{"id":28539,"date":"2026-01-22T02:37:21","date_gmt":"2026-01-22T02:37:21","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/uncategorized\/ira-em-revolta\/"},"modified":"2026-05-28T13:16:28","modified_gmt":"2026-05-28T13:16:28","slug":"ira-em-revolta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ira-em-revolta\/","title":{"rendered":"Ir\u00e3 em revolta"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A recente turbul\u00eancia no Ir\u00e3 marca a quarta grande onda de protestos desde 2017.<a data-contents=\"&nbsp;Os fundamentos emp\u00edricos deste artigo foram extra\u00eddos do meu livro(<)a href='https:\/\/manchesteruniversitypress.co.uk\/9781526195579\/'(>) (<)em(>)Capitalismo no Ir\u00e3 contempor\u00e2neo: acumula\u00e7\u00e3o de capital, forma\u00e7\u00e3o do Estado e geopol\u00edtica(<)\/em(>)(<)\/a(>) (Manchester University Press, 2024; edi\u00e7\u00e3o em brochura, janeiro de 2026).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-1\" href=\"#footnote-list-1\">1<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">&nbsp;Os fundamentos emp\u00edricos deste artigo foram extra\u00eddos do meu livro(<)a href='https:\/\/manchesteruniversitypress.co.uk\/9781526195579\/'(>) (<)em(>)Capitalismo no Ir\u00e3 contempor\u00e2neo: acumula\u00e7\u00e3o de capital, forma\u00e7\u00e3o do Estado e geopol\u00edtica(<)\/em(>)(<)\/a(>) (Manchester University Press, 2024; edi\u00e7\u00e3o em brochura, janeiro de 2026).<\/span> Desencadeada por comerciantes em Teer\u00e3 que fecharam suas lojas em protesto contra a forte queda da moeda, a agita\u00e7\u00e3o logo se espalhou por todo o pa\u00eds, atraindo uma ampla gama de pessoas\u2014de estudantes a empres\u00e1rios e a popula\u00e7\u00e3o urbana mais pobre\u2014que entraram em confronto com autoridades estatais cada vez mais repressivas. Nas tr\u00eas semanas ap\u00f3s as primeiras manifesta\u00e7\u00f5es, a turbul\u00eancia pareceu apenas se intensificar: um apag\u00e3o na internet, um n\u00famero crescente de mortos e a aparente infiltra\u00e7\u00e3o dos protestos pelo Mossad, al\u00e9m de amea\u00e7as de bombardeios e mudan\u00e7a de regime por parte de Washington.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, em quest\u00e3o de dias, o \u00edmpeto perdeu for\u00e7a e o governo pareceu recuperar o controle por meio de uma \u201cestrat\u00e9gia sistem\u00e1tica para cercar e desgastar o movimento de protesto\u201d, como <a href=\"https:\/\/www.ft.com\/content\/d1848379-0bc0-453a-a748-b02f8ea1b3f0\">descreveu um analista<\/a> no Financial Times. Por enquanto, parece que o establishment religioso permanecer\u00e1 no poder: a oposi\u00e7\u00e3o interna n\u00e3o \u00e9 forte o suficiente para derrub\u00e1-lo e os EUA n\u00e3o est\u00e3o dispostos a arriscar uma interven\u00e7\u00e3o significativa neste momento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A repress\u00e3o, no entanto, n\u00e3o fez nada para resolver as origens da agita\u00e7\u00e3o, que residem na economia pol\u00edtica e na estrutura social do pa\u00eds. Estas foram remodeladas, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, por duas for\u00e7as principais: a neoliberaliza\u00e7\u00e3o do Estado p\u00f3s-revolucion\u00e1rio desde o in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990 e a expans\u00e3o dram\u00e1tica das san\u00e7\u00f5es internacionais desde 2012. Esses processos reconfiguraram os modelos de acumula\u00e7\u00e3o do Ir\u00e3 e permitiram que um grupo restrito de atores\u2014principalmente o Corpo de Guardas da Revolu\u00e7\u00e3o Isl\u00e2mica (CGRI) e as funda\u00e7\u00f5es religiosas revolucion\u00e1rias conhecidas como <em>bonyads<\/em>\u2014consolidasse o poder.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para os demais iranianos, entretanto, as condi\u00e7\u00f5es se deterioraram. A desigualdade e a pobreza est\u00e3o aumentando e a precariza\u00e7\u00e3o e a repress\u00e3o salarial s\u00e3o onipresentes. O sistema de bem-estar social foi corro\u00eddo, a classe m\u00e9dia foi esvaziada e uma camada crescente de jovens com forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica est\u00e1 desempregada ou subempregada. O resultado \u00e9 uma crise secular de legitimidade, que agora irrompe rotineiramente. A seguir, mostrarei como profundas transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-econ\u00f4micas criaram o contexto para os eventos deste m\u00eas e questionarei seu significado para o futuro do regime iraniano. Abalado internamente e amea\u00e7ado externamente, quais s\u00e3o suas chances de sobreviv\u00eancia?<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Estado de bem-estar-b\u00e9lico<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s a derrubada do X\u00e1 em 1979, as for\u00e7as isl\u00e2micas, leais ao carism\u00e1tico aiatol\u00e1 Khomeini e apoiadas por uma ampla parcela da popula\u00e7\u00e3o, passaram a esmagar seus rivais revolucion\u00e1rios, usando m\u00e9todos violentos para reprimir comunistas, liberais nacionalistas e minorias nacionais. O rec\u00e9m-criado Estado revolucion\u00e1rio isl\u00e2mico tinha tr\u00eas poderes principais: o L\u00edder Supremo, o Presidente e o Primeiro-Ministro. Embora o Presidente fosse eleito diretamente pelo povo, o verdadeiro poder executivo estava nas m\u00e3os do Primeiro-Ministro, que liderava o governo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse aparato governamental passou a tra\u00e7ar uma agenda econ\u00f4mica com dois objetivos principais: alcan\u00e7ar a independ\u00eancia dos Estados Unidos e redistribuir a riqueza para promover justi\u00e7a social aos \u201coprimidos\u201d (<em>mostazafan<\/em>). Uma vez que a nacionaliza\u00e7\u00e3o era considerada essencial para a implementa\u00e7\u00e3o do projeto, o Conselho Revolucion\u00e1rio lan\u00e7ou uma onda de aquisi\u00e7\u00f5es estatais, confiscando e redistribuindo os bens das antigas elites. Esses ativos foram classificados como propriedade governamental (<em>dolati<\/em>), administrada diretamente pelos minist\u00e9rios do Estado, ou como propriedade p\u00fablica (<em>omumi<\/em>), subordinada \u00e0 autoridade do L\u00edder Supremo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os ativos <em>dolati<\/em>\u2014que abrangiam desde bancos privados e seguradoras at\u00e9 ind\u00fastrias pesadas\u2014passaram, assim, a ser controlados por minist\u00e9rios revolucion\u00e1rios rec\u00e9m-criados, como Petr\u00f3leo, Minas e Metais, Ind\u00fastria e Ind\u00fastria Pesada, todos integrantes do poder executivo, com l\u00edderes nomeados pelo primeiro-ministro. Os ativos <em>omumi<\/em>, no entanto, foram transferidos para funda\u00e7\u00f5es conhecidas como <em>bonyads<\/em>: \u00f3rg\u00e3os nominalmente p\u00fablicos que operavam sob a autoridade pessoal do l\u00edder supremo e, portanto, estavam totalmente fora da supervis\u00e3o do governo. Essas <em>bonyads<\/em>\u2014como a Funda\u00e7\u00e3o Mostazafan, a Funda\u00e7\u00e3o dos M\u00e1rtires, o Comit\u00ea de Ajuda ao Im\u00e3 Khomeini, a Funda\u00e7\u00e3o Quinze Khordad e Setad (Execu\u00e7\u00e3o da Ordem do Im\u00e3 Khomeini)\u2014tinham como objetivo declarado promover a causa da justi\u00e7a social, elevando os <em>mostazafan<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A autonomia em rela\u00e7\u00e3o ao governo e o acesso a recursos das <em>bonyads <\/em>permitiram que essas institui\u00e7\u00f5es crescessem rapidamente. Durante a Guerra Ir\u00e3-Iraque, suas atividades se expandiram para abranger esfor\u00e7os de ajuda humanit\u00e1ria e reconstru\u00e7\u00e3o em grande escala. Em poucos anos, elas se transformaram em monop\u00f3lios semip\u00fablicos em franca expans\u00e3o, que exerciam influ\u00eancia econ\u00f4mica e social significativa. Isso resultou em uma divis\u00e3o faccional no bloco de poder revolucion\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De um lado, havia os burocratas que controlavam as empresas estatais sob a autoridade dos minist\u00e9rios do governo. Essa <em>fac\u00e7\u00e3o estatal-burocr\u00e1tica<\/em> defendia a subordina\u00e7\u00e3o dos direitos de propriedade individual aos interesses do Estado, tal como os concebiam. Politicamente, essa perspectiva era representada pela esquerda isl\u00e2mica. Do outro lado, havia o grupo que se uniu em torno dos <em>bonyads<\/em>, com estreitos la\u00e7os institucionais e sociais com a tradicional classe de comerciantes do bazar. O nexo <em>bonyad<\/em>-bazar favorecia uma interpreta\u00e7\u00e3o conservadora da lei isl\u00e2mica e das atividades beneficentes e resistia \u00e0 amplia\u00e7\u00e3o da interven\u00e7\u00e3o governamental em seus assuntos econ\u00f4micos. Essa fac\u00e7\u00e3o era representada pela direita tradicional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ambas as fac\u00e7\u00f5es disputavam o apoio das classes subalternas, reivindicando para si o cumprimento das promessas da revolu\u00e7\u00e3o. No entanto, embora a revolu\u00e7\u00e3o tivesse substitu\u00eddo os antigos governantes, n\u00e3o alterou de forma significativa a pol\u00edtica de industrializa\u00e7\u00e3o por substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es (ISI) do X\u00e1. A economia do Ir\u00e3 continuava fortemente dependente das ind\u00fastrias nacionais produtoras de bens de consumo, que, por sua vez, precisavam de tecnologia e materiais importados para bens intermedi\u00e1rios e de capital. N\u00e3o demorou para que esse modelo enfrentasse s\u00e9rios problemas. O conflito com o Iraque for\u00e7ou o Ir\u00e3 a desviar grande parte da receita do petr\u00f3leo para o esfor\u00e7o de guerra, ao mesmo tempo em que promovia uma redistribui\u00e7\u00e3o maci\u00e7a de riqueza para os pobres, por meio de racionamentos de alimentos, subs\u00eddios em dinheiro e acesso mais amplo aos servi\u00e7os p\u00fablicos. O resultado foi a forma\u00e7\u00e3o de um Estado de bem-estar-b\u00e9lico expansivo, sem uma <a href=\"https:\/\/jacobin.com\/2022\/12\/iran-protest-revolution-history-anti-imperialism-islamic-republic\">base econ\u00f4mica<\/a> s\u00f3lida para sustent\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a infraestrutura petrol\u00edfera do pa\u00eds danificada pela agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e pelas san\u00e7\u00f5es dos EUA, gerar divisas suficientes para financiar as importa\u00e7\u00f5es tornou-se uma tarefa dif\u00edcil. A produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola ficou estagnada, a capacidade industrial foi subutilizada e o desemprego aumentou significativamente. O PIB real per capita caiu 46% entre 1976 e 1989. A crise de acumula\u00e7\u00e3o de capital levou um grupo poderoso da fac\u00e7\u00e3o estatal-burocr\u00e1tica, liderado por Hashemi Rafsanjani, a defender a liberaliza\u00e7\u00e3o dos mercados e a integra\u00e7\u00e3o \u00e0 economia global do p\u00f3s-Guerra Fria como \u00fanica alternativa vi\u00e1vel. Para isolar os burocratas ainda comprometidos com a ISI, Rafsanjani e seus aliados formaram uma forte alian\u00e7a com o eixo <em>bonyad<\/em>\u2013bazar e, a partir do in\u00edcio dos anos 1990, conseguiram marginalizar a esquerda isl\u00e2mica e redirecionar completamente a pol\u00edtica econ\u00f4mica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>A virada neoliberal<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O primeiro Plano Quinquenal de Desenvolvimento do Ir\u00e3, aprovado em junho de 1990, marcou o in\u00edcio dessa era neoliberal. Sob o comando de Rafsanjani, que governou at\u00e9 1997, e de seu sucessor Mohammad Khatami, cujo mandato durou at\u00e9 2005, o pa\u00eds adotou uma s\u00e9rie de pol\u00edticas pr\u00f3-mercado. As m\u00faltiplas taxas de c\u00e2mbio que vigoravam para diferentes setores e transa\u00e7\u00f5es foram substitu\u00eddas por uma taxa \u00fanica, baseada no mercado. O setor financeiro passou a ser reestruturado, os pre\u00e7os foram racionalizados e os subs\u00eddios \u00e0 energia foram gradualmente reduzidos para aliviar as press\u00f5es fiscais. Buscou-se substituir as barreiras n\u00e3o tarif\u00e1rias por tarifas e reduzir as al\u00edquotas m\u00e9dias das tarifas, em conformidade com as normas emergentes da OMC. Reformas legais e institucionais foram introduzidas para atrair investimento estrangeiro direto; a Bolsa de Valores de Teer\u00e3 foi reaberta e um conjunto de pol\u00edticas foi desenhado para promover as exporta\u00e7\u00f5es n\u00e3o petrol\u00edferas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora a privatiza\u00e7\u00e3o tenha sido apresentada como o pilar central dessa nova estrat\u00e9gia, ela sempre avan\u00e7ou de forma limitada. Buscou-se abrir parcialmente setores industriais sob controle estatal \u00e0s multinacionais ocidentais, com o objetivo de atrair capital, tecnologia e acesso a mercados para sustentar uma industrializa\u00e7\u00e3o orientada \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o. Sob a presid\u00eancia de Hashemi Rafsanjani, foram vendidas 391 empresas estatais; a maioria, contudo, foi simplesmente transferida para firmas de investimento do setor banc\u00e1rio e para fundos de pens\u00e3o que se apresentavam como grupos empresariais n\u00e3o governamentais. Esses grupos vieram a se tornar alguns dos maiores conglomerados diversificados do pa\u00eds, controlando dezenas de holdings e centenas de subsidi\u00e1rias. Mohammad Khatami acelerou essa tend\u00eancia ao privatizar outras 339 empresas e autorizar novas firmas privadas em setores competitivos. Al\u00e9m disso, mais de uma centena de empresas desmembradas da Companhia Nacional de Petr\u00f3leo Iraniana foram constitu\u00eddas como companhias formalmente privadas, que continuaram a operar com capital estatal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em vez da privatiza\u00e7\u00e3o total, portanto, o Ir\u00e3 viu a prolifera\u00e7\u00e3o de empresas \u201csemiprivadas\u201d: subsidi\u00e1rias de minist\u00e9rios e organiza\u00e7\u00f5es governamentais, muitas vezes ligadas a burocratas e seus familiares, que conseguiam fechar acordos com for\u00e7as poderosas do governo. O resultado n\u00e3o foi o desmantelamento do controle estatal, mas sim sua reconstitui\u00e7\u00e3o por meio de uma rede de conglomerados semiprivados. Isso permitiu que as elites pol\u00edticas e burocr\u00e1ticas consolidassem seu poder sob o pretexto da reforma do mercado. O resultado foi a muta\u00e7\u00e3o da fac\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria estatal-burocr\u00e1tica original, que se transformou em uma nova <em>fac\u00e7\u00e3o ocidentalizada<\/em> da elite. Sua principal preocupa\u00e7\u00e3o era integrar o Ir\u00e3 \u00e0s redes financeiras, comerciais e institucionais das economias da OCDE, principalmente da Europa Ocidental e da Am\u00e9rica do Norte. Ela encontrou representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na Nova Direita, particularmente no Partido dos Servos da Reconstru\u00e7\u00e3o, bem como em partidos reformistas como a Frente de Participa\u00e7\u00e3o e a Organiza\u00e7\u00e3o Mojahedin do Povo Iraniano.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O complexo militar-bonyad<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda assim, a ascens\u00e3o da fac\u00e7\u00e3o orientada ao Ocidente logo esbarrou em rivais de peso. O regime neoliberal era novo, mas diversas institui\u00e7\u00f5es-chave da antiga ordem permaneceram intactas. O eixo <em>bonyad<\/em>-bazar manteve a sua influ\u00eancia e escapou da agenda de privatiza\u00e7\u00f5es. O CGRI tamb\u00e9m refor\u00e7ou o seu papel tanto no Estado quanto na sociedade civil, participando da reconstru\u00e7\u00e3o e de outras atividades econ\u00f4micas no rescaldo da guerra com o Iraque. Nem mesmo Khatami foi capaz de conter o poder desses atores aut\u00f4nomos\u2014cuja orienta\u00e7\u00e3o para o Oriente colidia com o programa estatal de abertura ao Ocidente. Essas for\u00e7as se enraizaram ainda mais ap\u00f3s a ascens\u00e3o de Mahmoud Ahmadinejad ao poder, em 2005, desencadeando uma profunda inflex\u00e3o na economia pol\u00edtica iraniana, que enfraqueceu politicamente tanto a direita tradicional quanto a nova direita.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ex-comandante do CGRI, Ahmadinejad tinha la\u00e7os estreitos tanto com a Guarda Revolucion\u00e1ria quanto com as <em>bonyads<\/em>. For\u00e7as do aparato militar e de seguran\u00e7a compunham quase dois ter\u00e7os do primeiro escal\u00e3o do seu governo, composto principalmente por ex-oficiais do CGRI e do Basij (for\u00e7a paramilitar vinculada ao CGRI). Ao incentivar a transforma\u00e7\u00e3o das <em>bonyads<\/em> em grandes conglomerados, Ahmadinejad criou as condi\u00e7\u00f5es para a expans\u00e3o de seu papel econ\u00f4mico. Esses novos conglomerados n\u00e3o deveriam ser exclusivamente orientados \u00e0 obten\u00e7\u00e3o de lucros, mas tamb\u00e9m contribuir para o desenvolvimento nacional, segundo uma abordagem explicitamente inspirada nas grandes estruturas corporativas do Leste Asi\u00e1tico. Iniciava-se, assim, uma nova e mais agressiva fase da privatiza\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso foi viabilizado pela reforma do artigo 44 da Constitui\u00e7\u00e3o de 1979. Essa norma previa que a economia do Ir\u00e3 era predominantemente controlada pelo Estado, relegando os setores cooperativo e privado a pap\u00e9is perif\u00e9ricos. Uma reinterpreta\u00e7\u00e3o do artigo, ratificada pelo l\u00edder supremo em 2004, redefiniu o papel do governo, substituindo a propriedade e a gest\u00e3o direta por fun\u00e7\u00f5es de formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas, supervis\u00e3o e fiscaliza\u00e7\u00e3o. Dois anos depois, esse entendimento foi ampliado para autorizar \u201centidades e \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos n\u00e3o governamentais, bem como os setores cooperativo e privado\u201d a investir, deter e administrar at\u00e9 80% das a\u00e7\u00f5es de grandes ind\u00fastrias estatais, incluindo bancos, seguros, energia, telecomunica\u00e7\u00f5es, transporte e at\u00e9 mesmo defesa. Com isso, o governo de Ahmadinejad passou a dispor de um arcabou\u00e7o legal para transferir ativos estatais substanciais de minist\u00e9rios do governo para empresas afiliadas ao CGRI e \u00e0s <em>bonyads<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, uma reinterpreta\u00e7\u00e3o do artigo, ratificada pelo L\u00edder Supremo em 2004, alterou o papel do governo, substituindo propriedade e gest\u00e3o diretas por formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas, supervis\u00e3o e fiscaliza\u00e7\u00e3o. Dois anos depois, isso foi ampliado para autorizar \u201centidades e \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos n\u00e3o governamentais, os setores cooperativo e privado\u201d a investir, possuir e administrar at\u00e9 80% das a\u00e7\u00f5es das principais ind\u00fastrias estatais, incluindo bancos, seguros, energia, telecomunica\u00e7\u00f5es, transporte e at\u00e9 mesmo defesa. O governo Ahmadinejad recebeu, assim, uma estrutura legal para transferir ativos estatais substanciais de minist\u00e9rios do governo para empresas afiliadas ao IRGC e aos <em>bonyads<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora a lei ainda exigisse que ativos estatais fossem ofertados de forma competitiva na bolsa de valores, o governo alegou a aus\u00eancia de interessados e sustentou, por isso, a necessidade de realizar transfer\u00eancias diretas por meio de um mecanismo conhecido como \u201cquita\u00e7\u00e3o de passivos\u201d. Na pr\u00e1tica, isso implicou a transfer\u00eancia de grandes empresas a seus credores\u2014muitos deles bonyads e firmas afiliadas ao CGRI. Apresentado como quita\u00e7\u00e3o de d\u00edvidas, o procedimento operou, na pr\u00e1tica, como uma efetiva transfer\u00eancia de ativos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ativos tamb\u00e9m foram transferidos por meio das chamadas \u201ca\u00e7\u00f5es de justi\u00e7a\u201d, pelas quais o governo destinou 40% das a\u00e7\u00f5es de grandes empresas a fam\u00edlias de baixa renda, veteranos de guerra, familiares de m\u00e1rtires e membros do Basij. Embora apresentadas como pol\u00edtica redistributiva\u2014com a\u00e7\u00f5es concedidas gratuitamente ou a pre\u00e7os fortemente subsidiados e quitadas ao longo de dez anos por meio dos lucros das empresas\u2014, sua gest\u00e3o permaneceu concentrada em institui\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0s <em>bonyads<\/em>, como o Imam Khomeini Relief Committee e a Mostazafan Foundation. Cerca de 49 milh\u00f5es de pessoas foram declaradas eleg\u00edveis, e 30 companhias provinciais foram criadas para administrar o programa. A pol\u00edtica de bem-estar funcionou, assim, como mais um vetor de transfer\u00eancia patrimonial, aprofundando a concentra\u00e7\u00e3o de poder econ\u00f4mico nas <em>bonyads<\/em> e no aparato militar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre 2005 e 2013, o governo de Mahmoud Ahmadinejad transferiu ativos a um ritmo quase cinquenta vezes superior ao da privatiza\u00e7\u00e3o sob Khatami. Essa din\u00e2mica foi apresentada como continuidade do mesmo impulso de \u201cliberaliza\u00e7\u00e3o\u201d das administra\u00e7\u00f5es anteriores. Seus efeitos, contudo, foram inteiramente distintos. Em vez de realizar o projeto da fac\u00e7\u00e3o orientada ao Ocidente \u2014 que buscava remodelar o Ir\u00e3 como uma economia neoliberal exemplar \u2014, as reformas de Ahmadinejad consolidaram o poder de atores paraestatais tradicionalistas e ampliaram seu peso econ\u00f4mico, permitindo que os elementos conservadores, de orienta\u00e7\u00e3o oriental, dentro da Rep\u00fablica Isl\u00e2mica assumissem a primazia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O CGRI moveu-se rapidamente para explorar essa nova fase da privatiza\u00e7\u00e3o por meio de sua rede de firmas financeiras afiliadas. Grupos como a Sepah Cooperative Foundation, a Ansar Financial and Credit Institution e a Armed Forces Social Welfare Organisation asseguraram posi\u00e7\u00f5es acion\u00e1rias estrat\u00e9gicas na Bolsa de Valores de Teer\u00e3. A Sepah assumiu o controle de grupos de investimento como a Tose\u2019eh E\u2019tem\u0101d Mobin; a AFSWO incorporou dezenas de empresas; e a Ansar se expandiu at\u00e9 se tornar uma rede de cr\u00e9dito com cerca de 600 ag\u00eancias, atendendo aproximadamente seis milh\u00f5es de clientes. At\u00e9 mesmo o Basij\u2014outrora uma for\u00e7a paramilitar de rua\u2014reinventou-se como ator do mercado acion\u00e1rio.<a data-contents=\"O conglomerado de constru\u00e7\u00e3o Ghorb, afiliado ao Corpo da Guarda Revolucion\u00e1ria Isl\u00e2mica (CGRI), exemplificou esse processo de ascens\u00e3o. Em 2017, a Khatam al-Anbia Construction Headquarters afirmava ter conclu\u00eddo mais de 2.500 projetos, abrangendo rodovias, linhas de metr\u00f4, barragens, hospitais e empreendimentos agr\u00edcolas. Longe de enfraquecer sua posi\u00e7\u00e3o, o regime de san\u00e7\u00f5es contribuiu para sua consolida\u00e7\u00e3o. Quando a Shell e a Total se retiraram do campo de South Pars, subsidi\u00e1rias da Ghorb receberam contratos sem licita\u00e7\u00e3o. Oculta por uma densa rede de subsidi\u00e1rias, empresas de fachada e entidades de car\u00e1ter filantr\u00f3pico, a real dimens\u00e3o de suas opera\u00e7\u00f5es \u00e9 dif\u00edcil de mensurar; ainda assim, estima-se que, j\u00e1 em 2010, a Ghorb controlasse mais de 800 empresas registradas.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-2\" href=\"#footnote-list-2\">2<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">O conglomerado de constru\u00e7\u00e3o Ghorb, afiliado ao Corpo da Guarda Revolucion\u00e1ria Isl\u00e2mica (CGRI), exemplificou esse processo de ascens\u00e3o. Em 2017, a Khatam al-Anbia Construction Headquarters afirmava ter conclu\u00eddo mais de 2.500 projetos, abrangendo rodovias, linhas de metr\u00f4, barragens, hospitais e empreendimentos agr\u00edcolas. Longe de enfraquecer sua posi\u00e7\u00e3o, o regime de san\u00e7\u00f5es contribuiu para sua consolida\u00e7\u00e3o. Quando a Shell e a Total se retiraram do campo de South Pars, subsidi\u00e1rias da Ghorb receberam contratos sem licita\u00e7\u00e3o. Oculta por uma densa rede de subsidi\u00e1rias, empresas de fachada e entidades de car\u00e1ter filantr\u00f3pico, a real dimens\u00e3o de suas opera\u00e7\u00f5es \u00e9 dif\u00edcil de mensurar; ainda assim, estima-se que, j\u00e1 em 2010, a Ghorb controlasse mais de 800 empresas registradas.<\/span> As receitas de todas as empresas vinculadas ao CGRI permaneceram isentas de tributa\u00e7\u00e3o e fiscaliza\u00e7\u00e3o, sob o pretexto de financiar iniciativas de combate \u00e0 pobreza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As <em>bonyads<\/em> seguiram trajet\u00f3ria semelhante. A Mostazafan Foundation reduziu seu portf\u00f3lio de empresas menores e reinvestiu em setores estrat\u00e9gicos, estruturando o Sina Bank e a Sina Financial and Investment Company. Com dez holdings principais e mais de 200 subsidi\u00e1rias, consolidou uma presen\u00e7a robusta em setores como agricultura, energia, minera\u00e7\u00e3o, constru\u00e7\u00e3o, servi\u00e7os e finan\u00e7as. Em movimento an\u00e1logo de diversifica\u00e7\u00e3o, a Imam Reza Shrine Foundation estendeu seu controle para mais de 150 empresas e cerca de 400 mil hectares de terras, enquanto a Martyrs\u2019 Foundation aprofundou seus v\u00ednculos pol\u00edticos sob Ahmadinejad e expandiu suas atividades nos setores financeiro e industrial. O Setad se transformou em uma vasta holding, com um bra\u00e7o de investimentos que abrangeu finan\u00e7as, farmac\u00eautica e agricultura. Para preservar seus privil\u00e9gios de isen\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria, a entidade alegou contribuir para o desenvolvimento rural.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, o que se promoveu como privatiza\u00e7\u00e3o, caridade e desenvolvimento nacional correspondeu, na pr\u00e1tica, \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o de um vasto imp\u00e9rio paraestatal. Por meio de quita\u00e7\u00f5es de d\u00edvida, isen\u00e7\u00f5es tribut\u00e1rias e redes opacas, o CGRI e funda\u00e7\u00f5es aliadas converteram a retra\u00e7\u00e3o do Estado em poder monopolista, borrando a fronteira entre bem-estar e preda\u00e7\u00e3o. Nesse processo, marginalizaram seus aliados tradicionais: as classes de comerciantes do bazar. As san\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m contribu\u00edram para a reconfigura\u00e7\u00e3o dessas rela\u00e7\u00f5es de poder: for\u00e7ado a contornar restri\u00e7\u00f5es comerciais, o Ir\u00e3 desenvolveu rotas de contrabando, o que permitiu ao CGRI explorar portos e aeroportos sob seu controle.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No final dos anos 2000, a ascens\u00e3o desses conglomerados e subsidi\u00e1rias interligados deu origem a uma fac\u00e7\u00e3o extremamente poderosa: o complexo militar-<em>bonyad<\/em>, cujos representantes pol\u00edticos s\u00e3o conhecidos como principilogistas. Enquanto a Direita Tradicional manteve seus v\u00ednculos com o bazar, esse novo grupo passou a dominar tanto a classe dirigente quanto o aparato estatal, estabelecendo la\u00e7os estreitos com o pr\u00f3prio l\u00edder supremo.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">San\u00e7\u00f5es e geopol\u00edtica<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 certa sobreposi\u00e7\u00e3o entre a fac\u00e7\u00e3o orientada ao Ocidente e o complexo militar-<em>bonyad<\/em>: ambos ascenderam ao poder explorando institui\u00e7\u00f5es estatais para canalizar ativos p\u00fablicos a conglomerados \u201csemiprivados\u201d, apagando, na pr\u00e1tica, a fronteira entre capital estatal e privado. A linha divis\u00f3ria entre elas, contudo, est\u00e1 na orienta\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao capital internacional e \u00e0 pol\u00edtica externa. A fac\u00e7\u00e3o orientada ao Ocidente defende a amplia\u00e7\u00e3o do papel das corpora\u00e7\u00f5es multinacionais\u2014em especial as europeias\u2014em setores estrat\u00e9gicos dominados pelo Estado, entendendo essa via como a fonte mais vi\u00e1vel de financiamento, tecnologia e acesso a mercados de exporta\u00e7\u00e3o para o Ir\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa perspectiva tende, naturalmente, a orientar a pol\u00edtica externa em uma dire\u00e7\u00e3o mais favor\u00e1vel ao Ocidente, como demonstram as administra\u00e7\u00f5es de Hashemi Rafsanjani, Mohammad Khatami e, posteriormente, de Hassan Rouhani. Ela tamb\u00e9m se articula a uma leitura mais \u201cdemocr\u00e1tica\u201d do Isl\u00e3, que enfatiza o \u201cpluralismo\u201d e a \u201cboa governan\u00e7a\u201d como eufemismos para a integra\u00e7\u00e3o \u00e0 ordem mundial do p\u00f3s-Guerra Fria. No interior dessa fac\u00e7\u00e3o, o apoio a elei\u00e7\u00f5es livres e a reformas institucionais \u00e9 majoritariamente t\u00e1tico, e n\u00e3o ideol\u00f3gico: trata-se, essencialmente, de conter o poder excessivo do complexo militar-<em>bonyad<\/em>, que se beneficia da estrutura h\u00edbrida da Rep\u00fablica Isl\u00e2mica, na qual diversos \u00f3rg\u00e3os n\u00e3o eleitos\u2014o Judici\u00e1rio, o Conselho dos Guardi\u00e3es, as <em>bonyads<\/em> e as for\u00e7as armadas\u2014permanecem sob o controle do l\u00edder supremo.<a data-contents=\"Vale notar que, ao contr\u00e1rio do que aconteceu durante a primeira d\u00e9cada da revolu\u00e7\u00e3o, as reformas constitucionais de 1989 aboliram o cargo de primeiro-ministro e concentraram o poder executivo na presid\u00eancia.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-3\" href=\"#footnote-list-3\">3<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Vale notar que, ao contr\u00e1rio do que aconteceu durante a primeira d\u00e9cada da revolu\u00e7\u00e3o, as reformas constitucionais de 1989 aboliram o cargo de primeiro-ministro e concentraram o poder executivo na presid\u00eancia.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O complexo militar-<em>bonyad<\/em>, por sua vez, apresenta-se como o guardi\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o de 1979, argumentando que um maior engajamento com o capital ocidental amea\u00e7aria o ideal revolucion\u00e1rio de \u201cautossufici\u00eancia\u201d. Rejeita, ainda, a ideia de que empresas estrangeiras trariam tecnologia ou reduziriam custos de produ\u00e7\u00e3o e retrata as pol\u00edticas favor\u00e1veis ao investimento estrangeiro direto como instrumentos de domina\u00e7\u00e3o ocidental. Diferentemente das administra\u00e7\u00f5es de Rafsanjani e Khatami, que buscaram uma reaproxima\u00e7\u00e3o com a Europa e os Estados Unidos, o governo de Mahmoud Ahmadinejad adotou uma pol\u00edtica externa orientada pela seguran\u00e7a, concebida para limitar uma integra\u00e7\u00e3o mais profunda com o Ocidente. Ahmadinejad minimizou as novas san\u00e7\u00f5es de Washington como um \u201cpeda\u00e7o de papel sem valor\u201d, enquanto o l\u00edder supremo as apresentou como uma oportunidade para fomentar a independ\u00eancia econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O complexo militar-<em>bonyad<\/em> tamb\u00e9m enxerga a ascens\u00e3o econ\u00f4mica da China e a crescente assertividade geopol\u00edtica da R\u00fassia como uma ruptura bem-vinda com o per\u00edodo de domina\u00e7\u00e3o norte-americana sem freios, abrindo novas possibilidades para que o Ir\u00e3 explore sua posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica. A administra\u00e7\u00e3o Ahmadinejad procurou convencer Pequim da import\u00e2ncia das reservas energ\u00e9ticas iranianas, promovendo o pa\u00eds como o \u00fanico fornecedor regional \u201cindependente e seguro\u201d, fora da \u00f3rbita dos EUA. \u00c0 medida que o complexo militar-<em>bonyad<\/em> ampliou sua presen\u00e7a nas grandes obras p\u00fablicas\u2014constru\u00e7\u00e3o, contratos, desenvolvimento e telecomunica\u00e7\u00f5es\u2014e passou a dominar grandes projetos de infraestrutura, como ferrovias, rodovias e barragens, apresentou-se como parceiro ideal para o capital chin\u00eas, no contexto da Belt and Road Initiative. Para os principialistas, um Oriente em ascens\u00e3o aumenta as chances de sustentar um Estado revolucion\u00e1rio sob press\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Decl\u00ednio<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde a sa\u00edda de Mahmoud Ahmadinejad do poder, essas duas fac\u00e7\u00f5es continuam a disputar o controle. Em 2012, as san\u00e7\u00f5es sem precedentes impostas pelos Estados Unidos e pela Uni\u00e3o Europeia aos setores energ\u00e9tico e banc\u00e1rio do Ir\u00e3 reduziram drasticamente as exporta\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo, lan\u00e7ando o pa\u00eds em uma crise que abriu caminho para a vit\u00f3ria presidencial do \u201creformista\u201d orientado ao Ocidente Hassan Rouhani e para o in\u00edcio do Joint Comprehensive Plan of Action com a Casa Branca de Barack Obama. Com a elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump, contudo, tornou-se evidente que havia pouca margem para apaziguar Washington, que passou a conduzir uma campanha de \u201cpress\u00e3o m\u00e1xima\u201d contra Teer\u00e3, com o objetivo de desestabilizar e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, derrubar o regime. Isso provocou uma inflex\u00e3o do p\u00eandulo pol\u00edtico contra os reformistas, estreitando o controle do complexo militar-<em>bonyad<\/em> e acelerando a estrat\u00e9gia de \u201cOlhar para o Oriente\u201d. Essa reorienta\u00e7\u00e3o culminou na assinatura, em 2021, de um Acordo de Coopera\u00e7\u00e3o de 25 anos com a China; na ades\u00e3o \u00e0 Shanghai Cooperation Organisation em 2023; no ingresso no BRICS em 2024; e na celebra\u00e7\u00e3o, em 2025, de um Tratado de Parceria Estrat\u00e9gica de 20 anos com a R\u00fassia. Embora o presidente em exerc\u00edcio, Masoud Pezeshkian, perten\u00e7a ao campo orientado ao Ocidente, ele tem se mostrado incapaz (e pouco disposto) a reverter essa trajet\u00f3ria, em raz\u00e3o tanto do equil\u00edbrio interno de for\u00e7as quanto da escalada promovida pelos Estados Unidos e por Israel contra o Ir\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda assim, nem o bloco orientado ao Ocidente nem o orientado ao Oriente conseguiram concretizar seus projetos de transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Desde o in\u00edcio, persiste uma contradi\u00e7\u00e3o entre a preserva\u00e7\u00e3o dos privil\u00e9gios dessas elites governantes e a promessa original da revolu\u00e7\u00e3o de apoiar trabalhadores e pobres, dilema que se agravou \u00e0 medida que a economia passou a operar sob severas restri\u00e7\u00f5es externas. Grupos de interesse profundamente enraizados, associados tanto aos reformistas quanto aos conservadores, bloqueiam qualquer resolu\u00e7\u00e3o desse dilema em favor da popula\u00e7\u00e3o em geral.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em vez disso, ambos os blocos ficaram presos a um programa de neoliberaliza\u00e7\u00e3o que redistribuiu riqueza para o topo. Sob a bandeira da reforma de mercado, ativos estatais foram transferidos a conglomerados paraestatais. Sob a press\u00e3o das san\u00e7\u00f5es, o acesso ao com\u00e9rcio, \u00e0s finan\u00e7as e \u00e0 infraestrutura foi monopolizado por institui\u00e7\u00f5es protegidas da fiscaliza\u00e7\u00e3o. Sob os r\u00f3tulos de \u201cautossufici\u00eancia\u201d e \u201cresist\u00eancia econ\u00f4mica\u201d, o poder coercitivo se fundiu com o privil\u00e9gio econ\u00f4mico. O conjunto dessas din\u00e2micas produziu uma reconfigura\u00e7\u00e3o estrutural das classes subalternas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A desregulamenta\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho deu origem a um precariado que hoje constitui o maior segmento da for\u00e7a de trabalho: se, em 1990, apenas 6% dos trabalhadores estavam empregados sob contratos tempor\u00e1rios, esse percentual chegou a 90% no final dos anos 2000. Em 2021, impressionantes 97% dos trabalhadores tinham contratos com dura\u00e7\u00e3o inferior a seis meses. A reestrutura\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica tamb\u00e9m elevou de forma acentuada o desemprego, sobretudo entre jovens de 15 a 30 anos com forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria. Em um pa\u00eds com idade mediana de 32 anos, esse grupo representa a maior parcela da popula\u00e7\u00e3o. A participa\u00e7\u00e3o desse contingente emergente no total de desempregados cresceu continuamente: de 10% em 2001 para 20% em 2005; de 42% em 2015 para mais de 50% ao final da d\u00e9cada de 2010.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A situa\u00e7\u00e3o de priva\u00e7\u00e3o das camadas tradicionalmente pobres da popula\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m continua a se aprofundar. Os cortes de subs\u00eddios a alimentos b\u00e1sicos e energia, a infla\u00e7\u00e3o persistente e a desvaloriza\u00e7\u00e3o da moeda nacional incidiram de maneira desproporcional sobre domic\u00edlios em \u00e1reas rurais, em pequenas cidades e entre migrantes rurais nas grandes metr\u00f3poles. Ainda que parte dessas pessoas siga acessando algum tipo de bem ou servi\u00e7o ligado \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es do Estado de bem-estar, a eros\u00e3o dos subs\u00eddios e do poder de compra comprometeu severamente seus padr\u00f5es de vida. O resultado tem sido um aumento acentuado da desigualdade. Desde 1994, os 10% mais ricos da popula\u00e7\u00e3o auferem, em m\u00e9dia, cerca de quinze vezes mais renda do que os 10% mais pobres, enquanto os 20% do topo apropriam-se de quase metade da renda total, contra apenas 5,5% para os 20% da base. Ao final da d\u00e9cada de 2010, estimativas oficiais indicavam que 25% da popula\u00e7\u00e3o vivia abaixo da linha de pobreza extrema (um n\u00famero amplamente considerado subestimado).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo do per\u00edodo neoliberal, os trabalhadores iranianos participaram em greves e protestos, lutando contra demiss\u00f5es, contratos tempor\u00e1rios e de curta dura\u00e7\u00e3o, m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de trabalho e sal\u00e1rios baixos. Tamb\u00e9m eclodiram motins como resultado dos cortes nos subs\u00eddios, da infla\u00e7\u00e3o e da queda do padr\u00e3o de vida. No entanto, ap\u00f3s 2017, verificou-se uma mudan\u00e7a qualitativa e quantitativa na oposi\u00e7\u00e3o iraniana, marcada por um aumento da agita\u00e7\u00e3o laboral e pela eclos\u00e3o de quatro revoltas a n\u00edvel nacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primeira onda, conhecida como <em>Dey<\/em>, come\u00e7ou em Mashhad e durou de dezembro de 2017 a janeiro de 2018, impulsionada por um aumento repentino de 40% nos pre\u00e7os dos alimentos b\u00e1sicos. Em seguida, os protestos <em>Aban<\/em> de novembro de 2019 come\u00e7aram na prov\u00edncia de Khuzestan, ap\u00f3s o an\u00fancio repentino do governo de aumento nos pre\u00e7os dos combust\u00edveis. A terceira onda, o movimento <em>Mulheres, Vida, Liberdade<\/em>, em setembro de 2022, foi iniciado no Curdist\u00e3o ap\u00f3s a morte de Mahsa Amini enquanto estava sob cust\u00f3dia da Pol\u00edcia da Moralidade. E, finalmente, a onda mais recente come\u00e7ou em 28 de dezembro de 2025 no bazar hist\u00f3rico de Teer\u00e3, precipitada pelo colapso da moeda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De revolta em revolta, vimos aumentos tanto no alcance geogr\u00e1fico dos protestos quanto no n\u00edvel de sentimento antigovernamental. Enquanto os protestos de 2017 ocorreram em cerca de 75 cidades, os mais recentes se espalharam por 200 locais em todas as 31 prov\u00edncias do pa\u00eds. Paralelamente, a escala da repress\u00e3o estatal aumentou, acompanhada por um bloqueio quase total das comunica\u00e7\u00f5es. Enquanto em 2017 houve cerca de 20 mortos e 4.000 presos, as <a href=\"https:\/\/www.en-hrana.org\/day-twenty-four-of-the-protests-continued-communications-blackout-and-international-warnings-of-crimes-against-humanity\/\">estimativas<\/a> para 2026 gigam em torno de 3.300 mortos e 24.000 presos. A tend\u00eancia ascendente sugere uma crise estrutural crescente, causada por d\u00e9cadas de neoliberaliza\u00e7\u00e3o, m\u00e1 gest\u00e3o econ\u00f4mica e san\u00e7\u00f5es internacionais. Esses processos fortaleceram um complexo militar-<em>bonyad<\/em> irrespons\u00e1vel, desmantelaram as prote\u00e7\u00f5es sociais limitadas do Estado p\u00f3s-revolucion\u00e1rio e produziram uma vasta e prec\u00e1ria popula\u00e7\u00e3o de trabalhadores e jovens vulner\u00e1veis a choques econ\u00f4micos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cada onda de protestos\u2014seja desencadeada por aumentos nos pre\u00e7os dos alimentos e dos combust\u00edveis, pela brutalidade da Pol\u00edcia da Moralidade ou o pelo colapso da moeda\u2014expressou a frustra\u00e7\u00e3o social reprimida. Cada uma delas foi mais ampla, mais dispersa geograficamente e mais diversificada socialmente do que a anterior. A resposta da Rep\u00fablica Isl\u00e2mica demonstrou sua formid\u00e1vel capacidade coercitiva que, por enquanto, parece ter conseguido recuperar as ruas. No entanto, a repress\u00e3o por si s\u00f3 n\u00e3o pode restaurar a estabilidade nem garantir a viabilidade do regime a longo prazo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A recente turbul\u00eancia no Ir\u00e3 marca a quarta grande onda de protestos desde 2017. Nas tr\u00eas semanas ap\u00f3s as primeiras manifesta\u00e7\u00f5es, a turbul\u00eancia pareceu apenas se intensificar. Mas em quest\u00e3o de dias, o \u00edmpeto perdeu for\u00e7a e o governo pareceu recuperar o controle. 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