 expressas pelo presidente da Rep\u00fablica, que destacou dois pontos centrais, sem entrar em detalhes operacionais. Em primeiro lugar, n\u00e3o parece adequado conceber um chamado Conselho da Paz com pretens\u00e3o de reformar ou substituir mecanismos das Na\u00e7\u00f5es Unidas por meio de uma iniciativa unilateral, n\u00e3o discutida previamente com a comunidade internacional. Uma eventual iniciativa dessa natureza deveria, no m\u00e1ximo, ter um escopo claramente delimitado\u2014por exemplo, restrito \u00e0 situa\u00e7\u00e3o em Gaza e ao conflito israelo-palestino\u2014e n\u00e3o assumir a forma de uma reconfigura\u00e7\u00e3o mais ampla da governan\u00e7a internacional. Em segundo lugar, mesmo que limitada a esse contexto espec\u00edfico, qualquer iniciativa voltada \u00e0 paz precisaria contar com a participa\u00e7\u00e3o efetiva de representantes pol\u00edticos leg\u00edtimos do povo palestino. N\u00e3o basta recorrer apenas a especialistas ou t\u00e9cnicos; \u00e9 indispens\u00e1vel assegurar presen\u00e7a e autoridade pol\u00edtica palestina no processo, condi\u00e7\u00e3o essencial para que qualquer arranjo tenha legitimidade e possibilidade real de produzir resultados duradouros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amorim avalia o momento geopol\u00edtico atual e comenta a invas\u00e3o da Venezuela, a guerra no Ir\u00e3 e o lugar do Brasil nesse cen\u00e1rio<\/p>\n","protected":false},"author":424,"featured_media":29318,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[733],"tags":[762,189,988,789,12,613,766],"issue":[997],"newsletter":[],"region":[1012,1203,1039],"sector":[],"theme":[1102,1093],"series":[],"class_list":["post-29317","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas-br","tag-brasil","tag-brazil","tag-geopolitica-2","tag-historia-pt-br","tag-history","tag-longform","tag-politica-pt-br","issue-edicao-1-poder-americano","region-america-latina-e-caribe","region-brasil-pt-br","region-global-pt-br","theme-geopolitica","theme-guerra-seguranca"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Qual o futuro do Sul global? 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