{"id":25260,"date":"2025-07-25T03:15:04","date_gmt":"2025-07-25T03:15:04","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/?p=25260"},"modified":"2025-07-25T19:35:31","modified_gmt":"2025-07-25T19:35:31","slug":"bresser-pereira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/entrevistas-br\/bresser-pereira\/","title":{"rendered":"Um pa\u00eds ingovern\u00e1vel"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O gradual abandono do pensamento cepalino no Brasil desde a d\u00e9cada de 1980 e a ado\u00e7\u00e3o das recomenda\u00e7\u00f5es do Consenso de Washington na d\u00e9cada de 1990 levaram ao que Luiz Carlos Bresser-Pereira diagnosticou como um per\u00edodo de <em>quase estagna\u00e7\u00e3o<\/em>, marcado por uma severa desindustrializa\u00e7\u00e3o que, com exce\u00e7\u00f5es pontuais, persiste at\u00e9 hoje. Em resposta, desde o in\u00edcio dos anos 2000, Bresser-Pereira se dedica \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o da teoria do novo desenvolvimentismo, com \u00eanfase na necessidade de neutralizar a \u201ctend\u00eancia \u00e0 insufici\u00eancia de demanda\u201d, por meio da administra\u00e7\u00e3o \u201cda pol\u00edtica fiscal e da pol\u00edtica monet\u00e1ria\u201d para permitir \u201cuma expans\u00e3o cont\u00ednua do n\u00edvel de produ\u00e7\u00e3o e de vendas\u201d e na import\u00e2ncia de construir pol\u00edticas que revertam a \u201ctend\u00eancia \u00e0 sobreaprecia\u00e7\u00e3o c\u00edclica e cr\u00f4nica da taxa de c\u00e2mbio\u201d, para \u201cgarantir o <em>acesso<\/em> das empresas que usam tecnologia no estado da arte mundial \u00e0 demanda existente\u201d, tanto dom\u00e9stica quanto internacional.<a data-contents=\"Luiz Carlos Bresser-Pereira, \u201cEm busca do desenvolvimento perdido\u201d, FGV Editora, 2018, p. 25-26.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-1\" href=\"#footnote-list-1\">1<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Luiz Carlos Bresser-Pereira, \u201cEm busca do desenvolvimento perdido\u201d, FGV Editora, 2018, p. 25-26.<\/span> Para o novo desenvolvimentismo, a taxa de c\u00e2mbio \u00e9 a principal vari\u00e1vel da gest\u00e3o macroecon\u00f4mica. Estrat\u00e9gias de crescimento \u201ccom poupan\u00e7a externa\u201d e ciclos de doen\u00e7a holandesa prejudicam a competitividade da ind\u00fastria dom\u00e9stica e desestimulam os investimentos, obstruindo a sofistica\u00e7\u00e3o produtiva. Por isso, as pol\u00edticas fiscal, monet\u00e1ria e industrial devem ser acompanhadas de uma pol\u00edtica cambial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na manh\u00e3 de 26 de junho, Hugo Fanton e Maria Fernanda Sikorski, editores da Phenomenal World, conversaram com Bresser-Pereira sobre a conjuntura pol\u00edtica e econ\u00f4mica do terceiro governo Lula \u00e0 luz do novo desenvolvimentismo. Aos 91 anos, Bresser-Pereira \u00e9 um dos mais importantes intelectuais da hist\u00f3ria contempor\u00e2nea do Brasil. Professor da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas desde 1959, \u00e9 economista, cientista pol\u00edtico, administrador de empresas e advogado. Foi ministro da Fazenda (1987) no governo de Jos\u00e9 Sarney e ministro da Administra\u00e7\u00e3o Federal e Reforma do Estado (1995-1998) e da Ci\u00eancia e Tecnologia (1999) no governo de Fernando Henrique Cardoso. Desde que deixou a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, dedica-se exclusivamente \u00e0 vida acad\u00eamica. A entrevista, realizada antes da amea\u00e7a do tarifa\u00e7o de 50% sobre as exporta\u00e7\u00f5es do Brasil para os Estados Unidos, analisa as consequ\u00eancias da posi\u00e7\u00e3o semicolonial brasileira no mercado global e os entraves \u00e0 mudan\u00e7a estrutural da economia nacional.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Entrevista com Luiz Carlos Bresser-Pereira<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">hugo Fanton<\/span>: Ontem, o Congresso Nacional <a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/radioagencia-nacional\/politica\/audio\/2025-06\/congresso-derruba-decreto-sobre-aumento-do-iof\">derrubou<\/a> o decreto presidencial que aumentava as al\u00edquotas do Imposto sobre Opera\u00e7\u00f5es Financeiras (IOF). Aproveitando esse contexto, podemos come\u00e7ar pela sua an\u00e1lise da rela\u00e7\u00e3o entre os poderes Executivo e Legislativo ao longo do terceiro mandato presidencial de Lula?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">Bresser-Pereira<\/span>: Desde 2015, quando o Congresso aprovou uma emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o que tornou as emendas parlamentares impositivas, o Brasil se tornou um pa\u00eds ingovern\u00e1vel, ou pelo menos quase. O Legislativo Federal adota um sistema eleitoral absurdo: proporcional, ao inv\u00e9s de majorit\u00e1rio ou distrital, mas com listas abertas. Isso resulta em uma enorme multiplica\u00e7\u00e3o de partidos e implica a elei\u00e7\u00e3o de um parlamento muito conservador, porque o sistema proporcional de lista aberta faz com que as elei\u00e7\u00f5es custem muito caro. Criado pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, esse modelo s\u00f3 se tornou govern\u00e1vel em raz\u00e3o do chamado \u201cpresidencialismo de coaliz\u00e3o\u201d.<a data-contents=\"O termo, cunhado pelo cientista pol\u00edtico S\u00e9rgio Abranches, se refere ao modo como o presidente da Rep\u00fablica no Brasil forma maiorias parlamentares. Em um sistema caracterizado por pluripartidarismo extremo (nas elei\u00e7\u00f5es de 2022 foram eleitos 23 partidos para a C\u00e2mara dos Deputados), o apoio do Legislativo ao governo depende de&nbsp; acordos (muitas vezes esp\u00farios) e alian\u00e7as entre partidos de posi\u00e7\u00f5es heterog\u00eaneas no espectro pol\u00edtico.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-2\" href=\"#footnote-list-2\">2<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">O termo, cunhado pelo cientista pol\u00edtico S\u00e9rgio Abranches, se refere ao modo como o presidente da Rep\u00fablica no Brasil forma maiorias parlamentares. Em um sistema caracterizado por pluripartidarismo extremo (nas elei\u00e7\u00f5es de 2022 foram eleitos 23 partidos para a C\u00e2mara dos Deputados), o apoio do Legislativo ao governo depende de&nbsp; acordos (muitas vezes esp\u00farios) e alian\u00e7as entre partidos de posi\u00e7\u00f5es heterog\u00eaneas no espectro pol\u00edtico.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na maioria dos pa\u00edses desenvolvidos, o partido que ganha a elei\u00e7\u00e3o para o Executivo conta com maioria no Congresso, se n\u00e3o absoluta, pelo menos substancial, permitindo que, com algumas alian\u00e7as, seja capaz de implementar seu projeto pol\u00edtico. Por causa do sistema de listas abertas, isso n\u00e3o acontece t\u00e3o naturalmente no Brasil. O presidencialismo de coaliz\u00e3o foi a sa\u00edda: o presidente n\u00e3o tinha maioria no Congresso, mas podia comprar os deputados\u2014comprar, mesmo. O governo s\u00f3 liberava verbas de emendas parlamentares se tivesse apoio no Congresso. Era um absurdo que se consertava com outro, mas o equil\u00edbrio ficava razo\u00e1vel: dava para governar. A partir de 2015, no entanto, os parlamentares ficaram cada vez mais \u201cindependentes\u201d do presidente, e ficou extremamente dif\u00edcil governar o pa\u00eds.<a data-contents=\"Dilma Rousseff iniciou seu segundo mandato presidencial em janeiro de 2015 j\u00e1 sob press\u00e3o. O m\u00eas de dezembro daquele ano foi marcado pelo rompimento definitivo com o governo pela maioria da C\u00e2mara dos Deputados, presidida por Eduardo Cunha, que iniciou o processo de impeachment contra Dilma. Paralelamente, tamb\u00e9m em 2015, o Congresso aprovou a primeira Emenda Constitucional (n. 86\/2015) que tornava as emendas parlamentares impositivas\u2014a pr\u00f3xima d\u00e9cada seria marcada por in\u00fameras outras medidas voltadas a aumentar a inger\u00eancia do Legislativo sobre o or\u00e7amento p\u00fablico.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-3\" href=\"#footnote-list-3\">3<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Dilma Rousseff iniciou seu segundo mandato presidencial em janeiro de 2015 j\u00e1 sob press\u00e3o. O m\u00eas de dezembro daquele ano foi marcado pelo rompimento definitivo com o governo pela maioria da C\u00e2mara dos Deputados, presidida por Eduardo Cunha, que iniciou o processo de impeachment contra Dilma. Paralelamente, tamb\u00e9m em 2015, o Congresso aprovou a primeira Emenda Constitucional (n. 86\/2015) que tornava as emendas parlamentares impositivas\u2014a pr\u00f3xima d\u00e9cada seria marcada por in\u00fameras outras medidas voltadas a aumentar a inger\u00eancia do Legislativo sobre o or\u00e7amento p\u00fablico.<\/span> O S\u00e9rgio Abranches trata desse problema de governabilidade em uma <a href=\"https:\/\/valor.globo.com\/politica\/noticia\/2025\/06\/23\/temos-um-congresso-disfuncional-diz-sergio-abranches.ghtml\">entrevista<\/a> recente ao Valor Econ\u00f4mico. Ele fala que o Brasil tem um Congresso disfuncional, que trata apenas de seus pr\u00f3prios interesses e n\u00e3o tem nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o com o interesse p\u00fablico. A maioria dos deputados e senadores trabalha&nbsp; simplesmente para defender suas pr\u00f3prias prerrogativas e viabilizar sua reelei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que aconteceu no caso do IOF? O Congresso revogou o decreto presidencial que impunha um aumento de impostos. O governo precisa aumentar impostos porque os gastos fiscais s\u00e3o muito elevados e, em grande parte, obrigat\u00f3rios. E continuar\u00e3o sendo obrigat\u00f3rios, a n\u00e3o ser que se adote uma \u201csolu\u00e7\u00e3o\u201d muito simples: acabar com o bem-estar social no pa\u00eds, acabar com o Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS), reduzir a despesa com educa\u00e7\u00e3o pela metade\u2014deixando, \u00e9 claro, que os rentistas continuem recebendo juros reais de 8% ou 9% ao ano (o que pesa no or\u00e7amento em cerca de 9% ou 10% do PIB atualmente). A falta de apoio do Legislativo \u00e9 um problema em si, mas, al\u00e9m disso, o volume das emendas \u00e9 imenso e impacta a capacidade do governo federal de direcionar os gastos fiscais e fazer investimentos p\u00fablicos de maior quantidade e qualidade. Precisa-se encontrar uma solu\u00e7\u00e3o para isso porque, atualmente, o governo est\u00e1 praticamente impossibilitado de implementar seu projeto pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">Maria Sikorski<\/span>: \u00c9 um Congresso que defende austeridade, porque imp\u00f5e ao governo a ado\u00e7\u00e3o de uma regra fiscal superavit\u00e1ria, mas n\u00e3o v\u00ea problema nas emendas\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">BP<\/span>: O Congresso n\u00e3o \u00e9 a favor da austeridade. Isso \u00e9 conversa mole. Os economistas ortodoxos s\u00e3o, mas o Congresso, ainda que fale em nome da ortodoxia, absolutamente n\u00e3o segue suas recomenda\u00e7\u00f5es, porque n\u00e3o quer aumentar impostos nem diminuir despesas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">MS<\/span>: A teoria do novo desenvolvimentismo defende uma forma de ajuste fiscal que permita&nbsp; o equil\u00edbrio das contas p\u00fablicas sem prejudicar o gasto social e o investimento. Nessa linha, no livro \u201c<a href=\"https:\/\/www.bresserpereira.org.br\/index.php\/books\/published-books-in-portuguese\/11557-8077\">Em busca do desenvolvimento perdido<\/a>\u201d, o senhor defende um modelo de regra fiscal que adote uma meta para o resultado nominal (e n\u00e3o prim\u00e1rio), ou seja, que inclua o pagamento de juros na conta, ao lado de uma meta para o investimento p\u00fablico. Diante disso, qual a sua avalia\u00e7\u00e3o do arcabou\u00e7o fiscal implementado pelo governo em 2023, que adota metas de resultado prim\u00e1rio e tem um vi\u00e9s superavit\u00e1rio, determinando que a taxa de crescimento das despesas seja sempre menor que a das receitas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">BP<\/span>: O teto de gastos anteriormente vigente era absurdo, um pa\u00eds civilizado n\u00e3o faria aquilo. Agora, quando o novo o arcabou\u00e7o fiscal foi proposto para substituir o teto, durante as negocia\u00e7\u00f5es com o Congresso, havia mais coisa em jogo do que simplesmente estabelecer os crit\u00e9rios para a obten\u00e7\u00e3o de um resultado fiscal acordado: o governo precisava garantir tamb\u00e9m a a viabiliza\u00e7\u00e3o do aumento de despesas sociais prometido pela campanha de Lula. O Haddad foi incrivelmente h\u00e1bil quando conseguiu, diante de um parlamento nada cooperativo, assegurar as duas coisas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso dito, uma meta de super\u00e1vit prim\u00e1rio mais elevada deve ser alcan\u00e7ada tanto por meio da redu\u00e7\u00e3o de despesas quanto do aumento de impostos. O Estado brasileiro tem responsabilidade constitucional com despesas de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o e um comprometimento crescente com gastos relacionados \u00e0 assist\u00eancia social\u2014n\u00e3o s\u00f3 porque a popula\u00e7\u00e3o vem envelhecendo, mas porque o volume das transfer\u00eancias de renda cresceu muito desde a pandemia, fazendo com que programas como o Bolsa Fam\u00edlia deixassem de ser baratos como eram inicialmente. Enquanto isso, a carga tribut\u00e1ria brasileira quase n\u00e3o foi alterada: desde os anos 2000, gira em torno de 32%. \u00c9 evidente, portanto, que ela precisa aumentar. Argumenta-se que o peso tribut\u00e1rio do Brasil \u00e9 muito elevado, mas isso n\u00e3o \u00e9 verdade. No caso de pa\u00edses que nunca tiveram o encargo do bem-estar social, at\u00e9 poderia ser. Mas n\u00f3s temos, modestamente, mas temos: o Sistema \u00danico de Sa\u00fade \u00e9 a maior realiza\u00e7\u00e3o da democracia brasileira.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, o investimento p\u00fablico tamb\u00e9m precisa ter espa\u00e7o no or\u00e7amento. Historicamente, tentativas de resolver o problema dos investimentos em infraestrutura atrav\u00e9s de concess\u00f5es, parcerias p\u00fablico-privadas e privatiza\u00e7\u00f5es fracassaram. A privatiza\u00e7\u00e3o de setores monopolistas, como \u00e9 o caso da infraestrutura em geral, n\u00e3o faz o menor sentido. Acontece que, sem aumentar impostos, manter o gasto social e retomar o investimento p\u00fablico \u00e9 imposs\u00edvel, mas ningu\u00e9m pode tocar nesse assunto. O Fernando Haddad at\u00e9 se esfor\u00e7a, mas ontem, por exemplo, o Congresso anulou uma revis\u00e3o da carga tribut\u00e1ria que ele tentou fazer. O Brasil precisa de uma solu\u00e7\u00e3o para o problema fiscal que viabilize o investimento p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">HF<\/span>: Paralelamente \u00e0s disputas fiscais, embates relacionados \u00e0 pol\u00edtica monet\u00e1ria tamb\u00e9m marcam o governo. O pr\u00f3prio Lula reiteradamente criticou o patamar elevado (e, durante parte consider\u00e1vel do atual mandato, crescente) da taxa b\u00e1sica de juros. Qual \u00e9 a sua leitura sobre a atua\u00e7\u00e3o do Banco Central (BC)?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">BP<\/span>: Outro dia, pedi a um assistente de pesquisa que fizesse um quadro comparando, desde 1990, a evolu\u00e7\u00e3o da taxa de juros real em pa\u00edses da OCDE, nos grandes pa\u00edses em desenvolvimento\u2014China, R\u00fassia, \u00cdndia e Indon\u00e9sia\u2014e no Brasil. Infelizmente n\u00e3o tenho os n\u00fameros agora, mas a figura era mais ou menos assim:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/IMG_3957.HEIC-1024x507.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-25270\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Desenho feito pelo entrevistado. No eixo vertical, juros reais. No horizontal, anos. De baixo para cima, as linhas representam: pa\u00edses da OCDE, grandes pa\u00edses em desenvolvimento e Brasil.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 d\u00e9cadas que o Banco Central opera nesse quadro. A pergunta, ent\u00e3o, \u00e9:&nbsp; por que os juros s\u00e3o altos no Brasil?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Nakano e eu fomos os primeiros a falar seriamente sobre esse assunto no Brasil, l\u00e1 em 2002, quando publicamos um <a href=\"https:\/\/www.bresserpereira.org.br\/951-estrategia-desenvolvimento-com-estabiliade-rep-for.pdf\">artigo<\/a> mostrando que nossa a taxa de juros real era muito superior \u00e0 taxa internacional somada ao risco pa\u00eds e argumentando que, uma vez que a abertura financeira dificultava a deprecia\u00e7\u00e3o da moeda nacional, esse diferencial de juros existia para atrair capital estrangeiro. Esse foi, na pr\u00e1tica, o momento em que eu rompi com os economistas do Fernando Henrique Cardoso\u2014todos, exceto o Andr\u00e9 Lara Resende, perfeitamente neoliberais. Desde ent\u00e3o, minha explica\u00e7\u00e3o para os juros altos sempre teve dois fatores: a necessidade de atrair capitais e o poder pol\u00edtico do sistema financeiro-rentista brasileiro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Recentemente, no entanto, publiquei uma <a href=\"https:\/\/valor.globo.com\/opiniao\/coluna\/sobre-a-existencia-de-um-piso-para-os-juros-no-brasil.ghtml\">an\u00e1lise<\/a> no Valor Econ\u00f4mico acrescentando outra ideia (que merece, inclusive, uma pesquisa mais s\u00e9ria): al\u00e9m dos fatores pol\u00edticos e econ\u00f4micos, a taxa de juros no Brasil \u00e9 alta porque se tornou habitual. Identifico dois fatos hist\u00f3ricos essenciais \u00e0 cria\u00e7\u00e3o desse costume. O mais importante, a meu ver, aconteceu em 1964, com o golpe militar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os militares recuperaram o sistema de cadernetas de poupan\u00e7a e definiram que esses investimentos seriam remunerados por uma taxa de juros real\u2014n\u00e3o nominal\u2014de 6% ao ano. Hoje em dia, muito capitalista do Norte global fica feliz com 3%. Juros reais de 6% ao ano eram absolutamente incompat\u00edveis com a natureza das cadernetas de poupan\u00e7a, mas ningu\u00e9m questionou a decis\u00e3o. Desde a d\u00e9cada de 1930 existia uma lei da usura (vigente at\u00e9 hoje) que criminalizava a cobran\u00e7a de juros reais acima de 12% ao ano. Pelo jeito, pagar metade disso para um produto de renda fixa com risco praticamente nulo parecia \u00f3timo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O segundo fato hist\u00f3rico data da redemocratiza\u00e7\u00e3o. O texto da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 previa um limite m\u00e1ximo para juros reais de 12% ao ano, refor\u00e7ando o crit\u00e9rio da lei da usura. A ado\u00e7\u00e3o de um teto constitucional para os juros foi obra do meu querido amigo Fernando Gasparian, que lutou muito por isso durante a constituinte. O Congresso acabou aprovando o teto, mas com esse valor anual de 12%. Isso j\u00e1 ilustra qu\u00e3o complicada era a quest\u00e3o: se, por um lado, havia um limite, por outro, o limite era alt\u00edssimo!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, ainda que o limite fosse alto, a quest\u00e3o n\u00e3o passou em branco. O mercado financeiro protestou, os economistas disseram que isso n\u00e3o era compat\u00edvel com a realidade macroecon\u00f4mica do pa\u00eds e, depois de um tempo, o artigo acabou sendo revogado da Constitui\u00e7\u00e3o. A partir desse embate, os juros altos se cristalizaram como um fato natural. Por isso eu digo que \u00e9 quest\u00e3o de h\u00e1bito: no Brasil, juros reais de 4% ou 6% s\u00e3o absolutamente costumeiros. O resultado \u00e9 uma captura gigantesca do patrim\u00f4nio p\u00fablico: recursos que poderiam ser destinados ao investimento produtivo s\u00e3o desviados para o mercado financeiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 duas capturas fundamentais do patrim\u00f4nio p\u00fablico brasileiro. A dos juros \u00e9, de longe, a mais importante. A outra \u00e9 resultado dos privil\u00e9gios da burocracia p\u00fablica. Quando fui ministro do Fernando Henrique e fiz a reforma administrativa, tentei limitar esse segundo problema. Na \u00e9poca, inventei a hist\u00f3ria de usar o sal\u00e1rio dos ministros do Supremo Tribunal Federal, sem nenhum penduricalho, como teto para a remunera\u00e7\u00e3o no servi\u00e7o p\u00fablico. Conseguimos aplicar isso por algum tempo, mas os penduricalhos logo voltaram a aparecer\u2014dessa vez, claro, devidamente \u201clegalizados\u201d pelo Supremo. Mas, de qualquer forma, os privil\u00e9gios da alta burocracia s\u00e3o troco de padaria perto dos juros.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">MS<\/span>: Aproveitando o tema da pol\u00edtica monet\u00e1ria: e a meta de infla\u00e7\u00e3o vigente hoje? Deveria ser mais alta?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">BP<\/span>: Deveria ser mais alta, sem d\u00favida alguma. Infla\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 coisa boa, mas uma infla\u00e7\u00e3o de 5% \u00e9 mais do que normal em um pa\u00eds como o Brasil. A economia \u00e9 capaz de se ajustar a esse patamar, que permitiria, inclusive, adapta\u00e7\u00f5es razo\u00e1veis nos pre\u00e7os relativos. Isso facilitaria o trabalho do Banco Central.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voc\u00eas perguntaram qual era a minha leitura sobre a atua\u00e7\u00e3o do BC. Ainda que esse \u00faltimo aumento dos juros tenha sido um tanto abrupto, acho que o Gal\u00edpolo fez mais ou menos o que tinha que fazer, porque a infla\u00e7\u00e3o estava aumentando. Como discutimos, o trabalho do BC \u00e9 cercado por condicionantes que determinam uma esp\u00e9cie de \u201cpiso\u201d para os juros brasileiros. Esse piso traz, tamb\u00e9m, outra consequ\u00eancia. H\u00e1 pa\u00edses que combatem a infla\u00e7\u00e3o aumentando os juros reais de 0 ou 1% para 3%, por exemplo. Ainda que seja uma eleva\u00e7\u00e3o grande, s\u00e3o dois ou tr\u00eas pontos percentuais. No Brasil, para combater a infla\u00e7\u00e3o, aumenta-se a taxa de juros real em quatro, cinco pontos percentuais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">MS<\/span>: Por que a transmiss\u00e3o da pol\u00edtica monet\u00e1ria \u00e9 fraca?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">BP<\/span>: Sim. Mas \u00e9 fraca por qual motivo? Podem fazer os estudos econom\u00e9tricos que quiserem, isso \u00e9 consequ\u00eancia dos fatores que estabelecem a base dos juros reais. Ao inv\u00e9s de falar em mecanismos de transmiss\u00e3o, costumo colocar a quest\u00e3o em termos mais simples: uma coisa \u00e9 voc\u00ea sair de 1%, outra \u00e9 voc\u00ea sair de 5%.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">MS<\/span>: Em 2023 e 2024, a m\u00e9dia anual de crescimento do Brasil foi 3,3%, com um crescimento m\u00e9dio per capita de 2,9%. \u00c9 um valor muito superior ao registrado no per\u00edodo de 2015 a 2022, em que o PIB ficou quase estagnado, com crescimento anual m\u00e9dio de 0,2%. Como o senhor interpreta essa retomada?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">BP<\/span>: Desde 1999, quando deixei o governo do Fernando Henrique, venho falando sobre a quase estagna\u00e7\u00e3o da economia brasileira. Mas o crescimento per capita que voc\u00ea apontou n\u00e3o pode ser chamado de quase estagna\u00e7\u00e3o. Isso surpreendeu os economistas em geral\u2014as proje\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas falharam muito nos \u00faltimos tr\u00eas anos, porque \u00e9 uma quest\u00e3o realmente dif\u00edcil de explicar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em rela\u00e7\u00e3o a per\u00edodos anteriores, o que tivemos de novo nesse intervalo que voc\u00ea citou, partindo de 2015, \u00e9 que estamos h\u00e1 dez anos sem doen\u00e7a holandesa, porque o pre\u00e7o das commodities exportadas pelo Brasil n\u00e3o est\u00e1 alto e, portanto, n\u00e3o vem acarretando uma aprecia\u00e7\u00e3o da taxa de c\u00e2mbio expressiva o suficiente para inviabilizar a competitividade da ind\u00fastria nacional. Desde os anos 1990, o Brasil teve dois ciclos de doen\u00e7a holandesa: o primeiro (que come\u00e7ou ainda na \u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9culo passado) terminou em meados da primeira d\u00e9cada deste s\u00e9culo, o segundo terminou em 2015. Desde ent\u00e3o, o ciclo est\u00e1 parado e o c\u00e2mbio est\u00e1 em um patamar razo\u00e1vel para a ind\u00fastria\u2014que, apesar de n\u00e3o avan\u00e7ar, n\u00e3o vem se retraindo. Salvo engano, a participa\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria no PIB est\u00e1 mais ou menos estagnada em cerca de 11%.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso dito, em rela\u00e7\u00e3o ao crescimento de 2023 e 2024, a \u00fanica explica\u00e7\u00e3o que eu arranjei para voc\u00eas agora foi que o aumento do gasto fiscal gerou um aumento da demanda. No governo Bolsonaro, em raz\u00e3o da pandemia, houve um aumento substancial da despesa p\u00fablica. No atual governo Lula, para atender \u00e0s propostas de campanha, houve outro. Esses s\u00e3o fatores do lado da demanda que d\u00e3o um est\u00edmulo maior para a economia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O problema \u00e9 que, se essa an\u00e1lise estiver correta, isso pode fomentar uma perspectiva populista da economia: apesar de os resultados no curto prazo serem positivos, um eventual mau gerenciamento das contas p\u00fablicas pode acabar n\u00e3o s\u00f3 revertendo esses efeitos, mas tamb\u00e9m prejudicando a viabilidade de um projeto de desenvolvimento de longo prazo.<a data-contents=\"Ciclos hist\u00f3ricos de populismo econ\u00f4mico no Brasil, \u00e0 esquerda e \u00e0 direita, foram analisados por Bresser-Pereira em variados momentos de sua produ\u00e7\u00e3o intelectual. O livro \u201cPopulismo econ\u00f4mico: ortodoxia, desenvolvimentismo e populismo na Am\u00e9rica Latina\u201d, organizado pelo entrevistado e publicado em 1991, \u00e9 um trabalho seminal que pode ser consultado (<)a href='https:\/\/www.bresserpereira.org.br\/books\/populismo-economico\/000-populismo-economico.pdf'(>)aqui(<)\/a(>).\" class=\"footnote\" id=\"footnote-4\" href=\"#footnote-list-4\">4<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Ciclos hist\u00f3ricos de populismo econ\u00f4mico no Brasil, \u00e0 esquerda e \u00e0 direita, foram analisados por Bresser-Pereira em variados momentos de sua produ\u00e7\u00e3o intelectual. O livro \u201cPopulismo econ\u00f4mico: ortodoxia, desenvolvimentismo e populismo na Am\u00e9rica Latina\u201d, organizado pelo entrevistado e publicado em 1991, \u00e9 um trabalho seminal que pode ser consultado (<)a href='https:\/\/www.bresserpereira.org.br\/books\/populismo-economico\/000-populismo-economico.pdf'(>)aqui(<)\/a(>).<\/span> O or\u00e7amento precisa dar conta de despesas como as que mencionamos agora, mas n\u00e3o s\u00f3. Falamos no in\u00edcio sobre a import\u00e2ncia de um d\u00e9ficit nominal pequeno\u2014ao inv\u00e9s de super\u00e1vit prim\u00e1rio grande\u2014para o desenvolvimento, porque o resultado prim\u00e1rio, ainda que tenha alguma l\u00f3gica no que diz respeito \u00e0 imposi\u00e7\u00e3o de limites para o crescimento da d\u00edvida p\u00fablica, tem tamb\u00e9m o elemento ideol\u00f3gico de esconder os juros. Defendo a ado\u00e7\u00e3o do resultado nominal como crit\u00e9rio porque \u00e9 essencial, evidentemente, que paguemos menos juros. Mas tamb\u00e9m \u00e9 importante que haja espa\u00e7o fiscal para o investimento p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">HF<\/span>: Aproveitando o gancho da doen\u00e7a holandesa, o senhor poderia falar mais sobre a rela\u00e7\u00e3o entre pol\u00edtica cambial e desenvolvimento no Brasil?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">BP<\/span>: Entre 1950 e 1980, o Brasil cresceu de maneira extraordin\u00e1ria. Depois do Jap\u00e3o, foi o pa\u00eds que mais cresceu no mundo. E o que aconteceu com o c\u00e2mbio a partir dos anos 1950? Foi controlado. As tarifas foram um dos mecanismos principais. Desde a lei de tarifas de 1958, passamos a adotar barreiras tarif\u00e1rias bastante altas, que funcionavam como instrumento de deprecia\u00e7\u00e3o da moeda. Antes disso, adot\u00e1vamos mecanismos de controle de importa\u00e7\u00e3o, leil\u00f5es de c\u00e2mbio e sistemas de controle da taxa de c\u00e2mbio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De todas as vari\u00e1veis que influenciam o desenvolvimento econ\u00f4mico, a meu ver, a taxa de c\u00e2mbio \u00e9 uma das mais importantes. A mais importante \u00e9 a taxa de lucro: sem lucro n\u00e3o h\u00e1 capitalismo. Tem que haver uma razo\u00e1vel taxa de lucro para haver investimento. A taxa de juros \u00e9 importante, claro, mas, como conversamos, o Banco Central opera dentro de determinado quadro. Em resumo, o governo precisa de uma pol\u00edtica cambial.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 duas causas principais para uma aprecia\u00e7\u00e3o cambial acima do limite saud\u00e1vel para a ind\u00fastria nacional. Uma delas \u00e9 a doen\u00e7a holandesa, que tem car\u00e1ter c\u00edclico. A segunda, tamb\u00e9m central para a teoria do novo desenvolvimentismo, \u00e9 o d\u00e9ficit em conta corrente. Quando h\u00e1 d\u00e9ficit em conta corrente h\u00e1, necessariamente, uma aprecia\u00e7\u00e3o correspondente do c\u00e2mbio, simplesmente porque, liquidamente, tem mais capital entrando do que saindo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O d\u00e9ficit em conta corrente precisa ser fechado de alguma forma. Por meio da redu\u00e7\u00e3o de reservas, \u00e9 poss\u00edvel fech\u00e1-lo sem uma entrada de capital. Mas, supondo que o governo n\u00e3o pretende mexer nas reservas, o pa\u00eds precisa adotar uma pol\u00edtica voltada a zerar o d\u00e9ficit em conta corrente. Se conta corrente \u00e9 consumo, d\u00e9ficit em conta corrente \u00e9 consumo extra. Em outras palavras, o pa\u00eds est\u00e1 consumindo mais do que produz. Zerar o d\u00e9ficit implica, portanto, apertar o cinto. Isso significa reduzir sal\u00e1rio. \u00c9 algo que s\u00f3 pode ser feito no in\u00edcio do governo, nunca no fim.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acontece que, no Brasil e na Am\u00e9rica Latina como um todo, h\u00e1 uma cren\u00e7a religiosa de que d\u00e9ficit em conta corrente \u00e9 bom, porque \u00e9 crescimento com poupan\u00e7a externa. No come\u00e7o do governo Fernando Henrique, a estrat\u00e9gia de desenvolvimento a ser adotada era uma grande quest\u00e3o. A resposta foi muito simples: crescimento com poupan\u00e7a externa. Um dos pilares fundamentais do novo desenvolvimento, no entanto, \u00e9 expor que n\u00e3o h\u00e1 crescimento sustent\u00e1vel com poupan\u00e7a externa, porque isso aprecia o c\u00e2mbio e mina a competitividade da ind\u00fastria nacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Publiquei recentemente um novo livro, chamado \u201c<a href=\"https:\/\/www.editoracontracorrente.com.br\/product\/projeto-nacional-contra-a-quase-estagnacao?srsltid=AfmBOooCkXofnQbtzH83TBnuHqJcTMwih82NpW1vbEOMgL-OHdXy7Rwe\">Projeto nacional contra a quase estagna\u00e7\u00e3o<\/a>\u201d (2025), argumentando duas coisas. Primeiro, que o Minist\u00e9rio da Fazenda deve reconhecer que o Brasil est\u00e1 suscet\u00edvel ao problema da doen\u00e7a holandesa\u2014por mais que ela n\u00e3o se manifeste agora\u2014e, portanto, se houver um novo ciclo de aumento de pre\u00e7os de commodities, deve fazer o melhor de seus esfor\u00e7os para evitar um preju\u00edzo para a ind\u00fastria. Segundo, que a Fazenda deve ter, ao menos, um pequeno departamento dedicado \u00e0 pol\u00edtica cambial, ou seja, que o minist\u00e9rio deve se preocupar em ter um grau razo\u00e1vel de controle sobre a taxa de c\u00e2mbio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Venho defendendo isso desde o in\u00edcio do terceiro mandato de Lula, mas nada foi feito. A justificativa principal \u00e9 que o governo j\u00e1 enfrenta tantos problemas com o \u201cmercado\u201d que uma pol\u00edtica cambial poderia virar mais uma fonte de conflito. Mas h\u00e1 um erro nesse c\u00e1lculo pol\u00edtico: conquistar o mercado financeiro \u00e9 imposs\u00edvel. O governo acabou de aprender uma li\u00e7\u00e3o nesse sentido.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">MS<\/span>: Nesse contexto, como o senhor analisa a retomada da pol\u00edtica industrial pelo atual governo, representada por programas como a Nova Ind\u00fastria Brasil e o novo PAC? Isso pode ser interpretado como um primeiro passo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 ado\u00e7\u00e3o de um projeto nacional de desenvolvimento em sentido mais amplo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">BP<\/span>: Pol\u00edtica industrial s\u00f3 n\u00e3o custa caro se for tarifa. A pol\u00edtica industrial mais importante j\u00e1 registrada em toda a hist\u00f3ria do capitalismo chama-se tarifa aduaneira. Cada um dos pa\u00edses desenvolvidos, a come\u00e7ar pela Inglaterra, se desenvolveu adotando tarifas aduaneiras elevadas. Mas, no Brasil e na Am\u00e9rica Latina, a lavagem cerebral realizada pelo liberalismo econ\u00f4mico foi t\u00e3o brutal que fez com que os economistas esquecessem disso. Eles seguem argumentando a favor da pol\u00edtica industrial, mas n\u00e3o incluem as tarifas em seu arcabou\u00e7o. \u00c9 uma coisa rid\u00edcula. Sem tarifas, pol\u00edtica industrial vira s\u00f3 subs\u00eddio. Tarifa n\u00e3o custa caro: \u00e9 um imposto que voc\u00ea cria. N\u00e3o \u00e9 para fazer como o Trump, claro, mas \u00e9 um instrumento que pode ser usado pelo Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu apoio o governo, mas n\u00e3o posso dizer que ele est\u00e1 tentando encabe\u00e7ar um projeto de desenvolvimento. O Brasil continua dominado pelo liberalismo econ\u00f4mico. Os pr\u00f3prios Estados Unidos j\u00e1 abandonaram esse tipo de ideologia, a Europa est\u00e1 mais ou menos no mesmo caminho caminho, mas n\u00f3s seguimos aprisionados por ela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil n\u00e3o tem uma pol\u00edtica de desenvolvimento h\u00e1 muito tempo. Os militares tinham uma. Get\u00falio Vargas teve uma. Mas, desde a d\u00e9cada de 1980\u2014com alguma exce\u00e7\u00e3o nos primeiros mandatos de Lula, porque houve ali um esfor\u00e7o grande para ampliar a pol\u00edtica social, embora isso n\u00e3o configurasse exatamente uma estrat\u00e9gia de desenvolvimento\u2014, n\u00e3o temos uma pol\u00edtica de desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">HF<\/span>: As condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas atuais inviabilizam a retomada de um regime de crescimento como o que existiu at\u00e9 os anos 1980?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">BP<\/span>: N\u00e3o acho que inviabilizam, mas estou convencido de que o Brasil s\u00f3 sai desse quadro que, na minha leitura, ainda \u00e9 de quase estagna\u00e7\u00e3o, quando abandonar o liberalismo. Ainda que nos \u00faltimos tr\u00eas anos tenha ocorrido algum crescimento, fato \u00e9 que n\u00e3o existe nada parecido com um verdadeiro projeto de desenvolvimento, simplesmente porque n\u00e3o existe projeto de desenvolvimento liberal: o projeto liberal \u00e9 n\u00e3o fazer nada. A nossa abertura comercial e financeira foi um desastre. Al\u00e9m disso, h\u00e1 uma quest\u00e3o de economia pol\u00edtica: governo passa por elei\u00e7\u00e3o, enfrenta o Congresso&#8230; Para que um projeto de desenvolvimento seja vi\u00e1vel, a sociedade como um todo tem que estar unida em torno dele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">MS<\/span>: Quando o Lula foi eleito, o presidente dos Estados Unidos era Joe Biden, que pretendia fazer do pa\u00eds \u201c<a href=\"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/o-que-foi-a-bidenomics\/\">uma economia moderna puxada pela oferta<\/a>\u201d, nas palavras de Janet Yellen.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">BP<\/span>: Desenvolvimentista, claramente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">MS<\/span>: Exato. Mas, dois anos depois, na metade do mandato presidencial de Lula, assumiu o Trump. O senhor enxerga algum rompimento na din\u00e2mica de inser\u00e7\u00e3o externa do Brasil entre os mandatos de Biden e Trump?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">BP<\/span>: O per\u00edodo recente registrou uma virada pol\u00edtica nos Estados Unidos. Se nos anos 1980 houve uma virada neoliberal, entre 2017 e 2022 houve uma virada desenvolvimentista\u2014fundamentalmente em decorr\u00eancia do sucesso da China.&nbsp; A meu ver, esse \u00e9 o fator mais importante a ser considerado. N\u00e3o vejo uma grande ruptura entre Biden e Trump. Pode-se dizer que a virada desenvolvimentista se estende at\u00e9 hoje, mas, no caso do Trump, prefiro caracterizar a pol\u00edtica como intervencionista. \u00c9 um governo ca\u00f3tico\u2014tanto \u00e9 que ganhou esse apelido de TACO [Trump Always Chickens Out]\u2014, que est\u00e1 constantemente voltando atr\u00e1s em suas decis\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">HF<\/span>: Essa virada desenvolvimentista nos Estados Unidos altera as condi\u00e7\u00f5es para a formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas no Brasil?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">BP<\/span>: \u00c9 de se esperar que, como de costume, passados uns oito ou dez anos, caia a ficha no Brasil de que o liberalismo econ\u00f4mico n\u00e3o funciona. O Lula e o Haddad sabem muito bem disso, mas \u00e9 importante que o Congresso, que hoje se associa ao rentismo, entenda essa quest\u00e3o, e tamb\u00e9m \u00e9 preciso que os empres\u00e1rios aprendam. A\u00ed, quem sabe, as condi\u00e7\u00f5es para elaborar um projeto de desenvolvimento possam ser formadas, mas deve demorar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A rea\u00e7\u00e3o do Brasil vem sempre muito atrasada. Isso acontece porque somos col\u00f4nia. At\u00e9 1822, o Brasil foi um pa\u00eds colonial. Depois, at\u00e9 1930, foi semicolonial. Tornou-se um pa\u00eds independente a partir dos anos 1930, mas essa condi\u00e7\u00e3o s\u00f3 durou at\u00e9 1990, quando o Brasil, que antes se submetia \u00e0 Inglaterra e \u00e0 Fran\u00e7a, se submeteu aos Estados Unidos. Foi um retorno \u00e0 condi\u00e7\u00e3o semicolonial.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde os anos 1990, o neoliberalismo foi o instrumento fundamental do imperialismo para impedir o desenvolvimento do Brasil. Houve uma \u00faltima tentativa desenvolvimentista no governo Sarney (1985-1990). Eu, que fui ministro da Fazenda durante pouco mais de sete meses, em alguma medida, acabei sendo derrotado, veja s\u00f3, pelos pr\u00f3prios desenvolvimentistas. O Sarney n\u00e3o queria mais fazer ajuste fiscal e eu vi que n\u00e3o tinha chance de permanecer no governo, ent\u00e3o sa\u00ed. E a\u00ed, em um ano e meio e em grande estilo, o Ma\u00edlson [da N\u00f3brega] levou o Brasil para a hiperinfla\u00e7\u00e3o. No \u00faltimo m\u00eas do governo Sarney teve 82% de infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, voltando ao assunto, o motivo pelo qual a rea\u00e7\u00e3o do Brasil vem sempre atrasada \u00e9 porque \u00e9 um pa\u00eds semicolonial e, portanto, tem uma cultura econ\u00f4mica submissa, que assume valores alheios\u2014nesse caso, os valores neoliberais. Para o pa\u00eds submisso, se livrar desses valores \u00e9 um processo lento e dif\u00edcil, ao passo que o pa\u00eds que submete, por ser metr\u00f3pole, consegue fazer isso mais depressa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">HF<\/span>: Como as contribui\u00e7\u00f5es do novo desenvolvimentismo podem mudar os rumos do Brasil?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">BP<\/span>: Formulei uma resposta detalhada a essa pergunta no ap\u00eandice do livro \u201c<a href=\"https:\/\/www.editoracontracorrente.com.br\/product\/novo-desenvolvimentismo-introduzindo-uma-nova-teoria-economica-e-economia-politica?srsltid=AfmBOoqP0bmAOCw-j11vygEBuoRpgoXod9pHfhWCqo9PNhzfdaVJnaax\">O novo desenvolvimentismo<\/a>\u201d, publicado ano passado. L\u00e1, come\u00e7o a an\u00e1lise nos anos 1970, porque entendo que foi a \u00faltima d\u00e9cada em que o Brasil cresceu de maneira satisfat\u00f3ria. Pode-se dizer que nos primeiros governos Lula o pa\u00eds cresceu de forma razoavelmente satisfat\u00f3ria, mas o boom de commodities foi muito violento. A meu ver, duas quest\u00f5es fundamentais separam as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas atuais daquelas que impulsionaram o crescimento at\u00e9 os anos 1970.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primeira \u00e9 que o investimento p\u00fablico caiu muito, porque a poupan\u00e7a p\u00fablica caiu muito. Nos anos 1970, havia cerca de 4% de poupan\u00e7a p\u00fablica. J\u00e1 no come\u00e7o dos anos 1980, o pa\u00eds registrava 2% de poupan\u00e7a p\u00fablica negativa. Ou seja, s\u00f3 nesse per\u00edodo, houve uma queda de seis pontos percentuais. \u00c9 uma loucura. Os impactos disso para o crescimento brasileiro foram muito grandes. A poupan\u00e7a p\u00fablica \u00e9 relevante porque se o Estado n\u00e3o tiver capacidade de poupar, n\u00e3o tem como investir. O Estado precisa investir em infraestrutura, nos setores monopolistas. N\u00e3o defendo a estatiza\u00e7\u00e3o de forma gen\u00e9rica, mas sim que o Estado deve investir nos setores monopolistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A segunda \u00e9 a din\u00e2mica da taxa de c\u00e2mbio. Houve muita privatiza\u00e7\u00e3o nesse per\u00edodo, o que contribuiu para a redu\u00e7\u00e3o do investimento p\u00fablico, e, em tese, deveria ter estimulado o o setor privado a aumentar sua taxa de investimento. Mas caiu o investimento p\u00fablico e o do setor privado ficou igual, n\u00e3o aumentou nada. Isso se deve ao c\u00e2mbio. A taxa de c\u00e2mbio ficou t\u00e3o apreciada que, em v\u00e1rios momentos, inviabilizou o investimento privado. Se, para o setor p\u00fablico, a vari\u00e1vel-chave \u00e9 a quest\u00e3o fiscal, para o setor privado \u00e9 o c\u00e2mbio. Por isso \u00e9 preciso ter uma pol\u00edtica cambial que contemple tanto o d\u00e9ficit em conta corrente quanto eventuais ciclos de doen\u00e7a holandesa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em resumo, em termos macroecon\u00f4micos, al\u00e9m de tudo aquilo que todo mundo j\u00e1 sabe \u00e9 preciso fazer, o novo desenvolvimentismo defende a ado\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica cambial decente, que mantenha a taxa de c\u00e2mbio razoavelmente competitiva para a ind\u00fastria, e um volume de&nbsp; investimento p\u00fablico substancialmente maior. Al\u00e9m disso, do ponto de vista da economia pol\u00edtica, um projeto nacional de desenvolvimento\u2014no Brasil, na Am\u00e9rica Latina ou em qualquer pa\u00eds subdesenvolvido do mundo\u2014deve, necessariamente, ser anti-imperialista, porque deve combater o liberalismo econ\u00f4mico. O Furtado e o Prebisch eram anti-imperialistas. Estavam na Cepal, um \u00f3rg\u00e3o da ONU, ent\u00e3o adotavam termos como \u201ccentro\u201d e \u201cperiferia\u201d, mas a briga era contra o liberalismo econ\u00f4mico\u2014contra o imp\u00e9rio, portanto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Veja, eu acredito que o mercado \u00e9 melhor do que o Estado para coordenar o sistema econ\u00f4mico de empresas competitivas. Mas \u00e9 preciso entender que isso n\u00e3o \u00e9 suficiente, que o Estado precisa intervir moderadamente na economia para elaborar e dirigir um projeto de supera\u00e7\u00e3o do subdesenvolvimento. E isso implica adotar uma pol\u00edtica anti-imperialista. A pol\u00edtica de substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es no Brasil era anti-imperialista. Desde que deixamos de ser independentes, no entanto, o principal instrumento do imperialismo para barrar o nosso desenvolvimento tem sido o liberalismo econ\u00f4mico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">HF<\/span>: \u00c9 preciso enfrentar a quest\u00e3o da depend\u00eancia?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><span class=\"sans blue\">BP<\/span>: Depois que eu sa\u00ed do governo do Fernando Henrique, decidi reler o \u201cDepend\u00eancia e Desenvolvimento na Am\u00e9rica Latina\u201d. Foi s\u00f3 ent\u00e3o que eu realmente descobri o que era a tal \u201cdepend\u00eancia associada\u201d. Logo depois, publiquei um <a href=\"https:\/\/www.bresserpereira.org.br\/papers\/2005\/05.06.ISEB-CEPAL-TeoriaDependencia.pdf\">artigo<\/a> chamado \u201cDo Iseb e da Cepal \u00e0 Teoria da Depend\u00eancia\u201d, trabalho que inaugurou minha cr\u00edtica \u00e0 teoria da depend\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fato hist\u00f3rico que atrapalhou a cabe\u00e7a do Fernando Henrique, como j\u00e1 tinha atrapalhado a do H\u00e9lio Jaguaribe, foi o seguinte: na \u00e9poca da substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es, os anti-imperialistas\u2014ou nacionalistas\u2014brasileiros diziam que os Estados Unidos\u2014o \u201ccentro\u201d\u2014eram contra a industrializa\u00e7\u00e3o do Brasil. S\u00f3 que, a partir dos anos 1950, grandes empresas americanas passaram a investir no Brasil, seguidas depois pelas europeias e japonesas. Como ficava, ent\u00e3o, a explica\u00e7\u00e3o de que o centro era contra a industrializa\u00e7\u00e3o da periferia? O Jaguaribe ensaiou uma resposta e, dez anos depois, o Fernando Henrique concluiu o racioc\u00ednio: se o papel do imperialismo \u00e9 impedir a industrializa\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses subdesenvolvidos, o fato de as empresas do \u201ccentro\u201d investirem no Brasil s\u00f3 podia significar que n\u00e3o havia imperialismo, porque essas empresas estavam ajudando o pa\u00eds a se industrializar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 um racioc\u00ednio linear, nada dial\u00e9tico, nada inteligente. O grande erro dessa explica\u00e7\u00e3o \u00e9 ignorar que uma coisa s\u00e3o as empresas americanas, outra \u00e9 o Estado. As empresas precisam de lucro e procuram lucro onde puderem. Como comentei anteriormente, o Brasil e outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, quando adotaram a pol\u00edtica de industrializa\u00e7\u00e3o por substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es, elevaram fortemente as tarifas alfandeg\u00e1rias. Isso fez com que as empresas estrangeiras perdessem mercado. A \u00fanica forma de recuperar uma parte desse mercado era investir na ind\u00fastria desses pa\u00edses. S\u00f3 que havia, at\u00e9 certo ponto, uma contradi\u00e7\u00e3o entre os interesses privados e os interesses do Estado americano. E quem n\u00e3o estava (e n\u00e3o est\u00e1) interessado na industrializa\u00e7\u00e3o e no desenvolvimento do Brasil era o Estado. Para mim, esse \u00e9 o ponto cego da teoria da depend\u00eancia do Fernando Henrique. Anos depois, na pr\u00e1tica, tamb\u00e9m acabou ficando claro que crescer com poupan\u00e7a externa n\u00e3o funciona.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Carlos Bresser-Pereira analisa a conjuntura pol\u00edtica e econ\u00f4mica do terceiro governo Lula<\/p>\n","protected":false},"author":240,"featured_media":25278,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[733],"tags":[764,765],"issue":[],"newsletter":[],"region":[],"sector":[],"theme":[1081],"series":[],"class_list":["post-25260","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas-br","tag-desenvolvimento","tag-longform-pt-br","theme-comercio"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with 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