{"id":24290,"date":"2025-05-08T16:21:41","date_gmt":"2025-05-08T16:21:41","guid":{"rendered":"https:\/\/phenomenalworld.org\/nao-categorizado\/unbankable-transitions\/"},"modified":"2025-06-13T17:27:06","modified_gmt":"2025-06-13T17:27:06","slug":"unbankable-transitions","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/unbankable-transitions\/","title":{"rendered":"A transi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o cabe no portf\u00f3lio"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em um recanto buc\u00f3lico da cidade de Grande Manchester, na Inglaterra, um singular experimento financeiro vem sendo desenvolvido. At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, a renda da fam\u00edlia propriet\u00e1ria da fazenda Yate Fold, perto de Bolton, vinha majoritariamente da produ\u00e7\u00e3o de latic\u00ednios. O pasto era de baixa qualidade e o mercado de produtos org\u00e2nicos se tornava cada vez mais inst\u00e1vel. Mesmo assim, todas as manh\u00e3s, pai e filho ordenhavam as oitenta vacas da propriedade, o que comumente resultava em jornadas de trabalho superiores a 70 horas semanais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, a Yate Fold abriga um dos dos vinte e cinco \u201cbancos de habitat\u201d concebidos pela gestora de ativos brit\u00e2nica Gresham Gouse. Essa \u201cnova classe de ativos de infraestrutura\u201d, como s\u00e3o <a href=\"https:\/\/www.ft.com\/content\/4db45de5-1458-4f89-a124-7f722c177158\">chamados<\/a> pelo diretor-geral da empresa, foi possibilitada pela Lei Ambiental de 2021 do Reino Unido, que exige que incorporadoras comprovem um aumento m\u00ednimo de 10% de biodiversidade em terras nas quais est\u00e3o construindo\u2014o termo t\u00e9cnico \u00e9 \u201cganho l\u00edquido de biodiversidade\u201d. Os bancos de habitat permitem que, ao inv\u00e9s de fazer isso diretamente no local da obra, as construtoras comprem \u201c<a href=\"https:\/\/environmentbank.com\/biodiversity-units\/\">Unidades de Biodiversidade<\/a>\u201d e cumpram com as obriga\u00e7\u00f5es legais em outros lugares.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como parte do esquema, o Environment Bank, empresa de portf\u00f3lio que faz parte do Fundo Brit\u00e2nico de Infraestrutura Sustent\u00e1vel da Gresham House, arrenda terras agr\u00edcolas de baixa produtividade e manejo intensivo por um per\u00edodo de 30 anos para criar novos habitats de biodiversidade, como \u00e1reas florestais e zonas \u00famidas. Para isso, envia seu time de ecologistas aos locais dos bancos de habitat para que ajudem os propriet\u00e1rios das terras no processo de recupera\u00e7\u00e3o. No caso de Yate Fold, a introdu\u00e7\u00e3o de uma nova ra\u00e7a de gado promover\u00e1 um modelo de pastagem mais sustent\u00e1vel, garantindo a conserva\u00e7\u00e3o e, ainda, \u201ca valoriza\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o da carne\u201d, segundo <a href=\"https:\/\/www.fwi.co.uk\/business\/business-management\/agricultural-transition\/the-farmers-protecting-their-future-with-nature-restoration\">avalia\u00e7\u00e3o<\/a> do propriet\u00e1rio da fazenda.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto isso, empresas como a Aldi, a National Grid e at\u00e9 mesmo o Everton Football Club j\u00e1 come\u00e7aram a correr atr\u00e1s do licenciamento necess\u00e1rio para comprar Unidades de Biodiversidade do Environment Bank. \u00c0 medida que aumenta a biodiversidade de determinado banco de habitat, aumenta tamb\u00e9m o n\u00famero de Unidades de Biodiversidade que podem ser atreladas a ele\u2014na pr\u00e1tica, isso possibilita ao Environmental Bank comercializar um n\u00famero maior de Unidades de Biodiversidade e eleva, assim, o valor do \u201cativo de biodiversidade\u201d da Gresham Gouse.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que poderia haver de ruim nisso? Todo mundo faz uma graninha\u2014ou economiza, no caso dos incorporadores\u2014em troca de restaurar a flora e a fauna que h\u00e1 s\u00e9culos n\u00e3o s\u00e3o vistas em terras agr\u00edcolas esgotadas. Mas, infelizmente, as coisas n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o simples. No grande rol de projetos destinados a tornar a natureza \u201cinvest\u00edvel\u201d, h\u00e1 raz\u00f5es de sobra para acreditar que iniciativas desse tipo ter\u00e3o ainda menos sucesso do que aquelas voltadas a descarbonizar os setores de energia e transporte\u2014n\u00e3o s\u00f3 porque o financiamento dispon\u00edvel \u00e9 insignificante se comparado \u00e0 cifra destinada a tais setores, mas tamb\u00e9m em raz\u00e3o do grau de incerteza que envolve a gest\u00e3o desses \u201cativos de biodiversidade\u201d. Olhar para o quadro geral dos fluxos de financiamento clim\u00e1tico\u2014bem como para os demais setores e demandas materiais envolvidos na transi\u00e7\u00e3o verde\u2014nos permite identificar as limita\u00e7\u00f5es fundamentais do regime de governan\u00e7a clim\u00e1tica vigente e avaliar potenciais alternativas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O pre\u00e7o da investibilidade<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os bancos de habitat s\u00e3o a \u00faltima novidade de uma s\u00e9rie de pol\u00edticas p\u00fablicas e instrumentos financeiros \u201cverdes\u201d desenvolvidos na \u00faltima d\u00e9cada. Por tr\u00e1s desse tipo de proposta est\u00e1 a propaga\u00e7\u00e3o de um consenso arrebatador entre governos e comentaristas econ\u00f4micos acerca do regime correto para a promo\u00e7\u00e3o da transi\u00e7\u00e3o verde.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O lema desse regime \u00e9 \u201cinvestibilidade\u201d. Isso significa que a escolha por se envolver em determinada atividade econ\u00f4mica ou implementar determinada pol\u00edtica p\u00fablica depende de uma resposta positiva \u00e0 seguinte pergunta: esse projeto ser\u00e1 capaz de atrair financiamento privado? Partindo dessa premissa, governos e bancos de desenvolvimento nacionais e multilarerais buscam amenizar a percep\u00e7\u00e3o de risco para investimentos relacionados a infraestruturas fundamentais para a descarboniza\u00e7\u00e3o\u2014de parques e\u00f3licos e usinas termossolares a f\u00e1bricas de ve\u00edculos el\u00e9tricos. Entre os instrumentos empregados est\u00e3o <a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/full\/10.1080\/09692290.2025.2453504\">mudan\u00e7as<\/a> nas pol\u00edticas fiscal e monet\u00e1ria\u2014como concess\u00e3o de subs\u00eddios, garantias de cr\u00e9dito barato e isen\u00e7\u00f5es tribut\u00e1rias\u2014e interven\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter regulat\u00f3rio para criar condi\u00e7\u00f5es de mercado mais favor\u00e1veis ou <a href=\"https:\/\/www.versobooks.com\/products\/3069-the-price-is-wrong?srsltid=AfmBOorz67eHo8iFAh9Q2_I9krNvDob1_IgZNHb545tXfSElajBJs__q\">est\u00e1veis<\/a>\u2014como garantias de acesso \u00e0 rede p\u00fablica de eletricidade. O objetivo \u00e9 <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/abs\/10.1111\/dech.12645\">sempre<\/a> o mesmo: amparar a caminhada do capital financeiro em dire\u00e7\u00e3o a classes de ativos de menor risco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em grande parte, o regime da investibilidade \u00e9 uma continuidade de experimentos anteriores de governan\u00e7a subordinada ao mercado, fundados na <a href=\"https:\/\/manchesteruniversitypress.co.uk\/9781526162632\/\">premissa<\/a> de que a internaliza\u00e7\u00e3o do preju\u00edzo ambiental futuro em c\u00e1lculos de custo levaria atores do mercado a comprar, vender e investir de formas menos danosas ao planeta. Mas ele tamb\u00e9m reflete as transforma\u00e7\u00f5es do capital financeiro e a distribui\u00e7\u00e3o da propriedade nos mercados globais desde a crise financeira de 2008, caracterizadas pela ascens\u00e3o de um \u201c<a href=\"https:\/\/journals.sagepub.com\/doi\/10.1177\/0308518X241227743\">capitalismo de gestores de ativos<\/a>\u201d e, concomitantemente, por uma mudan\u00e7a do papel do Estado na gest\u00e3o econ\u00f4mica\u2014que deixou de ser respons\u00e1vel por consertar os mercados em momentos de crise para se encarregar de criar e assegurar ativamente suas condi\u00e7\u00f5es. Agora, o potencial preju\u00edzo da crise clim\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 mais suficiente para mobilizar investidores. Eles precisam estar seguros de que determinado investimento \u00e9 n\u00e3o apenas mais barato, mas tamb\u00e9m <a href=\"https:\/\/www.versobooks.com\/products\/3069-the-price-is-wrong?srsltid=AfmBOorVLV5LxD0HiLFUdfnc9Mehw8ueS8XRKLmhpqr3XNPBOseJ694y\">mais lucrativo<\/a> que outro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seria impreciso afirmar, no entanto, que essa abordagem n\u00e3o produz resultados. No setor de energias renov\u00e1veis, h\u00e1 diversos casos em que os esfor\u00e7os p\u00fablicos de redu\u00e7\u00e3o dos riscos de investimentos em infraestrutura tiveram sucesso em mobilizar o financiamento privado. A quest\u00e3o \u00e9 que, frequentemente, esse \u201csucesso\u201d acaba refor\u00e7ando assimetrias de poder entre investidores, prestadores de servi\u00e7os p\u00fablicos e o pr\u00f3prio Estado e, ainda, exacerbando desigualdades entre donos dos ativos de infraestrutura, em geral localizados no Norte global, e comunidades que vivem nos territ\u00f3rios em que esses ativos s\u00e3o efetivamente instalados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo assim, o imp\u00e9rio do regime de investibilidade na transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica <a href=\"https:\/\/www.versobooks.com\/products\/3069-the-price-is-wrong?srsltid=AfmBOorz67eHo8iFAh9Q2_I9krNvDob1_IgZNHb545tXfSElajBJs__q\">n\u00e3o vem funcionando<\/a> na escala nem no ritmo necess\u00e1rios para salvar o planeta. Para cada caso de sucesso apontado nos relat\u00f3rios anuais dos bancos de desenvolvimento e nas estrat\u00e9gias industriais dos governos, h\u00e1 muitas hist\u00f3rias de fracasso em atrair o interesse dos investidores. Isso \u00e9 ainda mais comum no caso de projetos que n\u00e3o envolvem subs\u00eddios diretos, ainda que as condi\u00e7\u00f5es regulat\u00f3rias e os termos financeiros impliquem riscos menores\u2014e lucros potenciais maiores\u2014em rela\u00e7\u00e3o a cen\u00e1rios de aus\u00eancia de interven\u00e7\u00e3o estatal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A paisagem completa<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fator que mais dep\u00f5e contra o regime da investibilidade \u00e9 a persist\u00eancia\u2014e a velocidade do crescimento anual\u2014do chamado \u201cd\u00e9ficit de financiamento para alcan\u00e7ar emiss\u00f5es l\u00edquidas zero\u201d, m\u00e9trica que se consolidou ap\u00f3s a ado\u00e7\u00e3o do Acordo de Paris, em 2015. Em 2022, uma an\u00e1lise feita pelo Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC, na sigla em ingl\u00eas) concluiu que os investimentos necess\u00e1rios para limitar o aquecimento global a menos que 1,5 \u00b0C at\u00e9 2050 deveriam ser de tr\u00eas a seis vezes superiores aos n\u00edveis ent\u00e3o verificados. O Climate Policy Institute <a href=\"https:\/\/www.climatepolicyinitiative.org\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/How-big-is-the-Net-Zero-financing-gap-2023.pdf\">estima<\/a> que, para alcan\u00e7ar emiss\u00f5es l\u00edquidas zero em n\u00edvel global, seriam necess\u00e1rios investimentos anuais de US$ 6,2 trilh\u00f5es de d\u00f3lares entre 2023 e 2030 e US$ 7,3 trilh\u00f5es at\u00e9 2050\u2014totalizando quase US$ 200 trilh\u00f5es. Enquanto isso, o primeiro registro de investimentos clim\u00e1ticos anuais superiores a US$ 1 trilh\u00e3o data de 2022. Paradoxalmente, o d\u00e9ficit de financiamento segue sendo a principal justificativa para a estrat\u00e9gia de redu\u00e7\u00e3o de riscos na busca pela transi\u00e7\u00e3o verde.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como se n\u00e3o bastasse a escala de investimentos ainda necess\u00e1rios, h\u00e1, tamb\u00e9m uma gritante despropor\u00e7\u00e3o no direcionamento do financiamento n\u00e3o apenas para a descarboniza\u00e7\u00e3o, mas para a adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e para a recupera\u00e7\u00e3o da biodiversidade\u2014essencial para os esfor\u00e7os de mitiga\u00e7\u00e3o da crise.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dados da <a href=\"https:\/\/www.climatepolicyinitiative.org\/publication\/global-landscape-of-climate-finance-2023\/\">Climate Policy Initiative<\/a> revelam que, do financiamento total destinado \u00e0 mitiga\u00e7\u00e3o da mudan\u00e7a clim\u00e1tica, os recursos privados foram massivamente canalizados para os setores de energia e transporte, que responderam por 44% e 29%, respectivamente, de toda a cifra investida entre 2021 e 2022. Enquanto isso, menos de 4% do total foram direcionados aos demais setores respons\u00e1veis por grandes emiss\u00f5es, como a agricultura e a ind\u00fastria, apesar de o IPCC reconhecer que essas s\u00e3o \u00e1reas com maior potencial de contribuir para a mitiga\u00e7\u00e3o do que as de energia e transporte. Ainda mais chocante \u00e9 o fato de que, enquanto o financiamento para mitiga\u00e7\u00e3o somou US$ 1,15 trilh\u00e3o entre 2021 e 2022, a cifra destinada \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o ou a atividades de benef\u00edcio \u201cduplo\u201d no mesmo per\u00edodo\u2014o que inclui medidas voltadas \u00e0 prote\u00e7\u00e3o e restaura\u00e7\u00e3o de matas nativas\u2014representou um d\u00e9cimo desse valor: US$ 114 bilh\u00f5es, dos quais apenas 2% vieram do setor privado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No que diz respeito \u00e0 biodiversidade, o fracasso em atingir as metas globais pode ser atribu\u00eddo, mais uma vez, ao abismo entre o financiamento necess\u00e1rio e o gasto efetivo. Estima-se que os invesitimentos necess\u00e1rios para reduzir as perdas de biodiversidade foram entre cinco a sete vezes inferiores ao n\u00edvel exigido. E, como j\u00e1 <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41559-023-02098-6\">destacado<\/a> por economistas ambientalistas, apesar da <a href=\"https:\/\/www.cbd.int\/doc\/decisions\/cop-15\/cop-15-dec-04-en.pdf\">inerente<\/a> incompatibilidade entre as estrat\u00e9gias de conserva\u00e7\u00e3o da natureza\u2014que exigem atividades de pequena escala e cultivo paciente\u2014e as prioridades do capital financeiro\u2014retornos de curto prazo, idealmente em grande escala\u2014, tamb\u00e9m elas foram foram progressivamente dominadas pelo regime da investibilidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se a pouca atratividade dos investimentos em energia solar e e\u00f3lica, como afirma Brett Christophers, foi o que solapou o sucesso da transi\u00e7\u00e3o para fontes renov\u00e1veis at\u00e9 agora, o cen\u00e1rio para os outros setores \u00e9 desolador. A l\u00f3gica da investibilidade evidencia como os bancos de habitat no Reino Unido e experimentos semelhantes dificilmente deixar\u00e3o de ocupar uma posi\u00e7\u00e3o marginal na atra\u00e7\u00e3o de financiamento privado\u2014n\u00e3o ser\u00e3o, portanto, a bala de prata para a quest\u00e3o da biodiversidade propagandeada por seus proponentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A verdade \u00e9 que projetos de sequestro de carbono envolvendo o manejo de vegeta\u00e7\u00e3o nativa, transi\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas e recupera\u00e7\u00e3o da natureza s\u00e3o, de fato, cercados de profundas incertezas, especialmente relacionadas ao pr\u00f3prio colapso ambiental. Mesmo no caso do Reino Unido, que nem de longe figura entre os mais afetados pela crise planet\u00e1ria at\u00e9 o momento, \u00e9 imposs\u00edvel saber como um peda\u00e7o de terra responder\u00e1 a tentativas de restaura\u00e7\u00e3o da vida selvagem, uma vez que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica tem impactos diretos sobre o padr\u00e3o de migra\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies. Al\u00e9m disso, talvez a maior fragilidade dos ativos de biodiversidade seja a aus\u00eancia de uma mercadoria paup\u00e1vel na ponta final do investimento. O valor do cr\u00e9dito\u2014ou o n\u00famero de Unidades de Biodiversidade, no caso dos bancos de habitat\u2014depende integralmente da manuten\u00e7\u00e3o do sistema de governan\u00e7a em que esses ativos est\u00e3o inseridos. O c\u00e1lculo desse valor, portanto, est\u00e1 sob risco constante de revis\u00e3o ou contesta\u00e7\u00e3o social. Em um cen\u00e1rio global no qual o abandono de compromissos clim\u00e1ticos \u00e9 cada vez mais comum, a mera boa-f\u00e9 dos agentes reguladores dificilmente ser\u00e1 suficiente para convencer Wall Street.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em geral, iniciativas de combate \u00e0 crise clim\u00e1tica ligadas ao manejo da vegeta\u00e7\u00e3o nativa e \u00e0 agricultura afetam os atores respos\u00e1veis pela degrada\u00e7\u00e3o ambiental em um prazo muito mais curto e em \u00e1reas muito mais abrangentes do que, por exemplo, aquelas ligadas \u00e0 descarboniza\u00e7\u00e3o dos setores de energia e transporte.<a data-contents=\"Christophers apresenta uma das justificativas para esse foco na energia no cap\u00edtulo de abertura de (<)em(>)The Price Is Wrong(<)\/em(>): \u201cO g\u00e1s cujas emiss\u00f5es s\u00e3o mais danosas \u00e9 o di\u00f3xido de carbono (CO(<)sup(>)2(<)\/sup(>)). Por sua vez, o grosso das emiss\u00f5es antropog\u00eanicas de CO(<)sub(>)2(<)\/sub(>) deriva da queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis\u2014carv\u00e3o, petr\u00f3leo e g\u00e1s natural. E a atividade respons\u00e1vel pela queima da maior parte dos combust\u00edveis f\u00f3sseis \u00e9 a gera\u00e7\u00e3o de eletricidade\u201d. A energia e a eletricidade s\u00e3o as maiores culpadas pelo aquecimento de nosso planeta e, portanto, segundo esse argumento, s\u00e3o as maiores merecedoras de nossa aten\u00e7\u00e3o. De vez em quando, embora com menor frequ\u00eancia, talvez, nesta nova aurora de negacionismo clim\u00e1tico descarado e capitula\u00e7\u00e3o desmedida, tamb\u00e9m ouvimos a reprimenda de que p\u00f4r em foco a adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica e o sequestro de carbono traz o risco de legitimar a ina\u00e7\u00e3o de poluidores corporativos, que podem se safar e persistir em seu \u201c(<)em(>)drill, baby, drill(<)\/em(>)\u201d ao apontar para o financiamento com cr\u00e9ditos de carbono de seus projetos de plantio de \u00e1rvores nos tr\u00f3picos. Para al\u00e9m dessa linha de pensamento espec\u00edfica, os interesses epist\u00eamicos daqueles que estudam a economia pol\u00edtica da transi\u00e7\u00e3o verde os inclina a, com muita leni\u00eancia, pesquisar mais sobre energia e transporte do que, digamos, sobre reflorestamento e agricultura. Quando seguimos o dinheiro, vimos que \u00e9 nos setores de energia e transporte que boa parte da a\u00e7\u00e3o acontece hoje. Reflorestamento e agricultura tamb\u00e9m s\u00e3o locais cr\u00edticos de poder corporativo e de contesta\u00e7\u00e3o a ele, mas \u00e9 na transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e dos transportes, em particular, que a geopol\u00edtica, as lutas dos atores em cena e os choques entre Estado e grandes finan\u00e7as s\u00e3o mais vis\u00edveis e mais vigorosos, para quem observa a partir das metr\u00f3poles da Europa e da Am\u00e9rica do Norte. Tamb\u00e9m s\u00e3o essas as batalhas setoriais que mais chamam a aten\u00e7\u00e3o da m\u00eddia que consumimos\u2014o que n\u00e3o \u00e9 nenhuma surpresa, dados os seus interesses: a ascens\u00e3o e a queda de um produtor sueco de baterias t\u00eam mais chances de chegar \u00e0 capa do (<)em(>)Financial Times(<)\/em(>) que a luta das comunidades ind\u00edgenas pelo plantio florestal no Chile.\" class=\"footnote\" id=\"footnote-1\" href=\"#footnote-list-1\">1<\/a><span class=\"p-absolute d-none footnote-full has-white-background-color\">Christophers apresenta uma das justificativas para esse foco na energia no cap\u00edtulo de abertura de (<)em(>)The Price Is Wrong(<)\/em(>): \u201cO g\u00e1s cujas emiss\u00f5es s\u00e3o mais danosas \u00e9 o di\u00f3xido de carbono (CO(<)sup(>)2(<)\/sup(>)). Por sua vez, o grosso das emiss\u00f5es antropog\u00eanicas de CO(<)sub(>)2(<)\/sub(>) deriva da queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis\u2014carv\u00e3o, petr\u00f3leo e g\u00e1s natural. E a atividade respons\u00e1vel pela queima da maior parte dos combust\u00edveis f\u00f3sseis \u00e9 a gera\u00e7\u00e3o de eletricidade\u201d. A energia e a eletricidade s\u00e3o as maiores culpadas pelo aquecimento de nosso planeta e, portanto, segundo esse argumento, s\u00e3o as maiores merecedoras de nossa aten\u00e7\u00e3o. De vez em quando, embora com menor frequ\u00eancia, talvez, nesta nova aurora de negacionismo clim\u00e1tico descarado e capitula\u00e7\u00e3o desmedida, tamb\u00e9m ouvimos a reprimenda de que p\u00f4r em foco a adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica e o sequestro de carbono traz o risco de legitimar a ina\u00e7\u00e3o de poluidores corporativos, que podem se safar e persistir em seu \u201c(<)em(>)drill, baby, drill(<)\/em(>)\u201d ao apontar para o financiamento com cr\u00e9ditos de carbono de seus projetos de plantio de \u00e1rvores nos tr\u00f3picos. Para al\u00e9m dessa linha de pensamento espec\u00edfica, os interesses epist\u00eamicos daqueles que estudam a economia pol\u00edtica da transi\u00e7\u00e3o verde os inclina a, com muita leni\u00eancia, pesquisar mais sobre energia e transporte do que, digamos, sobre reflorestamento e agricultura. Quando seguimos o dinheiro, vimos que \u00e9 nos setores de energia e transporte que boa parte da a\u00e7\u00e3o acontece hoje. Reflorestamento e agricultura tamb\u00e9m s\u00e3o locais cr\u00edticos de poder corporativo e de contesta\u00e7\u00e3o a ele, mas \u00e9 na transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e dos transportes, em particular, que a geopol\u00edtica, as lutas dos atores em cena e os choques entre Estado e grandes finan\u00e7as s\u00e3o mais vis\u00edveis e mais vigorosos, para quem observa a partir das metr\u00f3poles da Europa e da Am\u00e9rica do Norte. Tamb\u00e9m s\u00e3o essas as batalhas setoriais que mais chamam a aten\u00e7\u00e3o da m\u00eddia que consumimos\u2014o que n\u00e3o \u00e9 nenhuma surpresa, dados os seus interesses: a ascens\u00e3o e a queda de um produtor sueco de baterias t\u00eam mais chances de chegar \u00e0 capa do (<)em(>)Financial Times(<)\/em(>) que a luta das comunidades ind\u00edgenas pelo plantio florestal no Chile.<\/span><sup> <\/sup>O fato de que a produ\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis f\u00f3sseis poder continuar e at\u00e9 mesmo se expandir paralelamente ao crescimento de infraestruturas dedicadas a energias renov\u00e1veis \u00e9, certamente, um problema existencial. Mas quando a instala\u00e7\u00e3o de infraestrutura renov\u00e1vel n\u00e3o exige a substitui\u00e7\u00e3o imediata de ativos ligados a combust\u00edveis f\u00f3sseis\u2014a constru\u00e7\u00e3o de um parque e\u00f3lico e de uma plataforma de fracking podem acontecer simultaneamente em duas \u00e1reas de um mesmo estado dos EUA, por exemplo\u2014, o capital financeiro n\u00e3o enxerga a primeira como uma amea\u00e7a \u00e0 segunda. Ao menos em tese, o decl\u00ednio no volume de combust\u00edveis f\u00f3sseis pode ser \u201cadministrado\u201d gradativamente, com o passar do tempo, garantindo que os mercados ter\u00e3o tempo para se preparar. Mas essa premissa n\u00e3o \u00e9 v\u00e1lida para iniciativas de transi\u00e7\u00e3o verde que competem com usos correntes das mesmas terras e infraestrutura. Muitos projetos de expans\u00e3o das florestas nativas, por exemplo, exigem o fim da produ\u00e7\u00e3o de celulose ou do plantio de \u00e1rvores voltadas \u00e0 comercializa\u00e7\u00e3o de madeira, atividades lideradas por empresas poderosas e, muitas vezes, oligopolistas. Din\u00e2micas semelhantes podem ser observadas em setores como agricultura e minera\u00e7\u00e3o, onde os \u201criscos de transi\u00e7\u00e3o\u201d que afastam investidores potenciais incluem os custos iniciais de adapta\u00e7\u00e3o ou substitui\u00e7\u00e3o de tecnologias e infraestruturas atualmente existentes, o que implica tamb\u00e9m a redu\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o no curto prazo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A investibilidade \u00e9 uma escala em que os interesses dos investidores s\u00e3o contingentes em rela\u00e7\u00e3o a uma enorme diversidade de riscos e incertezas materiais, \u00e0 habilidade deles em administr\u00e1-los e \u00e0 habilidade dos governos para sinalizar que tais riscos foram ou podem ser reduzidos.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Olhar para quem o mercado ignora<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar da exist\u00eancia de algumas vozes cr\u00edticas, pesquisadores e analistas interessados na economia pol\u00edtica das transi\u00e7\u00f5es verdes no Norte global t\u00eam se concentrado maci\u00e7amente nos setores de energia e transporte. Em muitos pa\u00edses do Sul, ao contr\u00e1rio, a rela\u00e7\u00e3o entre preserva\u00e7\u00e3o da natureza e resist\u00eancia ao colapso planet\u00e1rio est\u00e1, h\u00e1 tempos, no cerne da literatura ambiental.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Analisar as diferen\u00e7as quantitativas e qualitativas dos fluxos de financiamento clim\u00e1tico <em>entre <\/em>os diferentes setores da transi\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental tamb\u00e9m para ajudar a esclarecer as limita\u00e7\u00f5es do regime de investibilidade <em>dentro <\/em>de setores espec\u00edficos. Tentei, em minha <a href=\"https:\/\/discovery.ucl.ac.uk\/id\/eprint\/10195881\/\">pesquisa<\/a>, fazer algo nesse sentido, partindo da premissa de que as iniciativas setoriais inseridas em estrat\u00e9gias nacionais de transi\u00e7\u00e3o verde desenvolvidas por diversos governos desde o Acordo de Paris s\u00e3o caracterizadas por diferentes graus de investibilidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na maioria dos casos, alcan\u00e7ar a neutralidade de carbono exigiria a implementa\u00e7\u00e3o integral das pol\u00edticas previstas nesses planos. Mas, analisando os exemplos pr\u00e1ticos, \u00e9 poss\u00edvel notar que o grau de esfor\u00e7o voltado \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o de cada uma delas, independentemente da import\u00e2ncia da contribui\u00e7\u00e3o efetiva que cada uma poderia ter, variava consideravelmente. Em algumas \u00e1reas pol\u00edticas\u2014com destaque para o hidrog\u00eanio verde\u2014, governos haviam investido grandes somas para recrutar equipes especializadas e bem equipadas para gerenciar e coordenar investimentos p\u00fablicos e projetos de infraestrutura. Em outras \u00e1reas, como o reflorestamento com \u00e1rvores nativas no Chile e a agricultura alternativa na Dinamarca, no entanto, o progresso foi comparativamente mais fraco e mais lento, ainda que, no contexto dom\u00e9stico, esses setores fossem mais importantes para a mitiga\u00e7\u00e3o. O investimento p\u00fablico vinha sendo majoritariamente canalizado para aqueles setores da transi\u00e7\u00e3o considerados mais invest\u00edveis, seguindo o crit\u00e9rio de oferecer as maiores garantias poss\u00edveis para atrair financiadores privados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O desenvolvimento desigual da capacidade estatal entre os setores cr\u00edticos em n\u00edvel planet\u00e1rio \u00e9 preocupante n\u00e3o apenas pelo que representa para a busca da neutralidade de carbono no presente, mas tamb\u00e9m porque aprisiona os caminhos futuros \u00e0 abordagem contempor\u00e2nea. \u00c9 evidente que o papel do Estado n\u00e3o est\u00e1 gravado em pedra; conjunto de organiza\u00e7\u00f5es que formam os governos contempor\u00e2neos est\u00e1 em constante evolu\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o. Mas existe um grau de depend\u00eancia de trajet\u00f3ria: o que os governos fazem ou n\u00e3o hoje importa para aquilo que poder\u00e3o fazer amanh\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para al\u00e9m de aprofundar a compreens\u00e3o de como as transi\u00e7\u00f5es verdes est\u00e3o se desdobrando, a economia pol\u00edtica desses outros setores-chave em n\u00edvel planet\u00e1rio tamb\u00e9m permite identificar outras abordagens de governan\u00e7a poss\u00edveis\u2014maneiras alternativas de organizar nossas economias que n\u00e3o deixassem de ser ben\u00e9ficicas para a transi\u00e7\u00e3o dos setores mais invest\u00edveis. Quais recursos precisamos para recuperar nas terras agricultur\u00e1veis menos produtivas na Grande Manchester ou nas florestas nativas da Patag\u00f4nia? Como podemos faz\u00ea-lo, em escala, na aus\u00eancia dos flertes contingentes do capital financeiro? Sem o engodo da investibilidade, o capital financeiro n\u00e3o poder\u00e1 nos aprisionar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Olhar para o panorama completo de como os fluxos de financiamento clim\u00e1tico se relacionam com os setores e demandas materiais da transi\u00e7\u00e3o verde nos permite exergar as limita\u00e7\u00f5es fundamentais do atual regime de governan\u00e7a clim\u00e1tica. 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