{"id":28687,"date":"2026-01-16T19:28:34","date_gmt":"2026-01-16T19:28:34","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/uncategorized\/matrizes-do-imperio\/"},"modified":"2026-05-28T20:12:12","modified_gmt":"2026-05-28T20:12:12","slug":"matrizes-do-imperio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/matrizes-do-imperio\/","title":{"rendered":"Matrizes do imp\u00e9rio"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s dar a ordem para o sequestro de Nicol\u00e1s Maduro, Donald Trump <a href=\"https:\/\/www.war.gov\/Multimedia\/Videos\/videoid\/992132\/\">declarou<\/a> que os Estados Unidos planejam \u201cgovernar\u201d a Venezuela. \u201cN\u00e3o nos custar\u00e1 nada\u201d, disse Trump,<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">porque o dinheiro que sai do solo \u00e9 muito substancial&#8230; As empresas petrol\u00edferas v\u00e3o entrar. Elas v\u00e3o gastar dinheiro. Vamos recuperar o petr\u00f3leo que, francamente, dever\u00edamos ter recuperado h\u00e1 muito tempo. Muito dinheiro est\u00e1 saindo do solo.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No passado, quando Washington afirmava agir em nome do humanitarismo, da democracia ou da liberdade, cabia a n\u00f3s, economistas pol\u00edticos, revelar os motivos ocultos, os interesses materiais por tr\u00e1s da propaganda da m\u00eddia. Agora, como  <a href=\"https:\/\/www.lrb.co.uk\/the-paper\/v47\/n22\/t.j.-clark\/the-job\">escreveu<\/a> TJ Clark, a pr\u00f3pria hipocrisia pol\u00edtica parece estar sob amea\u00e7a. Se a apropria\u00e7\u00e3o imperial de recursos \u00e9 reconhecida abertamente, o que nos resta para analisar?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na semana passada, grande parte do debate sobre o ataque dos EUA <a href=\"https:\/\/www.economist.com\/finance-and-economics\/2026\/01\/04\/an-american-oil-empire-is-a-deeply-flawed-idea\">questionou<\/a> se o petr\u00f3leo era realmente o fator determinante. Alguns argumentam que a extra\u00e7\u00e3o do pesado petr\u00f3leo bruto da Venezuela seria muito cara e que, dada a situa\u00e7\u00e3o atual do mercado e a improbabilidade de aumentos de pre\u00e7os em um futuro pr\u00f3ximo, esse seria um investimento irracional para as empresas estadunidenses. Outros, por sua vez, observam que cerca de metade das reservas de petr\u00f3leo da Venezuela n\u00e3o seriam t\u00e3o pesadas quanto as do Cintur\u00e3o de Orinoco e que nos campos petrol\u00edferos das bacias de Maracaibo e Monagas ainda h\u00e1 potencial de \u201cganhos r\u00e1pidos\u201d para grandes empresas e prestadoras de servi\u00e7os petrol\u00edferos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De qualquer forma, h\u00e1 muitos outros motivos plaus\u00edveis para a agress\u00e3o dos EUA. Ela poderia ser concebida como uma apropria\u00e7\u00e3o de recursos n\u00e3o em sentido estrat\u00e9gico de longo prazo, mas como um ato pontual de extors\u00e3o para beneficiar atores espec\u00edficos da coaliz\u00e3o de elite de Trump\u2014saquear a Venezuela para pagar a <a href=\"https:\/\/www.iisd.org\/itn\/2013\/09\/20\/conoco-phillips-and-exxon-mobil-v-venezuela-using-investment-arbitration-to-rewrite-a-contract\/\">esp\u00faria indeniza\u00e7\u00e3o<\/a> reivindicada pela ConocoPhillips e pela ExxonMobil, por exemplo, ou para <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/business\/2026\/jan\/05\/venezuelan-crude-oil-appeals-to-us-refineries\">beneficiar<\/a> as refinarias estadunidenses especializadas em petr\u00f3leo pesado. Tamb\u00e9m se poderia ver isso como um espet\u00e1culo para o p\u00fablico interno: uma demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a imperial para galvanizar a base MAGA e a <a href=\"https:\/\/theintercept.com\/2025\/09\/09\/venezuela-boat-oil-trump-latin-america\/\">direita latina<\/a>, que h\u00e1 muito pressionam por uma mudan\u00e7a de regime patrocinada pelos EUA em Cuba e na Venezuela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 medida que a situa\u00e7\u00e3o na Venezuela evoluir nos pr\u00f3ximos meses, \u00e9 poss\u00edvel que tudo isso fique mais claro. Mas, por enquanto, a quest\u00e3o que quero levantar diz respeito \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre a opera\u00e7\u00e3o militar e a pol\u00edtica estadunidense de longa data de conten\u00e7\u00e3o da ascens\u00e3o da China. Aqui, precisamos avaliar n\u00e3o apenas o impacto imediato do ataque, mas tamb\u00e9m o sinal de alerta que ele representa para toda a Am\u00e9rica Latina. Ao lado das tarifas e dos controles de investimentos estrangeiros e de exporta\u00e7\u00f5es, a restaura\u00e7\u00e3o da Doutrina Monroe pode ser vista como um novo pilar da <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/dech.12683\">estrat\u00e9gia anti-China<\/a> que, desde a crise financeira de 2008, tem sido perseguida tanto <a href=\"https:\/\/newleftreview.org\/sidecar\/posts\/elective-affinities\">por governos democratas quanto por republicanos<\/a>. Embora o sequestro de Maduro pare\u00e7a loucura para muitos, ainda podemos ver nele os contornos de um m\u00e9todo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes de abordarmos essa hip\u00f3tese, por\u00e9m, vale a pena dizer algumas palavras sobre a pr\u00f3pria Venezuela. O objetivo desta coluna n\u00e3o \u00e9 avaliar os pontos fortes e fracos dos governos bolivarianos. H\u00e1 in\u00fameras raz\u00f5es para argumentar que as esperan\u00e7as criadas pela ascens\u00e3o de Hugo Ch\u00e1vez foram frustradas h\u00e1 muito e que os efeitos combinados das escolhas de Maduro e das san\u00e7\u00f5es estrangeiras foram profundamente tr\u00e1gicos. Tampouco \u00e9 preciso dizer que o ataque dos EUA s\u00f3 agrava a crise. O hist\u00f3rico fracassado de \u201cmudan\u00e7as de regime\u201d, do Iraque ao Afeganist\u00e3o, passando pela L\u00edbia e por outros pa\u00edses, \u00e9 prova disso. A pr\u00f3pria Casa Branca tem falado muito mais sobre extrair petr\u00f3leo venezuelano do que sobre libertar os venezuelanos, como se admitisse que as fantasias do governo Bush n\u00e3o podem mais ser sustentadas em 2026.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">\u201cNosso hemisf\u00e9rio\u201d<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tr\u00eas dias ap\u00f3s o ataque a Caracas, o Departamento de Estado dos EUA <a href=\"https:\/\/x.com\/StateDept\/status\/2008221563888292207\">publicou no Twitter<\/a> uma foto em preto e branco de Trump com a legenda \u201cESTE \u00c9 O NOSSO HEMISF\u00c9RIO\u201d. A sutileza e as nuances n\u00e3o fazem parte do vocabul\u00e1rio da atual gest\u00e3o do pa\u00eds. Isso n\u00e3o \u00e9 surpresa para quem leu a <a href=\"https:\/\/www.whitehouse.gov\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/2025-National-Security-Strategy.pdf\">Estrat\u00e9gia de Seguran\u00e7a Nacional<\/a> da Casa Branca, divulgada em novembro passado, que menciona um \u201cCorol\u00e1rio Trump\u201d \u00e0 Doutrina Monroe. Esta \u00faltima foi, como se sabe, apresentada em 1823\u2014quando a Am\u00e9rica Latina passava por processo de descoloniza\u00e7\u00e3o\u2014, e afirmava que a interven\u00e7\u00e3o de pot\u00eancias estrangeiras em qualquer parte do hemisf\u00e9rio era uma amea\u00e7a \u00e0 seguran\u00e7a dos EUA. Embora n\u00e3o tenha sido aplicada at\u00e9 o final do s\u00e9culo XIX, a partir de ent\u00e3o foi usada para justificar todo tipo de interven\u00e7\u00e3o violenta no Panam\u00e1, em Cuba e em pa\u00edses que sofreram golpes militares apoiados pela CIA nas d\u00e9cadas de 1960 e 1970, entre outros. A pr\u00f3pria Venezuela foi alvo de tentativas fracassadas de <a href=\"https:\/\/www.lrb.co.uk\/the-paper\/v48\/n01\/tony-wood\/on-venezuela\">mudan\u00e7a de regime<\/a> em 2002 e em 2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Estrat\u00e9gia de Seguran\u00e7a Nacional de Trump afirma que a Doutrina Monroe deve ser revitalizada \u201cap\u00f3s anos de neglig\u00eancia\u201d. Um de seus objetivos declarados \u00e9 desencorajar a \u201cmigra\u00e7\u00e3o em massa para os Estados Unidos\u201d. Outro \u00e9 expulsar a China da Am\u00e9rica Latina: \u201cqueremos um hemisf\u00e9rio que permane\u00e7a livre de incurs\u00f5es estrangeiras hostis ou do controle de ativos essenciais e que apoie cadeias de abastecimento cr\u00edticas; e queremos garantir nosso acesso cont\u00ednuo a locais estrat\u00e9gicos importantes\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Corol\u00e1rio Trump tamb\u00e9m enfatiza a necessidade de colabora\u00e7\u00e3o entre Washington e os governos latino-americanos para combater os chamados \u201cnarcoterroristas, cart\u00e9is e outras organiza\u00e7\u00f5es criminosas transnacionais\u201d: da\u00ed as acusa\u00e7\u00f5es forjadas de tr\u00e1fico de drogas contra Maduro. Nos \u00faltimos anos, os governos de direita da regi\u00e3o t\u00eam colocado cada vez mais organiza\u00e7\u00f5es criminosas em <a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/a-invencao-do-narcoterrorismo\/\">listas de terroristas<\/a>, tornando-as alvos leg\u00edtimos para a interven\u00e7\u00e3o dos EUA, em conformidade com a <a href=\"https:\/\/www.oas.org\/juridico\/english\/treaties\/a-66.html\">Conven\u00e7\u00e3o de Barbados<\/a>. No Brasil, o filho mais velho de Bolsonaro sugeriu que gostaria de ver os EUA repetir, na costa do Rio de Janeiro, o bombardeio de barcos que promovem no Caribe. Se uma futura a\u00e7\u00e3o militar dos EUA quiser manter uma apar\u00eancia de legalidade\u2014mesmo que m\u00ednima\u2014, ela certamente ser\u00e1 justificada com base na nova legisla\u00e7\u00e3o sobre <a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/a-invencao-do-narcoterrorismo\/\">narcoterrorismo.<\/a><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">China e Am\u00e9rica Latina<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 uma fantasia trumpista dizer que a China, um \u201cconcorrente n\u00e3o hemisf\u00e9rico\u201d, estabeleceu la\u00e7os profundos com a Am\u00e9rica Latina nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas. \u00c0 medida que a China se tornou a f\u00e1brica do mundo, dominando as redes de produ\u00e7\u00e3o do Leste Asi\u00e1tico, passou a depender de grandes quantidades de minerais, combust\u00edveis e produtos agr\u00edcolas. O resultado foi um aumento no pre\u00e7o das commodities\u2014o chamado <a href=\"https:\/\/linkinghub.elsevier.com\/retrieve\/pii\/S0305750X12002926\">superciclo das commodities<\/a>\u2014, que remodelou o papel de muitos pa\u00edses do Sul Global na divis\u00e3o internacional do trabalho. A Am\u00e9rica do Sul, com sua propens\u00e3o a exportar produtos prim\u00e1rios, desempenhou um papel crucial nesse processo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante esse per\u00edodo, mesmo os pa\u00edses que mais haviam avan\u00e7ado no aumento da participa\u00e7\u00e3o de produtos manufaturados nas exporta\u00e7\u00f5es sucumbiram rapidamente ao extrativismo. Na d\u00e9cada de 2000, em m\u00e9dia,  produtos manufaturados representavam 50% do total das exporta\u00e7\u00f5es do Brasil, 35% da Col\u00f4mbia e 32% do Uruguai. Se olharmos para as m\u00e9dias da d\u00e9cada de 2010, vemos que esses n\u00fameros ca\u00edram para, respectivamente, 33% , 20% e 22% (Figura 1). Essa mudan\u00e7a significativa tamb\u00e9m pode ser observada nos dados sobre o destino das exporta\u00e7\u00f5es (Figura 2). Para a Am\u00e9rica do Sul como um todo, a participa\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es com destino \u00e0 China subiu de cerca de 2% no final da d\u00e9cada de 1990 para cerca de um quarto desde 2019, enquanto a participa\u00e7\u00e3o com destino aos EUA caiu proporcionalmente. A Am\u00e9rica do Sul consolidou, assim, seu papel como fornecedora de bens de baixo valor agregado para redes de produ\u00e7\u00e3o chinesas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/chart1PT-d-979x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-28382\"\/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/chart2PT-d-946x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-28385\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando analisamos <a href=\"https:\/\/atlas.hks.harvard.edu\/explore\/treemap?year=2023\">commodities espec\u00edficas<\/a>, essa din\u00e2mica fica ainda mais evidente. Em m\u00e9dia, 53% das exporta\u00e7\u00f5es mundiais de min\u00e9rio de cobre prov\u00eam da Am\u00e9rica do Sul desde 2004. A China importou pouco mais de 10% do total em 2000 e, em 2023, foi respons\u00e1vel por 62%. A participa\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica do Sul nas exporta\u00e7\u00f5es de min\u00e9rio de ferro vem diminuindo nos \u00faltimos anos, mas ainda representa mais de um quinto do total mundial; desde 2019, a China importa mais de dois ter\u00e7os de todo o min\u00e9rio de ferro comercializado internacionalmente. Os minerais que devem desempenhar um papel importante no desenvolvimento de tecnologias de energia renov\u00e1vel\u2014l\u00edtio, n\u00edquel e terras raras\u2014tamb\u00e9m est\u00e3o fortemente concentrados na Am\u00e9rica Latina. Como Helen Thompson <a href=\"https:\/\/www.newstatesman.com\/international-content\/2024\/05\/the-new-great-game-america-china-helen-thompson\">observou<\/a>, \u201ca tentativa de revolu\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica global est\u00e1 come\u00e7ando a se desenrolar como um conflito entre a China e os EUA pelos recursos met\u00e1licos no Hemisf\u00e9rio Ocidental\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voltando ao petr\u00f3leo, a participa\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina est\u00e1 longe de ser insignificante (Figura 3). Em termos de barris, o n\u00edvel de produ\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o, quando combinado com o do Canad\u00e1 e dos EUA, \u00e9 praticamente igual ao do Oriente M\u00e9dio\u2014e ainda pode aumentar se a infraestrutura petrol\u00edfera venezuelana for reconstru\u00edda. Neste momento, n\u00e3o se pode garantir que a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica deixar\u00e1 o petr\u00f3leo de lado, mas, mesmo que isso venha a acontecer, \u00e9 prov\u00e1vel que o petr\u00f3leo continue sendo crucial para as opera\u00e7\u00f5es militares de Washington. Como Javier Blas <a href=\"https:\/\/www.bloomberg.com\/opinion\/articles\/2026-01-05\/venezuela-oil-trump-now-has-his-own-petroleum-empire-in-the-americas\">argumenta<\/a>, ao controlar a produ\u00e7\u00e3o nas Am\u00e9ricas, os EUA podem ser capazes de romper a liga\u00e7\u00e3o entre as guerras no exterior e os pre\u00e7os internos dos combust\u00edveis:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por d\u00e9cadas, o aventurismo militar dos EUA foi restringido pelo impacto de qualquer guerra nos custos da energia. Hoje, a Casa Branca tem primazia sobre aliados e advers\u00e1rios produtores de petr\u00f3leo\u2014seja a Ar\u00e1bia Saudita ou o Ir\u00e3, a Nig\u00e9ria ou a R\u00fassia. Os \u00faltimos 18 meses j\u00e1 mostraram o que essas novas riquezas de hidrocarbonetos significam para a pol\u00edtica externa dos EUA. O governo Trump tomou medidas antes impens\u00e1veis: desde bombardear instala\u00e7\u00f5es nucleares iranianas at\u00e9 ajudar a Ucr\u00e2nia a atacar refinarias de petr\u00f3leo russas. Capturar Nicol\u00e1s Maduro em seu esconderijo nos arredores de Caracas foi o exemplo mais chocante at\u00e9 agora do que acontece quando o petr\u00f3leo n\u00e3o restringe mais o Pent\u00e1gono.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/chart4PT-d-950x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-28389\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em meio \u00e0s consequ\u00eancias da crise de 2008, a conex\u00e3o entre a China e a Am\u00e9rica Latina foi <a href=\"https:\/\/www.bu.edu\/gdp\/files\/2024\/07\/GCI-China-LAC-Bulletin-2024-FIN.pdf\">al\u00e9m <\/a><span style=\"box-sizing: border-box; margin: 0px; padding: 0px;\"><a href=\"https:\/\/www.bu.edu\/gdp\/files\/2024\/07\/GCI-China-LAC-Bulletin-2024-FIN.pdf\" target=\"_blank\">do&nbsp;<\/a><a href=\"https:\/\/journals.sagepub.com\/doi\/full\/10.1177\/18681026211047871\" target=\"_blank\">com\u00e9rcio<\/a><\/span>, passando a abranger finan\u00e7as e infraestrutura, com um crescimento significativo do investimento direto chin\u00eas na regi\u00e3o e a participa\u00e7\u00e3o de empresas chinesas em v\u00e1rios projetos de constru\u00e7\u00e3o. Um exemplo proeminente \u00e9 o <a href=\"https:\/\/www.bu.edu\/gdp\/files\/2024\/07\/GCI-China-LAC-Bulletin-2024-FIN.pdf\">megaporto de Chancay<\/a>, no Peru, que provavelmente impulsionar\u00e1 ainda mais os fluxos comerciais. Uma s\u00e9rie de pa\u00edses latino-americanos tamb\u00e9m optou por tomar empr\u00e9stimos chineses para evitar as condicionalidades normalmente impostas pelo Banco Mundial ou pelo FMI. Em 2018, a China convidou a Am\u00e9rica Latina a aderir \u00e0 <a href=\"https:\/\/journals.sagepub.com\/doi\/full\/10.1177\/18681026211047871\">Iniciativa Cintur\u00e3o e Rota<\/a> (tamb\u00e9m conhecida como Nova Rota da Seda), envolvendo ainda mais a regi\u00e3o em suas redes de diplomacia e finan\u00e7as internacionais. A rela\u00e7\u00e3o de Pequim com o Brasil, consolidada por meio de uma s\u00e9rie de institui\u00e7\u00f5es do BRICS, faz parte desse quadro mais amplo.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Doux Commerce<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que motiva o envolvimento chin\u00eas na regi\u00e3o? A China aderiu \u00e0 OMC em 2001 e tra\u00e7ou uma estrat\u00e9gia de desenvolvimento que exigia a integra\u00e7\u00e3o de sua economia no circuito do capitalismo global: uma decis\u00e3o que foi bem recebida pelos respons\u00e1veis pela pol\u00edtica externa dos EUA, que esperavam desencadear um processo inexor\u00e1vel de liberaliza\u00e7\u00e3o chinesa e subordina\u00e7\u00e3o \u00e0 ordem global liderada pelos EUA. Essa suposi\u00e7\u00e3o poderia ser interpretada como um resqu\u00edcio da antiga doutrina do doux commerce, associada a Montesquieu, segundo a qual o com\u00e9rcio \u201cpolia e suavizava os costumes b\u00e1rbaros\u201d. Os funcion\u00e1rios estadunidenses que negociaram a ades\u00e3o \u00e0 OMC impuseram condi\u00e7\u00f5es extraordinariamente rigorosas, exigindo que a China \u201cabrisse substancialmente seus mercados banc\u00e1rios, de seguros, de valores mobili\u00e1rios, de gest\u00e3o de fundos e de outros servi\u00e7os financeiros\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A reordena\u00e7\u00e3o do capitalismo global que se seguiu foi aceit\u00e1vel para os EUA, em grande parte, devido \u00e0 din\u00e2mica interna de consumismo impulsionado pelo endividamento. Em 2001, a economia dos EUA j\u00e1 havia passado por mais de uma d\u00e9cada de desindustrializa\u00e7\u00e3o, com a produ\u00e7\u00e3o manufatureira se transferindo para a \u00c1sia. Isso, ao lado do enfraquecimento dos sindicatos, teve o efeito de consolida\u00e7\u00e3o da <a href=\"https:\/\/www.epi.org\/unequalpower\/publications\/wage-suppression-inequality\/\">estagna\u00e7\u00e3o salarial<\/a>. Para tornar isso compat\u00edvel com o que David Harvey <a href=\"https:\/\/academic.oup.com\/book\/40584\">chamou de<\/a> \u201cregra de ouro do consumismo sem fim\u201d, foi necess\u00e1rio mobilizar as finan\u00e7as: com exce\u00e7\u00e3o daqueles que estavam na base da pir\u00e2mide de renda, a maioria das fam\u00edlias dos EUA conseguiu, por um tempo, continuar melhorando seus padr\u00f5es de vida com a ajuda do endividamento. Al\u00e9m disso, o fluxo de produtos manufaturados baratos da China ajudou a manter a infla\u00e7\u00e3o baixa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso durou at\u00e9 2008, quando a crise financeira exp\u00f4s a insustentabilidade do endividamento dos trabalhadores. A partir de ent\u00e3o, aqueles com empregos prec\u00e1rios\u2014vivendo em cidades empobrecidas nos cintur\u00f5es industriais dos Estados Unidos e lutando para pagar suas d\u00edvidas\u2014come\u00e7aram a sentir o custo da reestrutura\u00e7\u00e3o da divis\u00e3o global do trabalho. A piora da situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica foi logo seguida por <a href=\"https:\/\/press.princeton.edu\/books\/hardcover\/9780691190785\/deaths-of-despair-and-the-future-of-capitalism?srsltid=AfmBOor9hbFkVrCSQbpgag3mrhd7_X05IwX6TuJO_Ngj8VhAWwXiOGRS\">epidemias<\/a> de suic\u00eddios e de overdoses fatais, especialmente entre homens sem forma\u00e7\u00e3o superior: um dos principais grupos perdedores no jogo da \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d. O cen\u00e1rio estava pronto para a ascens\u00e3o de Trump. Investiga\u00e7\u00f5es emp\u00edricas cuidadosas de David Autor e seus coautores <a href=\"https:\/\/pubs.aeaweb.org\/doi\/pdfplus\/10.1257\/aer.20170011\">mostram<\/a> que as localidades mais afetadas pelo \u201cchoque da China\u201d tiveram um papel decisivo nessa mudan\u00e7a pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a ascens\u00e3o de Trump \u00e0 presid\u00eancia em 2016, o culto ao livre com\u00e9rcio foi substitu\u00eddo pela <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/dech.12683\">guerra comercial e tecnol\u00f3gica<\/a> contra a China. Essa n\u00e3o foi uma mudan\u00e7a ef\u00eamera. O governo Biden intensificou as medidas comerciais e as tornou a pedra angular do que chamou de<a href=\"https:\/\/www.aspeninstitute.org\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Foreign-Policy-of-the-Middle-Class_Final.pdf\">\u201cpol\u00edtica externa para a classe m\u00e9dia\u201d<\/a>. Dois outros eventos consolidaram essa transi\u00e7\u00e3o. O primeiro foi a Covid-19, que desorganizou as cadeias de abastecimento e empurrou a discuss\u00e3o pol\u00edtica para a necessidade de maior <a href=\"https:\/\/www.oecd.org\/content\/dam\/oecd\/en\/publications\/reports\/2021\/07\/strengthening-economic-resilience-following-the-covid-19-crisis_60546584\/2a7081d8-en.pdf\">resili\u00eancia<\/a> nacional. O segundo foi a invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia pela R\u00fassia, particularmente seus efeitos nos mercados europeus de energia. Nesse ponto, at\u00e9 mesmo os defensores mais comprometidos com o laissez-faire ouviram o alerta. Em 2022, a revista <em>The<\/em> <em>Economist <\/em><a href=\"https:\/\/www.economist.com\/leaders\/2022\/03\/19\/confronting-russia-shows-the-tension-between-free-trade-and-freedom\">argumentou<\/a> que \u201ca guerra da R\u00fassia mostra que as cadeias de abastecimento precisam ser redesenhadas para impedir que pa\u00edses autocr\u00e1ticos intimidem os liberais\u201d. Havia uma tens\u00e3o, como eles colocaram, entre o livre com\u00e9rcio e a liberdade. A desilus\u00e3o com o <em>doux commerce<\/em> era generalizada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/dech.12683\">pilares<\/a> da pol\u00edtica externa de Washington na \u00faltima d\u00e9cada foi a proibi\u00e7\u00e3o da exporta\u00e7\u00e3o de tecnologia dos EUA para a China, impedindo empresas estadunidenses de fazer neg\u00f3cios com v\u00e1rias contrapartes chinesas e restringindo a venda de determinados produtos de alta tecnologia (Seans Starrs e Julian Germann <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/dech.12683\">ofereceram<\/a> uma descri\u00e7\u00e3o detalhada dessas medidas). As recentes negocia\u00e7\u00f5es sobre chips da Nvidia s\u00e3o a \u00faltima manifesta\u00e7\u00e3o desse processo, que come\u00e7ou com a Lei de Reforma de Controle de Exporta\u00e7\u00f5es de 2018. No entanto, essa abordagem agora est\u00e1 enfrentando um problema: uma vez que se compromete a capacidade de produ\u00e7\u00e3o da China para tentar impedir sua ascens\u00e3o, \u00e9 preciso encontrar fontes alternativas de produtos importados. Aqui entra a reformula\u00e7\u00e3o das cadeias de abastecimento e toda a discuss\u00e3o sobre reshoring e friendshoring. Mas, entre os muitos obst\u00e1culos a essa reorganiza\u00e7\u00e3o, est\u00e1 o fato de que a maioria dos recursos naturais do mundo est\u00e1 sendo vendida e refinada pela China. Isso, por sua vez, nos leva de volta \u00e0 Am\u00e9rica Latina e ao interesse dos EUA em controlar seus recursos.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Hegemonia fr\u00e1gil?<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s o ataque a Caracas, parece que os EUA est\u00e3o ansiosos para realizar sua pr\u00f3xima demonstra\u00e7\u00e3o de poderio militar, voltando as aten\u00e7\u00f5es para a Groenl\u00e2ndia e, talvez, para o Ir\u00e3. Independentemente de Trump levar adiante seu plano de \u201cgovernar\u201d a Venezuela, considero que o contexto geopol\u00edtico mais amplo indica que a l\u00f3gica da rivalidade imperial \u00e9 extremamente importante neste caso. A hipocrisia est\u00e1 em decl\u00ednio; o imperialismo descarado parece estar de volta. A Venezuela foi a primeira na mira; Col\u00f4mbia e Cuba podem ser as pr\u00f3ximas. As elei\u00e7\u00f5es presidenciais que se aproximam na regi\u00e3o\u2014Peru, Col\u00f4mbia, Brasil\u2014podem apresentar a Trump novas oportunidades de afirmar o dom\u00ednio hemisf\u00e9rico, talvez atrav\u00e9s dos mesmos m\u00e9todos de interfer\u00eancia financeira que utilizou nas elei\u00e7\u00f5es argentinas do ano passado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se o retorno da Doutrina Monroe ajudar\u00e1 a reordenar as cadeias de abastecimento globais, no entanto, \u00e9 outra quest\u00e3o. Os EUA est\u00e3o cientes de suas fraquezas econ\u00f4micas\u2014tanto em recursos quanto em certas tecnologias essenciais\u2014e parecem inclinados a compens\u00e1-las exibindo poderio militar. No entanto, no quarto de s\u00e9culo desde que a China aderiu \u00e0 OMC, desenvolveram-se profundas interdepend\u00eancias entre o Ocidente e o Oriente, e os esfor\u00e7os para desmantel\u00e1-las podem facilmente provocar um efeito contr\u00e1rio ao desejado. A volatilidade das tarifas de Trump \u00e9, em parte, um sinal dessa dificuldade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outros atores tamb\u00e9m n\u00e3o v\u00e3o simplesmente ficar parados. Sob press\u00e3o crescente, a China est\u00e1 fortalecendo o controle sobre as exporta\u00e7\u00f5es de minerais essenciais. Quando Trump\u00a0imp\u00f4s <a href=\"https:\/\/static.poder360.com.br\/2025\/07\/carta-trump-brasil.pdf\">tarifas<\/a> ao Brasil, em retalia\u00e7\u00e3o \u00e0 persecu\u00e7\u00e3o penal de Bolsonaro, Lula se manteve firme e os EUA acabaram recuando, provavelmente devido ao risco de que as tarifas aumentassem os <a href=\"https:\/\/www.politico.com\/news\/2025\/11\/20\/trump-strikes-tariffs-on-brazilian-coffee-beef-and-other-foods-00663860\">pre\u00e7os<\/a> internos do caf\u00e9 e da carne e, ao mesmo tempo, empurrassem o Brasil ainda mais para perto da China. No caso da Venezuela, a extors\u00e3o dos EUA \u00e0 m\u00e3o armada torna a resist\u00eancia mais dif\u00edcil. Ainda assim, parece que a coer\u00e7\u00e3o, por si s\u00f3, n\u00e3o \u00e9 uma forma infal\u00edvel de vencer o conflito entre grandes pot\u00eancias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 muitos motivos plaus\u00edveis para a agress\u00e3o dos EUA \u00e0 Venezuela. 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