{"id":25335,"date":"2025-07-24T03:46:00","date_gmt":"2025-07-24T03:46:00","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/?p=25335"},"modified":"2025-08-05T00:20:06","modified_gmt":"2025-08-05T00:20:06","slug":"depois-de-sevilha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/depois-de-sevilha\/","title":{"rendered":"Depois de Sevilha"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Finalizada no in\u00edcio de julho na cidade de Sevilha, a quarta<a href=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/multilateralismo-emsevilha\/\"> confer\u00eancia<\/a> da ONU sobre Financiamento para o Desenvolvimento foi uma reuni\u00e3o decisiva. Enquanto compromissos clim\u00e1ticos diminuem, a crise clim\u00e1tica se acelera; enquanto o servi\u00e7o da d\u00edvida destr\u00f3i or\u00e7amentos de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o em pa\u00edses pobres, a ajuda externa para o desenvolvimento encolhe. O saldo do \u201cCompromisso de Sevilha\u201d \u00e9 amb\u00edguo. O dom\u00ednio das mesmas for\u00e7as que impulsionaram a crise clim\u00e1tica e da d\u00edvida\u2014os dois bra\u00e7os do capital, finan\u00e7as globais e big techs\u2014sobre as aspira\u00e7\u00f5es de \u201cdesenvolvimento transformador\u201d foi refor\u00e7ado. Enquanto delegados do Sul global demandavam al\u00edvio de d\u00edvida e financiamento clim\u00e1tico, cerca de 6 mil lobistas corporativos, quase metade dos participantes da confer\u00eancia, lotaram as plen\u00e1rias de Sevilha de solu\u00e7\u00f5es como \u201cfinanciamento misto\u201d, \u201cmobiliza\u00e7\u00e3o de capital\u201d e \u201cIA para os ODS\u201d. Por outro lado, pelo menos no papel, o Compromisso endossou a lideran\u00e7a da ONU em um processo intergovernamental de revis\u00e3o da arquitetura da d\u00edvida (com<a href=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/analysis\/whos-afraid-of-a-fair-debt-architecture\/\"> exce\u00e7\u00f5es<\/a> para pa\u00edses ricos) e promo\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a tribut\u00e1ria e<a href=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/estado-de-bem-estar-e-os-descontentes\/\"> prote\u00e7\u00e3o social.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na pr\u00e1tica, Sevilha reciclou a l\u00f3gica m\u00e1gica por tr\u00e1s do discurso de \u201cbilh\u00f5es para trilh\u00f5es\u201d cristalizado na confer\u00eancia de Adis Abeba h\u00e1 uma d\u00e9cada: o desenvolvimento s\u00f3 acontecer\u00e1 se for <em>invest\u00edvel<\/em>, ou seja, se conseguir mobilizar o capital privado. Mas o Compromisso acrescentou tamb\u00e9m uma importante ressalva: \u00e9 preciso que os investidores prestem mais aten\u00e7\u00e3o aos impactos reais sobre o desenvolvimento. A BlackRock, aprendemos em Sevilha, deve garantir que seu hospital <em>invest\u00edvel<\/em> na \u00cdndia\u2014parcialmente subsidiado por financiamento concessional e gastos locais com sa\u00fade\u2014cumpra pelo menos um item da lista dos ODS. A verdadeira batalha, no entanto, travava-se em outro campo. Enquanto ativistas debatiam princ\u00edpios, a \u201cfrente ampla pela redu\u00e7\u00e3o de riscos\u201d\u2014lobistas, ministros de finan\u00e7as e bancos multilaterais\u2014tinha um foco cir\u00fargico em uma \u00fanica meta: turbinar a participa\u00e7\u00e3o do capital privado em ativos de desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O multilateralismo, apesar de tudo, sobreviveu a Sevilha. Mas o pr\u00f3ximo teste j\u00e1 tem data e local: novembro, em Bel\u00e9m, durante a COP30. Os anfitri\u00f5es brasileiros est\u00e3o numa posi\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica delicada. Por um lado, Xi Jinping ignorou a c\u00fapula dos BRICS realizada no Rio de Janeiro em julho, provocando especula\u00e7\u00f5es sobre a coes\u00e3o do bloco e seu futuro como alternativa \u00e0 hegemonia ocidental. Por outro, em retalia\u00e7\u00e3o ao que chamou de \u201cca\u00e7a \u00e0s bruxas\u201d contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, Trump anunciou tarifas de 50% sobre produtos exportados pelo Brasil. Lula, por sua vez, embora insista que \u201co Brasil \u00e9 dos brasileiros\u201d, tem sido cuidadoso para n\u00e3o confrontar excessivamente os EUA. O Brasil, por exemplo, ainda que tenha participado da Confer\u00eancia de Emerg\u00eancia do Grupo de Haia para Gaza (convocada pela \u00c1frica do Sul e pela Col\u00f4mbia e realizada em Bogot\u00e1), n\u00e3o se juntou aos doze pa\u00edses que anunciaram san\u00e7\u00f5es formais contra Israel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como fica, nesse cen\u00e1rio, a lideran\u00e7a do Brasil no multilateralismo clim\u00e1tico? Na COP29, o \u201cRoteiro de Baku a Bel\u00e9m\u201d convocou \u201ctodos os atores a trabalharem juntos para permitir o aumento do financiamento\u201d para a\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas em pa\u00edses em desenvolvimento, no valor de \u201cpelo menos US$ 1,3 trilh\u00e3o por ano at\u00e9 2035\u201d. Na presid\u00eancia da COP30, o Brasil \u00e9 respons\u00e1vel n\u00e3o s\u00f3 pela elabora\u00e7\u00e3o desse Roteiro, mas tamb\u00e9m pela constru\u00e7\u00e3o, at\u00e9 a reuni\u00e3o de novembro, de um consenso em torno de seus termos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O primeiro passo brasileiro nessa dire\u00e7\u00e3o foi o lan\u00e7amento do<a href=\"https:\/\/cop30.br\/en\/news-about-cop30\/brasil-launches-cop30-circle-of-finance-ministers-to-support-the-baku-to-belem-roadmap-to-usd-1-3-trillion\"> C\u00edrculo de Ministros das Finan\u00e7as da COP30<\/a> em abril. \u00c9 not\u00e1vel que sejam os ministros das Finan\u00e7as, e n\u00e3o do Meio Ambiente, os primeiros convocados a participar de negocia\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas globais. Como o saudoso economista malauiano Thandika Mkandawire observou, o Consenso de Washington transformou ministros de Finan\u00e7as em<a href=\"http:\/\/google.com\/url?q=https:\/\/www.cambridge.org\/core\/journals\/african-studies-review\/article\/spread-of-economic-doctrines-and-policymaking-in-postcolonial-africa\/AE5F57F4011E71D9E1C36086F7000667&amp;sa=D&amp;source=docs&amp;ust=1753256938010077&amp;usg=AOvVaw1dcP7GQic9CeQrcMJGPLqK\"> garantidores<\/a> da ortodoxia neoliberal. De simples acomodadores de decis\u00f5es de minist\u00e9rios respons\u00e1veis pelo planejamento dos gastos p\u00fablicos\u2014como Com\u00e9rcio, Ind\u00fastria, Educa\u00e7\u00e3o e Agricultura\u2014, Minist\u00e9rios de Finan\u00e7as ganharam progressivamente mais espa\u00e7o nas d\u00e9cadas de 1960 e 1970, travando verdadeiras guerras palacianas \u00e0 medida que o paradigma do desenvolvimento abandonava o planejamento para adotar o Consenso de Washington. A perspectiva de economistas desenvolvimentistas foi trocada pela vis\u00e3o tecnocr\u00e1tica de \u201cc\u00e3es de guarda do or\u00e7amento\u201d. Nesse contexto, o Brasil n\u00e3o teve outra escolha a n\u00e3o ser convocar, antes de quaisquer outros atores, os guardi\u00f5es oficiais do neoliberalismo. S\u00e3o eles, afinal, os maiores simpatizantes das promessas de <em>investimento invest\u00edvel<\/em>, na esperan\u00e7a de que pequenas quantias de dinheiro p\u00fablico ativem o grande poder do investimento privado.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O \u201cRoteiro de Baku a Bel\u00e9m para US$ 1,3 trilh\u00e3o\u201d, como \u00e9 conhecido, aposta na redu\u00e7\u00e3o de riscos j\u00e1 no nome. A COP29 determinou que, para levantar esse US$ 1,3 trilh\u00e3o, finan\u00e7as p\u00fablicas e privadas devem ser mobilizadas. Na tentativa de garantir o consenso, o Brasil prop\u00f4s cinco prioridades estrat\u00e9gicas para o C\u00edrculo de Ministros das Finan\u00e7as da COP30:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Reforma dos Bancos Multilaterais de Desenvolvimento;<\/li>\n\n\n\n<li>Expans\u00e3o do financiamento concessional e dos fundos clim\u00e1ticos;<\/li>\n\n\n\n<li>Cria\u00e7\u00e3o de plataformas nacionais e refor\u00e7o da capacidade dom\u00e9stica para atrair investimentos sustent\u00e1veis;<\/li>\n\n\n\n<li>Desenvolvimento de instrumentos financeiros inovadores para a mobiliza\u00e7\u00e3o de capital privado;<\/li>\n\n\n\n<li>Fortalecimento de regula\u00e7\u00f5es para o financiamento clim\u00e1tico.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As prioridades 1, 3 e 4 visam melhorar o ecossistema institucional de redu\u00e7\u00e3o de riscos que, na vis\u00e3o de muita gente em Sevilha, ainda \u00e9 bastante falho. Para os lobistas da redu\u00e7\u00e3o de riscos, a explica\u00e7\u00e3o \u00e9 simples: faltam oportunidades de investimento n\u00e3o porque os investidores querem retornos elevados e ajustados ao risco do desenvolvimento, mas porque o lado \u201cp\u00fablico\u201d da parceria p\u00fablico-privada n\u00e3o cumpriu a prometida melhora institucional. A reforma dos Bancos Multilaterais, que tamb\u00e9m foi parte da agenda de Sevilha, visa estritamente melhorar a sua capacidade de mobilizar financiamento privado atrav\u00e9s de metas de mobiliza\u00e7\u00e3o, da plataforma de garantias do Banco Mundial e de outras medidas de coopera\u00e7\u00e3o interinstitucional. Plataformas nacionais, por sua vez, promovidas como mecanismos dom\u00e9sticos de coordena\u00e7\u00e3o para a atra\u00e7\u00e3o de atores interessados, t\u00eam a fun\u00e7\u00e3o de atenuar entraves \u00e0 <em>investibilidade<\/em> que v\u00eam limitando esfor\u00e7os de desenvolvimento. Acontece que, at\u00e9 agora, Parcerias para a Transi\u00e7\u00e3o Energ\u00e9tica Justa (JETPs) na \u00c1frica do Sul, Vietn\u00e3, Indon\u00e9sia e Senegal n\u00e3o t\u00eam encorajado os porta-vozes da redu\u00e7\u00e3o de riscos. H\u00e1 mais de um ano, Adam Tooze j\u00e1 as apelidou de \u201ctigres de papel da geopol\u00edtica clim\u00e1tica ocidental\u201d, e pouco mudou desde ent\u00e3o. Formadas por financiadores privados, doadores e governos locais, as coaliz\u00f5es das JETPs<a href=\"https:\/\/indonesiabusinesspost.com\/3538\/geopolitics-and-diplomacy\/indonesiasjetp-faces-criticism-over-delayed-fundingpromised\"> n\u00e3o<\/a> mobilizaram os bilh\u00f5es prometidos\u2014e \u00e9 improv\u00e1vel que o fa\u00e7am sem a participa\u00e7\u00e3o dos EUA. Em vez disso, elas t\u00eam sido um ve\u00edculo de<a href=\"https:\/\/journals.sagepub.com\/doi\/full\/10.1177\/10957960241241815\"> legitima\u00e7\u00e3o da privatiza\u00e7\u00e3o<\/a> do setor energ\u00e9tico. Na \u00c1frica do Sul, por exemplo, a JETP est\u00e1 atualmente focada em<a href=\"https:\/\/pccommissionflo.imgix.net\/upload%20%205-JETPMUPCCslides13June25.pdf\"> reduzir os riscos<\/a> de investimentos privados em transmiss\u00e3o de energia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O caso da JEPT vietnamita \u00e9 um exemplo interessante de como um pa\u00eds pode usar seu potencial de transforma\u00e7\u00e3o para combater a l\u00f3gica da redu\u00e7\u00e3o de riscos\u2014se o governo admitir que os retornos privados s\u00e3o excessivos. O Vietn\u00e3 se beneficiou das atuais tens\u00f5es geopol\u00edticas, j\u00e1 que muitas empresas ocidentais sa\u00edram da China para diversificar suas cadeias de valor. Atra\u00eddas em parte pela estrat\u00e9gia de energia renov\u00e1vel do pa\u00eds, Apple, Samsung e Intel se mudaram para l\u00e1. Desde 2017, a concession\u00e1ria estatal EVN tem comprado energia renov\u00e1vel a pre\u00e7os acima do mercado, um subs\u00eddio destinado a atrair investidores estrangeiros. Como resultado, a EVN ficou presa a a uma estrat\u00e9gia de redu\u00e7\u00e3o de riscos de alto custo: em 2023, suas perdas chegaram a US$ 1 bilh\u00e3o. Em resposta, o governo vietnamita decidiu reverter essas condi\u00e7\u00f5es, provocando a \u201c<a href=\"https:\/\/www.ft.com\/content\/dc3ea035-bdeb-4cb8-978f-834cb958b61e\">f\u00faria<\/a>\u201d de investidores pela suposta viola\u00e7\u00e3o dos contratos de energia.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A prioridade 2, expandir o financiamento concession\u00e1rio e os fundos clim\u00e1ticos, tamb\u00e9m faz parte da estrat\u00e9gia de construir capacidade via redu\u00e7\u00e3o de riscos, o que pode acabar direcionando o financiamento concessional para fundos clim\u00e1ticos privados. Um exemplo disso \u00e9 a a Climate Finance Partnership da BlackRock, inaugurada com financiamento concessional do Jap\u00e3o, Alemanha e Fran\u00e7a. Seu relat\u00f3rio de<a href=\"https:\/\/www.blackrock.com\/institutions\/en-us\/literature\/presentation\/cfp-2025-impact-report-vf-stamped.pdf\"> impacto<\/a> de 2025 apresenta uma s\u00e9rie de projetos bem-sucedidos de \u201cenergia <em>invest\u00edvel<\/em>\u201d, incluindo o Lake Turkana Wind Power, o maior projeto privado de energia renov\u00e1vel do Qu\u00eania. O projeto Lake Turkana \u00e9 s\u00f3 mais uma confirma\u00e7\u00e3o de que o aceno de Sevilha a \u201cresultados de desenvolvimento\u201d <em>invest\u00edveis<\/em> requer o desenho de um quadro institucional mais r\u00edgido para delimitar a redu\u00e7\u00e3o de riscos, o que detalhei em meu primeiro<a href=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/multilateralismo-emsevilha\/\"> texto<\/a> dessa s\u00e9rie. Segundo a BlackRock, o projeto do Lake Turkana entrega v\u00e1rios resultados de ODS positivos em mat\u00e9ria de energia renov\u00e1vel, \u00e1gua, acesso \u00e0 eletricidade, etc. Mas isso \u00e9 uma deturpa\u00e7\u00e3o profunda da realidade.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Lake Turkana Wind Power \u00e9 um exemplo flagrante de extrativismo verde disfar\u00e7ado de soberania energ\u00e9tica. O projeto envolveu a estatal Kenya Power num dispendioso contrato de compra de energia (PPA) com dura\u00e7\u00e3o de vinte anos. No final de 2024, uma comiss\u00e3o parlamentar queniana solicitou \u00e0 Comiss\u00e3o de \u00c9tica e Anticorrup\u00e7\u00e3o e \u00e0 Dire\u00e7\u00e3o de Investiga\u00e7\u00f5es Criminais que investigasse os funcion\u00e1rios p\u00fablicos que assinaram o PPA da LTWP, enquanto o governo imp\u00f4s uma morat\u00f3ria sobre os PPAs. Os sindicatos locais foram mais longe, exigindo que o Qu\u00eania \u201crevogasse todos os PPAs assinados com v\u00e1rias empresas de gera\u00e7\u00e3o de energia e renegociasse contratos melhores, mais flex\u00edveis e que previssem o pagamento em xelins quenianos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXfysCu5JY4FzNYLLpOowuly8jL0jewWAL4iaZxwHP2w_rJ0TUH2O8ZOEr5AAEmPQoiIztYL3PL-SL3Rk4u676nBMaark2IoRVib5z-nB97fe8wQ4mEeRKR5J-nEf0RZsin03_T0tKkemEhCFnUNwhk?key=TvCxNZpOFcir_52Q0t978Q\" alt=\"\" style=\"width:800px;height:auto\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em><em>Relat\u00f3rio de Impacto da Parceria para o Financiamento Clim\u00e1tico, 2025<\/em>: infogr\u00e1fico demonstrativo da atua\u00e7\u00e3o da Lake Turkana descrita no par\u00e1grafo anterior.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A estrat\u00e9gia das \u201cenergias renov\u00e1veis <em>invest\u00edveis<\/em>\u201d se revelou pior do que uma bomba-rel\u00f3gio fiscal: virou um verdadeiro entrave ao desenvolvimento transformador. Ao sobrecarregar o pa\u00eds com o segundo custo energ\u00e9tico mais alto do continente, ela corroeu o espa\u00e7o fiscal para uma pol\u00edtica industrial verde, ao mesmo tempo em que prejudicou a competitividade dos fabricantes locais. O Qu\u00eania pode tentar seguir o exemplo do Vietn\u00e3 e renegociar esses contratos, mas qualquer medida percebida como prejudicial \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o de capital privado certamente provocar\u00e1 uma onda de indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vale reconhecer que o Brasil tentou mudar o rumo da prioridade 2 com a iniciativa Tropical Forest Forever Facility (<a href=\"https:\/\/tfff.earth\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/2025-02-24-TFFF-Full-Concept-Note-2.0-Public.pdf\">TFFF<\/a>). Se a ideia sair do papel, um fundo de financiamento misto (o Tropical Forest Investment Fund, TFIF) ser\u00e1 criado para direcionar capital privado para o Estado, e n\u00e3o para propriet\u00e1rios privados de infraestruturas <em>invest\u00edveis<\/em>. O Brasil quer que o TFIF levante US$ 25 bilh\u00f5es em empr\u00e9stimos concessionais de pa\u00edses ricos (embora o compromisso dos EUA esteja agora em d\u00favida) e, em seguida, emita outros US$ 75 bilh\u00f5es em d\u00edvida (presumivelmente t\u00edtulos de renda fixa), cujos rendimentos seriam investidos em t\u00edtulos soberanos de pa\u00edses emergentes. O diferencial de juros, estimado em cerca de 2% a 3%, seria usado primeiro para pagar a d\u00edvida s\u00eanior do TFIF, depois para pagar os juros devidos sobre o capital do financiador e, por \u00faltimo, para fazer pagamentos baseados em resultados aos pa\u00edses com florestas tropicais. Embora a Global Forest Coalition e outros ativistas florestais critiquem, com raz\u00e3o, o potencial restaurador de tais iniciativas baseadas no mercado, o m\u00e9rito dessa iniciativa \u00e9 que ela se apropria da linguagem e da l\u00f3gica da redu\u00e7\u00e3o de riscos sem privatizar as florestas, visando, em vez disso, direcionar recursos para as autoridades p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A prioridade 5 \u00e9 fortalecer quadros regulat\u00f3rios para o financiamento clim\u00e1tico. \u00c9 um objetivo deliberadamente amb\u00edguo. Procura recrutar defensores de duas abordagens do financiamento clim\u00e1tico fundamentalmente opostas: redu\u00e7\u00e3o de riscos e disciplina. Para os defensores da redu\u00e7\u00e3o de riscos, como a Climate Policy Initiative, fortalecer a regula\u00e7\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de criar \u201cambientes<a href=\"https:\/\/www.climatepolicyinitiative.org\/publication\/advancingthe-baku-to-belem-climate-finance-roadmap\/action.\"> prop\u00edcios<\/a>\u201d para \u201catrair o financiamento privado necess\u00e1rio para atingir US$ 1,3 trilh\u00e3o\u201d. Isso envolve \u201cdesenvolver e operacionalizar taxonomias de financiamento sustent\u00e1vel, integrar o risco clim\u00e1tico \u00e0 regulamenta\u00e7\u00e3o prudencial e adotar estruturas mais robustas de precifica\u00e7\u00e3o de carbono\u201d. Essa \u00e9 a linguagem da redu\u00e7\u00e3o de riscos para a descarboniza\u00e7\u00e3o: a regulamenta\u00e7\u00e3o financeira mais forte poss\u00edvel \u00e9 a incorpora\u00e7\u00e3o dos riscos clim\u00e1ticos na regulamenta\u00e7\u00e3o prudencial, uma abordagem de materialidade \u00fanica (da crise clim\u00e1tica ao desempenho financeiro privado) aos moldes do que a que a BlackRock e outros financiadores sujos h\u00e1 muito tempo promovem na Europa, onde as tentativas de regulamentar o financiamento sujo t\u00eam sido mais fortes. \u00c9 a mesma linguagem regulat\u00f3ria do Compromisso de Sevilha, que enquadra a descarboniza\u00e7\u00e3o como uma quest\u00e3o de estabilidade financeira e recorre a instrumentos fracos\u2014devido \u00e0 natureza essencialmente volunt\u00e1ria do processo\u2014, como planos de transi\u00e7\u00e3o e testes de estresse clim\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A palavra \u201cfortalecer\u201d, no entanto, evoca uma estrat\u00e9gia diferente: construir a capacidade do Estado para disciplinar financistas do carbono. N\u00e3o muito tempo atr\u00e1s, pouco antes da pandemia da Covid-19, reguladores e pol\u00edticos europeus adotaram a \u201cdupla materialidade\u201d como base para a descarboniza\u00e7\u00e3o das finan\u00e7as. De forma um tanto inesperada, a dupla materialidade tamb\u00e9m foi mencionada no Compromisso, talvez porque poucos compreendem suas origens bastante radicais. A BlackRock investiu pesado em<a href=\"https:\/\/reclaimfinance.org\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Exposing-BlackRock-grip-on-EU-climate-finance-plans.pdf\"> lobby<\/a> contra a<a href=\"https:\/\/www.finance-watch.org\/press\/finance-watch-denounces-the-incoherence-of-the-selection-of-blackrock-by-the-european-commission-to-integrate-esg-factors-into-eu-banking-frameworks\/\"> dupla materialidade<\/a> porque \u00e9 uma abordagem que n\u00e3o concentra os esfor\u00e7os do Estado apenas em proteger os balan\u00e7os dos financistas da crise clim\u00e1tica, mas reconhece que empr\u00e9stimos de financiadores sujos t\u00eam efeitos materiais sobre a pr\u00f3pria crise. A dupla materialidade requer que o Estado penalize o cr\u00e9dito sujo. Isso significa construir capacidade estatal para incluir um aspecto disciplinar\u2014<a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/full\/10.1080\/09692290.2024.2351838\">cenouras <em>e<\/em> porretes<\/a>\u2014na pol\u00edtica clim\u00e1tica, o que \u00e9 fundamentalmente incompat\u00edvel com a agenda de redu\u00e7\u00e3o de riscos que coloca o capital privado no comando. Mesmo que o apetite pol\u00edtico por penalidades ambientais tenha diminu\u00eddo no mundo todo, financistas do carbono seguem preocupados com um futuro em que Grandes Estados Verdes percebam que a imposi\u00e7\u00e3o de penalidades dessa natureza aumentaria rapidamente o financiamento clim\u00e1tico, redirecionando os fluxos de capital. Mas, dado que o Brasil recentemente<a href=\"https:\/\/www.camara.leg.br\/noticias\/1181164-camara-aprova-projeto-que-altera-regras-de-licenciamento-ambiental\/\"> enfraqueceu<\/a> as pr\u00f3prias leis de licenciamento ambiental,<a data-contents=\"O projeto de lei aprovado pelo Congresso ainda n\u00e3o foi sancionado pela presid\u00eancia da Rep\u00fablica\" class=\"footnote\" id=\"footnote-1\" href=\"#footnote-list-1\">1<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">O projeto de lei aprovado pelo Congresso ainda n\u00e3o foi sancionado pela presid\u00eancia da Rep\u00fablica<\/span> parece que a abordagem de redu\u00e7\u00e3o de riscos dominar\u00e1 tamb\u00e9m a prioridade 5.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-right\">Tradu\u00e7\u00e3o: Hugo Fanton<\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O multilateralismo sobreviveu a Sevilha.O pr\u00f3ximo teste ser\u00e1 em novembro, na COP30, em Bel\u00e9m.<\/p>\n","protected":false},"author":90,"featured_media":25157,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[730],"tags":[764,774,788,883],"issue":[],"newsletter":[],"region":[],"sector":[],"theme":[1081,1090],"series":[],"class_list":["post-25335","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-analises","tag-desenvolvimento","tag-financas-pt-br","tag-shortform-pt-br","tag-shortform-pt-br-3","theme-comercio","theme-financiamento-desenvolvimento"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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