{"id":27726,"date":"2025-12-04T08:37:44","date_gmt":"2025-12-04T08:37:44","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/?p=27726"},"modified":"2026-01-14T13:38:35","modified_gmt":"2026-01-14T13:38:35","slug":"o-preco-da-floresta-em-pe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/o-preco-da-floresta-em-pe\/","title":{"rendered":"O pre\u00e7o da floresta em p\u00e9"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A COP30 seria a \u201cCOP da verdade\u201d, anunciava Lula durante a Assembleia Geral da ONU em setembro de 2025. Num contexto em que, desde o Acordo de Paris, o financiamento \u00e9 eixo central das negocia\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas internacionais, o crit\u00e9rio da \u201cverdade\u201d adotado pelo Brasil foi a designa\u00e7\u00e3o do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (<em>Tropical Forest Forever Facility<\/em>, ou TFFF, na sigla em ingl\u00eas) como grande prioridade da sua presid\u00eancia anual da Confer\u00eancia. Apresentado como tendo o \u201cpotencial de se tornar um dos maiores fundos multilaterais do planeta\u201d e de mudar \u201ca forma como o mundo enxerga a conserva\u00e7\u00e3o ambiental\u201d, o TFFF \u00e9 um mecanismo que pretende atrair US$ 125 bilh\u00f5es em recursos p\u00fablicos e privados, investi-los em opera\u00e7\u00f5es financeiras de rendimento superior ao custo do capital e, com os lucros l\u00edquidos, financiar pa\u00edses em desenvolvimento que preservem suas florestas tropicais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ideia que baseia o atual desenho do TFFF, no entanto, n\u00e3o \u00e9 exatamente uma novidade: um instrumento dessa natureza j\u00e1 havia sido proposto por <a href=\"https:\/\/therockcreekgroup.com\/team-members\/kenneth-lay\/\">Kenneth Lay<\/a>, que atuou como tesoureiro do Banco Mundial nos anos 2000, em discursos feitos h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada e, formalmente, em um <a href=\"https:\/\/www.jstor.org\/stable\/resrep29744.4\">relat\u00f3rio<\/a> publicado em 2018. Em 2023, durante a COP28, a iniciativa foi oficialmente abra\u00e7ada pelo governo brasileiro. Dois anos depois, recebendo a confer\u00eancia em casa, o Brasil <a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/meio-ambiente\/noticia\/2025-11\/lula-lanca-em-belem-fundo-para-preservacao-de-florestas-tropicais\">lan\u00e7ou o TFFF<\/a> como reconhecimento de que \u201cas florestas valem mais em p\u00e9 do que derrubadas. Elas deveriam integrar o PIB dos nossos pa\u00edses. Os servi\u00e7os ecossist\u00eamicos precisam ser remunerados, assim como as pessoas que protegem as florestas\u201d, nas palavras de Lula.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na pr\u00e1tica, o TFFF ser\u00e1 estruturado como um \u201cguarda-chuva\u201d que abrigar\u00e1 duas iniciativas distintas e suas respectivas estruturas de governan\u00e7a: o TFFF e o TFIF (Fundo de Investimento em Florestas Tropicais, em portugu\u00eas). Quando se fala em TFFF, dentro dessa divis\u00e3o, fala-se de um \u201cmecanismo\u201d (<em>facility<\/em>) que supervisionar\u00e1 a participa\u00e7\u00e3o de pa\u00edses e ser\u00e1 respons\u00e1vel pela avalia\u00e7\u00e3o e monitoramento e pelos pagamentos por cobertura florestal. O TFIF, por sua vez, ser\u00e1 o bra\u00e7o financeiro respons\u00e1vel por mobilizar e gerir os recursos do Fundo. O TFFF pretende mobilizar um capital inicial de US$ 25 bilh\u00f5es em empr\u00e9stimos provenientes de governos ou bancos multilaterais (<em>junior capital<\/em>) a serem reembolsados em 40 anos, com pagamento anual de juros. O capital inicial servir\u00e1 de garantia para atrair, por meio da emiss\u00e3o de t\u00edtulos de d\u00edvida de longo prazo (<em>senior debt<\/em>), investidores privados e institucionais, de quem se espera uma contribui\u00e7\u00e3o de mais US$ 100 bilh\u00f5es. O objetivo, portanto, \u00e9 captar US$ 125 bilh\u00f5es de governos, fundos soberanos e investidores privados em um arranjo de finan\u00e7as h\u00edbridas (ou <em>blended finance<\/em>). Os US$ 125 bilh\u00f5es arrecadados ser\u00e3o investidos pelo TFIF em portf\u00f3lios diversificados de t\u00edtulos de renda fixa das chamadas \u201ceconomias emergentes e em desenvolvimento\u201d\u2014o que inclui os pr\u00f3prios pa\u00edses com florestas tropicais eleg\u00edveis para pagamentos do TFFF\u2014em projetos considerados \u201csustent\u00e1veis&#8221;, \u201cverdes\u201d ou \u201cclimaticamente positivos\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A taxonomia envolvida\u2014de \u201cpa\u00edses emergentes e em desenvolvimento\u201d a \u201csustentabilidade\u201d ou \u201cpositividade clim\u00e1tica\u201d\u2014\u00e9 uma quest\u00e3o \u00e0 parte, j\u00e1 levantada em m\u00faltiplos <a href=\"https:\/\/rosalux.org.br\/politizando-o-clima-poder-territorios-e-resistencias\/\">debates<\/a> anteriores. A novidade aqui \u00e9 que o Fundo promete garantir retornos permanentes para remunerar pa\u00edses que conservem suas florestas. O TFIF estima que a parte dos retornos pass\u00edvel de transfer\u00eancia aos pa\u00edses benefici\u00e1rios atinja os US$ 4 bilh\u00f5es anuais. O sucesso do TFFF, portanto, depende do bom desempenho do TFIF nos mercados financeiros: os investimentos devem ser pr\u00f3speros o suficiente para cobrir o custo operacional, remunerar os investidores privados, pagar juros aos patrocinadores e, enfim, destinar recursos a pa\u00edses comprometidos com a conserva\u00e7\u00e3o de suas florestas tropicais\u2014nessa ordem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na mesma ocasi\u00e3o em que cunhou a express\u00e3o \u201cCOP da verdade\u201d, Lula anunciou que o Brasil faria um aporte de US$ 1 bilh\u00e3o para o TFFF. At\u00e9 o in\u00edcio da COP30, Alemanha, Reino Unido e Noruega declararam apoio \u00e0 iniciativa e China e Fran\u00e7a sinalizaram um poss\u00edvel aporte futuro. O TFFF tamb\u00e9m foi endossado oficialmente pelo <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/mre\/pt-br\/canais_atendimento\/imprensa\/notas-a-imprensa\/declaracao-marco-dos-lideres-do-brics-sobre-financas-climaticas\">BRICS<\/a> na C\u00fapula do Rio de Janeiro, em julho, e pelos noves presidentes e chefes de delega\u00e7\u00e3o do <a href=\"https:\/\/agenciagov.ebc.com.br\/noticias\/202508\/comunicado-conjunto-sobre-o-fundo-florestas-tropicais-para-sempre-tfff\">Tratado de Coopera\u00e7\u00e3o Amaz\u00f4nica<\/a> reunidos em Bogot\u00e1 em agosto. Poucas semanas ap\u00f3s o lan\u00e7amento oficial do TFFF durante a c\u00fapula dos l\u00edderes da COP30, o Fundo havia arrecadado <a href=\"https:\/\/tfffwatch.org\/investment-tracker\/Germany\">US$ 6,7 bilh\u00f5es de d\u00f3lares de patrocinadores<\/a>, notadamente Brasil, Noruega, Alemanha, Fran\u00e7a, Indon\u00e9sia, Portugal e Filipinas. Apesar do apoio inicial, o Reino Unido declarou que n\u00e3o tem espa\u00e7o fiscal para contribuir e a <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ambiente\/2025\/11\/china-nao-confirma-ou-nega-participacao-em-fundo-das-florestas-tropicais.shtml\">China<\/a> n\u00e3o indicou claramente se ainda pretende fazer um aporte ou n\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No discurso oficial, o TFFF \u00e9 considerado inovador por diversos motivos, entre eles: situar-se fora da l\u00f3gica de compensa\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es do mercado de carbono e possibilitar que os pagamentos sejam aplicados em pol\u00edticas p\u00fablicas de longo prazo; prever o repasse direto de parte dos recursos para povos ind\u00edgenas e comunidades tradicionais; e&nbsp; introduzir o monitoramento das florestas por sat\u00e9lite como garantia de objetividade e transpar\u00eancia, utilizando imagens de alta qualidade e bases de dados validadas. Em um contexto de avan\u00e7o de governos liberal-autorit\u00e1rios, aus\u00eancia de recursos para povos ind\u00edgenas e comunidades e abismo persistente entre metas clim\u00e1ticas e meios mobilizados para cumpri-las, o Fundo pode at\u00e9 parecer uma alternativa promissora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, sua fundamenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e ideol\u00f3gica, sua l\u00f3gica de funcionamento e os atores envolvidos em seu desenho reproduzem velhas estruturas. Ao recorrer a uma \u201cforma diferenciada de captar recursos\u201d que \u201cn\u00e3o depende de subs\u00eddios tradicionais, [. . .] sujeitos a ciclos pol\u00edticos e volatilidade or\u00e7ament\u00e1ria nos pa\u00edses desenvolvidos\u201d e oferecer \u201cuma proposta de valor atraente para pa\u00edses soberanos investidores e investidores privados, gerando retornos competitivos no mercado\u201d,<a data-contents=\"Todas as cita\u00e7\u00f5es s\u00e3o do resumo executivo presente no site oficial do TFFF, dispon\u00edvel aqui: (<)a href='https:\/\/tfff.earth\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/190725-TFFF-Executive-Summary-PT.pdf'(>)https:\/\/tfff.earth\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/190725-TFFF-Executive-Summary-PT.pdf(<)\/a(>) (acesso em 02 de dezembro de 2025).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-1\" href=\"#footnote-list-1\">1<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Todas as cita\u00e7\u00f5es s\u00e3o do resumo executivo presente no site oficial do TFFF, dispon\u00edvel aqui: (<)a href='https:\/\/tfff.earth\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/190725-TFFF-Executive-Summary-PT.pdf'(>)https:\/\/tfff.earth\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/190725-TFFF-Executive-Summary-PT.pdf(<)\/a(>) (acesso em 02 de dezembro de 2025).<\/span> o Fundo renova velhas narrativas: a do Estado ineficiente e sem recursos; a da emerg\u00eancia clim\u00e1tica que justificaria a entrada do setor privado e, consequentemente, a legitima\u00e7\u00e3o de mecanismos que aprofundam a financeiriza\u00e7\u00e3o; al\u00e9m do poder corporativo e dos processos neocoloniais na arquitetura de governan\u00e7a global. Isso \u00e9 refor\u00e7ado pelo fato de que parte importante da governan\u00e7a do TFFF, em especial do \u201cmecanismo\u201d, caber\u00e1 justamente ao Banco Mundial, institui\u00e7\u00e3o que tradicionalmente recomenda a seus pa\u00edses-membros a ado\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas dom\u00e9sticas alinhadas aos interesses do capital financeiro global. Longe de ser inovador, o TFFF \u00e9 mais um instrumento que permite que agentes dominantes incorporem justificativas clim\u00e1ticas para criar servi\u00e7os e produtos que consolidam o dom\u00ednio do capital sobre a economia, a pol\u00edtica e as rela\u00e7\u00f5es sociais. Mais uma vez, a a\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica \u00e9 deslocada para a l\u00f3gica do mercado e das m\u00e9tricas financeiras, ou seja, \u00e9 despolitizada e desconectada das realidades daqueles que pagam a conta da crise clim\u00e1tica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Precificando a floresta<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na <a href=\"https:\/\/tfff.earth\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/190725-TFFF-Executive-Summary-PT.pdf\">apresenta\u00e7\u00e3o<\/a> do TFFF, o governo brasileiro esclarece que, embora esteja alinhado aos objetivos da Conven\u00e7\u00e3o Quadro das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (UNFCCC), da Conven\u00e7\u00e3o sobre a Diversidade Biol\u00f3gica (CDB) e da Conven\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas de Combate \u00e0 Desertifica\u00e7\u00e3o (UNCCD), ele n\u00e3o \u00e9 um mecanismo financeiro que se subordina a nenhuma dessas estruturas. Vale lembrar que o lan\u00e7amento do TFFF ocorreu ap\u00f3s o fracasso representado pelo \u201cmapa de Baku a Bel\u00e9m\u201d, que estabeleceu um roteiro para mobilizar US$ 1,3 trilh\u00e3o por ano em financiamento clim\u00e1tico de fontes p\u00fablicas e privadas at\u00e9 2035\u2014fracasso n\u00e3o apenas porque a cifra que est\u00e1 longe de atender \u00e0s demandas e necessidades de pa\u00edses do Sul global, mas tamb\u00e9m porque foi cunhada j\u00e1 em um contexto de d\u00e9ficit anual de investimentos clim\u00e1ticos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De acordo com o <a href=\"https:\/\/cop30.br\/pt-br\/noticias-da-cop30\/relatorio-do-circulo-de-ministros-de-financas-da-cop30-e-lancado-durante-encontros-do-fmi-e-banco-mundial\">relat\u00f3rio<\/a> produzido pelo C\u00edrculo de Ministros de Finan\u00e7as da COP30<em>, <\/em>apenas 10% do financiamento clim\u00e1tico chega a pa\u00edses \u201cemergentes e em desenvolvimento\u201d e menos de 5% \u00e9 direcionado a medidas de adapta\u00e7\u00e3o. Liderado pelo ministro da Fazenda do Brasil, Fernando Haddad, o C\u00edrculo conta com a participa\u00e7\u00e3o de mais 35 pa\u00edses, al\u00e9m da colabora\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es internacionais e de grupos da sociedade civil, do empresariado e da academia.&nbsp;Mas o problema n\u00e3o se limita \u00e0 quantidade de recursos: a forma de pagamento tamb\u00e9m evidencia a desproporcionalidade das finan\u00e7as clim\u00e1ticas globais. Segundo outro <a href=\"https:\/\/publications.iadb.org\/en\/2023-joint-report-multilateral-development-banks-climate-finance\">relat\u00f3rio<\/a>, assinado em conjunto por diversos bancos multilaterais, em 2023, 70% do financiamento clim\u00e1tico proveniente de institui\u00e7\u00f5es multilaterais tomou a forma de empr\u00e9stimos, enquanto as doa\u00e7\u00f5es representaram somente 10% do total.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Curiosamente, uma das grandes novidades alardeadas pelo TFFF \u00e9 justamente a substitui\u00e7\u00e3o do protagonismo das doa\u00e7\u00f5es no financiamento clim\u00e1tico por uma l\u00f3gica de capta\u00e7\u00e3o via mercado, considerada <a href=\"https:\/\/tfff.earth\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/190725-TFFF-Executive-Summary-PT.pdf\">mais \u201cresiliente\u201d diante de incertezas pol\u00edticas em raz\u00e3o da autossustentabilidade financeira<\/a>: ao aplicar os recursos captados em carteiras de renda fixa diversificadas, o TFIF visa gerar lucros superiores ao custo de capital, com a expectativa de criar um ciclo de autofinanciamento em que o pagamento pela conserva\u00e7\u00e3o dependa diretamente da performance do fundo, e n\u00e3o da vontade pol\u00edtica de atores diversos. Outra novidade \u00e9 a promessa de que parte dos recursos seja repassada a povos ind\u00edgenas e comunidades tradicionais dos pa\u00edses com florestas tropicais, garantindo \u201c<a href=\"https:\/\/tfff.earth\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/190725-TFFF-Executive-Summary-PT.pdf\">reconhecimento financeiro aos guardi\u00f5es da floresta<\/a>\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda que a narrativa seja de moderniza\u00e7\u00e3o, efici\u00eancia e aloca\u00e7\u00e3o justa de recursos, na pr\u00e1tica, a estrutura do TFFF subordina os objetivos socioambientais \u00e0 l\u00f3gica do lucro e \u00e0 volatilidade dos mercados. Primeiro, porque a substitui\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica da doa\u00e7\u00e3o pela do investimento rompe com a obriga\u00e7\u00e3o e a responsabilidade dos pa\u00edses do Norte de pagar a d\u00edvida clim\u00e1tica hist\u00f3rica que t\u00eam com pa\u00edses do Sul.<a data-contents=\"Nos termos do princ\u00edpio das \u201cresponsabilidades comuns, mas diferenciadas\u201d, adotado pela pr\u00f3pria UNFCCC.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-2\" href=\"#footnote-list-2\">2<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Nos termos do princ\u00edpio das \u201cresponsabilidades comuns, mas diferenciadas\u201d, adotado pela pr\u00f3pria UNFCCC.<\/span> Segundo, porque, de acordo com a racionalidade do investimento, os pagamentos aos pa\u00edses que preservarem suas florestas tropicais est\u00e3o subordinados a uma taxa m\u00ednima de rendimento do fundo\u2014calculada pelo TFFF como 5,5%\u2014e, ainda, \u00e0 estabilidade dos \u00edndices de desmatamento, sujeitando a pol\u00edtica de prote\u00e7\u00e3o florestal a flutua\u00e7\u00f5es globais. Em contextos marcados por instabilidade econ\u00f4mica e fragilidade institucional\u2014caracter\u00edsticas intr\u00ednsecas do capitalismo financeirizado\u2014, essa tutela do mercado amea\u00e7a a continuidade de pol\u00edticas ambientais e gera incerteza para comunidades e territ\u00f3rios que podem passar a depender do retorno de investimentos no mercado financeiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os desequil\u00edbrios ficam ainda mais evidentes diante do desenho espec\u00edfico dos incentivos do TFFF aos pa\u00edses com florestas tropicais. O Fundo promete um modesto repasse de US$ 4 anuais por hectare de floresta conservado. Mas o pagamento s\u00f3 se concretiza se todas as condi\u00e7\u00f5es de performance do investimento do TFIF forem cumpridas. Caso contr\u00e1rio, os repasses podem ser reduzidos ou at\u00e9 paralisados, independentemente da performance de conserva\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses com florestas. Al\u00e9m disso, se determinado pa\u00eds receptor n\u00e3o cumprir as metas de conserva\u00e7\u00e3o, o pagamento est\u00e1 sujeito a descontos de at\u00e9 US$ 400 por hectare perdido\u2014cem vezes mais que a recompensa pela conserva\u00e7\u00e3o. O <a href=\"https:\/\/tfff.earth\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/QA-Finance-1.pdf\">documento oficial de \u201cperguntas e respostas\u201d<\/a> publicado pelo Fundo deixa clara a prioridade entre conserva\u00e7\u00e3o e puni\u00e7\u00e3o. J\u00e1 na primeira resposta, o c\u00e1lculo por tr\u00e1s da propor\u00e7\u00e3o 1:100 \u00e9 explicado:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se o TFFF pagasse todo o lucro anual aos pa\u00edses com florestas tropicais e seus investidores, a proposta seria realmente arriscada, pois a probabilidade de que haja alguma indadimpl\u00eancia \u00e9 real. Mas, devido ao desconto por desmatamento, o TFFF ret\u00e9m uma porcentagem significativa de sua receita, especialmente nos primeiros anos. Trata-se de patrim\u00f4nio l\u00edquido puro que fornece prote\u00e7\u00e3o contra quaisquer perdas ou volatilidades de mercado que possam ocorrer. Com o tempo, espera-se que essa prote\u00e7\u00e3o se fortale\u00e7a e permita o reembolso do capital junior original, mas nos primeiros 10 anos ela desempenha o papel de colch\u00e3o de estabilidade da estrutura financeira.<a data-contents=\"No original: \u201cIf the Tropical Forever Investment Fund were paying out all its profit every year fully to the TFCs and its investors, then yes, the proposal would be risky because the probability that there will be some defaults is real. But because of the deforestation discount, TFIF retains a significant percentage of its revenue, especially in the early years. This is pure equity and provides a buffer against any losses or market to market volatility that may occur. Over time it is expected that this buffer will build and allow for repayment of the original junior capital, but in the first 10 years it plays the buffer role that ensures the stability of the structure.\u201d\" class=\"footnote\" id=\"footnote-3\" href=\"#footnote-list-3\">3<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">No original: \u201cIf the Tropical Forever Investment Fund were paying out all its profit every year fully to the TFCs and its investors, then yes, the proposal would be risky because the probability that there will be some defaults is real. But because of the deforestation discount, TFIF retains a significant percentage of its revenue, especially in the early years. This is pure equity and provides a buffer against any losses or market to market volatility that may occur. Over time it is expected that this buffer will build and allow for repayment of the original junior capital, but in the first 10 years it plays the buffer role that ensures the stability of the structure.\u201d<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao atrelar a sobreviv\u00eancia de quem protege a floresta ao desempenho financeiro de um fundo, o TFFF deixa de reconhecer a floresta e os territ\u00f3rios coletivos como um bem comum e passa a trat\u00e1-los como objeto de especula\u00e7\u00e3o, sujeitando a \u201cpol\u00edtica clim\u00e1tica\u201d supostamente promovida pela iniciativa ao humor dos mercados e ao crivo de algoritmos, planilhas e conselhos de investimento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro aspecto cr\u00edtico diz respeito \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o dos recursos. Parte significativa do capital do TFIF ser\u00e1 alocada em t\u00edtulos da d\u00edvida soberana de pa\u00edses em desenvolvimento; ou seja, os pa\u00edses que seriam benefici\u00e1rios do TFFF tornam-se tamb\u00e9m emissores dos pap\u00e9is em que os recursos s\u00e3o investidos. Na pr\u00e1tica, configura-se uma engrenagem de reciclagem de d\u00edvida: pa\u00edses do Norte aportam capital ao fundo, esse capital \u00e9 investido em d\u00edvidas do Sul, e os juros pagos pelos pa\u00edses em desenvolvimento retornam como lucros aos investidores do Norte. Longe de ser apenas um instrumento de coopera\u00e7\u00e3o, na verdade, o TFFF refor\u00e7a fluxos assim\u00e9tricos de transfer\u00eancia de renda.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A promessa de participa\u00e7\u00e3o direta das comunidades, refletida no compromisso de repassar at\u00e9 20% dos recursos recebidos pelos pa\u00edses eleg\u00edveis diretamente a povos ind\u00edgenas e comunidades locais, tamb\u00e9m tem levantado suspeitas\u2014n\u00e3o s\u00f3 pela formula\u00e7\u00e3o vaga e pela aus\u00eancia de mecanismos concretos de consulta pr\u00e9via ou de controle social, mas, sobretudo, por se basear na l\u00f3gica de que \u00e9 preciso atrair capital privado para \u201cmanter a floresta em p\u00e9\u201d, como se os povos ind\u00edgenas e as comunidades tradicionais fossem respons\u00e1veis pelo desmatamento, e n\u00e3o pela preserva\u00e7\u00e3o. O TFFF se legitima a partir da ideia de que beneficia essas comunidades, mas acaba tirando o foco das causas do desmatamento e da necessidade de pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas a fortalecer territ\u00f3rios tradicionais. Mesmo se considerarmos que o TFFF possa garantir os meios para que os recursos sejam efetivamente repassados e bem utilizados pelas comunidades, ainda h\u00e1 preocupa\u00e7\u00f5es. Primeiro, os recursos s\u00f3 existir\u00e3o de fato se o fundo gerar lucro. Segundo, n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancias sobre como esse dinheiro ser\u00e1 distribu\u00eddo, o que abre espa\u00e7o para disputas e lutas de poder sobre quem definir\u00e1 os crit\u00e9rios e controlar\u00e1 realmente esse dinheiro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A prioriza\u00e7\u00e3o de pagamentos a investidores privados e patrocinadores em rela\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses que conservam suas florestas e \u00e0s comunidades envolvidas nessa conserva\u00e7\u00e3o levanta d\u00favidas acerca da viabilidade da promessa de financiamento dos \u201cguardi\u00f5es da floresta\u201d. Al\u00e9m disso, um webin\u00e1rio promovido pelo governo brasileiro em 16 de abril de 2025 esclareceu que apenas uma fra\u00e7\u00e3o dos 20% anunciados como destinados a povos ind\u00edgenas e comunidades locais chegaria, de fato, a organiza\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias\u2014e, ainda assim, apenas \u00e0quelas reconhecidas por seus governos. No caso brasileiro, segundo o Minist\u00e9rio dos Povos Ind\u00edgenas, a maior parte desses recursos seria canalizada para empresas privadas, \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos e \u201cintermedi\u00e1rios financeiros\u201d, o que evidencia a <a href=\"https:\/\/www.wrm.org.uy\/pt\/publicacoes\/espolios-de-um-colonialismo-continuado-o-fundo-florestas-tropicais-para-sempre\">dist\u00e2ncia<\/a> entre o discurso de destina\u00e7\u00e3o direta \u00e0s comunidades e a pr\u00e1tica de concentra\u00e7\u00e3o dos recursos em estruturas estatais e corporativas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mais prov\u00e1vel \u00e9 que essas transfer\u00eancias sejam mediadas por estruturas institucionais que n\u00e3o apenas contornam, mas ativamente minam a autonomia, a autodetermina\u00e7\u00e3o e a for\u00e7a pol\u00edtica das pr\u00f3prias comunidades. A experi\u00eancia acumulada com projetos de Redu\u00e7\u00e3o de Emiss\u00f5es do Desmatamento e Degrada\u00e7\u00e3o Florestal (REDD+), por exemplo, <a href=\"https:\/\/www.wrm.org.uy\/sites\/default\/files\/2022-06\/REDD_15_anos_PT.pdf\">mostra que o reconhecimento formal de repasses n\u00e3o \u00e9 suficiente para evitar conflitos e viola\u00e7\u00f5es<\/a>, especialmente quando n\u00e3o h\u00e1 consulta livre, pr\u00e9via e informada, como prev\u00ea direito internacional. Em muitos casos, os processos de consulta foram apressados, manipulados ou simplesmente ignorados, desconsiderando as l\u00f3gicas de tempo, organiza\u00e7\u00e3o e tomada de decis\u00e3o das pr\u00f3prias comunidades. Mecanismos como esses podem operar menos como reconhecimento de direitos e mais como estrat\u00e9gia de inser\u00e7\u00e3o subordinada a l\u00f3gicas mercantis, servindo para silenciar a cr\u00edtica pol\u00edtica e ocultar a aus\u00eancia de medidas estruturais\u2014a exemplo, no caso brasileiro, da reforma agr\u00e1ria, da regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria e da revoga\u00e7\u00e3o do marco temporal\u2014que s\u00e3o, de fato, condi\u00e7\u00f5es para verdadeira promo\u00e7\u00e3o de a justi\u00e7a clim\u00e1tica e territorial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, a promessa de introduzir o monitoramento das florestas por sat\u00e9lite, apresentada como garantia de objetividade e transpar\u00eancia e como suposto avan\u00e7o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s metodologias existentes, tamb\u00e9m suscita preocupa\u00e7\u00f5es. As limita\u00e7\u00f5es do monitoramento estatal n\u00e3o decorrem da aus\u00eancia de tecnologia, mas do desmonte institucional e or\u00e7ament\u00e1rio de \u00f3rg\u00e3os como o Ibama e o ICMBio, processo que se aprofundou durante o governo liberal-autorit\u00e1rio de Jair Bolsonaro. A aposta em tecnologias digitais como substitutas da capacidade p\u00fablica de fiscaliza\u00e7\u00e3o desloca o problema pol\u00edtico da prote\u00e7\u00e3o das florestas para o campo t\u00e9cnico, refor\u00e7ando um modelo de gest\u00e3o por dados\u2014em que o poder de decis\u00e3o se concentra em plataformas, algoritmos e parcerias p\u00fablico-privadas. Essa ecologia digital do controle tende a naturalizar a ideia de que a transpar\u00eancia se mede em pixels, enquanto as dimens\u00f5es sociais e territoriais do conflito ambiental s\u00e3o obscurecidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m da despolitiza\u00e7\u00e3o, h\u00e1 tamb\u00e9m o risco de vigil\u00e2ncia e exposi\u00e7\u00e3o das comunidades. A experi\u00eancia do Cadastro Ambiental Rural (CAR) \u00e9 emblem\u00e1tica: concebido para o registro ambiental de propriedades, acabou sendo utilizado como instrumento (des)regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria, produzindo sobreposi\u00e7\u00f5es de terras e, pior, divulgando informa\u00e7\u00f5es sens\u00edveis sobre territ\u00f3rios ind\u00edgenas e de comunidades tradicionais. Esses dados <a href=\"https:\/\/rosalux.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/VOLUME3_POLITIZANDO-O-CLIMA.pdf\">foram utilizados<\/a> por empresas e intermedi\u00e1rios para propor projetos de REDD+ e outras iniciativas de compensa\u00e7\u00e3o de carbono sem o consentimento das popula\u00e7\u00f5es envolvidas. Em contextos marcados por conflitos no campo, invas\u00f5es, grilagem de terra e viol\u00eancia, a publiciza\u00e7\u00e3o do mapeamento detalhado desses territ\u00f3rios amplia a vulnerabilidade das comunidades, convertendo instrumentos de gest\u00e3o ambiental em ferramentas de controle e espolia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Quem define o que \u00e9 a floresta em p\u00e9?<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ceticismo em rela\u00e7\u00e3o ao TFFF \u00e9 refor\u00e7ado pelo modelo de governan\u00e7a proposto. \u00c9 importante ressaltar que, apesar do governo brasileiro fazer seu marco na COP30 com o lan\u00e7amento do TFFF, n\u00e3o se trata de uma proposta exclusivamente brasileira, mas de um processo que vem sendo constru\u00eddo e apoiado n\u00e3o s\u00f3 pelo Banco Mundial, mas por diversos agentes corporativos e do terceiro setor. Segundo a vers\u00e3o mais atualizada da <a href=\"https:\/\/tfff.earth\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Concept-Note-3.0-PT.pdf\">nota conceitual<\/a>, a elabora\u00e7\u00e3o do desenho do TFFF contou com\u00a0<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">amplo suporte anal\u00edtico e percep\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas fornecidas por uma ampla gama de institui\u00e7\u00f5es e especialistas. Entre as organiza\u00e7\u00f5es internacionais que contribu\u00edram com informa\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas est\u00e3o o Banco Mundial, a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e a Agricultura (FAO), a Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE) e o Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Contribui\u00e7\u00f5es adicionais foram fornecidas por um conjunto diversificado de atores, incluindo Bracebridge Capital, Campaign for Nature (CfN), Climate Champions, Conservation International (CI), Global Alliance of Territorial Communities (GATC), Institute for Climate and Society (ICS), Lion\u2019s Head Global Partners, Priority Transactions Accelerator Group, Inc. (Priority Transactions), Rainforest Foundation US, Systemiq, Wildlife Conservation Society (WCS), Woodwell Climate Research Center e World Wildlife Fund (WWF). A Nota de Conceito tamb\u00e9m se beneficiou de orienta\u00e7\u00f5es oferecidas por especialistas independentes, representantes de investidores institucionais, Organiza\u00e7\u00f5es da Sociedade Civil (OSCs), think tanks e funda\u00e7\u00f5es filantr\u00f3picas. O principal suporte financeiro foi fornecido pelo Governo do Reino Unido (por meio do UK Pact), pelo Rockefeller Brothers Fund (RBF) e pela parceria global da PROGREEN.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A trajet\u00f3ria de grandes ONGs conservacionistas, como a CI, a WWF e o WCS, revela como essas institui\u00e7\u00f5es combinam presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os, elabora\u00e7\u00e3o de projetos e pol\u00edticas p\u00fablicas e intermedia\u00e7\u00e3o entre Estados e comunidades locais com posi\u00e7\u00f5es socialmente privilegiadas e acesso direto aos centros de poder e conhecimento dominantes, atuando como verdadeiras gestoras do consenso ambiental. Em seus discursos e relat\u00f3rios, a crise clim\u00e1tica aparece n\u00e3o como express\u00e3o de um conflito estrutural, mas como um problema t\u00e9cnico j\u00e1 acompanhado por solu\u00e7\u00f5es: o mercado e os ajustes tecnol\u00f3gicos. Essas ONGs circulam entre \u00f3rg\u00e3os de Estado e arenas internacionais, como as COPs, moldando agendas, negociando direitos e definindo interesses. Ao mesmo tempo, promovem atividades de \u201cforma\u00e7\u00e3o\u201d de grupos ind\u00edgenas e comunidades tradicionais, difundindo saberes padronizados, estabelecendo v\u00ednculos assistencialistas e subordinando os territ\u00f3rios e conhecimentos desses povos \u00e0 l\u00f3gica dos instrumentos e processos de mercado. Esse ecologismo pragm\u00e1tico, profissionalizado e institucionalizado opera em um contexto de conten\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica, no qual vozes dissonantes s\u00e3o automaticamente deslegitimadas. Seu envolvimento no desenho de um instrumento que promete financiar a manuten\u00e7\u00e3o de florestas tropicais e, ainda, destinar recursos diretamente a povos ind\u00edgenas e comunidades tradicionais lhes garante, portanto, um novo instrumento de reprodu\u00e7\u00e3o desse mesmo papel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, a declara\u00e7\u00e3o de apoio p\u00fablica ao TFFF de consultorias de investimentos como a Lion\u2019s Head Global Partners e a PIMCO e de bancos como o Barclays e o Bank of America adiciona mais uma camada de d\u00favida sobre os reais objetivos conservacionistas do Fundo. Segundo o relat\u00f3rio anual \u201c<a href=\"https:\/\/www.bankingonclimatechaos.org\/?bank=JPMorgan%20Chase#fulldata-panel\">Banking on Climate Chaos<\/a>\u201d de 2024, o Bank of America ocupava o segundo lugar no ranking de financiadores de combust\u00edveis f\u00f3sseis\u2014depois de ficar em terceiro lugar entre 2021 e 2023. O Barclays foi o quarto colocado na lista dos dez bancos que mais aumentaram o financiamento para o setor de f\u00f3sseis entre 2023 e 2024, al\u00e9m de ter sido o maior investidor em combust\u00edveis f\u00f3sseis na Europa no mesmo per\u00edodo. Outro <a href=\"https:\/\/cumplicidadedestruicao.org\/\">relat\u00f3rio<\/a>, assinado pela APIB e pela Amazon Watch, tamb\u00e9m aponta o Bank of America como grande financiador de empresas acusadas de envolvimento com invas\u00f5es, desmatamento e viola\u00e7\u00f5es de direitos ind\u00edgenas na Amaz\u00f4nia, como Vale, Anglo American, Cargill, Cosan e JBS. Ser\u00e1 dos mesmos bancos que financiam o desmatamento que vir\u00e1 parte do dinheiro voltado a\u2026 combater o desmatamento?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A participa\u00e7\u00e3o desses atores no desenho e na promo\u00e7\u00e3o do TFFF se reflete na estrutura de funcionamento do Fundo. O modelo de governan\u00e7a \u00e9 diferente para o TFFF e para o TFIF. Para o TFFF como \u201cmecanismo\u201d, o Banco Mundial servir\u00e1 como <a href=\"https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/economia\/banco-mundial-vai-gerir-fundo-global-do-brasil-para-florestas-tropicais\/\">anfitri\u00e3o e administrador<\/a>. Isso faz com que a institui\u00e7\u00e3o mantenha sua influ\u00eancia sobre a pol\u00edtica clim\u00e1tica global sem se apresentar como protagonista direta. O TFFF ter\u00e1 um conselho formado por dezoito integrantes, nove indicados por pa\u00edses com florestas tropicais participantes e nove por pa\u00edses patrocinadores. O conselho ser\u00e1 respons\u00e1vel por selecionar o CEO do TFFF, os membros de seu secretariado e por supervisionar as atividades do mecanismo. Cada membro do conselho ter\u00e1 direito a um voto. O secretariado ser\u00e1 administrado pelo Banco Mundial e responder\u00e1 ao conselho. Al\u00e9m disso, o TFFF contar\u00e1 com um conselho consultivo formado por dez representantes de povos ind\u00edgenas e comunidades tradicionais e um painel consultivo composto de dez indiv\u00edduos com expertise em \u00e1reas relevantes para os objetivos do Fundo, entidades que, explicita a nota conceitual, t\u00eam mero papel de aconselhamento, sem nenhum poder decis\u00f3rio. A centralidade do Banco Mundial na orienta\u00e7\u00e3o de decis\u00f5es sobre crit\u00e9rios de elegibilidade, salvaguardas e monitoramento, longe de ser politicamente neutra, \u00e9 uma forma de renova\u00e7\u00e3o do poder t\u00e9cnico e epist\u00eamico do Banco, reproduzindo a hierarquia de saberes e prioridades tradicionalmente vigente no regime internacional do clima.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O TFIF, por sua vez, ser\u00e1 constitu\u00eddo como entidade legal independente e contar\u00e1 com um conselho \u201cpequeno, mas especializado\u201d, j\u00e1 que sua viabilidade financeira depende da \u201cliberdade para tomar decis\u00f5es prudentes e orientadas pelo mercado\u201d.<a data-contents=\"Cita\u00e7\u00f5es retiradas do cap\u00edtulo 11.3 da Nota Conceitual 3.0 do TFFF, dispon\u00edvel aqui: (<)a href='https:\/\/tfff.earth\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Concept-Note-3.0-PT.pdf'(>)https:\/\/tfff.earth\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Concept-Note-3.0-PT.pdf(<)\/a(>) (acesso em 2 de dezembro de 2025).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-4\" href=\"#footnote-list-4\">4<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Cita\u00e7\u00f5es retiradas do cap\u00edtulo 11.3 da Nota Conceitual 3.0 do TFFF, dispon\u00edvel aqui: (<)a href='https:\/\/tfff.earth\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Concept-Note-3.0-PT.pdf'(>)https:\/\/tfff.earth\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Concept-Note-3.0-PT.pdf(<)\/a(>) (acesso em 2 de dezembro de 2025).<\/span> O conselho do TFIF ser\u00e1 composto por sete profissionais com experi\u00eancia na gest\u00e3o de ativos financeiros e presidido por um especialista independente. A nota conceitual prop\u00f5e que os pa\u00edses patrocinadores elaborem um termo de refer\u00eancia com crit\u00e9rios de participa\u00e7\u00e3o para os membros do conselho do TFIF e indiquem um comit\u00ea de sele\u00e7\u00e3o para identificar candidatos qualificados. A partir das recomenda\u00e7\u00f5es do comit\u00ea, caber\u00e1 aos pa\u00edses patrocinadores a nomea\u00e7\u00e3o final dos membros do conselho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante do modelo de governan\u00e7a e dos atores envolvidos do desenho do Fundo, para al\u00e9m de questionar os crit\u00e9rios espec\u00edficos que definir\u00e3o quem pode receber os recursos e em que condi\u00e7\u00f5es, cabe indagar qual \u00e9 o pr\u00f3prio sentido de criar um fundo de investimento alimentado por capitais do mercado financeiro e de empresas envolvidas em conflitos socioambientais com objetivo de conservar florestas tropicais. Quem define o que \u00e9 investimento, floresta e conserva\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O ecossistema do financiamento clim\u00e1tico<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo o <a href=\"https:\/\/tfff.earth\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/190725-TFFF-Executive-Summary-PT.pdf\">governo brasileiro<\/a>, o TFFF \u201cfoi elaborado para complementar, e n\u00e3o replicar, os programas existentes\u201d. O TFFF se soma a mecanismos como o Fundo Global para o Ambiente (GEF) e o REDD+. \u201cEnquanto o TFFF se concentra em recompensar a conserva\u00e7\u00e3o e a recupera\u00e7\u00e3o florestal\u201d, o REDD+ \u00e9 focado em \u201crecompensar a redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es [. . .] decorrentes do desmatamento e da degrada\u00e7\u00e3o florestal\u201d. Durante uma reuni\u00e3o preparat\u00f3ria para a COP30, a ministra do Meio Ambiente Marina Silva <a href=\"https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/economia\/tfff-e-redd-gerariam-ate-60-dos-recursos-para-zerar-desmatamento-ate-2030\/\">afirmou<\/a> que, juntos, o TFFF e o REDD+ representariam 60% do financiamento necess\u00e1rio para zerar o desmatamento no Brasil at\u00e9 2030\u2014ignorando que nenhuma das duas propostas est\u00e3o voltadas, de fato, a combater as causas do desmatamento no pa\u00eds: o agroneg\u00f3cio e os latifundi\u00e1rios que dominam a <a href=\"https:\/\/br.boell.org\/sites\/default\/files\/2022-10\/boll_desigualdade_fundiaria_final.pdf\">distribui\u00e7\u00e3o profundamente desigual<\/a> das propriedades rurais em solo brasileiro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Lei n\u00ba 15.042\/2024, que institui o Sistema Brasileiro de Com\u00e9rcio de Emiss\u00f5es (SBCE), ou seja, regulamenta o mercado de carbono, admite que projetos de REDD+ gerem cr\u00e9ditos no SBCE. Isso significa que um mesmo projeto possa ter retorno financeiro tanto por evitar emiss\u00f5es relacionadas ao desmatamento quanto por gerar cr\u00e9ditos de carbono. O caso brasileiro d\u00e1 corpo \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o de que a conviv\u00eancia de mecanismos como o REDD+, o mercado de carbono e o TFFF desestimule o j\u00e1 problem\u00e1tico financiamento clim\u00e1tico. Al\u00e9m disso, as duas d\u00e9cadas de vig\u00eancia do REDD+ <a href=\"https:\/\/www.wrm.org.uy\/sites\/default\/files\/2022-06\/REDD_15_anos_PT.pdf\">demonstram<\/a> como ele tem sido um instrumento ineficaz e injusto, promovendo a financeiriza\u00e7\u00e3o da natureza e violando direitos de povos e comunidades tradicionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tanto o TFFF, que se prop\u00f5e a direcionar recursos para a conserva\u00e7\u00e3o de florestas, quanto o REDD+, que procura remunerar o desmatamento evitado, operam dentro de uma l\u00f3gica comum de cria\u00e7\u00e3o e valoriza\u00e7\u00e3o de ativos ambientais, servindo como mecanismos de legitima\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o do mercado. Assim, enquanto o TFFF se apresenta como alternativa \u201csolid\u00e1ria\u201d ou \u201cn\u00e3o mercantil\u201d, na verdade, ele integra e fortalece o regime de financeiriza\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica, garantindo novas vias de rentabilidade e seguran\u00e7a jur\u00eddica para investidores\u2014em vez de questionar a l\u00f3gica de compensa\u00e7\u00e3o que sustenta tanto o REDD+ quanto o pr\u00f3prio mercado de carbono.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O exame do TFFF no contexto mais amplo do financiamento clim\u00e1tico evidencia como a emerg\u00eancia clim\u00e1tica tem servido para legitimar o fortalecimento do setor privado, redefinir as fun\u00e7\u00f5es do Estado e perpetuar l\u00f3gicas coloniais e de depend\u00eancia global. O ecossistema do financiamento clim\u00e1tico atual n\u00e3o tem nada de verde. Sob o discurso da inova\u00e7\u00e3o, da efici\u00eancia e da sustentabilidade, ele reproduz a subordina\u00e7\u00e3o de pa\u00edses do Sul global \u00e0 racionalidade dos mercados e prioridades geopol\u00edticas de pa\u00edses do Norte. A abordagem de finan\u00e7as h\u00edbridas do TFFF legitima a estrutura\u00e7\u00e3o do financiamento clim\u00e1tico como ferramenta de alavancagem para o capital privado, garantindo a ele os benef\u00edcios financeiros e transferindo para o Estado e para os recursos p\u00fablicos os riscos dessas opera\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao transformar a conserva\u00e7\u00e3o das florestas tropicais em ativo financeiro, o TFFF desloca o sentido pol\u00edtico e coletivo da prote\u00e7\u00e3o ambiental para o terreno da especula\u00e7\u00e3o e da gest\u00e3o de risco. O que se apresenta como instrumento de solidariedade global opera, na pr\u00e1tica, como uma engrenagem de disciplinamento e captura de valor. Nesse cen\u00e1rio, o que se chama de \u201cfinanciamento clim\u00e1tico\u201d funciona mais como um dispositivo de moderniza\u00e7\u00e3o da colonialidade do que como uma ruptura com ela. A tutela epist\u00eamica e institucional do Banco Mundial, somada ao protagonismo de bancos que financiam o desmatamento e a viola\u00e7\u00e3o de direitos ind\u00edgenas e de comunidades tradicionais, mostra que as estruturas de depend\u00eancia permanecem intactas\u2014o TFFF apenas atualiza seus mecanismos de legitima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em um contexto no qual o pr\u00f3prio Sul global protagoniza a defesa da financeiriza\u00e7\u00e3o da natureza, \u00e9 urgente recolocar o papel do Estado, das comunidades, a soberania dos povos e o direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o no centro do debate. Se a pol\u00edtica clim\u00e1tica \u00e9 t\u00e3o fundamental, por que ela n\u00e3o se traduz em repara\u00e7\u00e3o, or\u00e7amentos p\u00fablicos maiores ou substitui\u00e7\u00e3o de subs\u00eddios a setores da economia f\u00f3ssil? \u201cAtrair\u201d mais capital privado est\u00e1 longe de solucionar nossos problemas: precisamos, ao contr\u00e1rio, libertar as pol\u00edticas p\u00fablicas da l\u00f3gica financeira e reconectar a a\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica \u00e0 justi\u00e7a social, aos territ\u00f3rios e aos comuns.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Qual \u00e9 o conte\u00fado de um projeto de enfrentamento \u00e0 crise clim\u00e1tica em que a financeiriza\u00e7\u00e3o e a promessa tecnol\u00f3gica se apresentam como as \u00fanicas sa\u00eddas? Que horizonte de pol\u00edtica ambiental \u00e9 esse em que&nbsp; as ideias de colapso e inevitabilidade se naturalizam e o mercado financeiro vira sin\u00f4nimo de solu\u00e7\u00e3o? Talvez o verdadeiro sintoma do nosso tempo n\u00e3o seja apenas a crise clim\u00e1tica, mas a incapacidade, compartilhada por pa\u00edses do Norte e do Sul global, de reconhecer e valorizar experi\u00eancias concretas de territ\u00f3rios, mecanismos de resist\u00eancia e saberes que, h\u00e1 muito, apontam caminhos para a constru\u00e7\u00e3o de paradigmas realmente capazes de superar a l\u00f3gica do capital\u2014e para salvar o planeta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um contexto no qual o pr\u00f3prio Sul global protagoniza a defesa da financeiriza\u00e7\u00e3o da natureza, \u00e9 urgente recolocar o papel do Estado, das comunidades, a soberania dos povos e o direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o no centro do 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