{"id":29088,"date":"2026-02-13T15:42:39","date_gmt":"2026-02-13T15:42:39","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/uncategorized\/battlefield-amazonia-2\/"},"modified":"2026-05-28T20:06:28","modified_gmt":"2026-05-28T20:06:28","slug":"battlefield-amazonia-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/battlefield-amazonia-2\/","title":{"rendered":"Amaz\u00f4nia como campo de batalha?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em novembro passado, a floresta amaz\u00f4nica sediou pela primeira vez uma c\u00fapula da COP. N\u00e3o por acaso, a preserva\u00e7\u00e3o das florestas tropicais ocupou o centro da agenda, com todo tipo de discuss\u00e3o sobre esquemas multilaterais de financiamento e garantias para os povos ind\u00edgenas. Os debates de alto n\u00edvel, no entanto, negligenciaram muitas das pol\u00edticas p\u00fablicas e coaliz\u00f5es locais que s\u00e3o igualmente decisivas para o futuro do bioma. Para preencher essa lacuna, pensei que seria \u00fatil explorar a economia pol\u00edtica das pol\u00edticas ambientais no Brasil, pa\u00eds que abriga cerca de um ter\u00e7o das florestas tropicais remanescentes do mundo e quase 60% da Amaz\u00f4nia. \u00c9 uma hist\u00f3ria em dois tempos: os mesmos m\u00e9todos que permitiram uma redu\u00e7\u00e3o substancial do desmatamento ao longo da d\u00e9cada de 2000\u2014o que levou o Brasil a fazer a <a href=\"https:\/\/www.ucs.org\/sites\/default\/files\/2019-10\/deforestation-success-stories-2014.pdf\">maior contribui\u00e7\u00e3o individual<\/a> para a redu\u00e7\u00e3o global dos gases de efeito estufa\u2014num segundo momento, contribu\u00edram para a emerg\u00eancia de um movimento de extrema direita negacionista das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas que acabou colocando em risco os fr\u00e1geis ganhos da etapa anterior.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cUm campo de batalha disfar\u00e7ado de selva\u201d foi como o <em>Guardian <\/em>se <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/technology\/audio\/2025\/jun\/05\/missing-in-the-amazon-episode-one-the-disappearance-podcast\">referiu<\/a> \u00e0 floresta amaz\u00f4nica ao descrever a viol\u00eancia brutal que tirou a vida de Dom Phillips e Bruno Pereira, mortos por sua luta em defesa de comunidades ind\u00edgenas contra atividades ilegais. Mas a Amaz\u00f4nia tamb\u00e9m \u00e9 concebida como campo de batalha em outro sentido, por ser um territ\u00f3rio decisivo na luta contra o colapso clim\u00e1tico. De fato, o combate ao <a href=\"https:\/\/igarape.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/The-ecosystem-of-environmental-crime-in-the-Amazon.pdf\">crime organizado<\/a>\u2014do tr\u00e1fico de drogas \u00e0 grilagem de terras e \u00e0 minera\u00e7\u00e3o ilegal\u2014constitui uma das dimens\u00f5es do esfor\u00e7o para impedir que a floresta atinja seu ponto de n\u00e3o retorno. A met\u00e1fora militar, no entanto, parece ter ido longe demais: o debate sobre pol\u00edtica ambiental no Brasil \u00e9 excessivamente voltado \u00e0 necessidade de policiamento e \u201c<a href=\"https:\/\/www.companhiadasletras.com.br\/livro\/9788535940534\/como-salvar-a-amazonia?srsltid=AfmBOoqYGYCeUEtaJfMK3uXtOQjihhv-yFPE_TAVgz_vbDx0J6qs9lma\">aplica\u00e7\u00e3o da lei<\/a>\u201d. De modo emblem\u00e1tico, a estrat\u00e9gia de redu\u00e7\u00e3o do desmatamento adotada nos anos 2000 ficou conhecida como pol\u00edtica de \u201c<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41598-024-52180-7\">comando e controle<\/a>\u201d.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A abordagem de comando e controle foi indiscutivelmente bem-sucedida em reduzir o desmatamento. Ao mesmo tempo, suscitou uma rea\u00e7\u00e3o adversa que n\u00e3o s\u00f3 reverteu muitos de seus resultados\u2014especialmente durante a presid\u00eancia de Jair Bolsonaro\u2014, mas colocou em risco a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia da floresta. Em resposta, no terceiro mandato de Lula, defensores da antiga estrat\u00e9gia do PT tentam restabelec\u00ea-la por meio de uma interpreta\u00e7\u00e3o das duas \u00faltimas d\u00e9cadas que se encaixa perfeitamente na ideia do \u201ccampo de batalha\u201d: houve avan\u00e7os na primeira d\u00e9cada do novo s\u00e9culo, perdas nos anos 2010 e, agora, inicia-se uma contraofensiva nos anos 2020, apresentada como capaz de conduzir a uma vit\u00f3ria definitiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A realidade, no entanto, costuma ser mais complexa do que as met\u00e1foras militares s\u00e3o capazes de capturar. Ainda que o conflito entre destruidores e defensores da floresta seja intenso, grande parte das 30 milh\u00f5es de pessoas que vivem na Amaz\u00f4nia brasileira n\u00e3o podem ser facilmente encaixadas em uma das duas categorias. Ao alienar uma parte significativa da popula\u00e7\u00e3o local, a abordagem de comando e controle plantou as sementes da pr\u00f3pria ru\u00edna: n\u00e3o apenas antagonizou as elites agr\u00e1rias, mas tamb\u00e9m incitou rea\u00e7\u00f5es entre um vasto eleitorado de pequenos e m\u00e9dios propriet\u00e1rios de terras. Nesse sentido, pode-se dizer que o modelo de pol\u00edtica ambiental adotado foi parcialmente respons\u00e1vel pela ascens\u00e3o pol\u00edtica de uma extrema direita patrocinada pelo capital do agroneg\u00f3cio\u2014que, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, transbordou o \u00e2mbito dos interesses setoriais para se consolidar como um movimento pol\u00edtico cada vez mais assertivo, voltado \u00e0 disputa hegem\u00f4nica no cen\u00e1rio nacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para reconstituir esse percurso hist\u00f3rico, farei um breve balan\u00e7o da ascens\u00e3o e do decl\u00ednio da estrat\u00e9gia de comando e controle e explicarei como ela acabou comprometendo o governo com uma l\u00f3gica ambiental falha, conhecida como <em>land-sparing<\/em> (ou poupan\u00e7a de terras, na tradu\u00e7\u00e3o mais recorrente em portugu\u00eas), segundo a qual se pressupunha uma rela\u00e7\u00e3o de soma zero entre conserva\u00e7\u00e3o e ocupa\u00e7\u00e3o humana. Ao se apegar \u00e0 imagem da Amaz\u00f4nia como natureza intocada, essa orienta\u00e7\u00e3o contribuiu para a guinada \u00e0 direita do pa\u00eds e negligenciou modelos de conserva\u00e7\u00e3o mais promissores.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Arena de disputa<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s d\u00e9cadas de como\u00e7\u00e3o global, assassinatos dram\u00e1ticos e planos desastrosos de \u201ccoloniza\u00e7\u00e3o\u201d da floresta tropical pelo governo militar brasileiro, a Amaz\u00f4nia passou por uma mudan\u00e7a marcante durante os anos 2000. A literatura especializada descreve o per\u00edodo entre 2004 e 2012 de maneiras variadas: como o da <a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/full\/10.1080\/09644016.2021.1957614\">\u201cconstru\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas\u201d<\/a>, da <a href=\"https:\/\/wires.onlinelibrary.wiley.com\/doi\/epdf\/10.1002\/wcc.289\">\u201cascens\u00e3o dos reformistas\u201d<\/a> ou, como mencionado acima, <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41598-024-52180-7\">\u201cda pol\u00edtica de comando e controle<\/a>\u201d. Independentemente da adjetiva\u00e7\u00e3o, a hist\u00f3ria geralmente come\u00e7a com a ascens\u00e3o de Lula \u00e0 presid\u00eancia em 2003 e, no ano seguinte, a introdu\u00e7\u00e3o do Plano de A\u00e7\u00e3o para Preven\u00e7\u00e3o e Controle do Desmatamento na Amaz\u00f4nia (PPCDAm). O primeiro governo do PT, alinhado com os movimentos ambientalistas e ind\u00edgenas, se engajou em um processo ativo de constru\u00e7\u00e3o institucional, rompendo com a timidez caracter\u00edstica das pol\u00edticas ambientais da d\u00e9cada anterior e, sobretudo, com o apoio deliberado do Estado ao desmatamento durante a ditadura militar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ofensiva de comando e controle n\u00e3o pode ser compreendida sem levar em conta o <a href=\"https:\/\/terrabrasilis.dpi.inpe.br\/app\/map\/alerts?hl=en\">DETER<\/a>, sistema p\u00fablico de monitoramento do desmatamento em tempo real lan\u00e7ado em 2004, baseado em imagens de sat\u00e9lite. At\u00e9 ent\u00e3o, os esfor\u00e7os de fiscaliza\u00e7\u00e3o eram prejudicados pela periodicidade anual dos dados. A disponibilidade de informa\u00e7\u00f5es atualizadas garantiu ao Estado enorme efic\u00e1cia na identifica\u00e7\u00e3o dos respons\u00e1veis pelo desmatamento ilegal e sua posterior puni\u00e7\u00e3o, que poderia incluir san\u00e7\u00f5es, multas e apreens\u00f5es de maquin\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O desmatamento <em>legal<\/em> na Amaz\u00f4nia j\u00e1 havia sido restringido na virada do mil\u00eanio, quando o governo aumentou o volume m\u00ednimo da \u201creserva legal\u201d\u2014a parcela de uma propriedade que n\u00e3o pode ser desmatada\u2014<a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/mpv\/antigas\/1956-50.htm\">de 50% para 80%<\/a>. Embora essa regra tenha sido posteriormente enfraquecida por diversas exce\u00e7\u00f5es, a forte rea\u00e7\u00e3o de propriet\u00e1rios rurais sugere que ela produziu efeitos concretos, ainda que por tempo limitado. Al\u00e9m disso, o governo criou uma s\u00e9rie de unidades federais de conserva\u00e7\u00e3o e demarcou diversas terras ind\u00edgenas, o que resultou, <a href=\"https:\/\/static-content.springer.com\/esm\/art%3A10.1038%2Fs41598-024-52180-7\/MediaObjects\/41598_2024_52180_MOESM1_ESM.pdf\">entre 2004 e 2008<\/a>, em um aumento de cerca de <a href=\"https:\/\/static-content.springer.com\/esm\/art%3A10.1038%2Fs41598-024-52180-7\/MediaObjects\/41598_2024_52180_MOESM1_ESM.pdf\">um quarto<\/a> na \u00e1rea total sob prote\u00e7\u00e3o. Esses territ\u00f3rios ficaram conhecidos como <a href=\"https:\/\/www.pnas.org\/doi\/epdf\/10.1073\/pnas.0913048107\">\u201cbarreiras verdes\u201d<\/a> contra o desmatamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Confrontadas com esse novo ambiente regulat\u00f3rio e sob intensa press\u00e3o de grupos ambientalistas, gigantes do com\u00e9rcio de gr\u00e3os\u2014ADM, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus\u2014que dominavam a cadeia de suprimento da soja firmaram, em 2006, a chamada <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1038\/s43016-020-00194-5\">morat\u00f3ria da soja<\/a>. A partir de ent\u00e3o, a compra de gr\u00e3os provenientes de terras desmatadas foi proibida. Tentativas semelhantes de autorregula\u00e7\u00e3o foram posteriormente adotadas na <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/conl.12175\">cadeia de suprimento da carne bovina<\/a>. No mesmo per\u00edodo, ferramentas adicionais para alcan\u00e7ar metas ambientais tamb\u00e9m come\u00e7aram a ser testadas. Em 2007, o governo passou a <a href=\"http:\/\/combateaodesmatamento.mma.gov.br\/municipios-prioritarios\">divulgar<\/a> anualmente uma lista de munic\u00edpios da Amaz\u00f4nia com tend\u00eancias preocupantes de desmatamento, conferindo \u00e0 Uni\u00e3o maior poder de interven\u00e7\u00e3o sobre eles; e, em 2008, <a href=\"https:\/\/academic.oup.com\/ej\/article\/130\/626\/290\/5637860\">proibiu<\/a> a concess\u00e3o de cr\u00e9dito rural a propriet\u00e1rios que n\u00e3o estivessem em conformidade com a legisla\u00e7\u00e3o ambiental. Os resultados foram <a href=\"https:\/\/www.cambridge.org\/core\/journals\/environment-and-development-economics\/article\/deforestation-slowdown-in-the-brazilian-amazon-prices-or-policies\/056BD528BEFEC4FBB0471A73E3292684\">impressionantes<\/a>. Do auge ao decl\u00ednio, entre 2004 e 2012, o desmatamento na Amaz\u00f4nia Legal\u2014a por\u00e7\u00e3o brasileira da floresta tropical e partes do cerrado circundante\u2014<a href=\"https:\/\/terrabrasilis.dpi.inpe.br\/app\/dashboard\/deforestation\/biomes\/legal_amazon\/rates\">caiu<\/a> de 27,8 para 4,6 mil km\u00b2 por ano.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Rebote<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na passagem dos anos 2000 para os anos 2010, um ponto de inflex\u00e3o come\u00e7ou a se delinear. Entre 2008 e 2012, o n\u00famero de autos de infra\u00e7\u00e3o e de apreens\u00f5es de equipamentos <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41598-024-52180-7\">caiu de forma cont\u00ednua<\/a>. O n\u00famero de san\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m diminuiu entre 2008 e 2009, antes de voltar a crescer a partir de 2010. \u00c0 primeira vista, poderia parecer que esses instrumentos se tornaram menos necess\u00e1rios \u00e0 medida que o cumprimento das normas se difundia. Mas isso s\u00f3 seria verdade se as taxas de desmatamento tivessem se mantido baixas, e ocorreu justamente o contr\u00e1rio: a partir de 2013, o desmatamento voltou a crescer, desfazendo, at\u00e9 2021, mais de um ter\u00e7o dos ganhos obtidos pelos governos do PT (ver figura abaixo). Parte desse movimento se explica pelo fato de o Congresso ter cedido \u00e0 press\u00e3o do agroneg\u00f3cio e aprovado, em 2012, um novo C\u00f3digo Florestal que concedeu anistia a uma <a href=\"https:\/\/www.science.org\/doi\/10.1126\/science.1246663\">parcela significativa<\/a> do desmatamento ilegal ocorrido no passado.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/chart1-pt-d-930x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-29090\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses foram apenas os primeiros sinais de uma revers\u00e3o mais profunda. Com a destitui\u00e7\u00e3o do PT da presid\u00eancia em 2016\u2014por meio de um impeachment aprovado com o <a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/full\/10.1080\/03066150.2023.2301440\">apoio decisivo<\/a> de setores do agroneg\u00f3cio\u2014, deu-se in\u00edcio a um processo gradual de desmonte das institui\u00e7\u00f5es ambientais constru\u00eddas no per\u00edodo anterior, movimento que atingiu seu <a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/full\/10.1080\/09644016.2021.1957614#d1e293\">\u00e1pice<\/a> sob o governo de extrema direita de Jair Bolsonaro. \u00d3rg\u00e3os de fiscaliza\u00e7\u00e3o foram <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41598-024-52180-7\">enfraquecidos<\/a>, \u00e1reas protegidas tiveram sua extens\u00e3o reduzida e defensores do desmatamento passaram a ocupar cargos estrat\u00e9gicos no governo. Em pleno auge da pandemia, o ent\u00e3o ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro chegou a sustentar, em uma reuni\u00e3o vazada \u00e0 imprensa, que a Covid oferecia a distra\u00e7\u00e3o perfeita para desmontar a pol\u00edtica ambiental: uma janela de oportunidade para <em>passar a boiada<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O retorno de Lula ao poder em 2023 n\u00e3o arrefeceu o rebote. O epis\u00f3dio mais emblem\u00e1tico recente foi a aprova\u00e7\u00e3o pelo Congresso de uma legisla\u00e7\u00e3o que elimina a exig\u00eancia de licenciamento ambiental obrigat\u00f3rio e de consulta p\u00fablica para uma s\u00e9rie de atividades, incluindo a maior parte dos empreendimentos agr\u00edcolas, de pecu\u00e1ria e de minera\u00e7\u00e3o. O mais grave ato de <a href=\"https:\/\/sumauma.com\/pl-da-devastacao-o-vale-tudo-proposto-pelo-projeto-de-lei-que-muda-o-licenciamento-ambiental\/\">desmonte institucional<\/a> at\u00e9 aqui, a \u201cLei da Devasta\u00e7\u00e3o\u201d, como ficou conhecida, tem grande potencial para acelerar projetos associados ao aumento do desmatamento, como a constru\u00e7\u00e3o de ferrovias e rodovias destinadas ao transporte de soja para portos na regi\u00e3o norte do Brasil e no Peru e a explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo na foz do rio Amazonas. Embora Lula tenha inicialmente desautorizado os dispositivos mais danosos, a bancada do agroneg\u00f3cio <a href=\"https:\/\/sumauma.com\/en\/pl-da-devastacao-o-congresso-derruba-vetos-de-lula-e-destroi-a-legislacao-ambiental-do-brasil\/\">derrubou<\/a> 56 dos 63 vetos presidenciais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em n\u00edvel subnacional, a legisla\u00e7\u00e3o tem avan\u00e7ado em dire\u00e7\u00e3o semelhante. Desde 2024, diversos estados da federa\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2025\/02\/cargill-sinaliza-saida-moratoria-soja-amazonia\/\">aprovaram leis<\/a> que impedem empresas em conformidade com a morat\u00f3ria da soja de acessar incentivos fiscais. Embora os\u00a0 incentivos estaduais sejam bastante limitados em compara\u00e7\u00e3o aos federais, a nova regulamenta\u00e7\u00e3o ofereceu \u00e0s gigantes do com\u00e9rcio de gr\u00e3os a desculpa perfeita para, finalmente, <a href=\"https:\/\/www.wwf.org.br\/nossosconteudos\/notas_e_releases\/?93841\/Companies-abandon-the-Soy-Moratorium-and-put-the-Brazils-environmental-climate-and-economic-gains-at-risk-warns-WWF-Brazil\">p\u00f4r fim \u00e0 morat\u00f3ria<\/a>, o que efetivamente ocorreu no m\u00eas passado.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil encontrar explica\u00e7\u00f5es detalhadas para a for\u00e7a dessa rea\u00e7\u00e3o antiambiental. Isso se deve, em parte, \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o predominante da literatura sobre pol\u00edticas ambientais no Brasil, que tende a se concentrar nos diferentes instrumentos de pol\u00edtica e em suas intera\u00e7\u00f5es, mas, como <a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/abs\/10.1080\/24694452.2017.1309966\">aponta<\/a> Gregory Thaler, falha em oferecer um \u201crelato pol\u00edtico que v\u00e1 al\u00e9m de fatores imediatos e examine os atores e interesses que produzem o ambiente de pol\u00edticas p\u00fablicas\u201d. Na s\u00edntese de Thaler, \u201co car\u00e1ter pol\u00edtico-econ\u00f4mico da transi\u00e7\u00e3o amaz\u00f4nica no Brasil ainda n\u00e3o foi adequadamente teorizado.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O <a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/full\/10.1080\/09644016.2021.1957614#d1e293\">trabalho<\/a> de Kathryn Hochstetler constitui uma das poucas exce\u00e7\u00f5es. A \u00eanfase do PT em medidas repressivas, argumenta ela, n\u00e3o conseguiu formar uma base pol\u00edtica capaz de garantir a continuidade de seu projeto ambiental. Ao contr\u00e1rio, acabou fomentando uma oposi\u00e7\u00e3o agressiva: \u201cas ferramentas de comando e controle foram cruciais para reduzir as taxas de desmatamento, mas o pr\u00f3prio \u00eaxito em limitar o comportamento econ\u00f4mico privado tamb\u00e9m estimulou estrat\u00e9gias pol\u00edticas que ajudaram a minar esses mesmos instrumentos e as institui\u00e7\u00f5es que os sustentavam.\u201d Como exemplo, Hochstetler cita o crescimento da bancada do agroneg\u00f3cio, que passou de 120 cadeiras na legislatura de 2007\u20132010 para 160 ap\u00f3s 2011, ou seja, de 23% para 31% do total\u2014movimento que foi apenas o <a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/full\/10.1080\/03066150.2023.2301440\">primeiro passo<\/a> de um ataque institucional muito mais amplo. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, embora a marcha das for\u00e7as pr\u00f3-desmatamento rumo aos centros de poder seja uma parte crucial da hist\u00f3ria, o quadro completo s\u00f3 \u00e9 formado quando se examinam os dilemas da estrat\u00e9gia de comando e controle no plano local. Estudos de munic\u00edpios espec\u00edficos\u2014a exemplo dos que <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/abs\/pii\/S0305750X18303541\">fizeram<\/a> Thaler e seus coautores\u2014revelam as fraturas abertas pela ofensiva ambiental dos anos 2000 e mostram em que medida um amplo descontentamento com essa estrat\u00e9gia favoreceu o fortalecimento pol\u00edtico do agroneg\u00f3cio desde a d\u00e9cada de 2010.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Land-sparing e seus descontentes<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No conjunto de pol\u00edticas ambientais dos anos 2000, coexistia uma s\u00e9rie de instrumentos distintos, concebidos para atender \u00e0s demandas de diferentes grupos\u2014como o apoio a pr\u00e1ticas agroecol\u00f3gicas, pol\u00edticas voltadas \u00e0 soberania alimentar e iniciativas de repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica \u00e0s popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. A l\u00f3gica predominante da estrat\u00e9gia de comando e controle, contudo, era a do <a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/abs\/10.1080\/24694452.2017.1309966\"><em>land-sparing<\/em><\/a>: conter o desmatamento por meio da prote\u00e7\u00e3o de determinadas \u00e1reas contra qualquer uso humano, ao mesmo tempo em que se permitia a \u201cintensifica\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel\u201d de uma agricultura capital-intensiva em outras regi\u00f5es. A ideia de intensifica\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel circula h\u00e1 bastante tempo como uma solu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica destinada a tornar a agricultura capitalista em larga escala compat\u00edvel com objetivos ambientais. Sua encarna\u00e7\u00e3o mais recente passou a ser conhecida como \u201c<a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/full\/10.1080\/03066150.2017.1381602\">agricultura climaticamente inteligente<\/a>\u201d (<em>climate-smart agriculture<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na medida em que as gest\u00f5es de Lula na d\u00e9cada de 2000 se <a href=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/the-worlds-stockyard\/\">empenhavam<\/a> na dif\u00edcil tarefa de conciliar demandas redistributivas e ambientais dentro de um padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o ancorado nas exporta\u00e7\u00f5es do agroneg\u00f3cio e dependente de uma integra\u00e7\u00e3o subordinada \u00e0 economia chinesa, as pol\u00edticas de land-sparing foram bastante convenientes. A expans\u00e3o das \u00e1reas de cultivo de soja e da pecu\u00e1ria n\u00e3o s\u00f3 reconfigurou a geografia econ\u00f4mica do pa\u00eds, como tamb\u00e9m garantiu acesso a divisas externas. Os dados abaixo ilustram a magnitude dessa transforma\u00e7\u00e3o no caso da soja\u2014a commodity agr\u00edcola mais comercializada globalmente em termos de valor. Nos \u00faltimos anos, soja, carne bovina e produtos correlatos <a href=\"https:\/\/atlas.hks.harvard.edu\/explore\/treemap?exporter=country-76\">passaram a responder<\/a> por cerca de um quinto das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras, frente a um patamar inferior a 10% duas d\u00e9cadas atr\u00e1s (ver figura).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/chart2-pt-d-742x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-29093\"\/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/chart3-pt-d-930x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-29096\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Thaler descreve como os interesses de corpora\u00e7\u00f5es agroindustriais, agentes governamentais e ambientalistas convergiram, no Brasil dos anos 2000, para dar origem a um \u201c<a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/abs\/10.1080\/24694452.2017.1309966\">complexo de <em>land-sparing<\/em><\/a>\u201d. Esse projeto, contudo, n\u00e3o reservava um lugar claro para a vasta popula\u00e7\u00e3o de pequenos e m\u00e9dios propriet\u00e1rios que ocupa os principais cintur\u00f5es agr\u00edcolas do pa\u00eds. Diante dos custos envolvidos na adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s novas pol\u00edticas e da dificuldade percebida de acesso ao apoio estatal, a abordagem levou, nas palavras do autor, a um processo de \u201cdesapropria\u00e7\u00e3o dos pequenos propriet\u00e1rios\u201d: \u201cenquanto os pequenos lutam para sobreviver, os grandes propriet\u00e1rios consolidam suas terras.\u201d Paralelamente a esse vi\u00e9s de pol\u00edtica p\u00fablica, a chamada intensifica\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel teve impactos sanit\u00e1rios significativos sobre os pequenos produtores, engendrando o que F\u00e1bio Zuker descreveu como uma \u201c<a href=\"https:\/\/journals.sagepub.com\/doi\/abs\/10.1177\/25148486251379616\">expuls\u00e3o por asfixia<\/a>\u201d operada pela viol\u00eancia qu\u00edmica de uma agricultura intensiva em glifosato (o \u201ccomplexo\u201d de preserva\u00e7\u00e3o de terras tamb\u00e9m teve efeitos question\u00e1veis sobre a biodiversidade, como aponta a <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.gloenvcha.2013.07.005\">vasta<\/a> <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.jdeveco.2023.103217\">literatura<\/a> sobre os <a href=\"https:\/\/link.springer.com\/article\/10.1007\/s10531-022-02540-4\">efeitos rebote<\/a> e demais consequ\u00eancias da intensifica\u00e7\u00e3o da soja).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao observar os efeitos colaterais do PPCDAm em dois munic\u00edpios amaz\u00f4nicos, Thaler <a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/abs\/10.1080\/24694452.2017.1309966\">concluiu<\/a> que \u201cmedidas punitivas sem incentivos correspondentes prejudicam os pequenos produtores, que disp\u00f5em de menos recursos para lidar com multas ou investir em processos de intensifica\u00e7\u00e3o.\u201d Hochstetler concorda: \u201cquando alcan\u00e7am os pequenos agricultores, as novas pol\u00edticas agr\u00edcolas e de combate ao desmatamento se manifestam, sobretudo, por seu lado punitivo\u201d. Ao afetar os pequenos propriet\u00e1rios, as pol\u00edticas ambientais favoreceram os interesses dos grandes propriet\u00e1rios e do capital agr\u00e1rio\u2014uma forma indireta de <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/03066150.2012.671770\">apropria\u00e7\u00e3o verde<\/a> (<em>green grabbing<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em sua detalhada etnografia da pol\u00edtica do agroneg\u00f3cio no Brasil, Caio Pompeia <a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/full\/10.1080\/03066150.2023.2301440\">mostra<\/a> como esses \u201cgrupos de empregadores agr\u00edcolas politicamente e economicamente subordinados\u201d constitu\u00edram a base do que ele denomina agrobolsonarismo: a uni\u00e3o esp\u00faria entre interesses agr\u00e1rios e a pol\u00edtica de extrema direita. Pompeia descreve como esses grupos radicalizados, descontentes com a estrat\u00e9gia de comando e controle, progressivamente capturaram organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas rurais\u2014das associa\u00e7\u00f5es estaduais de produtores de soja \u00e0 bancada do agroneg\u00f3cio no Congresso. De in\u00edcio, as grandes corpora\u00e7\u00f5es agroindustriais resistiram a esse movimento: j\u00e1 haviam aprendido a conviver\u2014e lucrar\u2014com as pol\u00edticas do governo. Gradualmente, por\u00e9m, passaram a enxergar nele uma oportunidade de remover restri\u00e7\u00f5es ambientais e ampliar sua influ\u00eancia pol\u00edtica. Assim, come\u00e7aram a colaborar\u2014a princ\u00edpio, nos bastidores\u2014com a mobiliza\u00e7\u00e3o de extrema direita que surgia a partir das bases.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na estrutura social brasileira, esses \u201cgrupos de empregadores agr\u00edcolas subordinados\u201d ocupam o topo de um espectro demogr\u00e1fico mais amplo, cujos meios de vida s\u00e3o amea\u00e7ados de forma ainda mais direta pela expans\u00e3o voraz do agroneg\u00f3cio: povos ind\u00edgenas, comunidades ribeirinhas e quilombolas, al\u00e9m dos pr\u00f3prios trabalhadores rurais\u2014classes populares que comp\u00f5em a base social dos defensores da floresta. Mas seria um equ\u00edvoco supor que a ofensiva de comando e controle do PT tenha representado uma vit\u00f3ria dos interesses desses grupos sobre os das elites agr\u00e1rias. Aqui, a leitura da Amaz\u00f4nia como \u201ccampo de batalha\u201d revela sua insufici\u00eancia. Em graus variados, a pol\u00edtica de <em>land-sparing<\/em> foi inicialmente aceita por corpora\u00e7\u00f5es agroindustriais e por muitos dos grandes propriet\u00e1rios justamente porque perceberam nela uma oportunidade de acumular mais terras. Em vez de fortalecer os defensores da floresta frente ao capital agroindustrial, a estrat\u00e9gia acabou por coloc\u00e1-los em confronto com o outro grupo prejudicado, o de empregadores agr\u00edcolas relativamente subordinados, criando uma cis\u00e3o pol\u00edtica com profundas consequ\u00eancias hist\u00f3ricas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto as corpora\u00e7\u00f5es agroindustriais refor\u00e7avam seu controle sobre o Estado brasileiro, explorando a crescente depend\u00eancia econ\u00f4mica do pa\u00eds em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s commodities prim\u00e1rias, o agrobolsonarismo forneceu uma s\u00f3lida base territorial para uma pol\u00edtica antiambiental. Quando o apoio ao Partido dos Trabalhadores entrou em decl\u00ednio em meados da d\u00e9cada de 2010, a extrema direita estava pronta para ocupar o espa\u00e7o deixado pelo partido e mobilizar o interior do pa\u00eds\u2014dos grandes propriet\u00e1rios aos pequenos produtores. O movimento conquistou resultados eleitorais expressivos nas \u00e1reas dominadas pelo cultivo de soja e pela pecu\u00e1ria. Embora a din\u00e2mica eleitoral seja moldada por uma s\u00e9rie de fatores complexos, os padr\u00f5es geogr\u00e1ficos apresentados nos mapas abaixo apontam para uma conclus\u00e3o contundente: a ascens\u00e3o do agrobolsonarismo levou ao quase completo desaparecimento de munic\u00edpios com inclina\u00e7\u00e3o petista no cintur\u00e3o agr\u00edcola que se estende do sul do Brasil at\u00e9 a Amaz\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/chart4-pt-d-458x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-29099\"\/><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A quimera da preserva\u00e7\u00e3o<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, esse paradoxo da pol\u00edtica ambiental parece se anunciar em diferentes esferas da pol\u00edtica clim\u00e1tica: enquanto instrumentos tecnol\u00f3gicos de enfrentamento \u00e0 crise se multiplicam, faltam as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas necess\u00e1rias para coloc\u00e1-los em opera\u00e7\u00e3o. Chamada por alguns de<em> <\/em><a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/2024\/dec\/06\/2024-greenlash-climate-breakdown-europeans-climate-action\"><em>greenlash<\/em><\/a>, essa din\u00e2mica se manifestou na Amaz\u00f4nia j\u00e1 na primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo: sistemas sofisticados de monitoramento por sat\u00e9lite e uma legisla\u00e7\u00e3o detalhada conseguiram conter o desmatamento, mas, ao faz\u00ea-lo, acabaram por desencadear rea\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que aprofundaram a vulnerabilidade estrutural da floresta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dispensa dizer que a alternativa n\u00e3o pode ser jogar a toalha e abandonar o objetivo de salvar a floresta. O desafio \u00e9 construir uma nova alian\u00e7a capaz de mant\u00ea-la em p\u00e9. Essa coaliz\u00e3o deve incluir grupos que v\u00e3o dos povos ind\u00edgenas aos empregadores agr\u00edcolas em posi\u00e7\u00e3o subordinada, unidos por sua oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 agricultura corporativa. Em termos concretos, isso implica apostar em alternativas \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o que partam das m\u00faltiplas possibilidades de intera\u00e7\u00e3o humana harm\u00f4nica com a natureza. Bi\u00f3logos conservacionistas cunharam o termo <a href=\"https:\/\/www.science.org\/doi\/10.1126\/science.1106049\"><em>land-sharing<\/em>,<\/a> ou compartilhamento de terras, para descrever essa abordagem, <a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/full\/10.1080\/03066150.2016.1146705\">que envolve<\/a> \u201co trabalhoso e complexo processo de harmoniza\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica em paisagens produtivas diversas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Do ponto de vista pol\u00edtico, o <em>land-sharing<\/em> \u00e9 muito mais desafiador do que o <em>land-sparing<\/em>, pois implica um enfrentamento direto ao agroneg\u00f3cio; ao mesmo tempo, \u00e9 tamb\u00e9m muito mais promissor. Ele abre a possibilidade de reconciliar as dimens\u00f5es ecol\u00f3gica e social na formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas para a Amaz\u00f4nia, n\u00e3o partindo do zero, mas tomando como base pr\u00e1ticas sociais e tradi\u00e7\u00f5es j\u00e1 existentes, forjadas na resist\u00eancia hist\u00f3rica ao avan\u00e7o do grande capital agr\u00e1rio. \u201cA agroecologia implementada em projetos de assentamento\u201d, <a href=\"https:\/\/www.bloomsbury.com\/us\/towards-a-political-economy-of-degrowth-9781786608956\/\">escreve<\/a> Felipe Milanez, \u201cassim como o manejo coletivo dos castanhais, as reservas extrativistas e a demarca\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas constituem espa\u00e7os de uso comum que confrontam materialmente os cercamentos e a expans\u00e3o dos latif\u00fandios.\u201d Isso significaria abandonar a l\u00f3gica do campo de batalha e imaginar um futuro amaz\u00f4nico no qual floresta e povos possam coexistir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como a pol\u00edtica ambiental de comando e controle adotada pelo PT sabotou suas pr\u00f3prias ambi\u00e7\u00f5es conservacionistas <\/p>\n","protected":false},"author":285,"featured_media":29210,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[730],"tags":[763,27,764,114,765,613,766,40],"issue":[],"newsletter":[1283],"region":[1012,1203],"sector":[1042],"theme":[1075,1081,1090,1102,1096],"series":[974,975],"class_list":["post-29088","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-analises","tag-clima-pt-br","tag-climate","tag-desenvolvimento","tag-development","tag-longform-pt-br","tag-longform","tag-politica-pt-br","tag-politics","newsletter-meridional-pt-br","region-america-latina-e-caribe","region-brasil-pt-br","sector-agricultura","theme-clima-energia","theme-comercio","theme-financiamento-desenvolvimento","theme-geopolitica","theme-governanca-e-politica-partidaria","series-meridional","series-meridional-pt-br"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Amaz\u00f4nia como campo de batalha? 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