{"id":25874,"date":"2025-09-04T15:35:49","date_gmt":"2025-09-04T15:35:49","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/?p=25874"},"modified":"2025-09-04T19:30:21","modified_gmt":"2025-09-04T19:30:21","slug":"zonas-de-sacrificio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/entrevistas-br\/zonas-de-sacrificio\/","title":{"rendered":"Zonas de sacrif\u00edcio"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde que Donald Trump anunciou, em julho, que os EUA cobrariam tarifas de 50% sobre as importa\u00e7\u00f5es de produtos brasileiros, diferentes hip\u00f3teses acerca da nova postura comercial emergiram, tais como o alinhamento internacional da extrema direita em defesa de Jair Bolsonaro, os interesses das <em>big techs<\/em> e as rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas do Brasil com pa\u00edses do BRICS, especialmente a China. Dentre os temas aventados, soma-se o interesse dos EUA na explora\u00e7\u00e3o de minerais estrat\u00e9gicos no Brasil, evidenciado pela <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/politica\/noticia\/2025\/07\/24\/encarregado-da-embaixada-dos-eua-diz-que-pais-tem-interesse-em-minerais-criticos-do-brasil-relata-presidente-de-instituto.ghtml\">sinaliza\u00e7\u00e3o<\/a> de Gabriel Escobar, embaixador interino dos EUA no Brasil, em reuni\u00e3o com representantes da ind\u00fastria da minera\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m Fernando Haddad, ministro da Fazenda, <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/economia\/noticia\/2025\/08\/04\/tarifaco-haddad-admite-que-minerais-criticos-e-terras-raras-podem-entrar-na-negociacao-com-os-eua.ghtml\">indicou<\/a> a possibilidade de incluir a explora\u00e7\u00e3o de minerais estrat\u00e9gicos nas negocia\u00e7\u00f5es comerciais com os EUA, em um contexto de discuss\u00e3o, no campo dom\u00e9stico, de uma Pol\u00edtica Nacional de Minerais Cr\u00edticos, <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/economia\/noticia\/2025\/08\/02\/agencia-de-mineracao-cria-divisao-de-minerais-criticos-e-estrategicos-em-evidencia-apos-tarifaco.ghtml\">prometida<\/a> pelo Minist\u00e9rio de Minas e Energia ainda para 2025.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dentre os minerais cr\u00edticos em foco est\u00e3o as terras raras, um conjunto de 17 metais de alta capacidade de magnetiza\u00e7\u00e3o, fundamentais para a produ\u00e7\u00e3o de componentes eletr\u00f4nicos, baterias e turbinas e\u00f3licas, que perfazem o polo mais avan\u00e7ado em inova\u00e7\u00e3o e na corrida tecnol\u00f3gica da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. Outra \u00e1rea de uso crescente \u00e9 a militar, pela utiliza\u00e7\u00e3o desses metais na cria\u00e7\u00e3o de fortes campos magn\u00e9ticos necess\u00e1rios para drones e m\u00edsseis bal\u00edsticos. N\u00e3o \u00e0 toa, uma descoberta recente de jazida de terras raras em Po\u00e7os de Caldas (MG) j\u00e1 atraiu <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/mg\/sul-de-minas\/noticia\/2025\/08\/10\/corrida-por-terras-raras-descoberta-de-jazida-em-mg-atrai-mais-de-100-pedidos-de-mineracao.ghtml\">mais de 100 pedidos de explora\u00e7\u00e3o \u00e0 Ag\u00eancia Nacional de Minera\u00e7\u00e3o<\/a> (ANM). O tema \u00e9 especialidade de Daniel Tygel, ex-vereador da cidade de Caldas (MG), vizinha de Po\u00e7os de Caldas e igualmente rica em reservas de minerais cr\u00edticos. Tygel, um dos nomes mais importantes da milit\u00e2ncia contra a extra\u00e7\u00e3o das terras raras no sul mineiro, conversou com a Revista Rosa e a Phenomenal World sobre o tema.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apresentamos aqui uma edi\u00e7\u00e3o sintetizada da entrevista <a href=\"https:\/\/revistarosa.com\/11\/prosa-com-daniel-tygel\">publicada em formato de podcast pela Rosa<\/a>, em que Tygel fala sobre quest\u00f5es geopol\u00edticas e os fortes impactos ambientais que a explora\u00e7\u00e3o das terras raras acarreta, sobretudo nas \u201czonas de sacrif\u00edcio\u201d, territ\u00f3rios a serem prejudicados em nome de uma suposta vontade geral ou bem comum, como \u00e9 o caso da regi\u00e3o Sul de Minas Gerais. Participaram da conversa os editores da Revista Rosa Arthur Hussne, Lucas Braga, Marcela Vieira e Marina Bedran; Luciana\u202fDias\u202fBauer, jurista fundadora da JusClima; St\u00e9lio Marras, antrop\u00f3logo e professor do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de S\u00e3o Paulo (IEB-USP); e Hugo Fanton, editor da Phenomenal World.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Entrevista com Daniel Tygel<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">Marina bedran<\/span>: De que maneira os processos extrativistas em Minas Gerais de agora se diferenciam da fase da minera\u00e7\u00e3o colonial e do extrativismo do s\u00e9culo XX? O que h\u00e1 de particular na explora\u00e7\u00e3o das terras raras?\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">daniel tygel<\/span>:<strong> <\/strong>Estamos no planalto vulc\u00e2nico do Sul de Minas Gerais, ou planalto vulc\u00e2nico de Po\u00e7os de Caldas, que \u00e9 uma gigantesca cratera em uma regi\u00e3o com fauna e flora de caracter\u00edsticas muito especiais por essa atividade vulc\u00e2nica que ocorreu no passado, e pelo fato de ter sido muito preservada. \u00c9 tamb\u00e9m uma terra j\u00e1 \u00e1cida, bastante acima do normal, com elementos met\u00e1licos pesados para al\u00e9m das terras raras, como o ur\u00e2nio. Ent\u00e3o, era um lugar que j\u00e1 chamava a aten\u00e7\u00e3o da minera\u00e7\u00e3o antes mesmo da cria\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria nuclear do Brasil. E essa minera\u00e7\u00e3o, ligada muito \u00e0 Ditadura Militar e feita a toque de caixa,\u00a0 era motivo de orgulho nacional.. Somos a maior reserva a c\u00e9u aberto de ur\u00e2nio do planeta. S\u00f3 de rejeitos, temos 100 milh\u00f5es de toneladas de metais pesados, de metais radioativos. Muito se cogitou de aqui ser um reposit\u00f3rio nacional de rejeitos radioativos. Ent\u00e3o, h\u00e1 40 anos, havia o mesmo entusiasmo de hoje pela fronteira da nova energia. Antes, celebrava-se Caldas como o futuro, porque exportava ur\u00e2nio para o Brasil e o mundo. Agora, novamente, por causa da revolu\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica verde e do interesse militar.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As terras raras daqui foram descobertas na d\u00e9cada de 1990 por um conjunto de pesquisadores japoneses. N\u00e3o chamou tanta aten\u00e7\u00e3o na \u00e9poca, mas j\u00e1 ficou o alerta de que ali poderia haver algo de interesse, porque j\u00e1 em 1992 a China estava dizendo que o futuro dependia de terras raras. Isso foi se postergando at\u00e9 o presente, em que h\u00e1 quatro empresas australianas demonstrando interesse na minera\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A novidade \u00e9 que, com os crimes de Brumadinho e Mariana, tudo o que envolve barragens foi ganhando grande peso e sentimento negativo. Ent\u00e3o veio uma nova jogada de marketing das empresas, que \u00e9 falar da minera\u00e7\u00e3o verde, que n\u00e3o usa explos\u00e3o nem barragem, e contribui com a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. Nessa fase nova, quem se aproxima do processo de licenciamento ambiental s\u00e3o pequenas empresas. Isso \u00e9 algo muito diferente, porque parece que elas t\u00eam uma expertise na legisla\u00e7\u00e3o brasileira, na comunica\u00e7\u00e3o e na coopta\u00e7\u00e3o de poderes regionais e de comunidades. Mas essas empresas, mesmo pequenas, j\u00e1 t\u00eam capital aberto: como existe uma cobi\u00e7a geopol\u00edtica muito grande em cima das terras raras e a corrida est\u00e1 muito r\u00e1pida, essas pequenas empresas est\u00e3o prontas para ser assumidas por quem vai de fato operar: as mineradoras tradicionais. As duas empresas mais avan\u00e7adas no licenciamento ambiental aqui na regi\u00e3o t\u00eam capital de US$ 20 mil. N\u00e3o tem nem cabimento esse valor. Com a tarifa de 50% do Trump, h\u00e1 muita cortina de fuma\u00e7a, sobre o Bolsonaro e tal, mas a quest\u00e3o \u00e9: quem \u00e9 a grande empresa com capacidade de opera\u00e7\u00e3o que vai assumir o controle dessas empresas menores? \u00c9 da OTAN ou \u00e9 da China? Essa \u00e9 a grande quest\u00e3o geopol\u00edtica. Fala-se que seria poss\u00edvel, aqui na nossa regi\u00e3o, prover de 10% a 20% da demanda de terras raras no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><span class=\"sans blue\">Marcela vieira<\/span><\/strong>:<strong> <\/strong>H\u00e1 uma atua\u00e7\u00e3o coordenada das empresas para legitimar esses projetos. Por exemplo, alunos da escola p\u00fablica de Po\u00e7os de Caldas est\u00e3o tendo aulas sobre a extra\u00e7\u00e3o das terras raras e como vai trazer mais progresso para a cidade da forma menos agressiva poss\u00edvel ao meio ambiente. E quem est\u00e1 dando essas aulas n\u00e3o \u00e9 ningu\u00e9m relacionado \u00e0 escola ou \u00e0 prefeitura, s\u00e3o pessoas da pr\u00f3pria empresa. Diante disso, a quem recorrer?\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">dt<\/span>: O que pode segurar um processo de minera\u00e7\u00e3o desse tamanho \u00e9 s\u00f3 a comunidade local, porque somos uma zona de sacrif\u00edcio. Nas cidades antigas, pr\u00e9-medievais, quando matavam um bezerro para poder botar sangue e resolver a safra, o bezerro era sacrificado para o bem de todo mundo. O \u00fanico que podia tentar se livrar disso era o pr\u00f3prio bezerro, gritando muito alto. \u00c9 essa a nossa situa\u00e7\u00e3o, infelizmente. Temos uma longa caminhada nos embates com a minera\u00e7\u00e3o; tivemos grandes vit\u00f3rias. Entretanto, nesse caso, est\u00e1 havendo uma converg\u00eancia de interesses muito grande, e um olhar para o nosso territ\u00f3rio como zona de sacrif\u00edcio. Eles v\u00e3o tentar andar o mais r\u00e1pido poss\u00edvel, para provocar um sentimento de que est\u00e1 tudo consolidado. Essa \u00e9 parte da estrat\u00e9gia, de que n\u00e3o tem como ir contra porque n\u00e3o h\u00e1 mais o que fazer. A nossa estrat\u00e9gia \u00e9 dizer que h\u00e1, sim, o que fazer, h\u00e1 ainda uma s\u00e9rie de etapas a serem cumpridas.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existem dois grandes campos regulat\u00f3rios, com v\u00e1rias contradi\u00e7\u00f5es entre si: por um lado, o direito miner\u00e1rio; por outro, o direito ambiental. Isso envolve, na pr\u00e1tica, dois processos administrativos distintos: o de adquirir a concess\u00e3o do direito de lavra e o de licenciamento ambiental. O direito miner\u00e1rio \u00e9 fato consumado, porque parte da premissa de que o subsolo \u00e9 responsabilidade da Uni\u00e3o. Qualquer pessoa que est\u00e1 em cima n\u00e3o \u00e9 propriet\u00e1ria do min\u00e9rio que est\u00e1 l\u00e1 embaixo. Ent\u00e3o Po\u00e7os de Caldas, Caldas, Andradas e \u00c1guas da Prata s\u00e3o cidades j\u00e1 com direitos de minerar, concedidos pela Ag\u00eancia Nacional de Minera\u00e7\u00e3o (ANM). H\u00e1 direito de mineirar garantido no subsolo at\u00e9 do terreno onde fica a nossa principal igreja. S\u00f3 que a empresa tenta usar isso muitas vezes como sendo um fato: se tem o direito, pode minerar. Mas n\u00e3o, essa \u00e9 apenas uma das etapas. E \u00e9 relativamente uma das mais simples, porque envolve \u00e1reas grandes e n\u00e3o identificadas: existe um acordo entre empresas e Governo Federal de n\u00e3o expor quais s\u00e3o os locais em que h\u00e1 maior viabilidade econ\u00f4mica porque \u00e9 segredo comercial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso vem \u00e0 tona quando o processo passa para a etapa referente ao direito ambiental, que leva em considera\u00e7\u00e3o a realidade do que acontece sobre o solo, n\u00e3o s\u00f3 embaixo dele. A\u00ed tem as \u00e1reas de prote\u00e7\u00e3o permanente, as unidades de conserva\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios, comunidades tradicionais, zonas urbanas e zonas de alta import\u00e2ncia, enfim, uma s\u00e9rie de quest\u00f5es que t\u00eam a ver com a realidade de ocupa\u00e7\u00e3o desse solo. \u00c9 a\u00ed que o bicho pega. Muitas vezes, quando o munic\u00edpio \u00e9 instado a emitir a certid\u00e3o de uso e localiza\u00e7\u00e3o\u2014a \u00fanica manifesta\u00e7\u00e3o que o munic\u00edpio faz formalmente\u2014, as empresas dizem que j\u00e1 possuem o direito de lavra, que \u00e9 s\u00f3 mais uma quest\u00e3o burocr\u00e1tica. Mas isso n\u00e3o \u00e9 verdade, porque tem tamb\u00e9m a ver com o Conselho de Defesa do Meio Ambiente, que d\u00e1 o parecer que embasa a decis\u00e3o da prefeitura. Se h\u00e1 mobiliza\u00e7\u00e3o local, \u00e9 poss\u00edvel fazer press\u00e3o sobre os poderes municipais, principalmente o Executivo, para negociar a concess\u00e3o dessa certid\u00e3o de uso e localiza\u00e7\u00e3o. <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/mg\/sul-de-minas\/noticia\/2025\/03\/18\/municipio-de-caldas-aprova-certidao-que-autoriza-empresa-a-explorar-terras-raras.ghtml\">Caldas j\u00e1 entregou a certid\u00e3o para a empresa Meteoric<\/a>, e Po\u00e7os para a Viridis. O abaixo-assinado em curso em Po\u00e7os de Caldas pede que o prefeito escute a popula\u00e7\u00e3o e reveja o seu ato, porque todo ato administrativo do Poder Executivo \u00e9 sujeito \u00e0 autotutela, ent\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel revogar ou suspender certid\u00e3o de uso e localiza\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, havendo mobiliza\u00e7\u00e3o para tornar impopular determinado aspecto relacionado a essa minera\u00e7\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel criar mecanismos de negocia\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas h\u00e1 um problema temporal: essas duas atividades de minera\u00e7\u00e3o ter\u00e3o o pico do b\u00f4nus durante o pr\u00f3ximo processo eleitoral municipal, e o \u00f4nus vai come\u00e7ar depois, nas gest\u00f5es seguintes, daqui a seis a oito anos. O pico de b\u00f4nus \u00e9 na \u00e9poca de constru\u00e7\u00e3o da unidade de tratamento de min\u00e9rio, que absorve m\u00e3o de obra muito grande durante cerca de dez meses, que v\u00e3o coincidir justamente com o processo eleitoral. S\u00e3o, por exemplo, mil empregos diretos durante os processos de constru\u00e7\u00e3o em Po\u00e7os e outros mil em Caldas, mas depois isso cai, na opera\u00e7\u00e3o, para 170 empregos diretos. \u00c9 muito pouco. Se comparar com a <a href=\"https:\/\/www.alcoa.com\/brasil\/pt\">Alcoa<\/a>, por exemplo, para 500.000 toneladas de min\u00e9rio h\u00e1 600 trabalhadores. Aqui ser\u00e3o 180 trabalhadores para explorar dez vezes mais, cinco bilh\u00f5es de toneladas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Temos de recorrer, nesse momento, a processos de mobiliza\u00e7\u00e3o e conscientiza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, para que se perceba que os ganhos n\u00e3o representam grande coisa. Caldas convive com minera\u00e7\u00e3o h\u00e1 muito tempo e o seu \u00cdndice de Desenvolvimento Humano (IDH) n\u00e3o cresceu em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Campestre, por exemplo, que tem o mesmo tamanho e investiu no caf\u00e9, produto cujo ganho se renova por v\u00e1rias safras. \u00c9 tamb\u00e9m uma commodity, mas ambientalmente muito mais tranquila.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estamos avan\u00e7ando para a necessidade de estudos de impactos sist\u00eamicos, identificando, tecnicamente, atrav\u00e9s de laudos e pareceres, elementos que est\u00e3o obscuros ou muito mal trabalhados. Outro caminho \u00e9 recorrer ao Minist\u00e9rio P\u00fablico, o que \u00e9 dif\u00edcil, pois \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o que normalmente age quando j\u00e1 aconteceu a cat\u00e1strofe. O elemento central disso tudo \u00e9 o tempo. A empresa tem pressa, ent\u00e3o precisamos ganhar tempo, para que as pessoas compreendam melhor do que se trata esse processo de minera\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">Luciana bauer<\/span>: Parecem existir bolhas especulativas em torno de minerais cr\u00edticos. Al\u00e9m disso, h\u00e1 uma corrida armamentista em curso para a qual esses min\u00e9rios s\u00e3o essenciais. Como pensar o Brasil nesse contexto?\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">dt<\/span>:<strong> <\/strong>O Brasil est\u00e1 <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/economia\/noticia\/2025\/07\/25\/brasil-tem-2a-maior-reserva-de-terras-raras-do-mundo-mas-ainda-engatinha-na-exploracao-veja-os-entraves.ghtml\">em segundo lugar <\/a>de reservas conhecidas de terras raras no mundo. Os pa\u00edses do BRICS, agora com a entrada tamb\u00e9m do Vietn\u00e3, somando R\u00fassia, China e o Brasil, possuem praticamente o total de reservas dos chamados minerais cr\u00edticos. E tem muita especula\u00e7\u00e3o, muito bal\u00e3o de ensaio, muita gente jogando para saber onde vai dar liga, porque s\u00e3o v\u00e1rias crises presentes: a ambiental por cima de todas, mas tamb\u00e9m ciclos de crises econ\u00f4micas. E agora surgiu esse \u201cnovo petr\u00f3leo\u201d, que \u00e9 uma oportunidade para especular e ganhar muito dinheiro com as oscila\u00e7\u00f5es. Acontece um grito do Trump e um monte de gente ganha muito dinheiro porque soube segundos antes que ele gritaria.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil praticamente n\u00e3o aparece na m\u00eddia internacional, apesar do peso que temos em termos de riquezas, PIB, popula\u00e7\u00e3o e at\u00e9 mesmo de mercado. Fico impressionado com a maneira como o Brasil \u00e9 colocado de lado, e isso tem a ver com a nossa rela\u00e7\u00e3o cada vez maior com a China e com a l\u00f3gica do BRICS, do chamado multilateralismo, da busca por outros espa\u00e7os. A gente est\u00e1 numa zona muito perigosa: estamos abandonando algo que est\u00e1 sendo abandonado por todo lado, que \u00e9 esse trauma da Segunda Guerra Mundial que foi a ONU, para abra\u00e7ar uma coisa que n\u00e3o tem capacidade de resolver, de dirigir e de interagir. Hoje, tudo que envolve terras raras envolve a China, que tem contribu\u00eddo com a produ\u00e7\u00e3o de m\u00edsseis que est\u00e3o apontados para ela pr\u00f3pria. Existe uma movimenta\u00e7\u00e3o muito forte de militariza\u00e7\u00e3o no mundo, principalmente por parte da OTAN, e uma busca para consolidar uma cadeia pr\u00f3pria de produ\u00e7\u00e3o. Est\u00e3o buscando de maneira desesperada a fabrica\u00e7\u00e3o de armas em solos mais confi\u00e1veis, e o Brasil at\u00e9 pouco era considerado um lugar confi\u00e1vel, mas n\u00e3o mais, em raz\u00e3o do BRICS. Isso tudo gera uma situa\u00e7\u00e3o de desconforto nas pot\u00eancias ligadas \u00e0 OTAN. Isso me faz pensar que h\u00e1 uma possibilidade n\u00e3o t\u00e3o distante de que o Brasil seja alvo de amea\u00e7as militares. N\u00e3o consigo descartar isso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por nosso grau de di\u00e1logo internacional relativamente favor\u00e1vel, temos resili\u00eancia, mas temos tamb\u00e9m uma elite extremamente avessa ao Brasil, que joga contra o nosso pa\u00eds. Isso nos fragiliza em processos de negocia\u00e7\u00e3o mais duros, como o que enfrentamos agora com a tarifa de Trump. Dentro do Brasil, h\u00e1 quem jogue contra, e isso dificulta muito para a gente enquanto facilita a estrat\u00e9gia deles de dividir para conquistar. O Brasil ainda \u00e9 considerado, apesar da sua for\u00e7a, uma rep\u00fablica de bananas, muito suscet\u00edvel a influ\u00eancias. Com esse grau de fragilidade no contexto internacional, o fato de possuirmos uma montanha de riqueza em minerais cr\u00edticos nos coloca em uma posi\u00e7\u00e3o de grande vulnerabilidade. Esse \u00e9 o di\u00e1logo que tenho tentado fazer com a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Precisamos criar mesas de negocia\u00e7\u00e3o que coloquem os territ\u00f3rios como parte interessada, e n\u00e3o como zonas de sacrif\u00edcio. Precisamos alterar a mentalidade de ser exportador de commodities prim\u00e1rias, porque n\u00e3o necessariamente a tecnologia vai ser transferida para c\u00e1. \u00c9 uma cadeia produtiva extremamente complexa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">lucas braga<\/span>: Como fica a perspectiva brasileira na rela\u00e7\u00e3o entre as pol\u00edticas p\u00fablicas e a quest\u00e3o geopol\u00edtica?\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">dt<\/span>: Estamos em uma situa\u00e7\u00e3o muito delicada enquanto pa\u00eds, e nossas elei\u00e7\u00f5es est\u00e3o sendo acompanhadas de perto, com as empresas de redes sociais diretamente envolvidas no processo eleitoral. Ent\u00e3o, como a gente se coloca? Precisamos construir mesas de negocia\u00e7\u00e3o em que o Brasil se aproxime um pouco mais da China, porque sozinhos n\u00e3o temos for\u00e7a. Se a sociedade fosse mais coesa, poder\u00edamos tamb\u00e9m avan\u00e7ar com o Mercosul. Temos dificuldade, enquanto na\u00e7\u00e3o, de adotar uma pol\u00edtica de n\u00e3o alinhamento. A outra op\u00e7\u00e3o \u00e9 nos colocarmos como col\u00f4nia de vez, admitindo que podem nos explorar de todos os lados. Infelizmente, \u00e9 isso que tenho visto at\u00e9 agora. A postura do BNDES tem sido essa: quem vier explorar ser\u00e1 bem-vindo. No campo da tecnologia, a gente poderia buscar alguma pol\u00edtica paulatina de redu\u00e7\u00e3o na facilidade de exporta\u00e7\u00e3o do l\u00edtio e das terras raras em modo bruto e come\u00e7ar a estimular processos de industrializa\u00e7\u00e3o dentro do pa\u00eds. Por outro lado, do ponto de vista ambiental, n\u00e3o sei o que isso representa. Est\u00e1 havendo redu\u00e7\u00e3o no uso do petr\u00f3leo? N\u00e3o. Basicamente est\u00e1 se colocando um elemento a mais de energia para conseguir dinamizar a economia.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">arthur hussne<\/span>:<strong> <\/strong>Quais s\u00e3o os principais fatores que influem no comportamento das empresas interessadas na explora\u00e7\u00e3o das terras raras no Brasil?\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">dt<\/span>:<strong> <\/strong>Acho que tem o fator tempo. Existe um sentimento da elite econ\u00f4mica de que se o Brasil n\u00e3o se mexer agora, n\u00e3o liberar geral, o pa\u00eds perder\u00e1 a centralidade nesse novo ciclo econ\u00f4mico que est\u00e1 nascendo. \u00c9 um sentimento de que o Brasil pode perder o bonde da hist\u00f3ria por causa de preciosismos ambientais. Esse \u00e9 o sentimento da elite econ\u00f4mica, que est\u00e1 vendo serem exauridos determinados mecanismos tradicionais de altos rendimentos. Ent\u00e3o, a minera\u00e7\u00e3o, com esses materiais altamente especulativos, denota o in\u00edcio de um novo ciclo econ\u00f4mico. Isso se soma \u00e0s possibilidades de uso militar e na intelig\u00eancia artificial.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nossa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito favor\u00e1vel para esse tipo de interesse econ\u00f4mico, porque temos um Congresso absolutamente contr\u00e1rio a qualquer interesse nacional. <a href=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/entrevistas-br\/bresser-pereira\/\">A estrutura que se construiu de dar uma fatia muito grande do or\u00e7amento para o Poder Legislativo<\/a> quebrou a capacidade de negocia\u00e7\u00e3o do governo, porque agora o deputado n\u00e3o quer nem assumir minist\u00e9rio. Um deputado hoje recebe milh\u00f5es de reais em emendas para manter sua base, qual interesse ter\u00e1 de se envolver com o poder Executivo, algo que demanda muito mais esfor\u00e7o? Tem deputado aqui na regi\u00e3o que tem at\u00e9 programa pr\u00f3prio, como o \u201cMais Gen\u00e9tica\u201d, com dinheiro de emenda. O que interessa ao deputado \u00e9 quanto receber\u00e1 para despejar na base e garantir a elei\u00e7\u00e3o em quatro anos. Ent\u00e3o, o Brasil est\u00e1 muito vulner\u00e1vel. Por isso, talvez o caminho seja se aproximar da China, seguir ao menos a pol\u00edtica de materiais cr\u00edticos que eles adotaram, abandonando a lixivia\u00e7\u00e3o, o sulfato de am\u00f4nia e incorporando forte prote\u00e7\u00e3o ambiental em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 minera\u00e7\u00e3o, para pararmos de tratar nossos munic\u00edpios como zonas de sacrif\u00edcio. Aqui, os munic\u00edpios poderiam ao menos fechar um cons\u00f3rcio de terras raras e s\u00f3 conceder o uso e localiza\u00e7\u00e3o para quem oferecer a melhor proposta, quem entregar mais em termos de cadeia produtiva e prote\u00e7\u00e3o ambiental. Mas ningu\u00e9m quer trabalhar nisso porque a minera\u00e7\u00e3o \u00e9 vista como fonte de dinheiro f\u00e1cil e r\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">lb<\/span>: O que a polui\u00e7\u00e3o decorrente da explora\u00e7\u00e3o das terras raras pode significar para o Brasil e especificamente para Po\u00e7os de Caldas?\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">dt<\/span>:<strong> <\/strong>Os impactos s\u00e3o gigantescos. Muito em breve teremos minerodutos conectando as \u00e1reas de explora\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o. Um mineroduto pode usar a quantidade de \u00e1gua equivalente a uma cidade de 300 mil habitantes, sendo que Po\u00e7os de Caldas tem 200 mil. Ou seja, instalar essa infraestrutura implica multiplicar o uso de \u00e1gua no munic\u00edpio. J\u00e1 s\u00e3o tr\u00eas milh\u00f5es de litros utilizados mensalmente s\u00f3 para fazer o processo de lavagem, que gera tra\u00e7os de metais pesados e material radioativo cumulativos. Todo dia, ser\u00e3o geradas 20 mil toneladas em Po\u00e7os de Caldas e mais a mesma quantidade em Caldas. Como o transporte deve ser 100% entre a cava (ou mina) e a unidade de processamento, calculamos 700 viagens de caminh\u00e3o por dia em cada uma das cidades. E tem varia\u00e7\u00e3o sazonal: em um per\u00edodo do ano chove muito, o que inviabiliza o transporte por v\u00e1rios dias; e na \u00e9poca da seca, pode subir para 1200 viagens, com uma poeira imposs\u00edvel de controlar. E essa poeira vai carrear metais pesados, o que tem potencial de causar s\u00e9rios danos neurol\u00f3gicos. \u00c9 um material muito mais impactante do que agrot\u00f3xico para o sistema nervoso. E tem a quest\u00e3o da \u00e1gua. A nossa regi\u00e3o \u00e9 uma \u00e1rea vulc\u00e2nica e com muita \u00e1gua. Somos a caixa d\u2019\u00e1gua do Rio Grande do Sul. A \u00e1gua daqui em alguns dias j\u00e1 est\u00e1 l\u00e1 na Argentina. Isso vai gerar processos de carreamento de metais pesados e a impossibilidade de uso dessas \u00e1guas, porque n\u00e3o h\u00e1 tratamento para metais pesados. Ent\u00e3o, enquanto morador, pai e ser humano, n\u00e3o consigo assistir a isso e n\u00e3o me posicionar totalmente contra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">lb<\/span>: O BRICS cogita criar bolsas de commodities, como de gr\u00e3os. Isso poderia ser replicado para as terras raras, j\u00e1 que o bloco acumularia cerca de 80% das reservas do mundo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">dt<\/span>: Quanto ao BRICS, n\u00e3o sei. O debate n\u00e3o est\u00e1 acontecendo de forma p\u00fablica, acho que por ser um tema altamente militarizado e em raz\u00e3o do Trump, em especial, ser um ponto altamente vol\u00e1til na arena internacional. Ent\u00e3o, tudo o que envolve a minera\u00e7\u00e3o de terras raras ligada ao BRICS est\u00e1 acontecendo em sigilo. Fiquei surpreso na c\u00fapula do BRICS no Rio de Janeiro com o qu\u00e3o pouco se falou da minera\u00e7\u00e3o de terras raras. Tivemos audi\u00eancia com a ministra de Ci\u00eancia e Tecnologia, Luciana Santos, com a do Meio Ambiente, Marina Silva, com os gabinetes dos minist\u00e9rios de Minas e Energia, Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio e da Fazenda, e dissemos que \u00e9 preciso colocar alguma contrapartida de di\u00e1logo com a popula\u00e7\u00e3o, para buscar alternativas tecnol\u00f3gicas, para que a popula\u00e7\u00e3o seja parte interessada desse processo, e at\u00e9 agora nada. S\u00e3o <a href=\"https:\/\/agenciadenoticias.bndes.gov.br\/industria\/BNDES-e-Finep-concluem-avaliacao-de-propostas-de-chamada-publica-de-projetos-com-foco-em-minerais-estrategicos\/\">R$ 45,8 bilh\u00f5es de financiamento do BNDES<\/a> para o conjunto de empresas nessa \u00e1rea de materiais cr\u00edticos, e nada de recursos para a organiza\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios, para universidades e pesquisadores, e para a popula\u00e7\u00e3o se organizar e saber o que est\u00e1 acontecendo.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Caldas tem um or\u00e7amento anual de R$ 70 milh\u00f5es. Essas mineradoras t\u00eam previsto um faturamento bruto na ordem de R$ 6 bilh\u00f5es por ano. Como ter uma mesa de negocia\u00e7\u00e3o entre o munic\u00edpio e uma empresa dessas? Precisamos do apoio do Governo Federal para montar uma mesa de di\u00e1logo, pensar na constru\u00e7\u00e3o de um polo tecnol\u00f3gico de terras raras\u2014buscando inovar e n\u00e3o cair no \u201cgreenwashing\u201d, nesse papo furado de ESG\u2014, para que possamos, enquanto territ\u00f3rio, ter soberania, inclusive na escolha das tecnologias e dos volumes explorados. Com uma reserva dessas, podemos optar por um volume menor de explora\u00e7\u00e3o inicial e ganhar tempo para que a ind\u00fastria nacional comece a crescer e ganhar tecnologia. Mas hoje vejo justamente o contr\u00e1rio: uma pressa enorme na explora\u00e7\u00e3o e a passividade do Governo Federal ou at\u00e9 mesmo do BRICS na coordena\u00e7\u00e3o ou regula\u00e7\u00e3o disso como bloco.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em entrevista, Daniel Tygel fala sobre quest\u00f5es geopol\u00edticas e os fortes impactos ambientais que a explora\u00e7\u00e3o das terras raras acarreta, sobretudo nas \u201czonas de sacrif\u00edcio\u201d, territ\u00f3rios a serem prejudicados em nome de uma suposta vontade geral ou bem comum, como \u00e9 o caso da regi\u00e3o Sul de Minas 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